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TENTAÇÃO

adolfo caminhas

E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.

- E o Santa Quitéria? - lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que é um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!

- E o Dr. Condicional? - saltou Evaristo. - Ainda ontem disse-me que vinha.

- Faltaram todos: o Santa Quitéria, o Pinto, comendador, o Condicional, o Xavier... todos, enfim!

- Todos não! - protestou o velho Lousada, sorrindo - eu aqui estou com minha mulher...

- O desembargador é gente nossa, é de casa - emendou Furtado.

- E eu também sou de casa? - perguntou maliciosamente a viúva.

- V. Exa., com a sua bondade, é de todo o mundo!

- Alto lá, meu amiguinho! - sorriu a boa senhora. - De todo mundo é que não.

E quis saber o que é que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.

Furtado explicou-se razoavelmente.

Nisso pára um carro à porta. Todos os olhares volveram-se para a entrada da sala. D. Branca e o secretário ergueram-se. Mas, antes que se aproximassem da escada, já o Raul anunciava indiscretamente que "era o Dr. Condicional!"

- Oh, o Manhães! - acudiu Furtado.

- Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parabéns pelo glorioso dia!

Movimento nas cadeiras; leve sussurro.

- Ah, esse é que é o autor do Juca Pirão? - fez um dos rapazes do comércio.

- Sei que não vim de bonne heure... - tornou o literato dirigindo-se para o grupo, consertando a sobrecasaca. - Em todo o caso, antes tarde que nunca!...

Apresentações, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito ao pincenê, sentou-se. Trazia um grande buquê de violetas na lapela.

Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se outra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discrição e respeito, "o Sr. visconde de Santa Quitéria!".

- Oh!

A exclamação foi geral.

- O visconde de Santa Quitéria!

- Logo vi que não faltava! - disse Furtado.

E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando também: - Oh!

Era, com efeito, o visconde de Santa Quitéria, o grande capitalista, diretor do Banco Luso-Brasileiro.

Bem que todos tinham ouvido parar um carro!

Pelo menos naquele instante, ninguém se lembrou do ilustre poeta que acabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta consideração. Entre a poesia e o capital - preferia-se o capital, tanto mais quanto o diretor do Banco Luso não representava simplesmente um capitalzinho de alguns mil-réis. Não. O Santa Quitéria tinha fortuna para mais de seis mil contos!.

O ilustre personagem estacou à porta, fez um cumprimento geral com a cabeça e entrou, muito correto, admirável de mocidade e de frescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.

Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petrópolis, quando já não suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete das Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transações da Bolsa tinha escritório na Rua da Alfândega, onde ocupava uma saleta de frente e uma alcova com toilette de mármore e outros objetos indispensáveis ao asseio de um homem. Idade média (pouco mais de quarenta anos), muitíssimo conservado, sem um fio branco na cabeça, olhos vivos, todo ele irrepreensível, tinha fama de beleza entre as mulheres, que o admiravam, não tanto pela fortuna, mas especialmente pela correção do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fisionômicas. Muita gente achava-lhe pontos de semelhança com Luís Furtado que se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por duas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa Quitéria: Sr. visconde!... - e ele correspondera delicadamente. Era um engano que o honrava.

O visconde descera de Petrópolis na manhã daquele dia para não faltar ao convite do secretário.

- Dou-lhe os meus parabéns - disse ele a Furtado. E voltando-se para D. Branca, antes de sentar-se: - Peço licença a V. Exa., para um presentezinho à pequena, uma simples lembrança.

D. Branca, humilhada, recebeu a dádiva do banqueiro, que este entregou dentro de uma caixinha de veludo grená. Era uma jóia de ouro e brilhante, uma linda medalha para pescoço.

- Oh, Sr. visconde!...

D. Sinhá quis logo ver o que era:

- Veja, mamãe, veja que bonita!

A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde, assestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!

A jóia correu de mão em mão, arrebatando um - oh! - de cada boca. O Dr. Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante na vitrina do Farani.

D. Branca não se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.

- "Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano e amigo de Furtado..."

E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado caráter de brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opiniões, os ditos espirituosos.

O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia do Instituto Histórico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo sobre os últimos trabalhos do barão da Corte Real, apresentados ao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso país.

Lousada, inclinava a cabeça para ouvir melhor, e saboreava os elogios de Valdevino Manhães como quem escuta uma música voluptuosa, uma vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a boca imóvel, serenamente imóvel...

De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.

- E V. Exa. já apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? - inquiriu, por delicadeza, o poeta.

- Ainda não, meu amigo, ainda não, mas tenho pronta uma refutação aos Irmãos Pinzón do conselheiro Lisboa.

- Uma refutação?

- Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da América, uns documentos importantíssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds...

O visconde de Santa Quitéria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou o rabo do olho.

- ... Calcule o senhor que os fenícios, muito antes de Pinzon, numa época remotíssima, andaram no Amazonas...

- No Amazonas, desembargador? - repetiu Manhães com espanto.

- Pois não, no Amazonas... admira-se? Quanto mais se eu lhe disser que os Cananeus andaram na Paraíba do Norte! Pois é a pura verdade. Encontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-símile de inscrições fenícias descobertas numa pedra da Paraíba.

IV

- Com efeito! - exclamou, surpreendido. - Nem que se estivesse esperando a volta de D. Sebastião... Ah!... Eu já estava resolvido a alugar o palacete do Friburgo!

- Agora, sim, senhor - disse Luís, batendo no ombro do amigo e rindo para Adelaide - agora vão dormir folgadamente na sua cama de casal, vão se regalar!

- Queres dizer, então, que passávamos as noites de olho aberto, no nosso belo quartinho? Estás muito enganado. Nunca dormi tanto, e a Adelaide melhor um pouco.

- Não segue-se, porém, que deixem de almoçar e de jantar conosco...

- Em primeiro lugar, um exame nos aposentos; depois, trataremos do almoço e do jantar.

- Já andamos por lá - disse D. Branca espevitadamente. - Sabem o que encontramos?

- Algum menino pagão... - adiantou-se Furtado.

- Algum fac-símile de inscrições hebraicas para presente ao desembargador?

- Sério; vejam se podem adivinhar - insistiu a esposa do secretário.

Os dois homens puseram-se a pensar em qual teria sido o misterioso encontro das duas senhoras...

- Não sei - disse, por fim, o marido de Branca.

- Nem eu... - imitou Evaristo.

- Um irrigador de Ermarck, por sinal bem novinho.

- Que diabo quer isso dizer? - perguntou o bacharel com assombro.

Adelaide não se pôde conter e abriu numa risada sonora e gostosa, ocultando o rosto nas mãos. D. Branca, ante a ingênua pergunta de Evaristo, ria também para outro lado, enquanto o secretário justificava a ignorância do amigo dizendo que o aparelho de Ermarck ainda não era bastante conhecido no Brasil e que, por isso, o Holanda tinha toda a razão... E acrescentou com ironia:

- São muito maliciosas as mulheres!

Mas Evaristo não descruzava os braços, estatelado, vendo as duas senhoras rir.

- Então, é que já sabes o emprego do irrigador, Adelaide!

- Eu?

Novo acesso de riso sufocou a esposa do bacharel, como se lhe estivessem a fazer cócegas.

- Sabem que mais? - disse afinal Evaristo. - Os ingleses, que deixaram o irrigador é por que o irrigador não presta! Vamos ao que interessa.

Já Luís Furtado galgava o primeiro degrau da escada que ia ter no segundo andar. Evaristo, Adelaide e D. Branca o acompanharam, todos risonhos, a falar dos ingleses.

Eram trinta degraus estreitos, que subiam em curva, gemendo sob os pés, iluminados por uma grande clarabóia de vidro.

O andar superior compunha-se de uma sala de frente, alcova, corredor e dois quartos menores que a alcova, comunicando-se. Havia também um terraço com grades de ferro, onde se erguia uma espécie de quiosque para o water-closet.

O secretário começou a inspeção pela frente. As janelas estavam abertas, deixando ver a praia de Botafogo; a enseada, não muito longe, o Pão de Açúcar e os morros de Niterói dando um aspecto grandioso e selvagem à baía. À direita, erguido a prumo, o perfil negro do Corcovado atraía os olhos, em linha reta para o alto, como um dedo enorme de gigante apontando o azul sereno. A vista alcançava, depois, outras montanhas, e entre elas, o cemitério de São João Batista, salpicado de túmulos brancos, numa simetria pitoresca e lúgubre. Àquela hora, distinguia-se grupos de pessoas, grupos negros em marcha, sumindo-se e aparecendo entre os mausoléus.

À esquerda, telhados e hortas.

O secretário não gostava de olhar o cemitério: recordava-se tristemente da última vez em que lá fora enterrar a ilustre senhora, bela mulher, cujo nome o Rio de Janeiro todo conhecia... Não gostava, não gostava de olhar o cemitério...

D. Branca estava aflita por chegar aos fundos; queria surpreender o marido de Adelaide com o irrigador de Ermarck.

- Que achas? - perguntou Furtado ao amigo, relanceando os olhos no aposento.

- Bom... bom - murmurou o bacharel. - Vamos cá!

E dirigiu-se aos fundos da casa, inspecionando o teto e o papel do forro.

- Vocês aqui estão muito bem - tornou o secretário.

- Muito melhor que na Cidade Nova - acrescentou D. Branca.

- Ao menos estão em Botafogo.

O corredor ia sair na área, forrado em todo o comprimento, claro, fresco e iluminado pelos reflexos da clarabóia.

Percorreram tudo até o quiosqueziriho do terraço, que o bacharel comparou poeticamente a uma "casa da pombos".

- Agora venha ver, Sr. Evaristo, venha ver o que os ingleses deixaram - insistiu de novo D. Branca.

- Tolice de minha mulher, Evaristo!

- Não, não, tenha a bondade, Sr. Evaristo, tenha a bondade. Quero que o senhor veja...

A um canto do terraço, entre o quiosque e o gradil, estava uma espécie de cilindro cor de cobre novo, com uma das extremidades em forma de funil donde saía molemante, quebrando-se em curvas, um tubo estreito de borracha.

- Isso o que é? - perguntou, inclinando-se, o bacharel.

As duas senhoras abriram outra vez na risadaria, cabeceando, agarrando-se como duas colegiais.

- Branca! - advertiu Furtado. - Olha que o Evaristo não é menino de escola...

E segurando o amigo pelo braço o foi levando para dentro do corredor.

- Isso é uma das grandes invenções do século, meu amigo; veio com a descoberta do micróbio parasitário.

Falavam baixo, com hipocrisia de homens que se querem dar ao respeito. Mas D. Branca ouviu ainda um oh! de exclamação que o marido de Adelaide não pôde abafar.

Estava escurecendo. Já o sol mandava o seu último adeus à terça-feira com uns restos de claridade crepuscular.

Tanto o bacharel como a esposa acharam que se devia tratar logo da mudança, ou antes da instalação, porque Evaristo inda não comprara sequer a cama de casal. - Mudar o quê? Só se fosse uma rede que ele trouxera do norte, uma rede esplêndida, de labirinto, e os indiscretos baús de couro..

- Não te faças miserável! - ralhou Furtado. - Um homem não tem o direito de menosprezar-se. Um baú pode conter as minas de Salomão!

- O Evaristo vive a gracejar, Sr. Luís - disse Adelaide. - A mania dele é chamar-se pobre, lamentar-se, berrar contra quem tem dinheiro!... Isso até desanima.

- Mas, então, que querem vocês que eu diga? Que ando com os bolsos recheados? que tenho apólices no Tesouro? que deixei na província uma fazenda de gado? que trago os baús repletos de ouro e prata? Ora muito obrigado, minha mulher!

- Não estou dizendo isso...

Aquele - que querem vocês que eu diga? - referia-se exclusivamente ao marido de D. Branca e a Adelaide. Esta notou o carinhoso plural e como que sentiu no fundo d'alma um prazerzinho em se achar na companhia de homem tão educado e nobre. Aquele vocês, dirigido a ela e ao Sr. Luís, trouxe-lhe um pequeno abalo ao coração, qualquer coisa de intimamente agradável.

- D. Adelaide não está dizendo isso - repetiu Furtado. - O que ela está dizendo é que tens a mania da pobreza, a mania das lamentações...

D. Branca, por seu turno, observou que o marido tratava Adelaide com muita distinção, muita gentileza; mas atribuiu à natural bonomia do secretário.

Evaristo é que não observou coisíssima alguma; dissera vocês, porque achava familiar o tratamento e porque tratava o Luís por você e Adelaide por você, isoladamente. Não havia razão para, referindo-se aos dois, proceder doutro modo.

A mulher, porém, descobre manchas no sol em pleno meio-dia e é capaz de enxergar, com os olhos fechados, uma agulha num palheiro.

No outro dia, quando Evaristo voltou do Banco, encontrou o segundo andar mobiliado; cadeiras, mesas, uma estante para livros, bela cama de casal, guarda-roupa, cabides... o inferno!

Adelaide recebeu-o no primeiro andai, como de costume, risonha e feliz, mas estranhando que lhe não perguntasse coisa alguma, rompeu o silêncio:

- Que despesão fizeste!

- Despesão?..

- Sim; quanto custariam as cadeiras, a cama, o sofá.

Evaristo, em pé, no alto da escada, julgou que a mulher houvesse enlouquecido e olhava-a, sem compreender as palavras.

- Que cama? que sofá? que cadeiras?...

- Que mandaste da rua...

- Eu?!

- Está de muito bom gosto a cama, Sr. Evaristo - saltou D. Branca. - Felicito-o!

Cada vez o bacharel compreendia menos o que lhe estava entrando pelos ouvidos.

- De bom gosto?...

- Pois não foi o senhor quem escolheu a mobília?

- Eu não escolhi nada, pelo amor de Deus! - nem sei do que se trata...

- Quer nos debicar, Adelaide, quer fazer surpresa... - disse a mulher do secretário.

- Debicar!... surpresa!... Temos aqui almas doutro mundo?

Adelaide não quis acreditar numa brincadeira do marido, tal era a sizudez que ele imprimia às palavras naquela ocasião. Evaristo brincava, mas conhecia-se logo o seu tom de pilhéria.

- Deixem-me primeiro tomar fôlego, que eu estou me acabando! - exclamou, dirigindo-se à sala de jantar.

As duas senhoras o acompanharam, entreolhando-se.

O bacharel encostou a bengala, respirou com alívio e sentou-se.

- O Furtado inda não veio?

- 'Té agora, não - respondeu D. Branca.

- Então, que história é essa de cadeiras e camas e sofás? Expliquem-se!

Adelaide explicou o caso da mobília: às duas horas, mais ou menos, tinha vindo um galego trazendo, numa carrocinha, meia dúzia de cadeiras, um sofá, uma cama de casal, uma estante e outros objetos "para a casa do Sr. Evaristo de Holanda, em Botafogo". Não podia haver engano.

- Onde estão esses objetos?

- Lá em cima, tudo arrumado. A cama é que é um pouco larga...

Pois ele não mandara coisíssima alguma nem tampouco autorizara compra de móveis ao Furtado. Às duas horas tinha estado com o secretário no Banco e ele em tal coisa não falara. Salvo se o amigo inda uma vez queria ser generoso e bom apresentando seu nome a algum armazém de móveis... Podia muito bem ser isso... Mas, então, dir-lhe-ia francamente, prevenindo-o com antecedência, tomando mesmo uma nota dos objetos indispensáveis a um casal. O Furtado, porém, não o prevenira, não o avisara sequer! Donde tinham vindo esses móveis? de que armazém? de que rua?

- Você compreende que a minha obrigação era recebê-los - fez Adelaide numa voz humilde.

- Perfeitamente, ninguém diz o contrário.

- O Luís explicará tudo, Sr. Evaristo. Havemos de saber quem foi da idéia.

- Corramos um olhar nos tais móveis - disse o bacharel, erguendo-se.

O pavimento superior da casa já não tinha o mesmo aspecto desolado e vazio da véspera, com as suas paredes escorridas, com o seu ar glacial de eremitério. Não. A sala da frente impunha-se agora aos olhos, convidando à familiaridade, ao repouso honesto, à leitura de um bom livro. Meia dúzia de cadeiras austríacas, torneadas, o sofá, cadeiras de balanço, dois consolos, outra mesinha decorativa para o centro... Na alcova o leito, e o toucador com espelho de cristal e pedra-mármore. Num dos quartos, o guarda-roupa e os baús (os célebres baús de couro) e no outro a estante. Assim é que Adelaide dispusera os móveis, em acordo com D. Branca; unicamente para surpreender Evaristo. Depois comprar-se-ia cortinas e bibelôs. O soalho inda estava úmido da lavagem.

O bacharel cruzou os braços diante daquela transformação quase milagrosa.

- Isto não pode deixar de ser obra do Luís! - disse, risonho. Sim, estava quase convencido de que o Luís queria pregar-lhe uma peça. Quem, no Rio de Janeiro, se lembraria dele senão o secretário? Ninguém, absolutamente ninguém. Ele é que o tratava com um carinho de irmão.

- Você que acha?

- Penso a mesma coisa. Só o Sr. Furtado...

- No entanto, o Furtado não arredou pé do Banco!

- As almas é que não foram... - murmurou, sorrindo, Adelaide.

E enquanto o outro não chegava, discutiu-se a procedência dos móveis.

O secretário foi recebido com exclamações e altos brados de agradecimento e jovialidade.

- Está de muito bom gosto a cama! - repisou D. Branca. - Assim é que eu queria que você comprasse uma...

- E o guarda-roupa! - exclamou Evaristo.

- E a toilette! - fez Adelaide.

Mas o homem era como se estivesse numa casa de orates; fitava um, fitava outro, com ar interrogativo e surpreso.

- As senhoras estão enganadas... Mobília?...

- Quem havia de ser? - interpelou o bacharel, crendo e não crendo na estupefação do amigo.

- Não mo perguntes a mim, que também não posso atribuir o caso ao meu bodegueiro ou às almas do outro mundo.

- Ora, falemos sério, não foste tu, mas foi o teu grande coração! - resumiu Evaristo, desapontado.

- Juro-te!

- Não acredito.

- Melhor pra ti...

Ao final das contas, a dignidade do bacharel teve um ímpeto de orgulho contra "esse misterioso fornecedor gratuito de móveis", e declarou positivamente que ia mandar tudo para o depósito, as cadeiras, a cama, o sofá... tudo! Não aceitava favores de pessoas estranhas e, de mais a mais, ocultas num criminoso silêncio. Tudo para o depósito!

Uma gargalhada do secretário acolheu as últimas palavras de Evaristo, comunicando-se a D. Branca e a Adelaide, que ia abrindo a boca para lamentar "a sua linda cama de ramagens e o seu querido toucador de mármore...".

- Então, vais mandar tudo para o depósito!...

E Furtado novamente ria, batendo com as mãos na mesa, inclinando a cabeça, sapateando.

- Impagável o nosso Evaristo! Simplesmente impagável esse homem com a sua filosofia de algibeira e com os seus ímpetos!

- Não te rias, que estou falando sério!

- Por isso mesmo...

E Furtado confessou generosamente, aprumando-se na cadeira, que os móveis tinham sido comprados por ele. Não fizera mais do que um dever de amigo.. . Restava saber se o Evaristo opunha-se à qualidade sofrível do guarda-roupa...

- Qual opor-me! - disse o bacharel todo humilhado com a fineza do secretário. - Escolheste a dedo!

- Mas não para ser entregue ao depósito.

- Para o depósito vou eu mandar os baús de couro e umas velharias do meu tempo de província.

E não se tornou a falar nos móveis e a estima do bacharel pelo secretário aumentou. Evaristo não perdia ocasião de gabar o Furtado, exaltando-lhe o coração generoso, a grandeza d'alma e outras virtudes que ele pouco a pouco ia descobrindo no seu velho colega de Liceu... Um homem como se não encontravam muitos na terra do egoísmo e da hipocrisia, nesse Rio de Janeiro fundamentalmente pervertido, onde as traições contavam-se pelas amizades e ninguém dava crédito senão ao ouro e à maledicência... Um homem que o recebera no seio da própria família e que, depois de o hospedar em casa, inda lhe emprestava dinheiro e fazia surpresas como a da mobília! Era o que se podia chamar um filantropo, um amigo excepcional!

- Que achas?

Adelaide confirmou os elogios, mostrando-se reconhecida às boas intenções do secretário, qualificando-o de generoso, de nobre, de fidalgo, emprestando-lhe todos os caracteres de homem de bem que não alardeia as ações meritórias que pratica. O Sr. Furtado era um exemplo de delicadeza e cavalheirismo. - Evaristo não via como ele a tratava? Interessava-se por ela como por uma irmã; nas refeições, nos passeios, à noite, quando jogavam. E a mulher também, a D. Branca. Ambos muito amáveis!

- São simpatias... são simpatias... - explicava o bacharel, acendendo o cigarro, com uma ponta de vaidade. - Tudo neste mundo é a gente se insinuar... O orgulho mata a aspiração, enfraquece o estímulo.

De manhã, vinham os dois, ele e a esposa, almoçar em companhia dos Furtado, como pensionistas dum botei, e Adelaide passava quase todo o dia embaixo, na sala de jantar, com D. Branca, até à hora da segunda refeição, lendo romances, relendo jornais, discutindo modas, costurando. Uma vida sem preocupações, nem intrigas. D. Sinhá, do desembargador, é que às vezes ia interrompê-las com histórias de namoro e bilhetinhos e novidades de Botafogo, sempre muito misteriosa e muito coberta de pó de arroz. Furtado não gostava dela, não lhe achava encanto e profetizava-lhe horrores!

Que mais podia querer Adelaide? Que outras ambições podia desejar Evaristo? Perguntasse-lho, e eles não saberiam responder. Tinham casa, cômodos independentes. boa mesa, boas amizades, tudo por pouco dinheiro, graças à generosidade do secretário, cuja dedicação parecia aumentar.

- E o piquenique no Jardim Botânico? - lembrou Furtado uma bela manhã.

- É verdade, o piquenique? - repetiu D. Branca.

- Por mim, é quando quiserem - disse o bacharel. - Ninguém mais do que eu aprecia o campo, as árvores, o ar fresco, e o perene correr de um fio d'água.

- Você por que não determina? - perguntou Branca ao marido.

- Tantas manhãs boas para a gente se divertir!

Furtado marcou o primeiro domingo de sol. Convidava-se unicamente o visconde de Santa Quitéria. Nada do desembargador, nem de pessoas estranhas. Havia de ser um piquenique familiar, uma coisa toda íntima sobre a relva macia, bem longe da entrada do jardim. debaixo de uma árvore.

- Ao champanha? - perguntou D. Branca com os olhos faiscantes, numa alegria súbita.

- Ao champanha, sim, ao champanha. Um piquenique delicado e de bom gosto, como se usa em Petrópolis e na Europa... Toilettes claras, roupas leves, menu à francesa, encomendado ao Pascoal!... e que ninguém se lembre de morrer enquanto houver sol e árvores na natureza!

- Não convidas a Tourinho?

Mas Furtado declarou inda uma vez que só convidava o visconde, isso mesmo porque devia muitos favores ao Santa Quitéria.

- Nem ao Dr. Condicional? - gracejou Evaristo.

Furtado esboçou um risinho, compreendendo a ironia, e não respondeu.

Eram de uso, então, os piqueniques no Jardim Botânico. Em se aproximando o calor, o grande parque enchia-se, aos domingos, de uma população ruidosa e promíscua, de milhares de pessoas de ambos os sexos, largamente espalhadas, indo e vindo, nos seus trajos fofos, ao som de uma banda de música oculta pitorescamente sob as árvores; e os tons claros das toilettes, o colorido gárrulo dos vestuários matizavam a frescura sombria dos caramanchões, de mistura com o vermelho sangüíneo dos flamboyants. Risadas estalavam num cascatear argentino que se ia perder nos longes da mata, ecoando em ondas sonoras de uma cristalinidade musical. No centro da comprida aléia de palmeiras que vai desde a entrada até o fundo da quinta, um repuxo esguichava perenemente, caindo em leque numa grande bacia de pedra, rodeada de mirtos silvestres. Crianças apostavam corridas e juntavam ao som da música a alegria de suas vozes. Em toda a parte a mesma liberdade comunicativa, a mesma expansão domingueira. Desde as cinco horas da manhã até as sete da noite, o Jardim Botânico era como uma grande sala de hotel. Almoçava-se, lanchava-se, jantava-se ao ar livre, sob os castanheiros, na relva fresca e cheirosa, à beira dos lagos.

Ao primeiro domingo de abril realizou-se o sonhado piquenique. A manhã estava radiosa, de uma inefável limpidez, o contorno das montanhas muito vivo, sem borrões de nuvens, recortando em ziguezague o azul infinito e puro do céu - manhã deliciosa como uma recordação do passado ou como uma tela impressionista em que vibrasse a alma das coisas numa estranha sinfonia bucólica de poema virgiliano... manhã como essas de que falava a esposa do secretário - boa para a gente se divertir, para a gente esquecer um pouco as misérias da vida, longe da Rua do Ouvidor e das mexeriqueiras do bairro... Valia a pena, decerto, aproveitar uma manhã como aquela, indo entre as árvores, no seio bom da natureza, bebendo a água das fontes, a ouvir o misterioso segredar dos pássaros e o trilar dos insetos invisíveis - na Tijuca, no Jardim Botânico, em Petrópolis, em Friburgo, em Santa Teresa..., onde quer que houvesse frescura e um pouco d'água límpida.

Todos acordaram cedo, a começar por D. Branca e a acabar por Evaristo, que, à última hora, não se sentia em condições muito favoráveis a uma jornada no campo; mas, enfim, sempre se resolveu, depois de tomar uma dose de conhaque com açúcar.

A mulher de Furtado, sobretudo, não ocultava o bom humor que lhe ia na natureza. Era doida por piqueniques, ninguém lhe falasse em piqueniques! Ergueu-se às quatro horas, mesmo porque não dormira bem com o calor, e foi à janela da frente ver como amanhecera o dia, "se o Corcovado tinha nuvens"... Qual nuvens! O perfil da montanha estava limpo na meia sombra do alvorecer. Qual nuvens! Daí a pouco o solzinho estava fora e ela em caminho para o Jardim Botânico, mais o Furtado e a Adelaide e o Evaristo e o visconde, o simpático visconde, o homem que ela tanto admirava e que em toda a parte era o mesmo - elegante, correto, generoso como um nababo, fidalgo até no abotoar a luva a uma dama... Oh, o visconde de Santa Quitéria! Como ela se ia divertir, naquele passeio ao ar livre, como ela ia gozar! A última cartinha dele...

- Que horas são?

Era a voz do secretário, inda na cama, na frescura matinal dos lençóis. D. Branca teve um pequeno susto, um ligeiro sobressalto.

"Que horas eram? Quatro e meia..."

Ele, então, bocejou, espreguiçou-se molemente, coçando-se e tornou a perguntar:

- Quatro e meia?

- Deu agora... Não faças barulho para não acordar a Julinha.

- Vamos tratando de nos vestir.

- Vamos. Não tarda clarear.

E começaram as abluções, os preparativos.

No segundo andar o som abafado de um despertador elétrico fez sinal retinindo embaixo, nos aposentos do secretário. Ele e a mulher trocaram algumas palavras. Tinham combinado com o visconde para as seis horas e o visconde prometera pão faltar. - Às seis em ponto estaria na casa do amigo Furtado.

Foi pontual o Santa Quitéria - questão de mais um minuto, menos um minuto. Vinha chique e alegre, sorrindo ao aproximar-se da casa do secretário, no seu veston de brim, chapéu de palha, binóculo a tiracolo e uma pequena valise cor de chocolate.

As duas senhoras correram à janela e o marido de D. Branca foi recebê-lo à porta da rua.

O visconde apeou nobremente, murmurou qualquer coisa ao boleeiro, e, risonho, apertando a mão a Furtado:

- Creio que estou na hora...

O secretário respondeu com uma exclamação venturosa, estirando o braço para o Corcovado:

- Veja que dia lindo!

- Efetivamente! Está convidativo, está próprio!

E respeitoso, solene, o amável banqueiro perguntou pela "excelentíssima senhora" e pelas crianças.

- Todos bons, muito obrigado. O senhor visconde é que tem mocidade para um século!

- Oh, meu amigo... As aparências iludem... já me vou sentindo cansadinho, graças a Deus.

- Ora, o senhor visconde!

Branca e Adelaide gentilmente o acolheram no alto da escada.

Evaristo completava a toilette no segundo andar

- Que dia lindo, senhor visconde! - fez a esposa do secretário. recuando para deixar passar o Santa Quitéria.

- Lindo, minha senhora, lindíssimo!

Tinham todos um ar alegre e trataram-se com uma familiaridade burguesa, na mais bela disposição de ânimo.

Adelaide, curiosa, quis ver se o visconde trazia o anelão de brilhante, e os seus olhos procuravam a mão do banqueiro. Trazia, sim. Era uma das coisas que ela admirava naquele homem - o anel, uma jóia primorosa, inestimável.

- O senhor seu marido vai bem, minha senhora?

- Bem, obrigada - respondeu Adelaide, menos cerimoniosa.

Porque o visconde de Santa Quitéria em roupa de passeio não tinha ares de fidalgo, como quando se apresentava de casaca ou mesmo no seu fraque justo e elegante. A roupa branca - larga e mole no corpo dava-lhe uma feição distinta, mas democrata, uma feição popular de rapazola que sacrifica o luxo pela comodidade, a moda pelo bem-estar. Vendo-o assim, a esposa de Evaristo animara-se a lhe responder em tom quase íntimo de conhecidos velhos.

O criado trouxe uma bandeja com chocolate e pão-de-ló. Todos se serviram, inclusive o bacharel, que já estava presente.

Afinal, depois de meia hora de palestra matutina, e aos primeiros clarões do sol triunfante, a comitiva, em dois carros, tomou a direção do Jardim.

O visconde fora se reunir à família do secretário não tanto por delicadeza, quanto por "chiquismo", para ir na companhia das senhoras, gozando a amável presença de D. Branca e da jovem Adelaide. Não queria perder ocasião de se mostrar na altura dos seus sentimentos e da intimidade com que o tratavam as dignas senhoras. O título de nobreza, que ele carregava solenemente há dois anos, graças à benevolência do Sr. D. Pedro II, não o impedia dessas e outras manifestações democráticas. Os reis também apertam a mão ao povo e também lá um dia esquecem as púrpuras e a coroa, trocando-as pelo redingote burguês... O próprio imperador já uma vez desembarcara na Europa, no cais Sodré, de sobrecasaca e guarda-pó, como qualquer mortal.

Estimava muito o amigo Furtado e a Sra. D. Branca para não ter orgulhos de nobreza, nem de fidalguia. O seu paletó branco e a sua calça branca naquele momento significavam intimidade e também um pouco de elegância. A toilette em harmonia com a estação e com o gênero de passeio.

Num dos carros ia ele, D. Branca e o secretário, no outro Adelaide, Evaristo e o Raul. A Julinha fora passar o domingo à casa do desembargador; D. Sinhá prometeu desvelar-se por ela.

Na frase entusiástica do visconde "o dia estava lindíssimo!" o céu, muito azul, parecia o fundo largo de uma tela desdobrando-se infinitamente por sobre o universo. A Corte espreguiçava-se aos primeiros ruídos da manhã luminosa. Na plataforma dos bondes flutuavam bandeirinhas verde-amarelas com a coroa nacional. Os quiosques de Botafogo tinham o aspecto risonho de pavilhões infantis, embandeirados também, com os seus galhardetes em arco, sob as árvores, olhando para o mar. Um cheiro vivo de jasmins inundava a atmosfera, como que aveludando-a cariciosamente. Principiava a agitação nos cafés e nas hospedarias. O Raul julgou mesmo ouvir sons de música ao longe e apurou o ouvido: - "Se não estava enganado..."

Ia para mais de seis horas.

O visconde foi o primeiro a apear. Todos apearam, numa grande alegria, diante do portão do "nosso Bois de Boulogne" como dizia o Santa Quitéria.

Furtado indagou logo se o homem da rotisserie já teria vindo, e lançou um olhar curioso pelas proximidades do portão.

- Qual! Ainda não veio... Pois olhem que eu tratei para as sete horas!

O visconde tranqüilizou-o puxando o relógio, e dizendo que ainda faltavam quinze minutos para as sete.

- Aí vem ele! - descobriu o Raul com um gesto alvissareiro, apontando para um homem que trazia na cabeça uma grande caixa de folha em que se liam as inscrições: Confeitaria Pascoal - Rua do Ouvidor.

- Ora muito bom dia! - Saudou o empregado aproximando-se.

- Bom dia - corresponderam todos a uma voz.

Um clarão iluminou os olhos vivos do filho do secretário.

- Já há bocado que estou à espera de vossas senhorias - tornou o homem da caixa.

- Vá entrando e acompanhe-nos - ordenou Furtado.

O visconde ofereceu o braço gentilmente à D. Branca e, com as demais pessoas - ele à frente - seguiu em linha reta para o interior do jardim.

Lá estava, entre as palmeiras, o repuxo cantando, em fios d'água, a monótona balada das fontes; ouvia-se, de longe, o ruidozinho da água a esguichar, caindo em arcos para um e outro lado e confundindo-se quase com o nostálgico farfalho das árvores. O sol, brando e macio, erguia-se lento, sobredoirando as eminências, pouco a pouco iluminando a espessura do arvoredo e a larga extensão verde que enchia bruscamente os olhos encantados de Adelaide como um sonho de glória e bem-aventurança. Respirava-se a frescura das plantas e o aroma fino das trombetas e das rosas, a essência matinal das grandes árvores e dos pequenos vegetais que acordavam à vida num banho morno de luz. Pompeavam estranhas florações no recesso da mata e um hino misterioso parecia levantar-se da natureza ao astro fecundante que ressurgia com o seu esplendor incomparável de rei absoluto.

Vinham chegando outras famílias, outros casais, outros grupos, que logo se perdiam no emaranhado das aléias laterais, e em todas as fisionomias brilhava uma satisfação íntima, um como prazer novo e especial, um reflexo de imortalidade astral.

O visconde parou no chafariz. Todos pararam no chafariz.

- É realmente belo! - exclamou o bacharel com os olhos erguidos em êxtase para a copa das palmeiras.

- A Tijuca é mais solene... - observou circunspecto o visconde.

- O barulho da cascata é como se a gente estivesse num ermo religioso... no meio de um deserto... muito longe... . muitíssimo longe...

- Oh, então deve ser triste demais... - argumentou o marido de Adelaide.

- Como triste? É encantador! é poético!

- Falta aqui o Dr. Condicional para dizer que lembra o Evangelho na selva... - insinuou o amigo de Furtado.

O visconde achou graça, e, desdenhoso, carregando a esposa do secretário:

- Um petit-maitre, o tal Manhães!

Todos riram, inclusive o Raul que perguntou à mamãe o que era petit-maitre.

Escolhido o local para o piquenique, sob um caramanchão agreste de parasitas imitando a entrada de um túnel e onde havia uma grosseira mesa de pedra, nos fundos do jardim, o bacharel propôs uma volta, uma grande volta "para abrir o apetite".

Ninguém discordou da idéia. O Antônio ficava botando sentido à comida. (Antônio era o criado do secretário.)

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