Ângelo, de volta da igreja, assim que se achou no carro a sós com Ozéas, abriu a soluçar, numa convulsa explosão de todo o seu ser.
Não podia, entretanto, determinar o que se passava em sua alma. Era uma agonia estranha e dolorosa, que a revolucionava sem dizer porque; um íntimo martírio, feito de vagas apreensões, que a atordoavam de terror por iminentes e desconhecidos perigos.
Sem ter a menor idéia da vida comum, sem desconfiar sequer do maravilhoso efeito que o seu sermão de quinta-feira santa produzira sobre o público, que poderia o mísero compreender de todo aquele ruidoso entusiasmo que o cercara, e de todos aqueles ávidos olhares feminis que o devoravam de curiosidade?
Seu próprio nome, ouvira-o ele repetido por tantas bocas ao mesmo tempo, que agora lhe chegava à memória como o estribilho de uma singular canção, falada em língua alheia.
Ozéas, ao seu lado, meditava sem erguer a cabeça, recolhido em profunda preocupação.
Não deram ambos uma só palavra durante a viagem, até chegar ao mosteiro.
Entraram na cela como duas sombras.
O presbítero foi direito ao altar da Virgem, caiu de joelhos defronte dela e quedou-se a fitá-la, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto, agora silenciosamente.
Depois ergueu-se e começou a considerar, abstrato, tudo que o cercava ali, como se visse aqueles objetos pela primeira vez.
E tudo aquilo nunca lhe pareceu tão miserável, tão ermo e turvo, como naquele instante. Aquela dura prisão, onde surdamente se escoara a triste mocidade, nunca lhe pareceu tão árida e tão mesquinha. Aquelas nuas paredes, empalidecidas pelo tempo, nunca lhe pareceram tão apertadas, e aquele sombrio teto, tão baixo e tão sufocante.
Olhou longamente para as suas velhas estantes carregadas de pesados livros religiosos, olhou para a sua tosca e tranqüila mesa de estudo, para a sua pobre enxerga de condenado, e ficou a considerar o cilício pendido da parede junto ao altar da Virgem.
Ozéas observava-o, imóvel até ali, de braços cruzados, com uma inconsolável e funda expressão de mágoa no olhar.
Afinal, foi ter com ele, e tocou-lhe no ombro.
Ângelo despertou sobressaltado.
-Então, meu filho, disse o velho com voz segura; continua a tua perturbação?. . .
Ângelo não deu resposta.
-Vamos! Fala!
-Sim, meu pai, tartamudeou o pobre moço, volvendo para ele os olhos inocentes. E peço-lhe que me deixe a sós; preciso concentrar-me, até voltar à minha primitiva tranqüilidade. . .
O velho insistiu, segurando-lhe as mãos e fitando-o, como se procurasse arrancar-lhe pelos olhos a confissão da revolta que lhe ia na alma.
-Mas como explicar semelhante perturbação?. . . exclamou ele. Pois então justamente hoje, hoje que tua alma devia, melhor que nunca, resplandecer de santo júbilo; hoje, que deste o teu último passo para chegar ao coração da igreja; hoje, que deste o teu supremo voto; hoje é que te sentes conturbado e aflito?!... Como explicar semelhante anomalia?!. ..
-Não sei. . . não sei. . . balbuciou Ângelo. Deixe-me ficar só, meu pai! Deixe-me conversar com a minha pobre alma!. . .
-Mas tu nunca faltaste a nenhum dos teus deveres. . . tornou o frade. Tu nunca pecaste, por palavras, nem por obras, nem por pensamentos. . . tu, que foste por bem dizer educado pela mão de Deus, porque até hoje te não afastaste uma linha do seu divino ritual. . . tu, que não tens sequer a idéia da culpa. . . tu, és tão inocente e tão puro como no dia em que te trouxe em meu colo para este convento. . . tu, que vieste das mãos de Deus para
as minhas, e das minhas tornaste hoje diretamente para as mãos de Deus... porque tremes agora e por que me olhas desse modo, Ângelo?!
-Não sei, não sei, meu pai!
E Ângelo, como se receasse a traição dos próprios olhos, sentou-se no banco e escondeu o rosto nas mãos.
Ozéas chegou-se mais para ele e disse, depois de contemplá-lo em silêncio por algum tempo:
-Acaso estará o demônio a cercar-te, cobiçoso de tua alma tão branca e tenra?. . . ou a tua perturbação será causada pelo eco profano dessa capital que te admira e te aclama, e cuja multidão só hoje atravessaste pela primeira vez?. . .
Ângelo ergueu-se e descobriu o rosto.
A sua fisionomia tinha-se transformado.
-Não sei! exclamou. Não posso explicar o que sinto, o efeito que me produz o confuso rumor que ouço em torno de mim!. . . Não posso determinar qual é o fato que me perturba, qual é o ponto de onde me vem esta agonia, mas sinto-me espavorido e frio, como se estivesse abandonado sobre o píncaro de um rochedo nu, em torno do qual se agitam todos os mares do globo. Sinto em derredor do meu cérebro o terrível vozear desse interminável oceano... E no arruído das suas vozes ameaçadoras, há como que a repercussão de um inferno sufocado pelas águas! Afigura-se-me a cada instante que o oceano se vai abrir defronte dos meus olhos, e que então o inferno aparecerá com as suas goelas de fogo, pronto a devorar-me. Não compreendo, nem distingo uma só dessas vozes, não consigo destacar uma palavra ou uma nota musical de todo esse murmurar de espetros, não sei o que é que me preocupa e consterna, mas sinto a alma pequena e transida de medo, como se em volta dela girasse rosnando um bando de leões esfaimados!
E lançando os braços em torno do pescoço de Ozéas, terminou com uma explosão de soluços, deixando cair a cabeça sobre o peito dele.
-Não sei o que me cerca! não sei o que me ameaça! Mas tenho medo, meu pai! Tenho medo! Salve-me, por piedade!
-Tens medo! bradou Ozéas. Entretanto, hoje não devias ouvir, nem ver, nem sentir outras vozes que não fossem as vozes do céu! Tua alma devia estar toda voltada para ele e só a ele refletindo, como um grande lago quieto, cristalino e límpido, cuja superfície não toldasse sequer a asa de uma abelha. . .
-Bem sei, bem sei, meu pai! soluçou Ângelo; mas, a despeito dos meus esforços, outras vozes vinham ainda há pouco misturar-se às vozes celestiais, outros perfumes perturbavam os aromas da igreja, outras idéias distraíam minha alma, outro sangue me pulsava em todo o corpo! Afigurava-se-me até ter dentro do peito outro coração que não o meu, dentro do cérebro pensamentos que me não pertenciam!
Ozéas, ouvindo estas palavras, teve um forte sobressalto de terror, e apossou-se de Ângelo como se o quisesse resguardar do mundo inteiro.
-Oh! bramiu ele, aterrorizado. É preciso que fujas, quanto antes, deste covil de tentações diabólicas! É preciso deixar Paris, imediatamente, já! É preciso que te refugies na paróquia mais humilde, mais pobre, mais miserável, e onde só possas encontrar sacrifícios e dores a sofrer! E se aí mesmo, arredado de tudo que for brilhante e fascinador, isolado das perdições mundanas, aproximar-se outra vez de ti o demônio e fizer com que o sangue te volva ao cérebro, ameaçando estrangular os teus votos sagrados, então agarra aquele cilício e fustiga e martiriza com ele a tua carne, até que a faças calar para sempre!
E, chegando-lhe a boca ao ouvido, segredou-lhe misterioso, a tremer, a tremer, convulsionadamente, como se naquele instante todo o seu passado se erguesse de novo, para vir, ainda, como dantes, pedir mais punição para os desvarios da sua juventude:
-E se, apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas venturas. . . bate com os punhos cerrados contra o peito, dilacera as tuas carnes com as unhas até sangrares de todo o veneno da tua mocidade! Esmaga, à força de penitência, toda a animalidade que em ti exista! aperta os teus sentidos dentro do voto de ferro da tua castidade, até lhes espremeres toda a seiva vital! Fecha-te, enfim, dentro do teu voto de castidade, como se te fechasse dentro de um túmulo!
Ângelo soltou um grito e caiu de joelhos, balbuciando uma prece por entre os seus soluços.
Ozéas acalmou-se e estendeu o braços abençoando-lhe a cabeça com a mão aberta.
-Sim, reza! disse; reza, meu filho, ao pai misericordioso o maior tempo que puderes!
E depois acrescentou, inspirado por uma súbita idéia:
-O velho cura de Monteli acaba de sucumbir à peste que se manifestou nessa pobre aldeia. Vou ter com o arcebispo e peço-lhe que te nomeie para lá. Em Monteli não terás tentações!
E saiu vivamente, enquanto Ângelo, ajoelhado ao meio da cela, de braços e olhos erguidos para o céu, em vão procurava alar-se como dantes no vôo dos seus êxtases.
Era inútil. Seu pensamento caía por terra e ia arrastando-se até à esplêndida catedral, à procura de um bem, em busca de uma ventura, que ele não sabia qual era, mas tão doce e tão irresistível que lhe deixava alma e coração vagamente enleados de desejo.
Ângelo não conseguira concentrar-se.
-Mas que estranha perturbação será esta?... exclamou ele desistindo da súplica e erguendo-se dos joelhos. Que teria eu feito para estar assim?. . . Que teria eu cometido, sem consciência minha, para que a oração já não exerça no meu espírito a eficácia consoladora que tinha dantes?. . .
E nada respondia às suas palavras ansiosas. E em torno da sua aflição era tudo cada vez mais surdo, mais fechado e mais morto. Voz amiga não lhe acudia nenhuma em seu socorro, quer viesse ela de dentro dele mesmo, quer baixasse do céu para ampará-lo.
O mísero lançou em torno do seu abandono os olhos suplicantes, e deu com a Bíblia.
Correu a buscá-la, tomou-a nas mãos sofregamente, levou-a aos lábios e beijou-a.
-Minha boa amiga! disse apertando-a contra o peito; minha fiel companheira de tantos e tantos anos! foste tu a minha doce consolação, o meu refúgio carinhoso, o meu confidente, o escrínio das minhas primeiras lágrimas e dos meus últimos sorrisos; foste tu a discreta testemunha dos meus êxtases e o grande manancial das minhas alegrias religiosas, vale-me também agora! vale-me tu, que me abrigaste durante o longo tempo, em que vivemos os dois encerrados com as minhas mágoas nesta prisão sombria! Ah! como eu era então feliz! . . . como tinha a alma tranqüila e descuidosa!. . . Vale-me amada minha, que talvez consigas o que a oração não pode!
E, sentando-se no banco, abriu a Bíblia sobre os joelhos e leu, ao acaso, alguns versículos do primeiro capítulo que seus olhos encontraram.
Era o livro de Jó.
"A minha alma tem tédio à minha vida; soltarei a minha língua contra mim; falarei na amargura de minha dor desconhecida.
"Direi a Deus: As tuas mãos me fizeram, e me formaram todo em roda, e assim de repente me despenhas?
"Lembra-te, eu te peço, que com barro me formaste e que me hás de reduzir a pó.
"Vida e misericórdia me concedeste, e a tua assistência conservou o meu espírito.
"Se eu pequei, tu me perdoaste na mesma hora; porque não permitiste tu que eu esteja limpo da minha iniqüidade?
"Tu multiplicas contra mim a tua ira, e as penas combatem contra mim.
"Por que me tiraste tu do ventre de minha mãe? Oxalá que eu tivesse perecido, para que nenhuns olhos me vissem. Que tivera sido como se não fora, desde o ventre transladado para a sepultura.
"Deixa-me, pois, que eu chore um pouco a minha dor!
"Antes que vá para não tornar para aquela terra tenebrosa, e coberta da escuridade da noite. Terra da miséria e do terror."
Mas o seu espírito rebelado fugia da página da Bíblia, e punha-se a cantar-lhe ao ouvido as palavras do velho Ozéas: "E, se apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas venturas . . . "
Ângelo estremecia, tornava à página e punha-se a ler. Mas aqueles lamentosos versículos, que dantes o arrebatavam para Deus, agora nada mais conseguiam do que deixá-lo num vago entorpecimento de desanimo.
E vinha-lhe uma frouxa vontade de morrer, ou pelo menos de envelhecer logo, de repente, ali mesmo; um desejar que seu corpo se fizesse de súbito alquebrado e frio, que seu cabelo, de preto e lustroso se tornasse branco e desbotado, que os seus dentes amarelecessem, e que a sua fronte se despojasse naquele mesmo instante, e abrisse toda em rugas.
Desejava refugiar-se covardemente na velhice, como dentro de um abrigo seguro contra a feroz matilha que lhe rosnava no sangue. Mas a misteriosa frase de seu pai, vinha-lhe de novo à superfície dos pensamentos furando e abrindo caminho por entre todas as outras idéias.
"E, se apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas venturas, bate com os punhos cerrados contra o peito, dilacera as tuas carnes com as unhas, até sangrares de todo o veneno da tua mocidade!"
-Mas que estranhas venturas serão essas que as mulheres nos levam a sonhar?. . . interrogou-se ele, erguendo o rosto e cruzando as mãos sobre a página da Bíblia. Então a mulher não é também uma criatura de Deus?. . . um ente, tão abençoado e protegido por ele, que até foi por ele escolhido para servir de mãe a seu filho Jesus?. . . Pois tão grande honra se concederia a um ente desprezível, posto neste mundo só para tentar os justos e desviá-los do caminho da virtude?... Se a mulher é má, por que existe?. . . Se existe, por que Deus a fez má e perigosa?.. . Por que me é vedado amá-la tanto quanto me cumpre amar aos homens?. . . A ela ainda devia amar muito mais, porque é mais fraca, mais mesquinha, mais amorosa e mais desamparada. Por que não devo amar as mulheres?... Não serão minhas irmãs?... Não seremos todos filhos do mesmo pai?. . .
Fechou os olhos, como se quisesse fugir a estes pensamentos; mas a idéia da frase de Ozéas alastrava-se-lhe pelo cérebro, estrangulando todas as outras, que nem a planta egoísta e daninha que não permite viver e crescer ao seu lado nenhuma outra planta.
-Se a mulher é produto dos infernos. . . continuou ele a pensar; todos temos em nós um pouco de Deus e um pouco do demônio, porque todo o homem nasce, tanto do homem como da mulher. Não compreendo bem este fenômeno do nascimento. .. nunca mo explicaram. . . Mas sei que o homem nasce da mulher, como Jesus nasceu do ventre de Maria... Não mo explicaram, e todavia ensinaram-me a odiar a mulher. . . Por que?
Nisto, entrou na sombria cela um alegre casal de borboletas brancas, e começou a cruzar-se no ar, doudejando em volta da cabeça de Ângelo. Depois uma delas, enquanto a outra a perseguia, foi pousar tranqüilamente na amarelenta página da Bíblia, que ele conservava aberta e esquecida sobre os joelhos.
O presbítero pôs-se a fitá-la. A borboleta fugiu para o teto, à procura da companheira, e ele a seguiu com a vista.
-Um casal de borboletas!... disse consigo. Duas!. . . Um par!. . . E por que duas?. . . Por que andam juntas? Por que não veio uma só?. . .
Elas interromperam de novo o seu aéreo e irrequieto idílio, e foram pousar, uma ao lado da outra, na pequena cruz latina que encimava o oratório da Virgem.
Ângelo continuava a pensar:
-Se o sexo é uma imundície condenada por Deus, por que Deus então fez as suas criaturas aos pares, e por que fez o sexo?. . . Por que os homens não continuam a nascer como Adão e Eva?... "Por castigo" diz a Escritura Sagrada... Logo, a procriação não é um bem, é um mal; logo, o mundo inteiro é um purgatório, e a vida um tormento!. . .
As borboletas começaram de novo a doudejar no espaço.
-E estas desgraçadinhas, interrogou Ângelo a si mesmo; estas também pecaram no Paraíso, para que Deus as obrigasse a viver e procriar?. . .
As borboletas, redobrando de impaciência' iam e vinham por toda a cela, à procura de uma saída.
O padre compadeceu-se delas e quis dar-lhes o ar livre. Foi abrir a janela, mas encontrou resistência; os gonzos oxidados não queriam acordar do seu ferruginoso sono de vinte anos. Ângelo empregou toda a força e conseguiu afinal abri-la.
Um jacto de luz alegre e cantante inundou a fria prisão. Um mundo de vida patenteou-se no ar, à doiradora claridade que vinha lá de fora.
O presbítero correu às grades da janela.
-Que belo! Que belo! exclamou ele, defrontando com extensa paisagem que se descortinava aos seus olhos deslumbrados.
Estava a uns cem metros de altura. O ponto de vista era esplêndido. Primeiro, o grande parque do convento, todo cercado de altos muros; depois, as ruas da cidade, as praças e os jardins, e logo em seguida o Sena, coberto de barcos, e afinal as longínquas árvores do campo, que se perdiam suavemente nas tintas duvidosas do horizonte.
-Que belo! Que belo!
E vendo o casal de borboletas, que fugia espaço afora:
- Oh! Como vão ligeiras. . . Como brincam no espaço... Agora dizem um segredo... Voam de novo... Desaparecem...
Abaixando o olhar, descobriu sobre um telhado um casal de pombos que arrulhava.
-Como são lindos! pensou. Como são brancos e amorosos! Agora se beijam! Que belo! Que belo!
Na rua descobriu um homem de braço dado a uma mulher, levando ele um pequenito pela mão.
- São casados!... A criança parece com ambos!... Oh! agora conversam... ele tomou as mãos dela entre as suas; ela sorri, abaixa os olhos... São felizes!
Afastou-se bruscamente da janela. O espetáculo daquela tranqüila ventura fazia-lhe mal, e quase o irritava.
Não sabia dizer por que, mas num íntimo e profundo malquerer, contra tudo e contra todos, principiava a torturá-lo com uma dura e secreta agonia de inveja.
- São felizes! são felizes! soluçou de punhos cerrados e com o coração oprimido. E por que hão de eles rir e eu chorar! Qual é o meu crime?! Por que todos nesta vida tem uma companheira e eu não a posso ter?! Por que hei de ser só, eternamente só, quando a natureza deu um par a cada uma das suas criaturas?!. . .
Mas caiu logo em si, e derramando pela cela um olhar de quem desperta de traiçoeiro sonho, deu com a imagem da Virgem, que, de dentro do seu nicho de pedra, parecia lançar-lhe um triste sorriso de ressentimento.
-Não! bradou ele, atirando-se de joelhos e arrastando-se até os pés da Santa. Não estou só! nunca estarei só! Sou um padre e a minha esposa sois vós, Senhora amorosíssima, lírio celeste, perfeição dos céus! Perdoai-me se por um instante de delírio me esqueci do nosso amor!
E correndo à janela, bramiu, ameaçando lá fora, com a mão fechada:
-Oh! Bem te compreendo, natureza pérfida e sedutora! bem compreendo os teus embustes! És pior ainda que a tua rival, a sociedade! Mas em vão te enfeitas com as tuas galas e com os teus sorrisos de amor! Não me seduzirás, pântano de lama coberto de flores! Não me corromperás, porque tenho na alma bastante energia para governar os meus sentidos, e tenho o meu coração cercado por uma muralha de fé! Atira-me aos pés o ouro do teu sol, atira-me o perfume das tuas flores, o mel dos teus frutos, o mistério dos teus crepúsculos, a música das tuas florestas, os deslumbramentos das tuas auroras! tudo será baldado! Hei de resistir a todas as tuas provocações! hei de lutar contra todos os inimigos da minha pureza, e, ou cairei morto, ou hei de suportá-los a todos, um por um!
E sentindo-se arrebatado no delírio da sua fé, bradou como um louco:
-Venham! Venham filhos do inferno! Podem vir todos, que me encontrarão armado e de pé firme!
Em seguida atirou-se de novo aos pés da Virgem e começou a rezar fervorosamente.
Quatro horas depois foi surpreendido pelo velho Ozéas, que lhe bateu no ombro.
Ângelo voltou para ele os olhos desvairados.
-Amanhã, disse aquele, partiremos de madrugada para Monteli.
-Estou às suas ordens, meu pai.
Era a antecâmara da formosa Alzira rigorosamente posta ao caprichoso gosto da época.
Guarneciam-na móveis de madeira, esculpida e pintada de branco, com arabescos de ouro, que variava entre o fusco e o luzente, formando torturados desenhos de ornato. Pombas aos pares e anjinhos rechonchudos serviam de adorno às guarnições das portas. Sobre peanhas e cantoneiras havia jarras de Sevres, com pinturas assinadas, em que se viam pastores enfeitados de fitas azuis e cor-de-rosa, na cinta, nos joelhos, no pescoço e nos tornozelos, tocando avena e flauta, ao lado de roliças raparigas de saia curta listrada com sobre-saia de tufos de seda clara, chapéu de palha, coberto de flores, uma corbelha enfiada no braço, sapatinhos quase invisíveis, e um dos peitos à mostra, branco e levemente rosado, como trêmula gota de leite sobre uma pétala de rosa.
As cortinas de estofo alvadio, adamascado de prata, eram arrepanhadas ao meio por grandes florões de penas multicores.
Os espelhos tinham cercaduras de florinhas de porcelana, primorosamente acabadas e coloridas com muita arte. Era uma recordação do luxo de Luís XIV.
Em cima do fogão, dourado quase todo, havia um grande relógio de Boule, tirado por leões de ouro, entre várias lâmpadas e espevitadores também de ouro.
Nas paredes, forradas de uma tapeçaria azul celeste, destacavam-se suavemente, por cima das portas e contornando os móveis, desenhos do mesmo azul um pouco mais escuro, representando alegorias pastoris.
Prendiam a tapeçaria cordões de arame de prata entrançando, com grandes nós de espaço a espaço, terminando em amplas borlas do mesmo metal, que afinavam admiravelmente com os bordados das cortinas.
O tapete era felpudo e azul sombrio, à moda dos voluptuosos tapetes da Turquia. Os batentes das portas eram forrados de veludo cor de pérola e fechavam como tampas de estojo.
Alzira, ainda em penteador, estendida negligentemente num divã fofo e rasteiro, fumava uma dourada cigarrilha oriental, e acompanhava distraída as espirais do fumo com as pálpebras semicerradas.
O relógio marcava meio-dia. Ela acabava de levantar-se do leito, onde fizera a sua refeição da manhã; uma pequena xícara de chocolate e dois biscoitos de Reims.
Um rico dominó de seda negra, arremessado sabre uma cadeira, e uma meia máscara caída sobre o tapete, diziam que nessa madrugada se recolhera ela depois de um baile; e um pobre lenço de rendas preciosas, que jazia a um canto estraçalhado em tiras, denunciava todo o frenesi de tédio com que a linda condessa, à volta do baile, entrara nos seus aposentos.
Mas agora, sozinha no perfumado e tépido remanso da sua antecâmara, parecia já esquecida dos aborrecimentos da véspera, alheia a tudo que a cercava, e só entregue e abandonada, voluptuosamente, à memória do venturoso sonho dessa manhã.
Pensava em Ângelo. Via o em meio dos esplendores da igreja, cercado de ávidos olhares, surgindo, todo paramentado de ouro, dentre uma nuvem de incenso. Via-o, formoso e cândido, de braços abertos, defronte do altar, com os olhos virginais voltados para o céu. Via o trêmulo sorrir da sua boca de anjo, via o melancólico balancear dos seus negros cabelos de meridional. Tinha-o todo inteiro e todo vivo defronte da sua alma, pela primeira vez enamorada; tinha-o ali, defronte dela, com a sua misteriosa palidez de flor de estufa; tinha-o com aqueles lábios tão divinos e tão puros, com aqueles gestos donairosos e tranqüilos, com aquela voz embriagadora, que parecia sair de uma garganta de cristal e sândalo.
Tinha-o todo inteiro, e sentia-lhe até os perfumes do damasco da sua vestimenta, o aroma do seu hábito e o bálsamo dos seus cabelos.
E Alzira espreguiçou-se com um profundo suspiro, de olhos fechados e lábios entreabertos, dilatando o pescoço, como se procurasse alcançar com a boca a sombra de uma outra boca fugitiva.
E deixou-se cair sobre a almofada do divã, suspirando de novo, inconsolável na sua deliciosa mágoa de amor.
O que em Ângelo a fascinava daquele modo, o que a arrastava para ele tão irresistivelmente não era, todavia, a singular formosura do pálido presbítero, mas a sua fenomenal pureza de corpo e de alma; era aquela sedutora virgindade, ligada a tão altiva e clara inteligência.
Ela, que vira rendida a seus pés a fina flor de espírito parisiense e a flor brilhante de toda a fidalguia do seu tempo, e que nunca se deixara escravizar pelo ouro dos nababos, nem pela vermelha glória dos heróis vitoriosos, ou pela glória azul dos poetas endeusados; ela, que até aí jamais entregara os pulsos, sequer por um instante, a uma dessas paixões, que fazem da pessoa amada o dono e senhor exclusivo da nossa vida e dos nossos pensamentos; ela, a insensível Alzira, a cortesã de mármore, sentia-se agora cativa de Ângelo, o casto; e seria capaz de trocar, por um beijo daqueles lábios imaculados, todos os seus tesouros, todas as suas jóias, todas as suas baixelas e todo o valimento do seu corpo escultural.
Era a primeira vez que amava, era a primeira vez que todo o seu ser desejava alguém; a primeira vez que ela se sentia pequena, humilde, miserável, defronte de um homem; a primeira vez que se supunha capaz de ajoelhar-se aos pés do seu amante e beijá-lo doida de amor, pedindo ternura como um cão pede carícias aos pés do dono, suplicando-lhe que a fizesse morrer sufocada nos seus braços, para que fosse dele a última vibração daquela frágil carne de mulher, e dele fosse o extremo beijo daquela pobre alma apaixonada.
E começou a soluçar.
Era mulher pela primeira vez: pela primeira vez chorava.
Daí a instantes, agitou-se o reposteiro de uma das portas, e um negro, de libré vermelha, entrou na antecâmara, com os braços cruzados e os olhos baixos.
-Que é, Amilcar?. . . perguntou Alzira sem tirar o lenço dos olhos.
-O Dr. Cobalt. .. respondeu o africano com a sua acentuação etíope.
-Cobalt, sim, pode entrar. . . E mais ninguém, ouviste? nem o marques!
O negro retirou-se. E o médico entrou pouco depois, risonho e prazenteiro como sempre.
Foi logo beijar a mão da condessa e ficou a tomar-lhe o pulso.
-Então?... indagou, olhando-a no fundo dos olhos. O mal tem progredido?
Ela respondeu com um suspiro, e ofereceu-lhe um lugar a seu lado no divã.
Cobalt assentou-se e deu um estalo com a língua.
-Não estou nada contente com isto, sabe?... declarou ele, em ar de paternal censura. No seu melindroso estado de sobreexcitação nervosa, produzida pelo excesso dos prazeres, pode ser-lhe fatal este singular capricho da fantasia, porque nunca poderá ser satisfeito. Ângelo, como homem, é um caso perdido. . . não podemos contar com ele para nada E receio que esta circunstância traga perigosas conseqüências. . . Ora, a condessa nunca amou, nunca sofreu esse adorável gênero de loucura; o seu organismo não tem por conseguinte a menor prática da moléstia de que agora se sente atacado, e aquilo que para outra mulher nada valeria, pode nestas condições transformar-se em cousa muito séria! . . .
-Mas que hei eu de fazer, meu amigo?
-Oh! Se fosse possível, receitava-lhe: "Ângelo em estado simples, duas doses por dia, uma antes e outra depois do sono. E' bom sacudir o remédio antes de o tomar." E pronto! Afianço que ficaria boa!
Alzira teve um gesto de impaciência, e o médico, percebendo-o, tomou-lhe as mãos e disse, como se falasse com uma criança caprichosa e doente:
-O que há de fazer?. .. Ora essa! nada mais simples: evitar semelhante preocupação!. . .
- É impossível!
-Viaje! Vá até à Itália! Corra o mundo inteiro, se for preciso; e leve o marquês. . .
-Não me fale no marquês!
-Aqui é que não convém ficar, deixando-se consumir por um desejo, que naturalmente nunca será satisfeito. .. Pelos seus olhos, percebe-se que já hoje chorou! É muito bonito, não há dúvida!
-Não ralhe comigo, doutor!
-Ralho com razão! Sempre lhe perdoei as fantasias, mas. ..
-Sabe se é verdade o que disseram?
-A respeito de que?
-A respeito dele. Parte?
- Sim. É exato; parte para Monteli.
-Quando?
-Não sei. Por estes dias.
-Monteli! Irei também!
-Está sonhando, condessa?... Monteli é hoje o lugar de mais peste! Não irá, que não consinto!
-Há de consentir e até há de acompanhar-me. . .
-Eu?! qual! -Nesse caso irei só. Vai ver! E foi ao tímpano e vibrou-o. Reapareceu Amílcar.
-O marquês já está visível?... perguntou-lhe ela. Vai a ver, e, se estiver, dize-lhe que faça o favor de vir cá.
Quando daí a pouco o marques, com a sua desafinada figura de homem muito alto e muito gordo, entrou na perfumada antecâmara de Alzira, esta, antes que ele tivesse tempo de apresentar-lhe uma galanteadora frase de saudação, e antes que ele correspondesse ao cumprimento do Dr. Cobalt, disse-lhe sem mais preâmbulos e no tom de quem dá uma ordem irrevogável.
-Meu amigo, de hoje até depois de amanhã o mais tardar, preciso de uma casa de campo nas imediações de Monteli! Vá! não se descuide! É caso urgente!
O marques contentou-se, na sua surpresa, de fazer uma cara de assombrado.
E sorriu constrangidamente.
O médico também sorriu, mas sem nenhum constrangimento.
Na subseqüente quinta-feira achava-se no salão de Alzira a roda do costume, e conversava-se ainda a respeito de Ângelo e da sua perturbação ao terminar a missa em Notre-Dame, quando Amilcar apareceu para anunciar que a ceia estava servida.
-Meus amigos, disse a condessa, não faço
Afastaram-se os comensais para a sala de jantar, e o Dr. Cobalt correu a encontrar-se com a dona da casa.
-Sente alguma cousa, minha amiga?... perguntou-lhe solìcitadamente, apoderando-se de uma das mãos dela.
-Não, doutor. E diga-me: sabe se ele partiu ontem, como estava previsto?
-Ainda não. Foi detido por uma febre.
-Moléstia grave?...
-Qual! Sobreexcitação nervosa, produzida naturalmente pelo fanatismo.
-E quando parte?
-Não sei, condessa, Logo que possa fazer a viagem. O marques já comprou a casa?
-Já.
-Onde?
-Em Raismes.
-Bom.
E vendo que o marques se aproximava:
-Aí vem o seu verdugo. Vou tomar chá. . .
Afastou-se.
-Pensei que não nos deixassem um momento em liberdade!. . . disse o amante de Alzira, encaminhando-se para ela.
-Ah! Estava aí, marques? Não vai à mesa?. . . perguntou a formosa mulher, afetando um gesto de interesse.
Florans franziu a testa.
-Minha presença a incomoda, condessa, segredou ele, chegando-se mais. Impacientava-me por me ver a seu lado. . . sozinhos. . .
-Está no seu direito...
-Não me fale em direito, minha flor. Não é por um direito que eu desejo privá-la dos seus momentos de solidão . . .
-Então por que mais é?...
-Desejava que fosse por seu gosto, pelo prazer que a condessa, encontrasse em conversar a sós comigo. . .
-Isso não é cousa que dependa só da vontade. . .
E como o marques fizesse um triste ar de ressentimento:-Não se pode queixar, meu amigo, creio que, depois que estamos juntos, ainda não deixei uma só vez transparecer má vontade em suportar a sua companhia . . .
-Suportar!. . . repetiu o pobre marques com um suspiro. Suportar!... eis um termo que, só por si, patenteia toda a indiferença que a senhora tem por minha pessoa. . .
-Suportá-lo é a minha obrigação, e faço por cumpri-la o melhor que me é possível. . . Repito que o marques não tem o direito de queixar-se...
-Ah! suspirou ele de novo. Não! não tenho! Sou tão infeliz que nem esse direito possuo. . . Juro-lhe, entretanto, que preferia menos zelo no que fala, e um pouco mais de escrúpulo no que me diz às vezes. A franqueza, minha cara amiga, em certos casos e usada de certo modo, é ofensa. . . e a senhora, creio eu. . . não tem motivo algum para me ofender. . .
-Ah! que o senhor hoje está num dos seus maus dias! . . . respondeu ela, meneando a cabeça com impaciência.
E, notando que ele se afastava, acrescentou a meia voz, como se receasse detê-lo com as palavras:-Desculpe se o ofendi. . .
Mas o marques voltou, e ela então acudiu desabridamente: -Se a sua intenção é dizer-me qualquer cousa, ou exigir de mim seja o que for, fale logo com franqueza e por uma vez. Bem sabe que estou às suas ordens! . . .
-Às minhas ordens!... resmungou o infeliz. Às minhas ordens!. . . Tem graça! Preferia estar eu às suas, como estou, mas que lhe não ouvisse a cada instante palavras duras apoquentadoras. . .
Alzira perdeu a paciência.
-Oh! Basta! Exclamou. Que impertinência! Está sempre a queixar-se. . .
-Queixo-me com razão-retorquiu ele, por sua vez irritado, e fazendo-se vermelho. A condessa bem sabe que a minha ligação com a senhora não foi um simples impulso dos sentidos!...
-E que tenho eu com isso?... interrogou ela, apertando os olhos. Que tenho eu com os motivos que o levaram a ligar-se comigo?. . .
O marquês, coitado! já se não podia conter, e prosseguiu com a voz trêmula:
-A senhora bem sabe que, para ficar a seu lado, tive de sacrificar tudo que de melhor e mais sagrado possuía no mundo! Sabe que esse amor invencível que a senhora me inspirou, foi a causa da morte de minha esposa e será a desgraça de meus filhos.
-Mas o marquês também sabe e há de convir, replicou Alzira, que eu não tenho culpa alguma em tudo isso! Há de convir que não dei o menor passo, nem empreguei o menor esforço, para provocar esta união!. . . O marques viu-me um dia, apaixonou-se; fez uma proposta, que eu aceitei porque me convinha. . . Nesse contrato não me comprometi a amá-lo, comprometi-me apenas a não pertencer a outro, enquanto estivesse na sua dependência. . . Ora, creio que até hoje ainda não faltei com a minha palavra!. . .
-Tem razão, condessa... disse o marquês, já vencido. Tem toda a razão. Mas tudo isso é porque a amo, muito, loucamente!
Quis tomar-lhe as mãos; ela não deixou, e respondeu virando-lhe as costas:
-Ama-me muito! Isso não diminui a impertinência de suas palavras! Não é a primeira vez que o senhor me lança em rosto a morte de sua mulher e o futuro de seus filhos!. . .
-Perdoe, Alzira...
- Se lhe não convenho, se lhe sou perniciosa, afaste-se de mim! Ninguém o obriga a ficar a meu lado!
E arredou-se dele, para ir assentar-se em um divã. O marquês acompanhou-a.
-Se o traísse, vá! continuou ela; se lhe desse ocasião de ter ciúmes, ainda vá; mas, que diabo, eu cumpro lealmente com o que prometi e, quando não estivesse disposta a fazê-lo, di-lo-ia com franqueza, porque afinal sou livre! Como, pois, admitir que me exprobre fatos, pelos quais não sou responsável O senhor, se fez sacrifícios para obter-me, não foi sem dúvida com o intuito de praticar uma boa ação, mas simplesmente para proporcionar a si mesmo um prazer que lhe apetecia. Se fez sacrifícios, não foi por mim, foi pela sua própria pessoa; e, se não tinha elementos para a empresa, por que a empreendeu?. . .
-Porque a amava!
-E amava-me, porque sou bela, sou moça e estou na moda! Ora, meu caro marquês, há de convir que com isso não teve originalidade alguma!... (E soltou uma risada de escárnio). Original seria se tivesse a
desvairada pretensão de ser, durante algum tempo, o amante exclusivo da condessa Alzira, sem despender alguns milhões de francos!. . .
-A senhora bem sabe que não é o dinheiro despendido o que eu deploro. . .
-Pois eu com o resto nada tenho que ver!... São-me indiferentes a morte de sua mulher e o futuro de seus filhos!. . . Quando o senhor se descuidou deles, quanto mais eu! . . . O senhor que fosse melhor marido e melhor pai! Se há um criminoso entre nós, não sou eu decerto: na minha qualidade de cortesã, sou lógica, não me afasto uma linha do meu programa; o senhor é que se afastou dos seus deveres, na qualidade de chefe de família. Queixe-se por conseguinte de si mesmo e não me aborreça!
-E é a senhora quem me diz isto?!. . . exclamou o marques, abrolhando os olhos.
-Certamente, respondeu Alzira, com toda a calma.
-No entanto, volveu ele, a condessa, sabe perfeitamente que eu a tudo me resignaria, se a senhora fosse para mim um pouco mais amorosa... eu tudo perdoaria, se. . .
-Perdoaria?. . . mas eu é que não quero o seu perdão para cousa alguma. . . Não me sinto absolutamente culpada.
-Pois devia sentir-se! disparatou o fidalgo, fazendo-se outra vez vermelho. Tenho o direito de ser tratado melhor nesta casa!
Alzira olhou para ele sem voltar o rosto.
-Minhas palavras são amargas?... disse. É o senhor quem as provoca. . . Quantos aos meus atos- são irrepreensíveis!...
Esta última frase teve o encanto de transformar 0 marquês.
-Tudo isso, resmungou o queixoso, prova que a senhora nunca sentiu por mim o menor vislumbre de amor . . .
Alzira soltou uma gargalhada sincera.
-Ora, marquês, não me faça rir! disse depois, cobrindo o rosto com o lenço.
-Não é debalde que todos a citam como a mulher mais insensível do mundo!
-Mas por que razão queria o marquês que o amasse? . . .
-Quando por mais não fosse, por gratidão. . .
A condessa, já séria, mediu-o de alto a baixo.
-Nunca lhe pedi obséquios! disse
-Mas aceitou-os. ..
-Engana-se!
-Com a senhora despendi o necessário para enriquecer cinco famílias!. . .
-Basta! (E ela desta vez bateu com o pé). Já me tardava que o senhor me lançasse também em rosto esse dinheiro que supõe ter gasto comigo!
E encaminhou-se lentamente até ao tímpano e vibrou-o com força.
-A senhora vai pôr-me fora?... gaguejou o marques, fazendo-se pálido.
-Não, explicou ela, muito tranqüila. Vou ordenar ao criado que não o receba quando o senhor voltar. Não tenho o direito de o mandar sair, mas tenho o de nunca mais o receber!
Um raio não fulminaria tanto o marques como estas palavras. De pálido passou novamente à cor de cereja. Hesitou um instante, limpou o suor da testa e, afinal, foi ter com Alzira, e disse empregando todo o esforço para sorrir:
-A senhora dessa forma obriga-me a não voltar. .. (Ela sacudiu os ombros.) E, para evitar que isso aconteça. . . só vejo um meio. . . é não sair mais daqui . . .
Foram interrompidos pelo criado, que exclamou da porta, fazendo uma continência:
-O cavalheiro Bouflers!
-Bouflers?. . . repetiu Alzira.
-Bouflers aqui!... resmungou entredentes o marquês.
E acrescentou, dirigindo-se à condessa:
-Eis aí um. . . com quem a senhora não usaria da franqueza que usa comigo. . .
-Por que não?
-Porque é moço, é belo e tem talento. . .
Alzira gritou para o pajem:
-Dizer-lhe que ainda desta vez o não recebo. . .
-Não lhe convém recebê-lo em minha presença condessa?. . .
-Ah! Sim?. . . disse ela.
E voltou-se de novo para o criado:
-Faze-o entrar.
O criado saiu.
-Mas eu, exigiu o marquês, quero ficar ali, por detrás daquela cortina. . .
-Com uma condição, propôs a condessa, haja
o que houver, o senhor não se baterá com ele. . .
-Prometo, mas a senhora não lhe dirá que o ama. . .
-Ah! Não! Isso não direi com certeza. . .
-Pois então juro que me não baterei.
-Pode esconder-se.
O criado reapareceu, erguendo o reposteiro, para dar entrada ao satírico e famoso poeta Bouflers.