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BOM CRIOULO

adolfo caminhas

VI

No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto.

- Oh! Bom-Crioulo não tinha ido à terra, como prometera. - Exigências do serviço, pensou. No couraçado a disciplina era outra; o imediato, homem feroz, só falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na sua corveta assim mesmo velha e triste...

Abriu a janela para entrar luz e começou a se despir, trauteando qualquer coisa, o olhar perdido lá fora no ar imóvel, no azul coruscante... O calor abrasava. Nenhuma aragem sequer. O sol das duas horas caía obliquamente, pondo reflexos de ouro sobre os telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando crisólitos de brilho raro ao longe nas vidraçarias... Uma opulência de luz nunca vista!

Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se à larga na velha cama de lona. - Passa ! Que forno!...

Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo té às cinco horas, dormir uma soneca. Saíra de bordo muito cedo porque ajustara com o negro, e agora não tinha remédio senão esperar naquela pasmaceira, naquele calor. Enfim, como fizera quarto a noite passada, ia ver se conseguia dormir...

Não chegou ao fim do cigarro, um detestável mata-ratos que Bom-Crioulo esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua mão desajeitada. - Não sabia que diabo de gosto o dos fumantes. Qual! decididamente não se acostumava com o fumo. Vinha-lhe logo a dor de cabeça...

Pôs-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, já muito apagado, que viera na primeira página de um jornal ilustrado, preso em caixilhos de bambu, um cromo de desfolhar, examinando com atenção o pequeno aposento, os móveis - a mesa e duas cadeiras -, como se estivesse num museu de cousas raras.

Adormeceu justamente quando soaram duas horas no relógio de D. Carolina, embaixo, no primeiro andar.

Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a língua seca - torcendo-se em espreguiçamentos de quem dormiu toda uma noite.

O sol abrandara um pouco e já havia nuvens no alto, quebrando a monotonia do azul. - Nada; com certeza Bom-Crioulo não vinha mais, pensou o grumete. Diabo de insipidez!

De resto, o negro não lhe fazia muita falta: estimava-o, é verdade, mas aquilo não era sangria desatada que não acabasse nunca...

Essa idéia penetrou-o com uma lembrança feliz, como um fluido esquisito que lhe inoculassem no sangue. - Podia encontrar algum homem de posição, de dinheiro: já agora estava acostumado “àquilo”... O próprio Bom-Crioulo disseram que não se reparavam essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade... Ora, não valia a pena!

Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho, dominado por aquela idéia. - Estava aborrecido, muito aborrecido; precisava mudar de vida...

- Dá licença?

- Oh! madama...

Era a portuguesa: ainda não tinha visto o “seu bonitinho”, dera-lhe uma saudade...

- Bom-Crioulo não veio hoje?

Não , não tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o couraçado, o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro ia levar...

- Coitado! lamentou D. Carolina. Mas há de vir à terra...

- Sim, por que não? Sempre há de vir. Não será tanto como na corveta...

- Coitado!...

- Tem aí uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que não se senta?

- Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva.

E logo, muito curiosa:

- Vai sair?

- Vou dar uma volta, passei o dia tão aborrecido...

- Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um risinho, abanando-se com o avental.

Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arregaçado, os pés nus dentro de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal.

- Não, disse Aleixo, com um desdém na voz. Aquilo já está me aborrecendo...

- Oh! Já?... Muito cedo, homem.

E fraternalmente:

- Pois é uma boa criatura, coitado. Eu, às vezes, tenho-lhe pena.

- É porque madama não sabe quem está ali... Muito bom, mas quando se zanga, Jesus! chega a meter medo...

- Assim?

- Ora!...

- Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado...

- Uma fera!

Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio d’óleo, escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de um lado, puxando em pasta sobre a calote esquerda, até quase a sobrancelha. Era uma de suas grandes preocupações - o cabelo bem penteado, úmido sempre. Que trabalho para lhe dar jeito! Desmanchava-o um sem número de vezes, tornava a acertá-lo, e, afinal, depois de repetidas tentativas, punha o boné devagar, jeitosamente.

- Pronto! fez ele dando a última demão.

- Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se para endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ninguém me venha falar em homem porco.

E colocando-se diante de Aleixo, os braços em arco e as mãos nos quadris:

- Está mesmo d’encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia no Largo do Rocio, aposto!

O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma vez no espelho.

- Qual o quê, madama! Vou daqui ao Passeio Público; às nove horas, o mais tardar, cá estou de volta.

- E não me convida?

- Quer ir, vamos...

- Não, obrigada; bom proveito e volte direitinho, é o que eu quero...

Foram saindo.

- Mas, olhe, tornou D. Carolina com resolução, no alto da escada. Preciso lhe falar: volte cedo.

- Por que não diz agora?

- Não, não: quando voltar; prefiro conversar à vontade.

- Pois sim... é um instante. Até logo!

- Té loguinho.

E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no corredor:

- Cuidado hein?!

Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua já havia luz. Continuava o calor, um ar abafadiço, de subterrâneo, sem oxigênio, pesado e asfixiante.

A portuguesa desceu a escadinha do sótão, que estalava com o seu peso, e foi acender o gás da sala de jantar, muito alegre, cantando uma modinha sentimental lá da terra, numa voz lânguida e tremida.

Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o bonitinho, toma-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga - dando-lhe tudo enfim.

Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez...

Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas como falar ao grumete, como propor-lhe o negócio? Ele talvez ficasse ofendido, e podia haver um escândalo...

O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o estimava muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o.

Outras mais velhas gabavam-se, por que é que ela, com os seus trinta e oito anos, não tinha o direito de gozar? Histórias! mulher sempre é mulher e homem sempre é homem.

Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda “prestava serviço”: - Qual velha! Nem um pé-de-galinha sequer, nem uma ruga - pois isso era ser velha? Certo que não. Lá quanto à idade ninguém queria saber. A questão era de cara e corpo... Ora, adeus!...

Começou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe doces, guloseimas, passando a ferro, ela própria, seus lenços, gabando-se na presença de estranhos, fingindo-se distraída quando queria mostrar-lhe a exuberância de suas carnes - perna, braço ou seios... Uma ocasião Aleixo vira-a em camisa curta, deitada, com as pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete voltou o rosto depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse uma profanação: mas, depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre uns arrepios voluptuosos, não podia evitar certa quebreira, certo desfalecimento acompanhado de ereção nervosa...

Nunca mais lhe saíra da lembrança aquela cena de alcova: uma mulher deitada com as pernas à mostra, muito gordas e penugentas - num desalinho irresistível, braços nus, cabelo solto. - Devia de ser esplêndido a gente dormir nos braços de uma mulher. A portuguesa não era mazinha.

Aleixo, porém, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D. Carolina, que o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse fazê-lo seu amante.

Semelhante idéia nunca lhe passara pela imaginação. Via entrar homens no quarto dela, sabia os amores do açougueiro, mas isso era lá com os outros de barba; o que lhe parecia impossível, e ele nem sequer pensava, é que D. Carolina tivesse intenções com um rapazinho de sua idade, uma criança quase...

- Pronto! fez ele ao voltar do Passeio Público.

- Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha cá, no meu quarto está mais fresco...

O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do sótão, na frente da casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma bela cama de casal com travesseiros de renda.

Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os anúncios do Jornal do Comércio, à luz do gás.

- Divertiu-se muito?

- Qual! Fui e voltei logo.

- Por minha causa?

- Não, o Passeio é que estava insípido... Pouca gente.

Aleixo parou à porta do quarto como quem receia entrar.

- Entra, filhinho, entra, que isto aqui é nosso, isto aqui é da tua portuguesinha, não vês?

E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da Misericórdia, num alvoroço.

Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se, mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de sangue e colocara os anéis, os célebres anéis que lhe tinham querido roubar: transformara-se completamente.

- Senta, deixa de tolice, filho!

Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela primeira vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa há um ano e só agora entrava ali, no quarto da portuguesa.

- Bonita sala!

Bonita o quê, ó pequeno; estás a debicar, hein? disse a mulher acendendo o gás, no bico dos pés, rindo. Bonito és tu - tu é que és bonitinho...

- D. Carolina gosta de caçoar com a gente!...

E a portuguesa, sentando-se também, alisando-lhe o cabelo com as mãos, rubra de calor:

- Pois é isto, minha flor: o que eu tinha a dizer é que estou apaixonada por ti!

- Ora!...

- Estou falando sério; não vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero tomar o amigo... Olha que o negro é capaz de estrangular-me...

- Já está D. Carolina com brincadeiras...

- Não é brincadeira, não, filho, tornou a outra, afetando seriedade. Quero que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha...

E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura de mulher nova.

O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso fixo na boca sombreada por um buço em perspectiva, muito encolhido na sua cadeira, sem dizer palavra.

O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um calorzinho especial, um brando enleio d’alma, uma vaga e deliciosa canseira no fundo do ser, um esquisito bem-estar.

Por sua vontade ficaria naquela posição eternamente, sentindo cada vez mais forte a influência magnética daquele corpo de mulher sobre os seus nervos de adolescente ainda virgem...

D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda para uma sensação nova...

- Tu não podes comigo, disse trançando a perna sobre o joelho do Aleixo.

E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:

- Dize lá: ficas ou não ficas?

O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira com as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto:

- Fico!

Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:

- Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...

Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal.

- Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha... Anda, que eu estou que nem uma brasa!...

Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.

Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...

Era incrível aquilo!

A mulher só faltava urrar.

E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.

Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e, passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina: - Valia a pena decerto uma noite como aquela!

Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das compras.

A portuguesa ergue-se, fez café ali mesmo no quarto, sem despertar ninguém, jubilosa como uma noiva, exultando!

Graças a Deus estava muito conservadinha, não era tão velha como se pensava. Ainda tinha forças para inutilizar muito homem robusto, olá se tinha!

- E agora já sabes, meu pequerrucho: quando o negro não vier à terra - um abracinho à Carola. D’hoje em diante quero que me chames Carola, ouviste? É mais bonito, entre pessoas que se estimam... Carola e Bonitinho é como nos devemos tratar.

Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bêbedo de sono, os olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito pálido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: - Se Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo tempo que seu espírito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Misericórdia, onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magnífico banho frio de chuveiro.

- Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais.

E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os quadris largos, a face rubra, dançava em sua imaginação, como um sonho diabólico.

VII

Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidável prisão de aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina - um horror de trabalho - privava-o de ir à terra hoje sim, amanhã não, como nos outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure...

Enchia-se ódio contra os superiores: - Uma cáfila! Todos a mesma cousa; faziam do pobre marinheiro um burro... Ninguém os entendia. - Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só num deserto...: “-... que os pariu!...”

Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar à bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: -“Muita cautela com o Amaro (Bom-Crioulo). É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os oficiais.

- Era bom não o deixar ir à terra muitas vezes. Um homem daquele até metia medo!

E ficou assentado que ele só teria licença um vez por mês. Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado.

- Seu imediato, eu precisava ir à terra, implorou o negro perfilado, a mão em pala no boné.

- Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar sua vez eu direi.

- Mas seu imediato...

- Já lhe disse, não me amole!

Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordiscando o beiço. Ia cheio de uma cólera muda. jurando vingança talvez... - Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar...

E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião para remar no escaler que ia às compras. Embarcou, sem dar à perceber cálculo algum, e lá foi remando na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada.

O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Áçucar, os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eteral limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela.

Bela manhã para um bródio sobre a água. O vulto de um paquete alemão ia saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e imóveis.

Era quase dia...

- Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarcação.

Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar os escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.

Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessidade”, prometendo voltar logo.

- Era um pulo...

Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em direção à Rua da Misericórdia, resmungando insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta.

O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele desespero.

- Quem havia de ser? Um negro!...

Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios, com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.

- Bom dia!

- Bom dia! correspondeu o barbaças.

- Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa.

- Sou eu, D. Carolina; desculpe a maçada.

- Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o vê mais!... A chave está no prego!...

- Obrigado...

E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: - Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!...

Veio-lhe à mente o grumete: - Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , não caíra do céu...

Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O vidro de óleo não estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma imundície de pontas de cigarro e cuspo.

- Eu faço idéia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu faço idéia!...

Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva que multiplicava-se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:

Dlingo, dlingo, dlingo,

Dlingo, dlingo, dlão!

No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira, como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem disposto...

O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo...

Acendeu um cigarro e deitou-se.

- Ah! isso era outra cousa! não lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.

Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu interminável estribilho musical...

Dlingo, dlingo, dlingo,

Dlingo, dlingo, dlão!

- Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo!

- Anh!... Que é?

- Acorda rapaz, olha que não tarda meio-dia.

- Meio-dia?

- Sim, pois não vês o sol como vai alto?

D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços numa frouxidão cadavérica. A mulher, ao entrar no quarto recuou pálida. - Jesus! estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. - Que susto. Aproximou-se timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.

- Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir.

Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca.

- Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa...

- Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença.

- Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender...

-... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser; ninguém me proíbe...

- Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito...

- Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda não tive descanso. Isso também é demais!

- Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar...

- É a tal história: fia-te na Virgem e não corras...

- Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto.

- Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo à terra?

- Veio quinta feira, se não me engano...

E o outro contando os dedos:

- Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir...

- Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam...

- Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou já almoçaste?

- Nada, vou petiscar ali no frege.

- Manda-se comprar...

- Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exercício.

- Cuidado! Olha algum oficial...

E dirigindo-se para a escadinha:

- Bom, vim apenas te acordar. Até logo.

- Té logo, madama. Então o pequeno só veio uma vez, hein?

- Uma vezinha, coitado...

E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída, esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo - “Aquilo” não ia bem... Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena, era cair no desfrute...

E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento:

- Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã;

Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com desespero.

D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no coradouro.

Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debruçavam-se às janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás da orelha, arrastando os chinelos.

Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas.

Caíra de repente, ao sair da venda.

- Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, não teria vendido...

Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram. - Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!

- Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não prestam pra nada...

O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas mãos e levá-lo ao ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como se pegasse uma criança.

Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda que ia sendo pisada por um bonde.

E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro.

“- Sim senhor, tinha força para desancar um burro! - Essa gente do mar é uma gente perigosa! - Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o negro fez tudo! - A marinha sempre é a marinha...”

Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:

- Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papelão...

Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando.

Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços, o boné derreado como de costume, a face radiante. - Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhe que eram dois guardas!

E, dirigindo-se ao vendeiro:

- Uma terça, faz favor...

O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. - Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal...

Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: - Puah!... fez com repugnância. - Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo!

Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre - um triste lenço enxovalhado, com desenhos na margem.

- São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho... Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina...

O bodegueiro piscou o olho: - Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...

- Que quer, meu amigo, faz-se pela vida...

Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em pândega, lá uma vez ou outra - santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo - medonho, terrível!

Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente. Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata e rodando em torno de sua cabeça, encostando-se à parede, monologando cousas imperceptíveis, transfigurado já.

Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo; os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.

- Eu daqui vou direitinho, mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à canalha! Vou porque quero, porque sou livre!

E batia com força no peito.

- ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia meu comandante... já não me lembra o nome...

Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam trancadas àquela hora dominical.

Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida...

Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar atenção à ninguém. Mas, ao desembocar no Largo do Paço, um cachorro vadio começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. - Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro!

No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se, investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: -... que os pariu!”

Viram-no se dirigir para o cais.

- Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra imóvel sob os remos, ao largo.

Ninguém respondeu.

Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava!

Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de uma igreja, pequenina, esguia como um obelisco.

Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos, modorrentos...

- Ó do escaler! bradou o negro.

A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém a bordo. Os marinheiros fingiam-se distraídos.

- Cambada de burros! Atraca essa porcaria!

E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fechando o punho ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulário imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz “que era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!...”

- Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada!

Mas, ao voltar, deu de ombros com um português, que estava a seu lado rindo tranqüilamente, segurando um remo.

- E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurrão no homem.

O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer palavra.

- E não tem que olhar não, não! Se dúvida faço-o beber água salgada.

- Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolência. Vá-s’embora...

- O quê?

- Mal vai a cousa...

- O quê, seu galego, o quê?

E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné.

- O senhor não me provoque...

- Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!

O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para o Bom-Crioulo, quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.

Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações marítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraçada, que vinha de todos os ângulos da praça numa precipitação de avançada. - “Rolo! Rolo!”

E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente, sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte - iguais na envergadura muscular.

O escaler de guerra tinha se aproximado.

Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações.

- Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.

Assobios, canzoada, berros: - Não pode! não pode! confundiam-se num alvoroço descomunal, reboando na praça.

De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma anavalha.

- É agora! disse uma voz no meios do povo.

A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor aumentava: - Pega! Pega! não pode!

O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polícias, brandindo a arma furioso, ameaçou:

- Quem for homem, venha!

A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo...

Quatro horas no relógio da estação.

Daí a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé firme: - Não venha, que leva!

Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.

- Segurem aquele homem, ordenou, parando à distância.

- Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar.

Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada.

Foi um momento de ansiedade e assombro.

A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. - Não venha! Não venha!...

Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte “gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!

O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agressões, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de curiosos.

Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.

Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na baía calma...

VIII

O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, “falavam-se cousas...”

Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformando-o numa espécie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da crônica, cheio de indiferença pelo sexo feminino, e cujo ideal genésico ele ia rebuscar na própria adolescência masculina, entre os de sua classe.

Calúnia, talvez, insinuações de mau gosto.

Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando não tinham que fazer, lendas e histórias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da conversa...

O comandante, diziam, não gostava de saias, era homem de gênio esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, lá com a sua gente, com os seus marinheiros...

E havia sempre uma dissimulação respeitosa, um pigarrear malicioso, quando se falava no comandante.

Fosse como fosse, ninguém o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo cheio de mistério, com o seu belo porte de fidalgo, manso às vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais.

Bom-Crioulo, porém, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa desconfiança, não podia se acostumar àquela voz untuosa, àquele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconciliável. Por quê? Ele próprio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugnância instintiva, natural antipatia - forças opostas que se repelem...

- Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente.

Metido em ferros no mesmo dia do “rolo”, a imagem do comandante brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem trégua, sem o deixar um instante, ora terrível, ameaçadora, implacável, outras vezes, doce, meiga e complacente...

Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espécie de jaula estreita e sem luz onde só cabia um homem. Trancado ali dentro, imóvel, porque os pés e as mãos estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque d’alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do português inchando para ele com uma faca, desafiando-o: “Vem, negro, vem, que eu te mostro!” Era um homem reforçado, em cuja roupa havia manchas de sangue - barba longa, olhar atrevido.

Iam se pegar, mas Aleixo não consentiu dizendo que a polícia vinha os prender, que não valia a pena brigar por uma cousa à toa... Então Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o português no meio de uma praça muito grande, cheia de arvoredos.

A realidade, porém, veio despertá-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a porta da solitária e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante para se dar princípio à solenidade. Uma onda de luz banhou a prisão iluminando o rosto do marinheiro.

- Levante-se! ordenou o sargento da guarda.

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