Bouflers entrou aos pulinhos. Estacou no meio do salão e fez a mais extraordinária mesura que é possível imaginar, mesmo conhecendo os complicados e genuflexórios salamaleques desse tempo galante. Os altos e empoados canudos da sua cabeleira roçaram-lhe três vezes pelos joelhos, e o rabicho, guarnecido por um laço de fita preta, três vezes se agitou no ar, como a irrequieta cauda de um cãozinho fraldiqueiro.
Vinha vestido a rigor e com extrema elegância.
Trazia uma casaca de seda cor de pérola. forrada de branco e guarnecida de botões de prata. Bofes de rendas de Veneza, nobremente salpicados de pó de tabaco espanhol, saltavam-lhe do peito por entre um colete de veludo cor de âmbar; tinha calções da mesma seda da casaca e meias bordadas a ouro, sapatos de salto vermelho, e espada, não de barba de baleia, como então alguns usavam, mas de bom e bem temperado aço de Toledo, com bainha de couro, forrada de veludo branco, e guarda coberta de vistosa pedraria multicor.
Deu alguns passos para Alzira, e, assim que se viu defronte dela, perfilou-se de novo e pôs a mão esquerda sobre o punho da espada, de modo a arrebitar com a ponta desta a grande aba da sua casaca à la Ramponeau.
E, empertigado, conservou-se um instante com o chapéu de três bicos debaixo do braço, e disse depois fazendo um passo de minuete:
"Ora graças a Cupido,
Neste empíreo da beleza
Enfim me foi permitido
Entrar, sem maior
despesa!..."
- Trazia a musa em sua companhia Bouflers?. . . Nesse caso devia ter pedido licença para dois. . . -Descanse, formosa estrela; minha musa é rapariga discreta. . . não contará ao marquês o que entre nós dois se passar aqui... -Discreta?... -Não diz mal de ninguém. . . - Informe a pobre senhora de Dufort. . . -Uma sátira inocente. . . -Oh! muito inocente! . . . - Tão inocente como o padre Ângelo. -Ah! Já o conhece?. . . -Pudera!
E, armando de novo a sua coreográfica mesura, improvisou:
"Dizem que Paris
inteira,
Após o célebre sermão
Da sagrada quinta-feira,
Anda toda em
devoção...
Traz no peito as mãos cruzadas, Os olhos fitos no céu, Calça meias encarnadas, Põe estola e solidéu!
Até consta que a
marquesa
De Pompadour vai além;
Quer obrigar sua alteza
A tomar ordens
também..."
E, chegando-se mais para Alzira, segredou intencionalmente:
"Que certa moça galante, Ouvindo a missa, fitou Por tal modo o celebrante, Que o celebrante... corou!
E ficaria engasgado
Com o próprio corpo de
Deus,
Se não bebesse, coitado!
Duas gotas de Bordéus..."
-Isto é uma sensaboria de mau gosto!. . . declarou a condessa.
-Por que? Dar-se-á o caso de que a insensível e tirana condessa Alzira também esteja com o peito ferido pelo casto pregador de quinta-feira?...
-Como "também"?... Há então muitas que o estejam?
- Oh! Oh!
"Foi o caso que o sujeito,
Tendo as damas convertido,
Tanto as fez bater no peito,
Que o peito lhes pós ferido!.. ."
-Fale antes em prosa Bouflers! O verso fatiga muito.
-Pois seja! exclamou ele, encaminhando-se para a condessa com um belo sorriso de namorado, e disse tomando-lhe uma das mãos que levou aos lábios: Eu te amo, Alzira, flor insensível! flor dos meus sonhos! flor das minhas desventuras! e quero saber quando será o dia venturoso em que receba eu de tua formosa boquinha . . .
-Um sorriso?...
-Não! Uma palavra de animação. . .
-Bravo!
-Bravo?!
-Não conheço melhor palavra de animação. . .
-Não zombe de mim, condessa!...
-Zombar de Bouflers!. . . Oh!. . . Se o conseguisse, vingaria meia humanidade, tão ferozmente satirizada pelos seus versos maus e pelos seus maus versos!
-Conclua-se destes trocadilhos, que sairei daqui sem ouvir uma palavra de esperança. . .
-Está falando sério, meu pobre amigo?. . .
-Juro-lhe que sim, condessa. Juro-lhe pelas musas, que a minha maior felicidade seria merecer-lhe uma palavra de amor. . .
-E por que razão havia eu de amá-lo?. . .
-Ora essa! Por que razão é que os outros se amam? . . .
-Mulheres da minha espécie, caro poeta, só amam, quando as fascina qualquer cousa extraordinária, muito extraordinária! Seja o que for, mas que seja- extraordinária!
-Paciência!. . . Todavia, quero crer que o marquês de Florans nada tem em si de extraordinário, e no entanto. . .
-É meu amante... Ah! O caso é outro! O marquês é muito rico... pode dar-se a esse luxo!... Ama-me, daí porém a ser amado-vai um abismo!
-Se o marquês a ouvisse?. . .
Alzira sacudiu os ombros.
-Ele sabe disso tão bem como eu; a ninguém engano! . . .
-Nem ama, tampouco!
-Quem sabe lá?.. . Talvez...
-A condessa? Qual! Duvido! A senhora não é mulher! Não tem coração!. . .
-Então que sou eu?. . .
-E um lindo cofre de marfim rosado, com o competente orifício para receber o ouro dos papalvos.
-E era para dizer-me semelhante galanteria, que o poeta há tanto tempo fazia empenho de vir à minha casa?
-Não! Era na esperança de ser correspondido no meu amor. . .
-O cavalheiro às vezes não me parece um homem de espírito...
-Em questões de amor todos os homens são igualmente estúpidos!...
-Mas, valha-me Deus, Bouflers! por que razão havia eu de amá-lo?.. . O senhor é um bonito rapaz, não há dúvida; está na flor da idade, não lhe falta talento, mas. . . é só isso!. . .
-E acha pouco?. . . moço bonito e com talento. Tenho os encantos das três graças-mocidade, amor e beleza, e ainda me sobra um!
-Não-dois-o talento e a vaidade.
-Ou isso!
-Mas falta-lhe o principal. . .
-O que não falta ao marquês. . . dinheiro?. . .
-Qual! O dinheiro não se conta. . .
-Não se conta?. . .
-Gasta-se!
-Então que me falta? Juízo, talvez. ..
-Ainda menos! O juízo é a negação do espírito! . . .
-Então não sei que me falta!...
-Sei-o eu! exclamou uma voz grossa.
E o marquês surgiu defronte de Bonflers, fulo e trêmulo de raiva.
-Oh! Oh! interjeicionou este, zombeteiramente e sem se alterar. Estava escondido, senhor marquês?. . . Divertia-se a escutar-nos. . . Magnífico!
E voltando para Alzira:-Obrigado, condessa! Depois resmungou de si para si:
-Pagá-lo-ão bem caro!
O marques, sem poder domar a cólera que o sufocava, prosseguiu no tom em que começou:
-A qualidade que lhe falta, senhor poeta, não é dinheiro, nem juízo; é prudência! É grande temeridade dizer mal de quem quer que seja à própria amante dessa pessoa!
-Não é só temeridade... respondeu Bouflers, pondo a mão na cintura e empinando a cabeça: é insolência. Estou às suas ordens! Avie-se!
A condessa correra para junto de Florans.
-Lembre-se do que me prometeu!... disse-lhe ela rapidamente e em voz baixa.
-Só não me baterei. . . segredou o marquês ao ouvido da amante, se a senhora não me fechar a sua porta. . .
-Não fecharei, marquês!
-Pois não me baterei, Alzira!
Bouflers, que durante este curto diálogo, media os dois com ar de desprezo, entortando a cabeça e sacudindo a perna gritou para o marquês, como se falasse ao seu cocheiro:
-Olá, senhor pregador de prudência, é esta que o aconselha a consultar a sua amante, antes de pôr a limpo as injúrias que lhe fazem. . . Creio ter dito bem alto que estou às suas ordens!
-Não me bato com o senhor... balbuciou o outro.
-Ah! Ah! escarneceu o poeta. Já o desconfiava! . . .
E calçando de novo a luva, que ele havia principiado a despir: - Pois chega-me a vez de dar-lhe também um conselho: quando não se reconhecer com animo de assumir dignamente a responsabilidade dos seus atos, meça melhor as palavras e não se apresente como se apresentou defronte de mim!
-Insolente! bradou o marquês, avançando de punho fechado sobre Bouflers.
-Então!... interveio Alzira, metendo-se entre os dois.
-Mas este atrevido afronta-me! exclamou Florans.
-Pois é desafrontar-se! retorquiu o poeta. Para isso tem uma espada à cinta!
Alzira chegou os lábios ao ouvido do marquês.
- Se aceitar o duelo, disse-lhe; não ponha mais os pés aqui!
O fidalgo fez cor de cera e murmurou imperceptivelmente:
-Esta mulher despoja-me de tudo!. . .
Bouflers sorriu e acrescentou:
-Registre, condessa, mais esta qualidade a meu favor:-a coragem!
-Vale menos que as outras neste instante... desdenhou Alzira.
E tomando as mãos do marquês: -Em certos casos, o forte é aquele que resiste à provocação. Obrigado, meu amigo! Poupou-me remorsos!... Ah! já os tenho em demasia!. . . Creia que lhe estou grata!. . . Quanto ao senhor, cavalheiro. . .
E voltou-se para Bouflers, fazendo-lhe um gesto de despedida.
-Obrigado! respondeu este. Antes, porém, de sair, permita que a felicite pela bela escolha que fez para seu amante!... liste adorável palerma merece bem uma cínica da sua ordem!
E pondo o chapéu na cabeça, encaminhou-se para a saída.
-Miserável! exclamou o marquês, correndo sobre ele.
-Infame! disse Alzira acompanhando-o.
Mas foram detidos pelo conde de Saint-Malô, Artur Bouvier, Cobalt e as damas que acudiram lá de dentro em sobressalto.
-Que foi?!
- Que significa isto?!
-Bouflers!
-Um escândalo?!
-Que sucedeu?!
- Covarde! covarde! covarde! exclamou Alzira, procurando chegar até onde estava Bouflers.
-Todos os teus insultos, respondeu este. armando a carreira para fugir, não valem uma palavra, uma só, que qualquer homem tem o direito de atirar-te à cara!
E rápido, chegando a boca ao rosto dela, segredou um termo que a fulminou.
E fugiu.
-Ah! gritou a cortesã, levando as mãos ao peito e cambaleando.
E correu ao marques para bradar-lhe, segurando-lhe o braço:
-Vá! Siga-o! Alcance-o ainda que no inferno! Não me volte aqui sem o haver matado!
-Oh! Obrigado, condessa! exclamou Florans.
E, desembainhando a espada, desapareceu da sala e bateu pelas escadas, ligeiro
como um raio.
Quando Bouflers chegou à rua, lançou para o palácio de Alzira um olhar de indiferença e disse, cruzando a capa sobre os ombros:
-Ora! Não perdi grande cousa! Alzira e o marquês que vão para o diabo!
E depois cantarolou, seguindo em direção da tavolagem do conde de Charolais, príncipe de sangue:
"Corramos ao
jogo,
Que o provérbio
diz:
Amor sem ventura,
-É jogo feliz!..."
Mas, ao dobrar a esquina, o marquês, que desgalgara a escada a quatro e quatro, assomou à porta da rua e gritou-lhe, correndo:
-Olá! Ó poeta bêbado! Se não és um covarde, espera!
Bouflers voltou-se incontinenti e levou a mão aberta sobre os olhos.
-Quem é?!
Reconheceu o marquês, e perguntou com impaciência:
-Que queres de mim, basbaque?. . .
-Castigar-te, miserável, como se castiga um perro!
-Ah! Ah! Chegou-te afinal a indignação?. .. Ainda bem! (E desembainhou a espada). Vá lá! Antes tarde do que nunca!. . . Já fizeste a tua oração, bruto?. . . Não te quero despachar para a eternidade com a alma suja! Vamos! Dei-te tempo de sobra!
-A rua é escura e deserta!... considerou o marquês. Não precisamos ir mais longe. Aqui defronte da porta de Alzira, temos a claridade suficiente. . .
Aproximaram-se da porta, procurando colocar-se no foco da luz que vinha do corredor.
-Vê lá onde queres que te fira, fanfarrão! exclamou Bonflers pondo-se em guarda.
Artur Bouvier, o conde de Saint-Malô e o Dr. Cobalt tinham descido a escada do palácio.
As damas o seguiram.
-Marquês, disse o conde, tem em mim uma testemunha.
-E eu por ti, Bouflers! exclamou Artur.
-E o médico, pronto! acrescentou Cobalt.
-Não é preciso!... faceciou Bouflers. De qualquer modo se mata o cão! . . .
-Defende-te, poeta libertino! bramiu o marquês; porque a minha intenção é matar-te!
O outro retrucou, aparando-lhe destramente os golpes:
-Antes guardasses tanto empenho para defender tua mulher, alma de Menelau!
E gritou, caindo-lhe em cheio:-Toma!
Florans desviou o tiro e fez-lhe pontaria de fundo. -Toma tu lá este. em paga da tua insolência, bandido!
Mas Bouflers soltou uma risada, e, depois de um salto para trás, desferiu-lhe um bote certeiro, que lhe atravessou o peito.
-Ai! gemeu o marquês
E caiu estatelado no chão.
-Já?... perguntou o poeta, inclinando-se. É
pena! Principiava a tomar interesse pela brincadeira!
E tirou do bolso o seu lenço de rendas, para limpar a lamina da espada que escorria sangue.
Alzira acudira com um grito e lançara-se de joelhos ao lado do amante, beijando-lhe a fronte.
-Meu bom amigo, dizia entre soluços; perdoe-me! perdoe-me! Oh! Quanto sou desgraçada!
Bouvier, o conde e o médico aproximaram-se também e cercaram o ferido.
-Ai! Eu morro! gorgolejou o marquês, aflito virando a cabeça de uma banda para outra.
-Agradece-o a esse demônio que aí tens a teu lado! . . . exclamou Bouflers, lançando fora o lenço com que limpara a espada.
E voltando-se para as damas: -Boas noites, gentis mulheres!
Depois falou aos outros: - Cavalheiros, boas noites!
E bateu no ombro de Artur:-Obrigado, Bouvier!
Em seguida traçou a capa e perdeu-se na sombra da rua, cantarolando de novo:
Corramos ao jogo,
Que o provérbio
diz:
Amor sem ventura,
-É jogo feliz!..."
E desapareceu.
-Marquês! marques! chamava o conde de Saint-Malô, enquanto Alzira, desesperada, levantava soluçando os braços para o céu.
-Ó meu Deus! ó meu Deus! lamentava-se ela. É mais um que me vai pesar na consciência! É mais um que morre por minha causa!
Nesse instante, do lado contrário ao que Bouflers tomara, surgiam na treva da noite dois vultos negros, que lentamente se aproximavam, silenciosos e tristes como duas sombras.
Vinham envoltos, da cabeça aos pés, em grandes capas talares, que lhes davam ao aspecto um tom sinistro.
-Anda, meu filho. . . dizia um deles ao companheiro. Tem resignação, e apresse os passos, que precisamos alcançar a diligência de Raismes, para chegarmos a Monteli antes de raiar o dia. . .
-Sim, meu pai. . .
-Ai! gemeu de novo o marquês, debatendo-se no seu estertor. Morro sem confissão! Morro sem confissão! . . .
Ouvindo isto, um dos dois embuçados precipitou-se sobre o moribundo, exclamando aflito:
- Que vejo?.. . Um corpo coberto de sangue!
E, arriando o capuz, para mostrar a sua veneranda cabeça de cabelos brancos, interrogou ao grupo que o cercava:
-Quem feriu este homem?
-Um adversário em duelo. . . murmurou o próprio marquês. Ai! morro! morro!
O misterioso velho arrancou do seio um crucifixo, e levou-o com a mão trêmula à boca do agonizante.
-Pede a Deus perdão das tuas culpas. . . segredou ele com a voz comovida. Entrega-lhe a tua alma em plena confiança, porque eu rogarei por ela ao Senhor misericordioso!
E ouviu-se o débil sussurro de um gemido de amor esvoaçar entre os lábios do moribundo.
Era o nome de Alzira, que ele chamava pela última vez.
O médico abaixou-se para auscultar-lhe o coração.
-Está morto. . . disse.
Houve uma triste concentração em que se ouviram prantos abafados.
E o negro vulto de barbas brancas pôs-se a rezar, ao lado do cadáver, com as mãos postas, o pálido rosto pendido sobre o seio.
Entretanto, Alzira, num transporte de aflição, correra a ter com a outra sombra, que se quedava à distancia, de cabeça baixa e rosto escondido sob o capuz, e exclamou entre soluços, estendendo-lhe os braços suplicantes:
-Meu padre! Meu padre! Sou eu a culpada de tudo isto! Sou muito, muito desgraçada! Peça perdão a Deus por mim!
O vulto se agitou e tremeu todo, através do mistério da sua negra túnica.
Ouvia-se-lhe o ansioso arquejar do peito.
Depois, como se precisasse de ar, arremessou para traz o capelo do hábito e recuou aterrado.
Alzira soltou um grito.
-Ele!
E teria caído no chão, desfalecida, se Ângelo a não amparasse nos braços.
Acudiram todos e se apoderaram dela.
O presbítero puxou de novo o seu capuz sobre o rosto, deu o braço à outra sombra, e começaram os dois de novo a seguir o seu caminho.
Ângelo tinha afinal compreendido bem a verdadeira causa da sua perturbação.
A sua perturbação era o amor.
Ângelo chegou a Monteli, acompanhado por Ozéas, às sete da manhã.
Veio recebê-lo à porta da casa uma velha chamada Salomé, antiga criada que fora do falecido pároco do lugar.
-Então? então, meu filho?... perguntou-lhe o egresso. Que em ti significa tamanha tristeza?... Pareces-me um vil criminoso sobrecarregado de remorsos!. . . Vamos! Não te convém esse aspecto! Dize-me com franqueza o que sentes. . .
-Nada! Nada, meu pai! São íntimas tristezas sem razão de ser!. . . são desgostos só meus, que só eu mesmo compreendo! . . . A viagem fatigou-me. Preciso repousar... Bem sabe que ainda não estou bom de todo . . .
-Pois sim, recolhe-te! Ali está o teu quarto. Já mandei pôr lá a imagem da Virgem. Eu ficarei aqui. Até breve.
-Até breve, meu pai.
E Ângelo, arrastando a sua melancolia, entrou no pequeno aposento que lhe era destinado.
Um triste quarto, em que a formosa imagem da Virgem se destacava, como na outra cela do convento de S. Francisco de Paulo. Paredes nuas e velhas, teto esborcinado e sem forro.
Ângelo sentou-se no catre que havia a um canto, e começou a soluçar, com o rosto afogado nas mãos.
Chorava, e não sabia dizer por quê. Sofria e não se animava a confessar a si mesmo de onde lhe vinha aquela dor, que assim lhe arrancava tão quentes lágrimas do coração.
Mas seu desejo era poder naquele momento apertar nos braços alguém, cujo nome seus lábios não se atreviam a balbuciar, receosos de magoarem a candidez da sua alma virginal, branca noiva de Deus! O seu desejo era poder dizer o que lhe ensinara a Bíblia, era poder cantar a capitosa música do Cântico dos Cânticos, que nunca alma nenhuma jamais no mundo sonhou e repetiu sozinha. O seu desejo era poder dizer: "Eu te amo!" e sentir a miragem desta doce palavra refletida inteira nuns lábios de mulher, que lhe não falavam, porque já não tinham voz senão para soluçar de amor.
Era Alzira de carnes brancas e olhos negros! O seu desejo eram longos cabelos nus, soltos no vendaval de todos os desejos. O seu desejo eram lábios trementes e vermelhos, eram doces braços de veludo, eram a funda morte do supremo gozo, bebido de barco sabre um níveo colo de Eva paradisíaco!
O seu desejo era o pecado.
E Ângelo chorava.
Mas, de repente, como se o espetro do dever lhe tocara no ombro, ele ergueu-se estremunhado e trocou um olhar, ansioso e suplicante, com o triste e quieto olhar da Virgem.
Correu para junto dela e ajoelhou-se a seus pés, mesquinho de remorso e trêmulo de arrependimento.
-Valei-me! disse, erguendo para a imagem os olhos lacrimosos. Valei-me a mim, a mais desgraçada de todas as vossas criaturas!
E soluçava.
-Maria! Maria puríssima! exclamou ele depois, como um desprezado amante aos pés da sua cruel amada. Vede! Atendei, flor dos céus! Vede bem que sou eu quem aqui vos fala e quem vos chama neste momento!
E arrastando-se de joelhos, com os lábios estendidos para alcançar-lhe a fímbria do vestido:-Mãe casta! mãe sempre virgem, valei-me! Vós sois o meu último recurso, a minha última salvação! Escondei dentro da urna de marfim da vossa misericórdia a pureza da minha pobre alma, que a besta imunda a cerca, farejando! Salvai-me, virgem mãe sem mácula; abrigai-me numa das dobras do vosso manto azul, constelado de estrelas! Defendei-me contra mim próprio e contra o meu sangue traiçoeiro! Vós, que sois o eterno prodígio da castidade,
protegei a minha castidade contra os meus íntimos inimigos! Não me deixeis cair em pensamentos depravados! Exorcizai de dentro do meu corpo o demônio que me morde as carnes e cospe fogo no meu sangue! Enxotai a luxúria, que baba minha alma para sorvê-la depois!
Salvai-me! Salvai-me, rainha de bondade! Se quereis abandonar-me assim, à mercê dos meus sentidos, por que pois me aninhastes carinhosa, durante tanto tempo, sob as asas brancas da vossa divina graça?. . . Se a vossa intenção era atirar-me assim às garras do pecado, por que pois, me ensinastes a amar-vos tão castamente desde a minha infância mais inocente?. . . Dormi tão confiante em vossa guarda, respirando as rosas místicas do vosso divino amor, e de repente acordo, sobressaltado, entre uivos de fera que me cerca, para devorar-me!
"Onde estais vós, mãe puríssima, onde, que desde aqueles malditos olhos tão formosos e tentadores, já me não ouvis as súplicas e já me não enxugais, com o vosso alvo sudário cor de neve, as lágrimas deste desespero?
''Ó peito de amor! entranhas de piedade! como é que assim vos fechais para quem vos ama?... Oh! volvei para mim os vossos lindos olhos misericordiosos! Voltai a ter comigo, a sós, na minha cela, como dantes, quando eu era um dos anjos rubicundos do vosso trono de nuvens!... Tornai a ter comigo, Maria, cheia de graça!
"Se tínheis de abandonar-me e perder-me num segundo, para que então vos dei toda a minha existência de vinte anos, mais brancos do que a torre de David?. . . Se assim tinha de ser, amada minha, não valia a pena então conservar-me tão puro e tão cândido!. . .
"Maria! Virgem amorosíssima! vida e doçura' esperança nossa! se não quereis vir em meu socorro, matai-me! eu aqui estou a vossos pés, e não me levanta rei dos meus joelhos senão por um ar da vossa divina graça! . . . "
E Ângelo, de olhos fitos na Virgem, esperava um milagre, esperava alguma cousa que lhe restituísse a sua antiga tranqüilidade de espírito.
Nada! A imagem parecia surda ao seu desespero de salvação.
"Oh! por piedade! por piedade, minha mãe querida! envia-me do vosso peito de amor a inspiração do meu resgate!"
Nada! Nada!
Ângelo deixou cair o rosto para a terra; abandonou os braços, com as mãos entre os joelhos, e quedou-se pensativo.
Infeliz! infeliz!
Não era a primeira mãe que o enjeitada! . . .
E as lágrimas de abandonado correram-lhe tristes pelo mármore das faces, e o mísero deixou-se levar de rastos pelas garras da sua dor imensa, para o inferno da sua desesperança sem consolo.
Foi despertado pela velha criada, que, depois de bater várias vezes, resolveu-se a entrar no quarto.
- Perdão, senhor vigário. Queira desculpar interromper as suas orações, mas. . .
-Fale, minha irmã. . .
-É que está aí uma dama toda vestida de negro e coberta por um longo véu, que deseja falar a vossa mercê. . .
-- Uma mulher?. . . E não disse quem era?. . .
-Não quis dizer, senhor vigário.
-Bem, minha filha, faça-a entrar para a capela e diga a frei Ozéas que tenha a bondade de vir cá.
A criada saiu e o egresso apareceu pouco depois.
-Há, aí, disse-lhe o presbítero, uma mulher que me procura. Devo escutá-la, meu pai?. . .
-Que estranha pergunta, Ângelo!... Deves, decerto! É talvez alguma desgraçada que precisa de quem a conduza ao arrependimento. A consciência pura e bem apoiada na fé jamais teme as ciladas do inferno. Vai! Fala-lhe! E, se for uma pecadora, suplica a Deus, noite e dia, até conseguires o perdão para sua alma.
-Bem, meu pai. . .
E Ângelo afastou-se lentamente, tomando a direção da capela.
Ângelo aproximou-se vagarosamente da misteriosa mulher que o esperava na capela, e perguntou-lhe a que vinha.
Ela, cuja comoção se percebia, apesar do espesso véu que a ocultava da cabeça aos pés, respondeu indicando-lhe o confessionário. Ele encaminhou-se então para lá, sentou-se, e, com um gesto, convidou-a a que se ajoelhasse a seus pés.
O vulto tremia todo, quando vergou os joelhos e abaixou o rosto, para rezar entredentes o confiteor.
-Não se amedronte, minha pobre irmã. . . disse o presbítero com a voz amiga; não trema desse modo, que por mais fundas que sejam as chagas do seu coração? e por maior que seja o remorso da sua alma, a misericórdia divina há de chegar até lá, se o arrependimento já lhe abriu o caminho e franqueou as portas. Não se assuste, porque não é a mim que vai falar, é a Deus, cujo seio de amor e de bondade jamais se fechou uma só vez aos que sofrem e pedem a remissão das suas culpas. Vamos! Abra-me a sua alma de par em par. Confie-me as suas dores, que eu as farei minhas, e ajudá-la-ei a carregá-las até aos pés do nosso pai supremo!
A embuçada, em vez de responder às palavras do confessor, deixou cair a cabeça sobre os joelhos dele, e abriu a soluçar desesperadamente.
Era um pranto convulso e sem tréguas, que lhe agitava o corpo inteiro, e que menos parecia a dor silenciosa e triste dos arrependidos, do que a explosiva revolta de quem chora pela ausência de uma ventura sensual e terrestre.
Ângelo, por sua vez, estremeceu perturbado e tolhido de alheios sobressaltas. Daquela misteriosa carne de mulher que palpitava a seus pés, erguia-se um quente eflúvio, traiçoeiro e lascivo, que lhe entontecia a alma, um odorante e luxurioso vapor de estranhos vinhos que o enleavam. Dir-se-ia que aquelas lágrimas recendiam a volúpia e que aqueles soluços eram soluços de amor, chorados no sigilo de uma alcova.
Ele ergueu-se, a embuçada segurou-lhe as mãos, cobrindo-as de beijos apaixonados.
Ângelo quis fugir. Ela, com um gesto rápido,
rejeitou o véu que lhe rebuçava as formas, e ali, no sagrado retiro daquela pobre capela de aldeia, surgiu a perigosa Alzira, a terrível condessa de gelo, mais pálida e mais sedutora do que nunca, assim humilde e triste sob a dura violência daquelas queixas de amor.
- Ó meu Deus!. . . balbuciou Ângelo de si para si, abaixando os olhos, como se estivesse defronte do demônio. Ó meu Deus, dá-me coragem! dá-me coragem!
E recuou alguns passos, estendendo o braço, como para isolar-se daquele abismo.
Nesse instante, Ozéas acabava de surgir ao fundo da capela, observando os dois, escondido por detrás de um altar. Seu peito arfava tão convulso como o peito de seu filho, mas nele o sobressalto era de outra espécie.
Ângelo, todavia, parecia calmo e senhor absoluto de si mesmo. Apenas o traíam a súbita palidez das faces e um ligeiro tremor de lábios.
-Creio, minha irmã, que nada mais tem que fazer aqui. . . disse ele pausadamente, apontando-lhe a saída. Queira retirar-se... não é este o lugar que convém às suas lágrimas... Vamos... saia, e, em benefício de sua própria alma, não torne a cometer semelhante desatino, que a faz muito mais culpada do que todas as outras maldades cometidas. Vamos! Retire-se! Este sagrado e tranqüilo recanto pertence somente aos arrependidos que sofrem!. . .
-Mas eu sofro! exclamou ela. Eu sofro muito! sofro infernalmente!
-Sofre?! inquiriu o padre, transformando-se. É talvez o arrependimento! Fale, minha irmã!
-Não! não sofro pelos delitos cometidos, não sofro pelas mortes que provoquei: sofro porque te amo, Ângelo! porque te amo loucamente!
E quis chegar-se para ele. Ângelo tornou a apontar-lhe a saída.
-Retire-se! Eu pedirei a Deus que se compadeça dos seus desvarios...
-Oh! eu te amo! eu te amo! eu te amo! soluçou ela, caindo novamente de joelhos, e procurando beijar-lhe a fímbria da samarra. Amo-te: eis o meu crime! Eis a minha grande culpa! Perdoe-me, já que tens um coração de santo! Sei que devia esconder o meu segredo e morrer com ele fechado dentro dos lábios!. . . Sei que
nenhuma esperança tenho de ser algum dia correspondida no meu desgraçado amor, porque nada mereço de um ente tão puro como és!... Mas perdoe-me! sou uma fraca mulher que nunca a mais ninguém amou, e tu o homem que pela primeira vez me acordaste o coração, e me encheste a alma de sonhos de ternura! Perdoe-me, se te amo tanto, Ângelo.
Ele escutava-a, imóvel e pálido como um cadáver. Não se lhe percebia nas feições a luta homicida que se lhe travava na alma.
-Se me amas... disse, quase em segredo cumpre com o que te vou pedir. Volta para Deus, minha desgraçada irmã, todo o teu amor de mulher! . . . Ama-o! ama-o extremosamente, e no seu peito de pai encontrarás perene manancial de consolações! Sê honesta, e serás feliz! . . . Se tens medo de ti mesma e dos que te cercam, recolhe-te a um asilo religioso e faze-te monja! E principalmente nunca mais tornes aqui, nunca mais me procures ver, se queres possuir o meu amor de irmão e o meu reconhecimento de sacerdote. Vai, e não tornes nunca mais. Adeus.
Dito isto, voltou-lhe as costas e afastou-se vagarosamente, como tinha vindo.
- Ângelo! exclamou ela com a voz suplicante.
Ele virou-se, pôs o dedo nos lábios, impondo silencio, e saiu.
Alzira, ainda de joelhos, conteve-se um instante; depois ergueu-se e precipitou-se de carreira para alcançá-lo.
Mas a veneranda figura de Ozéas cortou-lhe a passagem, surgindo-lhe de improviso pela frente.
A formosa cortesã estacou defronte daquelas barbas brancas, abaixando a cabeça e cravando os olhos no chão.
Ozéas, sem dizer palavra, alongou o braço, apontando-lhe a saída, e quedou-se imóvel nessa postura, até que ela desapareceu, lenta e silenciosamente.
Por esse tempo Ângelo ganhava o seu quarto e, caindo de joelhos aos pés da Virgem, agradecia-lhe a vitória que ele alcançara sobre os seus próprios sentidos, postos naquele dia em tamanha provação.
- Ó mãe de bondade! dizia ele com as mãos cruzadas no peito; fazei com que ela nunca mais volte a ter comigo, que nunca mais soluce sobre os meus joelhos!... Se soubesses, mãe querida, como lutei para não tomá-la nos braços e estancar-lhe com a minha boca os seus dolorosos soluços de amor!... Se soubesses como o meu coração chorava enquanto meus lábios a repeliam!... Oh, por piedade! que ela nunca mais, nunca mais me volte a ver!
E, deixando cair o rosto sabre os pés da Virgem, pôs-se a rezar com todo o fervor e reconhecimento da sua alma dolorida.
Alzira, entretanto, ao sair da capela, metera-se no carro que a esperava lá fora, c atirara-se para o fundo das almofadas, a soluçar aflita. O carro tinha de seguir para Raismes; ela mandou tocar para Paris.
Ia com o coração despedaçado. Já lhe não restava a menor esperança!. . . Ângelo a repudiava. . . Ângelo, o primeiro homem que ela amava, repelia-a, como quem repele um réptil venenoso!
Todos os sonhos daquele seu primeiro amor ruíram por terra, antes mesmo de bem vingados.
Oh! como nesse momento Alzira desejava ser pura! Como desejava ser casta!. . .
Doía-lhe fundo aquele tranqüilo desprezo com que o padre rejeitara os seus sinceros protestos de amor, acendendo-lhe, sem saber, o desejo da luta para conquistá-lo.
Se Ângelo a tivesse recebido com palavras duras, se a enxotasse da sua presença como o arcanjo do Paraíso enxotou a Eva pecadora, é possível que ela não levasse tão longe o empenho de ser amada por ele; mas só a idéia daquela frieza, daquela inalterável superioridade de ente puro e forte, que não teme solução de espécie alguma, só isso era o bastante para levá-la a não desistir da campanha e lutar até vencer ou cair morta.
-Sim! disse ela, cerrando os punhos, desesperada. Agora, dê por onde der, sofra quem sofrer, hei de vencê-lo, hei de possuí-lo, ou buscarei na. morte o completo esquecimento desta fatal paixão!
Fonte:www.bibvirt.futuro.usp.br