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FILOMENA BORGES

aluísio de azevedo

I

FLORES DE LARANJEIRA

O Borges não cabia em si de contente no dia de seu consórcio com a filha de D. Clementina.

Estava a perder a cabeça - ia e vinha por toda a casa, radiante, cheio, abraçando os convidados, forçando-os a participarem daquela felicidade que marcava a melhor e a mais extraordinária época de sua vida.

Era homem de meia idade, quarenta a quarenta e cinco anos, robusto, socado, fisionomia franca e extremamente bondoso, movimentos acanhados de quem não convive em alta sociedade, e um perene sorriso de dentes puros e perfeitos.

Usava o bigode rapado e uma barbinha de orelha a orelha, por baixo do queixo, o que o fazia parecer mais feio e mais velho. Nunca saía de suas calças de brim mineiro, do seu invariável paletó de alpaca, dos seus sapatões de bezerro e do seu chapéu do Chile. Um enorme guarda-chuva sempre debaixo do braço.

Todo ele estava a revelar a sua infância no campo, descalço, o corpo à vontade, as madrugadas feitas de pé, ao primeiro sol.

Nascera em Paquetá, onde se criou à larga com leite de jumenta, e onde residiu até à ocasião de perder o pai, um afamado e rico mestre de obras, português, antigo, econômico e ríspido, que, ao morrer, lhe legou uma dúzia de prédios bem edificados, alguns terrenos, que mais tarde valeriam muito, e o inestimável hábito de ganhar a vida.

Borges sucedeu ao pai no trabalho, fez-se construtor como ele, e, em poucos anos, tornou-se um dos proprietários mais ricos da Corte. Todavia, o muito dinheiro, se não conseguiu fazer dele um extravagante, muito menos logrou precipitá-lo no orgulho e na avareza - o coração do bom homem continuou tão franqueado às virtudes, quanto sua bolsa fechada às loucuras e às vaidades.

Além desses dotes, tinha uma saúde de ferro e dispunha de urna força física de tal ordem, que se tornou lendária entre as pessoas que o conheciam de perto.

Citavam anedotas a esse respeito: Um dia, estando a administrar umas obras, escapara dos andaimes um dos pedreiros, e o Borges apanhou-o no ar, como quem apanha um chapéu de palha; outra vez, tratando-se de safar um pobre diabo, que ficara entalado entre uma andorinha e uma parede - o nosso Borges arranjou um ponto de apoio, meteu os ombros contra a andorinha, e esta virou e caiu imediatamente para o lado oposto. 1

E, como estes, muitos outros fatos, verdadeiros ou não, corriam de boca em boca; a respeito do possante mestre de obras.

Verdade é que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles pulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pescoço nervoso e duro, para que a gente fizesse logo uma idéia justa do que seria capaz o Borges em matéria de forca muscular.

Contudo, ninguém era menos amigo de questões. Nunca se metia em barulho; às vezes até, coitado, suportava em silêncio certos desaforos: mas também, quando lhe chegasse a mostarda ao nariz, o contendor podia entregar o seu ao boticário, porque o esborrachamento havia de ser memorável.

Devido a essa pujança excepcional, davam-lhe a alcunha significativa de João Touro.

João Touro era geralmente tido e havido pelo mais completo modelo de bondade e de bom senso. Ninguém lhe fosse pedir manifestações brilhantes de talento, concepções artísticas, descobertas científicas; ele, coitado! não era "homem de estudos" e nunca também lhe "puxaram muito pela memória". Aos doze anos, saíra da aula de primeiras letras para se meter logo no trabalho; mas tinha muito "bom pensar" e um tino admirável para os negócios. Seu único vício consistia no rapézinho Paulo Cordeiro - nada de charutos! - nada de bebidas! - e grande aversão às mulheres que não fossem tão puras como ele.

Antes do casamento, ninguém lhe conheceu uma inclinação amorosa, uma fraqueza; e nunca ninguém lhe descobriu outra preocupação que não fosse a do seu trabalho e a do seu "Urso".

Urso vinha a ser um enorme cão de São Bernardo, que o acompanhava, havia muitos anos. Animal bonito, todo negro, e de uma aparência tão feroz, que lhe dava inteiro direito de usar do nome.

Todavia, o mestre de obras fora algumas vezes requestado pelas mulheres. Várias trintonas lhe lançaram a rede, mas ele sempre se desviara - sorrindo... e corando...

Entre essas, distinguia-se D. Chiquinha Perdigão, mulher de firma comercial; negociante, muito rica, com um bonito nome na praça - Viúva Perdigão & Cia.

O Borges, porém, não queria outros negócios com ela, além dos de puro interesse pecuniário, e embalde o demônio da viúva empregava todos os meios para obrigá-lo a desistir de tal resolução.

Uma vez, chegou a tomar-lhe as mãos, confessar que o amava, que só ele a podia fazer feliz; e o bom homem, sem ter uma resposta, pôs-se a suar, a suar, até que fugiu. atônito e espavorido, como se levasse uma fera atrás de si.

Só a filha de D. Clementina, a flor das moças do Catete, a bela Filomena, teve o dom de acordar naquele coração encruado as fibras adormecidas do amor.

Ele próprio não atinara como "aquilo" se dera: Um dia, a convite de Guterres, foi à casa de D. Clementina, viu a pequena, ouviu-a cantar ao piano um romance de Tosti, e desde esse momento não ficou mais senhor de si.

E o amor, o desejo, a paixão, rebentaram-lhe por dentro, como um monstro que se levanta, espedaçando a velha calma de quarenta anos.

Era a primeira vez que amava. O Borges, que até aí vivera para as suas propriedades e para os seus prédios em construção, desde que viu Filomena, desde que concebeu a idéia de possui-la, nunca mais pode compreender a existência sem a companhia dessa formosa criatura, por quem logo se sentiu capaz de todos os sacrifícios.

Lamentava, contudo não ser mais novo; não dispor de mais atrativos, para melhor merecê-la. Desejava ser mais fino, mais terno, mais civilizado; temia assustá-la com a sua medonha figura de touro. Receava o contraste formidável de sua grossa corpulência, do seu abdome redondo e farto, de suas mãos curtas e vermelhas, de seus pés enormes, postos em confronto com aquele corpinho tão delicado, tão bem feito, com aquela pele tão branca, com aqueles pézinhos tão sutis.

- Oh! aquele casamento realizava o melhor sonho de sua vida! Ele queria-a tanto!...

Os amigos ficaram pasmados quando tiveram notícia do fato:

- Que?!... - Pois o Borges, o "João Touro", aquele pax vobis ia casar! e logo com quem?... - com a filha de D. Clementina - a moça mais romântica e mais cheia de fumaças que havia no mundo!... Oh! - O João Touro com certeza não estava em seu juízo! - Ninguém lhe dizia que não casasse; mas, que diabo! fosse buscar uma mulher mais própria para isso e não uma cabecinha de vento, que só cuidava em patacoadas e maluquices!

O seu amigo mais íntimo e mais antigo, o Borroso, não se pode conter> quando o Borges lhe falou nisso:

- Enlouqueceste, homem de Deus?! Não vês que vais fazer uma reverendíssima asneira?! Não vês que aquilo não e mulher que te convenha?! Não desconfias, pedaço d'asno, que aquela sirigaita e mais a raposa da mãe estão a farejar-te os cobres?!... Não compreendes que elas te querem, porque tens para mais de quinhentos contos?! Ora vai deitar um caustico na nuca?!

João Touro, porém, não estava em circunstâncias de pensar. Todo ele era pouco para a sua paixão e, depois de uma conversa agitada com o Barroso, concluiu, perdendo a paciência:

- Homem! queres saber de uma coisa?! Vocês podem rosnar como entenderem; o que lhes afianço é que só a própria D. Filomena seria capaz de me fazer desistir do casamento. Só ela! Entendes tu?! só ela!

- Bem, filho! respondeu o Barroso com o gesto de quem solta alguma coisa das mãos. - Tua alma, tua palma! Assim o queres, assim o terás. - Ora essa! Na certeza de que - para mim - se levares a cabo a tua doidice - perdeste tudo!

- Pois que perca! É boa!

- E desde então não contes comigo para coisa alguma!

- Vai para o diabo! gritou-lhe o Borges, enterrando o chapéu na cabeça, e saindo furioso.

* * *

Entretanto a Filomena custou bastante resolver-se a dar o "sim".

Muito sonhadora, muito saturada de romantismo não se conformava com a idéia de se ligar a um burguês ratão como o Borges.

Tinha lá o seu ideal, seu tipo e, só com muito sacrifício, desistiria da esperança de encontrá-lo no mundo.

Sempre fora muito dessas coisas. Aos quinze anos, perdia noites a ler novelas, várias vezes foi a mãe encontrá-la assentada no jardim, olhos no céu, a cismar, a cismar, perdida nos seus devaneios.

Era então franzina, muito descorada, e tinha grandes pupilas negras de um rebrilhar de tísica. Quase nunca expunha o colo, e seus vestidos, sempre afogados, cosidos à garganta por um estreito colarinho de rendas, davam-lhe o ar passivo e contrafeito de uma pensionista das irmãs de caridade.

Quando ria, o que era raro, mostrava dentes grandes, alinhados e extremamente claros. De perto, bem examinada, notava-se-lhe no canto dos olhos, estalando o pó de arroz, uma redezinha de pequenas rugas trêmulas, que se espalhavam pelas fontes, até à entrança dos cabelos. Em torno das sobrancelhas, finas e delgadas, nas mucosas das pálpebras, das orelhas, do nariz e da boca - um tom arroxeado de umidade serosa e doentia. As pestanas, muito escuras e rama1hudas, pareciam despregar e cair a cada movimento dos olhos.

Nas soirées fazia impressão vê-la assentada horas esquecidas a um canto da sala; mito direita no seu espartilho, o corpo teso, os longos e vagarosos braços cruzados sobre o ventre, os ombros empinados e contraídos, como por uma sensação de medo, trazia sempre o cabelo com singeleza; quando não era solto, apenas enrodilhado na nuca, acentuando o desenho puro de sua cabecinha e deixando lobrigar parte do pescoço, que já então principiava a ser belo na sua cor de camélia fanada.

Perdera o pai por essa idade, e sua mãe D. Clementina de Araújo, uma senhora magra e comida de desgosto, impacientava-se silenciosamente por ver casada "aquela filha que Deus lhe dera".

Era essa toda a sua preocupação e também toda a sua esperança: - "Só um bom casamento as salvaria da triste situação em que se achavam".

O chefe da casa - o defunto conselheiro - não fora homem previdente, e gastara-se quase todo em procurar luzir; os bens, que sobejaram da política, caíram na voragem do jogo e das confeitarias. Ainda assim, durante a vida, nunca lhe perceberam sombra de dificuldades, nem houve jamais quem melhor soubesse guardar as conveniências de sua posição social. Os chás do defunto conselheiro eram deliciosos.

Quando uma apoplexia veio chamá-lo para a cova, os amigos tiveram que se cotizar para o fim de lhe pagarem as dívidas, a viúva teve que trabalhar para manter decentemente a filha - essa pobre filha, que da existência apenas conhecia alguns noturnos ao piano e alguns romances traduzidos do francês; essa filha, que crescera à luz do gás, dançando desde os quatro anos, e arruinando o estômago com os mesmos doces que arruinaram a fortuna do pai.

Trabalhar! Trabalhar seria o menos; esconder a precisão do trabalho é que era mais difícil! Felizmente, o prédio em que moravam pertencia à órfã, e o imperador, que fora amigo do defunto - amigo e compadre - havia de ajudá-la.

Assim foi: Sua Majestade não negou o seu augusto auxílio à comadre, e esta, por sua vez, tratou de alugar q prédio e refugiar-se com a filha em uma casa mais em conta.

- Não seria, porém, metidas entre quatro paredes, que a menina arranjaria um bom casamento! - Era preciso aparecer! - Mas os bailes, os teatros, os passeios, custavam tanto! - As modistas e os armarinhos "pediam os olhos da cara por qualquer trapo mais no tom!"

Todavia, não desertaram da boa sociedade.

Mas quanto sacrifício! Quanta luta! Quanto heroísmo ignorado! Que de lágrimas não havia escondidas naqueles vestidos enfeitados pela quarta vez! Quanta amargura naqueles penteados, naquelas capas, naqueles chapéus! Quanto sofrimento, quanta resignação naqueles leques, naqueles sapatinhos e naqueles sorrisos de amabilidade?

As vezes, tinham ambas que passar pior de boca, para não faltarem ao baile do Sr. Conde de tal ou à soirée do Sr. Barão de tal e tal. Uma verdadeira campanha, um verdadeiro martírio, principalmente para a rapariga, que, em constante revolta com a realidade, estava sempre a sonhar coisas extraordinárias e regalias de alto preço.

A longa peregrinação pelas salas e pelas ruas dera-lhes um grande tato, uma grande experiência. Conheciam a gente à primeira vista. Mãe e filha entravam já familiarmente pelas almas dos indivíduos e iam devassando o que lá estava por dentro, como se bisbilhotassem uma gaveta franqueada.

Para a velha, então, não havia coração, por mais fechado, que se não traísse. Embalde procuravam outros, em idênticas circunstâncias, dissimular a falta de certos recursos; embalde se endomingavam caixeiros pobres, literatos necessitados, doutores sem meios de vida, procurando iludir, aparentar grandezas: - era bastante que D. Clementina corresse por qualquer deles uma olhadela de alto a baixo, para ficar sabendo quanto o sujeito pesava ao certo - quanto ganhava, quanto possuía, que lugar, enfim, devia ocupar na bitola de sua consideração.

Porque, é preciso notar, a viúva do conselheiro tinha já uma bitola para aferir os pretendentes da filha. Essa bitola marcava desde o marido "ótimo" até ao marido "péssimo". Quando a velha se referia a algum deles dizia secamente "regular" ou "bom", "sofrível para bom", etc. E essas simples palavras, ditas à socapa, determinavam as maneiras que Filomena devia usar para com o tal sujeito, se este se apresentasse.

O fato é que muita gente a cortejava. D. Clementina de vez em quando abria a casa aos seus amigos.

Que talento desenvolvido nesses modestos chás de família! Nada deixava perceber o mecanismo posto em ação para que não viesse a faltar coisa alguma no melhor da festa. Havia sempre piano, canto, recitativos, e às vezes dança, muita dança.

Mas tudo isso era por conta, peso e medida. Não se gastava um fósforo que não estivesse inventariado. Acabada a festa, procedia-se a um balanço minucioso; guardava-se com todo o cuidado o que pudesse servir para outra vez, e, antes de se deitarem, as duas senhoras arrumavam tudo, escovavam as roupas, acondicionavam as botinas, os leques e as jóias falsas.

Filomena lançava-se depois aos travesseiros, devorada por um estranho desgosto da vida, por uma vaga necessidade de horizontes largos, um desejar pungente de coisas imprevistas e grandes, uma sede indefinida de empresas arriscadas e situações transcendentes, que sua louca imaginação mal podia delinear.

E chorava muito aflitivamente, sem saber porque. No outro dia, eram suspiros e mais suspiros, queixas, tristezas, e um fastio e um tédio de causarem dó.

A mãe caía-lhe em cima, a ralhar, a aconselhar. "Filomena que se deixasse de bobagens, que os tempos não davam para isso!" E dizia-lhe tintim por tintim o que lhe convinha praticar, como devia proceder. Ensinava-lhe os segredinhos de agradar a todos, de prender, de "prometer sem dar, de negar, sem desistir".

- Agüenta-te, minha filha' Agüenta-te como vais, e um belo dia, quando menos o esperares, cai-te do céu um noivo "dos bons", que nos indenizará de todos estes sacrifícios.

O belo dia chegou com efeito, e o Borges caiu.

- Hem? que te dizia eu?... perguntou a velha, abraçando-se à filha, com as lágrimas nos olhos. - Chegou ou não chegou a tua vez?

Filomena abaixou o rosto e fez um gesto de descontentamento.

- Ora, deixa-te dessas coisas, minha filha! Observou mãe, apanhando no ar a intenção daquele desgosto. Quem dera a muitas a tua fortuna!

A outra soltou um grande suspiro.

- Que mais querias tu, então?!... volveu D. Clementina entre meiga e repreensiva. - Quem sabe se preferias por algum bonifrates, que nos viesse atrapalhar ainda mais capítulo? ...

A filha emplumou-se com altivez, franziu o nariz, e estalou um muxoxo desdenhoso.

- Então?! prosseguiu a viúva do conselheiro. - Borges não é de certo nenhum Adónis; mas é um marido que vale quanto pesa!

E engrossando a voz, respeitosamente:

- Muito benquisto, muito bem relacionado... não é nenhum pé de boi. tem sua educaçãozinha... e, olha, filha que aquilo tudo é sólido!

- Ora, faça-me o favor! ... disse a rapariga, impacientado-se - sólido será, mas não me venha dizer, que o Borges tem educação!... É um bruto! É mesmo um "João Touro"!

- Não é tanto assim, menina!

- E o que fez ele outro dia aqui em casa?! Aquilo é quem tem educação?! Um homem que come com a faca! Ora minha mãe!...

_ De acordo de acordo, mas tu também deves fechar olhos a umas certas coisas, oh!... Os bons maridos fazem-se, preparam-se - os diamantes não se encontram já lapidados! E, então, aquele, coitado! que a gente o leva para onde quer... Ali, é teres um pouco de paciência e o porás a teu jeito!

- Não acredito que daquele lorpa se possa fazer alguma coisa! retrucou a menina com desdém.

- Parece-te agora, verás depois que é justamente o contrário!... Em questões de casamento, minha filha, as aparências quase sempre enganam muito! Em geral os maridos que nos parecem mais fáceis de tragar, são justamente os ma amargos; ao passo que os outros, os tipos, os "Borges", esses são os bons, os doces! Cá por mim, nunca aconselharia mulher alguma a unir-se a um homem, que julgasse o seu espírito superior ao dela. Nada! Para haver perfeito equilíbrio num casal, é sempre indispensável que o marido conheça alguma superioridade na mulher; seja essa superioridade de fortuna, de inteligência, de educação ou mesmo de forca física. Desgraçada da tola que não pense sobre isso antes do casamento - não será uma esposa, será uma escrava!

E D. Clementina, depois de dar uma pequena volta na sala terminou, batendo com ternura no ombro da filha: - Não te queixes da sorte, ingrata! O que no Borges agora se te afigura defeitos, são justamente qualidades muito aproveitáveis! Não avalias o tesouro que ali está! Digo-te com experiência! E, se duvidas, deixa correr o tempo, e dir-me-ás depois!

* * *

Filomena não se decidiu logo; porém, daí a poucos dias, a morte inesperada da mãe obrigou-a a tomar uma deliberação. Seis meses depois, voltava ela de uma igreja, casada com o Borges.

Seguiram logo para Botafogo, onde iam morar, segundo exigira a noiva. João Touro não poupara esforços para festejar o seu casamento, e, como sujeito considerado, que era, conseguiu reunir uma sociedade bem escolhida. Só o Barroso não quis comparecer: - tinha lá a sua opinião sobre o fato e não havia quem o demovesse daí.

Os convivas, não obstante, estavam todos de acordo em que o Borges não poderia encontrar mulher mais formosa e mais simpática.

Filomena, com efeito, apesar dos dissabores, já não lembrava aquela rapariga seca e descorada de outros tempos. Toda ela se carneara: a pele, atufada pela gordura, estendeu-se numa transparência macia e provocadora: o colo abriu-se em deliciosas curvas; a garganta enformou-se completamente; os braços encheram-se; os quadris ampliaram-se; a voz acentuou-se, e os olhos amorteceram com os cruentos mistérios da puberdade.

- E que ar de inocência! comentavam em voz baixa, a contemplá-la no seu rico vestido de chamalote branco - que candura!...

- Não! dizia o Borges, que estava perto. - Não! nisso não tenho que invejar ninguém! - fui feliz!...

E esfregando as mãos:

- Fui muito feliz! A respeito de gênio, não há outra: dócil, meiga, modesta, incapaz de uma exigência, de uma recriminação! Nunca lhe vi o narizinho torcido, nunca lhe ouvi uma palavra mais áspera, um arremesso, uma impertinência! Sempre aquele mesmo sorriso de bondade, aquele mesmo arzinho de santa! É um anjo! É uma pomba de doçura a minha Filoca! a minha rica Fíloquínha!

E o Borges, sem poder conter os ímpetos da felicidade, andava de um lado para outro, a contar os segundos, dando repetidas palmadinhas na barriga.

A casa tinha dois andares. Estava combinado que, à meia-noite, os noivos fugiriam para o de cima, enquanto no primeiro a festa continuaria, até entrar pela madrugada. Mal os ponteiros do relógio se reuniram nas doze horas, o Borges, impaciente, aproximou-se da esposa e, com a voz trêmula, o olhar suplicante e o hálito em brasa, disse-lhe ao ouvido:

- Podemos fugir... São horas... não acha?...

Ela ergueu os olhos e sorriu; depois levantou-se, deu-lhe o braço, e ambos desapareceram pelos fundos da sala de jantar. A madrinha já estava à espera da noiva, para a cerimonia do despojamento das roupas.

Mas o Borges, quando atravessava a sala contígua à alcova nupcial, ficou muito surpreendido com a mudança brusca, que acabava de se operar na desposada. O tal arzinho de santa fora substituído por uma expressão dura de má vontade. E a surpresa de João Touro aumentou ainda na ocasião em que, tentando segurar Filomena pela cintura para dar-lhe o primeiro beijo, ouviu-lhe dizer com um repelão enérgico: - Deixe-se disso, homem!

E ainda aumentou quando, depois que a madrinha a deixou só no quarto, ele - o noivo - querendo também recolher-se, levou com a porta no nariz, e ouviu ranger um ferrolho que a fechava por dentro.

- Ora esta! resmungou o Borges, sem saber que fizesse...

E bateu, a princípio devagarinho, depois mais forte, mais forte ainda. Só resolveu abandonar o posto, quando Filomena lhe gritou da cama:

- Com efeito! O senhor não tenciona acabar com isso?! Vá dormir, e deixe-se de imprudências! Se espera que eu lhe abra a porta, perde o seu tempo. Boa noite!

- Bonito! disse o pobre noivo, cruzando os braços.

II

O FERROLHO

O Borges passou toda a noite na tal saleta contígua à alcova da mulher, estirado num divã, a ouvir o coaxar insuportável de um velho relógio suspenso na parede, justamente sobre sua cabeça.

Que noite, coitado! Que terrível situação para um pobre homem que, durante os seus calmos quarenta anos, nunca passou uma noite fora de sua cama,. nunca dormiu menos de sete horas, deitando-se invariavelmente às onze e acordando às seis.

Ele! Ele, que nunca entrara numa pândega, passar uma noite inteira enfronhado em calças pretas, camisa bordada e gravata branca!

E o pior é que o infeliz, no cego empenho de parecer agradável aquela noite à esposa, metera-se num banho de perfumes, e sentia por todo o corpo, atabafado na roupa preta, uma comichão desenfreada.

Pobre noivo! Quanto não sofreste essa noite!

O Borges, mesmo no tempo de rapaz, fora o protótipo da ordem, do arranjo e do método. Gostou sempre das coisas no seu lugar - o almoço às tantas, o jantar às tantas, o seu chá com torradas antes de dormir - e nada de se afastar desse regime.

Não podia compreender como houvesse no mundo quem, por gosto, perdesse as horas sagradas do sono, vergado sobre uma banca de jogo, a beber numa taverna, ou a fumar em companhia de mulheres.

Santo homem! uma simples palavra mais decotada era bastante para fazer refluir-lhe às faces o mais pronto e legítimo rubor. Por isso, alguns amigos lhe faziam troça, às vezes; mas, no fundo, todos o respeitavam, todos o amavam. Sabiam já que daquela boca cor de rosa, os dentes imaculados, daquela boca sem vícios, não sairiam a calúnia ou a intriga. Tinham certeza que daquele coração, virgem de paixões, não poderiam brotar o ódio, a inveja e a perversidade.

Conheciam, por longa experiência, a sinceridade daqueles olhos doces e compassivos, que muita vez se umedeceram com as desgraças alheias, e que, aos domingos, nos espetáculos da tarde, iam chorar três horas ao S. Pedro de Alcântara, defronte de um dramalhão de D'Ennery.

Pobre homem! Foi preciso que te casasses para passares mal a tua primeira noite! Tu! que vias no casamento "a última expressão da paz e da estabilidade". Tu! que procuravas no matrimonio "o sossego completo, a dignidade do teu lar e o cumprimento de teus deveres de homem com a sociedade e para com a natureza"! Oh! como não te devias sentir indignado!

Não estava, porém, no seu gênio o revoltar-se. - Não gostava de contendas - não queria estrear por uma desavença a sua vida de casado.

Além disso, amava-a tanto! --- adorava-a de tal forma, que se sentia perfeitamente incapaz de reagir.

- Não fez aquilo com má intenção! ... pensou ele. - Foi talvez por pudor, coitada! ou, quem sabe? talvez tivesse medo desta minha figura!

- É isso! com certeza não foi outra coisa! --- concluiu de si para si, a coçar-se, quando a aurora já lhe invadia a sala pelos vidros da janela.

E foi nas pontas dos pés acordar um criado.

- Arranja-me um banho morno quanto antes! gritou - e vê se descobres por aí alguma roupa, aquilo lá por cima está ainda tudo fechado! Olha! vê também se me dás café e algumas bolachinhas; estou a cair de fraqueza!

O criado. tonto de sono, porque o baile havia acabado pouco antes, ergueu-se a roncar, resmungando, muito intrigado por ver o amo já tão cedo às voltas com ele e, o que era mais ainda, com a roupa da véspera e a dar ordens com uma tal impertinência, que não parecia o mesmo.

- Já vai! Já vai! respondeu, ouvindo novas reclamações do Borges. E pôs-se em movimento, a parafusar no que diabo teria sucedido ao amo, para andar tão cedo à procura de banhos mornos, de roupas e cafés com bolachinhas! - Aquilo foi grande espalhafato lá por cima! resolveu ele, tratando de executar as ordens. Ora, queira Deus que este casamento ainda não lhe venha a dar na cabeça! ... Eu nunca achei grande coisa a tal senhora D. Filomena! Pode ser que me engane... mas aquela boneca de engonços há de dar água pela barba ao patrão!

Daí a pouco o Borges, já restaurado, metido numa fatiota de brim branco, a barbinha feita, o seu farto cabelo bem penteado, lia o Jornal do Comércio, no salão do segundo andar, à espera de que a mulher se levantasse.

Quando Filomena, às dez horas da manhã, saiu do quarto para o salão, encontrou-o repímpado na cadeira de balanço, dormindo de papo para o ar, a boca aberta, a barriga espipando por dentro do colete e do rodaque de brim, os braços soltos, e numa das mãos o jornal.

Schocking! exclamou ela, arrevezando um olhar de nojo.

O marido bocejou, despertado por aquela exclamação. E, ao dar com a mulher, endireitou-se atrapalhadamente, contendo os bocejos, as carnes a tremerem-lhe e os olhos sumidos na rápida congestão do estremunhamento.

Ela vinha formosa a mais não ser. O sono completo dera-lhe às feições a olímpica serenidade das Vênus antigas. Trazia a rastros um longo penteador de linho bordado; o cabelo preso ao alto da cabeça, como dantes, mas agora enriquecido, à moda japonesa, por um gancho encastoado de pedras preciosas. Em volta do mármore sem brilho de seu pescoço, reluziam pérolas e toda ela respirava um cheiro bom de saúde e de asseio.

- Como passou? disse, aproximando-se do marido e estendendo-lhe a mão.

Borges adiantou-se cerimoniosamente para cumprimentá-la. Um acanhamento espesso tolheu-o dos pés à cabeça. Quis responder e apenas gaguejou algumas palavras sem sentido. Naquele instante lhe passava pela idéia o receio de que a mulher desconfiasse do ressentimento, que porventura nele tivesse produzido o fato da véspera. - Como chegara a imaginar, pensou num relance - que aquela mulher, tão delicada e tão altiva, consentisse em recebê-lo ao seu lado, na sua cama, logo na primeira noite do casamento! - Onde tinha ele a cabeça para esperar semelhante coisa?!

Filomena, como se adivinhasse o pensamento do marido, expediu-lhe generosamente um sorriso de indulgência e disse-lhe, devagar, enfiando o seu braço no dele:

- O senhor seria muito amável se quisesse fazer-me companhia ao almoço...

E vendo um gesto de surpresa no Borges. - Isto significa que desejo almoçar aqui, no segundo andar, sozinha com o senhor, sem a presença de estranhos, nem mesmo a dos criados - um verdadeiro tête-a-téte... Não acha boa a idéia?

- Oh!... se acho!... Eu não ousava ambicionar tanto!... Sim, quero dizer... eu...

- Pois então tenha a bondade de dar as providências para isso. Quanto às nossas visitas de hoje - só me pilharão ao jantar.

E no fim de uma pausa, tocando-lhe no ombro:

- Então! Vá! Mexa-se!

O Borges, encolheu a cabeça e precipitou-se de carreira para o primeiro andar.

* * *

Só se tornaram a ver à mesa do almoço.

- É bom que esteja tudo à mão para não termos de chamar pelos criados, observou ela, acomodando-se na sua cadeira, defronte uma pilha de ostras cruas.

E desdobrando o guardanapo sobre o peito:

- É uma providência dispormos deste segundo andar; fica-se aqui perfeitamente à vontade. É tão desagradável mostrar-se a gente a visitas logo pela manhã, depois de um casamento!

O Borges sorriu. É desagradável... é! disse ele corando levemente.

- É brutal! emendou Filomena, passando o copo de vidro, para que o marido lhe servisse o Sauterne que tinha ao lado.

E depois de beber:

- Não compreendo como ainda se conservam na sociedade moderna certos costumes verdadeiramente bárbaros. As cerimônias do casamento estão nesse caso. Nada há mais grotesco, mais ridículo, do que essa espécie de festim pagão em que se celebra o sacrifício de uma virgem. Horroriza-me, faz-me nojo, toda essa formalidade que usamos no casamento - a exposição do leito nupcial, os clássicos conselhos da madrinha, o ato formalista de despir a noiva, e, no dia seguinte, os comentários, as costumadas pilhérias dos parentes e dos amigos... Oh! é indecente! Mas agora reparo: o senhor não come!...

De fato, enquanto Filomena falava, o marido era todo olhos sobre ela, não se fartava de contemplar aquele adorável busto que tinha defronte de si. Causavam-lhe estranhos arrepios o modo desembaraçado, a graça natural, com que a mulher prendia uma ostra na pontinha dos dedos cor de rosa para levá-la à boca, numa riqueza de braços arremangados, onde tilintavam dois portebonheurs de metal branco.

- Ao menos beba! replicou ela, vendo que o Borges não se resolvia a comer.

E encheu-lhe o copo.

O pobre homem teve acanhamento de confessar que nunca toda a sua vida, bebera o mais pequeno trago de vinho.

- Então... fez a mulher. - Vamos! E tocando o seu copo no dele: - Ao nosso casamento!

Borges emborcou o seu de um fôlego, com uma careta.

Filomena não se pôde conter, e soltou uma dessas risadas retumbantes, que chegam para encher toda uma casa. Aquele ar esquerdo do mestre de obras, engasgado, roxo de tosse, fazia-lhe cócegas pelo corpo inteiro. E ela ria, ria, ria, sem se dominar, cobrindo o rosto com as mãos,. torcendo-se como uma cobra, enquanto o Borges, muito enfiado, procurava posições na cadeira, ardendo por sair daquela situação que o torturava.

- Coma sempre alguma coisa! disse-lhe por fim a esposa, fazendo inúteis esforços para reprimir a hilaridade - olhe que não é cedo!... uma hora, creio eu.

- Obrigado! Não tenho apetite... respondeu ele, cada vez mais confuso, a limpar o suor que já lhe sobrevinha ao rosto.

Ela continuava a rir.

- Há de ser porque passei mal a noite... acrescentou o Borges. Não preguei olho!... Isto para quem nunca saiu de seus hábitos...

- Mas, meu amigo, acudiu Filomena, solicitamente, tornando-se séria - para que faz o senhor loucuras dessa ordem? Isso pode causar-lhe mal!... Lembre-se de que já não tem vinte anos, e a sua saúde, na sua idade, é coisa muito preciosa!

O Borges desta vez perdeu de todo o bom humor. Ou fosse por efeito do vinho, que ele bebia pela primeira vez, ou fosse que as palavras da mulher o irritassem deveras, o caso é que fechou o rosto e respondeu quase com azedume:

- Eu não perdi a noite pelo gostinho de a passar em claro! Não foi minha a culpa!...

- De quem foi, nesse caso?... indagou Filomena, já com o riso a espiar pelos cantos da boca.

- Ora, minha senhora!...

- Quer dizer que foi minha?!

- A senhora bem o sabe...

- Perdão, meu amigo, convém que nos entendamos! O senhor terá bastante bom senso para compreender o que lhe digo: ouça...

- Tenho até para mais... apartou o Borges, encavacado.

- Tenho para compreender o papel ridículo que a senhora quer me fazer representar!...

- Ridículo? Por quê?!

- Por quê?! Porque eu não tinha a menor necessidade de passar a noite no sofá e ainda por cima servir de galhofa! Ora aí tem porque?

- Mas que queria o senhor que eu lhe fizesse?!...

- Ora, minha senhora! Por amor de Deus!

- Pois acha que devo ter plena confiança em um homem que mal conheço?! Um homem, que eu não sei se me ama, ou que, pelo menos, ainda não me deu provas disso?!...

- Não dei provas! exclamou Borges ofendendo-se. - Não dei provas!... Homessa!... Quer então uma prova superior ao casamento!... Então o fato de me fazer seu esposo, não vale nada?!

- Vale tanto como o de fazer-me eu sua esposa. Foi uma permuta, uma troca. E por ora é só o que há - estamos quites - nem o senhor por enquanto tem direitos adquiridos, nem eu! Salvo se entende que o noivo vale muito mais que a noiva!...

- Eu não entendo nada! respondeu ele, triste; - sei apenas que me casei com a senhora porque a estimo muito...

E baixando a voz, ainda com mais amargura: - A senhora, sim! é que nunca me teve afeição, e principio a duvidar que isso venha a suceder algum dia...

- Depende unicamente do senhor, meu amigo!... retrucou Filomena.

Agora parecia comovida. Estava muito séria; o olhar ferrado no prato.

Houve um silêncio. Ela, afinal, continuou a falar, imóvel, sem descravar os olhos donde estavam, e a bater compassos na mesa com a faca.

- O coração de uma mulher nas minhas condições, disse, medindo as palavras e recitando, como se tivesse os períodos decorados - não é coisa que se conquiste assim com um simples casamento: não haveria nada melhor! O senhor, se quer ter a minha confiança plena, a minha dedicação, a minha ternura, faça por merecê-las... Não será de certo com esses modos e com essa cara fechada, que conseguirá abrir-me o coração! Eu, até, se soubesse que o senhor havia de se portar desta forma, não o teria convidado para almoçar em minha companhia... O senhor fala de farto!... Em vez de agradecer à sua boa estrela a bela ocasião que lhe faculto para principiar a conquistar-me, põe-se nesse estado e parece disposto a incompatibilizar-se comigo por uma vez!

Borges ouviu tudo isso, vergado na cadeira, sem um movimento, os olhos corridos, o rosto anuviado por uma funda expressão de mágoa resignada. Quando a mulher terminou, ele estendeu-lhe um olhar de súplica e tentou agarrar-lhe as pontas dos dedos.

Filomena retirou a mão com um movimento rápido, e voltou-se para o outro lado, dando as costas ao marido. Este arrastou-se com a cadeira para junto da esposa, e, em segredo, a voz medrosa e submissa, perguntou-lhe o que então queria que lhe fizesse?...

- Tudo! respondeu Filomena na mesma posição, a sacudir uma perna, que havia dobrado sobre a outra.

- Mas tudo, como?... perguntou Borges, tentando acarinhá-la.

Ela ergueu-se, demovendo o corpo, e acrescentou, encarando-o:

- Ouça! - Por ora, meu amigo, pertenço-lhe de direito, porque nos casamos, e isso tornava-se inevitável na situação em que o senhor me achou; mas declaro-lhe abertamente que só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor tiver conquistado o meu amor à custa de dedicação e de perseverança! Só lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor se houver cabalmente habilitado para isso! Compreende, agora?...

O marido deixou cair a cabeça e ficou a pensar, enquanto a mulher atravessava o gabinete, depois ~ saleta, e fora assentar-se no divã do salão. No fim de cinco minutos, Borges levantou-se resolutamente e foi ter com ela:

- De sorte que a senhora tenciona continuar com a porta do seu quarto fechada, até que eu...

- A porta e o coração, acudiu Filomena - até que o senhor os consiga abrir com os seus desvelos!

- Quer então que lhe faça a corte?...

- De certo.

- Pois tomo a liberdade de declarar a V. Ex. que foi justamente por não ter jeito para essas coisas ~ que me casei! Se eu tivesse gênio para atirar-me aos pés de uma mulher e fazer-lhe a minha declaração com palavreados de romance, se eu tivesse queda para galante, não procuraria uma esposa, bastava-me ter uma...

Filomena não lhe deu tempo de concluir a frase. Ergueu-se num só movimento, e, depois de medi-lo de alto a baixo com um olhar de rainha ofendida, afastou-se lentamente em silencio, os passos firmes, a cabeça altiva.

Borges correu logo atrás dela e segurou-lhe uma das mãos.

- Solte-me! exclamou Filomena, arrecadando o braço.

E fugiu para a saleta, atirou-se sobre o divã em que o marido passara a noite, e aí rompeu a soluçar com um frenesi histérico.

Borges ajoelhou-se-lhe aos pés e cobriu-lhe as mãos de beijos e de lágrimas.

- Não leves a mal aquilo, minha santa! Desculpa, exclamou ele, escondendo o rosto no colo da esposa. Reconheço que não fui muito delicado excedi-me, mas não sei onde tenho a cabeça - não estou em mim! É que me pões doido com tuas palavras! Oh! mas não fiques zangada, não chores; tudo aquilo prova justamente o bem que eu te quero, minha vida, minha mulherzinha do coração!

Filomena não respondia e continuava a chorar, toda prostrada no divã: a cabeça vergada para trás, o rosto encoberto por um lenço de rendas, que ela segurava em uma das mãos, ao passo que abandonava a outra aos beijos apaixonados do marido. Agora os soluços eram espaçados e mais secos, como os últimos rumores de uma tempestade que acalma.

De repente, ergueu-se. Fitou por instantes o marido, que jazia a seus pés ajoelhado, a encará-la lacrimoso e súplice; depois estendeu os braços, deu-lhe um empurrão e fugiu para o seu quarto, fechando-se logo por dentro, violentamente.

O Borges ficou meio assentado e meio deitado no chão, amparando-se às mãos e aos pés.

- E esta - balbuciou ele dai a pouco, erguendo-se de mau humor. É gira ou não é gira?...

E pôs-se a percorrer todo o pavimento, rondando o quarto fechado da mulher, como um gato que fareja o guarda-petiscos... No fim de uma hora de exercício, indo e revindo incessantemente, de lá, para cá, as mãos nas algibeiras das calças, o olhar cravado na esteirinha do soalho, Borges estacou no meio do salão:

É de mais! pensou ele. - É para um homem perder a cabeça!

E atirou-se prostrado à cadeira de balanço, passando uma revista mental a todas as contrariedades e decepções que o afligiam desde a véspera.

- Ora aí estava para que se tinha casado!... Passar por tudo aquilo!... Ele! Ele, que em sua longa vida de solteiro nunca amargara uma noite tão má e um dia tão levado da breca! - Quem te mandou, João Borges, meter em camisa de onze varas?... Maldito fosse o Guterres, que o levou à casa da defunta Clementina! Antes tivessem ambos quebrado as pernas nessa ocasião! Maldito Guterres!

E, acabrunhado por esses raciocínios, sentindo perfeitamente que não tinha forças para arrancar de si a paixão enorme que lhe inspirava a esposa, levantou-se de novo, foi e veio por todo o segundo andar, suspirando e tossindo todas às vezes que passava defronte da porta de Filomena. Afinal, no fim de outra hora de passeio, convencido de que a mulher não aparecia, desceu ao primeiro pavimento.

Os amigos já lá estavam para o jantar. Guterres foi o primeiro que correu ao seu encontro, abrindo-lhe os braços.

E, discretamente, enquanto o estreitava: - Você está abatido, seu maganão!

Borges sorriu, protestando vagamente:

- Uma enxaqueca!... Uma pequena enxaqueca!...

- E sua senhora?... perguntou um dos amigos.

- Vem já, vem já... Ela, também, coitadinha!... não passou lá para que digamos!...

- Outra enxaqueca?...

- Naturalmente! Considerou um terceiro a rir.

- Ah! estes noivos! estes noivos!... volveu o Guterres a bater no ombro do Borges. - Não precisa fazer-se vermelho, que diabo! Já sei o que isso é, meu amigo, já passei duas vezes por esses transes!...

O Borges teve um novo sorriso, ainda mais amarelo que o primeiro, e foi continuando a receber os parabéns dos outros convidados, cujas pilhérias, cujas pequenas frases de sentido dúbio e malicioso, ditas aliás com a intenção de lisonjeá-lo, mais a mais o indispunham e frenesiavam.

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