PortalSaoFrancisco.com.br

TENTAÇÃO

adolfo caminhas

Povo e nação volviam os olhos para a Tijuca à espera de que saísse o augusto enfermo, com o seu préstito de áulicos e turiferários, humilde agora mais do que nunca, dentro de um cupê imperial, abatido e tristonho na grande dor que o pungia... Quantas pessoas ainda não o tinham visto e queriam vê-lo agora no embarque! As ruas haviam de se encher, as ruas e as praças quando os clarins dessem sinal da aproximação d'Ele. Oh, havia de ser um espetáculo comovedor, uma tristeza enorme, um pranto geral nos palácios e nas choupanas, onde quer que brilhasse a fama do seu queridíssimo nome. Os republicanos mesmo não se conservariam insensíveis.

- Porque - dizia, numa roda, o secretário - vocês podem negar tudo, menos que o imperador seja querido pelos brasileiros.

A roda compunha-se dele Furtado, de Evaristo, de Valdevino Manhães, do deputado Ismael Pessegueiro, de Alagoas, e do Freitas Camargo, outro poeta, companheiro do Manhães na Revista Literária.

O tema era a viagem do imperador daí a alguns dias. Estava-se em fins de maio. Aboletados ao redor de uma mesinha no Castelões, cada um expunha o seu juízo acerca do monarca e da imperial viagem à Europa. O secretário do Banco apelava para a consciência de todos: - era ou não estimado no Brasil o imperador?

Valdevino Manháes, cavalgando o pincenê afetadamente, e cruzando as pernas com um ar doutoral, lembrou as suas tradições republicanas e disse que, apesar de nunca ter merecido favor nenhum do Império, não ousava negar a estima do povo ao rei; mas isso não queria significar adesão eterna do povo às instituições monárquicas: era um sentimento pessoal, uma generosidade afetiva, um respeito mesmo às barbas brancas do velho...

- Engana-se, amigo - interrompeu o representante de Alagoas calmo, sem se mover na cadeira, fitando os olhos no Dr. Condicional. - Pedro II enraizou a monarquia no Brasil, e, ainda que tivéssemos o desgosto de lamentar a sua morte hoje ou amanhã, o Brasil havia de ser sempre Império do Brasil, nunca uma república. Desejar o sistema republicano para o nosso país é querer a ruína de uma das maiores nações do mundo. Veja o senhor a Inglaterra.

- Exatamente - apoiou Furtado.

- A Inglaterra é uma nação decadente! - berrou o Manhães. - Não há termo de comparação entre a Inglaterra e o Brasil. O Brasil um país novo, ainda nas faixas infantis...

- Por isso mesmo, por isso mesmo! - argumentou o deputado. - Os países novos precisam de um freio, como o indivíduo na infância.

Qual freio, Sr. Doutor! De freio precisam os burros, e nós somos um povo inteligente, um povo que não precisa de freios nem de monarcas. A república há de se fazer, creia!

O alagoano, que pela primeira vez tratava com o Manhães, estranhou-lhe o modo agressivo com que discutia e não retrucou. Valdevino continuou a falar no meio do silêncio dos companheiros, não perdendo ocasião de aludir à sua viagem à Europa e ao bom acolhimento que tivera em Lisboa.

Camargo apoiava tudo quanto ele dizia por espírito de coleguismo e em atenção ao diretor da Revista. Mas Valdevino lembrou-se de que se comprometera a jantar no Globo com uns rapazes, e, estabanadamente, despediu-se de todos. Foi então, só então, que o Camargo abriu a boca, para dizer que o Valdevino era um idiota, uma besta!

Ismael Pessegueiro olhou Furtado e baixou a cabeça. Evaristo, mais positivo e menos convencional, estendeu a mão ao poeta:

- Toque, amigo! O senhor agora disse tudo o que muita gente pensa e não tem coragem de dizer.

- Um homem que vive a escrever asneiras e a rabiscar sujidades! Um repetidor de frases ocas! Porque veio da Europa, entende que é já um mestre, um alto personagem nas letras... Uma cavalgadura é o que ele é!

- Pobre Valdevino!... - lamentou Furtado ironicamente.

- Pobre Dr. Condicional! - fez Evaristo.

- É o que lhes digo - continuou o poeta. - Quando Ramalho Ortigão aqui esteve, no Rio, a primeira pessoa que correu a beijar-lhe os pés foi ele, o Valdevino.

- Os pés ou as mãos? - inquiriu malicioso, Evaristo.

- Os pés... que ele quando adula é para beijar os pés. Em literatura, como em política, é um rafeiro dos medalhões...

- Oh!... - balbuciou com um risinho especial o representante de Alagoas.

- Pode acreditar, doutor! O Valdevino Manhães é conhecido na Rua do Ouvidor; toda a gente sabe de quanto é capaz aquele idiota...

O secretário interveio com uma pilhéria.

- Vocês esquecem-se de que estão a falar do autor do Juca Pirão... - Belo título de uma obra: Juca Pirão - continuou Camargo. - Vejam vocês até onde pode chegar a estupidez humana!

- E é verdade que existe essa obra? - perguntou o deputado.

- É, doutor, infelizmente é! Faça o senhor idéia: um livro com o título de Juca Pirão!

O Dr. Ismael carregou uma risada cheia de sarcasmo.

- Deixem o pobre homem... suplicou o Furtado. - O Valdevino é uma boa criatura...

- Ouvi dizer que tem a mania do renome literário, é verdade? - perguntou o Evaristo...

- Mania que o há de levar ao hospício - resmoneou o Camargo.

- Esses literatos, esses literatos... - disse com mistério o Holanda.

- Vivem se digladiando! - acabou Furtado. - Queres mais cerveja, oh Camargo?

- Não, não, merci...

- Doutor, outro copo...

- Obrigado...

- E tu, Evaristo?

- Eu também recuso.

- Então podemos levantar acampamento.

Ergueram-se os quatro fumando, com grandes ares de capitalistas.

A Rua do Ouvidor estava num de seus dias de festiva alacridade, inteiramente cheia, como um rio a transbordar, tumultuoso, murmurejante e iluminado por um sol acariciador de primavera. Iam e vinham os habitués de ambos os sexos, numa procissão de toilettes vivas, num burburinho de festa pública entrechocando-se, acotovelando-se. Famílias conversavam à porta das lojas, moças e velhas madamas, senhoras de todas as idades e de todos os tamanhos, rindo, como se estivessem no interior de suas casas, beijando-se alto, enquanto os pais e os maridos discutiam política à porta dos cafés, à espera que elas acabassem de "fazer as compras". Ecoavam gargalhadas entre os homens. Uma banda de música a tocar polcas e valsas faria toda aquela gente esquecer-se de que estava na Rua do Ouvidor e cair num grande bailado ao ar livre. As maiores notabilidades da política, da literatura e das artes, os mais conhecidos escritores e homens de Estado viam-se ali, em grupos, à porta do Café de Londres, do Castelões ou do Pascoal, frechando, com o olhar, o madamismo suspeito e as demoiselles ricas, assistindo ao desfilar tumultuoso das cocotes, e das condessas, biografando-as uns aos outros com risinhos de inveterada malícia, observando-lhes o andar, os meneios, a toilette, a opulência das carnes, como se as quisessem devorar num ímpeto de canibalismo sexual, acompanhando-as a perder de vista, gulosos, famintos e banais. Moços de flor ao peito, no rigor da moda, alguns chegados de Paris, iam e vinham, numa ostentação pedantesca de polainas, de casimiras claras, de coletes brancos e de frases tolas, cumprimentando à direita e à esquerda, erectos como figuras de vitrina. Os armazéns de modas enchiam-se; enchiam-se os cafés e as confeitarias, e o zunzum aumentava de entontecer, dentro das lojas e na rua.

- Sabes quem é aquela, oh Evaristo? - disse, parando, o secretário. Indicava uma senhora de presença estranha, muito bem vestida, que ia pelo braço de um cavalheiro, na outra calçada. Um movimento de ansiosidade propagou-se no trecho da rua.

- Quem é?

- A baronesa de Lima-Verde, uma das mulheres mais formosas do Rio de Janeiro...

- Oh!... Vai com o marido...

- Isso é o que ainda não está suficientemente provado.

- Que queres dizer?

- Afirmam uns que o marido, o barão, passeia na Europa e que ela, a baronesa... não gosta de andar só...

- Aquele senhor é então o cunhado, o irmão...

- Qual cunhado, nem qual irmão! Aquele senhor é sócio de uma firma de capitalistas...

O bacharel compreendeu a alusão e exclamou, voltando-se para o objeto do diálogo:

- Que estás dizendo?

- Não achas formosa?

- É realmente uma beleza... Mas então...

- Fecha os olhos, Evaristo, fecha os olhos... e não queiras saber de mais nada.

Furtado, porém, resumiu em poucas palavras a crônica da baronesa, citando nomes com um perfeito conhecimento de cousas. Entre os adoradores da ilustre senhora estava o visconde de Santa Quitéria.

- O Santa Quitéria!

- Ele mesmo, e não te admires, porque outros de maior sisudez fazem a corte à baronesa.

O Camargo e o deputado Ismael tinham-se despedido. Os dois amigos subiram a Rua do Ouvidor, no meio de torvelinho geral, afastando-se a cada instante para deixar passar as senhoras, rompendo a multidão, esgueirando-se com as paredes, esbarrando com os transeuntes, aos encontrões, às apalpadelas quase.

No Largo de São Francisco um golpe de ar bafejou-os de improviso, como se saíssem de um túnel.

- Caramba! - exclamou o secretário. - A Rua do Ouvidor às quintas é um formigueiro! Nunca vi tanta gente!

- Olha daqui... olha daqui! - insistiu o bacharel, voltando-se no meio do largo, para a famosa artéria que regurgitava.

Era um espetáculo curioso. A rua muito estreita, com os seus sobrados de dois a três andares, com os seus arcos de iluminação, com as suas bandeiras, tinha o aspecto movimentado de uma pequena cópia de bulevar em dia de festa. Embaixo a massa negra e compacta, ondulando como uma procissão vista de longe, e um sibilar de vozes indistintas como o vago rumor de uma colmeia alvoroçada.

- Queres que te diga o efeito que isso me produz, oh Furtado?

- ?

- Lembra-me o caos, o misterioso, o incompreensível, a vertigem dos abismos... o grande nada dos heróis que dormem...

- Do vasto pampa no funéreo chão! - concluiu o secretário arguendo o braço numa pose oratória.

E fitando o bacharel:

- Estás apocalíptico, homem! Olha, não vás fazer como no Jardim Botânico, onde assassinaste barbaramente, creio que o Garrett ou o Alexandre Herculano...

- Pois é o que me parece a tal Rua do Ouvidor, e a comparação, se não é original, tem o mérito de exprimir exatamente o que eu quero dizer.

E Evaristo dava às palavras um tom de ironia boêmia sublinhando-as com um risinho cáustico e pérfido.

- Nunca hás de ser coisa alguma, porque vives a criticar a humanidade, e a humanidade o que quer é que a gente não veja os seus ridículos e as suas fraquezas.

- Pior! Achas que eu me devo subordinar aos caprichos da humanidade!...

- Que remédio tens tu!...

- O remédio dos incuráveis: a paciência...

- Bem, o lugar não se presta a discussões. Enfiemos outra vez pela Rua do Ouvidor.

- Outra vez?

- Para tomar o bonde de Botafogo...

Mas uma surpresa estava reservada ao secretário. Justamente na ocasião em que o bacharel passava diante da Notre Dame de Paris, deram de ombros com D. Branca e Adelaide.

- Oh!

- Oh!

A mesma exclamativa saiu da boca de Furtado e da esposa. Evaristo soltou um olá! fino, esganiçado e tão alto que algumas pessoas voltaram-se com um movimento de viva curiosidade.

- As senhoras por aqui! - estranhou o bacharel.

- Por aqui! ... - repetiu Furtado.

- Que grande admiração! E os senhores também não andam passeando? - opôs D. Branca com um olhar interrogativo por trás do véu que lhe cobria o rosto.

Adelaide esperou, sorrindo, a defesa da amiga.

- Nós somos homens...

- Morreu o Neves!

- Íamos ao Banco - disse Adelaide.

- Com escala pelo Largo de São Francisco... - atalhou o bacharel.

Nada de escândalo, nada de escândalo! - preveniu Furtado. - Já agora...

- Já agora vamos fazer um lanche ao Pascoal - interrompeu a esposa do secretário.

E os dois casais, bras dessus, bras dessous, foram andando rua abaixo tranqüilamente.

Eram duas horas da tarde. A onda de povo crescia; o movimento era cada vez maior nos cafés; ouviam-se orquestrações de harpa e o pregão monótono de leiloeiros destacando no meio da vozeria dos transeuntes.

Logo depois do almoço D. Branca sem dizer nada ao marido, convidara Adelaide para "uma volta na Rua do Ouvidor". A tímida esposa de Evaristo, guardando os seus escrúpulos e as suas conveniências de mulher bem casada, objetou-lhe o desgosto que isso podia causar ao bacharel.

- Vais comigo, filha, vais com a tua amiga.

- E o Sr. Furtado?

- O Furtado não ralha, porque sabe que é perder tempo. É uso no Rio de Janeiro as mulheres saírem sem os maridos. Uma coisa tão velha! Outro dia fomos, eu e D. Sinhá do desembargador...

- Outro dia?

- Vocês ainda não estavam aqui; foi num sábado... Pensas que o Furtado se incomodou? Qual!

- D. Branca! - fez a outra com um ar medroso.

- Não é nenhuma admiração, mulher. Metemo-nos no bonde, como quem vai fazer compras à cidade, sem mistérios, aos olhos de todo o mundo.

Adelaide não se resolvia. " - Sair sem Evaristo e logo para a Rua do Ouvidor!... Hum!..."

- Qual um, qual dois, rapariga; vista-se e vamos, que é meio-dia.

- D. Branca, D. Branca!

- Pior! ...

- ...Mas a senhora se responsabiliza, então...

- Responsabilizo-me pelo que você quiser.

- Bem... depois, depois! ...

E Adelaide atraída pelas cavilações da esposa do secretário (sempre fértil em expedientes), levada mesmo por um irresistível amor de se mostrar, de se apresentar, de exibir os seus formosos olhos numa rua tão pública, de ver as suas iniciais num jornal que descrevia as toilettes da Rua do Ouvidor.

Adelaide correu, lépida, ao guarda-vestidos.

- Olha, o de rendas, hem! - lembrou a amiga.

- Sim, o de rendas, é claro...

E daí a pouco um aroma fino, de sabonete, de pó-de-arroz e de essência de Houbigant espalhava-se em toda a casa - no primeiro e no segundo andar -; fechavam-se gavetas com açodamento, farfalhavam sedas e tiniam jóias. D. Branca por um lado e Adelaide por outro, esmeravam-se nas toilettes como se fossem a um baile ou a alguma festa de rigor.

- Pronta?

- Pronta... - respondeu a esposa do bacharel, dando um jeito no vestido, ao mesmo tempo que se revirava para o grande espelho do toucador.

E saíram de chapéu-de-sol aberto, uma jovialidade infantil, pelas ruas de Botafogo, a tomar o bonde. Os passageiros olhavam-nas com esse olhar curioso e indiscreto que às vezes confunde uma mulher honesta com uma horizontal. Adelaide ia um pouquinho no ar, um bocadinho gauche, às voltas com a luva da mão esquerda que não queria abotoar, sempre tímida, em contraste com os modos vivos da esposa do secretário.

Um senhor de óculos e barba grisalha cumprimentou-as.

- Quem é?

- Não conheço...

- Nem eu...

D. Branca não se lembrava, ou fazia que se não lembrava: era um dos titulares de Botafogo, o comendador Beltrão, dono de uma grande fábrica de cigarros. Não gostava de cumprimentar os homens de fisionomia idosa. - "Ora, o Beltrão... um velho!"

- E se encontrarmos o Sr. Furtado? - balbuciou Adelaide.

- Melhor... voltamos em boa companhia.

Mas o pensamento da jovem senhora estava no outro, no bacharel, no Evaristo. - Que diria ele, depois? Que ela já o não consultava em seus negócios, que não era a mesma Adelaide, que não fazia caso dele, talvez... E como explicar a sua ida à Rua do Ouvidor, como convencê-lo de que D. Branca a arrastava responsabilizando-se perante ele, como? Os homens não acreditam facilmente nas mulheres, enquanto não as vêem chorar, enquanto não as vêem de rojo a seus pés... Há dois anos que eram casados e nunca Evaristo duvidava das suas palavras; mas agora, no Rio de Janeiro... quem sabe? talvez não as aceitasse logo, como na província. Outras idéias. O mundo é todo cheio de contradições...

- Vamos voltar? - propôs ela à amiga.

E ia pretextar uma dor de cabeça, uma dor no fígado, um incômodo qualquer, mas D. Branca atalhou:

- Voltar? Que idéia! Eu, nem que me pagassem; meu rico vestidinho há de dar que falar hoje à Rua do Ouvidor. Voltar por quê?

- Por causa do Evaristo... - sorriu timidamente Adelaide.

- Ora, minha filha, tenha juízo! Então você é alguma criança? O Sr. Evaristo é um rapaz inteligente, um homem de bem, um cavalheiro... Os tolos é que prendem as mulheres, como se elas fossem escravas. Já lhe disse que me responsabilizo...

- Eu sei, mas...

- Não admito razões. A senhora vai comigo; quem a leva sou eu. E, em todo o trajeto de Botafogo à Rua do Ouvidor, uma e outra mereceram grandes elogios, grandes exclamações e vivos olhares de capitalistas e doutores que, mesmo na faina dos seus negócios, nunca se descuidam do sexo amável.

No ponto dos bondes houve um senhor que lhes dirigiu a seguinte frase cheia de ocultas intenções, numa voz melíflua e carinhosa:

- Como são lindas!

E outro, mais adiante:

- Oh, que beleza!

E ainda outro, já em plena Rua do Ouvidor:

- Deliciosas!

Tudo gente séria, moços bem vestidos, de colarinho alto e chapéu de forma e anéis de brilhante.

Adelaide não sabia como pisar, nem que jeito desse às mãos, nem onde pusesse os olhos, vendo surgir, de repente, o bacharel e agarrar pela gola do fraque um homem daqueles, e culpá-la, e dar escândalo! Arrependia-se mil vezes de ter acedido às instâncias de D. Branca.

A esposa do secretário, num coquetismo de mulher fácil, abanando-se com o rico leque de plumas, uma ostentação imperiosa de sedas e gazas resplandecia ao lado da amiga. Todos os olhares cravavam-se nela, no seu belo porte de mundana, nas suas formas rijas que o espartilho evidenciava, torturando-a.

- Bela rapariga! - foi uma das exclamações que lhe chegaram ao ouvido. E ela como que redobrou de altivez, aprumando-se, garbosamente.

O instinto ou o que quer que seja levou-a a tomar o caminho da Praça, pela Rua Direita. A mulher tem uma espécie de faro tão pronunciado e admirável como em certos animaizinhos de estima. D. Branca ia pelo faro, quando quem lhe havia de surgir? o visconde, o respeitabilíssimo Santa Quitéria... Vinha de uma assembléia-geral de acionistas no Banco.

- Oh, excelentíssimas, folgo de vê-las! - exclamou o banqueiro estendendo a mão, todo inclinado, primeiro à Branca e depois à Adelaide. - Andam passeando?

- Andamos passeando... - murmurou a esposa do secretário.

E emendou logo:

- Vamos fazer umas compras

- Ah!... Está muito bem, está muito bem.

- O Sr. Visconde já veio de Petrópolis.

- Sim, excelentíssima; Petrópolis está deserto... Desde que a família imperial mudou-se para a Tijuca que Petrópolis está deserto. O imperador embarca definitivamente na próxima semana.

- Para a Europa?

- Exatamente.

E, com um ar compungido, o visconde acrescentou:

- Pobre velho! Vossa excelência não o conhece...

- Por que, Sr. Visconde?

- Porque... porque reputo gravíssimo o seu estado...

Adelaide prestava atenção à conversa, olhando o banqueiro, medindo-o de alto a baixo, examinando-o.

- Que está dizendo?

- Gravíssimo... E comigo pensam os doutores da ciência.

- Pobre velho! - repetiu D. Branca sensibilizada. - Eu imagino a imperatriz...

- A imperatriz não o abandona; segue também.

- Coitada! E os príncipes?

- Os príncipes ficam em companhia da princesa. Pelo menos é o que se diz...

- Um homem tão forte, um hércules! - exclamou a esposa do secretário.

- As aparências iludem, minha senhora, e a morte é traiçoeira. Andam, então, fazendo compras?...

- Fazendo umas comprinhas...

- Bem, não as quero importunar.

E o Santa Quitéria descobriu-se, apertando, com uma delícia enorme, a mão enluvada e fina de D. Branca.

- Recomende-me ao nosso Furtado...

- Agradecida.

Oh, como ela desejaria prolongar aquele tête-à-tête, aquele doce encontro!... Mas o movimento era grande na Rua Direita, e não menos grande a língua do povo.

O banqueiro afastou-se, num gracioso ademane, e elas, depois de ligeira hesitação, voltaram pela Rua do Ouvidor.

Novos ditos, novas exclamações.

De um grupo, à porta de uma confeitaria, saíam estas palavras:

- As mesmas! as mesmas!

E uma chusma de olhares cobiçosos assaltou-as.

Entraram numa grande loja de fazendas, trocaram algumas palavras com o caixeiro, moço amável que trazia sempre a ponta do lenço fora do bolso do paletó, e - obrigada, hem, muito obrigada!... - saíram.

Foi então que o bacharel bispou-as, quando ele e o secretário voltavam do Largo de São Francisco, e os dois casais resolveram-se a tomar qualquer coisa no Pascoal.

A presença de Adelaide àquela hora na Rua do Ouvidor significava, para Evaristo, uma desconsideração, aos seus hábitos e às suas normas - um desvio da esposa, uma quebra de respeitos ... Sempre a conhecera tímida, obediente às suas prescrições e inimiga de se apresentar onde ele não estivesse, e agora via-a na rua mais pública do Rio de Janeiro, em grande toilette, como uma senhora habituada ao luxo e à publicidade, que não receia o eco das más-línguas, nem a audácia dos ociosos! É certo que ia pelo braço de D. Branca, mas a esposa de Furtado... a esposa de Furtado... a Sra. D. Branca... E enquanto caminhava para o Pascoal, Evaristo, silencioso ao lado da mulher, como que se empenhava na resolução de problema difícil. Adelaide merecia-lhe toda a confiança, mas, positivamente, já não era a mesma Adelaide. Vir à cidade sem lhe dizer, sem o prevenir?... Não, já não era a mesma...

E enquanto durou o lanche, enquanto estiveram na confeitaria debicando empadas e sanduíches - o bacharel manteve-se casmurro a torcer o bigode, a olhar os que entravam e os que saíam, mais filósofo que nunca, a alma vibrando numa indignação muda e tenebrosa.

Adelaide compreendeu que o havia desgostado e cruzou o talher.

D. Branca e Furtado entreolharam-se com admiração. Era a primeira vez que os viam amuados.

VI

Ia enfim realizar-se a misteriosa e pranteada viagem do imperador. Na eterna alegria do sol, que amanhecera esplendidamente luminoso, flutuavam preces ao bom Deus pelo pronto regresso do monarca. Suspiros de saudade, louvores à boca pequena, exclamações de inconsolável tristeza erguiam-se nas ruas da cidade, formando uma atmosfera de vagas melancolias, um como ambiente glacial de apreensões sinistras que a luz triunfal do sol não espancava. Ia ficar deserta a Quinta de São Cristóvão e o Brasil sem o imperador, o Brasil sem o Sr. D. Pedro II era como Um país abandonado à aventura dos selvagens... Oh, o homem extraordinário que antes de ser homem era rei! que tristeza para o povo, que desolação para a Corte! Ninguém queria acreditar naquela viagem lúgubre como a própria morte...

No entanto, chegava a hora do embarque. Apresentavam-se as carruagens; não havia tempo a perder.

Às seis horas da manhã o desembargador Lousada e a mulher, em berlinda especial, abalaram para a Tijuca. A ilustre dama de Sua Majestade, a imperatriz, ia chorosa, com o lenço nos olhos, quase muda na sua toilette de seda marrom. O visconde de Santa Quitéria, amigo particular do imperador, não quis deixar de cumprir o religioso dever que lhe impunham a amizade e a gratidão: lá foi também corretamente encasacado, de luvas pretas. E outros e outros personagens de etiqueta levaram a sua homenagem aos augustos viajantes.

Luís Furtado entendeu que melhor seria assistir ao embarque no Arsenal de Marinha com D. Branca e os Holanda. Mas Evaristo foi dizendo logo que "só costumava ir ao embarque dos seus amigos e que não transigia com as suas convicções..."

- Não se trata aqui de convicções, nem de idéias políticas - fez o secretário. - É um dever de todo o brasileiro levar as suas despedidas ao imperador, ao homem que nos governa há quase cinqüenta anos e cujas virtudes o mundo inteiro admira...

- Nesse caso vai tu, eu não. O meu dever, como republicano, é não ir, é ficar em casa ou à minha banca de trabalho. Nunca recebi favor do Sr. D. Pedro II, nem ele me deve coisíssima alguma.

- Queres, então, privar D. Adelaide.

- Não senhor, não senhor, Adelaide irá se quiser, eu não proíbo...

- Sempre a mesma veleidade republicana; sempre a mesma tolice! - exclamou Furtado. - Hás de lucrar muito com essas idéias!

- Não é questão de lucro, é questão de consciência. Tenho o direito de pensar e de agir como entender.

- Bem; fica-te lá com a tua consciência, meu Camilo Desmoulins, e depois não te arrependas... Então, D. Adelaide vai conosco?

- Pode ir...

A jovem esposa do bacharel tinha, com efeito, muita vontade de ver o imperador, cujas barbas brancas ela nunca vira senão em retratos; mas o marido era homem esquisito, inimigo figadal da monarquia, cheio de escrúpulos, timbrando em continuar na Corte a mesma vida aperreada da província - um incorrigível - e ela respeitava as idéias dele como se fossem as suas próprias idéias. Resignou-se com um suspiro. O mundo não se acabava; quando o imperador voltasse da Europa, iria vê-lo...

Furtado, porém, renovou o seu pedido a Evaristo, obtendo dele uma resposta que trouxe aos lábios da esposa o mais adorável dos sorrisos. - Que sim - que Adelaide não devia perder o embarque espetaculoso do Sr. D. Pedro II... ao menos por curiosidade, por desfastio...

- Muito bem, muitíssimo bem! - aplaudiu o secretário, risonho, batendo as mãos. Gosto de ver um republicano de idéias largas como o Evaristo. D. Adelaide agora não tem mais do que ir preparando a toilette..

E no dia anunciado pelos jornais, todos, menos o bacharel que os acompanhou somente até à cidade, dirigiram-se ao Arsenal de Marinha, ponto de embarque do imperador.

A galeota imperial, encostada ao cais, fumegava, toda pintada de verde e ouro, fria como uma baleia, crivada de olhares que a contemplavam num êxtase selvagem. Dentro dos muros do Arsenal passeavam oficiais de Marinha e do Exército, em grande gala, arrastando as espadas com ar marcial. Viam-se também altos funcionários à paisana, de casaca e luva, e senhoras em trajo de baile, exibindo o colo num decote pomposo de rainhas, vestido de cauda, brilhantes no cabelo.

Era intensa a luz do sol, mas o povo afluía, na rua, dominado pela irresistível curiosidade de assistir à passagem da família imperial.

Uns queriam ver o próprio monarca, outros, que o conheciam, não ocultavam o desejo de "reparar bem" na herdeira do trono, outros nada mais queriam senão lançar os olhos à imperatriz. O trecho entre o morro de São Bento e a Secretaria da Marinha estava repleto de curiosos - operários do Arsenal, ganhadores, catraieiros, no meio dos quais sobressaíam altos chapéus de forma de um ou outro personagem desconhecido que também se abalava a ver o embarque.

De vez em quando parava um carro e o povo abria alas, num movimento de exército em revista. Chegavam Ministros e diplomatas cujos nomes corriam de boca em boca.

Eram já onze horas da manhã e nada do imperador, nem sinal do augusto viajante.

A essa hora precisamente uma carruagem estacou no portão do Arsenal e logo apeou o secretário do Banco Industrial; em seguida apearam duas senhoras: D. Branca e Adelaide.

Furtado ouviu uma voz no meio do povo: - Mulherão! e, teso, erecto, numa pose de verdadeiro diplomata, disse qualquer coisa ao porteiro e entrou. As duas senhoras iam na frente com o ar compungido, silenciosas, lado a lado.

Quase no mesmo instante o povo agitou-se e mais de duas mil cabeças volveram-se para o extremo oposto da rua. Vozes exclamaram: - É ele! é ele!

Houve, então, uma balbúrdia, um atropelo, uma ânsia fenomenal. Cometas estrugiram ao longe e ouviu-se um estrépito de cavalhada em correria.

Com efeito, era o imperador que chegava. A multidão abriu caminho, tal as águas do mar vermelho para deixar passar os hebreus, e uma exclamação uníssona, estrepitosa e límpida, vibrou no espaço:

- Viva Sua Majestade o Imperador do Brasil!

- Vi... ôôôô!

Dentro no Arsenal, uma música militar rompeu o hino com entusiasmo belicoso enquanto os vivas continuavam, fora. - Vi... ôôô! Vi... ôôô!... sucessivamente.

O carro imperial estacou, seguido de outros carros, e o velho monarca, cumprimentando à direita e à esquerda, surgiu trêmulo, incrivelmente pálido, os olhos fundos, a barba longa como a de um profeta da antigüidade.

Compunha-se a comitiva de S. M. Imperiais, conde e condessa d'Eu, príncipes D. Antônio, D. Luís e do Grão-Pará, visconde da Mata, visconde de Santa Quitéria, um general, um almirante, o desembargador Lousada e a esposa, e outras pessoas de distinção.

O povo cercou o monarca e quis beijar-lhe a mão antes dele entrar no Arsenal; mas o velho, todo trêmulo, com os olhos úmidos, partido de saudade, balbuciou fitando os que o rodeavam:

- Não, aqui não: o sol está muito quente!

- Viva Sua Majestade a Imperatriz! - berrou uma voz.

E todas as cabeças se descobriram e todas as bocas exclamaram - - Vi.... ôôô! num entusiasmo ardente e apaixonado.

Vozes de comando estrondeavam no recinto da praça; uma guarda de honra do batalhão naval fazia as continências ao monarca. E ele, muito amável, muito cheio de cortesias ao lado da Sra. D. Teresa, a mãe dos brasileiros, ia-se multiplicando em cumprimentos para aqui, para ali, curvado ao peso dos anos e da traiçoeira enfermidade que o minava.

Uma onda acompanhou-o vitoriando-o, aclamando-o de chapéu no ar, aos gritos de Viva Sua Majestade o Imperador! Viva Sua Majestade a Imperatriz! Viva Sua Alteza a Sra. D. Isabel! Viva o Sr. Conde d'Eu!

E a música repetia o hino nacional uma vez, duas vezes, três vezes, confundindo-se com o alvoroço da multidão.

Por fim um silêncio medroso caiu aos pouquinhos, amortecendo o entusiasmo e transformando-o num vago pigarrear abafado e tímido.

A galeota resfolegava e dentro dela já se moviam homens pressurosos, na sofreguidão de evitar o arrocho e de se garantirem um lugar cômodo. O imperador do Brasil, com os olhos vagamente nublados, num grande círculo de homens e senhoras que o queriam ver e beijar, tinha a fisionomia resignada dos mártires que a lei desterra para longínquos países, donde não voltam nunca.

Ainda não era chegado o momento das despedidas, hora trágica dos beijos e das lágrimas. Havia uma ansiedade em todos os olhares; uma tristeza calada e circunspecta ia dominando os espíritos, empolgando-os de leve, penetrando os corações vitoriosamente.

A herdeira do trono enxugava os olhos, muito rubros de comoção e de calor, em contraste com a branca fisionomia do pai. O monarca repousava numa cadeira que lhe fora oferecida por um velho almirante de rosto escanhoado. Mas de repente ergueu-se, compungido, e abriu os braços à filha. Sua Alteza percebeu que o velho ia-se despedir e murmurou:

- Não, meu pai, eu vou a bordo...

- Vais a bordo?... Oh!...

- Sim, vamos todos a bordo...

- Conselheiro - disse então o velho para um homem idoso, fardado de ministro, que conversava com o príncipe Gastão de Orleans - um abraço...

- Vossa Majestade permitirá que o acompanhe ao Gironde... - fez o conselheiro dobrando-se.

- Não quero que se incomodem por minha causa... O tempo é dinheiro...

- Não é incômodo, senhor, é um prazer e uma obrigação...

- Pois bem, vamos, para não demorar o vapor...

A essas palavras do monarca, a onda dos cortesãos agitou-se, trovejou a voz do oficial que comandava a guarda de honra, tilintaram espadas e uma fila de homens e senhoras marchou, com solenidade, para a galeota. O cais estava todo negro de gente que tinha ido ver "o embarque".

A procissão fez alto à borda d'água, trocaram-se muitos cumprimentos, D. Isabel levou ainda uma vez o lenço aos olhos, o conde abaixou a cabeça, de lado, para ouvir um general que o importunava com perguntas; uma menina de seis anos, vestida de branco ofereceu ao imperador um buquê de flores artificiais, com dizeres em ouro numa larga fita verde, e, ao som do hino, os imperiais turistas embarcaram.

Lanchas apitavam, cruzando-se na baía, defronte do Arsenal. Uma tristeza enorme avassalou todos os corações naquele momento, e quando a galeota fez-se ao largo e o último adeus flutuou na asa de um lenço - palpitante, como um coração espedaçado - milhares de silhuetas brancas emergiram da onda negra dos que ficavam... E uma aclamação geral, clamorosa e dorida, vibrou na luz intensa, pelos cais, pelas embarcações, mar adentro, como uma celeuma de vencidos...

Adelaide chorou sem saber de quê; encheram-se-lhe d'água os olhos; quis falar e faltou-lhe a voz: era como se nunca mais pudesse contemplar aquela insinuante fisionomia do velho, meiga e boa, que ninguém ousava desrespeitar.

Estavam à sombra de uma árvore, ela, D. Branca e Furtado; dali é que tinham visto tudo - os menores movimentos do imperador e da família imperial até a hora do embarque.

Os olhos da esposa de Evaristo iam e vinham, de um lado para outro, e pouco a pouco foram-se umedecendo, pouco a pouco foram tomando uma expressão comovida e inquieta que o secretário logo percebeu.

D. Branca esticava o pescoço, erguia-se na pontinha dos pés, a mão enluvada no ombro do marido, equilibrando-se. Nada lhe escapou à indiscreta curiosidade: viu o desembargador Lousada e a mulher, os príncipes, a princesa, o monarca e a imperatriz e, por fim, o visconde, o Santa Quitéria enfronhado na sua casaca solene, de braço com uma ilustre dama que ela não pôde reconhecer. O banqueiro levava ao peito um crachá faiscante, uma grande comenda que a todos causava admiração. - Mas de braço com uma mulher! Qh, a esposa de Furtado arriou os calcanhares, estremeceu de ciúme, como se lhe houvessem roubado a mais querida jóia, trincou o lábio num assomo de desespero, e abanou-se com fúria.

- Vocês não estão sentindo calor! - disse para Adelaide e o secretário.

- Muitíssimo! - exclamou Furtado.

- Muito - respondeu Adelaide.

- Oh, eu estou sufocada! Se houvesse água por aqui...

- Arranja-se - tranqüilizou o marido. - Queres?

- Quero, sim, tem paciência...

E quando ele afastou-se muito cavalheiro, para trazer água:

- Viste o Santa Quitéria? - perguntou D. Branca à amiga.

- Não.

- Que pena! Pois ia de braço...

- Com quem?

- Com uma velha, com uma mulher horrivelmente feia...

- Sim.

O Santa Quitéria, um visconde, um homem tão elegante!

- É para você ver o que são os homens.

- Não, que há homem de muito bom gosto! Eu não creio que o visconde esteja cego...

- Exigências de ocasião, coitado! ele até acha quase todas as mulheres feias... Pelo menos já o ouvi dizer.

- E, mas lá ia com unia coruja!

Adelaide achou graça no epíteto e, sem desviar os olhos da onda de gente que se aglomerava no cais, respondeu com um sorriso em que se lia toda a tristeza de uma alma ingênua. Não podia esquecer o imperador com a sua longa barba muito branca, uma névoa no olhar, inclinado para frente, caminhando devagar, como quem já está marchando para a sepultura... Tinha os olhos úmidos ainda e ficava-lhe dentro d'alma uma piedade imensa, uma ternura por aquele velho tão diferente do que ela imaginava...

Um servente aproximou-se com uma bandeja e água para as duas senhoras.

Furtado vinha com um riso de profunda ironia nos lábios.

- Este mundo! este mundo!...

- Que é? - perguntou D. Branca olhando o secretário.

- Adivinha, se és capaz!

- Eu não...

E Furtado cruzou os braços em atitude de misteriosa surpresa.

voltar 1234567avançar