O jantar correu melhor do que se podia esperar; Filomena mostrou-se muito amável às suas visitas e, sem se dar mais a uma do que a outra, sempre risonha, afável e cheia de espírito, dividindo-se por todas elas a um só tempo, mostrou quanto era profunda na complicada ciência de agradar em casa, na mesma ocasião, muita gente reunida.
Fez-se música; houve canto e conversou-se a valer.
Ao retirarem-se às dez e meia, iam todos penhorados pela dona da casa e plenamente convencidos de que não havia no mundo inteiro um marido mais feliz do que João Touro.
O que, entretanto, não obstou que o pobre homem três dias depois caísse numa melancolia taciturna e pesada, que lhe tirava o gosto para tudo, até para o trabalho. Emagrecia a olho visto, e com as suas gorduras fugiam-lhe as belas cores do rosto e escapava-lhe dos lábios aquele calmo sorriso de felicidade, seu bom companheiro de tantos anos.
É que a portinha do quarto da esposa continuava fechada por dentro.
- Aquilo não era mulher para o Borges! murmuravam os maldizentes, ao vê-lo tão puxado e abatido.
- Olhe que ela o tem derreado! considerava outro.
E a verdade é que o infeliz estava apaixonado e apaixonado deveras. Para fazer as pazes (restritas, bem entendido> com a mulher, depois do primeiro arrufo do almoço, teve que lançar mão de todos os recursos da humildade e da súplica.
- Procure ser-me agradável! aconselhou Filomena, e o senhor obterá de mim tudo quanto quiser!...
- Mas em que lhe posso ser agradável, minha querida... A senhora bem vê que faço para isso tudo que está nas minhas mãos!...
- Talvez assim lhe pareça, mas juro-lhe que o não é! Por exemplo - por que razão não se resolve desde já o meu caro esposo a abandonar esse hábito insuportável de rape... hábito, que, só por si. é quanto basta para o incompatibilizar comigo?
Borges corou e prometeu nunca mais tomar rapé: - Não fosse essa a razão!...
- Aí tem já o senhor por onde principiar: - Eu tanto abomino o vil e baixo rapé, quanto gosto do aristocrático perfume do charuto. Experimente fumar um! Eu mesmo posso encarregar-me de prepará-lo. Já vê que não sou tão má - até lhe aponto os meios, que o seu coração devia ser o único a descobrir para conquistar o meu.
E, depois de fazer vir uma caixa dos melhores charutos que se encontraram, tomou um, trincou-lhe graciosamente a ponta, e disse, passando-o ao marido:
- Vamos lá! Sente-se aqui ao pé de mim... Muito bem.
E, riscando um fósforo: - Principiemos!
Borges hesitava.
- É que eu nunca fumei, filhinha... objetava ele timidamente.
- Oh! que grande sacrifício! E encheu a boca com a frase - "Nunca fumou!" E os outros?... os que fumam?... acenderam o primeiro charuto só depois de habituados a fumar?!...
- Isto pode fazer-me mal...
- Pois então não fume! Ora essa! respondeu ela, erguendo-se já amuada. Quando para fumar é isto, quanto mais...
- Vem cá, menina, vem cá! Oh! Tu também te esquentas por qualquer coisa! Eu não disse que não fumava!...
- Pois então vamos lá! tornou a formosa mulher corri uma pontinha da faceirice. - Acenda...
- Tu és os meus pecados!... disse o Borges obedecendo.
- Acenda direito... recomendou Filomena, fazendo-se amável. - Não chupe com tanta força! Assim... assim! Veja como vai bem agora!
E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado, sem dar vencimento à saliva que lhe acudia.
- É horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com ambas as mãos. - Faz-me vir água aos olhos!
- É delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para trás, aspirando voluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.
Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores frios.
- Continue, continue, que em breve se habituará! disse-lhe a mulher, enquanto ele se afastava para o quarto muito pálido, cheio de calafrios, agarrando-se às cadeiras.
E desde então Filomena não consentiu que o marido se aproximasse dela, sem vir fumando.
- E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?... perguntou ele na ocasião de submeter-se ao sacrifício do segundo charuto.
- Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa - a testa! - no dia em que fumar o último charuto da caixa.
* * *
Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou pela primeira vez a fronte da esposa.
Ela, porém, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que pôr abaixo a sua barbinha à portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar as suas queridas calças de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar cosméticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato de homem duro. O que, porém, mais lhe custou, o que atingiu as proporções de um verdadeiro sacrifício, foi ter de submeter-se a "usar pastinhas". Ele! o Borges! de pastinhas! - que não diriam os seus velhos e respeitáveis amigos do comércio?!... Que não suporia o Barroso?!.
Mas enfim... usou.
- Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabeça aos ferros quentes do cabeleireiro.
- Deus me dê paciência!
A dois passes, o criado observava-o em silêncio, com um ar de compaixão.
- A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos demônios. Quando eu digo as coisas!...
E de uma feita, vendo os esforços que o amo fazia por disfarçar o abdome com um espartilho, ficou tão indignado, que saiu do quarto, para não cometer alguma imprudência. Em baixo foi desabafar a sua indignação com o copeiro e o cozinheiro.
- Eu é que já não estou disposto, disse este, a suportar as impertinências da patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri o que me fazem aqui. Todo o dia são reclamações e mais reclamações! Não há meio de agradar! Se faço assim, é mau; se não faço, é pior! E nada presta! e "tudo é uma porcaria!" Hoje é com a sopa, amanhã com o assado! Vá para o diabo um tal sistema!
- Além disso, acudiu o copeiro - não há horas certas para a comida! Uma vez querem o almoço às sete da manhã e já do dia seguinte só o reclamam às duas da tarde. O jantar, tanto pode ser às quatro, como às seis, como às oito e até como às onze da noite! E eu que me amole! Não! Assim também não se atura!
- E comigo, então?! perguntou a criada, que se havia metido já na conversa - comigo é que são elas! - Falte água no jarro, falte qualquer coisa, não corra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque quebrei o braço de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a cômoda, deu-me um tal pescoção que me fez cair de encontro à quina da secretária! Ainda estou com este quadril todo roxo! Bruta!
O jardineiro, que também se achegara do grupo, contou que, não havia uma semana, a senhora varrera com um pontapé os vasos da escada do jardim, só porque uma das begônias parecia mal tratada. - É uma mulherzinha de gênio!...
- E agora vão ver! tornou a criada. - Para ralhar e atirar com as coisas na gente, é isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos pedaços que ela não se incomoda. Se o patrão que é aquele mesmo, não der as providências ninguém as dará!
- Não! Que ela tem pancada na bola, não resta dúvida!
E os comentários da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram aos ouvidos de Filomena.
- Tudo na rua! Já! disse esta, sem se alterar. - Não quero semelhante súcia nem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. - Despede-os, e anuncia, quanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!
O Borges tratou de executar as ordens da mulher.
- Então, o senhor põe-me fora?... perguntou-lhe o criado, quando recebeu a intimação para sair.
- É verdade, Manuel, sustentou o Borges - tem paciência, mas não há outro remédio... Reconheço que és um bom rapaz, mas não podes continuar ao meu serviço. Vai-te e acredita que não é por meu gosto.
- Mas por que sou despedido? Há seis anos que estou ao serviço de vocemecê, e creio que até agora ainda não dei motivos para ser posto na rua como um cachorro.
- Tens razão! tens razão, mas, já te disse, filho! Não há outro remédio!...
- É que é duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro, quando aliás...
- Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. Não ficarás desamparado. E se te vires em algum aperto, procura-me...
- É duro! insistia Manuel. - É muito duro! Ah! mas vocemecê me despede porque lhe foram encher os ouvidos a meu respeito!
- Homem, rapaz, é melhor que te vás logo e não me estejas a causticar a paciência. Se te despeço é porque assim o entendo, sebo!
- Qual o que! vocemecê despede-me a mandado da patroa!
- Ó seu mariola! gritou o amo. - Ponha-se já na rua!
--Isto é uma casa de S. Gonçalo... principiou ainda o criado, quando o Borges, perdendo de todo a paciência, saltou sobre ele, e tê-lo-ia rachado com um pontapé, se o respondão não tratasse de ganhar a porta da rua.
- Atrevido! rosnou o Borges. - Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!
No dia seguinte, principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, já bastante importunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma de cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas as nacionalidades, que choviam de sul e norte, entre uma algazarra infernal.
A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha - queria gente especial, fora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir nem mugir; ainda que com isso custasse muito mais caro.
Para a cozinha preferia um chim; para o serviço da copa um inglês, um groom legitimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola, uma criada, enfim, que não fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.
- Oh! os portugueses eram incompatíveis com a sua fantasia!
Mas não encontrou gente nessas condições, e, enquanto esperava por ela, resignou-se a tomar para seu serviço uma Cecília, tão brasileira como um Roberto, que foi substituir o Manuel e também como o novo jardineiro, e como o novo copeiro, e como o novo cozinheiro. - Uma lástima! - todos brasileiros!
- Está agora mais satisfeitinha com seu marido?!... perguntou-lhe o Borges meigamente.
- Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a mão. Vais muito bem. Continua, continua dessa forma, que um dia, talvez... consigas captar-me a estima.
- Ora!... balbuciou o mestre de obras, já meio desanimado. - É só "continua! continua!" e as coisas é que vão continuando na mesma!...
E o bom homem, no desespero de merecer as graças da esposa, transformava-se pouco a pouco.
O Guterres, indo visitá-lo, três meses depois do casamento, soltou um grito de estupefação e abriu grandes olhos espantados:
- Que! Pois é o João Borges?!... que metamorfose, meu Deus! que mudança!
E contemplando-o de alto a baixo. Sim senhor! sim senhor! - Está moço e bonito! Onde foi você, seu maganão, arranjar esses bigodes tão pretos e tão petulantes?!
- É que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me... respondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.
- Mas agora reparo! tornou o outro. - Fraque à inglesa! colarinho da moda! prastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor à gola! - Bravo! seu João! Bravo! Não há como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!
E vendo o amigo acender um charuto. - Também fuma?!... Ó senhores! estou maravilhado!
- É... gaguejou o janota à força; - o rapé ultimamente, não me fazia bem... Dou-me muito melhor com o charuto!...
- E digam mal do casamento!... considerou o Guterres.
- Queria que se mirassem neste espelho!
E em resposta a um gesto de impaciência do Borges:
- Não, meu amigo, isto tenha paciência! Em três vidas que você vivesse não me pagaria o serviço que lhe prestei, levando-o à casa da defunta D. Clementina!
- Sim, sim... respondeu o outro, cortando a conversa.
- Mas que ordena afinal, o meu amigo?
O Guterres, mudando logo de aspecto, disse então o motivo de sua visita; - se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil réis, seria um grande favor...
O Borges coçou a cabeça. - Era o diabo!... As coisas não iam lá muito bem... O casamento trouxera despesas consideráveis!... Agora o negócio fiava mais fino; tinha de pensar no futuro!... os filhos não tardariam por aí...
- Bom, senhor! retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. - Bom! Eu também não exijo sacrifícios!...
E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a raiva que se lhe desenvolvia por dentro.
- Desculpe! Desculpe! - Pensei que você fosse o mesmo homem!... ou que pelo menos o fosse para mim... a quem... digo-lhe então!... devia trazer nas palminhas, se... se soubesse ser mais reconhecido!
- Ora, vá plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha para dizer a respeito dos tais favores do Guterres. - Não esteja ai a dizer barbaridades!
- Você nega então que só a mim deve estar casado?
- Homem! não me amole, homem de Deus! Se, para - o ver pelas costas, tenho de dar duzentos mil réis - aqui estão! mas, por quem é, deixe-me em paz! -
- Ingrato!
Aí os tem, leve-os e não se incomode em voltar cá para restitui-los! Vá, vá - com Deus!
- Sim! disse o Guterres com ênfase, tomando o chapéu e a bengala - sim! levo comigo o vil dinheiro, porque desgraçadamente não tenho outro remédio; mas também sabendo que, de sua parte, é uma covardia aproveitar o aperto em que me acho, para injuriar-me desse modo!
- Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.
* * *
O outro, desde aí, não o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde se falava do mestre de obras, teve ocasião de lhe meter as botas. - Além de um grande pedaço d'asno, é um impostor! bradou e]e. Pensa, lá por ter os seus mil réis, que é superior a todo o mundo! Um tolo!
E apontou as toucas do Borges, as transformações que sofrera o basbaque depois do casamento. Mas quase todos lançaram esses comentários à conta da inveja, e o marido da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputação de um homem completamente feliz.
Entretanto, as exigências daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava a submeter-se, estribado sempre na grata esperança de possuí-la um dia.
Vieram as festas, os bailes; Filomena principiou a luzir nas salas, a ofuscar. Sua beleza, sua vivacidade espiritual e romanesca, postos agora em relevo pelos mil réis do marido, tomaram proporções dominadoras.
Era sempre a rainha dos lugares onde se achava; a mais querida, a mais falada, a mais desejada.
Todos viam no Borges um cúmulo de fortunas - os homens invejavam-no, mas nenhum deles se podia gabar de ir um ponto além de sua inveja. Filomena a todos prendia igualmente na mesma rede de atrações, sem dar a nenhum direito de avançar, nem ânimo de fugir. Se o sorriso prometia - o olhar negava; e se de seus olhos escapava porventura uma dessas faunas satânicas, que acendem no coração mil esperanças a um tempo - era uma frase, enérgica e pronta, que vinha destruir de chofre a indiscreta promessa dos olhos.
E o Borges, apesar de marido, não estava ileso dessas condições; feliz aos olhos de todos, ia arrastando ele o seu desgosto, sem poder confessar a pessoa alguma os tormentos que o devoravam. Esta circunstancia ainda o fazia sofrer mais.
- És um felizardo! Repetiram-lhe a todo o instante. E essa maldita frase produzia-lhe o efeito de um ferro em brasa. Evitava já ficar a sós, nas janelas ou nos cantos da sala, com os amigos mais chegados, para não ouvir a constante glorificação daquela felicidade, que só existe na imaginação deles.
- Para você é que é esta vida!... diziam-lhe. - Meu caro. quem nasce sob uma boa estréia, não tem que se apoquentar com a sorte!
E o Borges sacudia os ombros, sorrindo contrafeito. Mas a sua tristeza aumentava; o seu vigor descrecia, e todo ele ia parecendo vítima de uma grande enfermidade.
- Você precisa ter um pouco de cuidado, segredou-lhe uma vez o médico. - Olhe que o mundo não se acaba, meu amigo! Isso pode prejudicar mesmo a sua senhora, que, em todo o caso, é uma mulher e tem a constituição mais delicada! Não convém abusar! Não convém abusar!
- E isto é dito a mim! a mim! exclamava o Borges, a bater no peito, chorando, logo que se achava só. Mas não desanimava, certo de que os sacrifícios dedicados à cruel deusa de seus sonhos teriam, mais cedo ou mais tarde, uma recompensa. - Oh! só de pensar em tal, o coração saltava-lhe por dentro.
Não obstante, as exigências continuavam a surgir, e ele continuava a render-se, cada vez mais submisso e mais vencido.
Agora já lhe não custava suportar os bailes de cerimônia, e recebia duas vezes por mês. Aquele homem, que dantes, ao bater das onze, se recolhia invariavelmente aos seus travesseiros, passava agora todas as noites em uma roda de etiquetas, a cortejar para a direita e para a esquerda, a rir, a lisonjear, a fazer-se fino. Suas reuniões tornavam-se famosas pela suntuosidade, profusão bem escolhida dos vinhos, excelência dos bufetes, boa música e esplêndida variedade de convivas de ambos os sexos.
- Não há dúvida! E um felizardo! insistiam os amigos.
- Que mulher possui o ladrão! - formosa, distinta, elegante, inteligente e, além de tudo, honesta! Parece que só vive para o marido! Definitivamente, não há outro mais feliz!...
Só o mísero esposo não pensava dessa forma. Agora os caprichos da mulher impunham-lhe uma provação terrível para ele, e a pior de todas que até aí cometera; Filomena exigiu que o desgraçado aprendesse a valsar.
Valsar o Borges! O Borges! o homem mais incompatível com a dança!
Foi preciso arranjar um professor discreto, que lhe desse as lições em casa, às ocultas, todos os dias, das três às cinco da tarde.
Que luta, santo Deus! Que longas horas de tormento! Que heroísmo para não desanimar no meio da empresa!
Foi uma campanha formidável! Seus vastos e pesados pés não se queriam sujeitar àquela violência implacável dos passos e dos saltinhos; seus nodosos tornozelos, grossos como troncos de árvore, protestavam energicamente contra os inquisitoriais ritornelos das valsas puladas. Recalcitravam-se os joanetes, revoltavam-se os calos; tremia o soalho; vinham abaixo as bugigangas que estavam sobre os consolos da sala; o Borges suava, afogueava-se e não conseguia passar das primeiras figuras.
Mas Filomena estava ali para lhe dar coragem, como nos cavalheirescos torneios da idade média. A imagem dela animava-o, como a presença de um grande prêmio ambicionado. Só valsando conseguiria transpor o limiar daquele paraíso.
Pois bem! Valsaria, custasse o que custasse!
- Oh! ela adorava a dança! Não podia sofrer um homem que não soubesse valsar. A dança foi sempre uma de suas paixões mais fortes; em pequena chegou a imitar vários passos difíceis que vira no teatro. Sabia o solo inglês, a gavota1 o minuete, a cachucha e muitos outros.
O Borges, no fim de cinco meses de estudo acérrimo, conseguia dançar, não só a valsa, como a polca, a mazurca, o schottisch, os lanceiros e as quadrilhas francesas. Filomena então exigiu que ele, enquanto descansava da última campanha, se entregasse à leitura escolhida de certos poetas e romancistas. Apresentou-lhes os livros e marcou as lições que o marido havia de decorar.
- Quero que tenhas de memória um bom repertório de versos, para m'os recitares nas ocasiões de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!
O Borges obedeceu, como de costume, e daí a pouco tempo atroava nas salas a sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamatórios de Manha, de Gonzaga.
Um amigo, que ia visitá-lo, não se animou a tocar a campainha, intimidado por aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o e foi logo contar o fato à senhora.
- Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declamação, ordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia e caíam no recitativo.
Filomena, que tinha muitos versos de memória, lembrou-se de dialogar com o marido as poesias mais próprias para isso. Depois veio-lhe a idéia de recorrer às tragédias de Gonçalves Dias e fazer a coisa mais ao vivo; tomando cada um o traje e o característico que exigia o papel.
- Queres saber de uma coisa?!... disse ela afinal. O verdadeiro é arranjarmos um teatro.
O Borges levou as mãos à cabeça.
- Um teatro! Pois eu tenho de representar?!...
- E que há nisso de extraordinário?... Na Europa o teatro em família é um divertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar - o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. Vê-se também o Chico Serra, Gonçalves, o Morais, chama-se a viúva Perdigão...
- A viúva Perdigão?!... perguntou o marido, sentindo um arrepio.
- Sim! há de dar uma excelente dama central. E muito desembaraçada e tem graça. Enfim, não faltará quem nos ajude. O teatro pode ser na chácara; estende-se mais aquele pavilhão que lá está e rouba-se um pouco do jardim para a platéia.
O Borges ainda tentou algumas objeções; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores, e as obras principiaram.
Foi esse um tempo magnífico para Filomena; vivia muito entretida com a construção de seu teatrinho. Era ela própria quem dirigia as obras; quem arranjava os desenhos decorativos da sala e do frontispício; quem administrava e conduzia os trabalhos do cenógrafo.
Quinze dias depois, estava em ensaios a primeira peça. A casa tomou um caráter boêmio de atelier; encheu-se de amadores dramáticos, de músicos. Havia certo movimento, certa agitação alegre, feita de conversas em voz alta, de risadas, de afinações de instrumentos. Viam-se carpinteiros, de cachimbo ao canto da boca, trabalhando e cantarolando em mangas de camisa; panos enormes, estendidos no chão, cobertos de tinta; costureiras, aderecistas, operários de todos os gêneros, a entrar e a sair, numa atividade ruidosa.
O Borges andava muito atrapalhado com tudo aquilo, e principalmente com o seu papel.
- Ora que diabo me havia agora de cair na cabeça!... dizia ele consigo. Eu nunca tive queda para ator. Esta só a mim sucede!
Mas a peça ficou ensaiada; expediram-se os convites, e no dia do espetáculo o teatrinho de Filomena encheu-se de amigos.
O Barradinhas era o melhor dos curiosos, e fazia de galã. Devia ir muito bem; tinha enorme talento para a cena; "uma figura de arrebatar"! Bonito, cabelos crespos e uma voz "que nem um tenor italiano"! Filomena representava a sua amante; ele caía-lhe aos pés, várias vezes, e dizia-lhe longas frases retoricamente apaixonadas.
O Borges é que não ficava muito satisfeito com a história. - Ele, para que o havia de negar?... não morria de amores por - aquele gênero de divertimento!...
E cuidava muito mais em vigiar o galã do que em estudar o seu papel. Pode ser que se enganasse... mas ia jurar que aquele pelintra não tinha por ali muito boas intenções!... Ah! ele sabia perfeitamente que a mulher não era das mais fáceis... (Oh! se sabia!) não estava, porém, em suas mãos afastar os olhos de cima do tal galã! Era lá uma cisma!...
- Também! Pobrezinho dele, se me cai na arara de tentar alguma! jurava o mestre de obras. Racho-o de meio a meio!
E - rachava. Mas o bonito curioso, bem a contragosto, não tinha achado ainda uma boa ocasião para dizer em particular a Filomena o que lhe repetia todos os dias, ajoelhado a seus pés, defronte do marido. Por várias vezes estivera até "vai-não-vai", chegara a supor que a coisa se decidia; mas o diabo do Borges apresentava-se de repente, e... lá se ia a ocasião.
- Por ela, coitada! estou garantido! considerava o Barradinhas, pensando nos olhares prometedores de Filomena. Está caídinha! Assim dispusesse eu de um momento!... Não queria mais que um momento!... Dizer-lhe uma palavra; entregar-lhe uma carta; fazer-lhe um sinal - bastava!
Mas o demônio do marido nem isso permitia!
A peste não fazia outra coisa senão vigiar a mulher! - Cacete!
Chegou o dia do espetáculo, sem que o Barradinhas tivesse oportunidade de ouvir dos lábios de Filomena aquilo que havia tanto tempo diziam os olhos indiscretos da formosa criatura.
- É para maçar! pensava ele indignado. É para fazer um homem perder a paciência! Sei que sou amado por uma mulher que adoro; caio-lhe aos pés, tomo-lhe as mãos, bebo-lhe nos olhos a confissão de sua ternura, - e, a despeito de tudo isso, não consigo estar com ela um só instante; porque essa mulher tem um marido impossível, um marido único, um marido que não a larga, um marido que não vai cuidar de seus negócios, um marido-calamidade! Diabo leve quem inventou semelhante homem!
E o lindo curioso dramático, quando fazia esses raciocínios, ficava colérico, furioso, a passear no lugar em que estivesse, com as mãos nos bolsos, o coração oprimido como por uma injustiça.
- Oh! ela será minha! Isso juro eu! Para que serve então ter talento e ser moço e bonito?...
* * *
Às oito horas da noite estava o teatrinho completamente cheio; a orquestra havia já tocado a sua sinfonia, e esperava o sinal para lançar a música com que tinha de principiar a peça. Corria nos espectadores um suspiro de impaciência. Filomena, nervosa, trêmula, esperava atrás de um bastidor que o pano subisse, para mostrar-se ao público, esplêndida na sua roupa de caráter, com o seu papel na ponta da língua. O contra-regra corria de um para outro lado, perguntando se todos estavam prontos e declarando que ia principiar o espetáculo. "Fora de cena! Fora de cena!" O ponto correu a esconder-se no seu buraco. E, na confusão que se fazia na caixa, cada um tratou de tomar o seu lugar. Mas ninguém sabia dar notícias do Borges.
- Ora, onde diabo se foi meter este homem?!... perguntou o contra-regra, aflito.
Por esse tempo, o Barradinhas, que vira Filomena pela primeira vez sem o marido, meio oculta no vão sombrio de um bastidor, concebeu logo a idéia de aproveitar a ocasião; deu uma volta pelo fundo da caixa, e, surgindo misteriosamente por detrás dela, ia a segurar-lhe a cintura e ferrar-lhe um beijo, quando a bela mulher vira-se de súbito, recua dois passos e solta em cheio no lindo rosto do galã a mais sonora bofetada.
O regente, supondo ser aquela palmada o sinal que ele esperava, rompeu a orquestra, o pano ergueu-se logo, e os espectadores viram o seguinte:
Filomena, sem poder conter as gargalhadas, torcia-se num divão; o Barradinhas, vestido de calção e meia, procurava uma saída, perseguido pelo Borges, que, em mangas de camisa e botas, de montar, numa cabeleira a escapar-lhe pelo pescoço, cercava-o por toda a parte, a dordejar bengaladas. No meio do palco uma das amadoras escabujava com um ataque de nervos, entre o grupo assustado dos curiosos, que iam e vinham, num fluxo e refluxo de encontrões promovidos pelo Borges.
O público, defronte daquela cena tão agitada e tão ao vivo, tomou a resolução de aplaudir; enquanto o dono da casa, repetindo as bengaladas, bramia possesso:
- Pensava que eu não te via, grande velhaco? Não sabias que trago há muito a pulga atrás da orelha, grande maroto?!
O Borges, com efeito, não perdera de vista o galã, na ocasião em que se vestia no camarim, farejou-lhe os planos e tanto bastou para ir, munido de bengala, esconder-se sorrateiramente perto da mulher, por detrás de uma empanada, sem mais pensar no drama, e surdo completamente aos reclamos do contra-regra.
Entretanto, o Barradinhas, vendo que não conseguia fugir pelos fundos do teatro, arremessa-se sobre a orquestra, salta por cima dos rabequistas, enfia pela platéia e ganha a chácara, e afinal a rua, onde se lançou de carreira, na frente do populacho, que a sua estranha roupa de veludo chamava e atraía.
É inútil acrescentar que este fato cortou pela raiz a idéia das representações, e induziu o Borges a fazer um bom conceito da mulher. Esta circunstância em parte o consolou de seus duros infortúnios; mas... desgraçado! uma nova provação já o esperava.
* * *
Filomena descobriu que o Urso lhe fazia mal aos nervos, e declarou positivamente não estar disposta a sofrer em casa semelhante bicho.
- Porém, que mal te fez o pobre cão?... perguntou o Borges, sobressaltado com a idéia de separar-se daquele fiel amigo de tanto tempo.
- Ora! respondeu ela. É um animal feio! feio, e está sempre a pregar-me sustos! Ainda não há dois dias, achava-me eu descuidada na sala de jantar, quando o maldito surge-me pelas costas. Não imaginas que susto apanhei! Demais, só gosto dos cães em certas e muitas determinadas circunstâncias: - como acessório pitoresco de uma paisagem, não são maus; na qualidade de guia de cego, ao longo da rua, num dia chuvoso, também não desgosto; ou então dentro de casa num gabinete de trabalho - um cãozinho felpudo, asseiado, muito gordinho, um king-charles esquecido sobre as cadeiras - tem sua graça. Mas o Urso não está em nenhum desses casos; é um cão detestável, feio, sem pitoresco, sem razão de ser, sem pés nem cabeça de cão; parece um monstro, é grande de mais, é bruto, não se lhe vêem os olhos, não vai bem em parte alguma; tão mal fica sobre o tapete da sala, como sobre a grama da chácara! Além disso, enche-me a casa de pulgas e tem uma morrinha insuportável! Se soubesses como ficas repulsivo depois de brincar alguns instantes com ele!...
Esta última consideração resolveu o Borges a separar-se do querido Urso. Mandá-lo-ia para a casa de um amigo, morador do Engenho Novo, visto que na ocasião não dispunha em Paquetá de alguém que se pudesse encarregar disso.
Foi com os olhos cheios d'água que o bom homem viu no dia seguinte partir o seu fiel companheiro.
- Vai! disse consigo. Vai, meu pobre Urso! Não contavas naturalmente que eu te enxotasse de casa, como se enxotam os Guterres e os Barradinhas - tu! que sempre foste bom e verdadeiro!
- Pobre animal! pobre animal! dizia o Borges, fechando-se no quarto. Como tudo se vai transformando em minha vida! Já não possuo os meus dois melhores amigos, os únicos que me restavam - o Barroso e o Urso!
E chorava. O Barroso fora o seu companheiro de infância, em Paquetá. Principiaram a vida trabalhando no mesmo serviço e às ordens do mesmo patrão, pois que o Barroso era neste tempo caixeiro do pai de Borges; antes do casamento, nunca tinham tido a mais ligeira rusga - foram sempre unha com carne, unidos - inseparáveis; mas depois... esfriaram, nunca mais se deram, e por conseguinte só restava o outro - o Urso, o fiel, o sempre o mesmo, o único que lhe não fazia recriminações!...
E agora era este que se ia também... talvez para sempre! Oh! quantas vezes não passaram juntos, horas esquecidas, como dois iguais!... Com que prazer o Borges, ao voltar do trabalho, não recebia no ombro as patas do companheiro e não lhe corria a mão pelo enorme lombo felpudo?...
Ah! Mas ele, sem que Filomena o soubesse, havia de ir visitá-lo, pelo menos duas vezes em cada mês.
E desde então, efetivamente, o Borges, quando lhe apertavam as saudades do Urso, metia-se no trem e lá ia passar com ele alguns instantes. - Que idílios nessas curtas visitas clandestinas! Que festas não trocavam entre si os dois amigos!
O animal parecia compreender aquela afeição do Borges, porque, mal o via apontar ao longe, disparava a correr para ele, grunhindo, a sacudir a cauda, a fazer-lhe negaças, a cercá-lo, a pular, a morder-lhe os calcanhares, num alvoroço de prazer. Mas um belo dia em que o mestre de obras foi visitá-lo, disseram-lhe que o dono da casa havia na véspera fugido aos credores, e ninguém sabia dar notícias dele, e muito menos do Urso.
O Borges voltou muito triste, e assim se conservou durante o resto do dia. A mulher veio a saber a causa dessas mágoas, e, para o consolar, tomou-lhe a cabeça, entre as mãos e deu-lhe um beijo em plena boca; mas fugiu logo, deixando o marido na doce esperança de ver terminar ali as suas provações e com elas o longo suplício de Tântalo, que o devorava.
Assim não sucedeu.
Nem só o trinco permanecia corrido, como a paixão de Filomena pelas festas e pelos requintes de luxo exacerbara-se de um modo assustador. Agora, não se passava um dia, uma hora, que lhe não acudissem novos meios de gastar "carradas de contos". Ela quis carruagens, parelhas de raça, lacaios gordos à moda parisiense, grooms de cara raspada, que servissem o chá de gravata branca e casaca; quis as esquisitices do gosto, os Sêvres, as sedas de Macau, os móveis caprichosos e as jóias empobrecedoras para quem as dá.
O Borges principiava a temer uma ruína. Ele era rico... mas; afinal, que diabo! não tinha à sua disposição as Índias Inglesas! Daquele modo onde iriam parar?... Verdade é que ultimamente, instigado pela mulher, que desejou sentir as comoções comerciais, arriscara na Bolsa grandes quantias que lhe trouxeram lucros consideráveis.
Mas a fortuna também cansa! refletia o capitalista. E se me desanda a roda, posso dar com os burros n'água.
Por esse tempo exercitava-se ele no bilhar. Já sabia tomar grogs, dizer mal dos cantadores do lírico, e perder dinheiro nas corridas do Prado.
- Contudo, ainda te falta uma coisa, observou-lhe a mulher uma vez em que ele queria valer os seus progressos.
- Ainda! Qual?
- Um título.
- Mas para que um título?
- Não posso compreender um homem sem qualquer distinção. Um título serve para disfarçar a nulidade do nome. Creio que não terás a pretensão de imaginar que possuís um nome!
- Como assim?! Pois eu não...
- Teu nome não existe; não tens uma individualidade, não tens por onde te possas distinguir dos outros! Se se disser o - João Borges - é como se se dissesse o - José da Silva; ninguém sabe quem é, ninguém conhece!
- Mas, filha, cada um é conhecido na sua roda. Eu sou conhecido na praça!...
- Que praça!...
- A praça do comércio.
- Ora! fez a mulher com desdém - isso não é ser conhecido; ainda se fosse na praça pública, vá!
O Borges fez um gesto severo.
- Se tivesse talento, acrescentou a mulher, lançar-te-ias na literatura, ou na política, ou no teatro, ou na guerra de qualquer país. Mas nem é bom pensar nisso! Tuas ambições limitam-se a uma patente da guarda-nacional, a uma faixa de subdelegado ou à presidência de alguma irmandade religiosa; coisinhas que eu abomino, como a expressão mais chata e mais ridícula da estupidez burguesa!
- Mas, filha, nem eu sou subdelegado, nem nunca prestei serviço à guarda-nacional; e, desde que torceste o nariz às irmandades, nunca mais aceitei cargos, tanto da ordem de Nossa Senhora da Candelária, como do Sacramento e da de S. Francisco!
- Grande fúria! exclamou a mulher. O que sei é que não tens um título, e é preciso que o tenhas!
- Isso é o que menos custa! disse o Borges. - Serei comendador, arranjarei a comenda da Rosa!
- Comendador! Estás doido! Isso não é um título! Eu só aceito de barão para cima. Comendador! Comendador todo o mundo o é! Ora, comendador! Com efeito!
- E se eu arranjar um baronato? Hem?! Se eu o arranjar, prometes ser mais condescendente?...
Filomena respondeu passando-lhe os braços em volta do pescoço, e dando-lhe um beijo na face.
- Pois juro-te que serás baronesa ou coisa que o valha. Hoje tudo isso se obtém com muita facilidade do governo português...
- Mas receio a demora! volveu Filomena. Ardo de impaciência por ser alguma coisa - baronesa! condessa! viscondessa! oh! como é bonito! como é poético. "A Sra. condessa quer se dar ao incômodo de entrar?... A Sra. baronesa já se retira?..." Oh! ~ excelente! ~ encantador! Lamento apenas não ter me lembrado disto há mais tempo; a estas horas podíamos estar já no gozo do titulo! Receio a demora!
- Não; talvez não demore muito, Sra. viscondessa! disse o marido galhofeiramente, tomando as mãos da mulher.
- E se fôssemos a Portugal tratar disso?... lembrou ela. Ainda não fizemos uma viagem!...
- Pois vamos lá a Portugal! disse o Borges.
E ficou resolvido que partiriam, logo que estivessem dadas as providências necessárias para a compra do título.
Durante o resto desse dia, Filomena mostrou-se muito chegada ao marido. À noite, às costumadas visitas, não se cansaram de falar na próxima viagem. Borges estava radiante, a mulher nunca o tratara tão carinhosamente. Os amigos chegavam a estranhá-lo. Abriram-se garrafas de um Tokai magnífico, que o futuro titular recebia diretamente da Hungria, e o mestre de obras bebeu entusiasmado à sua felicidade.
- É agora! dizia consigo esfregando as mãos. É agora que se decide o negócio!
Mas o ferrolho ainda não se abriu dessa vez.
- Pois veremos quem vence, exclamou ele, atirando-se furioso na sua cama de solteiro. Ou eu conseguirei, quanto antes, entrar naquele quarto, ou leva tudo o diabo nesta casa! Arre! Nem sei até o que me parece semelhante coisa!
* * *