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ALUÍSIO DE AZEVEDO

CASA DE PENSÃO

Amâncio, nem só confessou, como disse até o dinheiro que por várias vezes emprestara ao senhorio. - Hein?! Bradou o Paiva, fazendo-se muito fino. - Queres mais claro?...E ainda tens escrúpulos, criança! Pois olha que te não fazem nenhum favor - tu pagas, filho, e pagas bem! E lembrou que não seria mau tomarem alguma coisa num botequim próximo. O outro declarou que estava ali à espera do Coqueiro. - Deixa lá o Coqueiro, homem! Tens medo de ir só para casa ?... - Mas é que não sei se me fará mal beber alguma coisa. Ainda estou em uso de remédios. - Não sejas idiota! Exclamou o Paiva, puxando-o pelo braço. Amâncio deixou-se levar, não tanto pelo prazer da companhia, como pela circunstância de se livrar do Coqueiro, o que lhe dava esperanças de ver Lúcia ainda essa tarde. No café, defronte dos copos, a conversa voltou de novo à gente de Mme. Brizard. - Gentinha! qualificou o Paiva, atirando a palavra com o desprezo de quem lança fora o sobejo de um copo. E, depois, entornando os lábios, numa obstinação torpe: - A questão está no pagamento! Amâncio riu. Sentia-se feliz; aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento, os cálices de xerez, as palavras degotadas do Rocha; tudo isso lhe picava o espírito com uma pontinha de alegria devassa. Seus gostos, suas tendências luxuriosas, volviam-lhe em revoada, como pássaro de arribação. Ficou expansivo, disposto aos desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se passara com ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras de Amelinha com sua pessoa, os pequenos cuidados amorosos, as pequeninas frases significativas; narrou minuciosamente as cenas com Lúcia e disse que, ao sair do café, iria visitá-la à Tijuca. - Está claro! Trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca do chão de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os pés cruzados. - Eu, no teu caso, já teria desforrado melhor os cobres! - Achas então que eu devo?... - Ora, filho, é o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes temos conversado! Eu cá só acredito numa castidade - a da velhice!... tirando daí... e concluiu a sua idéia com um gesto feio. Amâncio já recorria à moléstia para justificar aos olhos do amigo a atitude respeitosa que ocupara ao lado de Amélia - o colega que não o julgasse um tolo!... Mas que diabo havia ele de fazer, tolhido de dores, como estava, numa cama?... Quando se despediram, o Paiva deu a entender que precisava de dinheiro; mas Amâncio negou-o, apesar de bem provido, dizendo com voz triste que "sentia muito não poder servir naquela ocasião". O outro, sem mais querer ouvir coisa alguma, retirou-se logo.

* * *

Amâncio, assim que se viu livre, correu a tomar um tílburi e bateu para a casa de pensão, onde estava Lúcia. Era um palacete, com magnífica aparência. Janelas de sacada, grande corredor ladrilhado de mármore e velhas escadarias encentradas de tapete de oleado, preso a cada degrau por um fio de metal amarelo. Foi recebido cerimoniosamente no salão por uma mulheraça muito gorda, de luneta, extremamente degotada, mostrando entre as almofadas do peito ramificações de veiazinhas escarlates, que pareciam miniaturas de árvores secas desenhadas a bico de pena. Em um dos braços luzia-lhe uma jóia e, por debaixo do vestido de cambraia, aparecia-lhe o pé quase redondo e empantufado de veludo azul. Tinha a voz grossa, cheia de uu, e o lóbulo do queixo coberto de penugem negra. Ai saber que Amâncio não ia com a intenção de tomar algum cômodo, mas sim para falar com Lúcia, retirou-se sacudindo os rins; e da sala o estudante lhe ouviu gritar ao criado "que fosse prevenir à senhora do Sr. Pereira de que aí estava um cavalheiro que lhe desejava falar". Lúcia mostrou-se no fim de meia hora, a pedir mil perdões por se haver demorado mais um pouco. Fizera toilette especial para recebê-lo e parecia muito lisonjeada com a visita. Declarou, logo, que o achava mais gordo, de melhor fisionomia. - Abençoada moléstia, a dele! E, em resposta ao que o rapaz lhe perguntava sobre aquela nova residência , elogiou muito a casa, o serviço. "Sempre era outra coisa! Nem havia termo de comparação entre esta e a de Mme. Brizard!" Amâncio voltou-se todo na cadeira, considerando a sala. Uma rica sala, apesar de velha, - grande , espelhada, cortinas de ramagem, consolos cobertos de jarras com flores artificiais de pena. A um dos cantos um

piano antigo e no centro do teto de estuque, no lugar donde espipava o lustre, um grande escudo de cores, rebentando em cabecinhas de anjos. Falaram logo sobre as novidades da casa de pensão do Coqueiro: a saída dos hóspedes, a morte do tísico, a mudança para Santa Teresa. - Você ali está seguro!... disse Lúcia. O estudante protestou com um gesto, em que já havia alguma coisa das revelações que pouco antes lhe fizera o Paiva Rocha. E, discutindo os amores de Amelinha, foram pouco e pouco empurrando a conversa para o verdadeiro motivo da visita, até que Amâncio conseguiu tratar de si, das suas saudades do quanto desejava Lúcia, do quanto sofria por causa daquela ingrata que ali estava! - Mais baixo! Olha que te podem ouvir!... ele então chegou-se mais para a ilustrada senhora, tomando-lhe as mãos que cobria de beijos, e, no seu ardor, com a voz abafada, os olhos acendidos, procurava arrancar-lhe uma resposta definitiva, uma palavra qualquer que o restituísse por uma vez à tranqüilidade. - Está quieto! Respondeu a tirana. - Está quieto! E, vendo que o demônio não a escutava, em risco de comprometê-la aos olhos de quem por acaso entrasse na sala, propôs mostrar-lhe a chácara enquanto esperavam pelo jantar. - Que ela já o não deixava sair sem ter jantado!... Havia duas descidas; uma pelo corredor e outra pela varanda. Tomaram por resta. Lúcia, muito disfarçada, ia-lhe apontando os cômodos e as benfeitorias da casa, com tanto empenho e gosto como se fora mesma a proprietária; mostrou-lhe o banheiro, os tanques para a lavagem de roupa, o coradouro, o cercado das galinhas e por último o jardim. Colheu logo uma rosa e, por suas próprias mãos enfiou-a na gola do fraque de Amâncio. Em seguida atravessaram a hora. Canteiros grandes, cobertos de verdura, saturavam o ar de um cheiro de hortaliças. As alfaces brilhavam ao sol dourado de julho. Mais para adiante havia um sombrejar melancólico e deliciosos de árvores grandes; era a chácara; viam-se no ar as folhas largas e recortadas da fruta-pão faiscarem, como lâminas de metal brunido; ao passo que as bojudas mangueiras se debruçavam sobre a terra numa concentração pesada de sono. Os dois prosseguiram de braço dado por entre o murmurejar tristonho daquelas sombras. E lentamente, e sem trocarem uma palavra, se deixaram ir até a espalda de um morro, que servia de limite à chácara. Havia um grosseiro banco de pau meio escondido entre bambus e trepadeira. Assentaram-se. Um fio de água corria da montanha e os passarinhos remigiavam trilando na mole embalsamada das estevas. Amâncio passou um braço na cintura de Lúcia e chamou-lhe o corpo para junto do seu. Ela deixou-se arrebatar, bambeando a cabeça, num encontro apaixonado de lábios. O rapaz parecia louco no seu desejo. - Não! Isso não! dizia a outra. - Mostra que é um homem de espírito! Não se queira confundir com esses materialões que há por aí! Ele opunha as razões que lhe vinham à cabeça para justificar os seus rogos: "Lúcia que não quisesse desvirtuar o amor, o verdadeiro amor, fazendo de um sentimento real e fecundo uma pieguice romântica e desenxabida". Lembrou-lhe o que ela própria dissera, quando pela primeira vez estiveram juntos. E, num esfolegar febril e ruidoso, suplicava-lhe um pouco de compaixão, ao menos; que não o torturasse daquele modo; que não o obrigasse a sucumbir ao desespero de sua paixão! Lúcia não entendeu. - Ele que deixasse a casa de Mme. Brizard e viesse tomar um cômodo ali na Tijuca. Assim ... bem! Mas, naquele momento e naquelas circunstâncias... Não! não! e não! Apesar de enérgica recusa, Amâncio insistia sempre. - Não seja teimoso, repreendeu ela, arrancando-lhe as saias da mão. - Oh! ele, porem, não se desenganava e até já recorria à violência. - Pior! Disse a mulher, notando que o estudante lhe desgrenhava os cabelos e machucava-lhe as roupas. - Já não vou gostando muito da brincadeira! E, a um movimento desabrido do rapaz: - Ora pílulas! Isso agora também já é estupidez! Amâncio ao lado bufava, imóvel, emitindo sobre ela olhares de cólera. - O senhor faz-se desentendido! Exclamou Lúcia, afinal, endireitando o penteado e armando as lunetas. - Há muito devia compreender que nada alcançará de mim, enquanto eu estiver com meu marido! - Marido o quê! Desmentiu o provinciano, com a voz sufocada. - Tão marido como eu! Lúcia olhou para ele, apertando os olhos.

- É isso! Sustentou aquele. - Sei de tudo! A senhora quer fazer de mim um tolo, pois fique sabendo que não faz! Trate de arranjar outro, porque comigo perde o seu tempo! Ela o mediu de alto a baixo, levantou desdenhosamente o lábio superior, e afastou-se com um grande ar emproado e senhoril, murmurando entredentes. - Ordinário! Amâncio calcou o chapéu sobre os olhos, e, de cabeça baixa e passos lentos, retomou pelo caminho andando, a fustigar com a bengala as ervínculas da estrada. Saiu pelo portão da chácara. Já na rua, sacudia os ombros e disse a meia voz: - Que a leve o diabo!

XV

O rapaz acordou muito bem disposto no outro dia, estava, ou pelo menos parecia, restabelecido completamente. Os ares tonificantes da Santa Teresa produziram-lhe efeitos miraculosos. - Até que enfim podia mandar ao diabo os xaropes e as tisanas que, de tempos a essa parte, lhe melancolizavam a vida e relaxavam o estômago. E, ainda, metido entre os lençóis, na matinal preguiça das sete e meia, dispunha-se a filosofar sobre o ridículo episódio da véspera, quando um leve rumor na porta do quarto lhe desviou o curso das idéias. Era a menina que trazia o café. Viu-lhe a pálida mãozinha medrosamente surdir por entre a fisga da porta mal cerrada, para depor no chão, como era de costume, a chávena de porcelana. Amâncio. porém, desta vez saltou da cama e, correndo da gatinhas, a empolgou nas suas. A mãozinha quis fugir, ele não consentiu, e com ela veio um braço que as folhas da porta arremangavam. Começou a beijá-lo sofregamente, desde a ponta dos dedos até os bíceps; enquanto Amélia, sempre escondida ia consentindo, toda ela arrepiada em cócegas. - Um beijinho...pediu ele mostrando o rosto. - Logo! - Com certeza?... - Com certeza! E a pequena desapareceu muito ligeira, - tique, tique, tique, pela escada. Pouco depois combinaram a primeira entrevista. Ela subiria ao sótão, logo que a casa estivesse completamente recolhida. Amâncio que a esperasse no escuro e com a porta do quarto apenas cerrada. O rapaz não pôde ficar tranqüilo mais um instante. As horas nunca lhe pareceram tão longas e as conversas tão intermináveis. Um sobressalto feliz perturbava-o todo, tirava-lhe o apetite e não lhe permitia um pensamento que não fosse cair aos pés de Amélia. Por maior caiporismo, o Dr. Tavares tinha essa noite uma visita que parecia disposta a não largá-lo. Era um velho de sua província, muito falador de política, apaixonado pelas eleições, pelos conservadores, mas que, nem à mão de Deus Padre, pronunciava os rr e os ss e dizia: "Os partido liberá, os senadô", e outras barbaridades. - Quando se irá este cacete?...pensava Amâncio, trêmulo de impaciência. E o Tavares a puxar pelo demônio do homem, a fazer-lhe perguntas sobre perguntas e a despejar contra ele a sua retórica inexaurível. Até o guarda-livros que às vezes passava dias e dias sem dar uma palavra, estava essa noite disposto a falar pelos cotovelos. Ainda pilhara o chá e, repimpando na cadeira, com um brilhante a luzir num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava a respeito dos seus projetos de casamento. "Sim, que ele, havia coisas de ano e meio, estava para desposar uma linda menina e de educação esmeradíssima. Já há tempos a pedira!... Só esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze anos, lhe desse sociedade, como aliás, havia já prometido. - Ah! Toda a sua ambição era fazer família! Que vidinha melhor que a do casado?...o matrimônio era um complemento do homem...A gente enquanto moça não sentia a falta da esposa, mas depois?...quando chegasse a velhice?...Aí é que seriam elas! Não! não podia admitir um eterno celibato!...A vida do solteiro tinha seus encantos, tinha, para que negar?...os espinhos, porém, eram em maior número; se eram!... E citava os casos. Amâncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia esperar no quarto. Deram onze horas. Amelinha pediu licença e também se recolheu. Mme. Brizard, à cabeceira da mesa, já bocejava, entretendo os dedos, a fazer pílulas das migalhas de pão que ficaram do chá; o marido, ao lado dela, estudava mecânica racional.

Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar o César para a cama. O guarda-livros apertou as mãos de todos e sumiu-se; o sujeito dos partido liberá , a despeito das insistências do amigo, despediu-se igualmente e, quando o advogado, que o fora acompanhar até o portão da chácara voltou à varanda, já não encontrou ninguém. Em pouco a casa era todo silêncio e trevas. Então, Amelinha, deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as saias e galgou a escada do sótão. Amâncio, que a esperava na porta, logo que a teve ao alcance da mão, puxou-a para dentro, e deu uma volta à fechadura.

* * *

Desde esse momento, a vida em casa de Mme Brizard tornou-se para ele uma coisa muito agradável. Ninguém mostrava desconfiar, ao menos, de suas intimidades com Amélia, que pelo seu lado parecia satisfeita com o estado de coisas. Só uma ligeira circunstâncias covardemente o arreceava: É que a pequena não lhe exibira em quarta ou quinta edição, como dizia o Paiva, mas em comprometedoras primícias, com todos os cruentos requisitos de uma estréia. Fugiu o primeiro mês de lua-de-mel, sem o menor eclipse. Contudo, ele agora puxava um pouco mais pela bolsa: a família estava em crise; a pensão de Nini absorvia os proventos que se obtinham do Tavares e do guarda-livros; o casarão da Rua do Resende apenas se conseguira alugar em parte; os gêneros de primeira necessidade eram mais caros em Santa Teresa. Mas que valia tudo isso posto em confronto aos gozos que lhe proporcionava a deliciosa rapariga? Ela parecia viver exclusivamente para lhe dar carinhos e afagos. Era como se fora sua esposa; deixava tudo de mão para só cuidar do amante. - Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena lhe fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d'água, penteava-lhe os cabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que dava, por onde estivera, com quem falara e o dinheiro que gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras, lia-lhe as cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas. Amâncio sorria de tais ciúmes, com o ar seguro de quem desfruta em paz uma felicidade legítima e abençoada por todos. Já não furtava beijinhos assustados por detrás das portas; não roçavam os joelhos por debaixo da mesa, e não se serviam das mãos como instrumentos de amor; guardavam-se para as liberdades da noite, para a independência do quarto. Na ocasião, porém, em que ele saia para as aulas ou à noite para o passeio, beijocavam-se, sempre, como dois bons casados. Entretanto, as épocas de exame batiam à porta. Amâncio vivia em desassossego com os seus estudos tão mal apercebidos; mas o Coqueiro dava-lhe coragem, ensinando-lhe como devia proceder, dizendo-lhe o que devia estudar de preferencia, aconselhando-o a que não tivesse medo. "Amâncio que se apresentasse de cabeça erguida: o bom êxito nos exames dependia quase sempre do desembaraço mais ou menos atrevido do concorrente!" E citava exemplos: "Fulano que apenas conhecia dois pontos de tal matéria, chimpara distinção, só porque era de um descaramento imperturbável; ao passo que sicrano, apesar de muito bem preparado, não conseguira passar com a sua vozinha trêmula e o seu todo raquítico e assustado!" Um novo acontecimento veio, porém, desviar Amâncio daquela preocupação: por telegrama de sua província, constou-lhe que o velho Vasconcelos morrera de beribéri fulminante. Os pormenores chegaram no primeiro vapor: "Vasconcelos fora atacado como hoje e morrera como depois de amanhã. Ia pela rua, muito senhor de si, quando, de repente, sentiu afrouxarem-se-lhe as pernas e teria desabado no chão, se dois homens que passavam não o socorressem prontamente. "Foi recolhido à primeira casa, que era felizmente de um amigo. Meia hora depois já lhe principiava a faltar a respiração: a moléstia subia, ameaçando-lhe o estômago. Fez-se uma junta de médicos; ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda de tempo, para qualquer parte, - Caxias, Rosário, mesmo Alcântara, a Vila do Paço, que fosse; contanto que saísse da cidade, quanto antes, até aparecer um vapor que o levasse para mais longe. "Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direção à Vila do Paço. Mas o terrível beribéri subia sempre; os membros por onde ele atravessava iam ficando paralisado e frios como membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa torácica, Vasconcelos não pôde respirar de todo e morreu". Amélia, ao receber a inesperada notícia, rebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado. O irmão também se vestiu de preto, fez cerrar as portas e as janelas da casa por sete dias e, durante esse tempo, andou tristonho e anojado.

* * *

Amâncio perturbou-se deveras com a morte do pai. Há bastante tempo mentalizava projetos de , em voltando à província, tratá-lo de modo tão carinhoso e tão amigo, que sua consciência ficasse, por uma vez, tranqüila a esse respeito. Havia no segredo de tal intenção o sabor inefável de um voto religioso. E seus planos, assim malogrado de repente, enchiam-lhe agora o coração de tristeza e as noites de sonhos tormentosos. Mas Amelinha lá estava para o consolar, para lhe reprimir os gemidos com a polpa vermelha de seus lábios, e espantar-lhe os negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com a doçura cristalina de suas palavras. Veio o Campos. Trataram longamente do "triste acontecimento": Amâncio queria dar um pulo ao Norte: a mãe com certeza precisava dele as seu lado, quando mais não fosse para tratar do inventário. O negociante já não compreendia assim: " Estavam a chegar os exames; Amâncio, ase saísse da Corte naquele momento, perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria esperar pelas férias. Pois então! eram mais alguns dias de demora que não prejudicavam a ninguém!..." Coqueiro pensava do mesmo modo. "Nem o colega encontraria alguém com um bocadinho de juízo que lhe aconselhasse uma semelhante viagem antes do ato. Era até loucura pensar nisso!" Cruzaram-se cartas entre o Rio de Janeiro e Maranhão. Amâncio foi considerado maior pelo Juiz de órfãos, podia receber o que lhe tocavas na herança. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe sociedade em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e insti5tuiu na província um advogado de confiança para lhe curar os bens. Escolheu-se o Dr.Silveira, o dos cabelos pintados, aquele mesmo que, no dia do exame de português, se mostrara tão entusiasmado pelo rapaz. Até que enfim estava Amâncio livre e senhor de sua bolsa; podia gastar à farta, sem sofrer daí em diante as peias da mesada. E não o amedrontava igualmente o risco de cair na penúria, porque ainda havia para reserva o que tinha a herdar da mãe e da avó. Os carinhos e as solicitudes da família Coqueiro inflamaram-se, já se vê, com os últimos acontecimentos. O estudante era cada vez mais adulado e em compensação mais explorado. Agora, o irmão de Amélia não punha o menor escrúpulo lhe aceitar os obséquios e a casa ia ficando a pouco e pouco às costas do provinciano. Era sempre por intermédio de Amélia que ele sofria a cardadura. Hoje tratava-se do aluguel da casa, amanhã seria a conta do Eiras, depois a dos fornecedores; se entrava um barril de vinho para a despensa, ou um saco de feijão; se aparecia um novo aparelho de porcelana à mesa do almoço ou do jantar, Amâncio ficava à espera da fatura que, à noite, impreterivelmente, passava as mãos da rapariga para as suas. Amelinha, essa então, já não procurava rodeios para lhe arranjar as coisas. Quando precisava de um vestido, de uma jóia, de um chapéu, dizia-lhe secamente:" Deixe-me tanto, que amanhã tenho de fazer compras". E as despesas das casa recrudesciam, à proporção que minguavam os lucros. O guarda-livros despedira-se, porque afinal chegara a época do seu casamento, e ninguém o substituiu; só ficou advogado que deixaria por mês, quando muito, uns duzentos mil-réis. Amâncio ia suportando a carga silenciosamente, certo de que não encontraria dificuldade em despejá-la, assim que a coisa lhe cheirasse mal. Todavia, o dinheiro era já o único recurso de que dispunha para fazer calar a amante, quando esta lhe falava em casamento. Em tais ocasiões, a rapariga chorava quase sempre; dizia-se infeliz; queixava-se da sorte. "Que Amâncio fora a sua perdição! Que ela cedera aos rogos dele na persuasão de que era amada e de que mais tarde seria sua esposa!" - Ora, filha! Nós, antes de cairmos na asneira em que caímos, não tocamos uma só vez em casamento! E , se queres que te diga com franqueza, eu até nem supunha ser o primeiro com quem tivesses relações!... Ela irritava-se ao ponto de ameaçá-lo com um escândalo. Amâncio que se não enganasse, pois que havia um João Coqueiro sobre a terra! Ele que não caísse no descoco de querer desampará-la, porque então as coisas lhe sairiam mais atravessadas! Estas rezingas terminavam sempre por uma nova exigência de Amélia. E já não se contentava com um chapéu ou com um par de botinas, queria vestidos de seda, jóias de valor e dinheiro para gastar. Uma noite, Amâncio ficou abismado por lhe ouvir falar na compra de um chalé nas Laranjeiras. - Sim! reforçou ela, ao perceber que o rapaz não tomava a sério suas palavras. - Despedia-se o Tavares e ficaríamos à vontade por uma vez! Eu não estou satisfeita aqui!... Ele tornou a sorrir. - Amélia com certeza estava gracejando...

Mas a rapariga jurou que não, recorrendo a todos os segredos de sua ternura. Afinal, vendo que o amante não cedia, zangou-se como de costume. - Tu assim o queres; disse arrancando-se dos braços dele,- pois bem, tu assim o terás! Amanhã hás de ver o que sai nesta casa! Amâncio encolheu os ombros. - Não te importas?! Pois veremos quem tem razão!! E limpando os olhos: - Ingrato! Por que sabe que a gente o estima, abusa deste modo! Tola fui eu em me deixar seduzir!... - Eu não a seduzi! Ora essa! - Até fez mais, replicou ela - Desonrou-me! - Pois desonrada ou seduzida, não tenho dinheiro para comprar casas! Amélia saiu essas noite do quarto do estudante ameaçando fazer estourar a bomba no dia seguinte. E, pela manhã, quando Amâncio , ao seguir para as aulas, lhe foi dar o beijo favorito, . ela muito amuada, voltou o rosto, resmungando "que a deixasse". O rapaz prometeu que "ia pensar" e à noite daria uma resposta. Mas nessa noite, Amélia, pela primeira vez, depois do seu novo estado, não se apresentou às horas habituais no quarto do estudante. Amâncio, sem perder as esperanças de a ver surgir de um momento para outro e precipitar-se-lhe nos braços, não conseguira ficar tranqüilo. Aquele procedimento, vindo de quem vinha, o revoltava como a mais infame das ingratidões! Ouviu dar três horas, quatro, cinco. Não se conteve, levantou-se, pisando forte, desceu à varanda e foi bater à porta de Amélia. Nada. Bateu mais rijo. - Que é?! Perguntou ela asperamente. - Preciso falar-lhe. - Não são horas para isso! - Ouça! Quero dizer-lhe uma coisa... - Não tenho negócios! Entenda-se com meu irmão! Amâncio voltou ao quarto, desesperado. Não que o acovardassem as ameaças da rapariga, bem percebia que as suas relações com ela não eram em casa nenhum segredo e, além disso, desde que aceitavam o pagamento, - ora adeus! nada podiam dizer! Mas apoquentava-se com a falta que já fazia o diabrete da pequena. Habituara-se a dormir ao calor perfumado daquele corpinho branco, ajeitara-se ao cômodo amor daquela mulherzinha nova e palpitante e, agora, não podia voltar, assim sem mais nem menos, às suas tristes noites desacompanhadas do outro tempo. Acordou muito tarde no dia seguinte. Amélia , quando ele saiu do quarto, não lhe deu palavra; estava arrumando uma caixa de retalhos, e arrumando ficou. Mme. Brizard havia saído para ver Nini. - O Coqueiro e os hóspedes se achavam também na rua. - Então o senhora não me quer falar? Perguntou Amâncio, fitando-lhe as costas. Ela interrompeu o que cantarolava e, sem se voltar, disse friamente: - A culpa é sua ... E continuou a cantarejar, muito embebida nos seus retalhos de fazenda. Aquele desdém, namorado e artístico, a tornava ainda mis desejável aos olhos do rapaz. Parecia-lhe até mais vela esse dia; como se os seus encantos, intervindo na perrice, florejassem caprichosamente durante aquela noite de soledade. Amâncio nunca lhe achou a pele tão fina, os dentes tão brancos, os olhos tão vivos e tão formosos. O pálido e ondulante pescoço da menina jamais lhe pareceu tão misterioso: a sua garganta, macia e doce, jamais o cativara tão despoticamente. Ele, enfim, nunca a sentira tão necessária, tão indispensável. E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe perpassaram vertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe por todo o corpo um apetite brutal de readquirir, no mesmo instante, aquela riqueza, que lhe fugia por entre os dedos, como um vinho precioso que se derrama. - Então a culpa é minha?...disse ele, afinal, apalpando com a vista a carne esperta dos quadris e dos braços da amante. - Pois você não vê, respondeu ela, voltando-se espevitada - que as coisas não podem continuar como até aqui?! É uma canseira insuportável! Quase que já não durmo! Preciso esperar de olho aberto que toda a casa ser recolha e recolher-me ao quarto antes que os mais se levantem! O resultado é que não descanso; ando tresnoitada;

estou enfraquecendo! Já tenho até uma dor do lado. Quem pode com esta vida?! Ah! você não sente, bem certo! Porque muita vez o encontro a dormir, e dormindo o deixo quando saio! Mas eu?! Se quero que não aconteça como outro dia (que nem sei como não deram pela coisa !) o remédio que tenho é ficar alerta e não deixar que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! Vê você?! - Mas daí?...perguntou Amâncio, no fundo compenetrado de que "a pobre menina" não deixava de ter o seu bocadinho de razão. - Daí...esclareceu Amélia, - é que nessa tal casa de que lhe falei, e que está para se vender muito em conta, há, além dos cômodos necessários para Loló e Janjão, dois quartos magníficos, com entradas independentes e comunicáveis entre si por uma pequena alcova. Ora, um dos quartos dá para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar; no caso de que arranjássemos o negócio, você ficaria com um e eu ficaria com o outro, e dessa forma acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante o dia abriam-se as portas do lado de fora e fecham-se as de dentro, mas à noite praticava-se justamente o contrário, e ficávamos nos em completa liberdade! Compreende você agora?... - Sim, Amâncio compreendia e até achava o plano muito bem lembrado, mas a questão é que não via necessidade d comprar a casa, era bastante alugá-la... - Sim, sim! mas é que o dono não a aluga, quer vendê-la. E onde ia você encontrar outra casa nessas condições?... - Hei de passar por lá... - Não. Vamos hoje mesmo, à tarde. Loló já prometeu que nos acompanha. - Pois sim. E Amâncio puxou Amélia pelo braço, para lhe dar um beijo. - Deixe-me...rezingou ela, ainda com um restinho do arrufo. Você só cuida de si e das suas comodidades...Egoísta! - Não digas isso, meu bem! - Pois não é assim?! Qual foi a vontade séria que você já me fez? É bastante que eu mostre gosto numa coisa, para você fazer justamente o contrário...Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei tudo que possuía! E começou a chorar, muito infeliz, a dizer que Amâncio tinha razão! - Ninguém lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se entregado senão depois do casamento! E as suas lágrimas enxugavam-se nos lábios dele. E assim ficaram alguns minutos, até que Amélia, de repente, se lhe tirou dos braços e, abrindo distancias, declarou de longe, em plena atração de seus encantos, que "não faria nenhum caso de Amâncio enquanto não possuísse o chalé". Nessa mesma noite ficou assentado que o rapaz, em nome da amante, compraria a casa das Laranjeiras.

* * *

Com efeito, umas semana depois, tratava-se da escritura de compra. O negócio correu a galope, visto que a propriedade era de um pândego sequioso por dinheiro. Podiam cuidar logo da nova mudança; Amélia, porém, não consentiu em tal, sem que se realizassem umas tantas benfeitorias que a "sua" casa reclamava; substituir, por exemplo, o papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe água, que não havia, e fazer esteirar os aposentos destinados para si junto com seu homem. Mas Amâncio não podia distrais tempo com essas coisas: andava muito absorvido pela idéia dos exames que se aproximavam. Ultimamente viera-lhe uma febre de formatura, queria a todo o custo "passar "no primeiro ano. - Também era só do que fazia questão, "passar no primeiro", porque, quanto aos outros, tinha certeza de se preparar melhor e com mais antecedência. agora, lamentava o tempo perdido na preguiça e na moléstia; dava ao diabo os seus amores, e vivia numa dobadoura a arranjar empenhos e cartas de proteção. Agarrou-se ao Campos; agarrou-se àquele Dr. Freitinhas (do baile do Melo ) que era unha com carne de um dos examinadores. E furou, e virou, e percorreu amigos e desconhecidos, até se julgar "garantido'" . Então, pagou a Segunda matrícula e entregou-se de olhos fechados a destino. "Seria o que Deus quisesse!" Era ,pois, o Coqueiro quem dirigia as obras da casa da irmã. O metódico rapaz sempre tivera paixão por esse gênero de trabalho. - Se fosse rico, afirmava ele, - muito prédio havia de fazer, só pelo gostinho de acompanhar as obras!

XVI

Chegou, finalmente a véspera do amaldiçoado exame. Que ansiedade! Que de angústias para o pobre Amâncio! que noite, a sua! - Não descansou um segundo; apenas, já quase ao amanhecer, conseguiu passar pelo sono; antes, porém, não dormisse, tais eram os pesadelos e bárbaros sonhos que o perseguiam. Via-se entalado num enorme rosário de vértebras que se enroscava por ele, como uma cobra de ossos; grandes tíbias dançavam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas nas pernas; as fórmulas mais difíceis da química e da físicas individualizavam-se para o torturar com a sua presença; os examinadores surgiam-lhe terríveis, ríspidos, armados de palmatória, todos com aquela feia catadura do seu ex-professor de português no Maranhão. Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acadêmico amesquinhava-se às ridículas proporções do exame de primeiras letras. Era a mesma salinha do mestre-escola, a mesma banca de paparaúba manchada de tinta, o mesmo fanhoso Sotero dos Reis presidindo a mesa, João Coqueiro, o Paiva e o Simões, vestidos de menino, fitavam o examinando com um petulante riso de escárnio. Amâncio sentia corre-lhe o suor por todo o corpo e agulhas invisíveis penetrarem-no até à medula. O professor, transformado em juiz e ostentando as feições do falecido Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas as suas perguntas, em vez de concernirem às matérias do ato, só se referiam a Amélia. - Por que matou você a pobre menina?! Bramia o pai cravando-lhe olhares de fogo: - Responda, seu canalha! Responda! Ah! Pensa que ainda não sei de que você, para melhor a seduzir, lhe havia prometido casamento e jurado olhar sempre para ela, seu cachorro?! O Coqueiro ,lá do canto, sacudia a cabeça afirmativamente e enviava a Amâncio caretas de vingança. Ao lado deste, o cadáver de Amélia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe gotejava golpeava de golpejava de um dos seios rasgados de alto a baixo O réu queria responder, justificar-se, expor a verdade; eram, porém, baldados os seus esforços: não consegui articular uma palavra; gelatinava-se-lhe a voz. na garganta ,empacando-lhe a fala. - Bem! Gritou o velho Vasconcelos à meia dúzia de soldados que escoltavam Amâncio. - Conduzam esse miserável ao cepo e cortem-lhe a cabeça! O estudante atirou-se de joelhos, com as mãos postas, chorando, suplicando que o não matassem. mas os soldados apoderaram-se dele com violência e ataram-lhe os braços. O Juiz, Coqueiro, Simões, o Paiva, sumiram-se de repente, soltando gargalhadas. Amâncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado; os soldados, quando o percebiam vacilar, batiam-lhe no ombro com a coronha das espingardas. Chegou a um pátio lajeado e úmido, onde milhares de homens armados formavam alas; no centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia um machado à sua espera; e, de joelhos, abraçado a um crucifixo, um padre velho, de longos cabelos brancos, engrolava latins Fizeram silêncio. No meio das respirações abafadas, só se ouviam os passos trôpegos e o aflitivo resfolegar do condenado que, à ponta de baioneta, subia os degraus do cadafalso. Veio o carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e empunhou o ferro. Amâncio não se resolvia a entregar o pescoço, mas o velho Vasconcelos, que surgira por detrás dele, atirou-lhe um murro à nuca e fê-lo cair de bruços contra o cepo. Então, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados num rufo estridente de tambores. Amâncio sentiu o aço frio entrar-lhe na carne do toutiço, espipar o sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se às lajes.

* * *

Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador , que ficara de véspera com toda a corda para as seis da manhã, continuava o rufo penetrante dos tambores. O estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a mão pela testa; os dedos voltaram ensopados de suor. Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos saindo daquele estado de excitação, mas voltando lentamente à taciturna agonia da véspera. Vestiu-se quase sem consciência do que fazia; esqueceu-se até de escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros, sem aliás, conseguir firmar a atenção sobre coisa alguma.

E Amâncio tremia todo só com a idéia de sua inabilidade. À medida que as horas se esgotavam e o momento fatal se lhe antepunha, um langor covarde e mulheril crescia dentro dele, produzindo-lhe arrepios que principiavam na ponta dos pés e iam-se estendendo pela espinha dorsal, até lhe interessar a cabeça, depois de percorrer as regiões abdominais. Mas embaixo, na varanda, em presença de Amélia e Mme. Brizard, fazia-se forte, a despeito da palidez que lhe alterava as feições. Nem de leve falou nos sonhos dessa noite, e o Coqueiro, a título de metê-lo em brios, contou várias anedotas de examinandos ridículos. Os dois tomaram café e por fim saíram. O trajeto de casa à escola foi um martírio para Amâncio, afigurava-se-lhe, como no sonho, que se dirigia ao patíbulo. Chegou às dez horas. Alguns companheiros de ato já lá estacionavam em magotes de quatro e cinco pelos corredores ou à porta da secretaria; fumavam-se cigarros consecutivos, discreteavam-se os assuntos da ocasião. Amâncio cumprimentou os conhecidos, parando aqui e ali falando sobre os pontos do exame; - qual preferia que saísse, em qual se presumia menos fraco e capaz de fazer figura. Agora, sim, estava mais animado; a presença dos colegas o robustecia com um vago espírito de coletividade. Sentia-se maios forte e resoluto ao lado dos companheiros de perigo, como se a vitória dependesse do número de combatentes. Entretanto, faziam-se horas. Os examinadores estavam já reunidos na sala de exames, em torno da sua mesa forrada de pano verde. Amâncio lobrigava-os pela frincha da porta entreaberta e ouvia-lhes o murmurar descuidoso da conversa, intercaladas de risotas e baforadas de charuto À vista daqueles homens resfriaram-lhe de novo as mãos e voltaram-lhe os calafrios do terror, algum resto de confiança, que ainda teria em si, evaporou-se de todo. E, para não sucumbir, procurava acreditar na eficácia dos empenhos que arranjara; seu espírito, como o náufrago que braceja nas agonias da morte, já não escolhia os pontos a que se agarrava; tudo ser ia naqueles apuros, tudo era pretexto de esperança; mas a consciência da verdadeira situação vinha meter-se-lhe de permeio, arrancando, uma por uma, todas as tábuas de salvação. E Amâncio arquejava, desorientado, perdido. - Que diabo viera fazer ali?! Para que se apresentara? por que não se guardou para o ano seguinte ou, quando menos para março? Antes não tivesse pago a Segunda matrícula! Oh! se o arrependimento salvasse!... E, `proporção que se avizinhava o momento supremo, mais e mais imprudente lhe parecia a sua temeridade. - Naquela ocasião, pensava ele, - bem podia estar na província, à testa dos seus negócios, ao lado de sua querida mãe, passeando, rindo, gozando, como nos outros tempos!...Era rico, era já tão estimado antes da academia, para que então sofrer semelhantes torturas, passar por aqueles maus quartos de hora, que ali estava curtindo?... E vinham-lhe venetas de fugir, abandonar tudo aquilo, sem dar satisfações a ninguém, correr à casa do Campos, encher-se de dinheiro e arribar para a Europa, para o inferno! Contanto que se livrasse da obrigação de expor uma ciência que não tinha, escrever idéias de que não dispunha! Mas o bedel havia surgido e principiava a "chamada", e, a cada nome, recitado pausadamente, o seu olhar mórbido, de funcionário público no cumprimento de um velho dever enfadonho, consultava a multidão de estudantes, que em sussurros se apinhava pelo esvazamento das portas, empurrando-se uns aos outros, impacientes, curiosos, o pescoço espichado, a boca aberta, o calcanhar suspenso. - Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, disse aquele arrastando a voz. Amâncio sentiu uma pontada no coração e tartamudeou: - Presente. Os companheiros, que lhe ficavam por diante, arredaram-se logo, dando-lhe passagem, e ele foi ocupar uma das banquinhas que havia na sala. A chamada ainda durou algum tempo, porque Amâncio era dos primeiros; afinal, o bedel mastigou o último nome; fecho-se a porta da sala; e um silêncio formalista espalhou-se entre a turma dos estudantes e o grupo dos examinadores. O presidente da mesa tomou a lista dos examinandos, arranjou os óculos, tossicou e, com um bocejo, chamou pelo que estava em primeiro lugar.

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