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A NORMALISTA

adolfo caminha

- Um fato muito natural, disse José Pereira, nada mais que a reprodução de fatos velhos... Não valia a pena tocar na ferida...

Mas o Eslebão estranhou que “os colegas” tivessem segredos para ele... E, depois de saber o “mistério”:

- Magnífico assunto para folhetim realista, hein?

Escrevia folhetins realistas para o rodapé da Província e trabalhava num livro de fôlego, os Mistérios de Arronches, com que, dizia, pretendia fundar uma escola “mais consentânea com o estado atual da ciência”.

A sua opinião sobre o novo escândalo que preocupava agora a população cearense era que “nós ainda não tínhamos compreendido o importante papel da mulher na civilização”.

- A educação feminina, acrescentou com cansaços na voz, a educação feminina é um mito ainda não compreendido pelos corifeus da moderna pedagogia. Queríamos introduzir no Ceará os dissolventes costumes parisienses, à fortiori, mas não eram essas as tendências do nosso povo essencialmente católico e essencialmente crédulo. Não admitia a teocracia tal como a aceitavam os padres - “essa corja de especuladores” - mas era preciso respeita as crenças populares, o verdadeiro sentimento religioso, sem hipocrisia, sem preconceitos.

De quando em quando a tosse o interrompia, uma tossezinha seca e pigarreada; levava a mão ao peito e expectorava. - “Diabo de catarro não o deixava em paz!”

E, continuando:

- Que é a Escola Normal, não me dirão? Uma escola sem mestres, um estabelecimento anacrônico, onde as moças vão tagarelar, vão passar o tempo a ler romances e a maldizer o próximo, como vocês sabem melhor que eu...

José Pereira contestou, lembrando o Berredo, “uma ilustração invejável” , o padre Lima, “um excelente educador em cujas aulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ciência e a religião”.

- Mas não têm método, não fazem caso d’aquilo, vão ali por honra da firma, por amor aos cobres, rebateu o Eslebão, forcejando por falar alto. Aquilo é uma sinecura, não temos educadores, é o que é.

- Você deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal, tido e havido como um pedagogista de primo cartello! advertiu o Castrinho, que se conservava calado.

- Não ofendo a ninguém, ao contrário, folgo em reconhecer nele um homem estudioso e bem intencionado, mas isto não basta , meu caro...

Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado.

-... É preciso orientação e muito bom senso, isto é justamente o que falta aos nossos corpos docentes...

- Tudo isso é inútil, Elesbão, tudo isso é completamente inútil quando uma mulher tende fatalmente para um homem. Foi o que se deu com a Maria do Carmo...

- É verdade, gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Dizem que é inteligente e bem educada.

- E além d’isto, acrescentou José Pereira, uma rapariga até morigerada...

- Não creio, duvidou o Eslebão batendo com o pé, curvado, já com uma poça de cuspo ao lado da cadeira, no chão. O amor tem suas exigências, incontestavelmente, mas, quando a mulher é bem educada e tem noções exatas da vida, dificilmente se entregará a qualquer mariola que se lhe chegue.

E sentenciosamente:

- Todo fenômeno é conseqüência de uma causa. Não há efeito sem causa. No caso vertente a causa é a falta de educação, a falta de absoluta de quem sabe dirigir a mocidade feminina. A nossa educação doméstica é detestável, os nossos costumes são de um povo analfabeto.

Um tipógrafo aproximou-se e pediu licença ao Sr. José Pereira para perguntar uma palavra.

- O que é?

O rapaz mostrou o original: - “Está aqui”, disse apontando com o dedo sujo de tinta...

- Crápula, disse o José Pereira.

O tipógrafo foi repetindo - crápula, crápula...

- Que é isso? inquiriu Eslebão curioso.

Era um artigo contra o Pedro II, uma formidável descompostura a um dos redatores da folha oposicionista.

Entraram a falar no novo presidente da província.

A notícia do escândalo chegou até o Benfica, à casa do Loureiro. A Lídia ficou estupefata.

- A Maria, hein?! Tão calada, tão sonsa...

E repetia:

- Este mundo, este mundo!...

Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. Tão moça ainda, coitada, tão boazinha...

- São coisas, são coisas, rosnava o Loureiro. Eu nunca me enganei com aquela gente. Uma súcia de doidos, a começar pelo tal Sr. João da Mata, um tipo que anda caindo nas ruas, bêbedo como uma cabra.

- Que é isso, Loureiro! ralhava a Campelinho, empinada, carregando os seus oito meses de prenhez.

Pensou em escrever à Maria lamentando o deplorável acontecimento, mas não sabia ao certo onde ela parava. Ouvia falar no Outeiro, na Aldeota, no Cocó... Se fosse possível, até iria, ela mesma, dar um abraço na sua amiga de escola, consolá-la. Imaginava-a muito triste, cortada de desgostos, num abandono pungente, em casa d’alguma mulher à toa, sem ter quem lhe aparasse as lágrimas...

Pobre Maria! É assim - uns tão felizes e tão maus, outros ao contrário, bons e infelizes...

E Lídia soltava uns suspiros vagos, traspassados de pena ao lembrar-se de sua velha companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial à sociedade!

- Este mundo, este mundo!...

Entretanto, corria-lhe a vida deliciosamente, não lhe faltava coisa alguma, o Loureiro a estimava cada vez mais, comia e vestia do melhor, tinha relações com as principais famílias da capital, ia ao teatro e freqüentava o Club Iracema; gozava!

Se pudesse repartir a sua felicidade com Maria, coitadinha...

Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho. Até já havia escolhido um nome para ele, para o pequeno - chamar-se-ia Julieta ou Romeu. O Loureiro tinha lhe dito que Romeu era nome de gato, mas ela teimava em batizar o filho com este nome se fosse “menino”. Os padrinhos também já estavam designados - o comendador Carreira e a esposa.

Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo à casa de João da Mata numa ânsia de saber como as coisas tinham se passado. Era da escola de S. Tomé - ver para crer. Vestiu-se às pressas, atabalhoadamente, e voou para o Trilho de Ferro, como uma seta, atirando-se nos braços de D. Terezinha, esfalfada, sem fôlego, o rosto quente do mormaço.

A mulher do amanuense saudou-a com o seu invariável - salvou-se uma alma! - proferido entre beijos.

Sem esperar oportunidade, D. Amélia foi direto ao móvel da sua inesperada visita. - “Então era mesmo certo o que se dizia na rua?”

- De que?

- Da Maria...

- Se era? Tão certo como dois e dois são quatro. Jurava sobre os Santos Evangelhos.

O demônio metera-se-lhe em casa com a rapariga, e por tal modo que, de certo tempo àquela parte, nem fazia gosto a gente viver.

A Amélia não fazia idéia - uma vergonha! criatura, uma vergonha! Ela, Terezinha, estava cansada de sofrer desapontamentos, nem sequer saía à rua para não ser olhada com maus olhos. Haviam de pensar que ela era outra...

- E onde está Maria?

- Sei lá, menina, sei lá... No Cocó, na Aldeota, no inferno. Tomara que aquela peste não me entre mais em casa!

- E tu não viste logo se ela estava grávida?

- Vi lá o que! Andava aqui toda espremida, com um arzinho de mosca morta, metida no quarto que nem uma feira. Uma sonsa, Amélia, uma sonsa é o que ela é.

- O tal do Sr. Zuza, hein?!

- Qual Zuza, mulher, elas é que são as culpadas, porque não se dão ao respeito, não têm vergonha.

- E o que diz a isso o Sr. Joãozinho? Furioso, hein?

- É o que tu pensas, indiferente como se não fosse com gente dele...

E o diálogo continuou animado, sem que D. Terezinha revelasse à amiga as suspeitas acerca de João da Mata e Maria do Carmo.

D. Amélia falou sobre o José Pereira, queixando-se de que ele há muitos dias não aparecia em nossa casa, “todo embebida com a outra , com a Lídia”. O redator da Província não tirava os pés do Benfica, e, às vezes, voltava depois da nove, no último bonde.

A Teté não achava feio isso, um homem ir diariamente, às mesmas horas, à casa duma senhora casada! Era feíssimo! Já andavam dizendo até coisas. E então o José Pereira que não era tolo e tinha fama...

- Queira Deus que a tal Sra. D. Lídia não vá se arrepender... É verdade, a mãe, a viúva Campelo, como vai?

- Naquilo mesmo, respondeu D. Terezinha com um sorriso de malícia, piscando um olho.

Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. Amanda àquela hora entregue ao seu delicioso farniente de mulher solteira que dispõe do tempo a seu bel-prazer e da algibeira de um capitalista generoso.

Toda a cidade vivias agora do escândalo, dando-lhe vulto, criando novelas de romance, esmiuçando pequeninos acidentes domésticos, com um olho na política e outro na normalista, à espera de chuvas e de novos acontecimentos sensacionais.

João da Mata não se inquietava muito, de resto, e continuava a sua vida inalterável de empregado subalterno, sem prestar ouvidos à maledicência, encantonado no seu absoluto desprezo à sociedade e à opinião pública, cada vez mais submisso à mulher que o cobria de injúrias e labéus.

- Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara, ameaçadoramente. Peste! Coisa ruim! Sem vergonha!

E ele punha-se a cantarolar, com os ouvidos arrolhados, o olhar no teto, estendido na rede, mudo, impotente como um eunuco.

Uma noite, pela madrugada, despertou com o desejo veemente de ir ter com D. Terezinha na alcova. Há meses não se chegava à mulher alguma, cheio de aborrecimento pelo outro sexo, frio mole, inacessível quase às carícias da fêmea. Agora, porém, renascia-lhe a virilidade, sentia uma forte vontade, indomável e impetuosa, de amar fisicamente, de crucificar-se nos braços de uma mulher que não fosse de todo o mundo e confundir-se o seu sangue com o dela num demorado e indescritível espasmo. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um condutor elétrico, uma formidável ereção a distender-lhe os nervos escabujando na rede em espreguiçamentos lúbricos, vergando, como um vencido, ao poder irresistível da animalidade humana. O sangue pulava-lhe nas artérias numa hiperquinesia que lhe atordoava os sentidos, que lhe tirava a respiração, impelindo-o para a mulher...

Pensou na Mariana, que dormia ali perto, mas a Mariana era uma criada que não se lavava, um estafermo sem sexo, incapaz de satisfazer os apetites de um homem. Não havia jeito senão tentar a Teté. E lá se foi sutilmente, pé ante pé, corredor a fora, direito à alcova da infeliz senhora.

A alcova tinha uma porta para o corredor. João olhou pelo buraco da fechadura, mas não pode ver senão o espelho do velho toucador, defronte, inclinado para a frente, refletindo um vaso noturno e roupas espalhadas no chão.

Bateu de leve, e, receoso da criada, deu volta pela sala da frente, tateando no escuro, sem ruído. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta: empurrou de leve enfiando a cabeça para dentro.

- Teté! chamou numa voz quase imperceptível.

Silêncio profundo. Os cortinados da cama estavam cerrados. João foi entrando devagar, equilibrando-se nos bicos dos pés.

- Teté! repetiu à meia voz.

Ninguém respondeu. Adiantou-se e escancarou as cortinas, mas - oh!... - o leito matrimonial, largo e fresco, branquejava desolado, sem sombra de mulher.

João ficou boquiaberto, muito admirado. -“Que significava aquilo?” Os lençóis revoltos acusavam o desespero de uma pessoa que não teve tempo a perder. Ante a clarividência assombrosa da realidade, o amanuense rodou sobre os calcanhares, e, resignado como um boi, sem proferir palavras, murcho, sentiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda há pouco o espicaçava como uma urtiga. Retirou-se macambúzio a pensar nos caprichos da sorte.

Quando mestre Cosme, uma manhã, foi avisar a João da Mata que “a menina estava com as dores”, o amanuense dormia ainda sob os lençóis e nem sequer sonhava com a afilhada.

Ergueu-se da rede, com um pulo, enfiou as calças, lavou-se num instante, e abalou mais o velho para a Aldeota, sem dizer palavra à D. Terezinha.

- Já tinham arranjado parteira? inquiriu acelerando o passo.

- Já, nhor sim, a comadre Joana Pataca, uma do Outeiro.

- Boa?

Mestre Cosme não afirmava porque não conhecia bem, mas era limpa e não tinha má cara. Diz que era a melhor parteira do Outeiro. Agora, se seu Joãozinho não quisesse... A mulher já estava cuidando da menina...

- Quando apareceram as dores? - Se Maria gemia muito...

O velho informou tudo minuciosamente, sem ocultar um só detalhe, juntando às palavras os seus gestos rudes de homem do campo.

A rapariga há dois dias queixava-se d’uma dores nas “ancas e no pé da barriga”, acompanhadas de fraquezas nas pernas e grande falta de ar... Se gemia? Muito, coitada, metia até pena. Pudera! novinha ainda... A parteira disse logo que a criança estava no nascedouro. Aquela noite as dores tinham piorado, ninguém dormira, velando a pobre moça. Eram chás e fricções, e - corre d’aqui e chega depressa - todos com cuidado, rezando à N.S. do Bom Parto.

Logo da porteira do sítio João escutou os gemidos de Maria do Carmo, trêmulos, sentidos, longos ... e aquilo apertou-lhe o coração.

No pequeno quarto de taipa, com uma janelinha para o descampado, achava-se Tia Joaquina, à cabeceira da normalista, alisando-lhe os cabelos, com carinho, e uma outra mulher gorda, pançuda, sem casaco, muito trigueira, com marcas de bexiga no rosto, meio idosa.

- Dão licença? murmurou João da Mata descobrindo-se com respeito.

A mulher gorda tomou o casaco, às pressas, e Maria volveu os olhos úmidos e profundamente melancólicos para o padrinho, gemendo.

Mestre Cosme trouxe um tamborete.

Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostada à parede fumegava o braseiro.

- Então, como vai? perguntou João tomando a mão da afilhada. Muitas dores, hein?

- Assim... respondeu a rapariga mordendo o beiço com um gesto doloroso, revirando-se na rede, e continuou a gemer alto.

- A senhora é que é a parteira? tornou João para a mulher gorda que se conservava imóvel com o queixo na mão.

- Sua criada Joana Pataca.

- Já verificou se a criança está perfeita, se não há novidade?

- Ora, ora, ora... há que tempo! D’aqui a pouquinho o menino está fora, se Deus quiser.

O amanuense encarou por cima dos óculos, com ar de desconfiança o todo obeso da mulher. E, sentando-se:

- A senhora tem licença para assistir?

Não era preciso licença, não senhor. No Ceará qualquer mulher podia ser parteira contanto que merecesse confiança. Ela, Joana Pataca, era muito conhecida no Outeiro, por sinal tinha partejado uma vez a mulher do comandante do batalhão...

- Vocemecê duvida?

- Não, não... é que eu queria saber... Então não é preciso licença?

- Inhor não. É qualquer uma.

- Está bom, está bom... Mas não se descuide... Olhe não vá esquecer...

A parteira pousou no chão o cachimbo que estivera fumando, e foi aquecer uns panos.

Deu meio dia e a rapariga não teve a criança. As dores tinham melhorado um pouco. Tia Joaquina batia os beiços rezando “-Tenha paciência, minha filha, tenha fé no Senhor do Bonfim”, dizia ela muito solícita.

João da Mata passou todo esse dia na Aldeota, aguardado o sucesso, bebendo aguardente e acendendo cigarros, esquecido da repartição.

Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata, escanchado na Coruja.

Fazia um belo dia de sol, calmo e luminoso. O arvoredo imóvel dormitava na esplêndida pulverização da luz que o narcotizava para beber-lhe a seiva. O passaredo aninhava-se na verde espessura dos cajueiros em flor, contubernal e gárrulo; rolas bravas debicavam nas clareiras os minúsculos diamantes que o sol punha na areia. E no silêncio e na beatitude d’aquela espécie de cemitério João pôde dormir um sono bom de duas horas, embalado pelos gemidos da afilhada como por um vago e monótono estribilho repassado de melancolia.

Às sete horas da noite, ao acender-se a primeira vela, Maria teve um sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fortíssima dor no baixo ventre, muito branca, o olhar desvairado e os cabelos em desordem.

- Que é isso, comadre! repreendeu-a a parteira agarrando-a.

- Minha filha! fez a tia Joaquina.

E em pé, entre as duas mulheres, com a cabeça arqueada para trás, contorcendo-se numa aflição suprema, a rapariga soltava gemidos estrangulados, cortada de dores, agarrando-se como uma louca ao pescoço das velhas, no bico dos pés, em camisa.

Houve uma confusão extrema.

- Sente-se, comadre, sente-se, por amor de Deus! suplicava a parteira, agarrando com jeito.

- Sente-se, minha filha, repetia a outra.

João da Mata acudiu gelado.

- Calma! calam! bradou estacando à porta do quarto.

Mas era tarde. Ouviu-se uma pancada surda no chão, como a queda de um balão de barro úmido, e, imediatamente, rios de sangue jorraram aos pés da parteira, e no linho branco da camisa de Maria do Carmo desenhou-se larga faixa rubra, d’alto a baixo, como uma bandeira de guerra desdobrada.

- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo.

Passou-se a noite às voltas. O amanuense resolveu não chamar médico - que era uma asneira, o perigo tinha passado. A parturiente adormecera profundamente, depois de lhe terem ministrado um hidromel de aguardente.

Sobre uma grande caixa de pinho, a um canto do quarto, envolvido, em panos, o recém nascido - uma criança nutrida e robusta - dormia o sono eterno, roxo, d’olhos fechado, as gordas mãozinhas cruzadas sobre o peito, com um fio de sangue a escorrer-lhe do nariz.

João não pregara os olhos, pensativo, com a calva entre as mãos, ao lado da afilhada. - Era o diabo, era o diabo! Até lhe doía a cabeça! Grandíssima besta, a parteira, que nem ao menos soubera apanhar a criança! Estúpida! deixar morrer assim uma criança tão bem feita e nutrida! Isso só acontecia a ele, João da Mata.

De meia em meia hora acendia um cigarro automaticamente e punha-se p’r’ali a ruminar silenciosamente, à luz d’uma triste vela de carnaúba, que pingava a sua cera denegrida no gargalo d’uma velha botija de genebra, esbatendo ao fundo do quarto o perfil do recém-nascido.

Diabo! pensava o amanuense quebrando a cinza do cigarro. Um caiporismo! Tantos cuidados, tanta aflição, e, afinal de contas, lá ia tudo por água abaixo. Por um lado era uma felicidade o pequeno ter morrido, porque isso de filho natural sempre dava que falar às más línguas e até podia-se descobrir a verdade.

Consolava-se com esta idéia.

Perto, numa palhoça vizinha, havia um samba que durava desde o anoitecer. No silêncio da noite ecoava um alarido medonho, vozes aguardentadas, sapateados que estremeciam o chão, cantos, desafios ao som d’uma viola cansada.

Maria ressonava docemente, com o rosto voltado para a parede, o tronco repousando sobre chumaços de pano onde brilhavam manchas de sangue. Cerca de onze horas moveu-se devagar, abrindo os olhos e soerguendo-se , como quem acorda de um pesadelo; mas faltaram-lhe as forças e repousou novamente.

- Queria alguma coisa? perguntou João.

- Onde está meu filho?

- Não te lembres d’isto agora, vê se descansas...

- Mas onde puseram ele? está vivo?

- Qual vivo, filha! Pois queria tu que escapasse?

E em tom lamentoso:

- Coitado, ao menos está no céu, livre das misérias d’este mundo...

Maria não se conteve: repuxou o lençol, e, com os olhos cheios d’água, murmurou numa voz entrecortada de soluços:

- Pobrezinho! ... Porque não me disseram logo?

- Já te pões a chorar!

Maria do Carmo soluçava com desespero, sentindo crescer dentro de si, no íntimo de seu coração, avassalando-a, abalando todo o seu ser, toda sua delicada alma de mulher, como um sopro violento e devastador, esse inestimável desgosto que as mães sentem ao verem o filho morto. Ela que desejava tanto criá-lo, amamentá-lo com o seu leite, que era o seu próprio sangue, a sua própria vida, amá-lo, adorá-lo, com toda a força do seu coração!... Era um filho natural, mas era seu filho, nascido em suas entranhas, carne de sua carne, sangue do seu sangue, havia de amá-lo muito...

- Quero vê-lo, deixe-me vê-lo, pediu aflita.

- Que tolice! fez João agasalhando-a melhor. Não pense nisto agora, criatura, os médicos recomendam toda a calma. A criança está morta, que se há de fazer?

Continuavam os soluços, um choro estugado, interrompido por um tossezinha convulsa.

- Mau! mau! tornou João.

E, imediatamente, foi buscar o cadáver do filho, depondo-o carinhosamente sobre os joelhos.

Tia Joaquina apareceu, envolvida numa larga coberta de chita feita de retalhos. “- O que era?...”

- Nada, tia Joaquina. Ela que desejou ver o filho, explicou João. Uma imprudência. Até pode lhe fazer mal...

- Vejam a vela, por favor, pediu Maria. Quero ver meu filho...

E ao mirar o rosto lívido da criança, os bracinhos rechonchudos, o filete de sangue escorrendo do nariz como um veio de rubim, a rapariga sentiu um calafrio e um grande vácuo no peito, como se lhe tivessem arrancado um pedaço do corpo. E entrou a soluçar outra vez de um modo tão penoso e comovente que João da Mata não pode recalcar duas lágrimas, as primeiras de sua vida, que rolaram vagarosas nas suas faces magras, como duas linhas cristalinas na aspereza tosca d’uma rocha.

No dia seguinte, antes do sol nascer, mestre Cosme foi ao fundo do sítio cavar uma sepultura para o pequenino cadáver. João acompanhou-o taciturno. Pararam ao pé de um grande cajueiro, que ficava defronte da casa, e, com pouco, o amanuense viu sumir-se debaixo da terra o corpo do seu primeiro filho.

Mestre Cosme socou bem a areia, nivelou o terreno com os pés e suspirou com força, como depois d’um trabalho penoso.

João assistiu em pé, sem dar palavra, mãos p’ra trás, olhos cravados na terra.

- Pronto! fez o velho pousando a enxada no ombro.

- Bem, murmurou João. E seguiram por entre as ateiras, calados e graves.

Seriam seis horas da manhã. No alto de um coqueiro que farfalhava à beira do cercado, cantava uma gralha, e as notas límpidas do seu canto vibravam demoradamente na transparência do ar, sobre a verde monotonia do campo, como um toque de alvorada!

Tinha-se calado o samba havia pouco.

Meses depois, quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal para concluir o curso interrompido, estava nédia e desenvolta, muito corada, com uma estranha chama de felicidade no olhar. A sua presença foi uma ressurreição. “-A Maria do Carmo, hein? Nem parecia a mesma!” - Houve um alarido entre as normalistas: abraços, beijos, cochichos... Até o edifício tinha-se pintado de novo como para recebê-la.

O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em educação física, educação intelectual, educação nacional ou cívica, educação religiosa... pelo moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o horário das aulas tinha sido alterado, havia uma escola anexa de aplicação, estava tudo mudado!

A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. Lia-se na seção telegráfica da Província as primeiras notícias sobre a proclamação da república brasileira. Dizia-se que o barão de Ladário tinha sido morto à pistola por um oficial de linha, na Praça da Aclamação, e que o imperador não dera uma palavra ao saber dos acontecimentos em Petrópolis.

O Ceará estremecia a esses boatos. Grupos de militares cruzavam as ruas, ouviam-se toques de corneta no batalhão e na Escola Militar. Tratava-se de depor o presidente da província a um coronel do exército. Os canhões La Hitte, da fortaleza de N.S. d’Assunção, dormiam enfileirados na praça dos Mártires, defronte do Passeio Público, guardados por alunos de patrona e gola azul.

Ninguém se lembrava dos escândalos domésticos nem de pequeninos fatos particulares.

Um homem revoltava-se, indignado com o novo estado de coisas - era João da Mata.

- É boa! bradava ele na Bodega do Zé Gato, esmurrando a mesa. Isto é um país sem dignidade, uma nação de selvagens! Expulsar do trono um Monarca da força de D. Pedro II, mandá-lo para o estrangeiro doente e quase louco, é o cúmulo da ignorância e da selvageria!

E Maria do Carmo. agora noiva do alferes Coutinho, da polícia, via diante de si um futuro largo, imensamente luminoso, como um grande mar tranqüilo e dormente.


FIM

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br