No ano de 17**, Paris então muito governado pela Pompadour e um pouco por Luís XV, palpitava de entusiasmo com um escândalo original.
Por um instante, a grande cidade libertina distraía-se dos seus desregramentos habituais e esquecia a ordem dos Aphrodites e dos Hermaphrodites, e esquecia as picantes palhaçadas de Taconnet e o obsceno macaco de Nicolet e os expressivos fogos de vista de Torré, e esquecia Ruggieri com a sua exibição de pernas e colos importados da América, e esquecia les spetacles pyrrhiques e o Wauxhall, e esquecia as velhacas e célebres representações do barão d'Esclapon e da duquesa de Mazarin, e esquecia-se até de ouvir as pilhérias da magra, feia e adorada Guimard, para só ter atenção para o novo escândalo que acabava de surgir inesperadamente.
Era o caso que o famoso pregador La Rose tinha como todos os anos, de pregar o seu sermão da quinta-feira santa na capela real, e fôra acometido por um formidável ataque de asma, justamente na véspera dêsse dia. Escreveu logo ao vigário-geral, seu amigo particular, dando-lhe parte do fato e pedindo-lhe que, sem perda de tempo, tratasse de descobrir alguém que o substituísse.
Ora, o caso era deveras apertado! Quem teria a coragem de ir, à última hora substituir La Rose no púlpito da capela real, num dos sermões mais importantes da quaresma?. . .
Substituir La Rose!... La Rose, "o segundo Bossuet", como lhe chamavam seus inúmeros admiradores! La Rose, o amimado pregador da côrte, o protegido de Antoinette Poison, o querido tanto por parte dos Molinistas como por parte dos Jansenistas, o aclamado por todo o alto e baixo público de Paris! La Rose, o indispensável! La Rose, o insubstituível!
E era preciso que êle com efeito estivesse deveras doente, para faltar ao sermão de quinta-feira santa, porque La Rose prezava muito aos seus triunfos na tribuna sacra, e não esperdiçaria fàcilmente uma boa ocasião de orar perante o rei e tôda sua côrte de fidalgos e tôda a sua côrte de letrados.
Entretanto, sabia-se também que La Rose, desde que sentisse a menor alteração na voz, não seria capaz de falar em público, nem à mão de Deus Padre, porque era precisamente na maneira especial de jogar com a sua bela e sedutora voz, que consistia o grande segrêdo dos seus incomparáveis triunfos.
É inútil dizer que, por melhores esforços empregados, nenhum pregador se descobriu, bom ou mau, que quisesse ir tomar o lugar do querido mestre. Davam-se todos por igualmente atacados da garganta, como se a asma de La Rose, à semelhança do que sucedia com o seu estilo oratório, se estendesse de improviso por todos êles, desde o mais pretensioso até ao mínimo dos numerosos pregadores sagrados, que nesse piedoso e alegre tempo enchiam os púlpitos de Paris com as suas frases retumbantes e com os seus eloqüentes e artísticos soluços.
O rei aborreceu-se e chegou a franzir as sobrancelhas. Luís XV, se era folgazão, era também devoto. E se era devoto era também homem de gosto exigente; não compreendia uma quinta-feira santa sem La Rose. Além disso, tinha na véspera abusado da sua suntuosa adega, e a melhor água de Selters para as suas ressacas era ainda La Rose.
Que diabo! O caso era sério.
Empregaram-se os últimos recursos para descobrir alguém que, sem grande escândalo, fosse capaz de improvisar um sermão digno da real ressaca; ofereceram-se bonitas somas, fizeram-se as mais lindas promessas. O cabido inteiro agitou-se, remexeu-se, sorveu consecutivas pitadas, esfregou mil vezes o lenço encarnado no nariz, mas ninguém teve coragem para aceitar a espinhosa missão.
As salas do palácio arquiepiscopal pareciam formigueiros; as batinas esfervilhavam irrequietas, entrando e saindo, trazendo e levando recados. Cochichava-se daqui, cochichava-se dali, bichanava-se por todos os cantos e recantos do palácio, sem nada se resolver que aproveitasse.
E, no entanto o tempo fugia e era preciso tomar uma resolução.
O arcebispo, já desesperado, ia estender o braço para tomar ao acaso o primeiro dos seus sufragâneos, e ordenar-lhe que subisse ao púlpito e despejasse, com um milhão de raios! um sermão qualquer, quando de improviso rasgou-se o reposteiro da sala, em que êle se achava entre uma negra nuvem de batinas, e viu-se surgir a veneranda figura de frei Ozéas, com as suas grandes barbas brancas e a sua enorme calva de profeta.
Encaminhou-se diretamente para o arcebispo e disse-lhe, depois das reverências do estilo:
-Comprometo-me, se mo permitirem, a apresentar hoje no púlpito da capela real alguém a que irá dignamente substituir o padre La Rose.
Fez-se em tôrno destas simples palavras um profundo silêncio de pasmo e de desabafo.
Bastava só, porém, a presença do frei Ozéas naquela sala do paço arcebispal para levantar a suprêsa do cabido inteiro, porque todos lhe conheciam a vida obscura e solitária, e todos sabiam que era muito e muito raro vê-lo fora do seu modesto convento a não ser para algum ato de caridade.
Frei Ozéas era um homem singularíssimo, como mais adiante apreciará o leitor. Havia vinte e tantos anos que em tôrno dêle se formara, de dia para dia a mais sólida reputação de virtude e santidade.
De quem disporia o singular frade para fazer substituir La Rose?...
E começou logo o sussurro dos comentários.
O arcebispo, entretanto, tomara-o àvidamente pelo braço, e desaparecera com êle pela porta que conduzia ao interior do palácio.
Pouco depois, descia frei Ozéas as escadas do paço, metia-se no carro que o esperava à entrada do jardim, dizia ao cocheiro que tocasse depressa para o convento de S. Francisco de Paulo, e daí a meia hora, atravessava o longo pátio ladrilhado de pedra e subia a pesada escada do claustro, em que ele se havia condenado a viver para sempre em dura penitência.
Apesar do tremor dos seus setenta anos, venceu ligeiro os extensos corredores abobadados, galgou uma estreita escada que conduzia a um sombrio mirante, e, tendo várias vezes volvido os olhos para trás, como se temesse ser acompanhado por alguém, chegou-se a uma pequena porta inteiriça, e bateu três pancadas sêcas com as falanges dos seus dedos ossudos e pálidos.
A porta abriu-se sem ruído. Êle entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.
O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma côr sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante tôscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau
Ozéas fora recebido à porta por um mancebo de uns vinte anos, muito pálido, ainda imberbe, vestido com uma esfarrapada batina de seminarista.
Não havia mais ninguém na cela.
O mancebo beijou-lhe a mão. Ozéas abraçou-o e disse-lhe depois, tocando-lhe carinhosamente no ombro:
-Meu filho, vais hoje pela primeira vez atravessar as ruas de Paris e entrar na capela real.
-Para que, meu pai?
-Para pregar o sermão de quinta-feira santa.
-Eu? mas o que vou dizer?. . .
-Vais dizer pura e simplesmente o que sabes e o que sentes a respeito da paixão de Jesus Cristo. . . Não te preocupes com a multidão que lá encontrares, não te preocupes com o que vires. Fecha-te contigo mesmo e fala como se conversasses com o teu anjo da guarda. Abre o teu coração, quando abrires os teus lábios, e deixa dele sair, imperturbável e cristalina, a tua alma de bem-aventurado.
-Bem, meu pai.
-Daqui a pouco virá a roupa com que tens de ir. Dentro de uma hora virei buscar-te.
-Estarei pronto e às suas ordens, meu pai.
-Reza a Nossa Senhora enquanto me esperas. Adeus.
-Sua bênção, meu pai.
-Deus te abençoe.
E frei Ozéas tornou a sair, fechando-se de novo sobre ele a porta, silenciosamente.
As máscaras de hipocrisia que escondiam a corrupção da corte de Luís XIV, caíram com a morte desse príncipe. Os fidalgos e cortesãs pareciam impacientes por sair da forçada e falsa compostura, em que se mantinham durante a velhice devota do Rei Sol.
Até aí fingiu-se ainda; daí em diante ninguém mais procurou ocultar os seus vícios.
A ferocidade e a perfídia dos tempos bárbaros, os crimes do feudalismo, todos os erros, todos os abusos e todos os desregramentos de um governo cínico e perverso e de uma magistratura e uma jurisprudência feitas de ignomínia e adulação, eis do que se compunham os costumes desse infeliz começo de século.
A administração da polícia criava e dirigia casas de jogo e casas de prostituição.
Paris era policiado por malfeitores, vestidos de farda. Só uma cousa divertia o público:-a crápula.
Mas o que caracterizava particularmente essa época, era o dourado verniz de elegância, com que o escol da sociedade de então disfarçava a libertinagem mais desenfreada e brutal.
A duquesa de Bourbon, apesar de casada, vivia publicamente com Du Chayla. Law levava a sua amante à corte. A princesa de Conti, filha do rei, posto que devota, já velhusca e cheia de aparentes escrúpulos, confessava não poder dispensar a consolação de seu sobrinho La Vallière. A outra princesa de Conti, a moça, essa, a despeito dos ciúmes que mantinha pelo marido, só deixou o seu amante La Fare, quando o substituiu por Clermont; a irmã dela, M'le de Charolais, dava os mais terríveis escândalos com o duque de Richelieu. As filhas do duque de Orléans, então regente, levaram mais longe a sua depravação, porque tinham no próprio pai 0 principal cúmplice das suas orgias. A irmã da duquesa de Bourbon, Mlle de la Roche-surYon, célebre pela sua beleza, não se separava de Marton, estivesse onde estivesse, e ameaçava de furar os olhos com um punhal, que ela trazia sempre na liga, àquela que lho roubasse ainda que por um instante. Mme du Maire, tendo aliás como amante vitalício o cardeal de Polignac, íntimo de seu esposo, disfarçava-se freqüentemente em regateira, para correr as ruas e vielas de Paris em busca de aventureiros de todo o gênero.
O pior no entanto, estava no que não se pode contar nestas páginas. Toute chair étail détournée de sa voie, como disse Voltaire a esse respeito, e como o provaram com os fatos mais indecorosos as próprias delfinas de Luís XIV e Mme de Maintenon, e o chevalier de Vendôme, e o Sr. de Chambonas, e, mais que todos e que todas, a formosa duquesa de Chartres, que se recolheu ainda moça ao convento de Chelles, não para se penitenciar dos seus pecados contra a natureza, porém, sim, para poder, ali, naquele doce e obscuro viveiro de almas adolescentes, agravá-los mais à farta e mais à vontade.
Frei Ozéas tinha nessa época vinte e cinco anos.
Havia feito seus estudos e recebera as primeiras ordens no seminário de Borgonha, sua província natal; depois atirou-se para Paris, onde se ordenou, justamente no começo da regência do Duque de Orléans.
Dotado de temperamento bastante sensual para arrastá-lo, e sem força na sua fé para poder resistir à corrente de perdições desse tempo ele, se não foi tão ferozmente devasso como Dubois ou tão friamente libertino como Dorat, acompanhou todavia o exemplo dos seus confrades e com eles arrastou a batina pelos antros mais escorregadios do jogo, da embriaguez e da prostituição.
Chegou a fazer parte dessas ridículas e terríveis sociedades secretas, que infestavam o reinado de Luís XV, centros criados com o fim exclusivo de exercer o gozo, mas o gozo requintado, torturado, burilado a ponta de agulha; gozo como só se inventou nesse tempo, gozo à Chambonas e à Pompadour, de quem ele tirou 0 estilo complicado e extravagante. Vintimille, então arcebispo de Paris, devasso como os demais parisienses dessa época, mas enfim arcebispo, esteve a ponto de mandar Ozéas para a Bastilha, como sucedeu com o padre Tencin, com Adrien Aubert, com Chegny, Pierre de Galon e outros muitos religiosos de sangue quente.
Mas quando Ozéas chegou aos quarenta e cinco a cinqüenta anos, começou a cair em si, e pela primeira vez pensou na perdição da sua alma, tão comprometida; e, ou fosse que os requintados prazeres lhe desfibrassem as energias da carne, ou fosse que uma grande e miraculosa transformação moral se operasse com efeito em todo o seu ser, o fato é que ele, fulminado de súbito pela consciência dos seus pecados sem remissão, desabou em fundo arrependimento e protestou nunca mais, nunca mais cometer a menor ação que de longe pudesse envergonhar a sua responsabilidade de sacerdote.
Era tarde. Nada mais hipotético do que apagar um passado. Por mais brilhante e intensa que fosse a luz do seu arrependimento, lá estava o gigantesco espectro dos crimes cometidos, para antepor-se entre eles, e encher de sombra o remorso aquela consciência de sacerdote pecador. Por mais sincera e convicta que fosse a
sua nova lei de conduta, por mais leal e verdadeira a sua nova linha de virtude, sua alma chorava perdida para sempre, porque para sempre se sentia corrompida e suja.
Então Ozéas começou a dar-se todo, de espírito e corpo, à sua reabilitação.
Cegava-o ardente desejo de conseguir o seu fim.
Principiou por deixar de ser padre, para meter-se na ordem dos missionários de S. Francisco de Paulo, denominados-"Os mínimos". Fez voto de pobreza absoluta e abriu mão de tudo, tudo que possuía; o que, aliás, não era pouco, porque além dos seus bens de família, Ozéas metera-se a especular no jogo feroz que Law criara sob a regência, e chegara a acumular uma bonita soma de seis milhões de francos.
Desde então, noite e dia, hora a hora, instante a instante, a sua única preocupação era expurgar a alma das passadas conspurcações. E nunca ninguém se mostrou tão empenhado em reabilitar-se do passado. Por mais escabroso que fosse o ato de piedade, Ozéas não desdenhava afrontá-lo, como se a sua fé, por muito tempo adormecida, acordasse de súbito, à vida de sacrifícios e provações.
Quer onde houvesse soluços e dores, chagas e lágrimas a suster, aflições a reprimir, ali estava ele apresentando os ombros para todas as cruzes, que os seus semelhantes não pudessem suster.
A sua velha túnica, de sarja grossa e sem dobras, não lhe pertencia mais do que ao primeiro mendigo que sentisse frio; o seu pão só lhe chegava à boca, depois de rejeitado pelos que já tinham matado a fome; a sua luz só alumiava o seu covil de santo, quando nenhum gemido suspirava na treva.
Para esse arrependido egresso, criado nas orgias do começo do século passado; para esse arrependido devasso, que se embriagava com os restos do incestuoso prazer do duque de Orléans, a febre do arrependimento converteu-se em loucura, converteu-se numa nevrose que o arrastava de joelhos, com o rosto na terra, a todos os delírios da fé, a todos os heroísmos da abnegação.
A peste de Marselha foi um dos mais brilhantes teatros para 0 seu desespero de ser santo. Como um verdadeiro revolucionário do bem, fez dos farrapos do seu burel uma bandeira de caridade e agitou-a pelos alcouces abandonados, em que era vergonha entrar, ainda que fosse para socorrer os que morriam.
À última e mais leprosa das perdidas não negava sua boca o beijo da consolação, enviado por Deus aos desamparados pelos homens.
E assim, no fim de alguns anos de arrependimento, Ozéas ganhara reputação de santo; e, com efeito, se nenhum religioso até antes fora mais culpado, nenhum também levou tão longe o esforço da sua reabilitação.
Mas, apesar de tamanhas provações, Ozéas não se sentia purificado. Sua alma sangrava ainda, pedindo mais sacrifícios, e ele caía de joelhos, arranhando as carnes do peito com as unhas, e suplicando a Deus que lhe inspirasse um meio de resgatar-se, completamente, aos olhos da sua própria consciência vergonhosa.
Que meio poderia ser esse que ele exigia de Deus?
Eis ao que nem o próprio Ozéas seria capaz de responder.
Todavia, não cessava de pedir ao senhor misericordioso que lhe mandasse dos céus uma luz guiadora do caminho da completa salvação, certo de que Deus, onipotente e compassivo, havia de achar, nos segredos de sua bondade, recursos para apagar aquela dor incurável e profunda.
Foi nessa conjuntura que ele uma vez de madrugada, saindo do seu convento para uma piedosa excursão, encontrou à porta do jardim uma pequena cesta, de onde um fraco e quase imperceptível vagido partia como de um berço.
Abaixou-se logo, apoderou-se da cesta, e verificou que dentro dela havia uma criança do sexo masculino.
Um enjeitado!
Tomou-o nos braços.
Mas um enjeitado de quem?. . . Por aquelas alturas não lhe apontava a memória qualquer pessoa que fosse capaz desse crime.
Além disso, porque o depunham à porta de um mosteiro, frio lugar onde só havia alguns pobres religiosos sem recursos para nada?. . .
Era como se o lançassem ao surdo portão de um cemitério!
Qual seria a mães tão néscia, que, procurando passar seu filho às mãos de quem o pudesse fazer viver, fosse procurar um lugar onde eram crime a voz e o choro desses anjinhos da terra?...
Então uma estranha idéia acudiu ao espírito sobressaltado do infeliz frade.
Quem sabe, pensou ele; se esta inocente criatura, será um enviado de Deus?. . . Sim! Sim! bem pode ser o Senhor misericordioso, compenetrado da sinceridade do meu arrependimento e da amargura da minha dor, me enviasse dos céus este meio de resgate para minha alma! . . . Sim! Sim! eu, que não consegui ser um padre digno e puro; eu, a quem faltaram amparo e forças para lutar com as tentações mundanas, tenho aqui, nesta pequena porção de carne imaculada, o cabedal para fazer um sacerdote casto e sagrado, como eu devia ter sido e não fui!
E Ozéas como que se encontrava a si mesmo, encontrando aquela criatura angélica.
Era Deus, sem dúvida, que o restituía ao berço e ao seu supremo estado de pureza, para que ele começasse de novo a viver, armado, entretanto, para todas as lutas.
-Sim! Sim! exclamou ele erguendo nas mãos trêmulas a criancinha, e cobrindo-lhe os pés de beijos e de lágrimas de alegria. Sim! Sim! Desta cera virgem poderia fazer um sacerdote digno de Deus! Obrigado, obrigado, meu Pai de bondade, que ouviste as minhas súplicas e me enviaste do teu peito de amor um meio de salvação!
E louco de contentamento, despiu sem hesitar o seu velho capote, envolveu nele a criança e correu à casa mais próxima, para pedir que a ela prestassem os primeiros socorros.
Logo que pôde, levou-a à igreja, batizou-a com o nome de Ângelo; depois tratou de descobrir uma mulher honesta, que se quisesse encarregar da aleitá-la até a época competente.
E, quando o pequenino Ângelo pode enfim dispensar os cuidados da ama, Ozéas carregou com ele para o seu convento, e encerrou-o misteriosamente numa cela ignorada e sombria.
A bem poucos dos seus confrades confiou o segredo do que ele chamava "a criação do Messias da sua alma". E, desde essa época, Ângelo viveu sem nunca sair do convento e nem sequer chegar a uma janela para ver a rua.
Ozéas foi o seu companheiro, e o seu guia, e o seu mestre, e o seu pai espiritual. Só o confiava a algum dos outros religiosos ou a algum professor do seminário, quando as exigências do ensino assim o determinavam.
O sigilo da existência e da criação de Ângelo no convento, não foi quebrado por nenhum dos frades que o conheciam. Uma cadeia de respeitoso interesse formou-se em torno dessa criança, que todos eles acreditavam predestinada, pelos mistérios do céu, a cumprir na terra uma alta e sagrada missão.
Ângelo cresceu, pois, fechado na sua religiosa estufa, sem ter nem ao menos desconfiança do que se passava lá fora, nessa cidade do prazer e do vício. Cresceu casto como uma flor, que as abelhas e as borboletas não alcançam.
Apenas conhecia a religião e a Bíblia. Até aos vinte anos, fez todos os seus estudos e recebeu as ordens ao lado do pai espiritual. Mas tal era a confiança que o velho Ozéas tinha no seu discípulo, que não hesitou em apresentá-lo para substituir La Rose no sermão de quinta-feira santa na capela real.
Ângelo ia sair à rua pela primeira vez.
Logo que Ozéas deixara a sombria cela do convento de S. Francisco de Paulo e a porta se fechara sobre ele silenciosamente, Ângelo, em obediência às suas ordens, ajoelhara-se defronte do oratório e começara a rezar.
Na sua alma inocente não passava a idéia da responsabilidade que o esperava. Sem nunca ter saído à rua, sem conhecer Paris e os parisienses, não podia desconfiar sequer do que era nesse tempo um sermão pregado na capela real, defronte do rei e da corte.
Não sabia que nesse tempo, piedoso e devasso, fazia-se da religião um prazer requintado, e que o púlpito era, como o palco, ou como o livro, ou como o salão e o álbum, um meio de exibições de talento esquisito e complicações de arte. Não sabia, o pobre Ângelo, que o pregador do que menos precisava, nesse bom tempo do estilo equilibrado em cinco palitos, era de ser sincero e convicto, mas sim de ter originalidade na maneira, graça na exposição da frase, elegância nos gestos e naturalidade galante nos soluços e nos gemidos de pecador.
Essa mistura do sagrado áspero com o profano macio, do prazer aveludado com a devoção capitosa, produziu as célebres festas híbridas, que então se organizavam em uma das salas das Tulherias durante a quaresma, e as quais deram gamenhamente, o nome de Concertos espirituais.
Luís XV gostava de presenciá-las, sentado a um canto entre algumas formosas mulheres, e bebendo vinho da Síria, que era o seu vinho predileto. Pestanejava e sorria para todos os lados. Liam-se versos ternos e religiosos, cantavam-se o Miserere, o De profundis, o Stabat, e outras cousas tristes, mas tudo com muita graça e requebros faceiros.
Era o amor temperado com óleo cheiroso de Santa Luzia.
Havia sempre para estrear, no púlpito desses concertos, um ou mais jovens eclesiásticos, sempre moços bonitos, aos quais, durante o sermão, serviam água rosada e licor de violetas. E o que deles se exigia, era apenas voz doce, olhar meigo, dentes bem claros, lábios vermelhos, rendas alvíssimas na camisa, e mãos brancas de unhas limpas. Às vezes criava-se uma bela reputação e fazia-se uma bonita carreira, só com uma palavra feliz ou com um gemido suspirado com chiste em ocasião oportuna. O caso era que as gentis devotas se impressionassem. E só se falava à meia voz, só se namorava a meio sorriso e só se andava lentamente aos pulinhos, abafando os passos nos arminhosos tapetes a que Pompadour deu o seu nome.
Ângelo, coitado, nada conhecia disso nem por notícia sequer; como igualmente não conhecia o outro gênero de pregadores, não menos comum nesse tempo, o do pregador terrível, de pulso forte e cabeça dura, que ia para o púlpito de cacete escondido debaixo do capote, e cujos sermões eram por via de regra uma descarga política e uma tremenda descompostura, contra o partido dos Jansenistas ou contra o partido dos Molinistas, conforme a filiação do orador, e que, em geral, acabavam também por soluços e gemidos, mas estes agora bem sinceros e bem reais, e grossa pancadaria no átrio da igreja.
Até certa idade, Ângelo chegou a acreditar que o mundo se resumia no seu convento, e que a humanidade se compunha apenas daquela meia dúzia de frades, ingênuos e quase santos, que ele conhecia. Ozéas, com um cuidado enorme, um zelo de guarda do Paraíso, isolava-o dos seminaristas e dos empregados do seminário, e lhe não deixava cair nas mãos a mais inofensiva página de qualquer livro que não fosse religioso.
E, no entanto, Ângelo era dotado de um poderoso talento de assimilação e devorava sofregamente tudo, bom ou mau, que lhe davam para ler. As matérias religiosas que plantaram no fundo do seu espírito, desabrocharam logo, produzindo uma intrincada floresta de filosofia teológica, que abismava aos próprios seus professores.
Aquela criança, diziam estes, estava destinada a fazer o verdadeiro renascimento da religião cristã.
E cresciam os desvelos em torno de Ângelo, orçando já pelo fanatismo. Não lhe permitiam olhar para o pátio do convento, onde havia uma criação de galinhas e coelhos. Receavam, e com razão, que o espetáculo dos instintos procriadores dos inocentes bichos despertasse no outro inocente idéias que a igreja reprovava. Escondiam-lhe o próprio sol em dias de grande calor, como se a exibição daquela vida que se derramava sobre a terra para fecundar com a luz germinadora e benéfica, fosse bastante para acordar na carne pálida do seminarista a revolucionária centelha do amor.
Entretanto, Ângelo bem pouco se impressionava com essas cousas, e tinha para todas essas lubrificações com que a natureza estimula a vida, um profundo olhar de indiferença, como se todo ele estivesse
perenemente voltado para a fria religião ideal e azul, em que os anjos, únicos que a povoam e habitam, não têm idade nem sexo.
Não era uma criatura humana, não era um moço que ia entrar na adolescência; era a sombra incolor de um obscuro beijo que se fizera carne, e que o crepúsculo da tarde, pedia-lhe que o não deixasse corromper-se à sensual e perturbadora luz do sol.
As vezes, ao cair da noite, quando a natureza parece abrir o peito, para chorar em gotas de orvalho as misteriosas dores do seu parto de todos os dias, ele o pálido enjeitado, que vivia à sombra das paredes sonolentas e úmidas de um claustro, saía a passear pelo maltratado jardim que havia nos fundos do convento. E aí, entre as cheirosas moitas das rosas silvestres, tépidas ainda do derradeiro sol que as dourara no último poente, o seu vulto triste e meigo transparecia, como um sonho de poeta ou um fugitivo devaneio de donzela.
Pobre Ângelo! De tudo que sua alma podia conceber, só uma cousa lhe não esconderam-a Bíblia. E era com o auxílio desse poema quente e cheiroso como os perfumes de Cedar, que ele, o infeliz, enchia de estrelas os seus devaneios de sonhador impúbere.
Nesses momentos, o canto que o seu coração cantava chorando, e chorando lhe fazia agitar da boca as pétalas trementes, era o Cântico dos Cânticos, o livro do poeta rei, amante de todas as mulheres formosas do Oriente.
Ironia dolorosa! Ângelo, o casto, arrebatava-se nas asas da inspiração do poeta de mil amantes!
"Eu durmo e o meu coração vela; eis a voz do meu amado que bate, dizendo:-Abre-me, irmã minha, amiga minha, pomba minha, imaculada minha; porque a minha cabeça está cheia de orvalho, e me estão correndo pelos anéis do cabelo as gotas da noite."
"Eu abri a minha porta ao meu amado, mas ele já se tinha ido, era já passado a outra parte. A minha alma se derreteu, assim que ele falou: busquei-o, mas não o achei; chamei-o, e ele me não respondeu."
E Ângelo, quando estes versetes lhe vinham ao espírito, misturados com os suspiros da vaga saudade, que ele mal definia e em que mal acreditava, caía em fundas cismas, para as quais só havia uma consolação: -escrever. Não versos, desses que o público exige dos poetas mundanos, porque Ângelo não conhecia regras de arte, mas lançava sobre o papel frases como as que lia no livro de Salomão, ao correr da pena, e impregnados da quente virgindade de sua alma.
Quem roubasse da escura cela as tiras de papel, esquecidas sobre a tosca mesa de pinho, leria nas trêmulas linhas, aí traçadas todas as noites com mão nervosa, estranhos pensamentos como os que foram o capítulo a seguir.
"Amado da minha alma, aponta-me onde é que apascentas o teu gado, onde te encostas pelo meio-dia, para que não entre eu a andar feito uma vagabunda atrás dos rebanhos dos teus companheiros.
"O meu amado é para mim como um ramilhete de mirra. Ele morrerá entre meus peitos.
"Meu amado, vem comigo pelos campos, dá-me a tua mão; que eu perfume nela os meus cabelos e que eu sorva tremente o cheiro da tua boca, como a cabra montesa que morde os lírios da ladeira.
"Tu és belo e forte como o cedro, suave como a ribeira, e tua voz é como o gemido das pombas.
"As tuas faces têm toda a maravilha de um prado iluminado por dois sóis, e onde os meus beijos, como um rebanho, descansam à sombra dos teus cabelos.
"Vem, amado meu do meu coração, que eu por ti definho de amor e morro de tristeza.
"O amado do meu coração é bonito que nem essa cabra arisca, que grimpa à tardinha pelos escaldados outeiros sem relva, e que de noite e de manhã a gente não bispa mais. ele é como o veadinho branco, que corre mais depressa e se some, se lhe querem pôr a mão em cima. ele é como aquilo que nós mais queremos, e que não está dentro dos nossos braços e junto dos nossos lábios.
"Mas não, alma minha mentirosa, ei-lo que ali está ele, todo amoroso e rubicundo, posto de pé por detrás da parede do meu quarto, olhando o meu leito pelas frestas da janela, chorando de amor e estendendo a vista dos seus olhos por entre as gelosias.
"Lavei os meus pés assentada no meu leito. Como os hei de sujar agora?
"O sândalo e a murta estão recendendo.
"Vem, amado de minha alma, as vinhas já puseram o primeiro cacho de seus frutos, e as moças de Jerusalém estão dormindo à sombra das parras, para sonhar com aqueles que as querem para amar.
"Eu só, amado das minhas entranhas; eu só, a mais mesquinha entre filhas de Jerusalém, não durmo o sono da noite, e estou à espera que a minha vinha amadureça e tome cor, para te puxar para meu lado e repartir contigo a minha uva doce.
"Virás, que te chamo com as minhas mãos, e te abro meus peitos.
"Tu és, amado de minha vida, o escolhido do meu coração. Tua cabeça é como a espiga de ouro que o sol beija de manhã, pensando que beija a mesma cabeça de seu filho, os teus cabelos são como as fibras que as palmeiras choram, quando lhe arrancam as pencas dos seus frutos que elas produziram. São leves, macios, correntes e ondulosos, são como os cabelos do milho doce, e mais doce que o mel gostoso da flor da banana.
"Eu te amo, porque tu és formoso. Mira-te, tu, nos meus olhos amorosos, e verás se te mentem minhas palavras. Não me fujas como a ave que deseja a irmã sozinha no ninho, sem o companheiro para cobrir os ovos. Teu rebanho não se perderá na montanha, enquanto tu dormires com a cabeça entre meus peitos de amor.
"Vem, amado meu. As nossas noites serão como os regatos tranqüilos, em que se abrem os nenúfares, brancos e perfumados como sonhos de amor. Teus lábios serão dos meus lábios, teus cabelos serão dos meus cabelos, teu seio do meu seio, como a raiz é da terra, como a flor é da abelha. Vem, põe a cabeça em cima de mim e dorme o teu sono, que eu também dormirei, mas desfalecida de amor. Dá o teu último pensamento vivo para os meus lábios, para que eu o guarde dentro de mim, e te o restitua depois na tua boca. Fala-me para dentro, e minha alma te ouvirá cativa e amorosa.
"Conjuro-te, amado meu, que desças da montanha pelo teu pé e venhas até a mim, que te quero. Traze tu o teu rebanho branco, e iremos, nós juntos, apascentá-lo muito longe pelas campinas, até que morra o sol e a noite chegue sacudindo os cabelos orvalhados de estrelas.
"Junta-te comigo, que eu sou o mel de que teus lábios gostam. Bebe a doçura da minha boca, e tu me pedirás o favo inteiro.
"A asa procura a flor, porque a flor esconde o mel doce nos seus seios. Vem; vem e fecha nas tuas asas de sol as pétalas do meu desejo.
"Desce donde estiveres, vem, que te espero eu, sem poder fechar o meu tormento, enquanto não chegares para me amar.
"Mas quem és tu, amado de minha alma, que meus olhos te não distinguem por entre as sombras da minha vida, nem meu braço te alcança, quando de noite te busco nos meus sonhos?. . . Quem és tu, amada visão, que eu busco e que me acompanha?. . . Quem és tu, que te evoco e me não vales, quando todo meu desejo é que me desejes e me tenhas?
"Minha porta dorme tão aberta como meu peito. Meu leito não tem muros, e meus braços não se cruzarão para o teu encontro, posto sejas tu o senhor e eu escrava que te espera.
"Tu me reconhecerás na sombra, se chegares; basta que ponhas a mão sobre minha carne. E isso será um selo para que tu nunca mais me percas.
"Vem, amado do meu coração! Vem! Vem, que toda eu te quero!"
E, no entanto, Ângelo era um inocente, ou, pelo menos, nunca tinha visto uma mulher.