E esse amor, que ele sonhava no íntimo, essa esperada paixão desinteressada e nobre, apareceu-lhe (nem o podia imaginar o Satanás!) no mesmo dia em que Branca deixara que o seu coração se dependurasse cativo dos belos bigodes negros de Paulo de Andrade.
Quando a procissão passara, um ano antes, pelo lugar em que estavam Branca e d.
Emerenciana, naquela tarde radiante em que a moça pela primeira vez sentira o coração bater sob o domínio de um olhar de homem, o príncipe, que empunhava uma das varas do pálio, viu de relance a filha do seu alter ego.
Dessa tarde em diante, houve para ele a ansiedade indizível de rever e de possuir aquela criatura loura, cujos olhos refletiam a mais pura inocência e toda a ingenuidade de uma criança... Ah! o príncipe já andava farto de mastigar frutos maduros: o que ele agora queria, era o sabor excitante dos pêssegos verdes, ainda não cobertos de penugem.
Viu-a de novo na festa de S. Sebastião, viu-a nos Te-Deuns solenes dos dias de gala, viu-a a passeio, viu-a no largo do Paço, onde naquele tempo as famílias iam tomar fresco, pelas tardes abrasadas do verão. E privado até então de uma ocasião própria para lhe falar, o príncipe ardia em impaciência e em febre: entre duas conquistas fáceis das que lhe arranjava o Satanás, aparecia-lhe sempre a loura imagem de Branca, dominando tudo, apagando tudo com o seu brilho e a sua pureza de estrela inacessível.
Na ocasião em que, por basófia, d. Pedro atirou ao Satanás aquela frase orgulhosa em que vinha explodir, despeitada, a sua altivez, estavam as cousas nesse pé...
O príncipe, sem que uma só palavra pudesse trair as suas ocultas intenções, não falou mais, ao Satanás na aventura em que se tinha empenhado.
Não que esse escrúpulo natural de cavalheiro o retivesse, não querendo magoar na parte mais sensível da alma o seu fiel servidor; ele não sabia que Branca era filha de Pallingrini. O que lhe retinha a indiscrição, era o desejo de poder um dia, mostrando-lhe e provando-lhe que os seus serviços não eram indispensáveis, dizer-lhe: - Vês? Possuo esta, que é melhor do que todas as outras; e não foste tu que ma deste. Não me foi dada pela tua dedicação, nem pelo meu nome, nem pelo meu prestígio. Amou-me, porque me achou belo, porque me achou forte e valente, porque satisfiz o seu ideal, porque encontrou em mim o homem que lhe devia rasgar diante dos olhos o horizonte ilimitado da vida e do amor! Já vês que os teus serviços não são indispensáveis...
E redobrou de vigilância e de esforços. Afinal, conseguiu saber onde morava a sua desconhecida: seguiu-a de uma vez que a encontrou, embuçado, à saída de uma novena do Parto.
E começou todas as noites a rondar a casa da rua do Conde, na esperança de ver sair alguém cuja conivência pudesse comprar a peso de ouro, na esperança de que um acaso providencial viesse inesperadamente em seu auxílio.
Uma noite, acreditou ter conseguido O que queria. Estava à espreita, num terreno que havia em frente à casa, e onde se estavam fazendo obras, quando viu um embuçado chegar, olhar demoradamente a varanda verde, por cujas janelas passava a luz do interior, bater três vezes com os copos da espada e entrar, depois de longamente ter escrutado todo o arredor com um olhar cuidadoso.
Que poderia dizer aquilo? Um homem...
Mas não esperou muito. Viu o homem sair pouco depois, com as mesmas precauções com que entrara. Deixou-o seguir um pouco, e acompanhou-o depois, até que o viu entrar na tasca do Trancoso. Foi aí que se convenceu de que o homem que gozava a felicidade, até então inacessível para ele, de entrar naquela casa, que se lhe afigurava uma fortaleza inespugnável, era o Satanás.
Procurou a princípio descobrir que relações podia haver entre ele e a sua desconhecida. Mas, desistiu: - Se é amante dela, melhor! Mais completa será a lição.
Empregou pessoas dedicadas para auxiliá-lo a espionar a casa. E ao cabo de alguns dias soube que a menina chamava-se Branca e vivia em companhia de uma velha espanhola. A obra de sedução prosseguiu. D. Emerenciana, a todas as ofertas de dinheiro, opôs uma resistência inabalável; só obteve como resultado excitar a impaciência e o desejo do príncipe, que se resolveu a empregar os meios violentos.
Organizou-se o plano de ataque. Uma noite, o príncipe escondeu-se nas obras que se faziam na rua do Conde, com dous homens dispostos a tudo. Todos armados, todos cautelosamente embrulhados em compridos capotes.
Das dobras do capote de um dos homens que acompanhavam o príncipe o mais alto e mais magro, o que parecia um grande ponto negro de admiração - via-se emergir uma durindana formidável. Era d. Bias. O momento não se fez esperar; por volta da meia noite viram chegar à casa o vulto do Satanás.
- Por São Tiago de Compostela! - ganiu d. Bias - temos mouro, senhor, temos mouro! Vou a ele? O príncipe impôs-lhe silêncio. Como de costume, a demora do Satanás foi curta. Pouco depois saiu e desapareceu no alto da rua, para o lado da rua do Piolho. Os três homens saíram então do esconderijo, e d. Pedro bateu à porta as mesmas três pancadas do Satanás.
A porta abriu-se. Naturalmente d. Emerenciana pensara que era o Satanás que voltava a fazerlhe qualquer recomendação, de que se esquecera. Mas, em menos de um minuto, agarrada de surpresa mal teve tempo de dar um grito, a velha viu-se solidamente amarrada e amordaçada, e entregue à guarda de d. Bias. O outro homem ficou de guarda à porta, e o príncipe subiu, levando o lampião que d. Emerenciana trouxera.
D. Bias sentou-se filosoficamente a um degrau, pousou a durindana nos joelhos e sacou da profundidade de uma das algibeiras do gibão uma naca de presunto.
- Sinto muito, sinto muito, respeitável dama, não lhe poder oferecer um pouco desta parca refeição. Desculpe...
E continuou esmoendo o presunto com um grande barulho de queixos, que soava na treva da escada como uma tempestade.
Mas, de cima, começou a chegar um barulho de passos e de vozes. Ah! bem que a boa Emerenciana distinguia a voz aflita de Branca. E desesperava-se a velha espanhola, sem poder acudir à sua querida filha, ali amarrada, diante daquele fantasma que comia. Por fim, ouviu-se um grito: e nenhum outro rumor chegou de cima.
Mas o homem que estava à porta, bradou: - Quem vem lá? E d. Bias engasgou-se com um pedaço de presunto, compreendendo que o companheiro batiase lá fora com alguém, ouviu tinir de ferros, ouviu passos de quem fugia, viu a porta abrir-se e um homem entrar, tropeçando no corpo da velha.
Era Paulo de Andrade, que ouvira o grito e a quem a presença do homem armado à porta causara suspeitas. Ao esbarrar no corpo, abaixou-se e reconheceu-o.
D. Bias esgueirou-se como uma sombra pela parede, saltou à rua, disparou, tropeçou na espada, caiu, levantou-se, e foi cair extenuado à porta do Trancoso, de onde o Satanás vinha saindo.
Paulo de Andrade, preocupado em desamarrar a velha, nem dera por ele. Subiu a escada a quatro e quatro, de espada em punho, viu deserta a sala da frente, entrou como um cego no quarto de Branca.
Todo o quarto estava em revolução, cadeiras caídas, roto o cortinado do leito, onde Branca jazia estendida, sem dar acordo de si. O príncipe, vendo entrar o capitão, teve apenas tempo de apanhar a espada e pôr-se em guarda. Paulo arremeteu contra ele: - Miserável! Mas estacou de repente, e veio recuando até a parede, com um grande espanto na fisionomia alterada... Reconhecera o príncipe.
Lia-se então na face do moço capitão a luta que dentro dele se travava. Por duas vezes, pareceu atirar-se contra o seu rival. Mas d. Pedro esperava-o, sereno, com o olhar fito no dele. E Paulo, deixando cair a espada, cravou no peito o punhal, indo bater com a fronte na borda do leito, onde Branca continuava sem sentidos.
Quando d. Bias, à porta do Trancoso, conseguiu recuperar o uso da fala, começou a contar o caso ao Satanás, preparando-se para mentir à vontade.
- Ai! imagina, ó Satanás! eu amava, ele amava, elas nos amavam. Tudo pronto já, quando de repente vemos a casa invadida por duzentos homens armados... Duzentos? espera... não! não eram duzentos, mas eram cem. Caem sobre nós. Bati-me, como sabes que me bato sempre! mas...
Mas, onde isso? onde isso? - Na casa, homem...
- Em que casa? - Na casa da rua do Conde; ora ouve... Mas o Satanás não quis ouvir mais nada.
Aquele nome de rua do Conde encheu-o de um pressentimento terrível. D. Bias nada dissera mas o escultor ouvia uma voz secreta a gritar-lhe que era a filha quem corria perigo.
Não ouviu mais e correu, deixando em meio da narração o bravo fidalgo de Espanha, que entrou para a taverna, a afogar no seio de um pichel a sua sede de sangue.
O Satanás encontrou a porta aberta. Ah! era verdade! era verdade! Um rugido surdo lhe saiu da garganta, voou pela escada acima, louco de raiva e de terror. E parou à porta, sem movimento e sem voz, diante daquele quadro terrível.
Branca desmaiada ainda. Paulo, estendido no chão, sobre uma poça de sangue, e a velha rezando, ajoelhada diante do oratório.
O Satanás sentiu que a razão lhe ia fugir. Mas compreendeu. Sim! a sua filha fora desonrada por aquele miserável que ali estava estendido. Desonrada! desonrada a sua vida, manchado o seu único amor, calcada aos pés toda a sua felicidade! Uma nuvem de sangue lhe cresceu diante dos olhos. Ah! era a velha a culpada. E, louco, trôpego, alucinado, embebeu a sua espada até aos copos entre as duas espáduas da espanhola.
O sangue jorrou de repente e borrifou de gotas vermelhas o manto de Nossa Senhora.
Nesse momento, uma gargalhada longa, sinistra, angustiosa, repercutiu no quarto. Branca assistira ao assassinato.
E de pé, cercada pelo véu de ouro dos cabelos, torcia as mãos, e ria, e ria, e ria. Enlouquecera.
VI A PEIXADA O Satanás acompanhou o príncipe a Santos na madrugada do dia seguinte.
Naquela noite, em que a tragédia da rua do Conde se passara, o Satanás saíra de casa da filha, como um louco. Vagara sem destino até o amanhecer, apertando a cabeça nas mãos, sem compreender ainda o que se havia passado.
E no dia seguinte, a bordo, d. Pedro, que o forçara a partir consigo, notou-lhe a fisionomia alterada: o Satanás queixou-se de estar doente e fechou-se a sete chaves no mais absoluto silêncio a respeito dos sucessos da véspera. A notícia dos dous assassinatos espalhara-se rapidamente pela cidade: tinham sido encontrados os cadáveres de Paulo de Andrade e de Emerenciana, e a polícia pôs-se logo em campo para esclarecer o negócio. De Branca, porém, não havia a menor notícia: desaparecera.
Quando o príncipe partiu para Santos, os horizontes políticos do Brasil toldavam-se, anunciando a tempestade iminente. D. Pedro via-se reduzido a simples governador do Brasil e recebera já a ordem de retirar-se para a Europa. O povo de São Paulo mandara-lhe a célebre representação de oito mil pessoas, pedindo-lhe que ficasse.
No ouvido do príncipe regente soavam ainda as últimas palavras de seu pai, ao embarcar para Lisboa: Pedro, põe a coroa sobre a tua cabeça...
O seu nobre desejo de ser o constituidor de um novo povo era secundado ainda pelos conselhos dos seus partidários, que lhe inflamavam cada vez mais o entusiasmo e a ambição.
A Sociedade Tenebrosa do Apostolado, que então funcionava no quartel da Guarda Velha e da qual era o príncipe o Archonte Rei, incitara-o a precipitar os acontecimentos. Demais, as últimas notícias de Lisboa eram as mais inquietadoras possíveis: os deputados brasileiros, insultados nas cortes, tinham reagido escandalosamente com uma nobre energia: perseguidos, tinham sido forçados a embarcar para Falmouth e daí~ara o Brasil.
De modo que o príncipe não podia mais hesitar.
Mas, em Santos, não foi a política que lhe preocupou o exaltado coração.
Lá mesmo, o Satanás teve de reassumir as funções de medianeiro fiel. Porque, cheio, durante o dia, de preocupações políticas, o príncipe passava as noites a correr a velha cidade, à cata de aventuras.
As ruas sujas de Santos, eternamente cobertas de lama, quer a chuva caísse, quer o sol abrasasse, impregnadas de um cheiro repugnante de maresia, não tiveram mais segredos para os dous. E Satanás descobriu uma rapariga deliciosa, que casara com um velho fidalgo português e que não hesitou em abrir o seio à honra dos beijos do jovem príncipe.
A primeira entrevista realizou-se na Barra, em casa de uma velha algarvia, conhecida na cidade pela perícia inexcedível com que preparava as peixadas suculentas para as funçanatas de então. E fui por uma bela noite de luar que O príncipe, acompanhado do Satanás, partiu para a Barra, onde o esperavam uma farta peixada de escabeche e um farto colo de mulher morena.
A casa abria as janelas para o mar, onde o luar entornava a sua prata líquida, naquela noite serena. Eram a perder de vista, desde a praia curva, de areias claríssimas, até o limite apartado do horizonte, águas e águas que tremiam ao luar, encrespadas e franjadas de espuma.
À porta d. Pedro parou. A sua alma ardente de ambicioso agradava aquele infinito sereno, aquela vastidão de águas calmas, ilimitadas como os seus sonhos de poder e de glória.
O Satanás, ao lado, olhava também o mar: e aquilo trazia-lhe à lembrança o infinito do seu desespero e a soledade da sua vida, sem filha, sem amigos, cão rafeiro de um fidalgo...
Mas d. Pedro foi o primeiro a arrancar-se das suas meditações: - Entremos. Nunca se deve fazer esperar uma mulher.
- Nem uma peixada, acrescentou o escultor.
Entraram. Uma sala baixa, toda furada de janelas, por onde o luar entrava, cintilando. Ao centro, a mesa estava posta, aceiada, com a grande terrina de louça azul, descoberta, deixando ver o molho louro do escabeche, cujo aroma fazia a água crescer na boca.
Maria, ao ver entrar o príncipe, levantou-se do banco em que estava sentada, a uma das janelas, contemplando o luar. Era uma mulher opulenta, de amplas formas sensualmente arredondadas, olhos profundos e negros, circulados de olheiras roxas. No lábio superior, carnudo e vermelho, sombreava-se-lhe um buço delicioso.
O príncipe beijou-lhe a mão, fidalgamente. E, enlaçando-lhe a cintura, foi com ela para a janela.
Daí a pouco, a sala encheu-se de um sussurro de vozes cochichadas nomezinhos ternos, risadinhas brejeiras, beijinhos marotos. O Satanás meditava a um canto, taciturno.
A velha Marta do Peixe entrou muito gorda, muito suada com dous seios formidáveis, trêmulos como dous grandes bolos de gelatina, trazendo os canjirões do Ribatejo.
Que viessem para a mesa, que viessem para a mesa! estava a cousa de empanturrar o bandulho e soluçar por mais! haviam de lamber os beiços.. Não! que para coser as anchovas tenrinhas não havia com'a ela! Abancaram todos. E a Marta, de mangas arregaçadas, deixando ver dous braços que pareciam duas pernas, pôs-se a encher pratarrazes de peixe.
- Olhem que foi pescado ali assim p'lo meu home! E é quê ele foi feliz, o raio do dianho, que as pescarias têm andado nada boas, p'la Senhora da Boa Morte! O príncipe interessou-se pelo homem da Marta.
- Então? rendia o negócio? - Qual nada, senhor! É uma azáfama do tinhoso a sol e chuva, e nada de fazer p'r'ó pão! E inda é bom quando não se morre por lá, por essas aiaguas de Cristo! Inda tresantonte lá se ficou o Chico da Burra, mais a canoa e a rede... Agora é verdade que ninguém mandou o desinfeliz ir pescar por riba da catedral! - Que catedral, mulher? interrogou o Satanás, curioso.
A Marta contou então a lenda, muito conhecida, naqueles tempos e ainda hoje, em Santos.
Dizia-se que uma parte da cidade, construída pelos primeiros portugueses, fora submergida. Era nessa parte que fora edificada a primeira igreja de Santos: e tanto que, por noites assim, de luar, quem chegava à beira da praia, ouvia no seio das águas um barulho de sinos, dobrando a finados. E ai! do pescador atrevido que ousasse pescar naquele ponto!... vinham os padres à tona d'água e carregavam com ele para o fundo do mar.
- Crendices tolas! - disse d. Pedro.
Mas, por uma sucessão de idéias, aquela história supersticiosa da velha trouxera-lhe à memória as profecias da Zabanila. Sacudiu os ombros. E, aproximando a cadeira da cadeira de Maria, pôs-se a conversar com ela, em voz baixa. Depois levantaram-se, voltaram à janela.
A Marta do Peixe ia retirar-se discretamente da sala, frechando para a janela um olhar meloso e brejeiro de rufiona entendida. O príncipe falou: - Olá! mulher! podes levar a luz! O Satanás saiu, e foi à praia apreciar a noite. E a sala às escuras encheu-se de beijos.
A mesa ficara posta, com a terrina destampada. E talvez, naquela escuridão, a alma faminta de d. Bias andasse em comunicações espíritas com a alma cheirosa do peixe...
Havia meia hora que estavam sós os amantes, quando o Satanás falou da porta: - Senhor! - Que é? saiu das trevas da sala a voz do príncipe, enfadado.
- Cousa séria.
- Ora, deixa lá as cousas sérias para amanhã, homem! - E o capitão das guardas que aí está.
- Que espere.
- Não pode esperar. É preciso que fale já com ele.
- Vai-te para o diabo e deixa-me em paz! - Ouça, senhor...
- Arre, vai-te! já te disse...
- Perdão! não me vou. Acabam de chegar despachos assustadores de Lisboa.
O príncipe resolveu-se a desenlaçar-se dos braços da amante. Saiu. O capitão esperava-o.
Depois de uma curta conferência, o príncipe veio despedir-se de Maria. Outra vez a sala se encheu de beijos. E o príncipe, elevando a voz, chamou pela Marta.
Ela veio logo, muito azafamada, arrastando as banhas pesadas. E ajoelhou-se, comovida, quando o seu hóspede lhe meteu na mão duas moedas de ouro.
Nessa mesma noite, o príncipe saiu de Santos, acompanhado por um regimento de cavalaria. E a madrugada despontava, banhando de ouro e fogo os píncaros de Cubatão, quando a comitiva começou a subir a serra, a caminho de S. Paulo.
VII D. BIAS CARCEREIRO Feitas as revelações e escorropichado o primeiro pichel ali na bodega do Trancoso, d. Bias pôsse a refletir sobre o caso.
- O Satanás tinha partido na direção da rua do Conde. Lá chegando ele deveria necessariamente intrometer-se naquele drama tenebroso, cujos pormenores, ele, d. Bias, não conhecia, e cujo desenlace ficava para além, misterioso e vago como uma ameaça constante. E o Satanás, que não devia morrer, porque os homens daquela têmpera nunca morrem a botes de espada, o Satanás viria tomar-lhe contas, pedir-lhe satisfações do auxílio que prestara ao príncipe para que este lhe roubasse sua amante. E d. Bias esbugalhou os olhos em derredor, assustado e trêmulo. Sentiu a espada do escultor prancheando-lhe o costado manejada pelo pulso valente de Pallingrini. Supôs até o aço frio e cortante a entrar-lhe pelas carnes adentro.
Teve medo, muito medo. E apalpou os ossos para saber se eles ainda estavam inteiros e bons, se não se tinham já esmigalhado com esta perspectiva infalível de uma vindita do Satanás.
- Também, quem lhe encomendara o sermão? quem lhe mandara meter-se nessas cousas e intrigas amorosas do príncipe? Já quando promovera a entrevista com Zabanila, a esperança dos lucros fabulosos que fizera, empanara-se com a expectativa da rivalidade com o mestre d'armas. Este pespegara-lhe uns cachações. E bastava. Pela primeira vez não tinha apetite de repetir.
E d. Bias reconheceu a necessidade de fugir; de esconder-se, fosse lá onde fosse.
Saiu.
Na rua teve uma idéia, idéia luminosa, dessas que só aparecem uma vez na vida de um homem.
Mau grado a sua nenhuma vocação para semelhantes empresas, atravessou o campo da Alampadosa todo inteiro, enveredou pela rua da Cadeia, e veio andando, pé aqui, pé ali, evitando as poças de água, aproveitando as pedras mais altas, às vezes esgueirando-se rente às paredes.
Chegou ao convento do Carmo e bateu, de espaços em espaços, compassadamente, numa porta baixa e estreita que dava para o largo. Abriram-na. Ele entrou.
- Então? - Novidades.
- Mas ela está dormindo.
- Bem. Eu durmo aqui para esperar. Mas que ninguém saiba de minha presença nestes lugares.
E dormiu por sobre um caixote oblongo, desses que então serviam para guardar roupas de mulher.
No dia seguinte, pelo meio-dia, mandaram-no chamar.
D. Bias foi introduzido num vasto aposento luxuoso, onde morava ostensivamente a amante ostensiva de d. Pedro. Aposento de amores, onde a fantasia da mulher pusera alguma cousa de asiático, ele era suntuoso de comodidades, cheio de coxins forrado a pano da Pérsia com tachas de ouro e prata.
Ela, a quase rainha, esperava-o, molemente reclinada sobre o leito, com as grandes carnações leitosas e fortes de mulher sadia, apenas envoltas em uma vasta túnica de cachemira branca, bordada a ouro. Uma dama penteava-lhe com pente de ouro os longos cabelos castanhos e sedosos. E a Domitila sorria, triunfalmente bela.
D. Bias ajoelhou-se.
- Senhora! disse. - Senhora, eu tenho vigiado.
- E já descobriste porventura alguma cousa, oh! tu! meu belo fidalgo das Espanhas.
- Já, minha senhora.
- Pois conta-me lá a tua espionagem, fez a régia amante com um grande sossego de indiferenças.
Ela estava agora tranqüila de sua vida. Tinha conseguido do príncipe a promessa de um título, cuja coroa, reluzente de ouro e pedrarias, viesse lhe adornar os altos penteados à Maria Antonieta, de que tanto gostava. E essa viagem a Santos, que acabava de se efetuar naquela madrugada, fora ela quem a exigira, desejosa de converter esta cidade no feudo de seus amores.
Já não lhe vinham mais os ciúmes primitivos, que tanto acidentaram o primeiro período de suas ligações. Sentia-se feliz, forte e soberana, dominando o coração de d. Pedro e podendo permitirlhe as pequenas escapadas das aventuras noturnas. E esquecia-se até de que encarregara d.
Bias de vigiar os passos do seu régio amante.
D. Bias, porém, perorou longamente, espanholamente.
Contou o caso da rua do Conde, fazendo-o tenebroso, cavalgando a rédeas soltas no Rocinante das suas fantasias - d. Quixote dos ideais, ele mesmo, magro e esgalgado, lutador impertérrito de longa durindana para a batalha solene dos moinhos de vento.
- Fora o Satanás que fizera tudo. O Satanás! - a negra alma vagabunda da perversão e maldade! Fora ele quem, sem mais barregãs nem rameiras para oferecer ao seu régio discípulo de esgrima, quisera dar-lhe até a própria amante. Bem lhe conhecia os planos. Satanás queria dominar inteiramente o príncipe, dominá-lo pela amizade e dominá-lo pelo coração, para ficar o senhor absoluto dessa terra dos Brasis. Conspirava. Conspirava até contra ela - a bela nina formosa! - É preciso matá-lo! Consiga ao menos que o deportem! Nada vos é impossível, a vós que fizestes deportar o conde d'Arcos.
A Domitila fez-se apreensiva. Ela não gostava do Satanás. E vinham-lhe agora receios de ver a fortuna esboroar-se-lhe no momento mesmo que supunha alcançá-la.
- Em todo caso, disse como que meditando, em todo caso agora não pode ser, porque o príncipe e o Satanás partiram esta madrugada para Santos.
- Caramba! resfolegou d. Bias com a notícia de estar longe o homem de quem tinha medo. - Caramba! porque se aqui estivesse, era eu quem o ia matar! Ela nem sorriu dessa fanfarronada. Mas gritou-lhe imperiosamente: - Quero essa mulher! Quero a amante de Satanás! Dou-te mil cruzados, se a trouxeres! E, de pé, ofegante, com um gesto de rainha: - Vá! D. Bias saiu.
Caminhou pelas ruas, altivo e malcriado, retinindo a durindana pelas pedras, cofiando o bigode provocadoramente.
Estava longe o Satanás, e ele não tinha medo.
Por isso andou e correu a cidade inteira. Soube logo notícias do drama da rua do Conde.
Vieram-lhe calafrios com a noção completa do perigo que correra. Mas dominava-lhe dentro da cabeça a idéia dos mil cruzados que lhe haviam sido prometidos, para o caso de descobrir a amante do escultor-espadachim. E tratou de encontrá-la.
Poucas esperanças tinha a este respeito. Não a conhecia. E as informações dos alguazis amigos, que andavam empenhados em desvendar o mistério da morte de Paulo de Andrade, falavam apenas em suspeitas de que naquela casa residisse uma moça, que devia ter fugido.
Fugido com quem? Levá-la-ia d. Pedro para algum misterioso antro de amores? Ou o Satanás tê-la-ia posto a seguro, em algum esconderijo desses que só ele conhecia? D. Bias estava na incerteza. Não sabia que partido tomar. E pensava até em aproveitar a filha do carpinteiro Custódio, que lhe residia em casa, para fazê-la passar como amante do italiano.
O ponto para ele era receber o dinheiro da Domitila e passar-se imediatamente para qualquer terra longínqua, onde não chegasse o braço vingativo do seu ex-companheiro das bodegas do Mansanares.
Quando seguia, porém, já quase ao anoitecer, pela rua da Vala, chamaram-no de dentro da prisão provisória que ai havia, e onde eram recolhidos os vagabundos notívagos.
Era um alguazil, que ele pusera em meia confidência do negócio, e que lhe mostrou Branca, seminua, com as roupas sangrentas.
A filha de Pallingrini, logo após a brusca partida do pai, precipitara-se sobre o cadáver de Paulo de Andrade. Abraçara-o, beijara-o sofregamente, loucamente, na febre amorosa dessa loucura, que para sempre lhe entenebrecera o cérebro, triturando-lhe o coração.
Depois tivera medo, sentindo rijo e frio, sem aconchegos de abraços e quenturas de beijos, o pálido capitão formoso dos seus amores juvenis.
Teve medo e fugiu.
Perambulou pelas ruas, inconscientemente de si murmurando carícias e meiguices e gritando de repente um grito de horrores.
Prenderam-na.
D. Bias adivinhou-a. Não podia ser outra. Aquele sangue, as palavras incertas que pronunciava, e que podiam todas articular-se ao drama indecifrável da rua do Conde, revelavam-na, garantiam-lhe a autenticidade da descoberta.
E o fidalgo espanhol, aproveitando o alguazil seu amigo, e mais ainda o segredo da noite, que tem sempre um manto escuro para esconder esses mistérios, levou-a para os fundos do convento do Carmo, onde já estavam dadas ordens de recebê-la.
A Domitila nem quis ver a rival que o Satanás lhe pretendia impor. Mas não quis também contar logo o dinheiro que prometera, e ordenou que d. Bias ficasse de guarda a prisioneira.
E a porta pesada de um quarto térreo e sem janelas aferrolhou-se sobre Branca - a pobre criança louca, para quem a sorte se mostrava tão áspera, e que cantava entretanto um alegre bolero espanhol saltitante e amoroso como o pé das sevilhanas.
VIII O GRITO AURIVERDE Naquele tempo fazia-se a viagem de Santos a S. Paulo, através do mato virgem. A serra que a Estrada Inglesa hoje corta, e por onde sobem os vagões bufando, só podia ser galgada a cavalo, dificilmente, penosamente. A jornada de d. Pedro fez-se por um dia magnífico. A serra inundada de sol encrespava a sua vegetação prodigiosa, de um lado e de outro do estreito caminho, aberto na mata, por onde os cavalos trotavam enchendo as grotas de ecos prolongados.
A frente da comitiva, o príncipe cravava de instante a instante as esporas no animal. Ao seu lado, seguia o comandante do regimento. O Satanás vinha mais para trás, com a capa voando ao vento, na impetuosidade do galope. Depois, atropelado e veloz, - num grande estrupido, o regimento de cavalaria abalava a serra, voando.
Ninguém falava. O príncipe seguia preocupado, por aquele novo aspecto que tomavam as cousas, impondo-lhe agora um procedimento cujas conseqüências ainda não se podiam prever.
Esquecera-se já dos tristes sucessos da casa da rua do Conde. A princípio, o remorso lhe apuara o coração, vendo-se o causador daquela grande desgraça. Branca resistira com uma tenacidade, que ofendera a sua vaidade de conquistador irresistível. Era a primeira mulher que opunha um obstáculo à satisfação de um desejo seu. Ferido no amor próprio, não recuou diante de uma violência. Nenhuma das outras recusara aquela honra, nenhuma! - estas, por amor, cedendo-se com paixão àquele belo fidalgo que governava o maior país da terra, e cujos lábios e cujas mãos tinham carícias tão novas, afagos tão doces; aquelas, por vaidade, amando-o por luxo, dando-se a ele pela satisfação de se sentirem princesas no breve espaço de um espasmo de gozo; outras, por imposição de maridos e pais ambiciosos, fazendo do corpo de uma esposa ou do corpo de uma filha sólidos degraus para a subida gloriosa do poder... Nenhuma das outras recusara aquela honra, nenhuma! E era aquela criança tímida e fraca, era aquele pedacinho de gente, que lhe vinha cravar os olhos na face, atrevidamente, corajosamente, e dizer-lhe sem tremer: - Não te quero, não te desejo, não serei tua, porque não te amo, porque amo um outro que é mais belo, que é mais amante, que é mais forte do que tu! Depois, quando vira entrar no quarto Paulo de Andrade quando compreendera que era aquele o seu rival, o príncipe esperara-o a pé firme, olhando-o face a face, num ímpeto daquele seu belo temperamento, tão seu e tão nobre, que o faria afrontar todos os perigos, que o fez uma vez, mais tarde, sozinho, em S. Cristóvão, esperar na rua um homem que o ofendera, e retalhar-lhe o rosto a chicote.
Mas, Paulo recusara, preferindo matar-se a erguer a mão contra ele.
E vendo-o morto, o príncipe, compreendendo que ia haver um escândalo, saiu daquela casa, fugindo do lugar onde fora procurar um gozo passageiro e onde ganhara um remorso terrível.
Agora, porém, essa preocupação fora sufocada por outras mais sérias. O homem desaparecera.
Em seu lugar ficava apenas o príncipe, com toda a grave responsabilidade de uma conspiração política.
Era possível recuar? A guerra estava declarada. A tropa portuguesa capitulara no Rio e não tardava muito que capitulasse também em todo o resto do Brasil. O senado conferira ao príncipe o título de Defensor Perpétuo do Brasil; não lhe impunha esse titulo o dever de resistir a tudo e a sacudir de uma vez o jugo da metrópole? Não era defender o Brasil e, mais do que isso, salválo, fazer com que ele se constituísse nação independente? Quanto ao Satanás, a sua preocupação era de outra natureza; o desgraçado pensava na filha, de quem não sabia, de quem já não queria saber, atolada na desonra, roubada ao seu afeto.
O desejo de vingança enchia-lhe a alma de rancor; poderia numa hora de júbilo supremo, roubar a vida a quem lhe roubara a felicidade? conseguiria enfim satisfazer a sua única preocupação de agora, deitando a mão ao verdadeiro culpado? D. Pedro interrompeu-lhe a meditação, chamando-o para junto de si.
- Dize cá, Satanás! tens confiança no futuro? - Por que não? é tão bom esperar, mesmo quando só há motivo para desespero!...
- Duvidas então do êxito da minha última aventura? - Não! não duvido... Era do meu futuro que falava e não do seu. O seu futuro é garantido: que motivo teria eu para duvidar dele? - Também me parece isso. Demais não foi só a minha ambição que trouxe os acontecimentos ao pé em que estão: foi também a fatalidade que preparou tudo, dando-me este papel, que não posso recusar, porque há muito tempo que o desejava e pedia a Deus. Agora é caminhar.
D. Pedro alongou a vista pelo horizonte. Agora, galgada a serra, rasgavam-se as planícies verdes, cheias de tufos de árvores, arrepiadas de outeiros, circuladas de montanhas.
- Será talvez o primeiro do mundo, este país que Deus me quis dar, na sua justiça infinita.
Desgraçado de quem, chegado ao meio do caminho, tem medo do desconhecido e dá as costas ao que tem de vir. Eu já não posso parar. Vencerei o futuro, ou serei vencido por ele. Mas serás meu, país abençoado...
E, parado, sofreando a carreira ao cavalo, de cabeça erguida, belo e transfigurado, o príncipe teve um largo gesto que varreu todo o horizonte.
Eabalou de novo, ato do galope, pela planície afora, como se quisesse chegar mais depressa a esse futuro que lhe sorria e que o chamava, acenando-lhe com uma coroa e com a glória da fundação de uma grande nacionalidade.
Depois de um longo silêncio, foi o Satanás o primeiro a falar.
- E já não é possível reprimir o ódio entre brasileiros e portugueses, senhor. São conflitos constantes, rixas de todos os dias. E só o que se deve recear. Se a população portuguesa reagir? se mesmo a população brasileira recuar? - Não recuará. Pois não foi o próprio povo quem me pediu que ficasse, exigindo que eu rompesse com meu pai? - Não há que fiar no povo, senhor. O povo quer uma cousa hoje e outra amanhã. De mais, mesmo confiando no povo, não se devem recear as alternativas da guerra? - Mas as últimas noticias são boas. Labatut, na Baía, caminha de vitória em vitória. Venceremos.
E não falou mais, senão quando, no vale do Ipiranga, às margens do rio que se acachoeirava, espumando, entre ribas de verdura, ordenou que se fizesse um pequena parada de descanso, antes de entrar na cidade.
Todos se apearam.
Na serenidade da tarde, as palmeiras bracejavam no ar. Havia uma grande suavidade no céu muito azul, limpo de nuvens, cortado de asas. Os cavalos saíram pelo campo, a pastar. Os soldados estenderam-se na relva, prostrados por aquela caminhada longa, ao sol forte de setembro. Abriram-se as garrafas de cana, acenderam-se os cigarros.
D. Pedro e Satanás falavam de Marta, da peixada de escabeche, da beleza de Maria.
- Homem, por falar em peixada... fez d. Pedro, e disse uma cousa que fez o outro rir muito.
O príncipe riu também, e levantando-se, entrou numa moita.
Mais longe, na entrada do vale, levantou-se uma nuvem de poeira. Ouvia-se um galope. E, em breve, um cavaleiro apareceu. Ao chegar perto da comitiva, apeou-se, e deixou-se cair no chão, sem fala, coberto de pó, extenuado.
Tinham chegado a Santos, logo depois da partida do príncipe, novas notícias, ainda mais graves, ainda mais aterradoras.
Era ele quem as vinha trazer. Tinha viajado sem parar um instante, num galope louco pela serra acima.
O comandante do regimento foi procurar o príncipe. Encontrou apenas o Satanás, sentado numa pedra, cotovelos sobre os joelhos, face sobre os punhos, pensando.
- Onde está o príncipe? O Satanás levantou os olhos e disse gravemente: - Espere um pouco. Está ocupado. Foi apanhar uma parasita.
Quando o príncipe veio, não o surpreenderam as notícias. Confirmava-se o consta de terem sido os deputados brasileiros obrigados a fugir de Lisboa. Esses deputados eram Antônio Carlos de Andrade e Silva, Cipriano Barata, Lino Coutinho e Diogo Feijó. Antônio Carlos, em plena sessão das cortes interrompido num discurso, bradara num belo assomo de indignação: - Silêncio, canalha! Quando fala um brasileiro ninguém o interrompe! O governo português, diziam mais as notícias, dispunha-se a mandar uma esquadra para o Brasil, para reprimir a revolução. Era preciso agir, com a máxima urgência.
D. Pedro não pestanejou. Chamou o comandante.
- A cavalo! forme o regimento! E arrancou do chapéu o pendão azul e branco. Depois, tirou de uma árvore uma folha verde, listrada de amarelo, e, substituindo-a ao pendão, montou também a cavalo.
O regimento esperava, em linha, a voz de marchar. O príncipe estendeu o braço: - A caminho! E, com uma voz que ecoou longamente, na tarde radiante, pelas quebradas da serrania, soltou o seu grito de guerra - Independência ou morte! IX O INQUÉRITO Mal chegado de São Paulo, depois daquele sucesso imprevisto da Independência, que abreviara a viagem de d. Pedro, o Satanás tratou de averiguar ocaso misterioso da rua do Conde.
Remordia-o principalmente o remorso no relativo à Branca e ao abandono em que a deixara.
Nem mesmo podia compreender como ele, o homem impassível e calmo, já afeito às vicissitudes da sorte e bem afamado pela imperturbável presença de espírito, que conservava durante os transes mais arriscados da vida, se tinha tornado quase doudo, irrefletido e imprevidente.
A nada concluíam entretanto as suas primeiras pesquisas. Lá, na rua do Conde, a casa de Branca conservava-se impenetrável e quieta, com essa lúgubre fisionomia dos prédios misteriosos que foram o teatro de um crime. E, pela vizinhança, diziam-na apenas malassombrada, percorrida durante a noite por fantasmas alvadios de almas penadas, que vinham gemer a sua dor na encenação espetral das crendices populares.
Ninguém sabia de mais nada, e ninguém conseguira esbater luz sobre a treva apavorante daquele crime.
Mistério, mistério! De Branca nem se ouvia falar. Talvez que ela tivesse remontado para o céu na compostura angelical de suas purezas.
E o Satanás debatia-se, cego e louco, apaixonado e fúnebre, na grande noite das idéias.
Lembrou-se, entretanto, de d. Bias. Fora ele quem viera chamá-lo à bodega do Trancoso. E o magro fidalgo das Espanhas bem devia conhecer alguma cousa desse drama sanguinolento e inexplicável. Se ele nada pudesse dizer sobre a sorte de Branca, relataria pelo menos o princípio dessa luta a que assistira, e que prostrara em terra o cadáver de Paulo de Andrade.
E o Satanás dirigiu-se para a tasca da rua do Piolho.
D. Bias lá estava.
Ninguém lhe dissera sobre a chegada do príncipe e sua comitiva. E ele supunha-se muito seguro, longe da espada de Pallingrini.
Ria a bom folgar.
A Domitila, recusando-se embora a pagar-lhe imediatamente os mil cruzados prometidos, recheava-lhe a bolsa, de constante, e permitia-lhe algumas diabruras, que o arredassem por momento da vigilância sobre a prisão de Branca.
E d. Bias fazia-se agora de pagador, e falava alto e fanfarronava à vontade entre aquela gente que lhe ia escorropichando os pichéis.
Fez-se branco, pois, trêmulo como um esqueleto de museu agitado pelo vento, quando o Satanás bateu-lhe ao ombro fortemente.
Mas recuperou logo a presença de espírito. Estava diante do inimigo. E se lhe faltava a coragem de desembainhar a nunca desembainhada durindana, compreendia a necessidade de esgrimir a mentira - a única arma que ele sabia manejar.
- Bem hajas pelo teu regresso! disse. Tu desapareceste de repente, e eu tinha, entretanto, importantes comunicações a fazer.
- E eu ando à procura dessas comunicações, fez o Satanás com a voz soturna, sentando-se do outro lado da mesa e esvaziando um copo que ali estava.
- Então, pergunta. As minhas idéias, assim, se concatenarão melhor e com mais vantagens para ti.
- Pois bem! O que é feito de Branca? - Que Branca? - A minha filha! Aquela moça loura que desapareceu bruscamente depois do crime da rua do Conde.
- Era tua filha! - Sim.
- Pois não sei! afirmou d. Bias resolutamente.
Descobrindo que a sua encarcerada era filha do Satanás, o magro fantasma de d. Quixote teve ímpetos de revelar-lhe tudo. Perpassou-lhe no cérebro a idéia de ajoelhar-se, de rojar-se ao chão, de dizer ao escultor: - Tua filha! Sou eu quem a tem prisioneira. Mas perdoa-me. Eu, só eu te a posso restituir. Vem comigo. Vem buscá-la. Mas perdoa-me. Conserva-me a vida. E dá-me os mil cruzados que a Domitila me prometeu.
Mas d. Bias amava Branca. A meiga e triste filha do Satanás deixava que ele a abraçasse.
Sorria numa alegria infantil de louca. E muito baixinho dizia-lhe ao ouvido uma suave cantilena de amores: - Paulo! meu Paulo! Por isso ele afirmou: - Não sei.
O Satanás não lhe permitiria com certeza o prolongamento desses idílios de prisão. E d. Bias amava Branca.
Também o outro não insistiu.
Não eram essas propriamente as revelações que esperava. Perguntara por perguntar, para dar saída a essa idéia que o obsedava, que lhe fazia o mais forte e o mais insistente das preocupações. E, sem mais referir-se ao caso, continuou o inquérito relativamente aos pródromos do drama.
- Como soubeste que lá em cima, na minha casa, havia gente a se matar? - Eu te conto, Satanás. Eu conto.
- E toma tento em ti. Fala a verdade. Por que se não...
E um grande murro sobre a mesa completou-lhe o pensamento.
D. Bias começou assim: - Naquela noite, sabia de uns amores misteriosos, que não te relatarei nem por quinhentos milhões de diabos, nem que venha o inferno todo inteiro em guerra aberta contra mim, porque sou fidalgo das Espanhas e nunca meus lábios traíram o segredo da reputação de uma mulher.
O Satanás olhou-o muito sério, com a força violenta do seu olhar de fogo.
- Escuta! d. Bias. Trata de dizer-me a verdade e deixa-te dessas retóricas.
- Mas...