- Fizeste mal em o deixar ir.
- Disse que era tarde, que você vinha cansado...
- E que novidades trouxe ele?
- Que a família imperial chegou a Cannes. Os médicos receitaram duchas, estricnina e aplicação do gelo ao imperador.
- Já sei: o tratamento hidroterápico...
- Isso.
- Todos vão bem?
- Todos; o Velho mesmo tem esperança de se restabelecer.
- Coitado! Sempre muito amável, o visconde!
- Amabilíssimo! Perguntou pelo Raul, pela Julinha, pelos Holanda... até pelo Condicional!...
Furtado já encontrara a mulher no val dos lençóis, e, enquanto se despia) ela lhe ia dizendo tudo.
A noite estava fresca: eram os primeiros dias do inverno que aproximava eriçando a cabeleira das árvores.
Evaristo e a mulher tinham visto, da janela, entrar e sair o visconde. O bacharel não se conteve: - armou o punho indignado:
- Corja!
E recolheu cheio de ódio, tempestuoso, numa das suas explosões mal contidas de jacobino incendiário. - "Neste país devia haver uma forca, um cadafalso em cada esquina!"
Quanto a Adelaide, continuava a abrir-lhe os olhos:
- "Vamo-nos daqui, Evaristo... Mudemo-nos de uma vez... Abandonemos este Rio de Janeiro, que é um inferno... uma tentação!"
Furtado não a esquecera, apesar da discórdia que reinava entre as duas famílias. Era o primeiro a querer que ela se mudasse, que o bacharel fosse morar em outra casa, longe de Botafogo, mas não do Rio de Janeiro...
Adelaide cativava-o ainda irresistivelmente. Nas horas em que os dois casais se reuniam para almoçar ou jantar, ele sentia afluir-lhe do coração todo o sangue das veias numa pletora sensual, num gozo abstrato e mudo, que o desnorteava; e ela, como se lhe percebesse as secretas maquinações e a intensidade do calor afetivo, nem o olhava sequer...
As refeições eram rápidas agora - rápidas e frias como o cumprimento de um dever penoso. Trocavam-se glacialmente os - bons dias! - e quase não se falava mais, quase não se dizia outra coisa.
O bacharel era homem de resoluções momentâneas e inesperadas; opunha-se a qualquer idéia da esposa, mas acabava sempre concordando com ela, e o seu fiat era um decreto irrevogável.
Adelaide dera-lhe a maior prova que uma mulher pode dar ao marido de não estar em via de aumentar a espécie humana, e ele resignara-se. Vendo-a, porém, definhar, emagrecer, e estranhando-lhe certos hábitos, como o de acordar alta noite, sobressaltada, o de não comer com o mesmo apetite de quando tudo andava em ordem naquela casa, e, principalmente, o de amofinar à mais leve contrariedade, chorando às vezes, como uma criança, quando ele lhe fazia qualquer censura - vendo-a nesse estado de desequilíbrio nervoso, pensou em chamar médico.
- Por amor de Deus, Evaristo, não faça tal coisa! - rogou Adelaide.
- Por quê? Não andas doente? Não te queixas tanto?
- Pelo amor de Deus! O que eu quero é ir-me embora do Rio de Janeiro, ainda que seja para um deserto! Arranquem-me daqui, tirem-me deste inferno - é o que eu quero...
Evaristo, meio intrigado com aquela relutância da esposa, com aquela idéia fixa de deixar o Rio de Janeiro - ela, que a princípio tanto encanto achava nele - refletiu, tornou a refletir, sacrificando, nesse duro trabalho mental, as guias do bigode, que lhe não era muito farto, e optou pelo regresso a Coqueiros. Adelaide queria, não é assim? Fiat voluntas... Em primeiro lugar estava ela, sua mulher, depois o Rio de Janeiro.
Franqueza, franqueza... ele também se dera muito mal no Rio. Hipocrisia, hipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente encontrava. O próprio Luís Furtado e a própria Sra. D. Branca o que eram, senão uns hipócritas? O visconde, o desembargador, o Condicional, o Pessegueiro... tudo uma corja de hipócritas! Adelaide tinha muita razão, muitíssima razão.
E sempre agitado, esfarelando o bigode, tomou o primeiro jornal que lhe caiu nas vistas.
- Que dia é hoje?
- Primeiro de maio.
- Ah... Bem; no dia dez temos vapor para o norte...
- Estás resolvido, então?...
- Mais que resolvido. Não podemos continuar nesta terra... tu, porque andas com a saúde arruinada, eu, porque tenho arruinado o espírito... De um lado o corpo, doutro lado a alma. O Rio é muito bom, sim senhores, mas para quem tem flexível a espinha dorsal e o caráter. Preparemos a trouxa!
Adelaide ficou olhando o marido, com um risinho seco e incrédulo à flor dos lábios, a mão no queixo, a cabeça inclinada numa pose de modelo vivo.
- Por que me olhas com esses olhos tão admirados? - perguntou o bacharel agarrado ao Comércio do Rio.
- Por nada...
- Já disse: preparemos a trouxa. Amanhã vou me despedir do Banco e telegrafar ao Rocha.
Adelaide continuava a olhar Evaristo, sem o compreender, sem compreender toda aquela precipitação.
- Não me venhas com histórias... - tornou ele.
- Mas...
- Que mas o quê! Para longe deste inferno! para longe desta porqueira! Vive-se melhor, mais barato e mais honradamente na obscuridade da província, criando galinhas ou plantando jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e do Sr. Luís Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer parte do mundo: vou advogar, vou esperar a República no sertão!
- O que eu quero dizer é que não te precipites, Evaristo. Façamos as coisas com jeito, sem desgostar a ninguém. Olha que devemos favores ao Sr. Furtado, à D. Branca...
- Adeus, minhas encomendas! - disse o bacharel erguendo-se e atirando o jornal para o lado. - Quem te afirmou o contrário? É verdade que devo muitos favores àquele bigorrilha, inclusive os duzentos mil réis que me emprestou já lá vai um ano; mas porque mos não cobrou? Negócio é negócio. Agora, daí não segue-se que lhe devo beijar as mãos como um cachorrinho de grisette.
- Evaristo!
- Digo e torno a dizer: não sou um cachorrinho de grisette para andar beijando as mãos a fidalgos!
- Fala baixo!
- Estou falando mais baixo do que costumo...
E encerrou-se a discussão entre Evaristo de Holanda e a mulher naquela tarde melancólica demais, ao crepúsculo.
Adelaide não dormiu, pensando na brusca resolução do marido e em mil e tantas coisas fúteis que aos olhos de uma mulher inexperiente como ela, e como ela supersticiosa, adquirem estranhas proporções. Mas no meio de todas essas coisas erguia-se o vulto de um homem, que não era o Holanda, que absolutamente não se parecia com aquele que ali estava a seu lado, na cama, e de novo um extraordinário medo apoderava-se dela, um pavor inexplicável, uma covardia criminosa, que a obrigava a abrir e fechar os olhos intermitentemente... Era o vulto do secretário... "a tentação", chamando-a para o mistério do gozo e para a desonra, num apelo fidalgo de cavalheiro do Amor, num requinte donjuanesco de volúpia mundana... Sim, era ele, era. Luís Furtado acenando-lhe com a felicidade efêmera de um instante, ajoelhando-se-lhe aos pés e suplicando um beijo, uma palavra de amor, um movimento de simpatia... E ela, inconscientemente, fechava os olhos para o ver melhor, e naquele sonhar acordada, ia-se-lhe a alma, num vôo rápido e traiçoeiro para o marido de D. Branca... Depois voltava ao corpo donde saíra, e logo a jovem esposa do bacharel abria os olhos, trêmula de medo, arrependida como se houvesse praticado uma ação má.
Naquela noite, mais do que em todas as outras, Adelaide pensou no secretário. - Amá-lo-ia?... Não, porque adorava o marido. Talvez acabasse amando-o... Mas o futuro é tão incerto, são tão incertas as previsões humanas!... Certo é que a imagem dele não a deixava, por mais que a repelisse.
Amanheceu o dia soberbo de luz. Evaristo tornou a falar na viagem para o norte. Adelaide disse-lhe que sim, que ia tratando de arrumar as coisas, e fez um gesto de enfado.
O bacharel vestiu-se, cantarolando de bom humor, e desceu para a refeição.
- Bom dia.
- Bom dia.
Repetiram-se os habituais cumprimentos da manhã.
Mais do que nunca o almoço correu frio. D. Branca estava de olhos duros e passava os pratos com um gesto de visível apatia. Furtado aludiu, em frases lacônicas, ao último telegrama de Cannes:
- Sua Majestade continuava no uso das duchas, - publicado nos jornais matutinos. Leu alto, para que todos ouvissem, inclusive o bacharel, que fingiu não dar atenção.
Adelaide petiscava de leve as migalhas de arroz e os bocadinhos de fritada, baixando os olhos com cerimoniosa discrição.
Evaristo, por sua vez, guardou o mais profundo recolhimento, não aludindo sequer à projetada viagem. Ia falar ao amigo no Banco e lá mesmo ajustar suas contas.
- Vamos? - disse o secretário tomando o chapéu e palitando os dentes.
- Vamos - respondeu friamente Evaristo.
E saíram como de costume, agora menos comunicativos.
Adelaide acompanhou o marido à escada e, logo que este desapareceu embaixo, porta fora, recolheu ao segundo andar, numa crise de nervos. Não havia decorrido uma hora depois do almoço, quando D. Branca ouviu gritos finos de mulher no alto do sobrado.
- É Adelaide, minha gente! - disse arregalando os olhos para o Antônio que correra.
Os gritos aumentavam, numa progressão assustadora.
- É ela! é ela! - repetiu a esposa de Furtado investindo para o corredor.
A ama, com a Julinha nos braços, abalou também dos fundos da casa, e ela e D. Branca e o Antônio acudiram precipitadamente, aos encontrões.
O fâmulo do secretário não esperou pela patroa: galgou os degraus dois a dois, três a três, numa elasticidade felina de músculos, e, sem guardar conveniências, enveredou pelos aposentos do bacharel. D. Branca foi encontrá-lo sobrepujando Adelaide que se debatia no leito numa agitação de todo o corpo, os olhos desvairados, a face muito pálida, em convulsões histéricas.
- Mas o que foi? o que foi?! - perguntava, assombrada, a esposa do secretário.
Ninguém sabia explicar, ninguém sabia dizer o que aquilo era.
- O doutor, minha senhora, o doutor! - aconselhava o Antônio, agarrado aos pulsos da doente.
A primeira idéia de D. Branca foi pedir socorro da janela, alarmar a vizinhança, salvar a sua responsabilidade, mesmo porque não tinha àquela hora quem fosse chamar o médico ou prevenir a Evaristo. O Antônio era indispensável, a ama não saía à rua, e ela, D. Branca, estava em trajos muito caseiros para se apresentar a qualquer estranho. Que falta que fazia o Raul!
A ama, sem largar a Julinha, desceu em procura do vidro de éter.
- Depressa, rapariga, depressa! - bradava a mulher do secretário, atônita no meio da casa.
Felizmente Adelaide arriou os braços, como extenuada, e os gritos foram-lhe morrendo pouco a pouco, dolorosos e cansados, na garganta.
- Oh meu Deus, que aflição me faz isso! - imprecava D. Branca.
- Não é nada, minha senhora, não é nada... - dizia o Antônio numa voz conciliadora. - E bom desabotoar-lhe a roupa... Foi um ataque...
- Espera, Antônio, espera, que eu já desabotôo.. . Não saias daqui.. traze um copo com água.
O copeiro obedeceu, enquanto ela ia afrouxando a roupa de Adelaide.
Veio o éter, veio a água, fizeram-se fricções, chamaram muitas vezes pelo nome da doente, a ver se ela acordava, cobriram-na com um lençol desde os pés até o pescoço, colocaram-lhe a cabeça nos travesseiros; mas a esposa do bacharel não dava sinal de vida.
- O coração está batendo? - perguntou inquieta, a ama.
D. Branca encostou o ouvido no peito de Adelaide.
- Está, sim... está batendo devagarinho.
- E agora? - quis saber o Antônio, pronto a retirar-se.
- Agora - ordenou D. Branca - toma um tílburi e vai, vai, correndo, avisar ao marido dela, no Banco Industrial. - Sabes onde é?
- Sei, sim senhora.
- Pois vai.
O criado atirou-se pelas escadas, mais veloz que um andarilho.
D. Branca ficou à beira do leito, muito nervosa, cheia de desapontamento, velando a enferma.
Adelaide parecia dormir, numa imobilidade de cadáver, os olhos fechados, a boca entreaberta, mal respirando.
A esposa do secretário esfregava-lhe a testa e os pulsos, dando-lhe a cheirar éter, enxugando-lhe o suor que porejava do rosto. De instante a instante mandava um olhar ao espelho do toucador. - Estava tão pálida!
Afina, Adelaide abriu os olhos com um largo suspiro que fê-la estremecer toda.
- Quer beber um pouquinho d'água? - inquiriu Branca.
A esposa de Evaristo não respondeu; olhou-a, com os olhos muito lânguidos, muito mortos, encarando, em seguida, a ama, que estava em pé a seu lado. Mas a mulher do secretário derramou algumas gotas de éter num copo e deu-lhe a beber o calmante.
- Que horas são? - perguntou Adelaide numa voz débil que lhe saía do fundo do peito com outro suspiro de alívio.
- Vai para as duas... Descanse, que o Sr. Evaristo não pode tardar...
Com efeito, o bacharel não tardou. Para isso é que havia tílburis na praça e boleeiros de encomenda. Subiu a escada num vôo.
Adelaide estava melhor, muito melhor, e já se sentava na cama; recebeu-o com lágrimas, atirando-se a ele.
- Mas que foi?... que foi? - perguntava, aflito, o marido.
A esposa do secretário explicou tudo; uma crise de nervos, um desequilíbrio... má digestão, talvez.
- Uma crise? Mas não chamaram médico?
Adelaide continuava a soluçar com a cabeça no ombro de Evaristo.
- Como chamar médico, Sr. Evaristo, se não havia por quem?...
- E o Antônio?
- O Antônio foi avisá-lo ao Banco... ora, o Antônio!
- Deixavam-te morrer, minha mulher, deixavam-te expirar à míngua! - disse o bacharel transbordando ironia. - Onde há dinheiro falta piedade... Mil vezes a Cidade Nova!
- Que quer o senhor dizer com isso? - perguntou D. Branca, ofendida.
- Que quero dizer com isto? Nada, excelentíssima, absolutamente nada.
- O senhor ofende-nos, a mim e ao Lulu...
- Eu, ofendê4a? - tornou Evaristo com um sorriso de escárnio.
- Sim, senhor: ofende-nos, tanto mais quanto nunca o maltratamos... sua senhora sempre foi muito bem tratada em nossa casa.
- Perdão, eu não vim discutir.
- Não vem discutir, mas vem ofender a quem nunca o ofendeu... Isto mesmo hei de dizer ao Lulu...
E a orgulhosa D. Branca Furtado, num assomo de cólera, que nada tinha de nobreza, embarafustou, resmungando, escadas abaixo.
- Pro diabo que a carregue! - explodiu Evaristo.
Adelaide não teve tempo de lhe tapar a boca. A frase saiu inteira, completa, dos lábios do jacobino.
- Ao dinheiro oponho eu a dignidade, morra, embora, na miséria! - continuou, afagando os cabelos da esposa.
E seguiu-se uma cena muda de carinhos entre os dois.
O próprio bacharel tinha lágrimas nos olhos.
IX
Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no Campo da Aclamação. - "Bastava de fidalgos..." Não quis levar os trastes, porque - dizia ele - não lhe pertenciam; recolheu apenas os baús que trouxera do norte, um ou outro objeto que comprara depois, inclusive um grande quadro de Tiradentes e os livros, meia dúzia de volumes encadernados.
Quando às seis horas o carro parou à porta de Furtado, a vizinhança toda chegou à janela. O desembargador Lousada, com o indefectível gorro, a mulher e a filha também apareceram, D. Sinhá, branca de pó-de-arroz, falava tão alto que se ouvia dos extremos da rua. - Só nessas ocasiões aquele trecho do bairro animava-se um pouco; o mais simples episódio, um incidente qualquer fora do comum dava às casas aspecto novo de quarteirão em festa, excitando a curiosidade dos moradores, transmitindo-lhes aos nervos uma sensação especial de alegria, de bom humor e de íntima aliança entre o corpo e o espírito. Era necessário que um sopro de escândalo varresse a atmosfera estagnada dos brasões e do preconceito fidalgo para que o longínquo recanto de Botafogo sentisse um calor de vida, um frêmito de existência animal nas artérias.
Bastava o rodar de uma carruagem: todo o mundo esquecia obrigações para satisfazer uma necessidade imperiosa do espírito e do olhar. As varandas enchiam-se, mil cabeças surgiam como peixes à tona d'água. Era a avidez do escândalo, a eterna bisbilhotice de operários e ociosos, de homens e mulheres, acordando para a faina do dizia-se, para a mistificação do boato.
Um carro à porta dos Furtado! Ainda se fosse o do visconde... mas não - não era o cupê do Santa Quitéria... Talvez alguma visita de cerimônia... Entretanto - coisa notável! - as janelas do primeiro andar estavam fechadas e não havia ninguém na varanda do secretário!
A filha do desembargador cravava os olhos na alta frontaria do sobrado:
- "Ninguém"!
E aquele "misterioso" veículo de segunda ordem, atrelado com animais de ínfima espécie, causava arrepios de curiosidade - era como um ponto de interrogação erguido a fidalgos e burgueses no meio de uma rua sombria.
Luís Furtado passeava de um lado para o outro, na sala de jantar. Incomodava-o a brusca retirada do amigo, não obstante as insinuações odiosas da mulher. D. Branca enchera-lhe os ouvidos: que fora desacatada pelo bacharel, que o marido "da Sra. D. Adelaide" era um grosseirão; que antes nunca os tivesse admitido em sua casa; que o culpado era ele, Furtado, homem de muitas facilidades e de pouca experiência...
O secretário ouvia tudo com uma resignação de carneiro imolado, sem proferir palavra, sem a mais leve queixa. Não foi pedir explicações ao amigo: esperou os acontecimentos com a mesma calma de homem que sabe ajuizar dos homens e crê numa fatalidade que a tudo resiste e tudo domina na ordem moral e nas relações sociais.
O Evaristo era um pancada, ele o sabia melhor que ninguém: para que provocá-lo? Esperava, até que o bacharel se resolvesse a um acordo, a uma conciliação honrosa para ambos. Nenhum dos dois tinha a lucrar com um rompimento escandaloso e menos digno de cavalheiros que se prezam. Imaginava Adelaide sucumbida, os olhos em pranto, o coração intumescido de desgosto - pobre senhora! - às voltas com um homem de gênio pirrônico e macambúzio, sem o necessário equilíbrio para a vida doméstica - exagerando tudo, revoltando-se contra todos.
Como ela havia de estar sofrendo, aquela pomba sem fel!
E o secretário do Banco Industrial forrava-se de uma tranqüilidade assombrosa para não dar a perceber a D. Branca o pesar, o grande pesar que lhe causavam a história do ataque e a narrativa do episódio com o bacharel na presença de Adelaide.
Ela, coitada, ela também sentia muito, a jovem esposa de Evaristo; habituara-se àquele viver, àquela existência em comum com os Furtado e doía-lhe, agora, como um punhal que lhe enfiassem nas carnes tenras, o abandono de todas as comodidades, a separação brusca das duas famílias tão intimamente unidas no princípio, quando ela chegara ao Rio de Janeiro... E por quê? Por nada, por coisíssima alguma, por um simples capricho, por uma fatalidade!
Evaristo desceu ao lado da mulher, guiando-a na escada, todo cauteloso, carregando-a quase.
- Não te despedes?... - lembrou ela.
- Eu?!
E com uma ironia na voz:
- Queres me debicar...
Adelaide não insistiu: foi-se deixando levar até embaixo, à porta da rua, como uma convalescente.
O boleeiro abriu, com um movimento estabanado, a portinhola do carro e ela entrou. Foi como se entrasse numa prisão para nunca mais sair; tudo escureceu ao redor dela, como se lhe tapassem a vista com um pano negro; faltava-lhe o ar, faltava-lhe a lucidez do espírito, fugia-lhe a clarividência das coisas, fugia-lhe tudo! Apenas um objeto perdurava na sua imaginação; - triste esfinge na aridez de um deserto - a figura do secretário, mais do que nunca tentadora, numa auréola deslumbrante que o divinizava, olhando-a, todo voltado para ela, todo dela...
E um golfão de lágrimas, uma torrente de pérolas brotou caudalosa de seus olhos meigos, ensopando o lencinho de rendas que lhe dera Evaristo no seu último aniversário.
- São os Holanda, são os Holanda! - repetiu, espevitada, a filha do desembargador.
E a vizinhança toda repetiu baixinho:
- São os Holanda...
Furtado, quando soube que o amigo abalara, não sentiu menos que Adelaide a rudez do golpe, e, instintivamente, revoltou-se contra a mulher, contra a asa-negra de D. Branca, origem do desespero que lhe ia no fundo d'alma. Guardou, porém, esse desespero no mais íntimo do coração, trancou-o a sete chaves lá onde ninguém o pudesse desvendar, forte como um herói vencido, e apelou para a Fatalidade...
Mas o destino é caprichoso e não quis que o secretário tomasse a pôr os olhos insaciáveis na miragem que o fizera sonhar noites inteiras, dias inteiros, na ânsia de um gozo novo.
Embalde esperou, embalde correu lugares aonde nunca o conduzira a sede de aventuras: ninguém lhe dava notícias do bacharel. Para onde teria ele ido? Como explicar o eclipse total daquela mulher numa cidade como o Rio de Janeiro, em que toda a gente se encontrava por mais que se quisesse ocultar? De que ia viver Evaristo, agora, sem um amigo que lhe desse a mão? De que ia viver a pobre Adelaide numa época tenebrosa de empréstimos forçados e de gerais clamores, quando o próprio Banco Industrial não oferecia segurança?
E enquanto por um lado apiedava-se do amigo, quase arrependido de o ter deixado ir embora sem rumo certo no mare magnum da vida, por outro lado reconstruía mentalmente o episódio do Jardim Botânico, em que fora protagonista a esposa do bacharel, e sentia extraordinária volúpia cada vez que se lembrava daquele beijo de fogo, mais precioso que todas as riquezas do mundo e cujo calor como que lhe ficara impregnado na boca para todo o sempre... Ela o repelira brandamente, cheia de dignidade, cheia de pudor, fiel ao homem que escolhera para esposo; mas nisso é que estava o sabor esquisito e fidalgo que lhe ainda permanecia, por um efeito da imaginação, nos lábios trêmulos...
FIM
Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br