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BOM CRIOULO

adolfo caminhas

X

Mais tranqüilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse para uma vingança, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas cousas que o faziam tímido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada, ora em terra, ora a bordo da corveta, sem outros cuidados que não os da sua rude profissão. Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os músculos desenvolvidos como os de uma acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expressão admirável de robustez física, tornando-se ainda mais belo e querido. A portuguesa, essa vivia dele; amava-o, adorava-o!

Ah! era muito capaz, ela, de fazer uma loucura por causa do seu bonitinho! - Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre sobradinho da Rua da Misericórdia. Tudo ela guardava para o seu formoso marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais, quitutes à portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro... Ela mesma batia, engomava a roupa dele com um melindroso carinho de mãe amorosa, dobrando as camisas, perfumando-as de alecrim para ele mudar quando viesse do trabalho. Como tudo mudara naquela casa depois que o negro saíra! O sótão, o misterioso sotãozinho estava abandonado, Aleixo não queria saber dele, odiava-o, porque ali é que se tinha feito escravo de Bom-Crioulo, ali é que “tinha perdido a vergonha”. O pobre quarto era como um lugar de maldições: vivia trancado à chave, lúgubre e poeirento. D. Carolina raríssimas vezes abria-o, isso mesmo quando tinha de recolher algum traste velho, algum móvel sem préstimo. O retrato do imperador, a cama de lona, os cacaréus de Bom-Crioulo e do grumete, aquilo tudo que dantes fazia o encanto do dois amigos tinha desaparecido. Nada restava agora daquele viver comum.

- E se o negro vem por aí um belo dia? imaginou Aleixo, receoso.

- Qual vem, qual nada! fez a portuguesa com um gesto de profunda convicção. Bom-Crioulo já nem se lembra de ti; anda na bilontragem;

o que ele queria era te desfrutar.

E logo:

- Se vier, é a mesma cousa. Ninguém morre de careta. Diz-se-lhe que os engenheiros proibiram morar no sótão; que o teto ameaça desabar.... Inventa-se...

E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De então em diante passaram a dormir juntos, como um casal, na mesma cama larga. E ninguém pisou mais no sotãozinho, agora transformado em depósito de móveis inúteis, coberto de pó, abrigo de insetos, ninho de ratos.

Há quase um mês que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo sentia, pelo contrário, uma inabalável e profunda afeição por D. Carolina, exigindo até que ela não recebesse mais o barbaças do açougue. Queria-a para si, unicamente para si, ou estava tudo acabado!

Ela procurou convencê-lo que o sujeito, o Man’el, era um tipão “necessário”, porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado: uma pechincha! Quanto a ser homem, ora! o “bonitinho” ficasse descansado: não havia perigo.... Man’el era um pobre coitado, uma criatura sem forças, um porcalhão...

Mas Aleixo indignou-se: - Não senhora, não admitia outro homem!... Ela bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o aluguel. Não senhora, ou ele, Aleixo, ou o barbaças.

D. Carolina riu e protestou não receber mais o Man’el. Haviam de viver “honradamente”!

Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.

Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa teriam renunciado àquele amor.

- Nem o Man’el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man’el, pensava D. Carolina.

E tudo ia marchando sem atropelos - dourada embarcação em mar de rosas...

... Vai senão quando chega o bilhete do negro: - Meu querido Aleixo...

D. Carolina passou os olhos com sofreguidão, correndo logo à assinatura, e, ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a cabeça desdenhosamente. Depois releu aquelas palavras tocadas de amor e de saudade, e ficou um ror de tempo no meio da sala, em pé, como se houvesse enlouquecido.

Seriam onze horas; - uma manhã quente de dezembro, cheia de luz e de poeira.

Tinha acabado de almoçar, como de costume, o seu bife e o seu café com leite, quando bateram:

Era o bilhete do negro, do “maldito”!

Aleixo tinha ido para bordo naquela manhã e só devia regressar no outro dia. - Felizmente, meu Deus, felizmente o “bonitinho” não estava em casa, porque, então, podia se impressionar...

Passou um último olhar no papel, como se quisesse decorar o recado, e fê-lo em miuçalhas atirando os bocadinhos no caixão do cisco. - Ora, adeus! aquilo não servia para nada!

Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento que lhe fazia bater o coração. Assaltaram-lhe idéias horrorosas de crimes, de homicídios de sangue; relembrava casos que tinham alvoroçado o Rio de Janeiro, casos de ciúmes, de traições... Na Rua do Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma pobre “mulher da vida”; encontrara-a com outro... A polícia correu ao lugar do sinistro, mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cadáver da rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se também de outro caso medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a mulher em bocados como se esquarteja uma rês. O povo correra em massa para ver o espetáculo; dizia-se até que a vítima era uma espanhola de alto bordo chamada Lola.

Tudo isso vinha-lhe à imaginação desordenadamente, esfriando o seu amor, enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um aviso de desgraça próxima.

Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a pensar, calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra, suspirando pelos bons tempos da sua mocidade, ora nos fundos da casa, indo e vindo como tonta: - “que não se podia com o calor de dezembro, uf!...”

Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: - Ainda! Jesus, que dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem uma distração... Era contra seus hábitos aquilo: não podia estar em pé sem fazer cousa alguma, Que ferro!

Não lhe saía da cabeça o bilhetinho do negro que ela espedaçara. - E não é que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo! Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele!

Entrou pela noite com a mesma inquietação, com o mesmo receio vago e indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo. Bem que estava sossegada no seu cantinho da Rua da Misericórdia, vivendo como Deus queria, sem se incomodar. Afinal de contas, o grumete era uma criança e ela uma senhora de idade...

E logo, refletindo: - Ah! mas ninguém está livre: homem e mulher são como fogo e pólvora ... Assim mesmo quarentona, ela era mulher, tinha sangue nas veias e um coração para sentir...

Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi deitar muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras da humanidade. Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia um grande calor abafado de estufa, e ela não podia conciliar o sono, adormecer tranqüilamente; fechava os olhos em vão, para tornar a abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso ridículo de mulherzinha histérica, ela, um mulherão daquele, gorda, forte e sadia!

Nenhuma posição lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma, que lhe tirava o fôlego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe sucedia. Debalde escancarou as portas da alcova - a que dizia para a sala de jantar e a do corredor. Qual! A mesma falta de ar, o mesmo inferno. E sempre a lembrança do negro e do outro atormentado-a como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa bêbedo, os olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a arma, cheio de ódio feroz, terrível, hediondo, e, de repente, cair sobre o grumete, espumando ciúme, cortando-lhe de navalhadas; e parecia-lhe estar vendo o outro rolar no chão sem fala, num rio de sangue, morto!... E depois a polícia, gritos de socorro, vergonhas, curiosos que vinham ver...

Bateu duas horas da madrugada. Já se não ouviam os bondes. Um silêncio absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quietação dormente e abafada - uma calma infinita de subterrâneo.

Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente - um sono de pedra, inabalável como o sono eterno...

Como de costume, Aleixo “folgou” no dia seguinte, e, como de costume, veio direto à casa, muito leve, muito desobrigado, no seu uniforme azul, capa branca no boné, oloroso e risonho. D. Carolina estava para dentro, às voltas com a cozinha. Eram três horas da tarde. O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada àquela hora, e bateu com força. - Oh! isso era novidade!...

A mulher correu logo a ver da janela: - Seria o bonitinho?

Houve um pequeno rebuliço na vizinhança. Embaixo, na loja, apareceu uma cabeça negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo naturalmente, por acaso... O caixeiro da padaria estirou o pescoço, de dentro do balcão.

D. Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma exclamação de surpresa: - Oh! não o esperava tão cedo!

- Tão cedo? Pois ainda achava cedo? É boa: quase noite!

- Oh! filho são duas horas...

- Duas não senhora: já vai para as quatro.

E foram subindo a escada, ela com o braço no ombro do rapazinho, ele muito sério, muito desconfiado, os olhos baixos, uma expressão melancólica no rosto púbere. - Que lembrança fechar a porta da rua àquela hora!..

E a portuguesa beijando-o na face:

- Não te zangues, meu jasmim, não te zangues. Porta fechada livra de tentações... Deu-me uma cousa, um medo...

- Qual tentações, qual medo! Você já não é criança para andar se escondendo... Isso até faz a gente desconfiar.

Mas D. Carolina não queria dizer a verdade, os seus escrúpulos com relação à Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo? Ele bem sabia que o outro não o abandonava facilmente: negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... Aleixo bem conhecia o gênio de Bom-Crioulo. De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: - Cousas de negro...

- Olha, ó pequenino, juro-te que não fecharei mais a porta da rua. Sossega, ouviste? sossega...

Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos móveis, na cama, pelo quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vestígios de infidelidade. A mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa úmida de suor, toda cheia de cautelas para que ele não se constipasse. - Olha, muda a camisa; olha, toma um o pouquinho de aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos...

Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em dedicações, em ternuras quase infantis, desejando até que ele a maltratasse, que ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre ela um poder maravilhoso, uma fascinação irresistível: penetrava o fundo de sua alma, dominando-a, transformando-a num pobre animal sem vontade, queimando-a como uma brasa ardente, impelindo-a para todos os sacrifícios... Perto dele, fugiam-lhe todos os receios, todas as dívidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na ponta de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!

Nesse dia principalmente, ao contrário da véspera, em que ela, no meio de seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia principalmente achava-se de uma bondade maternal: a amizade convertera-se-lhe numa espécie de fanatismo, numa adoração religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e feliz, como se todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse olhar ideal, de uma doçura infinita.

- Tu és o meu santo, ó pequenino, dizia ela; tu és a minha única felicidade neste velho mundo tão cheio de misérias...

E abraçava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao rapazinho numa fúria sensual e mórbida.

- Mas, que diabo é isso, filha, estás louca? ralhava o grumete cuja fisionomia, desde que chegara, não se abrira num sorriso amável: - que desespero é esse?

- Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!

Ele não disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por sua vez, humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e indiferente, não lhe fazia o menor agrado. Ambos permaneceram calados, como duas pessoas estranhas na mesa de um hotel. Mas, para o fim, ela não pode suportar aquele silêncio incômodo.

- Que te fiz eu, ó filho, dize, que te fiz eu? Não me encontraste só, em casa, trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?

Aleixo continuava mudo, os beiços agitados por um tremor convulso, o olhar na parede.

- Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no braço. Hás de ter alguma razão para te zangares...

Ele, porém, não se movia, não dava resposta, impenetrável na sua mudez obstinada e cruel, que estava quase arrancado lágrimas à mulher. Então D. Carolina sentiu um desespero n’alma, e, erguendo-se triste, foi-se para a alcova, maldizendo-se, lamentando a “sua desgraça”: - Que era uma infeliz, que todos a desprezavam, que estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia morrer!

- Para que fechou, então, a porta da rua? tornou ele. Há algum mistério nesta casa? A senhora não me esperava hoje?

- Ó filho, pois eu já não te disse que fechei apor causa de um medo que me assaltou de repente?...

- Que medo, senhora, que medo! Para tudo há desculpa. A senhora não está procedendo bem...

D. Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com o avental, muito queixosa.

- Donde é que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora não abre a porta, não a deixa escancarada?

- Está você fazendo barulho à toa, por uma ninharia... Ou o homem tem confiança na mulher ou não tem. Você nunca me encontrou com outro, para fazer mau juízo da gente...

- Bom, mas, então, seja franca, explique-se. Por que é que fechou a porta da rua?

Havia já um princípio de reconciliação. Aleixo aproximara-se da cama sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns olhos muito ternos, muito cheios de humildade e resignação.

- Queres que eu te diga porque é que fechei a porta da rua? Pois senta-te pr’aí que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo, para não te dar cuidado.

O grumete imaginou logo uma série de cousas desagradáveis: tentativas de roubo, ameaças e prisão, violências, um horror! Estava longe, porém, de pensar em Bom-Crioulo; a seus olhos o negro morrera, desaparecera; ninguém lhe dava notícias dele; decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem, mar afora, nalgum cruzeiro. ..

E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., “porque não valia a pena a gente se amofinar...”

Aleixo ouviu tudo curioso, a face na mão, derreado na cama larga.

- E onde está ele? perguntou vivamente.

- No hospital de marinha, na ilha, com alguma doença... Quem o não conhecer que o compre.

Aleixo não quis dizer nada; mas a história do bilhete comovera-o, enchera-o de uma vaga melancolia: - Bom-Crioulo ainda se lembrava!...

Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente...

- Que acha?

D. Carolina reprovou: - Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma pessoa se atirar do Corcovado. Não, nunca!

- Deixa-o lá, filho: pouco a pouco ele irá se esquecendo; faze pela vida e deixa-o lá. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!

- E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?

- Qual!... Por isso é que eu trago a porta da rua fechada...

- Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida é esta!...

- E ninguém deve ir contra as leis da Providência, resumiu D. Carolina dogmaticamente.

Serenara a pequena discórdia. Estava tudo explicado. Aleixo reconhecera sua injustiça para com a portuguesa, e ela o perdoara, sempre boa, sempre generosa. Do alto do sobradinho viam ambos, agora, aconchegados, felizes, rindo, os que passavam embaixo, na rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre amarela? Em todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo só havia duas criaturas felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa - felizes como Adão e Eva antes do pecado, felizes como todos os casais que se amam...

Saíram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo propôs irem ao Passeio Público tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer. Não se podia estar em casa com o calor! D. Carolina lembrou a Guarda-Velha: - Não seria melhor irem à Guarda-Velha, à fábrica de cerveja? Havia música também...

Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito à vista, iam marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio Público era maior e menos freqüentado: tinha-se mais liberdade. E depois era só tomar o bondinho da Lapa.

- Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o enfiar um jaquetão à paisana. É mais fresca e dá respeito...

- O respeito não está na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; é respeitado quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!

Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, “todo bonitinho”, como uma pintura, chamando a atenção dos burgueses, admirado, invejado, gabado. Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem comparação! O que era um soldado à paisana? Um homem como qualquer outro, um pobre-diabo que ninguém respeitava. Oh! a farda...

- Mas eu não quero, filha, não gosto. São cousas...

- Bom, não precisa brigar. Vai como quiseres.

Estava escurecendo. No interior do sobradinho já se não distinguiam os objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de gás e havia grande calma, uma sonolência profunda no quarteirão.

- Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto à janela.

Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo céu, baixas, pesadas, rolando como fumarada negra de incêndio. O tempo refrescava. Corria mesmo uma aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana imitava guinchos de locomotiva para os lados da Misericórdia.

Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um ar bonachão e honesto, ele um pouco triste, chapéu de palhinha derreado para a nuca, mostrando o cabelo penteado em pastas, uma gravata cor de sangue - aprumado e circunspecto.

O bonde tocou.

XI

Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo - um desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom-Crioulo. Não lhe restava mais esperança que Aleixo fosse vê-lo ao hospital: estava desiludido. O grumete abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma satisfação! - Atrás dos apedrejados vem as pedras... Uma pessoa, no fim das contas, era obrigada a tornar-se ruim, a fazer todas as loucuras... Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se, proceder bem, não vale nada, é uma grande tolice, uma grande asneira.

Tinha momentos de calma, procurando afastar do espírito qualquer idéia de vingança, de desforra, como quem se julga superior às pequeninas misérias da vida. Durante o dia jogava a dama com o tal empregado que lhe fizera o bilhete, resignado, sem cólera, prazenteiro mesmo, não perdendo, entretanto, aquela vaga expressão de melancolia que boiava em seus olhos traindo mistérios d’alma...

Era à noite, porém, que o caso de Aleixo voltava-lhe à imaginação, enchendo-a de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insistência de um remorso -à noite, nas horas de repouso, quando tudo era silêncio no hospital.

Positivamente não se conformava com a idéia de que o Aleixo o abandonara por outro... E quem seria esse outro? Algum marinheiro também, decerto, algum “primeira-classe”... Era muita ingratidão, muita baixeza! Abandoná-lo, por quê? Porque era negro, porque fora escravo? Tão bom era ele quanto o imperador!...

Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidável ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; - não podia fechar os olhos, nem tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doído por ali fora, meter-se num banho e ficar n’água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!

Então é que tinha raiva de Aleixo, então é que se revoltava contra o grumete, o “causador de todos os seus males”. Naquele estado aflitivo de desespero de corpo e d’alma ia-se-lhe a razão - Bom-Crioulo só tinha uma idéia: vingar-se do efebo, persegui-lo até a morte, aniquilá-lo para sempre!

Era um misto de ódio, de amor e de ciúme, o que ele experimentava nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo aumentava em seu coração ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ninguém tinha o direito de lhe roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construída pelas suas próprias mãos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as cóleras de Otelo...

Aleixo com outro homem! Esta idéia fazia-o enlouquecer de ciúme, torturava-o como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e dolorosa.

Que felicidade, que alívio, que suprema ventura, quando pela manhã, já dia claro, o sol, tépido e loução, entrava cheio de mistério pela enfermaria dentro, e recomeçava em todo o hospital a bela vida!...

Foi justamente numa dessas noites e obsessão e desespero que Bom-Crioulo galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para a Rua da Misericórdia, cego, às tontas, como quem vai precipitar-se num abismo.

Era um sábado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao hospital visitar os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da corveta, seu companheiro de viagem outrora - o Pinga, o Herculano, que fora surpreendido a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano, junto à amurada, na proa, certa noite...

- Ó Herculano, vem cá!

- Oh! Bom-Crioulo!

- Então, que é feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo o outro pelo braço. Onde é que estás agora?

Herculano estava mudado, já não era o mesmo Pinga retraído e esquivo, com olheiras, falando pausadamente. Estava outro, admiravelmente outro, O Herculano - gordo, rosado, o olhar vivo e brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de tristeza. Perdera a antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa à-toa, falava desempenado, alto, e ria, como uma criança, por ninharias. - “Onde estava agora? Na corveta, sempre na corveta.”

- Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfação que lhe fazia a resposta. Ainda estás na corveta, homem de Deus?

- Por que não? Aquilo é que é navio. Depois que saiu do dique, nem parece a mesma. Faz gosto vê-la. Toda pintadinha, toda nova, que é ver uma tetéia.

- Mas, como é que se muda assim, rapaz? Tu, que eras tão pobre de sangue, estás me parecendo bonito, homem!

- Qual o quê! sorriu Herculano. Já estive mais gordo...

Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viam-se-lhe os ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma espécie de ruga funda no pescoço...

- Estás doente? perguntou.

- Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo... Diz que é sarna.

- Ah!... Porque estás magro, meu velho, estás na espinha. Que diabo!

E depois de uma pausa.

- Eu vim ver o Anacleto, que está com uma carregação... Não sabias que tinha baixado também, que andavas por aqui. Fazia-te longe...

- É verdade, há quase um mês nesta desgraça, me acabando!

Chegaram à enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em grupos, nos corredores, nas dependências do hospital. Alguns convalescentes jogavam a peteca num largo donde se avistava o mar.

Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, imóveis e embandeirados, tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de corneta ao longe e sons de música em terra, na cidade. Barcas de Niterói cruzavam-se no meio da baía calma. Por toda a parte, no mar e em terra, um frêmito de alegria universal e domingueira, uma estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras névoas do crepúsculo. Já se não via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a pouco tornando-se difusa, esmaecida, langue, como uma manhã de brumas. O perfil das embarcações, o contorno das montanhas, torres e chaminés - tudo mergulhava na noite que descia palpitante de mistérios...

Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de folga; daí, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era preciso não demorar muito, sob pena de fechar-se o portão do estabelecimento, e ele amanhecer naquele “cemitério de vivos”...

Bom-Crioulo tranqüilizou-o: - Ainda era cedo,. Que pressa, que vexame!

E muito jeitoso, muito amável:

- Senta um pouco. Nada de cerimônias: isto aqui é meu, é teu, é do Governo. Podemos conversar à vontade.

Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo chão, pelo teto, pelas camas alinhadas. De resto, não era má vida... Boas camas, bom passadio, liberdade...

- É porque ainda não passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um inferno é o que isto é. Só mesmo para quem não pode agüentar-se. Boa cama temos nós a bordo.

- Pode-se fumar? perguntou o outro.

- É proibido, mas fuma lá teu cigarro.

Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. - “Era só um instantinho”, avisou o grumete.

E Bom-Crioulo puxou conversa:

- Dá-me notícias daquela gente, ó Herculano. Como vai o Aleixo, como vai o guardião Agostinho, como vão todos?...

- Bem. O guardião Agostinho sempre malvado, aquele cabra - malvado e “implicante”. Eu, felizmente, não lhe tenho caído nas unhas; felizmente! O Aleixo, aqui pra nós, anda muito metido com os oficiais. Vive na praça d’armas, é quem dá corda no relógio, é quem arruma os camarotes, quem faz tudo. Está um pelintra, filho, um grande pelintra: é o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando quer...

Bom-Crioulo pigarreou.

- Eu, por mim, não troco palavra com ele, continuou Herculano. Estamos de mal, por uma asneira, por uma tolice... Outro dia quase nos pegamos. Dizem até que está amigado, em terra, com uma rapariga.

- Amigado!?...

- Sim, amigado, um pitorra daquele. É o que dizem, eu não sei.

Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se, abafando uma golfada de palavrões, uma onda de cólera, que estava quase a irromper-lhe da boca. Desesperava. Na tépida penumbra da enfermaria o seu olhar tomava uma expressão dolorida e úmida, como o olhar de um náufrago perdido no círculo imenso das águas. Era uma tempestade surda e impenetrável, um desabar de todas as crenças, de todas as ilusões, de todas as forças que mantém o equilíbrio de uma natureza humana em revolta...

- O Sant’Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ninguém sabe para onde. Também, coitado! apanhava que nem boi ladrão. Era um pobre diabo...

Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou episódios íntimos de bordo, muito loquaz, muito verboso; e como já fosse noite:

- Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques bom, hein! que fiques completamente bom. Eu lá estou, na corveta, para o que quiseres. Boa noite!

- Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase lúgubre.

Acendiam-se as estrelas no céu muito alto e de uma limpidez outonal...

Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : -“Dizem até que está amigado!”

Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão ingênuo, tão dedicado, tão bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o contacto de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo, por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...

Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo, rendido a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso... As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora, lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: - era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somente o gozo comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas... E havia de tê-lo, custasse o que custasse!

Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo mundo à procura de Aleixo.

Inquieto, sobreexcitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... Pudera! Um homem não resiste, quanto mais uma criança! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braços da amante, da tal rapariga - ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos -, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva - rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza... Depois a rapariga debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento. E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.

Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo de idéias vagas que não o permitiam tomar uma solução pronta, definitiva. Só uma idéia conservava-se firme e clara em seu espírito: fugir, fugir quanto antes, não esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer na rua, no meio da cidade, longe do hospital, “desse hospital de merda”!

Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando calor, arrumava a trouxa...- qual trouxa! nem era preciso trouxa! - e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavam sobre um terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. Não eram, porém, tão altas que se não pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E Bom-Crioulo não seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali. Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao pé de uma árvore, o corpo todo cheio de pisaduras, vertendo sangue pelo nariz; veio a morrer da queda, que lhe produzira uma doença grave na espinha.

O negro não teve dúvida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi à casinha, para não dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha de marinheiro que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa branca de doente, a camisa de gola, e voltou cauteloso, perscrutando o silêncio e a escuridão. Depois, foi tudo rápido: deu volta ao cabo na janela, um cabo grosso trançado, e -... que os pariu! - saltou fora. Uma escuridão medonha na baía e um silêncio de arrepiar cabelo. Era a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de instante a instante, o seu prolongado - alerta! que o eco repetia no mar e em terra. Nenhuma outra voz, nenhum outro sinal de vida. A cidade iluminada, estrelada de luzes microscópicas, era como vasta necrópole na lúgubre inquietação da noite.

Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal arrepiar-lhe a nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o paredão do hospital, sem olhar pra trás, sem ver nada. Tinha examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse modo, caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa. Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para não precipitar-se. Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em pé, segurando aqui, segurando acolá, às apalpadelas, e pôde enfim -que os pariu! - chegar ao cais, à beira d’água, sem o mais leve arranhão. Dava meia hora na Candelária - uma pancada sonora e cheia, que reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. - “Faltava atravessar o canal, pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extensão líquida que separava o arsenal da ilha. Paciência, um pouquinho de paciência. Devagar...” Encolheu-se todo por trás de um guindaste, reflexionando. - Ia dali rente para o sobrado: queria ver como estava aquilo; queria fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? Já não se lembrava dela!... É verdade, a portuguesa?...

Um relâmpago, uma dúvida passou rápida em seu espírito, deslumbrando-o: - Qual! Não era possível!... Que tolice!...

O friozinho aumentava. O relógio da Candelária, sonoro e profundo, badalou duas horas. Bom-Crioulo ergueu a vista para o céu: - as estrelas palpitavam; a via-láctea resplandecia, branca e tortuosa, na infinita serenidade da noite. Defronte, no arsenal, erguia-se o perfil de uma grande chaminé sombria. A água marulhava no cais monotonamente, em seu eterno fluxo e refluxo. - Alerta! bradavam as sentinelas a cada instante, na ilha, no arsenal, na Alfândega, nos trapiches. Em toda parte o mesmo silêncio, a mesma quietação, a mesma clama profunda.

A noite parecia não acabar, não ter fim: era como uma eternidade. Arrastado pela maré, um objeto ia flutuando águas abaixo, vagarosamente. - Algum trapo velho, pensou o negro, talvez mesmo, quem sabe? algum “corpo”...

E nada de clarear, nada de amanhecer; já se ia impacientando! Que diabo fazia ele que não tomava uma resolução? Era para isso que tinha fugido, pra estar ali de boca aberta, caindo de sono? Mas não havia remédio, senão esperar, não havia outro jeito. Ir a nado? Qual! E as sentinelas?... Paciência, paciência...

Duas horas no relógio da Candelária. Apenas uma voz bradou, longínqua e desolada, sem eco: - Alerta!

Bom-Crioulo recostou a cabeça no guindaste, bêbedo de sono, um peso nas pálpebras, uma indisposição no corpo; e, não obstante as “coceiras”, que aí vinham-lhe subindo nas pernas, como um formigueiro, adormeceu ao rumorzinho da água no cais.

Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Começava o tumulto de escaleres e catraieiros para os lados da Alfândega. Ouvia-se o barulho de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor fora. Os Órgãos, indistintos ainda na meia sombra do alvorecer, iam pouco a pouco evidenciando sua bela configuração de harmônium colossal. Uma ou outra luzinha pálida no anfiteatro da cidade. Tinha-se apagado a iluminação. No mosteiro de S. Bento um sino fanhoso vibrava matinas desde as três horas, insistentemente, num alvoroço de igrejinha d’aldeia que acordas proclamando os triunfos da cristandade. A bordo, nos navios de guerra, cornetas preludiavam o hino do amanhecer. Do outro lado da baía, em Niterói, uma névoa fina, transparente, como a evaporação de um grande lago, fraldejava as montanhas, ocultando a paisagem de um extremo a outro. E lá fora da Barra, para além do Pão d’Áçucar, um listrão cor de rosa, pouco apouco ia-se tornando mais vivo, mais fulgurante no céu lívido...

Bom-Crioulo circunvagou o olhar, muito admirado, muito surpreendido, como se estivesse num lugar estranho, e a primeira palavra que lhe veio à boca foi uma obscenidade: - “... que os pariu! Ia-se desgraçando!... Mãos à obra! Felizmente ainda não era dia claro...”

Nenhum bote, nenhuma embarcação, ali perto, no canal, O movimento era todo na vizinhança da Alfândega, no cais dos Mineiros. Passavam escaleres de guerra: Bom-Crioulo escondia-se para não ser visto. - Diabo! diabo! Tudo por causa de um grumetezinho!...

De repente, ouviu barulho n’água - aproximou-se: era um bote de ganho.

- “Até que enfim! Ora até que enfim!”

A pequena embarcação vinha-se chegando para a ilha sem toldo, remada por um galego de suíças, meio velho. Trazia à popa, no recosto do paineiro, o dístico - Luis de Camões, por cima de uma figura à óleo, que tanto podia ser a do grande épico como a de qualquer outra pessoa barbada, em cuja fronte se houvesse desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta tinha o olho esquerdo vazado, o que, afinal de contas, não interessava ao negro.

- Quer me levar ao cais? perguntou Bom-Crioulo ao português,

- É já! disse o homem atracando. O Luis de Camões não dorme.

- Vamos.

- Pode embarcar.

- Upa!

E, com um salto, Bom-Crioulo embarcou. Estava, enfim, livre de perigo; - “... que os pariu!”

Daí a instante perdia-se no labirinto da cidade, marchando no seu passo largo, muito desenvolto, quebrando ruas, dobrando esquinas, “bordejando”...

Estava um dia lindo, lindo! Um dia de galas no azul e nas montanha, um dia e liberdade!

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