Daí a dias, um domingo de muito sol e muito vento, realizou-se o embarque do capitão Mendonça e Casimiro.
Os conselhos de João calaram muito forte no ânimo forte e resoluto do sertanejo, cuja confiança no compadre era ilimitada. Sabia-o conhecido em quase todo o Ceará, estimado mesmo por pessoas de bem, admirava-lhe muito o “coração generoso” e democrata, por tal forma que João se lhe afigurou o único homem capaz de concorrer para a felicidade de sua filha reflexões nascida da boa-fé e da inexperiência da vida social, que enchiam de íntima e doce consolação a alma ingênua e simples do sertanejo.
Mendonça conhecia Fortaleza superficialmente; suas viagens à capital tinham sido raríssimas; viera vezes contadas a negócios. Sabia os homens propensos aos mal, por mais duma vez ele próprio fora vítima da ingratidão e indivíduos que se diziam seus amigos e a quem fizera grandes benefícios; porém, a vida ruidosa e dissoluta das capitais, esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e vícios inconfessáveis, esse tropel de paixões desencontradas, isso que constitui, por assim dizer, a maior felicidade do gênero humano, esse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse cortiço de vespas que se denomina sociedade, desconhecia-o ele e nem sequer imaginava. Lá, no seu tranqüilo recanto de Campo Alegre, onde só de longe em longe chegava o eco da vida elegante, ouvira falar em mulheres que traiam maridos, filhos que assassinavam os pais, incestos de irmãos, homens que negociavam com a própria honra... e tudo isso parecia-lhe simples “invenção das gazetas”, romances de sensação que ele ruminava devagar e esquecia depressa.
“É uma grande alma aquele Mendonça!” admiravam os amigos.
E era-o.
Resolvera como que recomeçar a vida, esquecer o passado, recuperar o tempo perdido, trabalhando como um mouro, entregando-se ao labor com todas suas forças, dia e noite, sem descanso, nas florestas do Pará.
E lá se fora barra fora, mais o Casimiro, na proa d’um vapor brasileiro, honrado e obscuro, no meio de dezenas de emigrantes que, como ele, iam fazer pela vida até... sabiam lá!...
Antes de embarcar teve cuidados maternais para a filha. Comprou peças de chita, rendas, fitas, bugigangas, fantasias, tudo escolhido, tudo bom, e uma maleta americana. Chamou-a à parte, beijou-a na testa e disse-lhe com os olhos cheios d’água e a voz trêmula “que o papai havia de voltar se Deus quisesse, que ela fosse boa e obediente aos padrinhos, que estudasse, estudasse muito, porque era feio uma mulher ignorante, e, finalmente, que não esquecesse rezar por alma da mamãe...”
Maria lembrava-se de tudo.
Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos.
Nesse tempo moravam na rua de Baixo. Tinha-se mudado tudo: morrera-lhe a mãe, morrera-lhe o pai d’uma febre, no alto Purus. O Casimiro, ninguém dava notícia d’ele, nunca mais voltara...O Lourenço, esse, ela não conhecia andava no sul feito soldado. Estava só, por assim dizer, numa casa alheia. E, contudo, podia dizer que não tinha tristezas, uma ou outra vez é que se punha a pensar no passado,
Depois que saíra da Imaculada Conceição a vida não lhe era de todo má. Ora estava no piano, ensaiando trechos de música em voga, ora saía a passear com a Lídia Campelo, de quem era muito amiga, amiga de escola, ora lia romances... Ultimamente a Lídia dera-lhe a ler O Primo Basílio, recomendando muito cuidado: “que era um livro obsceno”, lesse escondido e havia de gostar muito. “Imagina um sujeito bilontra, uma espécie de José Pereira, sabes? o José Pereira da Província, sempre muito bem vestido, pastinhas, monóculo...”
Não contes, atalhou Maria, tomando o livro ¾ quero eu mesmo ler... Gostaste?
Mas muito! Que linguagem, que observação, que rigor de crítica!... Tem um defeito é escabroso demais.
Onde foste tu descobrir esta maravilha, criatura?
É da mamãe. Vi-o na estante, peguei, li-o.
Maria folheou ao acaso aquela obra prima, disposta a devorá-la. E, com efeito, leu-a de fio a pavio, página por página, linha por linha, palavra por palavra, devagar, demoradamente.
Uma noite, o padrinho quase a surpreendeu no quarto, deitada, com o romance aberto, à luz d’uma vela. Porque ela só lia o Primo Basílio à noite, no seu misterioso quartinho no meio da casa pegado à sala de jantar.
Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela complicada história do Paraíso!... A primeira entrevista de Basílio com Luiza causou-lhe uma sensação estranha, uma extraordinária superexcitação nervosa; sentiu um como formigueiro nas pernas, titlações em certas partes do corpo, prurido no bico dos seios púberes; o coração batia-lhe apressado, uma nuvem atravessou-lhe os olhos... Terminou a leitura cansada, como se tivesse acabado de um gozo infinito... E veio-lhe à mente o Zuza; se pudesse ter uma entrevista com o Zuza e fazer de Luiza...
Até aquela data só lera romances de José de Alencar, por uma espécie de bairrismo mal entendido, e a Consciência de Heitor Mallot publicado em folhetins na Província. A leitura do Primo Basílio despertou-lhe um interesse extraordinário.
“Aquilo é que é um romance. A gente parece que está vendo as cousas, que está sentindo...”
Não compreendera bem certas passagens, pensou em consultar a Lídia; sim a Campelinho devia saber a história da champagne passada num beijo para a boca de Luiza. Que porcaria! E assim também a tal “sensação nova!” que Basílio ensinara à amante... não podia ser cousa muito asseada...
Terminada a leitura do último capítulo, Maria sentiu que não fossem dois volumes, três mesmo, muitos volumes... Gostara imensamente!
No dia seguinte, antes de ir à Escola Normal, Maria teve uma entrevista secreta com a amiga no quintal da viúva Campelo, que morava defronte do amanuense.
A Campelinho tinha acabado de banhar-se e estava arranjando umas flores para a Nossa Senhora do Oratório. Da saleta de jantar via-se o quintalzinho, cercado d’estacas, estreito e comprido, com ateiras e um renque de manjericões ao fundo, perto da cacimba. Uma pitombeira colossal arrastava os galhos sobre o telhado. O chão úmido da chuva que caíra à noite, porejava uma frescura comunicativa e boa.
Lídia estava à fresca, de cabelos soltos sobre a toalha felpuda aberta nos ombros, quando Maria apareceu.
Boa vida, hein? saudou esta. E logo triunfante: Acabei o Primo Basílio!
Que tal?
Magnífico, sublime! Olha, vem cá...
E dando o braço à outra, dirigiu-se para o “banheiro”, uma espécie de arapuca de palha seca de coqueiro, acaçapada, medonha, sem a mínima comodidade e para onde se entrava por uma portinhola de tábua mal segura.
Uma vez ali, sentadas ambas num caixote que fora de sabão, única mobília do “banheiro!, Maria sacou fora o Primo Basílio, cuidadosamente embrulhado numa folha da Província. Queria que a Lídia explicasse uma passagem muito difusa, quase impenetrável à sua inteligência.
É isto, menina, que eu não pude compreender bem. E, abrindo o livro leu: “... e ele (Basílio) quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ela não soubesse!... Como é? perguntou Luiza tomando o copo. Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champagne por um copo. O copo é bom para o Colares... Tomou um gole de champagne e num beijo passou-o para a boca dela. Luiz riu...”, etc., etc.
Como explicas tu isso?
Tola! fez a Campelinho. Uma coisa tão simples... Toma-se um gole de champagne ou de outro qualquer líquido, junta-se boca à boca, assim... E juntou a ação às palavras.
... e pronto! bebe-se pela boca um do outro. Tão simples...
E que prazer há nisso?
Sei lá, menina! tornou a outra com um gesto de nojo, cuspindo. Pode lá haver gosto.
Depois, as duas curvadas sobre o livro, unidas, coxa a coxa, braço a braço, passaram à “sensação nova”.
Lídia apressou-se a dizer que as “mulheres do mundo” é que sabem essas coisas... Quanto a ela não conhecia outra sensação além dos beijos na boca, às escondidas, fora os abracinhos fortes e demorados peito a peito, isto mesmo, com pessoas do coração... Contou então que o seu primeiro namorado, um estudante do Liceu, um fedelho, tentara certa vez... Concluiu baixinho ao ouvido de Maria, com receio de que alguém as estivesse observando.
E consentistes?
Qual! Dei-lhe com um não ¾ na cara, e o tolo nunca mais me fez festas.
Leram ainda alguns trechos do romance, rindo, cochichando, acotovelando-se e depressa a conversação tomou rumo diverso recaindo sobre o Zuza e o Loureiro.
A propósito, perguntou Maria, curiosa, pretendes mesmo casar com o guarda-livros?
Porque não? fez a outra erguendo-se. Muito breve tenho homem! Decididamente este não me escapa, tenho-o seguro... Vai todas as noites à nossa casa, como vês, está caidinho. A mamãe já não repara, deixa-se ficar com o d’ela...
Com o d’ela? inquiriu Maria com surpresa, muito admirada
Apanhada em flagrante indiscrição, Lídia confessou, muito em segredo, que uma noite encontrara D. Amanda na alcova com o Batista da Feira Nova, um negociante...
!!!
Maria tomava sentido, recalcando a curiosidade que lhe espiaçava o espírito. Calou-se para não ser indiscreta, e, depois de uma pausa em que folheava maquinalmente o romance:
Dize uma coisa, Lídia: tu amas deveras o Loureiro?
Que pergunta, criatura! Certamente que sim. Ele então tem uma paixa doida por mim! Bebe-me com o olhar e me come de beijos. É na boca, no pescoço, na orelha, nos olhos, na nuca... Nunca vi gostar tanto de beijos! E é preciso que se note, conhecemo-nos há três meses! E o teu Zuza?
O namoro de Maria com o filho do coronel Souza Nunes estava em começo. A falar a verdade, ela gostava de Zuza e casaria se ele quisesse, mas até aquela data ainda não se tinham comunicado. Conheciam-se nada mais.
Nessas confabulações íntimas com a amiga, Maria, que começava a compreender a vida tal como ela é na sociedade, fingia-se ingênua, tolinha, expediente que usava sempre que desejava saber a opinião de Lídia sobre isto ou sobre aquilo.
A princípio evitava conversar em amores, corando a qualquer palavra mais livre ou a qualquer fato menos sérios que lhe contavam as colegas de estudo. Agora, porém, ouvia tudo com interesse, procurando inteirar-se dos acontecimentos, sem acanhamento, sem receio. Pouco a pouco foi perdendo antigos retraimentos que trouxera da Imaculada Conceição. A convivência com as outras normalistas transformara-lhe os hábitos e as idéias. A Lídia principalmente era a sua confidente mais chegada. Quase sempre estavam juntas em casa, na Escola, nos passeios, em toda parte onde se encontravam, de braços dados, aos cochichos. Havia entre elas um comércio contínuo de carinhos, de afagos e de segredos. Gabavam-se mutuamente, tinham quase os mesmos hábitos, vestiam-se pelos mesmos moldes, como duas irmãs.
Lídia Campelo tinha então vinte anos. era uma rapariga alta, fausse-maigree e bem feita de corpo.
A razão por que ainda não se casara ninguém ignorava, toda a gente sabia é que a filha da viúva Campelo, por via do atavismo, puxava à mãe. Não havia na cidade rapazola mais ou menos elegante, caixeiro de loja de modas que não se gabasse de a ter beijado. Tinha fama de grande namoradeira, exímia em negócios de amor. O próprio João da Mata não gostava muito daquela amizade com Maria. Mais de uma vez dissera a D. Terezinha as suas desconfianças, os seus escrúpulos, os seus receios com relação a essa intimidade da afilhada com a Lídia: “Não consentisse a rapariga ir à casa da outra. Antes prevenir que curar”.
Havia mesmo quem ousasse afirmar que a Campelinho “já não era moça”
Da viúva diziam-se horrores: “aquilo era casa aberta...” Tantos fossem, quantos ela recebia com um risinho se vergonha, arregaçando os beiços. A filha seguia o mesmo caminho.
O certo, porém, é que o procedimento de D. Amanda não escandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casinha do Trilho, muito concentrada, sem amigas, num respeitoso isolamento, saindo à rua poucas vezes na companhia da filha, não freqüentando os bailes nem o Passeio Público, e muito menos as igrejas: vivia a seu modo, comodamente, do minguado montepio de seu defunto marido.
“Uma mulher honesta!” protestava o Loureiro. Infâmias era o que diziam da pobre senhora, infâmias que caiam por terra, ante o indefectível procedimento de Da. Amanda!
E acrescentava, convicto:
Tal mãe, tal flha!
III
O velho mostrador da sala de jantar deu meia noite, uma hora, e Maria do Carmo ainda estava acordada, a pensar no Zuza, arquitetando frases para responder ao futuro bacharel em ciências jurídicas. Porque o estudante, como sugeriu o amanuense, achara meio de comunicar-se com a rapariga, atirando-lhe uma cartinha por baixo da mesa, quando jogavam o víspora.
Era a primeira vez que Zuza lhe escrevia numa letra caligráfica, de mulher, miudinha, igual e redonda. Ao apanhar o envelope, com um movimento disfarçado, Maria sentiu o sangue afluir todo para o rosto, como se todo o mundo a tivesse surpreendido em flagrante às barbas do padrinho. Ela mesmo, depois, admirou sua coragem, ela que nunca desrespeitara o amanuense, temendo-o como a seu pai. Não pôde reprimir um susto, ficou fria, com os olhos baixos, sem prestar atenção ao jogo. Pareceu-lhe ver através dos óculos escuros do padrinho um lampejo de cólera concentrada. Tremia com o papel na mão, sem saber o que fizesse. Mas o víspora continuava animado e ela pode cautelosamente guardar o objeto querido, pretextando sede e levantado-se para beber água no interior da casa. Guardou-o nem guardado, no fundo de uma caixinha de fitas, sem ler, e voltou imediatamente ao seu lugar com um alívio, muito lépida.
Quando o amanuense entro a esbravejar contra o Zuza, esmurrando a mesa, batendo portas, colérico, medonho, Maria ficou lívida! Tá, tá, tá, tá, ia tudo águas abaixo, o seu crime ia ser descoberto, não havia fugir. Estava irremediavelmente perdida! Enfiou pelo corredor com as mãos na cabeça, aflita. Decididamente o padrinho ia expulsá-la de casa... seu primeiro ímpeto foi voltar, atirar-se aos pés de João da Mata e pedir-lhe, suplicar-lhe por amor de Deus, por quem era, que a perdoasse, que fora uma fraqueza, uma criancice... Isto, porém, seria complicar a situação, confessar-se culpada, entregar-se à cólera do amanuense. E ao sentar-se à mesa de jantar foi acometida por uma convulsão de choro mudo, com a cabeça entre as mãos, cotovelos fincados na mesa, olhos fixos na luz moribunda da velinha de carnaúba.
O padrinho berrou, jurou acabar com a “bandalheira”, disse horrores do Zuza, e, afinal, que felicidade para a rapariga! foi se deitar com a mulher. Maria suspirou forte como se lhe tivessem tirado um grande peso do coração; e agora, só no seu quarto, lia e relia a carta do acadêmico, muito à fresca, sentindo um bem estar na sua rede de varandas, branca e sarapintada de encarnado.
Fazia calor.
Maria costumava dormir com a vela acesa, numa palmatória de flandres. Noutro quarto, defronte, ressonava a cozinheira, uma retirante velha, chamada Mariana, e, no corredor, o Sultão abanava as orelhas sacudindo as pulgas. De quando em quando havia um barulho d’asas na sala de jantar: era a sabiá debatendo-se na gaiola, assombrada.
Agora, sim, Maria estava só, completamente só, podia ler à vontade, uma, duas, três... quantas vezes quisesse, a carta do Zuza. Nada como a noite para os namorados! Era só quando ela gozava a sua liberdade, à noite, no seu quarto, em camisa, fazendo o que bem entendesse...
“Minha senhora”, dizia o futuro bacharel muito respeitoso. “Tomo a liberdade de me dirigir a V. Excia. confiado na sua infinita bondade, nessa bondade que se revela em seus esplêndidos olhos de madona e na brandura meiga de sua voz cujo timbre faz-me lembrar toda a melodia d’uma harpa eólia tangida por mãos de serafins... Tomo esta liberdade para dizer-lhe simplesmente que a amo! e que este amor só podia ser inspirado pela incomparável luz do seu olhas e pela música sentimental de sua voz... Amo-a deveras... Só me resta esperar que V. Excia. aceite este amor como tributo sincero de um coração avassalado por sua beleza encantadora, e então serei o mais feliz dos homens.
De V. Excia. adm. e escravo
José de Souza Nunes
Isto numa letrinha microscópica, indecifrável quase.
Maria esteve meditando muito tempo sobre a resposta que devia dar ao estudante, com os olhos na parede onde esbatia a sombra da rede ao comprido. Para não responder ficava-lhe mal, era uma falta de consideração. Devia responder fosse o que fosse. E, nessa dúvida, lia e relia a carta numa inquietação que lhe tirava o sono. Realmente! começava cedo a sua carreira amorosa e começava com um aspirante a bacharel! Seria verdade aquilo ou o rapaz queria divertir-se à sua custa? O Zuza parecia-lhe um bom moço, muito bem educado, incapaz de seduzir uma rapariga honesta, de costumes irrepreensíveis, refratária a pagodeiras. Às vezes, porém, tinha cara de pedante com os seus óculos d’ouro, com a sua flor na botoeira, dizendo que dê, dê-me você isto, faça você aquilo, ora sebo!
Maria implicava com certos modos do rapaz.
É verdade que tinha fortuna, era filho d’um homem de bem, d’um coronel... Mas....
E lá vinha o mas e a dúvida não se desfazia.
Imaginava-se ao lado do Zuza, numa casinha muito bem mobiliada, com cortinas de cretone na sala de jantar e um viveiro de pássaros, ele, de chambre e gorro, sentado na escrivaninha a fazer versos, feliz, despreocupado; ela com um robe-de-chambre todo branco, fitinha na frente d’alto a baixo, cabelo solto, a ler o último romance à moda, recostada na espreguiçadeira, sem filhos... Que vida!
Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito besta e casmurro, cuidando somente da papelada de autos e requerimentos, um advogado com escritório e tabuleta à porta para fazer...
nada! Ela, por outro lado, a cuidar dos filhos, muito besuntada, da sala para a cozinha numa azáfama de burguesinha reles. Boas!
E não assentava idéias, a mente que nem um rodopio, fantasiando situações disparatadas, coisas impossíveis.
Leu outra vez a carta, analisando-a palavra por palavra, repetindo as frases a meia voz. Aquela linguagem alambicada e dengosa, quis-lhe parecer tosca demais para ter saído do punho d’um estudante de direito. Que idiota! pensava; comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz com uma harpa eólia! E, num arrebatamento, levantou-se e guardou a carta na caixinha de fitas. “ Qual olhos de madona!”” Qual harpa eólia, qual nada seu besta!”
Daí a pouco também ressonava com a respiração leve como uma carícia.
O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordaram muito bem dispostos. Havia missa cantada na Sé. Espocavam foguetes e replicavam sinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis! um jornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera sujidades contra João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que dizia a Matraca, apesar do padrinho ter proibido expressamente a entrada do pasquim em sua casa. Ali só lhe entrava a Província, dissera ele; isso mesmo porque o José Pereira não exigia pagamento de assinatura. O mais era uma súcia de papéis nojentos que só serviam para ... Maria deu um pulo até a casa da viúva Campelo e aí pode comprar a Matraca. O padrinho estava no banho. O Namoro do Trilho de Ferro! gritavam os vendedores. Maria teve um palpite. Certo aquilo era com ela. Que felicidade o padrinho estar no banho! Pagou ao menino pedindo-lhe pelo amor de Deus que não gritasse mais o Namoro do Trilho de Ferro. Abriu o jornal ansiosa. Que horror! Havia com efeito uma piada sobre ela e o Zuza. Mais que depressa correu a mostrar a Lídia.
Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo.
Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do Zuza:
A normalista do Trilho
ex-irmã de caridade
está caída pelo filho
d’um titular da cidade
O rapazola é galante
e usa flor na botoeira
D. Juan feito estudante
a namorar uma freira...
Eis porque, caros leitores,
eu digo como o Bahia:
Falem baixo, minhas flores
Senão... a chubata chia!...
..............................................................................................................................
Lídia achou graça na versalhada. Ela também já saíra na Matraca.
Um desaforo, não achas? perguntou a normalista indignada.
Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre destas coisas no Ceará moleque. Não se pode conversar com um rapaz, porque não faltam alcoviteiros. Olha, eu aposto em como isto que aqui está saiu da cachola do Guedes.
Que Guedes?
Ó mulher, o Guedes, um do Correio... Dizem até que está feito redator principal da Matraca.
E que mal fiz eu a este Guedes que nem sequer me conhece?
Eu te digo. O Guedes andou a querer me namorar. Chegou a escrever-me uma carta muito errada e piegas, pedindo uma entrevista... Que fiz eu? Ri-me muito das asneiras do bicho, trocei-o a valer e mandei-o pastar bem... Ora o Guedes sabe que nós somos muito amigas e talvez queira vingar-se indiretamente. Aí está o que é menina. Manda-o plantar couves e rasga essa baboseira, que isto não vale nada.
Não val’ nada, mas toda a gente lê e acredita, é o que é.
Sabem lá qual é a “normalista do Trilho!”
A propósito Maria contou a ocorrência da véspera, a carta do Zuza, a cólera do padrinho, muito vexada.
Estavam à janela, em pé, frente a frente, D. Amanda andava para os fundos da casa a mourejar. No fim da rua, do lado da Estrada de Ferro, uma locomotiva fazia manobras, chiando, a deitar vapor fora. Chegou até a frente da casa da viúva, soltou um guincho rápido e voltou estralejando sobre os trilhos.
... E os sinos a repicarem na Sé e girândolas de foguetes estourando no ar. Chegavam espaçados sons de música que o vento trazia.
Não sei si deva responder, disse Maria dando a carta à amiga. Ele com certeza vem hoje para o víspora...
De forma que tens um compromisso a satisfazer...
Compromisso?
Sim, porque quem cala consente. Aceitaste a carta, agora é responder. Diz-lhe que o amas também e que desde já o consideras teu noivo. Nisso de amor quanto mais depressa melhor. Eu pelo menos o entendo assim. Queres que eu faço a minuta?
Eu, escrever para um homem?
Tola! Que crime há nisso? Eles não escrevem para nós? Olha, tolinha, não sejas criança. O homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem.
Mas...
Não tem mas nem meio mas. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te de meninices. Tu é que tens a lucrar. O Zuza tem fortuna, está a formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-te muito feliz.
O que é que esperas de teu padrinho, um sujeito estúpido e usurário como um urso? Já não tens pai nem mãe, e ele já fala em tirar-te da Escola. É muito homem para botar-te a cozinhar. Não sejas tola!...
Lídia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava. Era o Zuza montado numa alazão reluzente ao sol, de cauda aparada e arreios de prata. O estudante trajava flanela e meias botas de polimento, chapéu castor desabado, uma grande rosa branca no peito, luva, rebenque, muito vistoso com seus óculos de ouro e seu bigodinho retorcido para cima.
Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar à porta do amanuense. Cumprimentou rasgadamente a Campelinho. Maria ocultou-se envergonhada atrás do postigo olhando por entre as gretas.
Adorável! fez Lídia. E tu ainda queres mais, hein, minha tola?
Como sentia não ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos de idade, encarando a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo, toilletes de verão e d’inverno, como nos figurinos, com chácara no Benfica, um phaetom para virem à cidade, vacas de leite... um maná!...
Tinha o seu Loureiro, mas o guarda-livros parecia-lhe muito casmurro, muito indiferente a essas cousas de bom gosto, aos requintes da vida aristocrática que ela ambicionava tanto. Queria-o mais por um capricho, porque não encontrava outro homem em melhores condições que desejasse casar com ela. Sabia de sua má fama e agarrava-se ao Loureiro como a uma tábua de salvação. Tudo menos ficar para tia. Verdade, verdade, o Loureiro não era um sujeito ignorante pobre que lhe fizesse vergonha; mas não tinha certo aprumo, certa elegância ao trajar; aferrava-se à calça e ao colete branco, invariavelmente, e ninguém o demovia daquele velho hábito. Entretanto possuía seu cabedal em casas e apólices da dívida pública. Ao passo que o outro, o Zuza, sabia empregar seu dinheiro divertindo-se, trajando bem, passeando como um príncipe. Uma simples questão de temperamento.
Atira-te minha tola. Aproveita enquanto o Braz é tesoureiro...
Que queres tu que eu faça?
Escreve logo essa carta e faze com eu: marca o dia do casamento. Assim é que se faz. Quem pensa não casa, lá diz o ditado, e é muito certo.
A voz de D. Terezinha chamou Maria do outro lado da rua. Era hora do almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à praia ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro.
João da Mata almoçou às carreiras, como quem vai tomar o trem, e abalou, enfiando-se no inseparável e já velho chapéu chile.
Seriam onze horas pouco mais ou menos. Um mormação de fornalha abafava os transeuntes que desciam e subiam a rua de Baixo a pé, esbaforidos.
No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente, bracejando, falando alto. A maré d’enchente crispada pela ventania de sudoeste, num contínuo vaivém, alagava o areal seco e faiscante. Muita gente ao embarque do Conselheiro. Curiosos de todas as classes, trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul, guardas d’Alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário, de fardeta e boné, marinheiros da Capitania, confundiam-se numa promiscuidade interessante. Jangadeiros arregaçados até aos joelhos, chapéu de palha de carnaúba, mostrando o peito robusto e cabeludo, iam armando a vela às jangadas. A cada fluxo do mar havia gritos e assobios. Um alvoroço! Jangadas iam e vinham em direção ao nacional que tombava como um ébrio aproado ao vento. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira argentina. Reluzia em caracteres garrafais, pintadinhos de fresco na popa d’uma barca italiana “Civita Vecchia”.
O vapor apitou pedindo mala. Era uma maçada ir à bordo com a maré cheia e um vento como aquele. Demais o sol estava de rachar. Um carro parou à porta da Escola de Aprendizes de Marinheiros: era o Conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheio de atenções. Já o esperavam os amigos receosos de que o vapor suspendesse sem “o homem”.
A música da Polícia, formada à porta do quartel, gaguejou o Hino Nacional e o Conselheiro, cheio de si, cortejando à direita e à esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler d’Alfândega.
Pílulas! fez João da Mata limpando a testa. Não vale a pena a gente se sacrificar com um calor d’este!
Lá adiante encontrou o Loureiro que vinha de despachar uma fatura no Trapiche, muito apressado com sua calça branca lustrosa de gome sem uma dobra.
Por ali?
É verdade, tinha ido a negócio.
Que há de novo? tornou o Loureiro.
Nada. Vou aqui ao embarque do Conselheiro.
Hás de ganhar muito com isto...
Que queres, filho? A política, a política...
Qual política, homem! Com um solão deste não havia quem me fizesse ir a embarque de filho d mãe nenhum.
Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derrubando bruscamente o chapéu da amanuense, pondo-lhe a calava à mostra.
Com os diabos! vociferou João da Mata abaixando-se mais que depressa para apanhar seu chile que rodava sobre as abas numa disparada vertiginosa por ali fora.
Fiau! Fiau! Pega! pega! prorrompeu a garotada numa vaia estrepitosa de gritos e assobios.
Canalha! resmungava o homem, enquanto o Loureiro escafedia-se daquela situação grotesca, sacudindo com a ponta dos dedos a poeira do paletó, muito calmo.
O conselheiro tinha chegado ao Trapiche com o seu préstito oficioso de amigos.
O amanuense encavacou deveras “ Diabos levem conselheiros e tudo!” dizia ele mal humorado, piscando os olhos desesperadamente por trás dos óculos escuros, cobrindo a calva com um lenço para não constipar. E dali mesmo voltou à casa, maldizendo-se por haver deixado os seus cômodos por uma estopada inútil d’aquela.
Dava meio-dia. À porta do Quartel de Linha um soldado soprava a todo pulmão num corneta muito bem areada.
João da Mata caminhava devagar, automático, como quem vai com uma idéia fixa. Que seca! Podia muito bem estar em casa àquela hora, metido na sua camisola fresca, de papo para o ar na rede, ao conchego morno da afilhada, saboreando-lhe o cheiro bom das carnes; entretanto ali vinha ofegante como um boi e suado como dois burros, todo emporcalhado da poeira, furioso. Não lhe contassem para outra. Já tinha pensado mesmo em abandonar para sempre a política. Pílulas! Mal lhe chegava o tempo para pensar na Maria do Carmo, naquela deliciosa boquinha fresca e rosada, boa para a gente levar a vida inteira a beijar...
O Zuza tinha lhe acordado o instinto; receava agora que a menina se deixasse levar pelas gabolices do estudante e então lá se iam os seus belos projetos águas abaixo.
Nunca se preocupara tanto com Maria do Carmo. Desde que o Zuza começou a freqüentar a rua do Trilho não lhe saia mais da cabeça a afilhada. A própria D. Terezinha por vezes tinha estranhado seus modos para com a menina.
Achava a Teté uma mulher gasta: queria uma rapariga nova e fresca, cheirando a leite, sem pecados torpes, a quem ele pudesse ensinar certos segredos do amor, ocultamente, sem que ninguém soubesse... Estava farto do “amor conjugal”. Nunca experimentara o contato aveludado do corpo de uma mulher educada, virgem das impurezas do século. E quem melhor do que Maria do Carmo, uma normalista exemplar e recatada, poderia satisfazer os caprichos de seu temperamento impetuoso? Era sua afilhada, mas, adeus! não havia ente ele e a menina o menor grau de consangüinidade, portanto, não podia haver crime nas suas intenções... Si Maria houvesse de cair nas garras de algum bacharelete safado, fosse ele, João da Mata, o primeiro a abrir caminho.
Demais, argumentava de si para si, podia arranjar tudo sem que ninguém soubesse. O segredo ficaria entre ele e a afilhada, inviolável como a sepultura de um santo...
E ia parafusando um meio simples e natural de conquistar o coração de Maria. Toda a questão era de oportunidade.
Àquela hora a normalista arrastava ao piano a valsa Minha esperança, cuja cadência punha uma monotonia irritante na quietação morna da rua do Trilho.
IV
O futuro bacharel em leis, ou simplesmente o Zuza, como era conhecido em Fortaleza o filho do coronel Souza Nunes, passava uma vida regalada, usufruindo largamente a fortuna do pai avaliada em cerca e cem contos de réis. O coronel franqueava a burra ao filho com uma generosidade verdadeiramente paternal. Queria-o assim mesmo com todas as suas manias aristocráticas e afidalgadas, com os seus gestos elegantes, arrostando grandeza e bom gosto, tal qual o presidente da província de quem se dizia amigo.
“Cada qual com seu igual”, doutrinava o coronel. O que não admitia é que o filho se metesse com gente de laia ruim, que ele, coronel, nunca descera de sua dignidade para tirar o chapéu ou apertar a mão a indivíduos que não tivessem uma posição social definida. Aprendera isso em pequeno com o pai, o finado desembargador Souza Nunes, homem de costumes severos que sabia dar aos filhos uma educação esmerada, quase principesca. O Zuza, dizia ele, não era mais do que uma vergôntea digna desse belo tronco genealógico dos legítimos Souza Nunes, tão nobres quanto respeitados no Ceará.
Era um orgulho para o coronel ver o filho passar a cavalo com o presidente, alvo de olhar bisbilhoteiro do mulherio elegante em trajes de montaria, roupa de flanela, botas, chapéu mole desabado.
O Zuza dava-se muito com o presidente, que também pertencia a uma alta linhagem de fidalgos de São Paulo e fora educado na Europa; um rapagão alegre, amador de cavalos de raça, ilustrado e amigo de mulheres.
As revelações da Matraca sobre o namoro do Trilho de Ferro deram que falar à cidade inteira. Nas rodas de calçada o fato propalou-se imediatamente à guisa d’escândalo. A princípio ninguém sabia ao certo qual era a tal “normalista ex-irmã de caridade”. Que havia de ser a Lídia Campelo afirmavam uns. Mas a Campelinho nunca fora religiosa, quanto mais freira. Afinal sempre se veio a verdade e espalhou-se logo que a afilhada de João da Mata estava com um namoro pulha mais o estudante. Não era a Lídia mas dava no mesmo, dizia-se: ambas estudavam na mesma escola, eram dignas uma da outra.
E toda gente dizia sua pilhéria, atirava seu conceito à boca pequena, com risadinhas sublinhadas pilhérias e conceitos que chegavam até aos ouvidos do coronel Souza Nunes, percucientes, incisivos como ferroadas de maribondos. “ Não era possível, pensava ele. O Zuza era incapaz de semelhante criancice; um rapaz de certa categoria não se deixa iludir por uma simples normalista sem eira nem beira, uma rapariga sem juízo, filha de pais incógnitos, educada em casa d’amanuense reles. Quem, o Zuza? Pois não viam logo a monstruosidade do absurdo? Era uma calúnia levantada a seu filho. Que esta! Não faltava mais nada senão ver o nome do rapaz em letra redonda estampado na Matraca, um jornaleco imundo como uma cloaca!”
Morava na rua Formosa, numa casa assobradada e vistosa com frontaria d’azulejos, varandas, e dois ananazes de louça no alto da cimalha, à velha moda portuguesa.
O coronel gostava de passar bem, de “fazer figura”, e, até certo ponto, revelava uma natureza delicada que não era indiferente ao aspecto exterior das coisas; sabia mesmo aquilatar objetos de arte, escolher bric-à-bracs.
Ninguém o excedia. Era o que se pode chamar “um homem de bons costumes”, um pouco orgulhosos e d’uma susceptibilidade à toda a prova em matéria de dignidade pessoal: irrepreensível e caprichoso na intimidade doméstica como na vida pública.
Fazia gosto a sala de visitas, forrada a papel-veludo, claro com ramagens cinzenta, mobiliada com inexcedível graça, sem ostentação, sem luxo, mas onde se notava logo certa correção no arranjo dos móveis, na colocação dos quadros, na limpidez dos cristais.
Ao fundo, entre as duas portas altas e esguias que diziam para o interior da casa, ficava o piano, um Pleyel novo, muito lustroso, sempre mudo, sobre o qual assentavam estatuetas de biscuit. À direita, descansando sobre grandes pregos dourados, o retrato a óleo do coronel com sua barba em ponta, olhava para o piano, muito sério, em simetria com o da a esposa.
O corredor da entrada separava a sala de visitas do gabinete do Zuza, que ficava à esquerda.
“Não faltava mais nada!” repetia mentalmente o coronel estendido na espreguiçadeira de lona, pernas trançadas, defronte da varanda, aparando as unhas.
Em casa usava calças brancas , paletó de seda amarelo e sapatos de entrada baixa com flores no rosto de lã.
Era hora do almoço, o Zuza não devia tardar. Ia falar-lhe decididamente; aquela história do namoro não lhe cheirava bem. Talvez o filho tivesse mesmo a estroinice pueril de desfrutar a rapariga.
Daí a pouco entrou o estudante Vinha muito jovial, cantarolando o Bocácio:
Si acaso algum de nós
tiver por sina atróz
mulher que se não cale
que a toda hora fale...
E repetia muito alegre:
Trá, lá, lá, lá...
Vens, muito alegre, hein, meu filho? interrompeu o coronel da sala.
Zuza tinha entrado para o gabinete e começava a despir-se
Ah! meu pai estava aí?
E logo...
Trago uma novidade.
Vejamos...
Vou a Baturité com o presidente.
Ainda bem, ainda bem, fez o coronel num tom desusado, sem erguer a cabeça.
Como ainda bem? inquiriu o estudante aproximando-se.
Apenas trocava o fraque por um paletó de brim branco.
Porque... porque... Eu precisava mesmo falar-te. Ora dize uma coisa: leste o último número da Matraca?
Zuza franziu o sobrolhos desconfiado, com um risinho seco. ¾ “Não tinha lido a Matraca, não. Um jornaleco imoral que andava por aí? Não, não tinha lido. Por que?
Que história é uma de namoro no Trilho de Ferros? Fala-se em ti, no teu nome, numa normalista...
Cresceu o assombro do rapaz.
Eu!?... Meu pai está gracejando...
Juro-te que não. Mas olha, quem diz é a Matraca e alguém afirmou-o particularmente que a rua está cheia...
E esta! fez o Zuza cruzando os braços admirado. Pois o meu pai não vê logo que isto é um gracejo de mau gosto, um canalhismo de província?
O que é certo é que não te fica bem a brincadeira.
Absolutamente não, e eu preciso saber quem é o autor do pasquim...
A criada anunciou que o almoço estava na mesa.
... Sim, continuou Zuza, vou informar-me, preciso saber...
Eis aí porque fazes bem indo passar uns dias em Baturité.
E polindo as unhas, o coronel dirigiu-se para a sala de jantar, grave como um apóstolo do bem, enquanto o filho ia desabafando suas cóleras contra a sociedade cearense.
“Uma sociedade que lê a Matraca e gosta!”
No outro dia, com efeito, o futuro bacharel seguia no expresso para Baturité em companhia do Dr. Castro, presidente do Ceará.
Lia-se na Província:
“Segue amanhã, pela manhã, com destino a Baturité, a fim de visitar a importante fábrica Proença, O Exmo. Sr. Presidente da Província. Acompanham o ilustre amigo do Ceará os nossos distintos amigos e correligionários Srs. Dr. José de Souza Nunes e José Pereira nosso colega de redação. S. Excia. pretende demorar-se alguns dias naquela cidade”.
Maria do Carmo leu com surpresa a notícia da Província e não pode conter um gesto de despeito. Era desse modo que o Sr. Zuza estava doido por ela! Ir-se embora sem ao menos lhe comunicar! Nem sequer deixava um bilhetinho, um cartão com duas palavras, duas somente! Que custava escrever num pedaço de papel ¾ Vou e volto ?
Zangara-se deveras, atirando a folha para um lado, trombuda, furiosa.
Estava tudo acabado, não falaria mais no Zuza, não lhe escrevia; que fosse bugiar! Moças havia muitas no Ceará: que procurasse uma lá a seu jeito e ela por sua vez trataria de arranjar noivo, mas noivo para casar, noivo sério, noivo de bem!
Entretanto, Maria não tinha feito reparo na despedida do Zuza, um soneto endecassílabo, com sílabas de mais num versos e de menos noutros. Adeus ¾ era o título e vinha na terceira página da Província. Depois é que viu, porque a Lídia mostrou-lhe.
Já estavas fazendo mau juízo do rapaz, hein? disse a Campelinho.
Certamente, confirmou Maria. Nem ao menos teve a lembrança de me avisar!
Como querias tu que ele avisasse se ainda não lhe respondeste a carta?
Maria esteve pensando com o jornal na mão, lendo e relendo os versos, e, meio arrufada, meio risonha:
Embora! O dever dele era me participar. O homem é que faz tudo...
E na manhã seguinte, muito cedo, pulou da rede e foi no bico dos pés, embrulhada no lençol, ver passar o trem através da vidraça.
A locomotiva disparou numa rapidez crescente, soltando rolos de fumo e fagulhas que pareciam uma irrisão aos olhos da normalista. A sineta, num badalar contínuo, acordava os moradores do Trilho, àquela hora, ainda nos lençóis.
Maria viu passar a enfiada de vagões estralejando sobre os trilhos e esteve muito tempo em pé ouvindo sino longínquo da locomotiva, que ia, como uma coisa doida, sertão a dentro! Começou então a sentir-se só, teve vontade de abrir num choro histérico como si lhe houvessem feito uma grande injustiça. Voltou para a tepidez do seu quarto e lá deixou-se ficar até sair o sol, com um peso no coração, encolhida na rede, sem ânimo para levantar-se, desejando um quer que era vago e extraordinário que lhe punha arrepios intermitentes na pele. Que bom se o Zuza estivesse ali com ela, na mesma rede, corpo a corpo, aquecendo-a com seu calor... Aquela hora onde estaria ele? Talvez em Arronches...; não, já devia ter chegado a Mondubi... Imaginava-o metido num comprido guarda-pó de brim pardo, tomando leite fresco na estação ao lado do presidente, tirando do bolso da calça um maço de notas de banco, muito amável, rindo... Depois o trem apitava. Havia um movimento rápido de gente que embarcava às pressas, e... lá ia outra vez por aqueles descampados fora, caminho da serra que se via ao longe, rente com as nuvens, como aquelas cadeias colossais de montanhas onde há gelos eternos e que na geografia tem o nome de Alpes...