Enquanto os dois, sentados no sofá, de pernas trançadas, iam discutindo banalidades, Lídia e Maria do Carmo comunicavam-se como boas amigas, numa intimidade franca e expansiva, abrindo-se mutuamente em confidências de colegial felizes. Primeiro tinham percorrido toda a casa. Lídia mostrara à outra todos os seus confortos e todas as suas jóias desde a cama de casados, ampla e fresca, até o presente de noivado, um magnífico jogo de pulseiras cravejadas de pérolas em forma de serpentes, o guarda-vestidos, os vidros de essências, os chapéus, as toalhas de labirintos, feitas no Aracati e tudo o mais que o Loureiro comprara com aquela bondade ingênua que o caracterizava.
Maria via tudo aquilo embasbacada, com surpresas no olhar, falando por monossílabos, examinando com inveja cada objeto que seus olhos deparavam, achando tudo muito bom, muito fino, de muito bom gosto. E a outra: olha isto, vê lá, aqui está o meu relógio d’algibeira, comprado no Jaques, tu ainda não viste a minha cinta de tartaruga; é verdade, e o meu tinteiro de prata, presente do Carvalho, e o meu leque de plumas...
Foram sair na sala de jantar, e aí, uma defronte da outra, em cadeiras de balanço, Lídia entrou indiscretamente a falar no Zuza.
- Ainda o amas muito? Então fica para a volta?...
Maria não compreendeu a pergunta.
- Como fica para a volta?
- Sim, de certo, creio que vocês não se casaram...
- Não te compreendo?
- Olha a engraçada!... Quer um peitinho?!
- Por Deus como te não entendo...
- Pergunto se o casamento é quando o Zuza voltar, não te faças tola...
- Quando o Zuza voltar?
- E então?...
- Mas voltar d’onde?
- Estás hoje muito misteriosa, minha espertalhona;
Maria teve um pressentimento: - “E o Zuza tinha ido embora?”
- Pois não embarcou anteontem?
Olhavam-se as duas sem se compreenderem, como se estivessem jogando o disparate.
- Para onde?...
- Para o Recife, ora adeus! para onde havia de ser?... A estas horas anda ele bem longe do Mocuripe.
Maria do Carmo empalideceu, como se acabasse de saber uma notícia funesta.
- Estás gracejando, murmurou com a voz trêmula.
- Não sabias?
- Não, não sabia...
- Pois a Província deu notícia.
- Infame.
E Maria não pode resistir à comoção que lhe sufocava, os olhos umedeceram-se-lhe de lágrimas, e desatou a chorara com o rosto mergulhado no lencinho de rendas.
- Que é isso, criatura? Tolice!
Lídia não contava com o pieguismo da amiga.
Ora adeus, o rapaz havia de voltar, que asneira! Era preciso paciência para tudo, e então? Ela mesma, Lídia, não esperara pelo Loureiro quase um ano? Tolice...
- Deixa-te d’isso, filha, vamos tocar piano. Estás nervosa.
Inclinada sobre a rapariga, que soluçava como se lhe tivesse morrido alguém, Lídia procurava carinhosamente arrancar-lhe o lenço dos olhos , alisando-lhe os cabelos, comovida.
- Então?... Levanta, vamos para a sala, que está mais fresco. Não sê criança, vamos...
- Sou uma desgraçada, disse Maria enxugando os olhos com força.
- Que desgraçada o que, estás feito criança... Isso acontece a todo mundo, criatura. Vamos, vamos p’ra sala. Já viste o meu álbum.
Maria levantou-se devagar, preguiçosamente, com as faces escarlates, as pestanas úmidas, assoando-se; e arrependida.
- Não, fiquemos aqui mesmo, depois se toca. Não foi nada - um nervoso...
- Bem, mas não te ponhas a choramingar por aí, como uma tola. Tu sabes, a família do Zuza não quer o casamento, quem sabe se o rapaz foi obrigado a embarcar à última hora? Espera cartas, se ele não te escrever, então sim, podes ficar certa de que não te ama.
Tornaram a sentar-se.
A criada, alta como um pau de sebo, veio saber da Sra. D. Lídia “se a sopa era de macarrão ou de arroz”.
- De macarrão mesmo, Tomázia, faça de macarrão, mas faça uma sopa gostosa, ouviu?
E para a amiga:
- Não imaginas quanto aborreço a cozinha. Há dias em que não ponho lá os pés. Felizmente o Loureiro arranjou uma boa criada, que até já foi cozinheira do Dr. Paula Souza, da Estrada de Ferro. É assim como viste, seca e ríspida, mas uma excelente criada. Faz tudo a meu gosto.
- Mas, então o Zuza embarcou, hein? tornou Maria voltando à conversa.
- Não falemos mais nisto. estás hoje muito sentimental e eu não quero que passes mal o resto do dia em minha casa, sabes? Não falemos mais nisto.
- Mas, diz-me... aquilo foi uma tolice... diz-me, não o viste mais?
- Não. O José Pereira é que está muito nosso amigo, sabes? Tem vindo aqui duas vezes nesta semana. E que amabilidades, menina, que delicadezas! Ofereceu-se para apresentar o Loureiro ao presidente da Província, mandou-nos outro dia um camarote para o teatro...
- E tu, como passas a nova vida?
- Perfeitamente. Desejava antes morar na cidade, mas o Loureiro é muito impertinente, diz que prefere isto - paciência. Agora quando vierem os filhos, isso então... Por enquanto estou muito satisfeita. Um bocado triste isto aqui no Benfica, mas ..vai se passando. É verdade, precisas vir passar uns dias comigo, estás muito magra; o ar aqui pé melhor que na cidade. Tens ido à Escola?
- A Escola qual! Passei oito dias em casa como, uma freira, sem ir à parte alguma. creio que não irei mais àquilo.
- Eu, no teu caso, faria o mesmo. Agora, então, que estou casada, olha...
Fez um gesto com as mãos.
- ... bananas, não estou para suportar desaforos d’aquela canalha. Porque tudo aquilo é uma canalha, menina. Fazes muito bem em não pondo os pés naquela feira de reputações. As raparigas ali aprendem a ser falsas e imorais. Conheço muito o tal Sr. Berredo, o tal Sr. Padre Lima e mais os outros todos. O próprio diretor... eu cá sei...
Maria estava mais consolada ante a solicitude da amiga. Achava-a mais amável, mais expansiva.
Foram para a sala de visitas, de braços trançados nas cinturas, e Lídia cantou ao piano o Non m’amava, a velha romanza sentimental, que encheu de lágrimas os olhos de Maria.
E os dias passavam uns após outros, longos, intermináveis, como uma repetição monótona que faz mal aos nervos.
Vieram as festas, o Natal e o Ano Bom.
Maria do Carmo, cada vez mais magra, sentido-se definhar dia a dia, descrente de tudo, tinha agora uma certeza cruel que a torturava barbaramente, a certeza que estava para ser mãe, de que muito breve o seu nome estaria completamente desmoralizado. Sentia bulir dentro de si uma coisa estranha, que lhe incomodava como uma perseguição, e mais de uma vez, nos seus momentos de grande desânimo, atravessara-lhe a mente a idéia sinistra do suicídio. Sim, preferia matar-se a assistir às exéquias de sua honra na praça pública, em todas as ruas da cidade, em todas as bocas. estava irremediavelmente perdida, não tinha pai nem mãe, nem alguém que lhe fosse sincero no mundo, pois bem, acabar-se-ia de uma vez, sem ter que dar satisfação a ninguém por isso. Era um pecado, mas não era uma vergonha, porque não teria que corar nunca diante da sociedade, como uma criminosa, como uma culpada. Não, mil vezes, não! Outra, que não ela, preferisse arrastar uma existência vergonhosa, a morrer fosse como fosse.
Uma ocasião estava prestes a ingerir uma dose de láudano, mas faltou-lhe coragem. Começou a imaginar mil coisas. Via-se morta dentro de um caixão azul, de mãos cruzadas sobre o peito, numa sala onde havia gente chorando e um crucifixo à cabeceira entre velas de cera que ardiam lugubremente. Que horror! recuou espantada fazendo em pedaços o vidro de veneno.
Às vezes, vinham-lhe resignações, um desejo místico de ser irmã de caridade, depois que desse à luz a criança, arredar-se para sempre do mundo e ir viver na Santa Casa de Misericórdia, curando os enfermos metida nas suas vestes azuis, debaixo de um grande chapéu de asas, dedicar-se toda a Deus, como uma santa.
Dera para devota; não faltava à missa aos domingos, na Sé, vestida com muita simplicidade, e rezava sempre, com uma contrição admirável, ao deitar-se e ao acordar, defronte da oleografia do Coração de Jesus.
Foi em casa da Lídia que ela teve a certeza de achar-se grávida. Até então ignorava certos segredos da maternidade, certos fenômenos da fisiologia amorosa, que nunca lhe tinham dito, nem mesmo as companheiras de Escola, “aliás versadas em assuntos dessa natureza”.
Tinha ido passar uma semana com a amiga, nas festas, e um dia a Lídia disse-lhe que “estava pronta” e que ela, Maria, havia de ser a madrinha do primeiro filho.
Então, aproveitando a oportunidade, Maria do Carmo quis saber como as mulheres tinham certeza de estar grávidas.
Lídia explicou tudo minuciosamente; a suspensão das regras, os antojos, as dores madre e, finalmente, os primeiros movimentos do feto no útero. Depois leram junto a Fisiologia do Matrimônio de Debay, que o Loureiro tivera o cuidado de comprar, especialmente o capítulo - da calipedia ou arte de procriar filhos, o mais importante, na opinião da esposa do guarda-livros.
- Todo meu desejo, dizia a Lídia com o livro sobre a perna, todo meu desejo é que o pequeno, menino ou menina, se pareça com o presidente da província. Ainda no último baile em palácio não tirei os olhos dele.
E Maria nesse dia, ao jantar, teve um grande enjôo da comida, cruzando o talher logo no primeiro prato, inapetente. Não havia dúvida, “estava pronta” também como a Lídia, e esta idéia tornou-se uma idéia fixa, de todos os dias, de todas as horas, de todos os minutos. Ela com um filho, Jesus! Decididamente estava perdida para sempre no conceito honesto da gente séria. Não passaria mais de uma simples rapariga que “já teve filho”! As revelações de Lídia tinham-lhe aberto os olhos; sentia agora perfeitamente bulir a criança, e até, na sua alucinação, parecia-lhe ouvir os vagidos do bebê. Se fosse possível evitar o seu desenvolvimento, matá-lo mesmo no ventre... Mas não: seria uma barbaridade, uma malvadez; Afinal de contas era seu filho, de suas entranhas, embora fruto de um crime...
E Maria agoniava-se, fazendo essas considerações e mil outras conjecturas absurdas, sem coragem de esperar o desenlace d’aquele drama secreto que ela era a protagonista. Vivia assombrada e não raro caía num desfalecimento que lhe tirava a ação do corpo e do espírito.
Por uma espécie de instinto, previa todas as conseqüências do seu estado e pressentia o desprezo acerbo que havia de lhe cair sobre a cabeça, implacavelmente, como uma grande mão de ferro, esse desprezo convencional e hipócrita de uma sociedade ávida de escândalos, cevando-se da desgraça alheia, banqueteando-se em torno da vítima, como para torturá-la ainda mais.
E enquanto a Lídia ganhava, com sorrisos de triunfo, as simpatias dessa mesma sociedade que há poucos meses a maldizia, ela, Maria do Carmo, sobre cuja reputação pairava a sombra de uma nódoa, via-se pouco a pouco ludibriada, tratada como uma mulher a toa, num abandono completo, sem amigas, sem honra, pobre, sem pai, nem mãe, mísera cadela que a gente enxota a pontapés de dentro da casa por safada e indecente.
XII
O Zuza abalara de feito numa sexta-feira, dias depois do casamento da Lídia. Por toda a parte se comentava, com risinhos sublinhados, o escandaloso namoro com a normalista, e o pai, o coronel Souza Nunes, escrupuloso em tudo que lhe dizia respeito, exigiu do filho que embarcasse no primeiro vapor, sob penas severas.
- Mas, meu pai...
- Tenha santa paciência, vocemecê embarca ou diz porque não embarca. Fala-se em toda a cidade nos seus namoros com a rapariga e eu não quero, não consinto em semelhante escândalo. Sei muito bem o que isso é. Não pode ser boa mãe de família uma rapariga educada em companhia de um safardana reconhecido, como o tal Sr. João da Mata. Prepare as malas e deixe-se de histórias, que é perder tempo.
Nestas condições o estudante não teve jeito senão resignar-se ante a vontade imperiosa do pai e anunciar ao José Pereira o seu embarque d’aí a dois dias.
- De acordo, aprovou o redator da Província. Deves tratar quanto antes da tua formatura e então podes voltar ao Ceará e fazer um figurão na nossa magistratura, que já conta em seu seio bons talentos, rapazes da tua estatura, inteligentes e resolutos.
Sentia muito que o Zuza não se demorasse mais algum tempo, mas, enfim, como esperava em breve tornar a vê-lo formadinho, com o seu título de bacharel, “dando sorte” na capital cearense, que diabo! era preciso abafar a saudade e consolar-se.
O Zuza, porém, estava contrariado. Agora que as coisas corriam-lhe tão bem, que a rapariga entregava-se-lhe de corpo e alma, é que o obrigavam a embarcar da noite para o dia, sem ao menos ter tempo de despedir-se d’ela, de dar-lhe uma beijoca, um abracinho sequer, às escondidas. É verdade que o seu amor não era lá para que se dissesse um amor extraordinário, uma dessas paixões incendiárias que decidem do futuro de um cristão, mas, tinha a sua simpatia por aqueles olhinhos ternos como os de uma santa, lá isso tinha... Tão boas as palestras ao meio-dia, na Escola Normal, enquanto as outras normalistas divertiam-se lá para dentro à espera dos professores! Uma gentinha levada da breca, essas normalistas ! Com que facilidade a Maria do Carmo, aliás, uma das mais comportadas, entregava-lhe a face para beijar e escrevia-lhe cartinhas perfumadas, cheias de juras e protestos de amor! Se fosse outro, até já podia ter feito uma asneira... Arrependia-se agora de não ter aproveitado os melhores momentos... Grandíssimo calouro! podia ter desfrutado a valer.
E concluiu, preparando-se para sair:
- Ora sabem que mais? Há males que vêm para bem. A cidade está cheia do meu nome e do nome da rapariga, o verdadeiro é ir-me embora mesmo, sem dar satisfação a ninguém. Meu pai é um homem de juízo. Eu podia muito bem engraçar-me deveras com a menina para casar e depois... sabe Deus as conseqüências. Já se foi o tempo de um homem sacrificar posição e futuro por uma mulher pobre. Concluo o meu curso e sigo para a Europa, é o verdadeiro, ora adeus!
Enfiou a manga do redingote, atabalhoado, e saiu a despedir-se dos amigos.
Toda a cidade soube logo da viagem intempestiva do estudante. A notícia propalou-se com a rapidez do fogo em palha, por todos os botequins, por todos os cafés e restaurantes, avolumando-se, como se se tratasse de um grande acontecimento.
Quem o Zuza, o filho do coronel Souza Nunes? Então não se casava com a normalista?
- Por esta já esperava eu, diziam uns convictamente.
- E eu, repetiam outros.
- Pela cara se conhece quem tem lombrigas, seu Sussuarana, afirmava um sujeito reles na botica do Travassos. Aquele tipo sempre me pareceu uma bisca. Agora a pobre rapariga é quem fica por aí com a cara de besta, sem achar quem lhe roa os ossos.
- Pode dizer, seu compadre. Esses fidalgos o que querem é isso mesmo - desfrutar e pôr-se ao fresco. Todo nosso mal é recebermos em nossas casas qualquer sunga-nenén que chegue a esta terra. Nós, os pais de família, é que somos os culpados.
- E o compadre João da Mata o que pretende fazer?
- Eu sei lá, homem de Deus, aquele é outro...
A viagem imprevista do Zuza assumia proporções de escândalos. Nas fileiras políticas especialmente entre os partidos contrários à administração presidencial, alardeava-se o fato: que o rapaz era um produto da política do governo, que todos os amigos do presidente mediam-se pela mesma bitola, que era tudo uma súcia de bandidos de casaca, usurpadores da honra cearense, o diabo!
Os jornais da oposição rosnaram contra a moralidade dos governistas, responsabilizando o presidente pelo “desmembramento de caracteres” que ia pela sociedade cearense, alcunhando-o de negro Romão. Tal dizia que “S. Excia. era homem de costumes dissolutos, acostumado a beber cerveja nos cafés cantantes de Paris, e a passear de braço com as cocottes no Bois de Boulogne”. Tal outro afirmava que “ S. Excia. sabia manobrar perfeitamente um phateon, montava muito bem a cavalo, mas não tinha capacidade para dirigir os destinos de um país”.
Insinuava aquele que “a viagem inesperada de certo bacharel por formar-se era um atentado contra os nosso brios e contra a moral pública”, aquele outro confirmava que “a polícia devia dar caça a um tal Sr. bacharel de nome açucarado contra quem pesavam as mais sérias acusações no tocante ao seu procedimento para com a família cearense”.
E toda gente sabia que se tratava do Zuza e da Maria do Carmo.
O estudante, azucrinado por todos os lados, numa roda viva de indiretas, indagava na Agência se o vapor já tinha chegado, esbaforido, às carreiras, doido por já se ver barra afora, debruçado tranqüilamente na amurada, a ver sumirem-se no horizonte, como visões de uma noite mal dormida, as areias do Mucuripe.
Uff! ... Estava cansado de suportar tanta sujidade! Decididamente não voltaria ao Ceará por preço algum. Diabo de província onde ninguém está livre da calúnia e da descompostura pela imprensa desde que não se submeta às imposições d’uma política de interesses pessoais.
Revoltava-se de novo contra o Ceará, contra os costumes cearenses, contra a política, “essa política sem ideal e sem patriotismo, que só servia de nos rebaixar, obrigando o indivíduo a vender-se por amor de sua mulher e seus filhos”. Que diabo tinha ele com a política para que se viesse meter com sua vida? Só porque era amigo do presidente e filho de político? Sebo! Então não se podia ter amigos no Ceará, decididamente. E porque tanto barulho em trono do seu nome, porque não lhe diriam? Por causa de um simples namoro com uma pobre normalista sem eira nem beira? Era o cúmulo!
Com que deliciosa alegria ele ergueu-se da rede no dia do embarque, de manhã muito cedo, as malas no meio do quarto prontas, a passagem comprada no bolso, sem dívidas, sem compromissos, completamente pronto a deixar o Ceará. Quando vieram lhe chamar para o banho, às seis horas, já há muito estava de pé, em chambre, muito bem disposto, fumando o seu cigarro, passando uma vista d’olhos na maleta do camarote onde refulgia, numa frescura capitosa, a roupa branca - ceroulas, camisas, meias e toalhas de rosto - tudo arrumado cautelosamente, com um cuidado feminino, umas cheirando ainda a sabão, passadinhas a ferro outras.
Ah! ia deixando fora a Casa de Pensão. Tomou do livro que se achava sobre a mesa e colocou-o na maleta, ao lado, para ler na viagem.
Agora sim, não faltava mais nada. Só pedia a Deus que não chovesse, porque um embarque debaixo d’aguaceiro era um desastre horroroso.
De feito ameaçava chover. Era em Janeiro. Há dias caia sobre a cidade uma chuvinha sintomática de inverno, persistente e miúda, acompanhada de trovões longínquos, lavando a atmosfera, encharcando as ruas, alentando a população, enverdecendo as árvores. Os longos meses de seca iam ser compensados por uma abundância de chuvas consoladoras e refrigerantes. As manhãs iam se tornando frescas e já se viam passar, em tabuleiros, feixes de feijão verde e hortaliças para feira.
Zuza tinha aberto a vidraça para consultar o tempo. Os telhados, defronte, estavam úmidos e o céu de uma cor esmaecida de safira, arqueava-se, sem uma nuvem na penumbra da ante-manhã. Passava um fiscal da Câmara com o seu boné, jaqueta com botões dourados, chapéu de chuva debaixo do braço, assoando-se com estrondo.
- Tudo fechado ainda, com efeito! pensou o Zuza. Entretanto já tinha dado seis horas!
Entrou e pôs-se a reler as cartas de Maria do Carmo, trincando a ponta do bigode.
“Meu querido Zuza...”
Nesta normalista jurava como não tinha ido ao Club Iracema; que era uma calúnia o que tinham dito ao estudante..
“Tua querida Maria”.
Zuza meneou a cabeça com um ar de riso e abriu outra.
“Zuza do meu coração...”
Nest’outra Maria lamentava que o rapaz não tivesse aparecido na Escola Normal na véspera.
“Tu já não me amas, Zuza; não queiras matar-me de saudades. Todos os dias peço a Deus por ti e tu nem sequer lembras da tua futura esposa!”
E assim, uma a uma, o futuro bacharel releu toda a série de cartas da normalista, enfeixando-as depois, dobradinhas, com um cadarço.
Que horror, meu Deus, quanta banalidade! E ela a tomar a coisa a sério! A gente sempre faz asneiras de criança nessa idade!...
E guardando o maço de cartas no fundo da maleta: “- Magnífico rol de asneiras para fazer rir a rapaziada de Pernambuco.”
As horas passavam vertiginosas. A claridade larga do sol penetrava no quarto pela janela aberta, como um visita sem cerimônia, anunciando um dia seco e esplêndido.
Já lá fora, na rua, recomeçava a labuta quotidiana. Um barbeiro, que morava defronte, amolava as navalhas assobiando um trecho de fandango, com as pernas cruzadas, de frente para a rua. Passavam burricos com cargas d’água, procurando as coxias. Meninos apregoavam o Cearense.
José Pereira ficara de vir almoçar com o Zuza, mais cedo que de costume, para seguirem juntos ao ponto de embarque.
D. Sofia andava numa faina, da sala para a cozinha, com os olhos empanados de lágrimas, esquecendo as suas dores de útero para pensar no Zuza, no seu filho que ia embora.
O coronel, esse não se alterava, calmo, consultando o relógio de vez em quando, bem humorado nesse dia, passeando o seu grande ar de homem independente.
Cerca de 10 horas entrou o redator da Província anunciando a chegada do vapor.
- A que horas sai? perguntou o estudante.
- Está marcado para as duas. Em todo o caso é prudente ir mais cedo...
- Sem dúvida. Ao meio dia, o mais tardar, devo estar a bordo. Qual é o vapor?
- O Espírito Santo.
- Diabo, uma carroça!
José Pereira entrara para o quarto do Zuza, e, sentado na larga rede de varandas encarnadas, perna traçada com desembaraço, passeava o olhar morosamente naquele tabernáculo de rapaz solteiro, agora em desordem, como um ninho abandonado, enquanto o estudante acabava de fazer a toilette no aposento contíguo.
Na frente das duas malas, uma grande e outra menor lia-se em letreiros impressos e nítidos - José de Souza Nunes - Recife. Perto estava um caixote com livros e o mesmo dístico no alto.
- Dez e meia! fez o redator levando o relógio ao ouvido.
Imediatamente surgiu o Zuza lépido, esfregando as mãos, como se saísse de um banho de perfumes.
- Prontinho, disse ele.
E misteriosamente:
- Então, com quê a canalha tem-se divertido à minha custa, hein?
- Como assim?
- Oh! homem, inventaram por aí que eu deflorei a Maria do Carmo. Não leste o Pedro II e o Cearense?
- E tens culpa no cartório?
- Não, c’os diabos, mas isso é um horror! Ninguém pode mais gracejar, ninguém tem mais o direito de chegar-se a uma rapariga honesta sem intenções malévolas. Cada vez me convenço mais de que isso é uma terra selvagem, seu José Pereira! Isto é um país de bárbaros. Vocês da imprensa devem civilizar este povo, devem ensinar a esta gente a pensar e a ter juízo, do contrário...
- Mas, fala a verdade, interrompeu o outro com um ar de riso malicioso; tu nunca...
- Palavra como não! É verdade que dei alguns beijos, mas o nosso namoro nunca foi além disso, mesmo porque, tu compreendes a minha responsabilidade... Depois, só fui a casa do padrinho umas três vezes, no máximo. Calúnia, simples calúnia...
- É. Este povo é muito indiscreto...
- Indiscreto não - alcoviteiro, mentiroso, ignorante e besta, é o que ele é.
E depois de uma pausa:
- Bem, vamos almoçar que deve ser hora.
Uma vez instalado a bordo, o seu camarote do lado do mar, o futuro bacharel, de binóculo a tiracolo e boné, respirou a todo pulmão e foi assistir da tolda a manobra do vapor que suspendia o ferro.
Eram duas em ponto. O tempo estava magnífico. Ventava forte e o mar em ressaca atirava sobre o quebramar uma toalha de espuma que se desmanchava em poeira tenuíssima irisada pelo sol. A cada golpe do mar havia uma algazarra na praia coalhada de gente. Escaleres navegavam para a terra puxados a remo, destacando a bandeira do escaler Capitania do Porto.
Zuza assestou o binóculo, e, sacando do lenço, correspondeu aos acenos que lhe faziam de um escaler que se afastava. sentia agora uma ponta de saudade a espiaçar-lhe o coração. Através da confusão que reinava no seu espírito, como um ponto luminoso por entre um nevoeiro denso, via mentalmente e nitidamente a cabeça branca de D. Sofia, de sua boa mãe, e só então sentiu que uma coisa prendia-lhe ao Ceará, atraía-lhe a essa terra que ele tanto detestava. Não sabia mesmo porque, por índole, por sistema, por pedantismo.
- Sim, queria mal ao Ceará, mas não podia esquecer nunca o Ceará, porque nele ficava a sua velha que ainda há pouco, abraçando-o entre lágrimas, metera-lhe no bolso uma nota de cem mil réis e cheirando a fundo de baú.
Boa e santa velhinha! pensava ele, e já não enxergava coisa alguma, porque os vidros do binóculo estavam úmidos e enevoados.
Depois, quando o vapor singrava em direção ao Mucuripe, começou a examinar a costa cearense, como se nunca a tivesse visto de fora, da tolda de um navio. Viu passar diante de seus olhos arregalados todo o litoral de Fortaleza, desde o farol do Mucuripe até a Ponta dos Arpoadores...
Primeiro o farol, lá muito longe, embranquecido, cor de areia, ereto, batido pelos ventos; depois a extensa faixa de areia que se desdobra em ziguezague até a cidade; a praia alvacenta e rendilhada de espumas. Em seguida o novo edifício da alfândega, em forma de gaiola, acaçapado, sem arquitetura, tão feio que o mar parece recuar com medo à sua catadura.
Noutro plano, coqueiros maltratados pelo rigor do sol, erguendo-se da areia movediça que os ameaçava soterrar, uns já enterrados até a fronde, outros inclinados, prestes a desabar; o torreão dos judeus Boris, imitando a torre de um castelo medieval, cinzento e esguio; o seminário por trás, no alto da Prainha, com as suas torres triangulares; as torres vetustas e enegrecidas da Sé; o Passeio Público, com seus três planos em escadarias; a S. C. de Misericórdia, branca, no alto; o Gasômetro; a Cadeia; e por ali fora o arraial Moura Brasil, invadido pelo mar, reduzido a um montão de casebres trepados uns sobre os outros...
- Sim, senhor, pensou o Zuza, bonito aspecto para se ver de longe, barra a fora...”
Dentro em pouco o vapor começou a tombar desesperadamente. Fortaleza já não era mais do que uma pintura microscópica diluindo-se muito ao longe na tinta alvacenta do horizonte...
... E só agora, três dias depois da partida do Zuza é que Maria do Carmo sentia a dor do seu abandono, ao mesmo tempo que adquirir a certeza esmagadora de que estava para ser mãe; sim, para ser mãe de um filho espúrio, concebido num momento de desvario, mal acordada de um pesadelo horrível. Era de mais, era! Se dissesse que ela tinha deixado seu quarto para ir ter à rede do padrinho, oferecendo-se-lhe como uma fêmea desavergonhada vá; era justo que caísse sobre si toda a cólera dos homens; mas, ao contrário, ele, o infame do padrinho, é que fora alta noite ao seu quarto, provocar-lhe, impor-lhe, para bem dizer, uma coisa d’aquelas, e ela, coitada, tão inexperiente, tão tola que nem ao menos tivera coragem para dar um escândalo, expulsando-o, como se expulsa um ladrão, dando-lhe com a mão no focinho, embora com sacrifício de sua vida.
Chegavam aos seus ouvidos, indistintamente, como um surdo rumor de cochichos, os ecos da maledicência. Na Escola Normal as outras raparigas atiravam-lhe indiretas fortes, que ela não tinha ânimo de repelir como dantes.
Viam-na triste, para um canto, muito desconfiada, com grandes olheiras. Todas notavam a alterações de sua fisionomia, e certo desleixo no trajar, que faziam dela uma outra Maria do Carmo, albardeira e insociável, inimiga da convivência das companheiras, egoísta, intratável.
- Aquilo é uma coisa... comentavam maliciosamente as normalistas. A Maria viu alma d’outro mundo, não é possível.
- Que o quê, menina, são desgostos de família. Dizem que o padrinho a maltrata.
- Quem, o João da Mata? Um grandíssimo miserável. D’aí talvez seja isso mesmo.
- Não se iludam, meninas, insinuou a zarolha, a Maria ficou assim depois que o Dr. Zuza foi-se embora. Ela d’antes era até uma rapariga muito alegre, vocês não se lembram?
- Coisas deste mundo, mulher, coisas deste mundo. Ninguém deve fazer mau juízo das pessoas.
O diretor um dia maltratou-a. Ao chegar viu desenhada na pedra da aula, a giz, uma obscenidade. Ficou furioso, disse muitas grosserias às raparigas e quis saber quem era a autora de semelhante indecência.
Silêncio profundo. Ninguém se atrevia a responder.
- Tenham a bondade de dizer quem fez isto! repetiu o diretor, e, de relance, viu, na última fila, um dedo que apontava para Maria do Carmo.
- Ah! foi a senhora, D. Maria do Carmo?
Maria empalideceu.
- Eu, não senhor!
- Tenha a bondade, faça o favor de vir apagar isto.
- Mas não fui eu, Sr. Diretor, tornou ela, erguendo-se.
- Embora, venha sempre: a senhora paga pelas outras.
- Não senhor, não posso responder por uma falta que não cometi.
- Não vem?
- Não senhor...
Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo, medindo-a de alto a baixo, como se vissem nela uma transfiguração extraordinária.
- Então a senhora não vem? repetiu o homem, fazendo uma carranca medonha.
- Não senhor...
- Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. A senhora é uma insubordinada, desobedeceu à primeira autoridade deste estabelecimento. Vamos, retire-se!
Houve um silêncio grave, e Maria, tomando os livros, séria e resignada, sem olhar para as colegas, retirou-se taciturna, ouvindo atrás de si o atrito da esponja na pedra.
E tudo mais era assim, sucediam-se as contrariedades como um castigo. Crescia-lhe na alma o desgosto, como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando pouco a pouco toda a vasta cúpula do céu para se desfazer em chuva caudalosa. Tinha pena de não ser como as “outras mulheres”, indiferente a tudo, até nos momentos mais difíceis da vida. Vinham-lhe às vezes alegrias intermitentes, uma resignação infinita animava todo seu ser, e dispunha-se a enfrentar todas as conseqüências do seu desatino com uma calma heróica, sem dar mostra da mais leve tristeza.
Nesses momentos abria-se em infusões de ingênua bondade para com D. Terezinha, procurando-a, puxando conversa, oferecendo-se-lhe para pentear o cabelo, gabando-lhe os vestidos, com uma humildade de escrava. Mas a madrinha, seca e indomável, aborrecia-se com aquilo, enfadava-se, sempre de cara fechada, respondendo por monossílabos às perguntas da afilhada. Quando amanhecia mal humorada, com as suas desconfianças, inquisilava-se demais. - “Deixe-me, criatura, deixe-me, por amor de Deus, oh!” Maria não dizia palavra, recolhia-se ao silêncio do seu quarto a costurar ou a ler o Almanaque das Senhoras por desfastio, para se distrair.
Entretanto João da Mata progredia no vício de beber aguardente. Andava agora muito chegado ao Perneta e ao Guedes, de quem se dizia amigo do coração.
A bodega do Zé Gato continuava a ser o ponto de suas reuniões, onde se demoravam às vezes até alta noite a jogar a bisca num esquecimento absoluto de família e de deveres, saturados de álcool,, lívidos à luz de um miserável candeeiro de querosene. O triste ordenado que lhe pingava no bolso em cada fim de mês escorria-lhe por entre os dedos como azougue, transformando-se em fichas na banca de jogo e desaparecendo como por encanto, sem que ele próprio soubesse disso.
Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar à feira no dia seguinte!
Era preciso então tomar dinheiro a juros aos agiotas, correr toda a cidade atrás de alguém que lhe emprestasse alguns mil réis até ao fim do mês, contar as suas necessidades, as pequeninas misérias domésticas, inventar situações incríveis. Porque os seus “amigos do coração”, o Perneta e o Guedes da Matraca, também eram pobretões e perdulários, sentiam muito as necessidades do Janjão, mas não podiam lhe ser úteis por forma alguma, senão dando-lhe a ganhar no jogo quando a sorte o protegia.
- É. Eu bem sei que vocês também têm família como eu e precisam também. É o diabo, é o diabo.
D’aí as dissensões, os conflitos, em casa, com a mulher por causa de dinheiro. Ele já não conseguia impor a D. Terezinha a sua autoridade de chefe da casa, como d’antes; ao contrário, agora suportava-lhe as impertinências, as saraivadas de impropérios, com uma passividade de animal submisso.
- Tenha vergonha, homem de Deus, tenha vergonha, que você já não é criança, dizia-lhe nas bochechas, quase lhe abanando o queixo. Olhe para as barbas que tem na cara, porte-se como gente!
Ele ouvia tudo aquilo sem dizer água vai, caladinho, como um prego, murcho, impotente.
Como os tempos mudam! Há poucos dias era ele o forte, o manda-chuva naquela casa; bastava um olhar seu, por cima dos óculos escuros, para que todos, D. Terezinha, Maria do Carmo e a Mariana, estremecessem com medo, porque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de cólera; agora não, tinham-se trocado os papéis; bastava um olhar de D. Terezinha para que ele desse-lhe as costas disfarçadamente para evitar barulho.
- Basta, basta, basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele com os olhos chamejantes, de mãos fechadas.
E escafedia-se até ao fundo do quintal para não lhe ouvir os disparates.
Estava magro, muito magro, e queixava-se de dores nos intestinos.
Diabo de Repartição não lhe deixava tempo para nada. Era um trabalhar sem descanso, sentado a uma banca, das nove às três, copiando ofícios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse quem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a metade do ordenado... Mas qual! tudo uns políticos sem importância, uns legalhés que iam para a Câmara proferir barbaridades, a repetir que o país estava à beira d’um abismo e nada mais. Até estimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra parte, e escusava perder tempo a emporcalhar papel, para no fim do mês - tome lá seu ordenado, uns míseros vinténs que mal chegavam para o boi. Uma desgraça.
De resto a Maria não lhe dava muito cuidado. A princípio ainda lhe fizera uns carinhos, dera-lhe uns cortes de chita e um rico vestido de cassa da Índia para agradar, porque também seria uma ingratidão vê-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma. Achava até que tinha feito muito. Outros havia piores que ele, ora!
- Meu bem, tristezas não pagam dívidas. É andar, é andar sem olhar para trás.
Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenha, que sentia “uma coisa” bolir-lhe na barriga, João estremunhou. - Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade. Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sítio, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma. Dá-se tanto d’isto...
- E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do lenço, cabisbaixa.
- E depois? E depois... ora adeus! e depois dá-se a alguém para criar o trambolho e tu voltas à tua santa vidinha.
Maria soluçava baixo, fungando numa crise nervosa.
- Já te pões a chorar como uma criança! Tolice! Estou a dizer-te que o caso é muito simples...
Uma tarde em que o Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear ao Trilho, João da Mata entrou alvoroçado, sem fôlego, com uma notícia a escapulir-lhe da boca.- Sabem quem está muito doente?
Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. - Não, ninguém sabia. Algum conhecido?
- O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque há um pouquinho. A rua está cheia. Diz que está bem mal.
- De quê, menino? interrogou o juiz muito admirado e já nervoso.
Houve logo um interesse comovido nos circunstantes.
E João, sentando-se, sem apertar a mão aos Mendes, pálido, limpando a testa, foi dizendo o que sabia: - Muita gente defronte do palácio. Tinham sido chamados todos os médicos, e todos, menos o Dr. Melo, eram de parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha acabado de jantar e lia à cabeceira da mês a correspondência do sul chegada naquele momento, quando começou a sentir-se mal - embrulho no estômago, tonteiras, calafrios. Imediatamente, ergueu-se, lívido, e, ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!...