Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma transparência fina de cristal lavado.
Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a última estrela, a corveta “acendera fogos”, e demandava o porto, em árvore seca, impulsionada pela sua velha máquina de sistema antigo - um estafermo quase imprestável, porejando vapor, abrindo-se toda em desconjuntamentos de maquinismo secular.
Enfim se chegava!
Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa viagem ao sul, dessa viagem maldita que parecia não acabar nunca.
Lá estava bem defronte, por bombordo, o Pão d’Açúcar, talhado a pique, sombrio, íngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para o sul - termo final de uma espécie de cordilheira primitiva e bronca - o cocuruto da Gávea, cinzento, dominando o mar...
- E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente,
Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa fluminense.
- Aquela ilha é a Rasa, explicou o negro. Não vês o farol, aquilo branco?...
E começou a descrever o pedaço do litoral que se ia desdobrando à luz, alcantilado e fulgurante, como essa terras lendárias de tamoios e caramurus... Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendia o braço por cima do ombro do pequeno), beirando a água, chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma montanha quase apagada, era o Cabo Frio...
E foi indicando, um a um, com exclamações de patriotismo, os acidentes da entrada, os edifícios: as fortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à beira mar, olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre morros; o hospício; Botafogo...
Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas, tudo aquilo é a cidade de Niterói, ouviste falar?
- Não ...
- Pois é ali.
Aleixo, de resto, não experimentava grande surpresa. Entre montanhas havia ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o abalava: fazia outra idéia do Rio de Janeiro!
- Mas isto ainda não é a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu não viste nada por enquanto...
A corveta aproximava-se de Villegaignon...
Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: -“Foi ali que eu comecei...” E desapareceu entre a chusma da marinhagem.
Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinham em direção da fortaleza, cortando a água numa carreira macia de out-riggers. Ouvia-se a pancada igual dos remos acompanhando a voga.
Ao redor da barca de banhos pairavam botes de comércio. Lanchas apitavam cruzando a baía. Navios de guerra imóveis, aproados à barra, faziam sinais, içando e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grande couraçado ao lume d’água, raso, chato e bojudo, com uma flâmula azul no mastro grande.
A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosa e dominando com seu porte de nau antiga e legendária, o conjunto de embarcações que por ali estacionavam.
Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada imperceptível, tocando atrás: ouviu-se um grande baque n’água e logo um rumos de amarras que se desenrolam, que se precipitam...
- Ora, graças! exclamaram algumas vozes ao mesmo tempo, como se houvessem combinado fazer coro de alegria.
Entretanto, Bom-Crioulo começava a sentir uns longes de tristeza n’alma, cousa que raríssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeira vez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar, preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futuro dessa afeição nascida em viagem e ameaçada agora pelas conveniências do serviço militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido para outro navio - ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez não continuasse na corveta...
Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num desejo sôfrego de vê-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma vida de obediência e de trabalho, crescendo a seu lado como um irmão querido e inseparável.
Por outro lado estava tranqüilo porque a maior prova de amizade Aleixo tinha lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessem haviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob o mesmo lençol na proa da corveta, abraçados, como um casal de noivos em plena luxúria da primeira coabitação...
Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta... Agora compreendia que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.
Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe, para mal de seus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza” impunha-lhe esse castigo.
Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem té aos trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de quem se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...
Começou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufa barulhenta e ensurdecedora, um incessante rumor de cabos e moitões, de vozes e apitos, confundindo-se em algaravia de mercado público, ressoando clamorosamente no silêncio da baía.
Em torno da corveta agitava-se uma multidão de escaleres e lanchas conduzindo oficiais de marinha e senhoras, que acenavam para bordo - aqueles em uniforme de “visita”, espada e luva branca, afetando autoridade, aprumando-se no paineiro com essa desenvoltura natural dos homens do mar; aquelas em toilletes de verão, muito rubras do sol.
Houve um momento de geral precipitação, em que todos procuravam subir a escadinha do portaló, investindo a um tempo, quando a visita sanitária pôs-se ao largo. - Atraca daí! gritava uma voz. - Larga a canoa! bradava a outra. - Ciando à ré! - Abre de proa! - Rema avante!
Ninguém se compreendia no tumulto.
Daí a apouco, porém, foi-se restabelecendo a ordem, todo aquele alvoroço desapareceu e ouvia-se apenas a voz dos marinheiros conversando. Foi então que atracou um escaler coma bandeira inglesa, e um oficial ruivo, de suíças, muito parecido com o rei Guilherme, da Alemanha. Era o comandante do Ironside, cruzador britânico.
Austero, hermeticamente abotoado, subiu e desceu logo, sem se voltar, pisando forte nos degraus da escadinha.
Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assim que o viu saltar no escaler: - Inglês bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua indignação, olhando a água calma... Ele ali estava, enfim, na baía do Rio de Janeiro, depois de uma ausência de seis longos meses! Precisava ir à terra naquele mesmo dia para arranjar o negócio do quarto da Rua da Misericórdia, antes que o pequeno se arrependesse; tinha umas compras a fazer...
Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! vida, vida!... Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte... E chamava-se a isso de servir à pátria!
Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silêncio, profundamente calma e reparadora. A guarnição da corveta dormia sem abalos um sono tranqüilo e delicioso de oito horas, ao ar livre, sobre o convés desbastado.
Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar palavra, sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto, o espírito parado; todo ele sem ânimo para cousa alguma. Trabalhara brutalmente; não havia resistir à fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem extenuados... Deitou-se a um canto, longe de todos, e adormeceu imediatamente num sono cataléptico. Ao primeiro toque d’alvorada espreguiçou-se, abrindo os olhos com surpresa, e sentiu-se alagado. - Oh! ... - Passou a mão no lugar úmido, tateando, e verificou, cheio de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que sofrera inconscientemente durante o sono - um verdadeiro esgotamento de líquido seminal, de forças procriadoras, de vida, enfim, que “aquilo” era sangue transformado em matéria! Se ao menos tivesse gozado... Mas não sentira nada, absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como um porco, e o resultado ali se achava no lençol - quase um rio de goma prolífica!
E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das galés, ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, como se alguém houvesse concorrido para a sua “desgraça”.
Entrou pelo dia com ares de quem não quer se incomodar, o semblante carregado numa sombria expressão de aborrecimento, falando pouco e em tom grosseiro, ameaçando: - que o deixassem, que o deixassem; não queria brincadeira; ainda rachava a cabeça dum!
Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que “o negro era meio doido”.
À tarde, porém, esse estado nervoso amainou, graças ao Aleixo que lhe fora perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de adolescente, se ele, Bom-Crioulo, estava disposto a ir à terra.
- Por que não? Já estava concedida a licença.
- Ah! pensei que tinha se esquecido.
- Qual esquecido! Pois eu não te disse que hoje mesmo havíamos de arranjar nosso ninho?
E muito carinhoso:
- Espero em Deus estrear hoje...
Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixo não se animava a pedir que o deixassem ir à terra, com receio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o - Não fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que era um instante, ou então forjava qualquer história...
- Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa assim...
Aleixo criou ânimo, e daí a pouco voltava muito satisfeito, risonho, dando pinchos.
- Não havia nada como a gente ser um menino bonito! Até os oficiais gostavam...
Bom-Crioulo é que não gostou da pilhéria. Ferrou o olhar no pequeno - hum! hum! - como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu prontamente: - Brincadeira, menino, brincadeira... pois não se podia brincar?
- Isso não são brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! Já lhe disse que ande muito direitinho...
Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia.
- Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo ao saltar no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque ... É preciso esquentar os rins.
- Eu não quero.
- Hás de tomar nem que seja um copo de maduro.
- Maduro?
- Sim, maduro: é uma bebida muito boa.
Foram andando...
O relógio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade, mergulhada no crepúsculo, adormecia lentamente, caía pouco a pouco numa estagnação de praça abandonada, num triste silêncio de aldeia longínqua...
Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Paço. Um ou outro retardatário, em pé na sombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente à estação das barcas, conduzindo embrulhos. O velho pardieiro dos Braganças, o sombrio casarão, em que, durante quase um século, a monarquia fez reclamo de suas pratas, imobilizava-se lugubremente, ermo e fechado aquela hora.
Bom-Crioulo tomou à esquerda, por baixo da arcada do Paço, enfiando pela rua da Misericórdia, braço a braço com o grumete, fumando um charuto que comprara no quiosque.
Lá adiante, nas proximidades do Arsenal de Guerra, pararam defronte um sobradinho com persianas, de aspecto antigo, duas varandolas de madeira carcomida no primeiro andar, e lá em cima, no telhado, uma espécie de trapeira sumindo-se , enterrando-se, dependurada quase. Embaixo, na loja, morava uma família de pretos d’Angola; ouvia-se naquele momento, no escuro interior desse coito africano, a vozeria dos negros.
- É aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa, e desaparecendo no corredor sem luz, que ia ter ao sobradinho. Aleixo acompanhava-o taciturno, silenciosos, cosendo-se à parede, como quem pela primeira vez entra num lugar estranho.
- Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o braço. De que tens medo?...
Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada triste e deserta, cujos degraus, muito íngremes, ameaçavam fugir sob os pés.
O negro puxou o cordão que pendia da cancela e lá dentro, na sala de jantar, uma campainha fez sinal, timbrando surdamente.
Bom-Crioulo tornou a puxar com força.
- Quem é? Oh!...
- Sou eu, D. Carolina: tenha bondade.
- Já vai...
E com pouco o marinheiro atirava-se nos braços de uma senhora gorda, redonda e meio idosa, estreitando-a contra o peito, suspendendo-a mesmo, apesar de toda a sua gordura, com essa alegria natural de pessoas que se tornam a ver, depois de um ausência.
- Conta-m’lá, Bom-Crioulo, anda, entra... Quem é este pequeno?
- Este pequeno?... Por causa dele mesmo é que estou aqui. Depois conversaremos...
- E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta... Ora, se eu soubesse que era tu... Dá cá outro abraço, anda!
Abraçaram-se de novo, com grande alvoroço, rindo, gargalhando, ela de avental, muito rechonchuda, o cabelo em duas tranças, partido ao meio, Bom-Crioulo fazendo-se amável, cobrindo-a de exclamações, achando-a mais gorda, mais bonita, mais moça!...
D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com classe ou profissão do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa! o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros.
Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês ou por hora. Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo.
Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante! Já era gorducha, então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua...
Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pode reerguer-se, chegando, por desgraça, ao ponto de empenhar jóias e tudo, porque ninguém a procurava, ninguém a queria - pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para um teatro como qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi um escândalo, um “sucesso”: atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes, - o diabo! Durante quase um ano só se falou na Carola, nas pernas da Carola, na portuguesa da rua do Núncio.
A pobre mulher narrava isso com lágrimas e suspiros de profunda e melancólica saudade, e repetia: Bom Tempo! Bom tempo!
Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente, foi à Portugal, regressou ao Brasil, cheia de corpo e de novas ambições, amigou-se outra vez, e, afinal de contas, depois de muito gozar e de muito sofrer, lá estava na Rua da Misericórdia, fazendo pela vida, meu rico!, explorando a humanidade brejeira, enquanto o seu “macacão” trabalhava por outro lado em negócios de carne verde e fornecimento para os quartéis.
De resto, essa aliança com o açougueiro, uma senhor Brás, homem de grandes barbas e muitos haveres, essa aliança pouco ou nada lhe rendia, a ela, porque o sujeito era casado e só de mês em mês dava o ar de sua graça, deixando-lhe a ninharia de cento e cinqüenta mil-réis para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente.
- Tenho quarenta anos de experiência, dizia, quarenta anos e alguns fios de prata na cabeça. Conheço este mundo velho, meu amor; tudo isso pra mim é miséria.
Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; história de ladrões... Era caso até para beijar os pés do marinheiro, porque nunca vira tanta coragem e tanto desinteresse!
D. Carolina buscava sempre ocasião de recordar o fato, narrando-o com todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-se em elogios à gente da marinha, gabando os homens do mar, “uns benfeitores da humanidade”.
Uma noite - só ao pensar tinha calafrios! - vinha de assistir ao Drama no alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a chave na porte, foi surpreendida por dois indivíduos, cuja fisionomia não pode reconhecer e que lhe pediram os anéis e dinheiro que porventura trouxesse.
Ela, com efeito, além de um anel de brilhante, lembrança dos bons tempos! e duas esmeraldas, levava cinqüenta mil-réis. Ora, já se passava de meia noite e a Rua da Misericórdia estava deserta que nem um cemitério. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedir socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela ousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duas lâminas de bom aço, tamanho de facões! Ah! mas Deus é grande! Nesse momento ia passando o vulto de um marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: - Socorro! Socorro! - Travou-se uma luta. O marujo saltava fugindo aos punhais e investindo logo, como uma fera, de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro, encheram-se as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a polícia chegou a tempo de prender os ladrões, completamente desarmados pelo bem-vindo marinheiro. - Qualquer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriu cerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da esquadra. E, como no sobradinho moravam praças de bordo, Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra d’honra como nunca vira tanta coragem num homem.
Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente - homem para quatro!
Bom-Crioulo começou a freqüentar o sobradinho onde iam outros marinheiros, e daí a grande amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra intenção: ela sabia que o negro não era homem para mulheres...
- Vamos, conta-m’lá essa viagem!
Tinham-se sentado, os três, numa sala de jantar, à luz do gás. D. Carolina estufada, muitíssimo gorda, cabeceando, sem fôlego, estava ansiosa por saber notícias. O negro, de boné no alto da cabeça, recostado familiarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se de vez em quando num clarão rubro e quente. Aleixo, imóvel numa cadeira, olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros - oleografias de carregação figurando assunto de alcova, duas em cada parede, colocadas simetricamente -, o guarda-louça quase vazio, e uma coleção de estampilhas de caixa de fósforo armada em leque. Tudo velho e incolor, poento e maltratado. Respirava-se uma atmosfera de sebo e cânfora, renovada por uma triste janelinha que abria para a espécie de área pertencente à loja.
Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: - Seis meses de estupidez! O Aleixo é que trouxera um pouquinho de alegria na volta...
E desfiou a história do grumete.
- Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no sótão, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos à terra.
- Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona.
- Como quiser... Marinheiro é gente que dorme aos quatro, aos cinco... aos cinqüenta! Se houvesse uma caminha larga...
- Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor...
Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a Bom-Crioulo.
- Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais cantáridas!...
Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos.
Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual - certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ninguém ia, e que era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, o Aleixo e ... nada mais! Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava outra cousa.
O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de sótão, ruído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as nódoas”.
Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada, rigorosamente metódica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo à terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recriminações. Até os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. - “Isso é cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, bêbedo e medonho. Sempre o conheci refratário a toda norma de viver. Hoje manso como um cordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousas de caráter africano...”
O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétua alegria dos que não têm cuidados. Em terra ou a bordo, não tinha de que se queixar: andava sempre limpo, ninguém o via deitado no convés, ou emporcalhando-se de alcatrão à proa. Felizmente o imediato escolhera-o para o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadiço ou a ré cosendo bandeiras, tesourando flâmulas, aprendendo certos misteres do ofício. Às vezes tinha palestras com o oficial do quarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos da província, do tempo em que ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha, moço bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostão que “seu guarda-marinha lhe dera”. Todos a bordo lhe faziam festa; o próprio guardião Agostinho, seco e ríspido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vida regalada!
Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se falava! - ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa independência absoluta, rindo e conversando à larga, sem que ninguém os fosse perturbar - volta na chave por via das dúvidas...
Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo...
Aleixo amuou: aquilo não era cousa que se pedisse a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ninguém o levava a capricho:- Ou bem que somos ou bem que não somos... - Que asneira! fez o grumete. Por-se agora nu em pêlo defronte do Bom-Crioulo ! Está visto que tinha vergonha.
- Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homem como eu? Donde veio essa vergonha?
- Decerto!...
- Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa...
Havia luz no quarto, uma luz mortiça. no topo de uma vela de sebo.
- Nem se vê nada... fez Aleixo choramingando, sem lágrimas.
- Sempre há se de se ver alguma cousa...
E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela, depois as calças, em pé, colocando a roupa sobre a cama, peça por peça.
Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em pleno e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estatuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada baiúca da Rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de ermo longínquo.
- Veja logo... murmurou o pequeno, firmando-se nos pés.
Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...
Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.
- Basta! ... suplicou Aleixo.
- Não, não! Um bocadinho mais...
Bom-Crioulo tomou a vela, meio trêmulo, e, aproximando-se, continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da volúpia, no extremo da concupiscência, os olhos deitando chispas de gozo...
- Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente já, soprando a luz.
Seguiu-se, então, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas à surdina. e, quando Bom-Crioulo riscou o fósforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se em pé.
Tais eram os “desgostos” de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe admiravelmente, como um leve barco à feição...
D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: -“o meu bonitinho” é como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.
Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai que se vai fazendo mulher...
O pequeno, muito acessível a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se reconhecido, não subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias à portuguesa, abrindo-se com ela com franquezas ingênuas, deixando-se agradar.
Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena família, não tinham segredos ente si, estimavam-se mutuamente.
Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava naquela casa um asilo de amor, um paraíso de felicidade...
A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique.
Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo natural, aberta à picareta nos seio da rocha dura e implacável, começaram as obras.
Um martelar contínuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de pedra, como numa forja subterrânea: operários em mangas de camisa recomeçavam todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha “barcaça”, enquanto os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilhão que o calor apodrecia no fundo seco do dique. Sufocava, lá embaixo, o cheiro forte dos mariscos em decomposição: subindo como bafos de monturo, resistindo à potassa e ao ácido fênico.
Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.
Dir-se-ia que aqueles homens, operários e marinheiros, não tinham aparelho respiratório, não tinham pulmões, ou estavam saturados de miasmas.
Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma indiferença heróica, sem pensar no grande perigo que os ameaçava.
Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia remédio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro alvoroçado tapando o nariz: - Foge! foge! olha a febre amarela!
Navio no dique, marinheiro à solta. O serviço diminuía, tinha-se mais liberdade, podia-se folgar à vontade, porque o campo era largo, o convés estendia-se pela ilha até certa distância. Dali para terra era um pulo, não faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam próximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte.
De vez em quando: “Seu tenente dá licença que eu visite um amigo no hospital? - Vá, mas não demore...”
O hospital ficava no topo da ilha, numa eminência que dava acesso por uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela direção, subindo lentamente aos quatro, em procissões: iam visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra.
Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios à terra. Assíduo no trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obrigações com a mesma paciência de outrora, quando o futuro lhe sorria esperanças de vida melhor, reabilitava-se a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia-lhe concessões prevenindo-o que “tomasse cuidado, não fosse beber demasiadamente”.
Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um verdadeiro pai: a questão era andar direitinho, “portar-se como gente”.
E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o possível para o não descontentar, trabalhando sempre que havia serviço, de cara alegre, sem constrangimento, na certeza de ir à terra.
Um dia sim outro não ei-lo no seu quarto da Rua da Misericórdia, todo entregue ao descanso, livre, completamente livre de incômodos e obrigações.
Não esquecia de beber seu golito de “conhaque brasileiro”, mas sabia se conter evitando excessos. De resto, era tão calma sua vida, corria-lhe a existência tão doce, tão suave, que ele até estranhava.
Ultimamente começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos... Os próprios companheiros notavam certa mudança em sua fisionomia: - Estás magro, ó Bom-Crioulo, que diabo é isso?
- Eu, magro?... e passava a mão no rosto examinando-se. Estarei doente?
- Alguma crioula, hein?
- Qual crioula!
Um dia consultou ao grumete:
- Achas que estou emagrecendo?
Aleixo também foi de parecer que sim, mas “era pouca cousa”.
Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranqüilamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de espírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa.
Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelo de amante apaixonado.
Quase um ano de convivência fora bastante para que ele se identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse conhecendo, e a convicção de que Aleixo não o traía, entregando-se à fúria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicava-lhe essa tranqüilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que traz o dinheiro guardado inviolavelmente.
Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
- Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo não era tolo nem nada... Tolo era quem se fiasse nele...
E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio aguçados, como presas de tubarão.
A corveta saíra do dique, indo amarrar numa bóia por trás do morro de S. Bento com fronte ao Arsenal.
Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poço, no ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente não tinha liberdade.
Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio - um de aço, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua formidável artilharia; belo conjunto de forças navais, que fazia desse couraçado uma dos mais poderosos do mundo.
Bom-Crioulo desapontou: -... que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer bem os navios: hoje num, amanhã noutro... Até parecia brincadeira!”
E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo:
- Por isso é que um marinheiro fica relaxado: por isso...
Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa à proa, tranqüilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praça, lá ia para o couraçado - aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno e agora, de repente, sem quê nem para quê: - Passe... Era mesmo uma perversidade!
Mas, Deus é grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a gente não tinha remédio senão obedecer calada, porque marinheiro e negro cativo, afinal de contas, vem a ser a mesma cousa.
Aleixo consolava-se, resignado: paciência, homem, o mundo não se acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso é que tinham alugado quarto. Um dia sim outro não podiam se encontrar do mesmo modo em terra...
- Agora vê lá se vais fazer alguma... preveniu o negro.
Renasciam-lhe os zelos; aquela separação brusca e inesperada irritava-o, acordando no fundo de sua alma um egoísmo exacerbado, uma desconfiança vaga no futuro. - É verdade que o grumete já não era uma criança para se deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz se entusiasmar por algum oficialzinho bonito, e, adeus, Bom-Crioulo!...
Com o espírito cheio de apreensões, o olhar triste e a face carrancuda, estreitou ao peito seu querido Aleixo, e, sem proferir palavra, mudo na sua tristeza, como um preso que deixa uma prisão para entrar noutra, viu desaparecerem os mastros da corveta e a sombra do grumete que lhe acenava ao longe, na penumbra crepuscular, vaga e nebulosa, como a própria saudade.
O couraçado lá estava encoberto pela ilha, muito grande e solene, com o seu belo aspecto de casamata flutuante, aproado à maré, respeitável e glorioso.
- Rema força, que é tarde.
E a pequena embarcação, impelida vigorosamente, ia deixando atrás, sem o saber, a alma de Bom-Crioulo, terna e dolente...