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TENTAÇÃO

adolfo caminhas

Enquanto Evaristo aborrecia-se - ele, que falava tanto da província: "porque a província era o statu quo, a imobilidade, o abandono" - ela deliciava-se agora, em plena Corte, em pleno Botafogo, cheia de vida e de ambições, a exemplo de D. Branca e de outras senhoras, que, sem desprezar os maridos, gozavam quanto podiam, vestindo-se bem, trajando com elegância, ostentando beleza e mocidade aonde quer que se apresentassem. Nos primeiros dias estranhara o Rio, achara tudo falso, tudo superficial, tudo para enganar os olhos. Agora, não: tudo impunha-se ao seu espírito como um dever, como uma necessidade lógica e humana.

E sempre que ia à praia, sempre que ia a um teatro, a um passeio, voltava triste, desalentada, com uma dor no coração... Não poder "como as outras" ostentar o frescor dos seus vinte anos, aparecendo nas rodas elegantes, de braço com o Evaristo - ele todo nobreza, todo modernismo, aristocraticamente enluvado; ela chique, numa pompa de rainha, um sorriso à flor dos lábios - os dois em carruagem aberta ou num camarote do Lírico! Oh, não poder gozar, como as outras mulheres que ela via, deslumbrada e abatida, da sua pobreza honesta, da sua triste posição de mulherzinha dócil, de esposa exemplar!

Aquilo ia calando em seu espírito, onde um princípio de orgulho feminino brotava ocultamente.

Evaristo ganhava pouco ainda, o essencial para se ir mantendo com alguma independência, sem dever a ninguém. Era inimigo de contrair dívidas; um alfinete, que comprasse, havia de ser pago logo, na ocasião mesma do negócio; por forma que o dinheiro do Banco, o ordenado, ia-se num abrir e fechar de olhos, para a mão do homem da venda e para o bolso do alfaiate. Ele próprio conservava a roupa que trouxera da província; não tinha luxo, nem jóias de valor. Afinal não passava - como dizia - de um pobretão mísero, empregado subalterno. D. Branca podia luxar, aparecer - não era admiração; o Luís ganhava tanto como oitocentos mil-réis, fora a renda das apólices que possuía no Tesouro e de umas açõezinhas do Banco Industrial. Onde, pois, a admiração? Nenhuma. Feria-lhe também o amor-próprio de marido extremoso ver Adelaide, a sua Adelaide, com os mesmos vestidos, com o mesmo chapéu, sem um brilhante, uma jóia de ouro, envergonhada no meio das outras. - Mas... que se havia de fazer? Por isso é que desejava ter uma casinha na Cidade Nova, "um albergue", de cinqüenta mil-réis, longe desse rumor de etiquetas e ostentações. Um dia pra diante, quando pudesse - muito bem! alugava um chalé em Botafogo e Adelaide não tinha de que baixar a cabeça às exigências do high-life. Por enquanto a palavra de ordem era - economia, muita economia!

De resto, o procedimento de Adelaide para com o esposo não mudara. Evaristo continuava sendo o mesmo Evaristo, bom e leal, por vezes de uma ternura lânguida, quase pueril, achando muita razão em tudo quanto ela dizia, tratando-se como noivos.

D. Branca estranhava que eles ainda não tivessem filho, ao menos um morgado para dar que fazer à mamãe...

E aconselhava banhos de mar no Flamengo: - por que não experimentavam os banhos de mar no Flamengo? Um filhinho era indispensável a um casal...

Evaristo ria e jurava, rindo, que no mês seguinte iam começar os banhos ali mesmo na praia de Botafogo.

A propósito de filhos, a mulher do secretário anunciou o batizado da Julínha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer uma festa sem cerimônia, entre pessoas de intimidade.

Evaristo recebeu a notícia com um - oh!... de surpresa. - Muito bem! muito bem! Era preciso batizar a menina... Ele, se tivesse filhos, batizava-os ao nascer.

E com ironia:

- Temos, então, a princesa?

- Como, Sr. Evaristo?

- Digo: a princesa há de comparecer à festa.

- Qual o quê! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim?

- Pensei.

- Vai ser a madrinha de minha filha, por procuração; isso bem...

E Evaristo, sempre irônico:

- O imperador é o padrinho...

- Não senhor, não senhor... O padrinho é o Lousada, o velho Lousada. O imperador já é padrinho do Raul.

- Onde estamos nós metidos, Adelaide! exclamou o bacharel, arregalando os olhos. Tudo aqui é principesco, minha senhora!

D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:

- Tudo aqui não é principesco, não senhor! Não queira fazer pouco...

- Eu, fazer pouco? Oh, não se lembre de tal coisa! Principesco é uma maneira de dizer.

- Ah! o senhor é republicano?

- Republicano não: democrata.

- Pois está muito bem arranjado com a sua democracia!

Furtado, que estava lendo o Comércio do Rio, saltou:

- Quem é democrata - o Evaristo?

- Eu, sim...

- Democrata enquanto não conheceres bem o Rio de Janeiro...

- Por quê?

- Ora, por quê! Porque o Rio de Janeiro em globo é monarquista e quem diz monarquista diz aristocrata.

- Não é razão. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer o município neutro...) é monarquista, eu posso muito bem sair um republicano às direitas.

Furtado abriu numa gargalhada estridente.

- Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do Império, e o que é mais, em Botafogo! Ilusões da academia, rapaz, ilusões de estudante de retórica!

- Não senhor, que o partido republicano está ganhando terreno aqui mesmo, na Corte, às barbas d'El-Rei! Fala-se na ida do velho à Europa; o velho está doido, já não pode governar, e o resultado é que...

- É que estás a dizer tolices... A monarquia está guardada por sentinelas da força do barão de Cotegipe, do visconde de Ouro Preto, do João Alfredo e de outros... Cada um desses homens é um obstáculo contra qualquer tentativa de assalto às instituições.

Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando pulinhos na cadeira.

- O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O João Alfredo! No momento psicológico voam todos, como aves de arribação, para Petrópolis! Desaparecem como por encanto, somem-se na noite do medo...

- É o que pensas. A opinião é deles, o povo não permitirá que eles sejam desacatados.

- O povo! - exclamou Evaristo com voz de trovão. - A que chamas tu povo?

- À população do Rio de Janeiro, à população do Brasil - a treze milhões de almas que adoram o imperador!

- O povo brasileiro não se envolve nisso, meu Furtado; se fôssemos esperar pelo povo, estávamos bem arranjados.

- E então?

- E então, é que a força armada.

Basta de política, basta de política, Sr. Evaristo. Ó Luís, por favor, continua a ler teu jornal - interveio D. Branca. - É favor!

Adelaide correu a tapar a boca do marido com a mão espalmada: - "Não senhor, nada de política!"

E continuou-se a falar no batizado da pequena, sem alusões à princesa, nem ao monarca. A esposa do secretário disse que tinha mandado fazer um vestido para estrear nesse dia - uma toilette simples, de um tecido novo, muito usado em Paris, que A Notre Dame recebera...

Adelaide mordiscou a pelezinha do beiço com tristeza. - Um vestido novo, chegado de Paris!... E ela como se havia de apresentar no dia da festa? Oh, com o seu vestido de provinciana, de mangas compridas e babados! Que vergonha, Santo Deus! O melhor vestido que possuía era o de gorgorão, com que embarcara..., mas estava fora da moda e da etiqueta. Antes nunca tivesse vindo ao Rio de Janeiro...

Quase não dormiu, essa noite, pensando no batizado. À hora de recolher, Evaristo achou-a triste, com um arzinho de choro, descobrindo mesmo uma lágrima vagarosa na face dela. Mas não disse nada. Adelaide continuou a se despir à meia-luz do gás, e rolou na cama silenciosamente, de rosto para a parede.

- Ó Adelaide!... - chamou Evaristo, já desconfiado.

A mulher não respondeu.

Adelaide! tornou ele, aproximando-se.

- Que é?... choramingou a rapariga, encolhendo-se.

- Olha...

Ela não se moveu.

- Olha!

Mesma posição, mesmo silêncio.

- Olha cá uma coisa.

- Que é?

- Estás chorando?

- Não...

Mas pelo tom da voz, conheceu bem que alguma coisa havia no coração de Adelaide.

- Como não, se te ouvi soluçar?

- Eu?!...

- Exatamente. Queres ocultar-me algum desgosto?

E devagarinho, como para não acordar uma criança, o bacharel foi-se inclinando no leito.

- Vamos: é a primeira vez que choras em minha companhia, depois que estamos casados.

- Nada... lembrei-me da Balbina.

Da Balbina? Homessa!

Falavam muito em segredo, cochichando, ela de costas para ele. A casa estava toda no escuro. Furtado e a mulher não davam sinal de vida.

- Que tens tu com a Balbina? - tornou Evaristo. - Não é má a lembrança! Como se a Balbina fosse tua mãe!

- Mas lembrei-me.

- Se me não dissesses, eu não acreditaria, palavra de honra!

E admirado:

- Chorar com saudades da Balbina! É curioso, é singular!

Os inquilinos do segundo andar apagaram a luz e um relógio bateu meia-noite.

Involuntariamente, por causa de Adelaide, Evaristo adormeceu pensando na Balbina, a negra velha de Coqueiros, sem atinar com a significação da lágrima que vira na face da esposa.

Certo é que a amiga de D. Branca recolhera com o pensamento no batizado da Julinha. Quis desabafar, dizer tudo a Evaristo, suplicar-lhe que trouxesse um vestido novo para a festa de D. Branca, rogar-lhe, pelo amor de Deus, que fizesse um pequeno sacrifício... Mas não teve ânimo: podia parecer uma exigência, uma falta de atenção, e ela nunca abrira a boca para pedir a Evaristo um grampo, quanto mais um corte de fazenda! Não era por vaidade, nem por orgulho, nem por capricho - é que tinha obrigação de se apresentar à aristocracia em trajos de mulher educada e não com um pobre vestido fora da moda, sem elegância, mal cosido, mal ajustado ao corpo - horrível!

No outro dia Evaristo, inda na cama, interpelou-a sobre o acidente da véspera, gracejando, rindo, na melhor boa-fé, longe de adivinhar o que se passava no espírito de Adelaide. - Chorar pela Balbina - ela! Que extraordinário coração, que alma cândida!

- Chora-se até pelos animais, por um gatinho, por um cachorro, por um pássaro que a gente criou!...

E Adelaide, ocultando ingenuamente o desgosto que a pungia, lembrou ao marido o fato de ter ele chorado a morte de uma patativa, antes de vir para o Rio de Janeiro.

O bacharel não disse que não, mas afirmou que o caso era diverso e que entre a patativa e a Balbina preferia a patativa.

E a lágrima da jovem senhora caiu no esquecimento como todas as coisas deste mundo.

Ela, porém, via se aproximar o domingo do batizado, cheio de tristeza, maldizendo a nova situação em que a colocara o destino. Positivamente Evaristo não enxergava além das grosseiras necessidades da vida doméstica e não via que uma dona-de-casa no Rio de Janeiro tinha a obrigação de ser, ao mesmo tempo, uma dama elegante, uma senhora distinta, com todos os requisitos para figurar num sarau pomposo ou em qualquer parte aonde houvesse aristocracia e luxo... Como é que ela, vivendo na casa de um homem fino, de uni capitalista, vivendo entre pessoas de "tratamento" em Botafogo, ia-se apresentar aos olhos de D. Branca, aos olhos de D. Sinhá e da mulher do desembargador, aos olhos de uma gente fidalga, na sua humilde toilette de provinciana pobre? Todo o mundo havia de reparar e dizer mal. N0 entanto, com qualquer dinheirinho comprava-se um vestido sério, novo,que ao menos aparentasse... A própria D. Branca lhe dera a perceber que se obtinha, no Rio, muita coisa de alto valor por "preços baratíssimos..."

Oh, aquela festa, domingo, tirava-lhe o sono! Que belo, se caísse uma grande chuva, um aguaceiro medonho, de alagar a cidade inteira, de deixar tudo quanto fosse rua na lama! Quem dera! Ficava transferido o batizado ou ninguém ia à casa de D. Branca, e ela, então, ela, Adelaide, não tinha de se envergonhar, de baixar a cabeça a estranhos.

Mas - nem de propósito! - fazia um tempo claro, azul, luminoso, adorável, como os belos dias de primavera, sem o menor sintoma de variação barométrica, sem nuvens na limpidez cristalina das montanhas.

E a jovem esposa de Evaristo perdia-se em cogitações de toda a ordem, moralmente abatida no seu orgulho, na sua vaidade latente de mulher nova que se vê roubada nos seus direitos à partilha dos gozos. Lembrava-se, por uma natural associação de idéias, de que D. Branca lhe dissera certa vez: "O homem é egoísta e finge não compreender as necessidades da mulher, quando se trata de um vestido novo ou de uma despesa extraordinária. A mulher é obrigada a pedir, a reclamar, a dizer o que precisa, o que lhe falta." Ela pedir a Evaristo? Pedir o quê? Uma toilette para o batizado da pequena? E a roupa que trouxera do Norte, um enxoval quase completo, inda que fora da moda? Que havia de dizer? Que razões apresentar a ele, que sempre a conhecera pobre e refratária à etiqueta e ao luxo? Não, não tinha coragem, nem queria, com uma exigência descabida, molestar o grande coração de Evaristo.

Esperou, resignada, abafando impulsos d'alma.

Em casa de Luís Furtado, naqueles dias mais próximos à festa, era este o assunto obrigado de todas as conversas. D. Branca, principalmente, cuja loquacidade contrastava com a moderação dos inquilinos do segundo andar - não fazia outra coisa senão remexer nas gavetas, polir os móveis, expor os cristais, num açodamento, numa impaciência que lhe dava ares de inseto doido. Queria tudo nos seus lugares, para quando chegasse o domingo. Mandou afinar o piano, lavar a casa de um extremo ao outro, inclusive o quarto dos hóspedes e o escritório de Furtado, no rés-do-chão, substituir as cortinas da sala de visitas; enfim, toda a casa ficou pronta com quatro dias de antecedência para receber o desembargador Lousada e alguns convidados "sem cerimônia". Era pouca gente: o visconde de Santa Quitéria, o Dr. Condicional, dois amigos quase íntimos do secretário, o Loiola, tesoureiro do Banco, a viúva Tourinho, muito boa senhora, também rica e prendada, o Xavier, do Jornal de Notícias e um ou outro rapaz, de intimidade.

Evaristo caiu das nuvens.

- Minha mulher - disse ele à esposa - temos grosso forrobodól Esta gente chama festa sem cerimônia a uma reunião de altos personagens que se divertem aristocraticamente. Com que vestido te vás apresentar?

- Eu?... O melhorzinho é o de casimira cinzenta, não falando no de gorgorão...

- De casimira?.

Evaristo levou a mão ao queixo e fitou os olhos na mulher em atitude contemplativa.

- Que dizes?

- Não sei... - respondeu Adelaide com indiferença.

O bacharel agarrou-se aos bigodes, repuxando-os com a língua, mordendo-os, como se empacasse na resolução dalgum problema de direito.

- Aonde nos vimos meter! - dizia, passeando no quarto. - Aonde nos vimos meter!

- É o teu grandioso e espetaculoso Rio de Janeiro!

Evaristo sorriu da ironia, e continuando a passear:

- Há um remédio...

- Qual?

- Fazer um negócio com o Banco...

- Negócio?

- Sim, levantar um pequeno empréstimo.

Noutras quaisquer circunstâncias, Adelaide o aconselharia que não, como já o fizera uma vez na província; mas D. Branca acenava-lhe de longe, no seu espírito, "que não desse uma nota, que não fosse tola."

- Que dizes? - repetiu o bacharel.

- Não sei...

- Pois eu sei: vou falar ao Furtado. Achei a incógnita da equação. Isto de dever, todos devem mais ou menos; a questão é pagar.

Com duzentos mil-réis, sim, com duzentos mil-réis, arranjava-se tudo: uma toilette para Adelaide, uma calça de casimira, e... e charutos.... O vestido, comprava-se feito, numa modista.

Entraram em acordo, ele e a mulher, sobre as despesas, fizeram cálculos à ponta de lápis, rabiscaram papel até quase meia-noite. Adelaide já agora também pedia a Deus que não chovesse. Era uma ótima ocasião para se apresentar às amigas de D. Branca, ficar conhecendo a viúva Tourinho, a esposa do desembargador e outras senhoras do grand monde fluminense.

Evaristo falou, com efeito, ao secretário, no próprio Banco, acerca do empréstimo, alegando razões de ordem doméstica. - Era mais um grande favor ao "amigo Furtado...

- Queres um conselho de amigo? pergunta Luís.

- Não contraias empréstimo ao Banco. O Banco foi criado para altas transações financeiras, e... e o diretor é um homem... um homem...

- ... um homem de têmpera antiga, velho e rabugento. Espera aí um bocado...

O secretário levantou-se, abriu um cofre de ferro, que estava no gabinete de trabalho, e contou duzentos mil-réis.

- Toma lá, sou eu quem tos empresta sem juros e sem prazo. Restituirás no fim do mês... daqui a um ano, daqui a um século...

- Isso não! interrompeu o marido de Adelaide. - Vim pedir ao Banco e não quero que te sacrifiques por minha causa. Isso não!

- Toma lá, homem, não sejas menino. Eu que tos empresto, é que tenho absoluta confiança em ti - que diabo!

- Qual confiança! Isso já não é ser amigo, é ser pai!

- Pois quero ser teu pai - dá-me essa honra.

Riram e o bacharel guardou as notas na algibeira da calça, com um movimento discreto e reconhecido. - Ora, muito obrigado, Sr. Luís, muito obrigado!

- Cavalheiros somos, na carreira andamos... - disse enfaticamente, com um sorriso, o fidalgo de Botafogo.

Às quatro horas iam os dois no mesmo bonde a caminho de casa.

O bacharel entrou radiante, com um estranho fulgor na pupila. Adelaide acompanhou-o ao quarto.

- Sabes o que é isto? - foi dizendo com a mão espalmada no bolso.

E, antes que Adelaide respondesse, tirou o dinheiro, erguendo a mão em triunfo.

- Quanto? - perguntou a rapariga com aquele risinho ingênuo que lhe era muito natural.

- Vinte!

- Vinte? apenas vinte?

- ... notas de dez!

- Ah!...

Evaristo, então, narrou, palavra por palavra, o diálogo entre ele e Furtado, no Banco, e não ocultou o seu entusiasmo pela "generosidade" do amigo, que ainda uma vez se revelara "digno e correto!"

- Belo homem, o Luís!

Eu também acho... - murmurou Adelaide.

- Olhe que me colocou, deu-me hospedagem, trata-nos à vela de libra, e agora... duzentos mil-réis, para pagar amanhã, no fim do ano, daqui a um século!

Adelaide aprovou com a cabeça o entusiasmo do marido.

E na mesma tarde, ao anoitecer, foram ambos dar um giro à Rua do Ouvidor.

III

Luís Furtado era homem de meia-idade, alto, robustez física invejável, pele rósea e conservada, bigode negro, tratado a brilhantina, olhos negros e comunicativos, um pouco lânguidos, talvez por afetação, talvez por temperamento.

Belo, verdadeiramente belo, ninguém o diria sem risco de profanar o ideal antigo da beleza máscula; no entanto, podia dizer-se dele que era, na acepção moderníssima, um bonito homem. A convivência na Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano setentrional. O Rio de Janeiro, com o seu maravilhoso poder de cidade cosmopolita, afinara-lhe a cútis e a educação. Davam-lhe doutor, mas, em verdade, nunca pusera os pés numa academia; os preparatórios mesmo, ele os não completara; e como no Rio de Janeiro, na Corte, toda a gente é doutor, ninguém punha dúvida no fictício diploma de Luís Furtado.

Mas a qualidade característica do secretário do Banco Industrial era o amor às mulheres, uma tendência notável para as conquistas de boudoirs, para o livre câmbio de afeições delicadas, para o culto imoderado de Vênus. Esse fraco, longe de o desprestigiar no conceito das rodas aristocráticas, tornava-o ainda mais querido de um e outro sexo, que viam no esposo de D. Branca, um homem de bom gosto, entendido em essências finas e em cotillons. Quem é que, em Botafogo, não o admirava, quem? Chegava-se até a dizer, num exagero, que era a alma do bairro!

O casamento não lhe tirava a liberdade de homem que se governa; cumpria seus deveres conjugais; nada faltava à mulher, nem aos filhos, todos em casa o estimavam; queria, portanto, sua liberdade; "a melhor coisa que Deus deu ao homem". Tinha idéias definitivas, absolutas, sobre o casamento e opunha-as a qualquer moralista indiscreto que lhe fosse criticar os atos.

D. Branca nunca se agastava com ele, nunca lhe fizera a menor objeção no tocante às suas aventuras donjuanescas. Quando alguém, homem ou mulher, os queria intrigar e levava ao conhecimento dela fatos particulares da vida do esposo, a ilustre senhora tinha sempre um risinho de incredulidade: "- O Furtado era um bom marido e um bom pai de família. Os invejosos é que o queriam desmoralizar".

No entanto, conhecia o gênio do Furtado e uma ocasião surpreendera-lhe no bolso do paletó uma cartinha de mulher, muito cheirosa e dentro da qual havia um amor-perfeito já desbotado como essas flores raras que se eternizam entre as paginas dos álbuns. D. Branca sorriu e devorou com os olhos a misteriosa epístola, em verdade bem misteriosa, porque nada tinha de indiscreto senão o caráter visivelmente feminino da letra. Nunca se vira maior laconismo, nem tão cautelosos dizeres numa correspondência de mulher. Assinavam as iniciais B. F. - "Branca Furtado!", pensou com estranheza e admiração.

E tornou a colocar o papel no bolso do marido, respeitosamente. Era um segredo e ela não tinha o direito de violar segredo a quem quer que fosse.

Outra ocasião deparou com o retrato da cuja. - "Sim senhor: uma mulher esplêndida! O Luís tinha gosto para mulheres..." No dorso da fotografia, em cartão imperial, a seguinte dedicatória:

Ao Luís - B. F.

PETRÓPOLIS, 18..

- Petrópolis! - exclamou D. Branca. - É gente fina... (e com uma ponta de despeito) esses homens... esses homens!...

O retrato voltou ao lugar onde estava, sem um arranhão.

Impossível haver mais liberdade e mais confiança entre marido e mulher.

O procedimento de Luís para com D. Branca era igualmente recatado e tudo fazia crer que a víbora do ciúme não lhe mordera ainda o coração de esposo. Compreendiam-se um ao outro, e, quando em um casal, a mulher compreende o marido e o marido compreende a mulher, não há mais bela instituição que o casamento. Ninguém peca por aceitar a vida como a vida sempre foi - tal a filosofia de D. Branca, e com pequenas restrições, a do secretário.

Dizer que se não amavam? Erro gravíssimo. Adoravam-se quase, e, em certos momentos, era como se fossem noivos em plena lua-de-mel. Segredos da alma humana...

Uns olhos cobiçosos e apaixonados como os de Luís não podiam, decerto, ver indiferentemente um rosto lindo de mulher. Foi o que se deu com relação a Adelaide, a meiga esposa de Evaristo de Holanda. O secretário viu-a no dia da chegada e admirou-a intimamente, com olhadelas furtivas e traiçoeiras, enquanto o carro rodava para Botafogo. Ria, e o seu riso tinha um tique muito delicado, muito nobre, muito fino, de cavalheiro gentil, que se aprimora numa cortesia de salão. E, era a todo o instante - "vossa excelência", a todo o instante uma frase elogiosa e comedida e mais uma perguntazinha discreta que Adelaide respondia com o natural embaraço de quem chega a um lugar estranho e pela primeira vez ouve linguagem desconhecida.

O que logo provocou a atenção da jovem esposa de Evaristo foi um grande anel de brilhante que Furtado trazia no dedo - uma pedra enorme, de primeira água, cujas facetas se multiplicavam à vista incisivamente, como um prisma, quando ele erguia a mão morena para cofiar o bigode.

No outro dia, ao almoço, Adelaide estava com um vestido branco de cassa e Furtado achou-a mais comunicativa e mais bela. A toilette de gorgorão dava-lhe uns ares de respeito, que não iam bem com a frescura primaveril do seu rosto; e aquela mudança de vestuário, aquela nonchalance obrigou-o também a mudar o tratamento de "vossa excelência" que tantas vezes repisara na véspera. Evaristo mesmo já lhe havia observado que estavam "em família", que deixasse o "vossa excelência" para pessoas de cerimônias, do contrário não se entendiam, nem podiam estimar-se como bons e velhos amigos.

E entraram todos na mais ampla intimidade, no mais belo convívio doméstico e na mais franca harmonia. - Era pena que o andar superior não estivesse desocupado, oh, era pena! - lamentava o marido de D. Branca. - Uns estrangeiros que ninguém sabia donde tinham vindo!...

Mas, no íntimo, desejava que os estrangeiros não se mudassem nunca; ele assim estava mais perto do seu novo ideal... Em casa ou no Banco, uma só preocupação enchia-lhe o espírito: - Adelaide. Como e por quê? Mistério! E a vida o que é senão um grande e tenebroso mistério?

Luís coçava a cabeça, atordoado, impaciente, fechando os olhos como para ver melhor no fundo da sua alma, e quer os fechasse, quer os abrisse, tinha diante deles a imagem de uma criatura excepcional - anjo e mulher - e essa criatura tinha os olhos de Adelaide, a boca de Adelaide, o sorriso de Adelaide! Como resistir à tentação, ele, que julgava a mulher uma força divina, um poder acima de todos os poderes humanos e acima de todos os preconceitos sociais? .

E nesse filosofar à-toa, nesse monologar do cérebro, perpassava também o riso bom de Evaristo, a alma simples do amigo, cheio de confiança e de um otimismo às vezes ingênuo. Furtado espancava uma imagem para deliciar-se com a outra, com a dos olhos meigos e sorriso angelical...

À noite, fora de horas, acordava, abria os olhos num êxtase sonâmbulo - enquanto a mulher se imobilizava - e punha-se a fazer cálculos, a maquinar planos de general em véspera de batalha. - Como havia de ser isso? Como havia de ser aquilo?...

E, no outro dia, eram os mesmos olhares, as mesmas finezas, que Adelaide já não estranhava, por virem donde vinham. Não padecia dúvida que o Sr. Furtado era um cavalheiro de educação e ela achava muito bonito um homem de educação... Os modos do Sr. Furtado, quem é que os não apreciava?

Ao almoço e ao jantar, longamente discutiam assuntos caseiros e D. Branca via-o quase sempre de bom humor à hora das refeições, dizendo pilhérias, mostrando-se entendido em matéria culinária e em coisas de boudoirs, improvisando anedotas, gracejando, servindo à mulher e ao Evaristo, para poder servir a Adelaide, fito único dos seus olhos e da sua imaginação.

À noite escancaravam-se as janelas da frente e jogava-se à luz do gás amortecido por causa do calor. Nos jogos de parceria, Furtado sentava-se defronte de Adelaide, tocando-se os joelhos, a pontinha dos pés, em torno da pequenina mesa de charão colocada ao centro da sala, e divertiam-se horas e horas, num tête-à-tête voluptuoso e calmo, perturbado, às vezes, por uma gargalhada geral que irrompia uníssona das quatro bocas.

Evaristo chamava aquilo, aquelas reuniões familiares "uma pândega", sempre melhor que as da Rua do Ouvidor: mais honesta e menos tumultuosa.

- Inda havemos de fazer um piquenique no Jardim Botânico! - disse uma noite o secretário.

- É verdade, é verdade! - aplaudiu, com entusiasmo, D. Branca.

- Vamos um dia, um domingo, ao Jardim Botânico!

- À Tijuca não seria melhor? - lembrou Evaristo, que ardia por fazer um passeio à "tal Tijuca".

Mas Furtado apontou inconvenientes de ida e volta: - era muito longe a cascatinha, lá onde o diabo perdeu as esporas, enquanto que o Jardim Botânico ficava perto e era mais elegante. Depois, com o tempo, ir-se-ia à Tijuca...

- Em primeiro lugar - concluiu Evaristo - é preciso que esses estrangeiros do segundo andar ponham-se ao fresco, vão para o diabo que os carregue!

E ficou assentado que num belo domingo iriam os dois casais ao Jardim Botânico, em piquenique.

Antes disso, porém, havia o batizado da Julinha. Estava tudo pronto como para uma grande recepção de aniversário: vidros, móveis, tapetes, cristais, o serviço da copa, o buffet, uma quantidade enorme de garrafas, mesa lauta sobre à qual via-se toda a baixela da casa e vasos com flores naturais e altas pirâmides de doce, pondo manchas na brancura da toalha, e em cada prato um buquezinho de violeta arranjado especialmente pelas mãos de D. Branca; e em toda a casa, desde a sala de visitas até os fundos da cozinha, um ar alegre de interior holandês, um ar festivo e risonho, cheirando a flores como a atmosfera matinal dos jardins. Viam-se em todo aquele esmero, em toda aquela simplicidade grega - na composição de um vaso, no arranjo dos buquês - o zelo aristocrático de D. Branca e o gosto não menos aristocrático de Luís Furtado harmonizando-se nas menores coisas, traindo-se a cada hora. O papel da sala de visitas parecia mais novo; os quadros destacavam-se, muito nítidos, numa bela disposição ornamental de galeria pobre; o piano sofrera uma mão de óleo e guardava ainda o cheiro da fábrica, de costas para a janela, reluzindo como um espelho; as cortinas pendiam frouxamente das armações de ouro... Enfim, na alcova esponsalícia de D Branca estava o berço de Julinha> todo em festa, ao lado da grande cama de casal. Para aí é que deviam convergir os olhares do desembargador e da mulher, especialmente destes, porque D. Branca entendia que ser dama do paço era merecer as atenções devidas à própria imperatriz; além disso, o velho Lousada tinha, mais do que ninguém, direito a essas atenções como padrinho da pequena. D. Branca esforçara-se por dar ao berço um aspecto luxuoso e sereno, para que se não dissesse que ela, no meio das suas ostentações, pouco amor tinha aos filhos. E conseguira-o, sem desprezar um ou outro conselho quer de Adelaide, quer de Furtado, quer mesmo de Evaristo, que também fora chamado a dar sua opiniãozinha.

- Eu nunca tive filhos, minha senhora... - protestou ele.

Mas a esposa do secretário alegou que era justamente por ele nunca ter tido filhos que lhe pedia a opinião.

E, agarrado por um braço e pelo outro, o marido de Adelaide lembrou, espirituosamente, que se devia colocar na cúpula a seguinte inscrição: Este filho é o último da prole... - o que fez rir muito a D. Sinhá do desembargador, a ela só, porque os outros não acharam graça na idéia.

O leito de Julinha era todo de uma madeira escura e sólida, como ébano-da-índia, e custara um dinheirão ao Furtado. Imitava o casco de urna pequena gôndola com a proa recurva e estreita. Sobre ele caía fartamente uma nuvem de rendas, abrindo-se para um e outro lado e quase tocando o chão. A cúpula era um verdadeiro trabalho de arte, muito simples, mas curioso, representando uma coroa ducal com embutidos de marfim. No alto do cortinado, um grande laço de seda azul com franjas de ouro...

Ao todo seis carros, inclusive a berlinda, em que ia a pequena nos braços da ama e a mulher o desembargador. As outras eram ocupadas sucessivamente pelo funcionário do governo e D. Branca, pelo Furtado e o Raul, pela viúva Tourinho, pelo tesoureiro do Banco Industrial e a esposa, e o último carro por dois amigos do secretário, rapazes do comércio.

D. Sinhá não quis ir à igreja, deixando-se ficar em companhia de Evaristo e de Adelaide nas suas toilettes de pouca cerimônia, esperando a volta do batizado - "que era uma grande maçada vestir-se toda de luxo somente para ouvir o latim de monsenhor Teixeira; logo não estavam vendo?..."

Caíam as primeiras sombras da noite quando um rodar de carros anunciou o regresso da Julinha com todo o seu acompanhamento. Encheram-se as janelas de curiosos que queriam ver a criança, e um ligeiro alvoroço percorreu, como um frêmito de novidade, aquele trecho do aristocrático bairro. - É o batizado! é o batizado! - exclamaram vozes alvissareiras; e os carros, um a um, foram parando na mesma ordem da saída, com a mesma distinção, e um a um foram-se apeando os convidados, primeiro os cavalheiros, depois as senhoras, risonhos todos, numa onda invisível de essências. À porta da casa, tapetada de folhas, houve um murmúrio, destacando a voz de Furtado:

- Entrem, meus senhores, queiram ter a bondade...

Seguiu-se o jantar - "um banquete de príncipe!" na opinião de Evaristo. Adelaide foi apresentada à viúva Tourinho e ao Loiola do Banco, houve brindes ao dessert, todos acabaram tratando-se familiarmente, esquecendo o vestido de seda e a casaca, e a própria Julinha que, depois de um berreiro infernal, adormeceu com a serenidade de um anjo.

Era noite quando Luís Furtado ergueu-se para levantar o último brinde, o brinde de honra à "Sereníssima senhora D. Isabel, princesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil!" O champanha espumava nas taças de cristal e os hip! hip! hurras! estrondearam em toda a casa.

- À Sereníssima!

- À herdeira da coroa!

- À imperial madrinha da Júlia!

E, todos de pé, esvaziaram as taças.

Furtado observou, então, limpando o bigode, que na sala estava mais fresco.

- Vamos, desembargador... Ó Evaristo, dá o braço à D. Rosa.

D. Rosa era a mulher do Loiola. O bacharel, estranho a etiquetas, muito filósofo, como dizia o secretário, deu dois passos à frente e recebeu amavelmente a mulher do tesoureiro.

- Muito obrigada, Sr. Evaristo, muito obrigada! - repetiu a gorda matrona.

- Oh, minha senhora...

E, em procissão, desfilaram os convivas pelo corredor. No alto da escada do segundo andar ocultou-se, rápida, uma sombra de mulher. Instintivamente o desembargador ergueu os olhos, baixando-os logo.

Furtado ia na frente, guiando os amigos, de braço com a ilustre dama de Sua Majestade a Imperatriz.

Agora é que a sala de visitas tinha um aspecto nobre e luxuoso, ao reflexo das serpentinas e do grande candelabro de cristal pendente do teto. Quadros e bibelôs, o piano e a mobília, o espelho de primeira ordem, rodeado de arabescos, a estante de música, as tapeçarias, as cortinas, o papel do forro, tudo resplendia e dava uns tons de alta nobreza ao conjunto.

Adelaide, sempre tímida, vinha de braço com um dos rapazes do comércio.

Sentaram-se todos, rindo, palrando, o tesoureiro com a face congestionada, a mulher idem, ambos muito gordos; a mulher do desembargador com o seu ar indefectível de nobreza pouco comunicativa, querendo parecer mais moça do que na realidade era, assestava de vez em quando o lorgnon de tartaruga, que pendia-lhe de um correntão de ouro, e punha-se a observar uma estampa do imperador, que havia na sala, entre dois consolos, enquanto o velho Lousada falava com a viúva Tourinho acerca dos últimos incômodos do monarca; o secretário instalara-se entre Adelaide e D. Branca e respondia prontamente às perguntas que lhe faziam, ora um dos rapazes, ora D. Sinhá, ora o tesoureiro do Banco, ora o próprio desembargador, interrompendo a conversa com a Tourinho, e volvia-se freqüentemente para a esposa de Evaristo. O bacharel divertia-se a gabar os trajos de Raul, dando-lhe palmadinhas no ombro.

E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.

- E o Santa Quitéria? - lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que é um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!

- E o Dr. Condicional? - saltou Evaristo. - Ainda ontem disse-me que vinha.

- Faltaram todos: o Santa Quitéria, o Pinto, comendador, o Condicional, o Xavier... todos, enfim!

- Todos não! - protestou o velho Lousada, sorrindo - eu aqui estou com minha mulher...

- O desembargador é gente nossa, é de casa - emendou Furtado.

- E eu também sou de casa? - perguntou maliciosamente a viúva.

- V. Exa., com a sua bondade, é de todo o mundo!

- Alto lá, meu amiguinho! - sorriu a boa senhora. - De todo mundo é que não.

E quis saber o que é que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.

Furtado explicou-se razoavelmente.

Nisso pára um carro à porta. Todos os olhares volveram-se para a entrada da sala. D. Branca e o secretário ergueram-se. Mas, antes que se aproximassem da escada, já o Raul anunciava indiscretamente que "era o Dr. Condicional!"

- Oh, o Manhães! - acudiu Furtado.

- Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parabéns pelo glorioso dia!

Movimento nas cadeiras; leve sussurro.

- Ah, esse é que é o autor do Juca Pirão? - fez um dos rapazes do comércio.

- Sei que não vim de bonne heure... - tornou o literato dirigindo-se para o grupo, consertando a sobrecasaca. - Em todo o caso, antes tarde que nunca!...

Apresentações, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito ao pincenê, sentou-se. Trazia um grande buquê de violetas na lapela.

Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se outra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discrição e respeito, "o Sr. visconde de Santa Quitéria!".

- Oh!

A exclamação foi geral.

- O visconde de Santa Quitéria!

- Logo vi que não faltava! - disse Furtado.

E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando também: - Oh!

Era, com efeito, o visconde de Santa Quitéria, o grande capitalista, diretor do Banco Luso-Brasileiro.

Bem que todos tinham ouvido parar um carro!

Pelo menos naquele instante, ninguém se lembrou do ilustre poeta que acabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta consideração. Entre a poesia e o capital - preferia-se o capital, tanto mais quanto o diretor do Banco Luso não representava simplesmente um capitalzinho de alguns mil-réis. Não. O Santa Quitéria tinha fortuna para mais de seis mil contos!.

O ilustre personagem estacou à porta, fez um cumprimento geral com a cabeça e entrou, muito correto, admirável de mocidade e de frescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.

Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petrópolis, quando já não suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete das Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transações da Bolsa tinha escritório na Rua da Alfândega, onde ocupava uma saleta de frente e uma alcova com toilette de mármore e outros objetos indispensáveis ao asseio de um homem. Idade média (pouco mais de quarenta anos), muitíssimo conservado, sem um fio branco na cabeça, olhos vivos, todo ele irrepreensível, tinha fama de beleza entre as mulheres, que o admiravam, não tanto pela fortuna, mas especialmente pela correção do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fisionômicas. Muita gente achava-lhe pontos de semelhança com Luís Furtado que se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por duas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa Quitéria: Sr. visconde!... - e ele correspondera delicadamente. Era um engano que o honrava.

O visconde descera de Petrópolis na manhã daquele dia para não faltar ao convite do secretário.

- Dou-lhe os meus parabéns - disse ele a Furtado. E voltando-se para D. Branca, antes de sentar-se: - Peço licença a V. Exa., para um presentezinho à pequena, uma simples lembrança.

D. Branca, humilhada, recebeu a dádiva do banqueiro, que este entregou dentro de uma caixinha de veludo grená. Era uma jóia de ouro e brilhante, uma linda medalha para pescoço.

- Oh, Sr. visconde!...

D. Sinhá quis logo ver o que era:

- Veja, mamãe, veja que bonita!

A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde, assestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!

A jóia correu de mão em mão, arrebatando um - oh! - de cada boca. O Dr. Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante na vitrina do Farani.

D. Branca não se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.

- "Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano e amigo de Furtado..."

E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado caráter de brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opiniões, os ditos espirituosos.

O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia do Instituto Histórico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo sobre os últimos trabalhos do barão da Corte Real, apresentados ao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso país.

Lousada, inclinava a cabeça para ouvir melhor, e saboreava os elogios de Valdevino Manhães como quem escuta uma música voluptuosa, uma vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a boca imóvel, serenamente imóvel...

De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.

- E V. Exa. já apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? - inquiriu, por delicadeza, o poeta.

- Ainda não, meu amigo, ainda não, mas tenho pronta uma refutação aos Irmãos Pinzón do conselheiro Lisboa.

- Uma refutação?

- Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da América, uns documentos importantíssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds...

O visconde de Santa Quitéria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou o rabo do olho.

- ... Calcule o senhor que os fenícios, muito antes de Pinzon, numa época remotíssima, andaram no Amazonas...

- No Amazonas, desembargador? - repetiu Manhães com espanto.

- Pois não, no Amazonas... admira-se? Quanto mais se eu lhe disser que os Cananeus andaram na Paraíba do Norte! Pois é a pura verdade. Encontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-símile de inscrições fenícias descobertas numa pedra da Paraíba.

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