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A NORMALISTA

adolfo caminha

- Ai! fez D. Terezinha cruzando as mãos sobre o regaço. E depois?

- Depois conduziram-no à cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta...

João fez esgar de nojo. Todos cuspiram.

- ... e quando os médicos chegaram já o encontraram sem pinga de sangue no rosto, vomitando ainda golfadas de bílis sobre a esposa que o amparava, coitada, nem sei mesmo como...

- Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras.

Maria do Carmo ouvia silenciosa e compungida a narração do padrinho, ao lado do piano, com os olhos úmidos e o ar assustado.

- Mas, João, isto é sério? perguntou o juiz municipal erguendo-se com os braços cruzados, estupefato.

- Oh! senhor, pois eu havia de inventar uma coisa d’esta? Admiro até como vocês ainda não sabiam, porque a rua está cheia. Eu soube ali, na bodega do Zé Gato.

Fez-se um silêncio repassado se suspiros.

- Um homem tão forte, vendendo saúde! fez o juiz.

- Mas bebia muito, coitado, tornou João da Mata, respirando com força. Era homem que não bebia água.

- Por isso não, atalhou D. Terezinha. Que asneira! Tanta gente se embriaga todos os dias e não lhe sucede nada.

- D’aí pode ser que escape, murmurou D. Amélia; não queiram sepultar o homem em vida.

- Pode ser.

- Pode ser, repetiu o juiz. A ciência faz milagres.

- Que dúvida!

Então o Mendes tomando o chapéu, muito impressionado, as mãos trêmulas:

- Bem, vamo-nos Amélia. esta vida, esta vida!

Era cedo, insistiu D. Terezinha triste. Mas os Mendes pretextaram afazeres, lembraram as crianças que tinham ficado com a criada e despediram-se.

Maria do Carmo passou a noite nervosa com insônias, sentida com a doença do Dr. Castro, muito apreensiva.

Não podia se conformar com a idéia da morte do presidente, o homem da moda, o “querido das moças”, o grande amigo do Ceará, que tantos benefícios fizera a esta província, mandando construir açudes no sertão, reconstruindo o Passeio Público, ativando as obras do porto, facilitando a emigração, prodigalizando esmolas, e, finalmente, introduzindo em Fortaleza certos costumes parisienses, como por exemplo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de aparar a cauda aos animas de sela.

Lembrava-se as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar num sotaque aportuguesado, muito moderado na conversação íntima, as suas maneiras delicadas, os seus belos dentes branquejando sob um bigode sedoso e bem tratado. Uma vez, no baile oferecido à oficialidade do cruzador “1º de março” dançara com ele uma quadrilha, por sinal bebera muita champagne nessa noite a ponto de ficar um pouco tonta da cabeça. Coitado! uma alma boa. É verdade que tinha demitido o Pinheirão mais os filhos, deixando-os na miséria, mas no dia seguinte mandara-lhe um envelope com cinqüenta mil réis. Tudo por causa da política; a política é que o fazia mau. Tinha rasgos de generosidade fidalga, lá isso era inegável, tanto assim que um dia dera ao negro Romão, um negro sujo coma aquele, cinco mil reisinhos. Era uma pena se morresse, coitado, havia de fazer uma falta tão grande. ... - Compadecia-se como se fosse seu parente. Balbuciou uma promessa às almas do purgatório e só muito tarde, pela uma hora da manhã, conseguiu adormecer.

Ao outro dia procurou saber logo como ia o presidente. As notícias eram cada vez mais desagradáveis. As janelas do palácio continuavam fechadas e os transeuntes olhavam contristados o casarão ao redor do qual pairava uma melancolia lúgubre. Os boatos multiplicavam-se penetrando todas as casas como um vento de desgraça. A Província suspendeu a publicação por condolência, e os jornais da oposição fizeram uma pausa nos seus ataques à administração provincial.

As filhinhas do presidente estavam em casa do José Pereira, na rua Major Facundo, duas crianças louras e inteligentes, que falavam francês, uma nascida em Paris, e outra no Rio de Janeiro. Um cabo de ordem, arrastando o chanfalho, passava a toda pressa em direção ao telégrafo. O espírito público começava a inquietar-se com a sorte do presidente, e os próprios adversários políticos enchiam-se de penas concentradas.

Pela noite desabou um formidável aguaceiro e toda a população, por assim dizer toda, aguardava ansiosa, dentro da casa, ao sussurro da chuva que caía fora, sacudida pelo vento, notícias sobre o estado do Dr. Castro. Maria, como toda a gente sentia um peso no coração ao lembrar-se daquele homem sadio e robusto, a seus olhos a síntese da mais requintada elegância. que tanto amara o Ceará, e cujo nome andava gravado a canivete até nos troncos dos cajueiros, nos sertões por onde tinha andado, tão moço ainda e já às portas da morte, acabando-se como qualquer mortal! - A Providência às vezes era injusta com os homens: poupava um ente abominável como o padrinho e um pelintra desleal como o Zuza, para aniquilar, enquanto se esfrega um olho, um homem da força do Dr. Castro, “útil ao país e benfeitor da humanidade!”

Indignava-se com essa preferência injusta das cortes celestes , e, de si para si, concluía que não valia a pena uma pessoa ser honesta, trabalhar noite e dia, dedicar-se a uma coisa nobre, engrandecer-se aos olhos da humanidade para um belo dia - toma! vá para a cova que é seu lugar! Uma coisa estúpida a vida, afinal de contas.

Entretanto outros viviam aí a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar, a iludir os incautos e tinham vida para um século inteiro, livre de congestões, de febre amarela e de quanta doença há.

Acordou cedo e foi pôr-se à janela à espera de alguém que lhe desse notícias do presidente. O céu estava carregado de nuvens compactas e neblinava. A casa da viúva Campelo, defronte, estava fechada; a viúva tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica. Passou um empregado da Estrada de Ferro, condutor de trem, com as calças arregaçadas, comendo pão. Maria chamou-o: - O Sr. sabe me dizer como vai o presidente?

- Faleceu ás duas horas da madrugada, respondeu o sujeito, mastigando, indiferente.

- Obrigado, disse Maria, empalidecendo, e entrou imediatamente batendo o postigo. - Coitado! foi dizendo pela casa, com grade mágoa na voz. Coitado! Que pena!

- Que foi? perguntou o amanuense, que subia o corredor em ceroulas.

- O presidente morreu!...

João parou assombrado como se lhe tivesse caído um raio defronte.

- Morreu, hein?!

- Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro.

- Realmente! E vá gente se fiar na justiça divina! Morre um homem d’aqueles, da noite para o dia, como qualquer bêbedo!

E lá foi resmungando contra Deus e contra os padres.

Os sinos da Sé começaram a dobrar a finados. Aumentava a chuva, que já se ouvia chiar nas calçadas como uma panela fervendo.

Maria entrou para o seu quarto, aflita. Essa manhã foi para ela de tristeza e desânimo. Acudiam-lhe à imaginação lembranças extravagantes, idéias lúgubres, como aves negras que pousassem de chofre num arvoredo, alvoraçadas, cantando sinistramente. Caía em abstrações prolongadas em que se punha a contar os dedos maquinalmente, como se fosse ensandecer. Apoderou-se dela um medo pueril, um inexplicável pavor das coisas sombrias, um supersticioso receio d’almas d’outro mundo, um mal estar, um quer que era que lhe trancava a respiração, que lhe oprimia o peito.

Procurava disfarçar as apreensões, arrumando os trastes do quarto, mexendo nos baús, numa inquietação crescente, num vira-e-mexe cada vez mais açodado, abrindo e fechando gavetas, atarantada, com o coração aos pulos.

- O enterro! o enterro! bradou à porta a Mariana que ia às compras.

Todos correram à janela. D. Terezinha, na precipitação, deixou cair um copo, que se esfarinhou; e João da Mata esquecera os óculos, enfiando as mangas da camisa.

Maria arrancou como uma louca, dando um encontrão na mesa do centro da sala de visitas.

Continuava a chover, agora devagar, com uma insistência importuna, o sol a espiar por trás d’uma nuvem, frio, indeciso, mandando, com um supremo desdém pelas coisas cá de baixo, uma réstia de luz tímida e complacente sobre a manhã úmida.

O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemitério.

Maria do Carmo assistia com a respiração suspensa e um nó na garganta o desfilar do préstito, o caixão levado por seis homens de preto, coberto de galões dourados debaixo da chuva miúda, o acompanhamento - uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de chapéu-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da música do batalhão que tocava à funeral.

Os padres já tinham passado, na frente, com os seus acólitos, muito graves, olhando para o chão evitando as poças d’água. Um carro seguia atrás, todo fechado, devagar.

E a chuva a cair e a música a tocar o funeral, deixando por onde passava uma tristeza vaga que lembrava um dia de finado entre as sepulturas...

D. Terezinha enxugava os olhos com a aba do casaco e João da Mata pigarreava disfarçando a comoção.

Maria ficou à janela vendo passar o resto do acompanhamento, sujeitos sem paletó, de chapéu de palha de carnaúba, outros sem chapéu.

- Que triste, meu Deus!

E entrou muito inquieta, com um frio na medula, as pupilas dilatadas, pálida, toda trêmula. Mas no meio da sala perdeu o equilíbrio - escureceu-lhe a vista, tropeçou numa cadeira e estendeu-se no chão pesadamente, como morta.

- Chega! A Maria teve uma coisa! gritou D. Terezinha, correndo para a filhada. Chega, Janjão, chega depressa!

- A água Florida, a água Florida, em cima da cômoda!

O amanuense precipitou-se pelo corredor a grandes passadas, atônito, aterrado, sem saber o que fizesse, seguido pelo Sultão que lhe tomou a frente ganindo.

- Jesus, o que foi?!

- Sei lá, uma coisa que lhe deu de repente... Segura aí nos braços...

E ambos, João da Mata e a mulher, pálidos, muito vexados, conduziram a rapariga para a alcova, arrastando os pés com o peso.

- Chega depressa água Florida, mandou João abando o rosto à doente

D. Terezinha trouxe a garrafa e começou logo o afanoso trabalho de umedecer a têmporas de Maria, dando-lhe a cheirar o líquido, friccionando-lhe a testa com força, numa aflição.

- Um copo com água, um copo com água, Janjão.

Maria deu um grande suspiro, entreabrindo os olhos, estendida no comprido na larga cama de jacarandá.

- Cheira mais, cheira mais, recomendava D. Terezinha, agora mais aliviada.

Maria murmurou que estava melhor.

- Já pode se sentar? perguntou o amanuense, chegando o copo. Vá, faça um esforçozinho... Upa!

- Não seria bom chamar o médico? lembrou D. Terezinha.

Maria fez com a mão que não, e com a voz fatigada, apoiada ao espelho da cama: - “Não era preciso, já estava boa...”

- Sentes alguma coisa? quis saber o amanuense. Se sentes, dize.

- Apenas uma dorzinha aqui... - E indicou o flanco esquerdo.

- Bom, bom, bom, quietinha...

E desde esse dia aumentaram as suspeitas de D. Terezinha, que observava agora os menores movimentos da afilhada, insistentemente, examinando-lhe a roupa usada, medindo-lhe o volume da barriga, perseguindo-a com os olhos.

- Isto, isto ainda acaba mal! pensava ela.

XIII

Em poucos meses o estado interessante de Maria do Carmo foi carecendo de cuidados mais sérios, e João da Mata assim o julgou, tratando logo de arranjar uma casa, um sítio nos subúrbios, onde ela pudesse tranqüilamente e sem escândalo, alijar a carga, desembuchar a criança. Mas onde e como poderia ele dispor as coisas do melhor modo, sem despertar a curiosidade pública? Esta era a grande questão que afligia o amanuense, cada vez que seu olhar vesgo descia sobre o ventre da afilhada, vendo-o crescer dia a dia, tomar uma forma esférica iniludível, arredondar-se, arquear-se para fora numa convexidade característica e esmagadora. - “E agora?” interrogava-se ele, passando a mão na calva. O caso ia se tornando grave, urgia fazer qualquer arranjo logo e logo, antes que a Teté rebentasse por aí em quatro pedras a acusá-lo violentamente, atirando-lhe em rosto a sua infidelidade, o seu crime, a sua pouca vergonha. A rapariga engordava a olhos vistos: só um cego não veria dentro d’aquela redondeza uma criatura humana em formação.

Toda ela - o ventre, os seios, os braços, o rosto - inchava, adquiria um cunho extraordinário de maturidade precoce. Notavam-se-lhe agora, asperezas na pele, uma cor seca de folha sazonada e certo ar amolentado que se traduzia numa sonolência infinita e na prematura tendência para o abandono de si mesma.

Com efeito, Maria, apenas com quatro meses de grávida, tinha perdido muito da antiga expressão insinuante e viva de sua fisionomia. Na idade em que a mulher, como a flor, em plena exuberância dos tecidos, desabotoa numa singular alacridade de cores, toda frescura e beleza, ela, que não transpusera ainda os dezoito anos, olhava a vida com uma indiferença, única, estiolando ali assim entre as paredes d’aquela casa sem ar e sem luz, esperando resignadamente o seu fim. Queria ver até quando duraria aquele estado de coisas, até onde a queriam levar!

Já não chegava à janela com vergonha de ser vista pela vizinhança e pelos conhecidos - refugiara-se, como uma culpada, no ádito misterioso do seu quarto, egoisticamente, sem ao menos lembrar-se da Lídia que não a esquecia e que lhe mandava de onde em onde presentezinhos, recados e abraços.

E João inquietava-se, procurando meio de evadir-se da alhada em que se metera com risco de um escândalo medonho!

Havia um mês que Maria do Carmo caíra com o ataque no meio da sala. D. Terezinha ruminava sutilidades para descobrir uma sombra sequer, um vestígio que confirmasse de uma vez as suas suspeitas. Batera todos os aposentos, todos os cantos da casa, indagara da lavadeira se não vira alguma nódoa, alguma mancha na roupa da afilhada; acordava vezes sem conta, alta noite, prestando ouvidos a qualquer ruído, por mais leve, e nada! absolutamente nada! Faziam-lhe espécie os modos reservados de Maria, esse impenetrável desgosto que a punha triste, com um ar esquisito de “galinha choca”. Alguma coisa havia, por força, era capaz de jurar.

D. Terezinha nunca mais dormira com João da Mata e era só quem passava bem naquela casa; até estava criando banha no pescoço. Pudera! Uma vida relativamente calma, senhora absoluta de seu nariz, ganhando um dinheirão com o negócio de rendas que mandava para o norte pelo despenseiro do vapor, tudo corria-lhe às mil maravilhas. Queria ter um pesinho para rusga, isso queria. E se ainda “fazia vida” com o Janjão, era por condescendência, para não dar escândalo; achava feio uma mulher deitar-se com um homem e depois - passe bem - abalar por esse mundo afora, como uma doida, atrás de aventuras. Não era mulher para essas coisas; o que queria era o seu descanso - comer bem, dormir bem, passar bem; não admitia que a fizessem de tola.

Tinha uma amiga sincera - a Amélia, senhora do Dr. Mendes. Essa, sim, sabia-lhe apreciar as virtudes, dar-lhe importância, tratá-la com consideração, mesmo porque ela, Terezinha, trabalhava para ganhar a vida honradamente.

- Você é tola, Teté, a gente não deve se matar, dizia-lhe a mulher do Dr. Mendes.

- Lá isso é verdade, mas você o que quer? É fado, é mania...

As conhecidas admiravam-lhe a boa disposição para o trabalho. Sentava-se à máquina às dez horas do dia, cabelos úmidos sobre a toalha de banho estendida nos ombros e labutava três, quatro horas consecutivas a cantarolar modinhas, costurando para o fornecedor da polícia.

E sempre gorda, sadia e forte!

- Mulher mouro! dizia João da Mata aos amigos.

Uma tarde, ao voltar da rua, o amanuense entrou alegre, como se tivesse tirado a sorte grande na loteria, saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes. Vinha um pouco toldado.

- Olha esse jantar! bradou para dentro, atirando fora aponta do charuto. E começou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville, então muito repisados

Vai, marinhei...ro,

vôa ligei...ro,

velas à brisa

no espelho do mar

E logo:

Nunca percas a esperan...ça,

Quando houver temporal,

que há de ver a bonan...ça,

e depois o ... final

- À cena a Naghel, à cena a Naghel! bradava o amanuense batendo as palmas com fúria.

- Ainda mais esta! resmungou D. Terezinha na sala de jantar.

- Olha essa lambugem! tornou João enfiando pelo corredor.

Estava num de seus dias felizes. Foi até à cozinha acompanhado pelo Sultão que lhe pulava às pernas, ganindo alegre. Mariana mexia o pirão escaldado de farinha num velho alguidar de barro, com a saia arrepanhada na cintura, o casaco desabotoado, exibindo como de costume, o seu detestável colo nu.

- Como vai isto, ó estafermo! rosnou o amanuense, espalmando a mão em cheio nas ancas da rapariga.

- Sô Janjão... fez esta pudicamente.

E João trauteou, fazendo festa ao cão.

Mariana diz que tem

sete saias de veludo...

- Tenha modos, homem de Deus! repreendeu D. Terezinha. Tenha juízo, dê-se a respeito!

- É boa! Então já não de pode ser alegre?! Ora muito obrigado!

Durante o jantar declarou que a Maria, no dia seguinte, domingo, ia passar uma semana no Cocó, em casa da tia Joaquina, conhecida pela velha dos cajus.

- Faz ela muito bem, aprovou D. Terezinha, com enfado, cortando o cozido.

E João, muito meigo, olhando por cima dos óculos:

- Você compreende, ela anda adoentada, teve outro dia aquele ameaço... não tem apetite, e o médico, o Dr. Azevedo, disse-me a mim que aquela gordura não val’nada, é toda postiça, é uma gordura falsa... Sim, a rapariga coitada, precisa tomar o seu leitinho, descansar um pouco...

Maria, que se sentara defronte da madrinha, não pode ocultar seu embaraço. Fez-se escarlate, e muito submissa:

- É se a madrinha consentir...

- Ainda mais esta! Podes ir até p’ra China quanto mais p’ro Cocó!...

- E tu, não queres ir também? perguntou João com certa frieza.

Mas D. Terezinha torceu o beiço com desdém:

- “Só se estivesse doida, credo”.

- Vá você com sua afilhada.

- Ah! se eu pudesse passar uma temporadazinha fora... suspirou João. Mas qual, minha filha, não posso faltar um só dia à Repartição, que o chefe não venha logo com os seus arrebatamentos que o governo não sustenta vadios, que o empregado público deve ser infalível como o papa, e tanta asneira!... Coitado, já está velho e suspira, como eu, por uma aposentadoria.

Houve um ligeiro silêncio.

- Pois é isto, tornou o amanuense limpando o bigode com a toalha. Está ouvindo, Maria? Prepare o seu bauzinho, a sua roupinha. Amanhã depois da missa da madrugada. É p’ra lá do Outeiro, na Aldeola, um sitiozinho, um lugar muito bom, muito saudável. A casa é que é pobre, mas, ora! pobres somos nós também...

Os talheres batiam nos pratos com força. João falava mastigando, com a boca cheia, cortando o invariável e sediço lombo assado, com uma voracidade espantosa.

Galinhas debicavam debaixo da mesa, cacarejando. Sultão muito rechonchudo, sentado nas patas traseiras, orelhas em pé, alongava o olhar súplice para cima, à espera que lhe caísse um osso ou uma pelanca. Ouvia-se o miar desesperado de um gato na cozinha. De onde em onde a voz da Mariana punha em debandada os parasitas de crista: - “Chô, galinha! Chô!...”

Havia um rumor d’asas pesadas, e um velho galo de cauda furtacor estendia o pescoço num cocorocô estridente e prolongado que fazia João fechar os ouvidos, berrando para Mariana que enxotasse “aquele demônio”.

A sala de jantar era uma espécie de alpendre assentado sobre grossos pilares de tijolo, abrindo toda para o quintal, onde, àquela hora, via-se a roupa lavada a enxugar, de uma brancura de hóstia, ao redor da cacimba. Fazia ângulo à esquerda com a cozinha, e, à direita, um velho muro escalavrado separava o quintal d’outros quintais, com uma medonha dentadura de cacos de garrafa.

Desde as três horas começava a fazer sombra no alpendre e às quatro já se podia respirar ali a frescura das ateiras.

Sobre a mesa nada mais que um toalha com manchas de gordura, pratos e copos em desordem, uma moringa muito estragada, bananas e laranjas.

D. Terezinha fazia bocados de pirão com os dedos em pinha e atirava a Sultão.

- Boa alma aquela tia Joaquina, continuou o amanuense acendendo o cigarro. O mestre Cosme, esse é um homem pobre, coitado, mas honesto como poucos. Vive de vender lenha na feira... Bom velho!

- Leva estes pratos, Mariana, disse D. Terezinha erguendo-se.

Tinha jantado num momento.

A tia Joaquina, conhecida no mercado pela velhinha dos cajus, e mais o mestre Cosme, eram um pobre casal que moravam na Aldeota, cerca de um quilômetro da cidade, numa casinhola de taipa, dentro de um largo cercado de pau-a-pique plantado de cajueiros, todo verde no inverno, com um grande poço no centro, cavado toscamente, e ao fundo do qual sangrava um veio d’água cristalina.

Era aí que viviam, há anos, desde a seca de -77, entre brenhas de camapus e matapasto, à sombra dos cajueiros, felizes, sem filhos. Corria-lhe a vida como um abundante manancial d’águas límpidas em leito de areia.

Pela manhã, muito cedo, mestre Cosme saltava da rede armada no alpendre, enfiava a grossa camisa d’algodão e lá ia, com um xícara de café no estômago, atrás da jumenta, da sua inseparável jumenta, que lhe dava o pão de cada dia e que carinhosamente chamava-a Coruja. O dócil animal costumava pastar à beira da cerca, tão feliz quanto o dono, cuja presença punha-lhe uma expressão reconhecida no olhar manso. Mestre Cosme metia-lhe o focinho no freio, armava-lhe a cangalha, e abalava para o morro do Cocó a explorar a mata, a fazer lenha para vender no mercado a dez tostões a carga. Um dinheirão!

Mestre Cosme não queria vida melhor. Ao por do sol voltava com seus ricos dobrões na ponta do lenço, escanchado na Coruja, sem cuidados, debaixo do seu grande chapéu de palha de carnaúba.

Tia Joaquina ficava trocando os bilros na almofada, Mas, em chegando o fim do ano, ia também à cidade fazer o seu negócio, com uma grande cuia na cabeça: - “Olha o cajuzinho bom do Cocó! Olha o cajuzinho bom!” E voltava com a cuia vazia e com a isquinha de fígado para a ceia ou com o cangulinho fresco d’alto mar.

Chamavam-na a velhinha dos cajus, porque os cajus que tia Joaquina vendia tinham um sabor especial, eram doces como açúcar.

Queriam-se os dois como um casal novo em lua de mel. “meu velho” e “minha velha” - é como se tratavam.

João da Mata conhecia-os de longa data, desde a seca, por sinal naquele tempo tinham uma filha moça - também Maria (Maria das Dores) que morrera das febres em 77. João era comissário de Socorros e fazia-lhes muitos benefícios. Mestre Cosme morava, então, no Pajeú, numa palhoça miserável.

- Tempo de calamidades! murmurava o velho ao lembrar-se da seca.

O amanuense viu o mestre Cosme no mercado e teve a idéia de lhe falar da ida de Maria do Carmo para a Aldeota “-Tinha um grande favor a pedir ao mestre Cosme”, começou, pousando a mão no ombro do velho

- Pois diga lá... Seu Joãozinho sabe que a gente vive no mundo p’ra servir uns aos outros...

- É isto, mestre Cosme: A Maria, minha afilhada, tem andado doente, coitada, está fraquinha, precisa tomar um pouco de leite fora da cidade... Eu queria que ela fosse passar uns tempos no Cocó, a rapariga tem um fastio que até mete pena...

O bom velho ficou admirado: “- Só isso?... Ora, seu Joãozinho, isso não é favor! Eu até estimo. A menina pode ir quando quiser. È casa de pobre, vocemecê bem sabe, mas a gente sempre veve...

- Pois está bem, mestre Cosme, a pequena vai domingo cedo. Diga à tia Joaquina. Deixe estar que não lhe esquecerei. Lembra-se da seca?...

- Se me alembro? Ora, ora, ora, como se fosse hoje. Comi muita farinha do seu Joãozinho, pois não hei de me alembrar? Aquilo é que foi morrer gente!...

- Bem. Você ainda mora na mesma casa, não é assim?

- Sim senhor, p’ra lá do Asil; na Aldeota, à direita de quem sobe...

- Muito bem, adeus. Domingo, sem falta. Tome lá p’ra você comprar fumo.

E João deu um níquel ao velho.

Estava tudo arranjado.

O amanuense começou a ver claro na espessa caligem de seu espírito. Decididamente era um homem de recurso.

No domingo, com efeito, depois da missa da madrugada na Sé, Maria do Carmo e o padrinho seguiram para a Aldeota, a pé.

Ainda tremeluziam estrelas no alto. Para as bandas do Coração de Jesus, por ente os coqueiros que se avistavam da praça do Colégio, nuvens esfarripavam-se numa soberba apoteose de púrpura e violeta.

Tinham-se apagado as luzes da cidade e pouco a pouco, imperceptivelmente, como numa mágica, sucediam-se as nuances, cada vez mais claras, esbatendo o contorno das coisas há pouco difundidas numa meia tinta escura. Ia-se fazendo gradativamente a majestosa mise-en-scêne do dia: clarões rasgavam-se d’um e d’outro lado do horizonte, incendiando a fachada dos edifícios e o cabeço dos montes longínquos, iluminando tudo...

Ao passarem pela Imaculada Conceição, a normalista olhou por entre as grades do colégio. Lá estavam, como antes, sombrios e silenciosos, os quatro pés de tamarindo, numa imobilidade tímida e respeitosa. Ouvia-se lá dentro o coro abafado das educandas ora pro nobis...ora pro nobis. Maria teve um estremecimento, um vago desejo de viver como as irmãs de caridade; mas passou logo...

Ia vestida de preto, com o pescoço e a cabeça envolvidos num fichu cor de creme, segurando o manual da missa.

João ao lado fumava distraidamente, muito preocupado.

Chegaram à praça do Asilo. O grande edifício, à esquerda, abria as janelas sonolentas para o descampado. Havia luz dentro. À direita, no meio da praça, a “cacimba do povo”, cor de tijolo, em forma de quiosque, desolada àquela hora, tinha um aspecto misterioso, quase lúgubre. E adiante, lá longe, por trás da floresta baixa e espessa, branquejavam os morros do alto Cocó.

Já era dia. Mulheres em tamancos passavam para a cidade falando alto, de cachimbo no queixo, cuia de hortaliças na cabeça, ar desenvolto, chale trançado.

João da Mata perguntou a uma delas “se ainda estava longe o mestre Cosme?”

- Hum, hum, respondeu a mulher, meneando a cabeça, sem tirar o cachimbo da boca.

E voltando-se:

- Está vendo aquele cercado lá adiante, aquela casinha branca na encruzilhada? pois é ali.

- Obrigado.

Corria um ar fresco e matinal. Revoada de periquitos, num vôo de flecha, cortavam a limpidez da atmosfera e desciam d’um e d’outro lado da estrada sobre o matagal espesso e verde. As primeiras chuvas do ano tinham fecundado a terra, cuja exuberância ostentava-se agora prodigiosamente na esplêndida paisagem que os olhos de Maria do Carmo viam com admiração. Sentia-se um fartum de terra úmida que fazia gosto. As matas da Aldeola, de um verde gaio pitoresco, estendiam-se por ali fora, a perder de vista, eriçadas pelo terral, sob a larga irradiação do sol nascente.

Aquela estrada branca de areia, larga e interminável, desenrolava-se aos olhos da normalista como uma via láctea de ilusões, como um caminho de ouro que a conduzisse a uma outra vida, completamente outra daquela que até ali vivera, a uma vida sossegada, sem hipocrisias e sem traições, sem dores e sem lágrimas...

Fazia-lhe bem, como um tônico, o ar fresco da manhã que lhe bafejava o rosto. Sentia-se melhor respirando aquele ar, bebendo toda a selvagem frescura do campo, todo o delicioso, o inefável perfume que se levanta dos crotons e das salsas bravas.

- Que dizes a isto, hein? perguntou João bruscamente, apontando o campo. Vais engordar, minha filha, vais passar bem. Para longe a tristeza, para longe as mágoas, e deixa correr o marfim.

E descrevendo um círculo com a mão espalmada.

- Como está isto bonito! Não há notícia de inverno igual. Mete inveja, a quem mora naquele inferno de cidade. Uma delícia, Maria, isto é que é vida! O que vais engordar!

Aproximaram-se da casinha de mestre Cosme. Vacas babujavam silenciosamente e voltavam a cabeça com uma vagarosa melancolia no olhar.

Os velhos já estavam de pé na porteira do cercado.

- Ora muito bom dia! saudou o amanuense

- Louvado seja N. S. Jesus Cristo, correspondeu a tia Joaquina, recuando. - Então é esta a sua afilhada.

- Esta mesma, tia Joaquina. Moça feita e... bonitona, como está vendo.

- Entrem, entrem, convidou mestre Cosme solícito.

- Sim senhor! fez a velha admirada. Bonita mesmo, pode dizer! Coitadinha, parece que vem tão cansada...

Maria teve um sorriso consolado. Estava, com efeito, cansada e pálida.

Houve logo um princípio de intimidade entre ela e os velhos, que não cessavam de contemplar o seu belo perfil de noviça envolto numa penumbra melancólica.

Provisoriamente instalada no seu bucólico e nemoroso retiro da Aldeota, longe de tudo que lhe arreliava o juízo, a um bom quilômetro das rabujices de D. Terezinha e do mau hálito de João da Mata, outra foi com efeito a vida de Maria do Carmo. O viver simples e sossegado de Mestre Cosme e da tia Joaquina, o aspecto úmido da mata resplandecendo num fundo verde claro e onde variados matizes da flora agreste punham efeitos surpreendentes, o bom leite puro e fresco bebido pela madrugada à porta do curral, e, à tardinha, quase ao anoitecer, o violão de mestre Cosme gemendo saudades de um país remoto e abençoado, a liberdade que se bebia ali na larga convivência da Natureza, tudo isto robustecia-lhe o corpo e a alma, inoculando-lhe no sangue um conforto viril, ressuscitando-lhe o quase extinto amor à vida, a alegria, a mocidade, e as apagadas reminiscências do bom tempo em que ela, ainda inocente, em Campo Alegre, ia esperar o papai que voltava da vasante.

Que mudança na sua vida, que transformações desde 77! Antes nunca tivesse saído da Imaculada Conceição para se meter numa escola sem disciplina e sem moralidade, sem programa e sem mestres, e onde uma rapariga, filha de família, é expulsa da aula porque outra de maus costumes escreveu obscenidades na pedra!

Mil vezes a Imaculada Conceição com os seus claustros, com as suas capelas, com o seu silêncio respeitoso, com a sua disciplina austera; ao menos não teria voltado à casa dos padrinhos, àquela maldita casa de hipócritas, e não teria dado espetáculos com Sr. Zuza.

Ah! o Zuza... Vinha-lhe um forte desejo de vingar-se do estudante, de caluniá-lo e de culpá-lo pela sua desgraça. Àquela hora o que não estariam dizendo d’ela na cidade?...

Pensava essas coisas no seu pobre quartinho de taipa abrindo para a Natureza, enquanto tia Joaquina fazia rendas.

Dentro de um mês era notável a influência do campo na sua saúde. Criara novas cores, novo sangue, muito solícita agora nas preocupações domésticas.

- A menina Maria está criando banha! admirava a tia Joaquina. Sim senhora!

- O leite, tia Joaquina, o leitinho é que tem me feito bem.

João da Mata aos domingos, invariavelmente, ia ver a afilhada, afetando grande interesse por seu estado. Dizia-lhe as novidades, os escândalos, dava-lhes lembranças da Lídia Campelo, e, ao retirar-se prevenia: - “Se houver necessidade mandem-me dizer”.

- Vá descansado, seu Joãozinho, vá descansado, que há de chegar o dia...

Mas o estado de Maria do Carmo não inspirava cuidados. O útero revigorava, funcionando com a regularidade precisa d’uma excelente máquina moderna; por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira pontadas.

O amanuense exultava, alegre e feliz. A princípio receara um aborto, mas agora tinha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da rapariga.

- É, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom útero é tudo na mulher: eqüivale a um bom cérebro!

E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito do que uma simples gota de esperma pudesse gerar um homem!

XIV

A ausência de Maria do Carmo não passou despercebida às rodas de calçada e aos freqüentadores do Café Java, cujo tema quotidiano - a política - não lhe satisfazia o prurido de entrar pela vida alheia a esmiuçar escândalos como quem procura agulha em palheiro.

Nas portas de botica, nos cafés, nas repartições públicas, mo mercado, em toda aparte comentava-se o desaparecimento da normalista, em tom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princípio, depois abertamente, sem rebuços, com uma ponta de perfídia, traindo a sisudez convencional da burguesia aristocrata.

Que tinha ido tomar ares a Maracanaú, afirmavam uns acentuando a ironia: outros - que andava adoentada de uma pneumonia “proveniente de desarranjos na madre”; outros - que estava proibida de sair à rua e de chegar à janela por desconfianças do amanuense. Alguns, porém, como o José Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela, que a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada no Cocó, em casa de uma tal Joaquina Xemxem, por sinal o Manoel Pombinha, tipógrafo, “os vira passar uma note embuçados numa capa preta” caminho do Outeiro.

Na Escola Normal rebentavam suspeitas à flor das discussões que preenchiam o intervalo das aulas.

Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma não era mais moça, não, meu bem. Ela sempre fora muito metida á aristocrata, por isso mesmo caíra na mãos de um Zuza. Era bem feito! Uma grandíssima orgulhosa com carinha de santa. Aí estava a santidade...

Vinham à baila casos análogos de filhas-famílias que tinham ido para fora da cidade tomar ares e, no fim de contas, iam mas era “desembuchar” onde ninguém pudesse ver...

- Então, já apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse.

O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas histórias e ninguém descobria a incógnita do problema.

Aproveitou uma ocasião em que João da Mata jogava a bisca no Zé Gato. O amanuense estava já um pouco atordoado pela cachaça.

É agora! pensou da Matraca, e formalizou-se, carregando o chapéu para a nuca.

- Então é verdade o que se diz por aí, ó João?

- Sobre os amores secretos do falecido presidente?

- Não, homem, não é essa a ordem do dia. Isso passou. A questão é outra.

- Desembucha!

- Pergunto se é verdade o que corre sobre...

-... Sobre a Maria do Carmo? Uma calúnia, seu Guedes, uma calúnia. Você bem conhece este povo.

- Eu já tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha era incapaz de semelhante procedimento.

- Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa é a minha opinião.

- E que fosse verdade, continuou João da Mata partindo o baralho, e que fosse verdade, não era da conta de ninguém.

- Que dúvida! confirmou o Guedes.

- Mando copas, rosnou o amanuense.

E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade.

Mas, ao retirarem-se, cerca de meia noite, interpelou novamente o amanuense na esquina, à luz de um lampião. João da Mata cambaleava, equilibrando-se, a praguejar contra o calçamento das ruas e contra a Câmara Municipal. A rua do trilho perdia-se na escuridão, silenciosa como um subterrâneo.

O Guedes tinha tomado pouco nesse noite e fumava o seu cigarro com um grande ar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o paletó aberto num abandono frouxo de boêmio.

- Cuidado ! não vás cair, avisava com as mãos nos ombros do outro.

- Que cair nada, homem! Pensas tu que estou bêbedo, hein? estás muito enganado! O diabo dos óculos escuros é que não me deixam ver bem...

- Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho fino...

Pararam. Um polícia passou do outro lado da rua, sonolento e lúgubre.

Então o redator da Matraca abraçando o amigo pelo pescoço, depois de lhe ter dado o lume:

- Tu não me quiseste ser franco ainda agora na presença do Perneta, mas nós somos amigos... tu sabes... Aonde diabo meteste tu a rapariga?

João cuspinhou para o lado.

- Hein?

- A Maria do Carmo, onde anda ela?

- Ah! seu marreco, você quer saber onde está a rapariga, hein? Pois não lhe digo, não...

- Fala sério, homem. Dizem que está no Cocó, que teve um filho?... Juro-te como esta boca não se abrirá... Sentemo-nos aqui um pouquinho, que ainda não deu meia-noite.

Sentaram-se à beira da calçada, debaixo do gás e o amanuense, encostando-se à coluna do lampião, o chapéu, o inseparável chile enterrado na cabeça, foi dizendo à meia voz:

- A coisa não é como se diz, seu Guedes; a verdade é esta, que eu lhe confio porque sei que você é meu amigo: a menina está no Cocó, mas ainda não teve a criança...

- Ah!...

- Sim, quero dizer, você bem sabe o que quero dizer...

O Guedes era todo ouvidos.

Luziam-lhe os bugalhos no fundo das órbitas, parados, imóveis, caindo sobre o amanuense com a fixidez de clarabóias de vidro. Sentia um prazer especial, uma comoçãozinha esquisita, um extraordinário bem estar ao ouvir a história, a verdadeira história do escândalo, narrada pelo João da Mata, pela própria boca do padrinho da rapariga, gente de casa, testemunha ocular.

Encolhia-se todo de gozo, ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense.

- E o pai?

- Que pai? O pai morreu no Pará...

- Não, homem, o pai da criança...

- Sim... o pai da criança, o Zuza? Pois não foi-se embora para Recife? Aquilo é um infame, um biltre... Eu cá previa tudo quando proibi formalmente que a pequena lhe mostrasse o nariz, logo a princípio, mas, que querem? encontravam-se na Escola Normal, no Passeio Público, e, afinal foi o que resultou...

Soaram doze badaladas graves e dormentes na Sé. João contou uma a uma.

- Meia noite, seu compadre, vou-me embora, adeus! Perdi hoje tanto como dez pintos.

E separaram-se friamente, como dois desconhecidos.

Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro, - era um burro, o pobre animal babujava a rama da coxia, solitário e mudo.

Uma vez senhor do segredo, o Guedes não se conteve, disse-o, ao ouvido Perneta, e com pouco ninguém ignorava na cidade, “que a normalista do Trilho fora desembuchar, ao Cocó, um filho do Zuza”.

- Do Zuza? exclamou o José Pereira ao saber da novidade na redação da Província, pela manhã.

- Sim, do Zuza, confirmou o Castrinho pousando a pena atrás da orelha. É o que diz o público. Vox populi...

- E esta!

José Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca, e, passeando o olhar sobre a banca de trabalho onde destacavam dois grandes dicionários de Aulete, sentou-se vagarosamente, voltando para o poeta.

- Admira-se você, tornou este. Oh! homem, pois um fato que toda gente previa!..

O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tipógrafos...

E o Castrinho, à meia voz, estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente altos:

- Qual! O fato está no domínio público, não há por aí quem não o saiba. Dizem que o velho Souza Nunes só falta perder a cabeça.

Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo, negar mesmo , se possível fosse, uma vez que se tratava da reputação do Zuza...

Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha, do outro lado do tabique que dividia a sala da redação e onde se viam o empilhamento de jornais sobre uma velha mesa gasta.

Daí a pouco entrou o Elesbão, outro redator, um sujeito lúgubre, muito pálido, faces encovadas, olhar triste, tossindo devagar. Foi perguntando, numa voz sumida e lenta, do que se tratava.

O Castrinho disse, empertigando-se na cadeira, que se tratava “dos brios da sociedade cearense”. O outro arregalou os olhos com ar de espanto. - Como assim? E explicou: Tinha estado fora, na Guaiúba, a leites, não sabia as novidades.