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A NORMALISTA

adolfo caminha

De repente, lembrou-se:

“E se o trem desencarilhasse?...” Ia adormecendo quando lhe veio à mente esta idéia. Sentou-se na rede, esfregando os olhos como se tivesse acordado de um pesadelo. “ Se o trem desencarilhasse o presidente morreria também...”

... Teve um consolo. Não, o trem havia de chegar em paz com todos os passageiros. Espreguiçou-se toda com estalinhos de juntas e, maquinalmente, deixou escapar um ai! ai! muito lânguido e prolongado.

Lá fora recomeçava a labuta cotidiana. A criada puxava água da cacimba; o cargueiro d’água potável enchia os potes; cegos cantavam na rua uma lenga-lenga maçante, pedindo esmola numa voz chorada ; vendedores ambulantes ofereciam cajus... Havia um ruído matinal de cidade grande que desperta.

Nesse dia Maria do Carmo não foi à Escola Normal: que estava incomodada com uma enxaqueca muito forte.

João da Mata tomou-lhe o pulso, mandou que mostrasse a língua, muito solícito, com cuidados de pais: “Não era nada, uma defluxeira.” E largou-se para a Repartição, palitando os dentes.

A Lídia, essa tinha liberdade plena em casa da mãe, ia à escola quando queria e, se lhe convinha, lá não punha os pés. Deixou-se ficar também com a Maria. Tinham muito que conversar.

Que saudades, hein? começou a Campelinho.

Estavam sós, na sala do amanuense. D. Terezinha tinha ido à casa da viúva mostrar um corte de fazenda que o Janjão lhe comprara.

Maria, derreada na cadeira de balanço, fechou o volume que estivera lendo, e com um bocejo: “É verdade, o diabo do rapaz não lhe saía da lembrança. Nem um castigo... Mas estava muito desgostada da vida, já andavam inventando histórias, calúnias”.

Não te importes, minha tola. Ora! ora! ora!... Isso a gente faz ouvidos de mercador e vai para adiante. A vida é esta, e tola é quem se ilude.

Não, Lídia, as coisas não são como tu pensas; No Ceará basta um rapaz ir duas vezes à casa de uma moça para que se diga logo que o namoro está feio, que é um escândalo, e nós é que somos prejudicadas. “Ah! porque já não é mais moça, porque é uma sem-vergonha”. é o que dizem...

Pois olha, esta aqui há-de namorar até não poder mais. Queres que te diga uma coisa? Isso de casamento é uma cantilena...

E, num assomo de despeito, a Campelinho lembrou mulheres casadas que tinham amantes e que viviam muito bem na sociedade; citou a mulher do Dr. Mendes, juiz municipal. Estava ali uma que fora encontrada aos beijos com José Pereira da Província, em pleno Passeio Público! Quem não sabia? Ninguém! Entretanto freqüentava as melhores famílias da capital era a Sra. D. Amélia! Queria outro exemplo!

E abaixando a voz:

Aqui mesmo em casa o tens, minha tola. Ninguém ignora neste mundo que D. Terezinha é amigada com teu padrinho. E tudo é assim, querida Maria. A canalha fala de invejam invejosos é o que não faltam nesta terra,

Maria prestava atenção, silenciosa.

Então, disse ela por fim, achas que devo continuar o namoro?

Que dúvida, mulher! Eu é porque já tenho o meu. Assim mesmo...

Maria sentiu uma pontinha de ciúmes roçar-lhe o coração. Disfarçou com um risinho seco.

Eu estive pensando, disse, caso o Zuza me pregue um taboca...

Nada mais simples: prega-lhe outra casando com o primeiro bilontra que aparecer. Amor com amor se paga...

Não, falemos sério...

Que queres tu que se diga? Eu cá não costumo enganar ninguém. Sou muito franca pão, pão, queijo, queijo...

Dão licença? disse uma voz fora, na rua.

Era Da. Amélia, mulher do Dr. Mendes.

Maria foi abrir a rótula.

Oh! por ali?...

É verdade, meninas, venho morta de calor. Uf! que solão, que solão!

Lídia, muito expedita e pronta, ajudou a desatar o véu e tirar as luvas.

Como estava a Teté? perguntou Da. Amélia muito afogueada, tirando o chapéu defronte do espelho. Da. Amanda ia bem? E sentando-se:

Já sei que não foram hoje à escola... Boa vida! Não há como ser moça. Pois, meninas, venho duma seca. Fui ali à casa da costureira experimentar o meu vestido de cetim...

Isso é que é boa vida, disse a Campelinho: passeios, vestidos...

Maria tinha ido chamar a madrinha, que era um pulo.

Qual passeios! Quem tem filhos pode lá passear?

D. Terezinha não se fez esperar. Entrou sacudindo os quadris, bamboleando-se toda.

Ora viva! disse atirando-se nos braços de Da. Amélia. Como vai, como tem passado? Que milagre!

Agora todas falavam a um tempo, rindo, gabando-se.

Sabem quem esteve ontem conosco? O Zuza. Diz que volta sábado de Baturité. Gabou muito a Maria: que é uma cearense distinta, muito prendada, chique a valer, um horror! Ao que parece temos casório...

Qual casório! fez Maria com um rubor nas faces. Invenções...

Não havia de ser contra minha vontade, disse D. Terezinha . Seria até uma felicidade. Deus o permita...

Falaram de modas.

D. Terezinha alardeou o seu rico vestido de cetim, que a viúva Campelo achara de muito bom gosto.

D. Amélia queixou-se do marido: um homem sem gosto, um mosca-morta, muito desleixado, com venetas de doido. Ela até já se aborrecia, porque o Mendes tinha o mau costume de beber aguardente; às vezes chegava tropeçando, com a língua pegada, sem poder falar. Vestidos ela via-os de ano em ano. Um indiferente, o Mendes. Sofria de uma erisipela na perna direita que o proibia de trabalhar meses inteiros...

Pois olha, disse D. Terezinha, o meu faz-me as vontades, mesmo porque eu não sou mulher de muitos me-deixes. Todos os meses é p’r’ali um vestido. Diabo é quem os poupa! Também, minha filha, dou-lhe toda a liberdade, fora e dentro de casa. Felizmente não tenho queixa dele.

Lídia pediu a D. Amélia que tocasse alguma coisa, a Juanita, que era a valsa da moda.

A propósito D. Amélia perguntou se já tinham ido ao teatro. Que fossem, que fossem. O grupo lírico da Naghel estava fazendo sucesso. A Bellegrandi era um mulherão capaz de arrebatar uma platéia inteira! Que modos, que requebros! Domingo ia a Juanita pela última vez em benefício da Aliverti. Que fossem. Era uma opereta interessantíssima, por sinal tinha sido representada cem vezes na Corte! A beneficiada ia fazer o papel de Juanita.

Eu é para que tenho jeito, atalhou a Campelinho, é para o teatro. Deve ser uma vida tão cheia de sensações a das atrizes... Vestem-se de todas as formas, recebem presentes ricos, jóias, anéis de brilhante... são aplaudidas e ainda por cima ganham dinheiro à ufa. Eu já disse à mamãe, mas ela não quer por coisa alguma, diz que é uma vida imoral... Tolice! Há tanta gente boa nos teatros... A última vez que fui ao circo fiquei encantada pela Estrela do Mar.

É o que você pensa, menina, disse D. Amélia. Essas pobres mulheres fazem um ror de sacrifícios... Sabe Deus quanto lhes custa uma noite de espetáculo! Acabam quase sempre miseráveis, coitadas, nalgum quarto d’hotel, a esmolas. Enquanto são moças ainda, ainda encontram quem lhes estenda a mão, porém, depois, morrem p’r’aí em qualquer pocilga, sem um real para a mortalha. Tibis, menina, nem se lembre de tal coisa!

Maria, a um canto do sofá, pensava no estudante, perdida num labirinto de reflexões, com uma languidez no olhar vago. O Zuza preocupava-a como um sonho d’ouro. Começava a sentir o que nunca sentira por homem algum, certo desejo de ter um marido a quem pudesse entregar-se corpo e alma, certa sentimentalidade sem causa positiva, uma como abstração do resto da humanidade... “E quando Da. Amélia, sentando-se ao piano, começou a tocar a Juanita, veio-lhe um vago e esquisito desejo de ir-se pelo mundo fora nos braços do “seu” Zuza, rodopiando numa valsa entontecedora até cansar... Via-se nos braços dele, arquejando ao compasso da música, quase sem tocar o chão, voando quase leve com um floco d’algodão, como uma pena, como uma coisa ideal aérea... E lembrava-se do padrinho. Ah! o padrinho queria tanto mal ao Zuza... D’ora avante ia agradar muito a João, tratá-lo com mais carinho, dar-lhe muitos cafunés, fazer-lhe todas as vontades, adulá-lo, a fim de que ele não ralhasse por causa do estudante. Que tola não ter escrito logo ao Zuza, àquele Zuza que era agora a quantidade constante dos seus cálculos, a preocupação única de seu espírito, o seu alter ego.

Sim, porque, de resto, ela não havia de ser nenhuma freira que ficasse p’r’aí solteirona, sempre casta como uma vestal.

A Lídia tinha razão a mulher fez-se para o homem e o homem para a mulher. Era sempre melhor aceitar a cartada que se lhe oferecia do que entregar-se aí a qualquer caixeiro do armarinho, a qualquer lojista usurário e safado. Ao menos o Zuza tinha dinheiro e posição, era um rapaz conceituado. Comparava-se com Lídia e sentia-se outra, muito outra, noiva de um moço elegante, estimada, querida por todos. Ninguém se lembraria, depois, de sua origem humilde, todo mundo a respeitaria como esposa do Sr. Dr. José de Souza Nunes! Começava mesmo a sentir uma grande afeição pelo Zuza.

As últimas notas do piano produziram-lhe uma comoçãozinha, uma ponta de saudade sincera, um arrepio na epiderme. E. levantando-se muito desconfiada, foi juntar-se às outras que palravam por quantas juntas tinham.

A voz da Campelinho timbrava muito fina e metálica, traduzindo todo um temperamento nervoso e irrequieto.

Acharam deliciosa a valsa da Juanita. Maria também deu o seu parecer: que era linda, que ia ensaiá-la. Falavam alto, numa intimidade de amigas velhas, sem pensar nas horas que iam passando rapidamente.

Fazia sombra na calçada. Pela janela aberta entrava uma poeira sutil que punha uma camada muito tênue e pardacenta no verniz gasto dos móveis. Vinha lá de dentro, d’envolta com o fumaceiro da cozinha, um cheiro gorduroso e excitante de guisados.

Deram três horas.

Jesus! fez D. Amélia, erguendo-se admirada. Três horas! Vou-me chegando, meninas.

Agora fique para o jantar, solicitou D. Terezinha. Nada de cerimônias, o Janjão não tarda, é comida de pobre, mas sempre se passa...

Ora fique, Jesus!

Não, Tetezinha de minh’alma, não posso, o Mendes me espera. aquilo é um estouvado. Vim somente para pedir um favorzinho, mas é segredo...

Oh! filha...

Entraram as duas para a sala de jantar. A Mendes pediu água, e, dando estalinhos com a língua, acariciando a mão de D. Terezinha, disse muito baixo, quase ao ouvido, engrossando a voz, que precisava de dez mil réis para pagar a costureira e vinha pedir-lhos até o fim do mês. A Teté não imaginava: tinha em casa o essencial para a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou não dinheiro... Tivesse paciência , sim? Pagava sem falta, no fim do mês.

Disse que os meninos andavam descalços, que as despesas eram muito grandes, alegou o preço da carne... Um horror! Não se podia num tempo d’aquele comer com pouco dinheiro. Não sobrava nem para um vestido.

Também estava muito “quebrada”, disse D. Terezinha compungida. O Janjão tinha feito um ror de despesas naquele mês; dava graças a Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Pará, de rendas... Só ao velho Teixeira, um que emprestava dinheiro a juros, deviam duzentos mil réis. Em todo caso sempre ia ver se arranjava p’ra cinco mil réis. Era um instantinho...

Foi depressa à alcova, abriu com estrondo a gaveta da cômoda e d’aí a pouco voltou com uma nota de 5$000, muito velha e ruça, quase em frangalhos, que entregou à outra. Era só o que tinha para servi-la.

Muito obrigada, minha santa, não sabe quanto lhe agradeço... No fim do mês sem falta.

E, guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da Rússia:

Agora deixe-me ir.

Por que não fica p’ra jantar? insistiu D. Terezinha. O Janjão está chegando, mande um recadinho ao Dr. Mendes.

Qual filha, não posso. O Mendes é muito enjoado: fica para outra vez, sim?

Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com o seu passo miudinho, arrepanhando o vestido.

Apareçam, hein? disse da rua. Amor com amor se paga...

E desapareceu, como um foguete na esquina.

Às quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do braço, muito suado, assobiando a Mascote.

A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar.

Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita.

D. Terezinha, essa andava para dentro, às voltas com a cozinheira, provando as panelas, ralhando.

João apenas sacudiu os papeis sobre o sofá foi direto à afilhada.

A santa está tocando Juanita? Que mimo, Jesus! Como se pode ser bonita assim?

E sem dar tempo a Maria defender-se, pôs-lhe um grande beijo na face. A normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do amanuense, e um bafo insuportável de álcool tomou-lhe as narinas. Era a primeira vez, depois que saíra da Imaculada Conceição, que o padrinho lhe beijava m cheio na face. O amanuense tinha se aproximado devagarinho, de mão p’ra trás, e, de repente tomando-lhe a cabeça entre as mãos fedorentas a cigarro, beijou-a perto da orelha, continuando cinicamente a assobiar.

Ela apenas pode dizer ”Padrinho!” agarrando-se à cadeira de mola. Ficou muito séria a limpar o rosto com a manga do casaco. Ah! mas dentro, nas profundezas de sua alma, teve um ódio imenso àquele homem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beijá-la! Fosse outro, ela teria correspondido com uma bofetada na cara... Mas, que fazer? Era seu padrinho, quase seu pai, devia aturá-lo, tinha a obrigação de submeter-se, porque estava em sua casa, comia de seus pirões, e o papai lhe pedira muito que o respeitasse. A princípio até o estimava, não o achava mau completamente, agora, porém, que uma espécie de instinto irresistível a impelia para o Zuza, agora que o estudante ocupava um lugar no seu coração enchendo-o quase, o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprezível. Não podia chegar-se a ele, vê-lo de perto, encará-lo frente a frente, sem um profundo e oculto frenesi. Um homem que não cuidava dos dentes, que não se banhava, um bêbedo!

Esteve folheando o livro de músicas automaticamente, sem se mexer, sem dar palavra, esperando que João se retirasse da sala. Ele, porém, bateu o postigo com força, cambaleando, dando encontrões nos móveis, aproximou-se outra vez da afilhada, e, num movimento abrutalhado, abraçando-a por trás, curvando-se para a frente sobre ela, chimpou-lhe outro beijo, agora na boca, um beijo úmido, selvagem, babando-a como um alucinado...

Maria quis gritar sufocada, mas o amanuense, tapando-lhe a boca, ameaçou...

Nada de gritos, hein! nada de gritos... Eu sou seu padrinho, posso lhe beijar onde e quando quiser, está ouvindo? Nada de gritos!

E Maria, com os lábios muito vermelhos, como a polpa d’uma fruta, debruçada sobre o piano, desandou a chorar nervosamente.

João da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Zé Gato onde costumava aquecer os pulmões ao voltar da Repartição. Nesse dia excedeu-se, tomando em demasia, porque lá estava o Perneta, um dos correios, que usava muleta, que também gostava da pinga e escrevia versos para o Judeu Errante.

Num momento deram cabo d’uma garrafa em cujo rótulo lia-se este reclame atraente como visgo: Cumbe legítima.

E que loquacidade! Falaram por três deputados brasileiros sobre poesia e política.

O Perneta, sujeito pretensioso e pernóstico, metido a literato, falando sempre com certo ar dogmático, ventilou uma questão de literatura cearense ¾ Que não tínhamos poeta, disse: o que havia era uma troça de malandros e de pedantes muito bestas, que escrevinhavam para a Província coisas tão ruins que até faziam vergonha aos manes do glorioso José de Alencar; uma súcia de imitadores que se limitavam a copiar dos jornais da Corte.

Na sua opinião o Ceará só possuía um poeta verdadeiramente inspirado ¾ era Barbosa de Freitas. Esse, sim, cantava o que sentia em versos magistrais, dignos de Victor Hugo. Conhecera-o pessoalmente. Um boêmio! Fazia gosto ouvi-lo, Que eloqüência, que verve, que talento! Sabia de cor muitas poesias dele, mas nenhuma se comparava ao Êxtase, “esse poema de amor”, que valia por todas as poesias de Juvenal Galeno. O João queria que recitasse?

Recita lá, fez o amanuense emborcando o cálice.

E o Perneta, com a voz cavernosa, os cotovelos sobre a mesinha de ferro pintada de amarelo, recitou de um fôlego o Êxtase

Quando às horas silentes da noite,

Doce flauta descanta no ar,

Quando as vagas soluçam baixinho

Sobre a praia que alveja o luar

...........................................

Terminou cansado, com um acesso de tosse, cuspindo para o lado.

Sim, senhor! fez João da Mata com um murro na mesa. Isto é que é ser poeta!

Queriam alguma coisa? veio perguntar o caixeiro, um rapazinho magro, doente, com olheiras.

Não, menino, disse o amanuense, está acesa a lanterna por ora. Foi entusiasmo.

Estavam no fundo da bodega, numa saleta escura, sem saída por trás, com as paredes encardidas, úmida, cheirando a cachaça, onde os fregueses tomavam bebidas. “Somente os fregueses de certa ordem”, prevenia o Zé Gato.

Pois é isto, continuou o Perneta. O pobre Barbosa de Freitas acabou como o grande Luiz de Camões na enxerga d’um hospital, e nisto, penso eu, está a sua maior glória.

Apoiado!

E o que se vê hoje? Pedantismo somente. Os poetas e hoje usam fraque, gravata de seda e polainas, escrevem crônicas elegantes, fazem política. Os Alvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas são gênios que aparecem de século em século, como certos cometas, no céu da literatura.

Que tal achas o Zuza como poeta? perguntou o amanuense.

Não me fales em semelhante gente. Aquilo é pior do que um cano de esgoto, homem. Quem chama o Zuza poeta não sabe o que é ser poeta, nunca leu o nosso Barbosa de Freitas. O Zuza emporcalha papel nada mais. Aquilo só presta mesmo para capacho do presidente.

A conversa encaminhou-se para a política e João da Mata tomou a palavra. ¾ Que a política era a desgraça do Ceará; que estava cansado de trabalhar gratuitamente para a política. O que queria agora era dinheiro para acabar de levantar uma casinha no Outeiro.

E que tal o presidente? perguntou o Perneta. Acha que fará alguma coisa em benefício do Ceará?

Homem, como sabes, eu sou governista, porque infelizmente sou funcionário público, mas entendo que o Sr. Dr. Carlos é um grandíssimo pândego.

E noutro tom, limpando os óculos:

Nós precisamos é de homens sérios, seu Perneta, nós queremos gente séria!

Contou então que na seca tinha ganho muito dinheiro à custa dos cofres públicos; que fora comissário de socorros, e que os presidentes do Ceará eram uns urubus que vinham beber o sangue ao emigrante cearense.

Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77.

Aqui p’ra nós, acrescentou cauteloso, abaixando a voz, o atual presidente não é justiça lhe seja ¾ um homem sem juízo, um idiota, um leigo, mas, a continuar como vai, forçando a emigração para o sul, dentro em pouco transforma esta terra numa espécie de feitoria de S. Paulo. É embarcar muita gente para o sul, seu compadre! Já lá foram quatorze mil e tantos! Isso é despovoar p Ceará, isto é fazer pouco caso do Ceará, c’os diabos!

É bem feito! disse o Perneta, é muito bem feito para não sermos bestas. Isto é uma terra em que os estranhos fazem o que querem e ninguém protesta, ninguém reage. Nós só sabemos ser maus para os nossos patrícios.

Mas olha que o Cearense tem comido o couro ao homem...

Qual comido o couro! O povo é que devia dar uma lição de mestre ao governo, a este governo sem patriotismo e sem critério! E com esta me vou, que isso de política fede... Queres mais alguma coisa?

Olha que demos cabo d’uma garrafa! Nem mais uma gota. Que horas tens?

O outro puxou um relógio de plaquê desbotado, dentro d’uma capa de camurça, e, erguendo-se:

Quatro menos cinco minutos. Safa! O tempo voa! O Zé, bota na conta isto: uma garrafa de branca.

Já cá está, acudiu o Zé Gato, muito sujo, com um dedo amarrado num pano preto, o lápis detrás da orelha , arrastando os chinelos.

... Na conta do Perneta, explicou João da Mata

E saíram pisando em falso, por entre fardos de carne seca e caixas de cebola.

Ó João, perguntou na rua o aleijado, a menina casa sempre com o tipo?

Quem, a Maria?

Sim.

Casa, mas há-de-ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem não me entram em casa...

Mas olha que é um casamentão!

Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamante. Ela só há-de casar com quem o padrinho quiser. E adeusinho, menino, adeusinho.

Separaram-se.

Passava um enterro caminho do cemitério. Quatro gatos-pingados, de preto, conduziam o caixão cujos galões cor de fogo luziam ao sol. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos, taciturnos, de chapéu na mão, marchavam a passo e passo. Na frente caminhava um padre, de estola e sobrepeliz, olhando para os lados, indiferente, mais um menino de cor de batina encarnada carregando a cruz.

O sino da Sé dobrava a finados melancolicamente. Gente chegava às janelas para ver passar o préstito.

De quem é? Quem morreu? perguntava-se com mistério.

A terra lhe seja leve, fez o Zé Gato, abando a cabeça com um ar triste.

João da Mata parou à beira da calçada afagando a pêra com os dedos magros e compridos, nervoso Quem morreria? pensava ¾ E, assim que o préstito passou, foi andando devagar, cabeça baixa, equilibrando-se.

No outro lado da rua, o Romão, o negro Romão que fazia a limpeza da cidade, passava muito bêbado fazendo curvas, de calças arregaçadas até os joelhos, peito à mostra, com um desprezo quase sublime por tudo e por todos, gritando numa voz forte e aguardentada:

Arre corno!... Um garoto atirou-lhe uma pedra.

Mas o negro, pendido p’ra frente, ziguezagueando, tropeçando, encostando-se às paredes, torto, baixo, o cabelo carapinha sujo de poeira, pardacento, repetia insistentemente, alto e bom som, o estribilho que todo o Ceará estava acostumado a ouvir-lhe Arre corno! e que repercutia como uma verdade na tristeza calma da rua.

V

Um tédio invencível, um desânimo infinito, foi-se apoderando de Maria do Carmo a ponto de lhe alterar os hábitos e as feições. Começou a emagrecer, a definhar, enfadando-se por dá cá aquela palha, maldizendo-se. Tudo a contrariava agora, tinha momentos de completo abandono de si mesma, o mais leve transtorno nos seus planos fazia-lhe vontade de chorar, de recolher-se ao seu quarto e desabafar consigo mesma, sem que ninguém visse, num choro silencioso. Estava-se tornando insociável como uma freira, tímida e nervosa como uma histérica. Ia à Escola para não contrarias os padrinhos, para evitar desconfianças, mas o seu desejo, o seu único desejo ser viver só, completamente só, numa espécie de deserto, longe de todo o ruído, longe d’aquela gente e d’aquela casa, num lugar onde ela pudesse ver o Zuza todos os dias e dizer-lhe tudo que quisesse, tudo o que lhe viesse à cabeça. O ruído que se levantou em torno de seu nome incomodava-a horrivelmente, como zumbir d’uma vespa enorme que a perseguisse constantemente. Que inferno! Todo o mundo metia-se com sua vida, como se fosse uma grande coisa ela casar com o Zuza! Era melhor que fossem plantar batatas e não estivessem encafifando-a . Havia de casar com Zuza, porque queria, não era da conta de ninguém, seu coração era livre como as andorinhas. Oh!...

Mas, menina, quem diz o contrário? perguntava a Campelinho. Eu sempre te aconselhei que o melhor partido era aceitar o amor do estudante.

Não era a Lídia, eram as outras, as invejosas, as brutas, que nem sequer sabiam conjugar um verbo. estava cansada de ouvir pilhérias e risinhos tolos, mas à primeira que lhe dissesse tanto assim (e indicava o tamanho da unha), à primeira que abusasse da sua paciência, ela, Maria, saberia responder na ponta da língua . Umas namoradeiras que punham-se a dar escândalos com os estudantes do Liceu, umas sem-vergonhas! Havia de mostrar!

Ela é que era uma tola, dizia a Lídia; as normalistas falavam de invejosas, mandasse plantar favas. Cada qual namora com quem quer, e, demais, não era nenhuma admiração a Maria casar com o Zuza. Por quê? Porque ele era rico e ela era pobre?

Muito obrigada! Napoleão! tinha-se casado com uma simples camponesa, e mais era um imperador!

E Maria do Carmo passava noites sem dormir, a pensar no futuro bacharel, retratando-o na imaginação, amando-o de longe. Havia já seis dias que ele seguira com o presidente, num domingo.

Que custo, que viagem sem fim! Aquela demora impacientava-a. Já era tempo de terem voltado...

Todos os dias, à noitinha, ia esperar a Província na janela, a ver se encontrava alguma notícia dos excursionistas.

Mas nada!

No domingo seguinte, porém, a folha oficial noticiou que “os ilustres touristes” deviam regressar à capital no dia imediato.

Oito dias! Tê-la-ia esquecido? Oito dias na serra, tomando banhos de cachoeira, passeando a cavalo, caçando, divertindo-se ¾ que excelente vida! Maria do Carmo sentiu uma alegria deliciosa ao saber que d’aí a vinte quatro horas o Zuza estaria de volta, mais amável talvez, mais nutrido, mais gordo e mais bonito, contando-lhe as minudências da viagem. Agora, sim, conversaria com ele, perguntar-lhe-ia se gostara da serra, se tencionava partir logo para o Recife, se pretendia casar no Ceará...

Nessa noite fez-se muito boa para o padrinho, chamou-o “padrinhozinho”, acariciou-lhe os bigodes, sem dar a entender o seu grande contentamento, a sua grande felicidade. Durante o víspora esteve perto dele, acompanhando-lhe o jogo, lembrando quando ele esquecia marcar um número, dando-lhe cafunés no alto da cabeça, com uma solicitude ingênua.

Quando os habitués do víspora retiraram-se, João da Mata chamou a afilhada à alcova, e, muito em segredo, como se fossem velhos namorados, pediu-lhe um beijo na “boquinha”. Maria ofereceu-lhe os lábios com uma passividade de escrava, sem a menor resistência, pondo-se nos bicos dos pés, porque João era muito alto, e deixou que ele sugasse-os em dois tempos, às pressas, antes que viesse D. Terezinha.

Grande foi a admiração e a luxúria do amanuense. Maria entregara-se sem um grito, sem um esforço! E suspendendo-a pela cintura, num ímpeto de carnalidade indomável, apertou-a contra si, com força, rilhando os dentes, nervoso, bambas as pernas, o coração aos pulos; mas soltou-a logo. D. Terezinha ali vinha pelo corredor, arrastando os velhos sapatos achinelados. João pôs-se a assobiar de mãos para trás.

Estavam jogando o sério? perguntou a mulher.

Não. Porque?

Tão calados!...

Queria tu que estivéssemos a gritar como doidos? fez o amanuense ainda trêmulo da comoção, enquanto Maria, sem dizer palavra, disfarçava na janela, olhando o céu.

D. Terezinha começara a desconfiar das intenções de João da Mata. Via-o agora muito babado pela Maria, convidando-a sempre para junto de si, perseguindo-a mesmo e notava que a rapariga ultimamente já não era a mesma para ele, evitava-o, fugia de sua presença, esquivava-se como uma gatinha corrida pelo macho.

Um dia, vendo-a triste a uma canto, perguntou-lhe o que tinha. Maria conservou-se calada e séria, sem erguer a cabeça. D. Terezinha quis atribuir aquele estado à ausência do Zuza, mas notou que havia no olhar da afilhada um como ressentimento novo, de momento. Nesse dia, justamente, João esbravejara muito contra a rapariga, ameaçando-a espancar se ela ousasse “pensar” no estudante. Desde então começaram as suspeitas de D. Terezinha que conhecia certas tendências instintivas de João. De certo alguma coisa se passava ente eles. Esses sobressaltos, essas arrelias... Entretanto, deixava as coisas no mesmo pé, sem dizer nada. Talvez fosse desconfiança.

E o mais curioso é que o João agora tinha rusgas consecutivas com a mulher, sem motivo, por ninharia, ao voltar da Repartição ou pela manhã antes de ir.

Um belo dia rompeu deveras. João sentiu logo o sangue subir-lhe à cabeça, e, numa excitação violentíssima, num daqueles ímpetos de raiva que lhe eram tão comuns devido à sua natureza irascível, ao seu temperamento bilioso, desandou furioso contra D. Terezinha, arremetendo com a mão fechada, fulo de cólera. Naquela casa quem mandava era ele, ficasse sabendo! Não aturava desaforos de mulher alguma, quanto mais dela que não tinha nada com sua vida!

E fique você sabendo, acrescentou com sua vozinha estridente, dando murros na mesa. Fique você sabendo que uma mulher amigada é como se fosse uma fêmea qualquer, ouviu? Se duvidar, ponho-lhe no olho da rua!

Palavras não era ditas. D. Terezinha saltou como uma fera congestionada, os olhos acesos d’um fulgor fosforescente, desesperada, possessa, os braços em arco e as mãos nas ilhargas:

Você o que quer é abusar da menina e plantar-lhe um filho no buxo, seu grandis...

Não acabou a palavra, porque o amanuense, ferido no seu amor próprio, na sua autoridade de chefe da casa, cego, tresvariado, encheu-lhe a boca com uma formidável bofetada que fê-la rodar.

Maria ficou perplexa, cosida à janela, muito trêmula, sem saber o que fizesse, muda, como petrificada. Nos seus magníficos olhos cor de azeitona perpassou a sombra d’uma desgraça. O padrinho tinha enlouquecido, pensou. E um pavor infantil tomou-a toda.

Mal acordada dos efeitos da agressão, titubeante, manquejando com a mão no queixo, D. Terezinha foi estender-se lá dentro na alcova, soluçando tão alto que se ouvia fora , na rua.

Defronte, em casa da viúva Campelo, estava formada a panelinha do costume o Loureiro, a viúva e a afilhada.

Eram quase nove horas da noite.

A Lídia com um pulo veio saber, muito curiosa, o que sucedera, tinha ouvido choro... Se precisassem de alguma cosa...

Mas o amanuense tranqüilizou-a: que não era nada, coisas de mulher, coisas de mulher...

A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos íntimos e rodou nos calcanhares. Não era nada, era o doido do amanuense que andava aos pontapés.

Gente canalha! fez o guarda-livros inalterável. Que educação, que fina educação, recebia-se naquela casa!

Logo no dia seguinte à chegada do Zuza uma segunda feira luminosa de Outubro, muito azul no alto, com irradiações no granito das calçadas e uma aragem insensível quase a arrepiar a fronde espessa dos arvoredos da praça do Patrocínio Maria do Carmo foi recebida na Escola Normal com um chuveiro imprevisto de parabéns ¾ que as normalistas lhe davam à guisa de presentes de ano. Parabéns! Parabéns! repetiam arrastando os pés para trás, abrindo alas, como se cortejassem uma princesa. ¾Tinham combinado saudá-la pela chegada do Zuza com esse espírito irrequieto de colegial despeitado que se apraz em chacotear outro, e talvez com uma ponta de inveja a mordicá-las por dentro.

A praça permanecia numa inquietação abençoada, com seus renques de mungubeiras muito sombrias, verde-escuras e eternamente frescas, a desafiar, frente a frente, a pujança outonal dos cajueiros em flor que os liceistas castigavam a pedradas.

Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante:

Loteria do Pará, 30 contos!

O edifício da Escola Normal, a um canto do quadrilátero, pintadinho de fresco, cinzento, com as janelas abertas à claridade forte do dia, tinha o aspecto alegre d’uma casa de noivos acabada de criar-se.

Maria estava radiante! Que extraordinária alegria infiltrava-se-lhe na alma, que excelente disposição moral! Acordara mais cedo que nos outros dias, como se tivesse de ir a alguma festa matinal, a algum passeio no campo, espanejando-se toda numa delícia incomensurável, feliz como uma ave que solta o primeiro vôo. Mas ao entrar na Escola desapontou deveras. Seriam onze horas. O diretor ainda não havia chegado. Raparigas de todos os tamanhos, trajando branco, azul e rosa conversavam animadas de livro na mão, formando grupos, no vestíbulo que separava a sala de música do gabinete de ciências naturais, no pavimento superior.

Maria entrou vivamente alegre, de braço com a Lídia, dando ¾ bom dia! às colegas, uma bonita orquídea no peito, toda de branco, apertada por uma cinta. Mas a sua delicada susceptibilidade estremeceu ante a insólita manifestação que se lhe fazia, e uns tons de rosa desmaiados, um ligeiro rubor ¾ coloriram-lhe o moreno claro das faces. “Aceitava os parabéns, como não? Muito obrigada, muitíssimo obrigada! Queriam debicá-la? Corujas! Fossem debicar a avó!”

Uma gargalhada irrompeu do grupo indiscreto, clamorosa e prolongada.

Meninas! fez a Lídia. Isso são modos!

Olha a baronesa!

Como ela está grande!

Sua incelência...

Maria a custo pôde abafar a raiva que lhe sacudia os nervos. Sentou-se à varanda que dizia para uns terrenos devolutos do lado de Benfica, mordiscando a pelo dos beiços, trombuda, cara fechada, a olhar o arvoredo com um ar afetado de absoluta indiferença.

Continuava o ruído. Havia um jogo contínuo de ditinhos picantes acompanhado de risadinhas sublinhadas. Uma queria um botão de flor de laranjeira, da grinalda, outra desejava apenas um copito de aluá, ess’outra contentava-se com um beijo na “noiva”, aquela queria ser madrinho do “primeiro filho”...

Começaram a atirar-lhe bolinhas de papel.

Maria marcava o compasso com o pé, furiosa, sem ver nada diante dos olhos.

Já basta! disse a Lídia abrindo os braços para afastar as outras. Tudo tem limite. Vocês estão se excedendo...

Umas ignorantes! saltou Maria acordando. Umas idiotas que querem levar a gente a ridículo por uma coisa atoa. Ainda hei de mostrar!...

O diretor, o diretor! veio avisar a Jacintinha, uma feiosa, d’olho vazado, com sinais de bexiga no rosto, e que estava acabando de decorar alto a lição de geografia.

Foi como se tivesse dito para um bando de crianças traquinas: ¾ Aí vem o tutu!

Houve uma debandada: umas embarafustaram pela sala de música, outras pela de ciências, outras, finalmente, deixaram-se ficar em pé, lendo a meia voz muito sérias. Fez-se um silêncio respeitoso, e daí a pouco surgiu no alto da escada a figura antipática do diretor, um sujeito baixo, espadaúdo, cara larga e cheia com uma pronunciada cavidade na caixa do queixo, venta excessivamente grande e chata dilatando a um sestro especial, cabelo grisalho descendo pelas têmporas em costeletas compactas e brancas, olhos miúdos e vivos, testa inteligente...

Maria respirou com alívio.

Mas assim que o diretor deu as costas, entrando para o seu gabinete, recomeçou o zumzum de vozes, a princípio baixinho, depois num crescendo.

O sol obrigou-a a fechar o livro. Ergueu-se e foi para a aula, carrancuda, extremamente bela com o seu vestidinho de cassa, apertado na cinta delgada.

Ao meio dia, pontualmente, chegou o professor de geografia, o Berredo, um homenzarrão alto, grosso e trigueiro, barba espessa e rente, quase cobrindo o rosto, olhos pequenos e concupiscentes. Cumprimentou o diretor, muito afetuoso, limpando o suor da testa. E consultando o relógio:

Meio dia! São horas e dar o meu recado. Com licença.

Contavam-se na sala d’aula pouco mais de umas dez alunas, quase todas de livro aberto sobre as carteiras, silenciosas agora, à espera do professor. Maria ocupava um dos bancos da primeira fila.

Ao entrar o Berredo, houve um arrastar de pés, todas simularam levantar-se, e o ilustre preceptor sentou-se, na forma do louvável costume, passeando o olhar na sala, vagarosamente, com bonomia paternal tal um pastor d’ovelhas a velar o casto rebanho.

A sala era bastante larga para comportar outras tantas discípulas, com janelas para a rua e para os terrenos devolutos, muito ventilada. Era ali que funcionavam as aulas de ciência físicas e naturais, em horas diferentes das de geografia. Não se via um só mapa, uma só carta geográfica na paredes, onde punham sombras escuras peles de animais selvagens colocadas por cima de vidraças que guardavam, intactos aparelhos de química e física, redomas de vidro bojudas e reluzentes, velhas máquinas pneumáticas nunca servidas, pilhas elétricas de Bunsen, incompletas, sem o amálgamas de zinco, os condutores pendentes num abandono glacial; coleções de minerais, numerados em caixinhas, no fundo da sala, em prateleiras volantes... Nenhum indício, porém, de esfera terrestre.

O professor pediu um compêndio que folheou de relance. Qual era a lição? A Oceania? Pois bem...

Diga-me, senhora Da. Maria do Carmo: A Oceania é ilha ou continente?

Maria fechou depressa o compêndio que estivera lendo, muito embaraçada, e, fitando o mestre, batendo com os dedos na carteira, com um risinho:

Somente uma parte da Oceania pode ser considerada um continente.

Perfeitamente bem!

E perguntou, radiante, como se chama essa parte da Oceania que pode ser considerada continente; explicou demoradamente e categoricamente a natureza das ilhas australianas, elogiando as belas paisagens claras da Nova Zelândia, a sua vegetação opulenta, as riquezas do seu solo, o seu clima, a sua fauna, com entusiasmo de touriste, animando-se pouco e pouco, dando pulinhos intermitentes na cadeira de braços que gemia ao peso de seu corpo.

Maria, muito séria, sem mover-se, ouvia com atenção, o olhar fixo nos olhos do Berredo, bebendo-lhe as palavras, admirando-o, adorando-o quase como se visse nele um doutor em ciências, um sábio consumado, um grande espírito. Decididamente era um talento, o Berredo! Gostava imenso de o ouvir falar, achava-o eloqüente, claro, explícito, capaz de prender um auditório ilustrado. Era a sua aula predileta, a de geografia, o Berredo tornava-a mais interessante ainda. Os outros, o professor de francês e o de ciências, nem por isso; davam sua lição como papagaios, e adeus, até amanhã. O Berredo, não senhores, tinha um excelente método de ensino, sabia atrair a atenção das alunas com descrições pitorescas e pilhérias encaixadas a jeito no fio do discurso.

“Muitas ilhas da Oceania, dizia ele, coçando a barba, são habitadas por selvagens antropófagos, como os da América antes de sua descoberta...”

“Imaginem as senhoras, que horror! Homens devorando-se uns aos outros, comendo-se com a mesma satisfação, com a mesma voracidade, com o mesmo canibalismo com que nós outros, civilizados, trinchamos um beef-steak ao almoço...”

Houve um casquinada de risos à surdina.

Agora se o Zuza te come, disse baixinho, por trás de Maria do Carmo, uma moçoila de pincenez. Toma cuidado, menina, o bicho tem cara de antropófago...

“E note-se, continuou o Berredo, as próprias mulheres não escapam à fúria das tribos inimigas: devoram-se também...”

Virgem! fez Maria com espanto...

“As senhoras com certeza preferem viver n o Ceará a habitar a Papuásia...”

Credo! fizeram muitas a uma voz.

E no Brasil há desses selvagens? perguntou estouvadamente uma loura que se escondia na última fila, estirando o pescoço.

O pedagogo sorriu, passando a mão cabeluda na barba; e muito delicado, num tom benévolo:

“Atualmente existem poucos... Restos de tribos extintas...”

E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pregar a moral, explicando a vida e costumes dos selvagens da Nova Zelândia, citando Júlio Verne, cujas obras recomendava às normalistas com um “precioso tesouro de conhecimentos úteis e agradáveis”. Lessem Júlio Verne nas horas d’ócio; era sempre melhor do que perder tempo com leituras sem proveito, muitas vezes impróprias de uma moça de família...

Vá esperando.... murmurou a Lídia.

“Eu estou certo, dizia o Berredo, convicto, de que as senhoras não lêem livro obscenos, mas refiro-me a esses romances sentimentais que as moças geralmente gostam de ler, umas historiazinhas fúteis de amores galantes, que não significam absolutamente coisa alguma e só servem de transtornar o espírito às incautas... Aposto em como quase todas as senhoras conhecem a Dama das camélias, a Lucíola...”

Quase todas conheciam.

“....Entretanto, rigorosamente, são péssimos exemplos...”

Tomou um gole d’água, e continuando:

“Nada! As moças deviam ler somente o grande Júlio Verne, o propagandista das ciências. Comprem a Viagem ao Centro da Terra, Os filhos do Capitão Grant e tantos outros romances úteis, e encontrarão neles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos práticos...”

O contínuo veio anunciar que estava terminada a hora.

Dias depois o Berredo lecionava, como de costume, a seu bel-prazer, derreado na larga cadeira de espaldar, quando o contínuo, fazendo uma mesura, anunciou: “S. Excia. o Sr. Presidente da Província”, e imediatamente assomou à porta da sala o ilustre personagem, mostrando a esplendida dentadura num sorriso fidalgo, com o peito da camisa deslumbrante de alvura, colarinhos muito altos e tesos, gravatas de seda cor de creme, onde reluzia uma ferradura de ouro polido, bigodes torcidos imperiosamente: um belíssimo tipo de sulista aristocrata. Estava um pouco queimado da viagem a Baturité.