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FILOMENA BORGES

aluísio de azevedo

Porém, no dia seguinte, quem fosse à casa do Sr. barão de Itassu, das nove da noite às seis da madrugada e o visse fantasiado de chicard no meio da dança, não seria capaz de acreditar que ali estivesse o mesmo homem da véspera.

Era de um cômico o Borges de cabeleira de arminho e capacete com penacho vermelho. O seu vigoroso tipo de montanhês não se acomodava bem dentro da extravagante camisola de seda cor de rosa, franjada de ouro, que lhe mostrava os ombros e os grossos braços nus, e parecia reagir contra as pitorescas botas de montar, que lhe iam até ao joelho.

- Falta-te qualquer coisa!... dissera-lhe a mulher a considerá-lo de alto a baixo, na ocasião em que ele lhe perguntou que tal o achava. Deves dar mais elasticidade aos movimentos; não trazer esse capacete assim caído sobre a nuca, e puxar o canhão das botas mais para cima.

Ela é que apareceu encantadora numa fantasia espanhola, que lhe deixava bem patente o rijo desenho do corpo e mostrava um princípio de pernas, parte do colombino seio, e completo aquele famoso pescoço cor de camélia, tormento de muita gente nas poucas vezes que se expunha.

Os adoradores crivavam-no à ponta de olhares gulosos, e desfaziam-se em galanteios.

A festa foi no primeiro pavimento, e toda ela de um brilho original e deslumbrante.

Plantas e flores por toda parte, entre decorações de bandeiras e galhardetes; longos rosários de pequenas lanternas redondas, desenhando os mais graciosos arabescos em uma bela variedade de cores; palmeiras, tinhorões, grutas artificiais, repuxos, sátiros e faunos, engendravam grupos artisticamente distribuídos.

A música, que não se sabia donde vinha, chegava às salas tépidas, abafada e voluptuosa, como gemidos, beijos e soluços errantes pelo ar. A luz, à feição da música, era também distribuída suavemente, em tons opalinos e duvidosos.

Tudo era morno e misterioso: os tapetes de seda fina, Imitando relva, bebiam o som dos passos; os coxins de damasco da Ásia, os divãs bojudos e rasteiros, como bonzos deitados de bruços no chão, tinham a maciez fofa e mole de carnes gordas; enquanto que dos maciços de verdura se desprendia, numa sutil pulverização, um delicioso chuvisco de perfumes, que adoçava e refrescava o ambiente e punha nos sentidos um vago entorpecimento de volúpia.

Como para contrastar com toda essa suavidade de tons e sons, havia no fundo do salão principal um enorme tímpano de metal polido, em forma de quadrante de relógio, que servia para marcar as várias peças da dança. Era bastante que o regente da orquestra tocasse, lá do seu esconderijo, num botãozinho elétrico, que tinha ao lado, para que o grande tímpano, nem só com um ponteiro, mas em badaladas sonoras, anunciasse por toda a casa a quadrilha ou a valsa que se ia dançar.

Um terraço, iluminado à luz elétrica, estabelecia comunicação entre as salas e a chácara, onde pequenos quiosques transparentes, como gigantescas lanternas de papel pousadas sobre a grama, ofereciam aos convidados a mais completa variedade de vinhos e refrescos.

Com efeito! disse o Barroso, olhando com um ar de censura para tudo aquilo. Com efeito! É até onde pode chegar a maluquice de um homem!...

E não conseguiu reprimir a sua indignação ao ver o Borges aproximar-se dele aos saltos, agitando o irrequieto e escandaloso penacho do seu ofuscante capacete cor de prata:

- Que diabo é isso?!... exclamou, deste para maluco! Pois não vês, homem, que já não te ficam bem essas coisas?!... Queres acabar num hospício?!... Ora, o que parece um marmanjão da tua idade a pular no meio da casa, vestido de princês?!...

- Que queres, meu amigo?... o amor! o amor! disse o Borges, procurando ser grave e conseguindo apenas ficar mais cômico debaixo da sua cabeleira a Luís XV.

- Qual o amor, nem qual carapuça! retrucou o outro, ralhando.- Eu amo muito minha mulher, e, ai dela se me viesse para cá com pantominices dessa ordem!

- É por que não estás nas minhas condições! Fosses tu casado com Filomena e dir-me-ias depois!...

- Qual o que!, contradisse o Barroso. Tu o que precisavas era de um cáustico na nuca!

- Mas, com a breca! querias então que eu contrariasse minha mulher?!... repontou o Borges, perdendo a paciência. Que diabo! eu desejava estar casado de outro modo!... juro-te que preferia uma esposa como dizes ser a tua! ... Mas a sorte não quis assim; que lhe hei de eu fazer? ... Agora é levar a cruz ao Calvário! Se eu não a estimasse, bem! mas eu adoro-a, como já te confessei um milhão de vezes; e ela, meu amigo, formosa, querida, desejada como é, vendo-se contrariada, seria, em represália, muito capaz de fugir dos meus braços para os de outro qualquer!

- Pois que fugisse! É boa!

- Que fugisse, não! bradou o Borges encolerizando-se. Vai para o diabo com o teu agouro! Prefiro tudo a ver-me privado da sua companhia! Serei um louco, um libertino, um criminoso, se preciso for, contanto que a tenha sempre ao meu lado, que a veja, que a sinta, que a ame, que a possua! Deixá-la ir! E nesse caso de que me serviria a vida?!... Sem ela de que me serviria a posição social, a estima pública e todas as grandezas da terra?!

- Não era dessa forma que me falavas há poucos dias... observou o Barroso, deveras surpreso com a transformação rápida que se acabava de operar no amigo.

- É que então não me aconselhavas que a deixasse fugir de meus braços!... respondeu o marido de Filomena.

- O que te afianço, acrescentou o outro, é que, se desconfiasse que havias de mudar tão depressa, não teria vindo à tua casa...

- Estás arrependido?...

- Não, filho! não estou arrependido... mas é que ainda há tão poucos dias tu te queixavas daquela forma de tua mulher, e hoje saltas-me com três pedras na mão, só porque eu...

- Ah! tornou o Borges, passando o braço na cintura do amigo e procurando falar-lhe em segredo. Ah! ... é que nesse momento eu estava longe de Filomena, fora do alcance de sua fascinação, do perfume de seus cabelos, do eco de sua voz, da reflexão de seus olhos!...

O Barroso fitou-o assombrado, e fez um gesto para fugir-lhe do braço. Que diabo de palavrório era aquele?!...

O outro não fez caso e segurou-o melhor.

- Vê!... disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava a sala próxima. Olha! Vê como vai formosa! Contempla aquela garganta de mármore, aquele porte de rainha egípcia, aqueles olhos mais formosos que as estrelas! Contempla-a toda, e dir-me-ás depois, desgraçado! se há no mundo coisa alguma que valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!... se há coisa alguma, seja ela a doçura do lar, as glórias do talento, a consolação do trabalho, as honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor de uma geração inteira - se há alguma coisa que possa corresponder à suprema ventura de ser seu escravo!...

- Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-lhe dos braços.

- Ainda não bebi demais! respondeu o barão, fazendo um gesto dramático.

- Mas lembraste a propósito: Champanhe! exclamou para um criado. Champanhe! Depressa!

E depois, erguendo a taça, que se lhe entornava sobre os dedos: - Ao amor, Barroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!

- Estás insuportável! resmungou o amigo, pensando já em escamugir-se na primeira ocasião.

E mal pilhou uma escapula, foi-se.

* * *

Em casa, a mulher, que ainda estava de pé, admirou-se de o ver entrar tão cedo.

- Pois eu estou lá disposto a aturar bebedeiras de quem quer que seja?!... exclamou ele, desabridamente, a desenfiar a sobrecasaca. O Borges está insuportável! Está um libertino! A mulher faz dele o que quer. Eu, se adivinhasse semelhante coisa, até nem lhe tinha falado quando o vi! Um pancada!

- Mas que fez ele?... perguntou D. Sabina, emperrando com as palavras do marido.

- Ora! Faz todas as loucuras que vem à cabeça da mulher! Não Imaginas! -.. É bastante que ela mostre desejo de uma coisa, seja qual for, a mais extravagante, a mais irrealizável, aí está o homem tratando de pô-la em prática! Deus te livre!

- Então, faz-lhe todas as vontades? ...

- Pois se ele está apaixonado loucamente pela mulher! se está mesmo pelo beiço!

E o Barroso passou a contar tudo o que presenciara a respeito do Borges.

- Sim senhor! disse D. Sabina, quando ele terminou. Sim senhor! É um marido ás direitas! Assim é que eu os entendo - ou bem que um casal se ama ou bem que se não ama!

- Que é lá isso?... perguntou Barroso espantado. - Pois achas que aquele idiota procede bem, fazendo todas as vontades à mulher?!...

- De certo! acudiu Sabina - de certo. E há de ser muito amado e muito respeitado pela esposa... Eu, no caso dele, faria o mesmo! Pois se a mulher é todo o seu encanto, todo o seu feitiço... nada mais natural que o homem lhe faça as vontades para vê-la feliz e satisfeita! Não tem que saber - gosto do Borges! É um marido que me enche as medidas!

- Ora! ora! ora! fez o Barroso, sacudindo a cabeça - ora esta!...

Sabina prosseguiu:

- De uma mulherzinha como a dele é que você precisava para o ensinar, seu unha de fome! Não devia ser uma toleirona, como eu, que levo aqui a matar-me, às vezes até fazendo o despejo! e, quando quero ir a qualquer divertimento, quando apeteço um teatro, um passeio, uma visita, ou quando preciso de um vestidinho mais assim ou de um chapéu mais assado, você nunca está pela coisa!

- Porque não sou doido! respondeu o Barroso com mau modo. - Estaria bem servido se fosse a fazer-te todas as vontades! - a estas horas não teria onde cair morto!

- Ora, não me venha contar histórias, seu Barroso! Não haviam de ser essas misérias que o poriam mais pobre! Hoje, por exemplo... por que não me levou à casa de seu amigo?... Eu tinha tanta vontade de lá ir!... Dizem que estava tudo preparado com tanto luxo, tão bonito!... E você, só para não me fazer a vontade, deixou-me ficar em casa!

- Pergunta antes se tinha dinheiro para te levar!

- Lá vem a tal história do "Pergunta se eu tenho dinheiro!" O mesmo não diz você aos procuradores dessas sociedades, que não lhe largam a porta! Principalmente a tal Maçonaria! Meu Deus, é um cesto roto para comer dinheiro! Entretanto, o mais insignificante objeto de que eu precise...

- Olha! queres saber de uma coisa?! exclamou o Barroso, interrompendo-a. - Não estou disposto a ouvir essa lengalenga! Por hoje já basta de maluquices! Se te não levei à casa do Borges foi porque não quis, entendes tu! Porque não quis! e não tenho que te dar satisfações! Ora, vamos a ver se temos aqui a Filomena Borges!...

- Ah! fale assim! retrucou a mulher enraivecendo-se. - Fale desse modo e não venha para cá com fingimentos! Você não me levou à casa do barão, porque teve pena de comprar um vestido! porque não teve coragem para alugar um carro! Somítico!

- O' mulher! berrou o marido. - Já te disse que não estou disposto a essa seringação!

- Pois que não esteja! Eu também não estou disposta a muita coisa e vou agüentando! Só não pilho o que desejo! há mais de uma semana pedi-lhe que comprasse um tapete, ali para o pé da cama, que, sempre que me levanto, é uma constipação certa... e, que é dele?!

- Aí temos outra!

- Pois se é assim mesmo! Eu nada lhe peço que você faça!

- Não tenho onde cavar dinheiro! Arre!

- Mas tem por fora onde enterrá-lo! Quem sabe se o Borges é mais rico do que você?!

- Mulher! mulher! mulher! Estás a fazer chegar-me a mostarda ao nariz! ...

- Diabo do sovina!

- Cala esta boca, demônio! trovejou o Barroso; ameaçando a mulher com o punho fechado.

- Bate, malvado! guinchou ela, empertigando-se com as mãos nas cadeiras, lívida, defronte do marido. Bate! Também é só para que serves, ordinário!

E, voltando-se com desprezo. - Um pulha desta ordem a querer falar dos outros!... Por isso é que se vê tanta coisa por aí!...

- Hein?! berrou o marido, saltando para junto da mulher. Que é que se vê por aí? Hás de dizer o que se vê por aí!

E cego de cólera, a sacudir um braço de Sabina:

- Hás de dizer! hás de dizer!

- Solte-me o braço, seu bruto!

- Atrevida! Quero só que vejam a intenção perversa daquela ameaça!

E empurrando-a: - Vai-te, peste! Vocês tão todas a mesma súcia! E ainda há quem de os homens como culpados das patifarias das mulheres! ...

- E são! respondeu Sabina. E são! E fazem elas muito bem! Era do que você precisava para não ser bruto!

O Barroso, que se havia afastado, voltou rapidamente ao ouvir a nova ameaça, e com tal força arremessou um pé contra a mulher, que a fez ir aos trambolhões de encontro à mesa de jantar.

- Bate, danado! bate! que não me hás de tapar a boca!

O pequeno, no quarto, acabava de despertar com o barulho e pôs-se a fazer berreiro.

A mulher correu logo para junto dele e foi lhe assistindo palmadas nas perninhas tenras, a exclamar:

- Tu também, pestezinha? tu também queres entrar no sarilho?! Pois toma! Toma!

E o pequeno redobrava a gritaria na proporção das palmadas.

- Não mates a criança! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo braço e fazendo-a cair por terra. Ela não tem culpa que a acordasses tu com os teus berros!

- Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esganiçando-se. É meu filho! não é seu!

- Não é meu, cachorra?!

E a pancadaria recomeçou.

Mas afinal, a desgraçada foi deitar-se, a chorar, a maldizer-se, e o marido daí a pouco fez o mesmo, ao lado dela, resmungando.

Algumas horas depois, dormiam profundamente nos braços um do outro.

- Vivemos como Deus com os anjos! ... balbuciava ele, sonhando, a conversa que tivera com o Borges no Passeio Público. - Meiguice ali!... Mas também podes ver de que maneira a trato!...

Ah! hipócritas! hipócritas!

XII

AMOR DE FILOMENA

Por esse tempo, a festa do Borges atingia o seu apogeu.

Chegava ao momento do completo delírio, do prazer sem bordas que embala e arrebata os sentidos, como um vasto oceano de delícias, sem horizontes. Chegava ao ponto em que a gente perde a noção justa das coisas e cai num doce modorrar voluptuoso e alheiado; quando tudo o que nos cerca vai-se confundindo, dissolvendo, perdendo os contornos num esbatimento de sonho; quando todos os hálitos se misturam no ar; quando os perfumes das mulheres, os gemidos das rabecas, e todas as cintilações da carne, e todas as rebrilhações dos diamantes se fundem e confundem numa atmosfera opalina, que nos penetra até os mais íntimos refolhos da alma.

Mas, no meio de tanta delícia, Filomena recebeu em pleno coração uma abalo que ela estava longe de prever.

Este abalo foi causado por uma carta caída do cinto do marido. Filomena apanhou-a, refugiou-se no quarto, abriu-a e leu-a.

Era dirigida por aquela célebre viúva rica, a Chiquinha Perdigão, a mulher de firma comercial, a mesma que em algum tempo tentara seduzir o Borges e que, afinal, a julgar pelo sentido do que vinha escrito, conseguira pouco mais ou menos os seus desígnios.

Eis o que dizia ela, à tinta encarnada, numa pequena folha de papel de seda, rescendente a couro da Rússia:

"Querido barão.

Em data de ontem, recebi a sua amável cartinha e tenho o mais vivo prazer em cumprir com o que ela me determina.

Não sei o que vou ouvir de seus lábios, mas adivinha-me o coração que não será nada de mau.

Durante a sexta quadrilha estarei à sua espera no caramanchão, que fica ao fundo da avenida de bambus.

A essa hora ninguém se lembrará de lá ir, e poderemos então conversar à vontade, sem que D. Filomena, venha a suspeitar de nossa entrevista.

Por mais cautela levarei um dominó escuro, que previamente ficará depositado no gabinete das senhoras, e acho que o barão deve também se disfarçar com outro dominó.

Por conseguinte, não se comprometa com pessoa alguma para a sexta quadrilha e, à hora marcada, esteja no ponto, sem falta.

Aquela que o estima e sempre o estimou,

C . Perdigão.

- Miseráveis! exclamou Filomena, amarrotando a carta. - Miseráveis!

E, depois que o seu pensamento percorreu num vôo toda a órbita do fato que ali estava provado naquele pedaço de papel, sentiu uma grande indignação pelo marido.

- Trair-me! Trair-me o infame! E logo com quem?... Com a Chiquinha!... uma mulher que pinta os cabelos e usa enchimentos de algodão! Oh! É indigno!

E, sem se poder dominar, deixou-se possuir de um desespero sombrio, de uma aflitiva sede de vingança; mas, caiu logo em si, e circunvagou olhares sobressaltados, como se receasse ser apanhada na intimidade daquele sofrimento.

Desconheceu-se.

- Pois que... Teria ela ciúmes do marido?... Seria crível que ela - Filomena Borges! - amasse aquele homem, aquele impostor?! Oh! não! não era possível!

Ergueu-se da otomana, em que se havia prostrado, e pôs-se a passear pelo quarto, rindo nervosamente, a afetar que não ligava "a menor importância àqueles amores ridículos do marido".

- Que amasse! que amasse à vontade a quem melhor entendesse, que diabo tinha ela com isso?!...

E, sentindo um novelo enrodilhar-se-lhe na garganta, foi à janela e abriu-a bruscamente de par em par.

Sua fantasia fugiu logo noite fora, como ave ominosa e amiga das trevas e do silêncio. E ela ficou, ficou a olhar, a olhar para o espaço, como se acompanhasse com a vista o doido remigiar do pássaro fantástico e agoureiro.

A noite era calma e de uma transparência azul. Sentiam-se no ar emanações balsâmicas que se despediam do jardim, onde ainda bruxuleavam tristemente os últimos balõezinhos venezianos; ao passo que das salas do primeiro andar, em um tom cansado e arquejante, subiam de rastros longos gemidos de outras valsas alemãs.

Filomena apoiou os cotovelos no balcão da janela, cobriu o rosto com as mãos e pôs-se a chorar.

Nisto, a lua, afastando a cortina de nuvens que a velava, entornou da concha de prata a sua luz tranqüila e misteriosa, que é, como um doce orvalho refrigerante para os corações abrasados na febre do amor.

Então, uma infinidade de considerações veio grupar-se no espírito magoado de Filomena Borges.

Agora, que pela primeira vez o esposo lhe aparecia capaz de esquecê-la por outra, é que ela o desejava e queria como nunca. As palavras da viúva enchiam-na toda de um amor inesperado e punham-lhe no espírito o sobressalto de quem dá de repente pela falta de um objeto precioso que trazia consigo; enquanto a pontinha sorrateira de um nascente remorso aproveitava a perturbação em que ela estava para ir desfibrando, um por um, todos os véus que escondiam as qualidades simpáticas do marido.

E o vulto do Borges, à proporção que se descobria aos olhos da mulher, ia crescendo, crescendo, e tomando dimensões extraordinárias.

Filomena já o via generoso, bom, intrépido e apaixonado. - Sim!... murmurou ela, como se despertasse de um longo entorpecimento. - Sim!... Ele era digno de muito mais amor! É um homem completo, um coração enorme, um caráter sublime! Eu, só eu, fui a culpada de o haver perdido: nunca o apreciei devidamente! nunca lhe paguei em amor bastante tudo que a sua dedicação punha aos meus pés! Imprudente que fui!... Mas ele?!... Ele! como pôde esquecer-se de mim por aquela mulher detestável?! Oh! Eu detesto-o! Eu abomino-o!

E, escondendo de novo o rosto, abriu de novo a chorar.

Estava agora mais formosa na sua fantasia espanhola: toda vergada sobre o balcão da janela, os quadris empinados, suspendendo um pouco mais a saia de seda amarela, guarnecida de rendas pretas; as pernas cruzadas, os ombros vagamente iluminados pela lua, faziam estranha harmonia naquela expressão de angústia, casada com o salero de seu tipo a Fortúnio.

Mas um beijo à queima-roupa, recebido em cheio no pescoço, fê-la soltar um grito e voltar-se rápida como uma espada em duelo.

* * *

A seu lado tremulava o irrequieto penacho vermelho do marido, cujas mãos lhe haviam já empolgado a cinta e a puxavam brandamente sobre ele.

Filomena, em vez da costumada resistência, passou-lhe os braços em volta do pescoço e começou a disparar-lhe beijos por todo o rosto, com um tal ardor e com uma tal obstinação, que o pobre homem, pouco habituado àqueles ataques, esteve a perder o fôlego.

- Upa! exclamou ele afinal, atordoado e cheio de espanto.

A mulher fitou-o por alguns segundos e, de repente, atirou-se-lhe de novo nos braços como uma descarga. O Borges, ainda desorientado com a primeira, hesitou entre a resolução de fugir ou implorar graças. Daquela forma a mulher dava-lhe cabo do canastro!... Que menina!

- Tu amas-me Borges?! interrogou ela, segurando-lhe as mãos com transporte.

- Ora, que pergunta! Pois ainda tens alguma dúvida a esse respeito?...

- Não sei! Quero que respondas! Quero que digas se me amas, se és só meu!

- Oh! Tu até me ofendes com isso, filhinha! Bem sabes que sim... Mas, anda daí. Há meia hora que estou à tua procura. - alguns dos nossos convidados já se querem raspar. Anda, vem daí!

- Não! Espera, espera um instante! Desejo ter-te ainda algum tempo nos meus braços! Não me fujas! Vem cá!

O Borges, cada vez mais surpreso, não teve forças para resistir, e os dois, assentados no mesmo divã abraçados como dois amantes de quinze dias, juravam e tornavam a jurar uma afeição eterna, quando, no fim de meia hora, o sinal da sexta quadrilha os foi interromper.

- Ouviste? exclamou ele, pondo-se de pé. - Vão tocar uma quadrilha; não devemos ficar aqui. A caminho!

- É' a sexta, disse Filomena.

- É! é a sexta... repetiu ele.

- Pois vamos. Serás o meu par; ainda não dançaste hoje comigo...

- Impossível, balbuciou o Borges, já tenho par. Dançaremos a seguinte.

- Não quero! Quero esta!

- Mas meu amor, se te estou dizendo que...

- Quem é o teu par?!

- É...

- A Chiquinha... Aposto!

- É exato, é justamente a Chiquinha, disse o marido enrubescendo.

- Pois vai! Vai!, respondeu a mulher repelindo-o. Eu fico.

- Ficas aqui?

- Fico.

- E os nossos convidados?...

- Que esperem.

- Acho que fazes mal; devias dançar.

- Só dançaria contigo...

- Então, até logo.

- Até já.

E ele foi-se.

A mulher, mal o viu pelas costas, correu ao guarda-roupa, abriu-o, sacou um dominó preto, enfiou-o rapidamente no corpo, pôs máscara, tomou o seu chicote de montaria, e, depois de vencer ligeira o segundo andar, ganhou as escadas do fundo e desapareceu.

Atravessou a chácara como um pássaro que foge, entrou na avenida de bambus e dirigiu-se ofegante, trêmula, para o ponto da entrevista.

A fronde compacta de árvores e o tear das trepadeiras acumulavam sombras. Filomena embrenhou-se por entre elas, só diminuiu a força da carreira nas proximidades do caramanchão.

Ao entrar, sentiu dois braços prenderem-lhe o pescoço, ouviu uma voz que se queixava de medo, enquanto um corpo de mulher procurava unir-se ao dela.

Filomena recuou incontinenti, e, puxando da chibata, remeteu duas vergatadas contra o dominó que tinha defronte de si.

Este soltou um grito, menos de raiva que de dor e, arrancando a máscara, exclamou:

- Barão!

- Não é o barão, é a baronesa!, respondeu a outra, tirando também a sua máscara.

- A senhora?!

- Sim! A quem queria trair, miserável!

- É falso!

- Nem uma palavra, e some-te daqui, já!

- Mas ouça-me!

- Não quero ouvir nada! Sai já de minha casa! Traidora! Põe-te já daqui para fora, se não queres ser desfeiteada lá em cima, na presença de todos os meus amigos. Rua!

A viúva soltou uma rebanada e fez menção de entrar na avenida de bambus.

- Não! disse a baronesa, cortando-lhe a passagem. Não hás de sair pela frente; passarás por onde sai a gente de tua espécie!

E levou-a aos empurrões até os fundos da chácara, onde havia um portão, que Filomena abriu, dizendo:

- Vai, e quando me vires em qualquer parte, abaixa os olhos!

- Havemos de nos encontrar!... ameaçou a viúva, depois de atravessar a porta. Juro-te que me pagarás tudo isto!

- Rua! insistiu Filomena, fechando a porta com estrondo; e, já de volta ao caramanchão, disse entre dentes:

- Agora o outro!...

Ao chegar aí, um calafrio percorreu-lhe o corpo - já lá estava o marido.

Não disfarçado de dominó, como recomendava a carta, mas com a sua camisa cor de rosa, as suas botas de montar e o seu penacho vermelho. E passeava de um para outro lado, cheio de preocupação, as mãos cruzadas atrás, o capacete na nuca, o ar de quem espera no corredor que lhe abram a porta da sala.

Filomena armou a máscara no rosto, conteve, a melhor que pode, a sua cólera, e avançou de braços abertos para o chicard.

Mas qual não foi a sua surpresa ao ver-se repelida brandamente por ele!

- Perdão, disse o Borges, a senhora pelo que parece, compreendeu mal o meu convite.

E oferecendo-lhe lugar num banquinho que havia perto:

- Tenha a bondade de sentar-se. Não levarei muito tempo a dizer o que me obrigou a incomodá-la. Devia ter ido procurá-la em casa, mas é que se trata de um negócio urgente, um verdadeiro aperto! Um aperto sério! Se amanhã não conseguir levantar vinte contos, estou perdido! Não me convém recorrer aos bancos por todo este ano...

E, vendo que a suposta viúva não ia ao encontro de seu pedido:

- Podemos arranjar uma hipoteca - se não lhe convém o n.0 6 das Laranjeiras, vê-se outro, contanto que...

E já incomodado com o silêncio do dominó:

- Creio que a proposta é razoável!... Que acha?... A senhora pode servir-me, se... Não quis falar ao Fontes, o seu sócio, sem saber de antemão se podia contar com o seu apoio.

Novo silêncio.

O Borges, já enfiado, caiu então nas minudências comerciais. Falou de letras, transações, lembrou firmas, com que ele podia contar.

Porém o silêncio continuava.

- Então?! Que diz?! perguntou ele, muito desconcertado.

Filomena arrancou a máscara e atirou-se-lhe nos braços desfeita em soluços.

- Tu?! Que significa isto?!

Ela puxou do bolso a carta da viúva e entregou-a ao marido.

- Pois imaginaste que eu seria capaz de... Oh!...

E ferido de súbito por uma idéia:

- E ela?! A viúva Perdigão, que fim levou?!

Filomena contou-lhe o que se havia passado.

Borges deixou cair a cabeça entre as mãos:

- Fizeste-a bonita!... exclamou ele. - Vais ver as conseqüências!

- Que queres? Tive ciúmes! balbuciou a mulher. Dizem tanta coisa de Chiquinha, que...

- Tolinha! interrompeu o marido, abraçando-a de novo.

- E por que não me falaste com franqueza?... acrescentou ela.

- Temia afligir-te...

- Fizeste mal! Se me tivesses prevenido, nada disto sucederia!...

E notando o acabrunhamento do esposo:

- Mas, enfim que há?! Creio que agora já posso saber! De que apuros falavas tu ainda há pouco?...

- Estou sobre um abismo! disse o Borges, afinal - sobre um abismo, minha querida!... Se não arranjar certos negócios até o vencimento de umas letras que tenho, creio que irá tudo por água abaixo! A ruína será inevitável!...

- Pois que venha a ruína! respondeu Filomena erguendo-se. - Eu terei bastante coragem para afrontá-la!

XIII

NOVAS TORTURAS

O Borges não conseguiu arranjar os tais negócios de que tratava, e a roda de sua fortuna recebeu o primeiro impulso para desandar.

Desde então tudo lhe foi contrário; todas as suas especulações falharam; todos os capitais que arriscou foram-se pela correnteza.

A idéia de uma ruína completa torturava-o principalmente por causa de Filomena.

- Que seria, se lhes viessem a faltar os elementos do luxo e do prazer?... Desgraçado que sou! pensava ele. Agora que possuo a confiança e a dedicação de minha esposa, é que a fortuna entende de se ir embora! De que me serve uma coisa sem outra?!

E na sua febre de agarrar pela nuca a deusa que lhe fugia, arriscou tudo que lhe restava: vendeu casa, empenhou títulos e atirou-se ao jogo como a uma tábua de salvação. As suas propriedades foram desaparecendo a pouco e pouco, passando a outros; as suas ações de várias companhias foram-se dissolvendo; as suas apólices derretiam-se; os seus últimos recursos evaporavam-se.

Viúva Perdigão & Cia. Faziam-lhe uma guerra atroz; para qualquer lado que se voltasse o Borges encontrava logo a sanha implacável do inimigo. E tudo parecia apostado para destruí-lo, para matá-lo por uma vez. Um jornal diário, de grandes proporções, comercial, amigo do governo, em cuja fundação Borges arriscara cinqüenta contos, acabava de estalar, como estalou o Banco Mauá, onde ele possuía em depósito o duplo dessa quantia.

Porém, o seu maior desastre foi com as empresas teatrais: o Borges, que ultimamente freqüentava todos os teatros, aparecendo familiarmente nas caixas, não podia passar despercebido aos empresários vazios de dinheiro e transbordantes de projetos e planos gigantescos.

Vira-se em breve cercado de homens de todos os matizes e nacionalidades, que desejavam associá-lo em mil empresas diversas. Um queria estabelecer um grande "jardim-recreio", no qual, à moda do antigo Trivoli parisiense, se encontrasse toda sorte de divertimentos - representação, sala de tiro, dança, concerto, apostas, e uma infinidade de jogos para toda espécie e categoria de gente: outro pretendia inaugurar o teatro nacional "levantar a pobre arte dramática brasileira, que João Caetano plantara com tanto gênio!"; outro queria desenvolver o Alcazar, fazer vir uma boa companhia francesa; outro queria a ópera em português, com música nacional e cantores estrangeiros; este trazia o plano de um circo de cavalinhos; aquele o projeto de uma tourada; aquele outro a idéia de um Skating-Rink.

E na fúria de ganhar dinheiro às pressas, Borges, se não aceitou todas aquelas propostas, aceitou grande parte. E tudo isso rebentou, e tudo isso deu com os burros n'água, e os capitais do marido de Filomena acompanharam os burros.

Afinal, restava-lhe apenas uma empresa; também, essa a mais importante e felizmente nada tinha de comum com os teatros: - Tratava-se pura e simplesmente de explorar o carneiro.

- Essa indústria completamente desconhecida no Brasil, dizia o proponente, espanhol sagaz e viajado - essa indústria, Sr. Barão, está destinada a representar um papel importantíssimo neste belo país. Ela virá fornecer ao povo elementos novos de riqueza; aumentará o valor das terras, equilibrará os capitais, reformará a vida dos agricultores, educará o fazendeiro, dando-lhe novos conhecimentos zootécnicos, novos costumes e novas necessidades: enfim, essa indústria está destinada a fazer aqui uma revolução econômica e social, e levar à posteridade o nome daquele que entre nós a firmar corajosamente,. como em Buenos Aires sucedeu com o cônsul norte-americano Haley.

O Borges podia, se quisesse, nem só fazer uma fortuna colossal, como ainda imortalizar-se.

Aí estavam os exemplos da Austrália, do Cabo da Boa Esperança e da República Argentina, os três grandes fornecedores de lã para o mundo inteiro. Ora, por que razão o Brasil, situado tão perto dessas regiões, o Brasil que não está sujeito aos frios da Austrália e aos bochornos do Cabo, por que razão o Brasil não havia de explorar o carneiro?! A alimentação desse precioso animal seria muito mais fácil aqui do que em outra qualquer parte!... Aqui, com as nossas vastas campinas, sempre cobertas de verdura, não se daria o que se dá na Europa, onde a carestia de feno constitui o maior tormento dos criadores de gado lanígero.

E fazia cálculos, apresentava cifras muito bonitas - três tosquias por ano - mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros preferíveis ao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos métodos zootécnicos, o merino da Saxônia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino Soyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montcavrel, o negretti eleitoral! E se o Borges também quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar da Inglaterra os Soutdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo nome de - raça precoce, e cujo esqueleto diminui na razão do aumento das banhas e da carne.

Acumulava termos técnicos; fazia divisões de espécies, lembrava os carneiros braquicéfalos e os carneiros dolicocéfalos.

O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.

- E o leite?! gritava o espanhol. - Quem poderia Impedir que o Barão, com o leite de suas ovelhas, viesse a fazer concorrência aos célebres queijos de Roquefort?... E o comércio das peles?... Para o cortume das peles bem se podia aproveitar com vantagem a casca de certas árvores brasileiras muito abundantes e não fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto.

- Enfim, Sr. Barão, para V. S. ter Idéia do lucro fabuloso que vamos fruir com os nossos carneiros, basta considerar que, só com o produto do esterco, vendido pela mínima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente! Leia o grande veterinário Sanson! Leia José Hernandez!

* * *

O Borges só compreendeu que era o único carneiro explorado naquela empresa, no dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe pôde apanhar.

Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou o caminho dessa província; mas os seus esforços foram baldados - ninguém lhe soube dar notícias do gatuno.

Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em S. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a mão, e dispôs-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.

- O mesmo ardor!... Ah! mas nesse tempo não conhecia ele outra preocupação que não fosse o seu trabalho! Nesse tempo não tinha vícios, não tinha desgosto, não tinha inimigos, não tinha responsabilidades sociais!

- Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resignação que dantes possuía?!... Como levantar-se às seis da manhã e só deixar o serviço às seis da tarde?!

Entretanto, estava disposto a principiar de novo a existência; chegou mesmo a fazer algumas propostas de construção; agora toda a dificuldade era descobrir o tal amigo que o ajudasse!

Voltou à corte; percorreu os bancos, consultou vários negociantes - nada! A viúva Perdigão cortava-lhe todas as vasas.

Mas ainda havia o Barroso. - Era Impossível que este também lhe virasse as costas.

Procurou-o.

- Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina. - Para falar-te com franqueza, não vieste bater a muito boa porta - não estou, para que digamos, em estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim... havemos de ver...

- Porém é necessário tratarmos disto quanto antes!... observou o Borges. Estou com a corda no pescoço; tenho de seguir de muda para S. Paulo até o fim do mês; não posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!

- Havemos de ver!... Havemos de ver!... E como vais tu com tua mulher?

- Assim, assim... Ela ultimamente está mais meiga e menos caprichosa. Mas então prometes que para a semana realizamos o negócio?

- É possível! É possível! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois lá a minha Sabina continua no mesmo. Não! nisso tenho sido feliz...

O barão tornou a puxar a conversa para o seu negócio. O outro afinal, prometeu ajudá-lo.

Mas, desde esse dia, Borges principiou a não encontrá-lo em parte alguma, até que uma vez, indo procurá-lo em casa, antes das sete da manhã, e tendo penetrado familiarmente pela chácara, ouviu o amigo ordenar à mulher em tom misterioso:

- Dize-lhe que não estou. Ora sebo! Não gastasse o que tinha! Ninguém está disposto a se amolar pelos outros!... Fosse mais poupado, fizesse como eu! É boa!

Borges voltou na ponta dos pés, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.

- Pois até o Barroso?!... O único amigo em que ele ainda depositava confiança! o seu velho camarada dos primeiros anos! o seu companheiro de lutas! o seu "outro eu"! também lhe voltava o rosto, também o repelia?! Oh! Com efeito!

Chegou à casa desorientado, perdido. Já lá estava uma carta anônima à sua espera, para mais lhe envenenar a ferida.

- Era do Guterres, naturalmente; talvez da viúva Perdigão, talvez do Barradinhas!

O pobre homem, depois de lê-la, atirou-se à cama, desesperado, mordendo os travesseiros para abafar os soluços e não ser ouvido pela esposa.

Esta, porém, correu ao encontro dele, tomou-o nos braços, consolou--o com os seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.

- Não desanimes! bradava-lhe. - Não desanimes, que o mundo é vasto e havemos de descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus há de proteger-nos!... Enquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, não nos devemos revoltar contra o destino!

Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, tudo, despedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os carros, as telas preciosas, as porcelanas de Sèvres, os talheres de vermeil.

- Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos braços do marido. Que levem tudo, contanto que tu fiques!

E com a estreiteza da situação redobrava o seu amor pelo Borges, como se o reflexo de toda aquela desgraça o tornasse maior e mais brilhante aos olhos dela.

E, na ocasião de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes desarrrumados para o leilão, na desordem daquela casa esplêndida que eles iam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a última garrafa de Champanhe que havia na sua adega, outrora tão rica, quebrou-lhe o gargalo de encontro ao mármore secular de um móvel, e, enchendo uma taça, e colando os lábios nos do marido, e chorando de prazer, brindou à nova existência que se ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.

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