Madalena, ou simplesmente Magdá, como em família tratavam a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, estava, havia duas horas, estendida num divã do salão de seu pai, toda vestida de preto, sozinha, muito aborrecida, a cismar em coisa nenhuma; a cabeça apoiada em um dos braços, cujo cotovelo ficava numa almofada de cetim branco bordada a ouro; e a seus pés, esquecido sobre um tapete de pelos de urso da Sibéria, um livro que ela tentara ler e sem dúvida lhe tinha escapado das mãos insensivelmente.
No entanto, não havia ainda um mês que chegara da Europa, depois de um longo passeio que o pai fizera com sacrifício, para ver se lhe obtinha melhoras de saúde.
Melhoras! Que esperança! - Magdá voltou no estado em que partiu, se é que não voltou mais nervosa e impertinente. O Conselheiro, coitado, desfazia-se em esforços por tirá-la daquela prostação, mas era tudo inútil: de dia para dia, a pobre moça tornara-se mais melancólica, mais insociável, mais amiga de estar só. Era preciso fazer milagres para distraí-la um segundo; era preciso de cada vez inventar um novo engodo para obter que ela comesse alguma coisa . Estava já muito magra, muito pálida, com grandes olheiras cor de saudade; nem parecia a mesma. Mas, ainda assim, era bonita.
Morava com o pai e mais uma tia velha chamada Camila numa boa casa na praia de Botafogo. Prédio talvez um pouco antigo, porém limpo; desde o portão da chácara pressentia-se logo que ali habitava gente fina e de gosto bem educado; atravessando-se o jardim por entre a simetria dos canteiros e limosas estátuas cobertas de verdura, e enormes vasos de tinhorões e begônias do Amazonas, e bolhas de vidro de várias cores com pedestal de ferro fosco, e lampiões de três globos que surgiam de pequeninos grupos de palmeiras sem tronco, e bancos de madeira rústica, e tambores de faiança azul-nanquim, alcançava-se uma vistosa escadaria de granito, cujo patamar guarneciam duas grandes águias de bronze polido, com as asas em meio descanso, espalmando as nodosas garras sobre colunatas de pedra branca. Na sala de entrada, por entre muitos objetos de arte, notava-se, mesmo de passagem, meia dúzia de telas originais; umas em cavaletes, outras suspensas contra a parede por grossos cordões de seda frouxa; e, afastando o soberbo reposteiro de reps verde que havia na porta do fundo, penetrava-se imediatamente no principal salão da casa.
O salão era magnífico. Paredes forradas por austera tapeçaria de linho inglês cor de cobre e guarnecida por legítimos caquimanos, em que se destacavam grupos de chins em lutas fantásticas com dragões bordados a ouro; as figuras saltavam em relevo do fundo dos painéis e mostravam as suas caras túrgidas e bochechudas, com olhos de vidro, cabeleiras de cabelo natural e roupas de seda e pelúcia. Cobria o chão da sala um vasto tapete Pompadour, aveludado, cujo matiz, entre vermelho e roxo, afirmava admiravelmente com os tons quentes das paredes. Do meio do teto, onde se notava grande sobriedade de tintas e guarnições de estuque, descia um precioso lustre de porcelana de Saxe, sobrecarregado de anjinhos e flores coloridas e pássaros e borboletas, tudo disposto com muita arte numa complicadíssima combinação de grupos. Por baixo do lustre, uma otomana cor de pérola, em forma de círculo, tendo no centro uma jardineira de louça esmaltada onde se viam plantas naturais. A mobília era toda variada; não havia trastes semelhantes; tanto se encontravam móveis do último gosto, como peças antigas, de clássicos estilos consagrados pelo tempo. Da parede contrária à entrada dominava tudo isto um imenso espelho sem moldura, por debaixo do qual havia um consolo de ébano, com tampo de mármore e mosaicos de Florença, suportando um pêndulo e dois candelabros bizantinos; ao lado do consolo uma poltrona de laquê dourado com assento de palhinha e uma cadeira de espaldar, forrada de gorgorão branco listrado de veludo; logo adiante um divã com estofos trabalhados na Turquia.
Era neste divã que a filha do Sr. Conselheiro achava-se estendida havia duas horas, deixando-se roer pelos seus tédios, aos bocadinhos, com os olhos paralisados num ponto, que ela não via.
Foi interrompida pelo pai.
— Ah!
— Como passaste a noite, minha flor?
Magdá fez um gesto de desânimo, soerguendo-se na almofada de cetim, e tossiu. O Conselheiro assentou-se ao lado dela e tomou-lhe as mãos com fidalga meiguice.
— Preguiçosa!...
Um belo homem! Alto, bem apessoado, fibra seca, barba a Francisco I, toda branca, olhos ainda vivos e uma calva incompleta que lhe ia até ao meio da cabeça, dando-lhe ao rosto uma fina expressão inteligente e aristocrata.
Fora da marinha, mas aos trinta e cinco anos pedira a sua demissão, instalara-se no Rio de Janeiro, e casara, entregando-se desde essa época à política conservadora. Enviuvou pouco depois do nascimento de Magdá, único fruto do seu matrimônio; chamou então para junto de si a irmã, D. Camila, que vivia nesse tempo agregada à casa de outros parentes mais remotos; a filha foi entregue a uma ama até chegar à idade de entrar como pensionista num colégio de irmãs de caridade.
Era a essa infeliz criança, tão cedo privada do amor de mãe, que o conselheiro dedicava a maior parte dos seus afetos, e era também das suas mãos pequeninas que recebia coragem para enfrentar os desconsolos da viuvez e as neves, que ia encontrando do meio para o resto do caminho da vida. E era ainda essa criança, já mulher, que o desgraçado via agora escapar-lhe dos braços e fugir-lhe para a morte, arrastando atrás de si um triste sudário de mágoas brancas, mágoas de donzela, mágoas flutuantes, que pareciam feitas de espuma, e contra as quais no entanto se despedaçavam todo o seu valor de homem e todas as forças do seu coração de pai.
Coitadinha! Havia dois anos que se achava nesse estado. Pode-se todavia afirmar que começara a sofrer deste a fatal ocasião em que a convenceram da impossibilidade do seu casamento com Fernando.
Que romance!
Fernando fora o seu companheiro de infância, o seu amigo; cresceram juntos. Quando ela nasceu, encontrou-o já em casa do pai com cinco anos de idade, e desde muito cedo habituaram-se ambos à idéia de que nunca pertenceriam senão um ao outro.
Segundo o que sabia, toda a gente, este Fernando era um afilhado, que o Sr. Conselheiro adotara por compaixão e a quem mandara instruir; o certo é que o estimava muito e não menos verdade era que o rapaz merecia esta estima; dera sempre boas contas de si, e desde o colégio já se adivinhava nele um homem útil e honrado. Um belo dia, porém, quando andava no penúltimo ano de medicina, o padrinho chamou-o ao seu gabinete e disse-lhe que, de algum tempo àquela parte, observava-lhe com referência a Magdá uma certa ternura, que não lhe parecia inspirada só pela amizade.
Fernando sorriu-lhe e fez-se um pouco vermelho.
— Com efeito, confessou, havia já bastante tempo que sentia pela filha do seu padrinho muito mais do que simples amizade. E toda a sua ambição, todo o seu desejo, era vir a desposá-la logo que se formasse; tanto assim, que tencionava, mal concluísse os estudos, pedi-la em casamento.
— Isto é impossível!
— Impossível? interrogou o rapaz erguendo os olhos para o Conselheiro. — Impossível, como?
O velho fez um gesto de resignação e acrescentou em voz sumida:
— Magdá é tua irmã.
— Minha irmã...?
Houve um constrangimento entre os dois. No fim de alguns segundos, o Conselheiro declarou que não tencionava fazer tão cedo semelhante revelação, e que nem a faria se a isso o não obrigassem as circunstâncias.
Fernando estava abismado. Sua irmã. Visto isto - toda essa história, que ele conhecia desde pequeno; essa história, em que figurava como filho de um pobre marinheiro viúvo, falecido a bordo, era...
— Uma fábula, concluiu o pai de Magdá, sempre de olhos baixos. — Inventei-a para esconder a minha culpa.
O moço teve um ar de censura.
— Bem sei que fiz mal, prosseguiu o velho, hesitando em levantar a cabeça. — Mas não podia declarar-me teu pai sem prejuízo de tua parte e sem enxovalhar a memória daquela que te deu o ser. Era casada com outro e tu nasceste ainda em vida de minha mulher. O marido de tua mãe estava ausente quando vieste ao mundo; ignorou sempre a tua existência, e enviuvou quando tinhas apenas dois anos de idade. Eu então carreguei contigo para casa, inventei o que até aqui supunhas verdade e nunca mais te abandonei.
Fernando deixou-se cair numa cadeira. O pai continuou, aproximando-se mais, e falando-lhe em surdina:
— Minha intenção era esconder esse segredo até no dia em que depois de minha morte, viesses a saber que estavas perfilado por mim e contemplado nas minhas disposições testamentárias; mas - o homem põe e Deus dispõe - para meu castigo, quis a fatalidade que te agradasses de tua irmã e, como bem vês, só me restava agora confessar francamente a situação. Ficas, por conseguinte, prevenido de que, de hoje em diante, deves empregar todos os meios para afastar do espírito de Magdá qualquer esperança de casamento, que ela por ventura mantenha a teu respeito...
Fernando declarou que preferia desaparecer dali. Partiria no primeiro vapor que encontrasse.
Não! isso seria loucura! Ele estava bem encaminhado e pouco lhe faltava para terminar a carreira... Que se formasse e partiria depois.
— Olha, concluiu o velho, passado um instante - caso prefiras estudar ainda um pouco na Europa, vê o lugar que te serve e conta comigo. Não sou rico, mas também não és extravagante; apenas o que te peço é que, de modo algum, reveles a tua irmã o que acabas de saber. Será talvez uma questão de temperamento, mas creio que morreria se o fizesse.
Quando o Conselheiro terminou, Fernando chorava.
— E o marido de minha mãe? perguntou.
— Há dez anos que morreu; não deixou parentes.
E o pai de Magdá, vendo que o filho parecia sucumbido, passou-lhe o braço nas costas: — Então! vamos, nada de fraquezas! um abraço! e que esta conversa fique aqui entre nós dois.
O rapaz prometeu e jurou que ninguém, e muito menos Magdá, ouviria de sua boca uma só palavra sobre aquele assunto. O velho agradeceu o protesto com um aperto de mão; e ficaram ainda alguns momentos estreitados um contra o outro, até que o Conselheiro se retirou, a limpar os olhos, e o rapaz caiu de novo na cadeira, dobrando os cotovelos sobre uma mesa e escondendo no lenço os seus soluços, que agora lhe rebentavam desesperadamente.
Foi Magdá quem veio despertá-lo dali a meia hora, depois de o haver procurado embalde por toda a casa.
— Ora, muito obrigado... ia dizer, mas deteve-se, intimidada pela expressão que lhe notara na fisionomia. — Que era aquilo?... Ele estava chorando?...
— Ó senhores! Hoje nesta casa estão todos amuados! Ao outro encontro chorando, que nem um bebê; este diz-me que não está bom e que eu entretenha-me com a tia Camila! Ora já se viu!
O pai afagou-lhe a cabeça. — Esta tolinha!...
— Mas, papai, que tem o Fernando?
— Não sei, minha filha.
— Diz que um amigo dele está muito mal...
— Pois aí tens...
— E você, papai, por que está triste?— Não estou triste, apenas preocupado. Não é nada contigo. Política, sabes? Mas vai, vai lá para dentro, que tenho que fazer agora.
— Política!...
Magdá afastou-se, meio enfiada, mas daí a pouco se lhe ouviram os gorgeios do riso nos aposentos da tia Camila.
Já lá estava o demoninho a bolir com a pobre da velha!
A tristeza de Fernando, em vez de diminuir com o tempo, foi crescendo de dia para dia. A irmã bem o notou, mas já sem vontade de rir, nem dará parte ao Conselheiro; estava então justamente no delicado período em que os últimos encantos da menina desabotoam nas primeiras seduções da mulher; transição que começa no vestido comprido e termina com o véu de noiva.
Quinze anos!
E que bem empregados! Muito bem feita de corpo, elegante, olhos negros banhados de azul, cabelos castanhos formosíssimos; pele fina e melindrosa como pétalas de camélia, nariz sereno feito de uma só linha, mãos e pés de uma distinção fascinadora; tudo isso realçando nos seus vestidos simples de moça solteira bem educada, na sua gesticulação fácil, na sua maneira original de mexer com a cabeça quando falava, rindo e mostrando as jóias da boca.
Aquela insistente frieza do irmão foi a sua primeira mágoa. Em começo não se preocupava muito com isso; quando viu, porém, que os dias se passavam e Fernando continuava mais e mais a seco e retraído, chegando até a evitá-la, ficou deveras apreensiva. — "Teria o rapaz mudado de resolução a respeito do casamento? — Estaria enamorado de outra?" Estas duas hipóteses não lhe saíam do espírito.
Agora muito poucas vezes achava ocasião de estar a sós com ele e, quando tal sucedia, Fernando, com tamanho empenho procurava escapar-lhe, que de uma feita a pobre menina foi queixar-se ao pai.
— É que naturalmente, respondeu o velho, o rapaz não tenciona casar contigo e procura desiludir-te a esse respeito.
Magdá ficou muito séria quando ouviu estas palavras.
— Ouve, minha filha, tu o que deves fazer é olhar para ele como se fosse seu irmão; vocês cresceram juntos e não se pode amar de outro modo... E queres então que te diga? Estes casamentos, forjados assim, entre companheiros de infância, nuca provaram bem. Santo de casa não faz milagre! Eu, em teu caso, ia tratando de atirar as vistas para outro lado...
— O Fernando então é um homem sem caráter?
— Sem caráter porque, minha filha?
— Ora, porque! Porque muitas vezes jurou que não se casaria senão comigo!...
— Coisas de criança! Hoje naturalmente pensa de outro modo. Talvez até já tenha noiva escolhida...
— Não, não creio... Se assim fosse, ele seria o primeiro a contar-me tudo com franqueza! A causa é outra, hei de descobri-la, custe o que custar!
Contudo não se animou a inquirir o noivo.
Mas, considerava a moça, como acreditar que Fernando descobrisse um novo namoro, se agora, mais que nunca, nadava metido com os estudos e não se despregava dos livros!... Onde, pois, teria ido arranjar essa paixão, se agora não ia à casa de ninguém?... Além disso, as suas tristezas não pareciam de um namorado; mostravam caráter muito mais feio e sombrio. O fato de pretender casar com outra não seria, de resto, razão para que a tratasse daquele modo! Era como se a temesse, se receiasse a sua presença... Dantes segurava-lhe as mãos com toda a naturalidade; afagava-lhe os cabelos; endireitava-lhe o chapéu na cabeça quando iam sair juntos; acolchetava-lhe a luva; trazia-lhe livros novos; gostava de brincar com ela, dizer-lhe tolices por pirraça, para faze-la encavacar; pregava-lhe sustos tapava-lhe os olhos quando a pilhava de surpresa pelas costas; pedia-lhe perfumes quando ele não tinha extrato para o lenço. E agora? Agora bastava que ela se aproximasse do Fernando, para este já estar todo que parecia sobre brasas e, ao primeiro pretexto, fugir e encerrar-se no quarto, fechado por dentro, às vezes até as escuras. Ora, estava entrando pelos olhos que tudo isto não podia ser natural... Magdá, pelo menos, nuca tinha visto um namorado de semelhante espécie!
— Em todo caso, resolva de si para si, ele deu-me a sua palavra de honra que me pediria a papai tão logo se formasse; por conseguinte não posso ainda queixar-me. Vamos ver primeiro como se sairá do compromisso.
E deliberou esperar até o fim do ano.
Entretanto, o Conselheiro, querendo a todo o custo arredar do espírito da filha a idéia de casar com o irmão, pensava em atrair gente à casa, para ver se despertava nela o desejo de escolher outro noivo. A dificuldade estava em arranjar as festas; sim, porque, para receber os convidados, só podia contar, além de Magdá, com a irmã, D. Camila. Mas D. Camila era uma solteirona velha, muito devota, muito esquisita de gênio e sem jeito nenhum para fazer sala. — Uma verdadeira "barata de sacristia" como lhe chamava nas bochechas o despachado do Dr. Lobão, médico da casa e amigo particular do Conselheiro.
— Ora, se Magdá tivesse um pouco mais de idade, considerava este, estaria tudo arranjado. Como, porém, encarregar uma menina de dezesseis anos de fazer as honras de um baile?
Salvou a situação, pedindo a um seu amigo velho, o Militão de Brito, homem pobre, casado e pai de três filhas solteiras já de certa idade, que fosse e mais a família passar algum tempo com ele. — A casa era grande e não haviam de ficar de todo mal acomodados.
Para justificar o pedido, observou que a filha estava na flor da juventude, precisava distrair-se, e que lhe doía a ele, como pai, traze-la enclausurada na idade em que todas as moças gostavam de brincar. O Militão, que também era pai, compreendeu a intenção da proposta, aceitou-a de braços abertos e teve a franqueza de confessar que aquele convite vinha do céu, porque ele igualmente via as suas raparigas, coitadinhas, muito pouco divertidas.
Mudou-se pois a família de Militão para a casa do Conselheiro e Magdá, adivinhando os planos do pai, sorriu intimamente. Inauguraram-se os bailes, e os pretendentes não se fizeram esperar. Pudera! Uma menina que não é pobre, com certa educação, algum espírito, e linda como a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, encontra sempre quem a deseje.
O primeiro a apresentar-se foi um tal Martinho de Azevedo, rapaz de vinte e poucos anos, filho de um cônsul em que em não sei que parte da Europa; ares de fidalgo; bigode louro e olhos de mulher; não tinha nada de feio; ao contrário, chegava a ser impertinente com a sua inalterável boniteza risonha; e vestia-se como ninguém, graças a alguns anos que passara em Paris estudando um curso que não chegara a concluir.
Magdá esteve quase a desenganá-lo, antes mesmo que o sujeito se lhe declarasse; resolveu, porém, deixar isso ao cuidado do pai, que não se embirrava menos com ele. Com quem o Conselheiro não embirrou, e mostrou até simpatizar, foi um certo ministro argentino, levado à sua casa por um colega que já lá se dava; mas este segundo pretendente não foi feliz que o primeiro, nem que os outros apresentados depois.
Todavia as festas continuavam, e por fim a casa do Conselheiro Pinto Marques era tida e havida entre a melhor gente como das mais distintas e bem freqüentadas do Rio de Janeiro; e Magdá classificada ao lado das estrelas mais rutilantes do empíreo de Botafogo.
Assim se passou o resto do ano.
Ah! com que ansiedade contou a pobre menina os dias que precederam à formatura do irmão! Como aquele coraçãozinho palpitou de susto e de esperança ao lembrar-se de que em breve o seu Fernando, o único que aos olhos dela parecia bom, delicado, inteligente e sincero, tinha com uma só palavra de apagar todas as dúvidas que a torturavam, ou destruir-lhe por uma vez todos os sonhos de ventura.
Sim, porque a filha do Conselheiro, agora nos seus dezessete anos, estava bem certa de que amava Fernando; mais se convencera dessa verdade nesses últimos tempos em que ele se mostrara indiferente e esquivo. Só agora podia avaliar o bem que lhe faziam aquelas tranqüilas palestras que tantas vezes desfrutara com ele, ora nos bancos da chácara, ora assentados junta à janela, perto um do outro, ou em volta da pequena mesa de viex-chêne que havia numa saleta ao lado do gabinete do Conselheiro, e onde ela costumava ler e estudar no bom tempo em que Fernando se comprazia em dar-lhe lições de preparatórios.
As lições!... Quanto desvelo de parte a parte! Com que gosto ele ensinava e com que gosto ela aprendia!
Magdá, logo ao deixar o colégio das irmãs de caridade, entrou a estudar com o irmão, e foi nesse contato espiritual de três horas diárias que os dois mais se fizeram um do outro, e mais se amaram, e mais se respeitaram. Todavia, nesse tempo ela ainda não lhe tinha observado as feições, nem notado a inteireza de caráter nem a delicadeza do gênio; habituara-se a estimá-lo, e aceitava-o quase que pela fatalidade da convivência ou pela natureza efetiva do seu próprio temperamento; mas depois, quando teve ocasião de compará-lo com outros, amou-o por eleição, por entender que ele era o melhor de todos os homens, o mais digno de preferência.
Agora, depois daqueles frios meses de retraimento, Fernando parecia-lhe ainda mais belo e mais desejável; aquela transformação inesperada foi como uma dolorosa ausência em que as boas qualidades do rapaz ganharam novo prestígio no espírito da irmã, assumindo proporções excepcionais. Magdá esperava pelo dia da formatura, como se aguardasse a chegada do noivo; tinha lá para si que o seu amado reapareceria então como dantes, meigo, comunicativo e amigo de estar ao lado dela. Agora idolatrava-o; todo o grande empenho do Conselheiro em substituí-lo por outro apenas conseguia encarecê-lo ainda mais, fazendo-o mais desejável, mais insubstituível. Ela já não podia compreender como é que por aí se amavam outros que não eram Fernando; outros que não tinham aquela mesma barba, aqueles olhos tão inteligentes e tão doces, aquela mesma estatura bem conformada, forte sem ser grosseira, aquela boca tão limpa, tão bem tratada, que logo se via não poder servir de caminho à mentira ou a uma palavra feia. E muita coisa, que até então não lhe notara, agora a impressionava; a voz, por exemplo, o metal de sua voz, em que havia uma certa harmonia corajosa; aquela voz velada, discreta, mas muito inteligível; uma voz que não chamava a atenção de ninguém, mas que prendia a todo aquele que por qualquer circunstância a escutava. — E a cor do seu rosto? aquele moreno suave, de pele muito fina, em que ia tão bem, o cabelo preto? — E aquele modo inteligente de sorrir, quando ele descobria um ridículo noutrem? aquele ar condescendente com que Fernando ouvia as frioleiras do Martinho de Azevedo ou as bazófias do ministro argentino? aquele sorriso inteiriço, de alma virgem, onde não havia o menor vislumbre de inveja a ninguém, nem contentamento próprio por vaidade; aquele sorriso, que ela supunha ser a única a compreender.
A própria indiferença de Fernando agora a seduzia e namorava; achava-o por isso mesmo fora do vulgar dos outros homens um pouco misterioso, como que guardando no fundo do coração alguma coisa muito superior, muito excelente, que ele não queria expor às vistas dos profanos e só pertenceria àquela que escolhesse para inseparável companheira de sua vida.
Ah, Magdá contava que aquele segredo ainda seria também o seu; sua alma estava aberta de par em par e não se fecharia enquanto não houvesse recolhido todo o conteúdo daquele coração misterioso; só se fecharia para melhor guardar em depósito as gemas preciosíssimas que dentro de sua alma despejasse a alma do seu amado. — Oh, quanto não seria bom ser a esposa daquele homem, ser a sua criatura, ser a testemunha de todos os seus instantes! E ainda lhe passara pela mente a hipótese de uma traição por parte dele!... Mas onde tinha então a cabeça?... Pois Fernando lá seria capaz algum dia de dizer uma coisa e fazer outra?... Pois ela não via logo o modo pelo qual nos bailes de seu pai todas as moças solteiras procuravam requestá-lo, sem nada conseguir, nem mesmo alterar-lhe aquela fria abstração de homem superior?... Oh, sim, sim! a única que ele queria, a única que ele amava, era ela ainda e sempre! Tudo lho dizia: tudo lho confirmava! Nem podia ser que tamanho sentimento continuasse a crescer e aprofundar-se no seu coração de donzela, se, do fundo da aparente indiferença de Fernando não viesse um raio de calor manter-lhe a vida!
Amparando-se nestes raciocínios, Magdá viu chegar a véspera da formatura, quase tranqüila de todo. Nesse dia recolheu-se mais cedo que de costume; ajoelhou-se diante de um crucifixo de marfim, herdado de sua mãe, e do qual nunca se separara, e rezou, rezou muito, pedindo ao pai do céu, pelas chagas do seu divino corpo, que a protegesse e fizesse feliz. Falou-lhe em voz baixa e amiga, segredando-lhe ternuras e confidências, como se se dirigisse a um velho camarada de infância, bonacheirão, que a tivesse trazido ao colo em pequenina e que ainda se babasse de amores por ela. E contou-lhe o quanto adorava o seu Fernando e quanto precisava de casar com ele. — Deus não havia de ser tão mau que, só para contrariá-la, estorvasse aquela união!...
No dia seguinte Fernando estava formado e a casa do Conselheiro toda em preparos de festa; Magdá que havia muito não se animava a dirigir-lhe palavra, foi ter com ele e, depois de lhe dar os parabéns, interrogou-o com um olhar cheio de ansiedade. O moço fez que não entendeu, mas ficou perturbado.
— Então! disse Magdá.— Então o que, minha amiguinha?
— Pois não estás formado afinal?
— E daí?
— Daí é que havíamos combinado que me pedirias hoje em casamento...
Fernando perturbou-se mais.
— Ainda pensavas nisso?... gaguejou por fim, em ânimo de encará-la. E acrescentou depois, percebendo que ela não se mexia: — Parto daqui a dias para a Europa e não sei quando voltarei...
Magdá sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, um punho de ferro tomar-lhe a boca do estômago e subir-lhe até a garganta, sufocando-a .
— Bem!
E não pode dizer mais nada, virou-lhe as costas e afastou-se de carreira, como se levasse consigo uma bomba acesa e não quisesse vê-la rebentar ali mesmo.
— Ouve, Magdá! Espera.
Ela havia alcançado já o quarto; atirou-se à cama. E a bomba estourou, sacudindo-a toda, convulsivamente, numa descarga de soluços que se tornavam progressivamente mais rápidos e mais fortes, à semelhança do ansioso arfar de uma locomotiva ao partir.
Terminada a crise dos soluços, Magdá sentiu uma estranha energia apoderar-se dela; uma necessidade de reação; andar, correr, fazer muito exercício; mas ao mesmo tempo não se achava com ânimo de largar a cama. Era uma vontade que se lhe não comunicava aos membros do corpo. Ergueu-se, afinal, mandou chamar o pai, e este não se fez esperar. Ia pálido e acabrunhado; é que estivera conversando antes com o filho a respeito do ocorrido. A notícia do procedimento de Magdá fulminara-o; supunha-a já de todo esquecida dos seus projetos de casamento com o irmão e agora se arrependia de não haver dado as providências para que este se apartasse dela; sentia-se muito culpado em ter sido o próprio a detê-lo em casa, e doía-lhe a consciência fazer sofrer daquele modo a pobre menina. No entanto, quando o rapaz lhe pediu licença para confessar a verdade à irmã, negou-a a pé firme, aterrado com a idéia de ter de corar diante da filha. — Não! Tudo, menos isso!
Fernando protestou as suas razões contra tal egoísmo: não era justo que se expatriasse amaldiçoado por uma pessoa a quem tanto estremecia, sem ter cometido o menor delito para merecer tamanho castigo. Ah! se o pai tivesse visto com que profunda indignação, com que ódio, com que nojo, ela o havia encarado!...
— Não! nunca! Que se poderia esperar de uma filha, que recebesse do próprio pai semelhante exemplo de imoralidade?...
Foi nessa ocasião que o criado o interrompeu com o chamado de Magdá. O Conselheiro, quando chegou junto dela, sentiu-se ainda mais comovido: "Não seria tudo aquilo um crime maior do que os seus passados amores com a mãe de Fernando?... Sim; estes ao menos não se baseavam em preconceitos e vaidades, baseavam-se nos instintos e na ternura". E o mísero, atordoado com estas idéias, tomou as mãos da filha, falhou-lhe com humildade perguntou-lhe com muito carinho o que ela sentia.
— Quase nada! Um simples abalo... Já não tinha coisa alguma...
E tremia toda.
— Queres que mande buscar o Dr. Lobão? Estou te achando o corpo esquentado.
— Não, não vale a pena; isto não é nada. Eu chamei-o papai, para lhe pedir um obséquio...
— Um obséquio? Fala, minha filha.
— Pedir um obséquio e fazer-lhe uma declaração...
E, brincando com os botões da sobrecasaca do Conselheiro: — Sabe? Estou resolvida a casar com o Martinho de Azevedo; desejava que meu pai lhe mandasse comunicar imediatamente esta minha deliberação...
— Temos tolice!...
— E queria que o casamento se realizasse antes da partida do Fernando...
— Estás louca?
— Se estiver, tanto pior para mim. Afianço-lhe que hei de fazer o que estou dizendo!
— Não sejas vingativa, minha filha; Fernando contou-me o que se passou entre vocês dois, disse0me tudo, e eu juro pela memória de tua mãe que o procedimento dele não podia ser outro... Foi correto, fez o seu dever!
— O seu dever? Tem graça!
— Mais tarde verás que digo a verdade; o que desde já posso afirmar é que o pobre rapaz não tem absolutamente a menor culpa em tudo isto. Não o deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confiança e a tua estima...
— Mas fale por uma vez! Não vê que as suas meias palavras me põem doida?...
— Não posso; é bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando, negando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou chamá-lo e quero que...
— Não, não! atalhou a filha, segurando-lhe os braços. — Ele que não me apareça! Que não me fale! Detesto-o!
— Não acreditas em teu pai!...
— Não sei; acredito é que entre o senhor e ele há uma conspiração contra mim! Querem engodar-me com mistérios que não existem, como se eu fosse alguma criança! Ah! mas eu mostrarei que não sou o que pensam!
— Então, minha filha, então!
— Creio que já disse bem claro qual é a minha resolução a respeito de casamento, e agora só me convém saber se meu pai está ou não disposto a tratar disso!
— Não digo que não, mas para que fazer as coisas tão precipitadamente?...
O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.
— Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miserável! Se meu pai não fizer o que eu disse, o escândalo será maior! Ao menos falo com esta franqueza — Não tenho "mistérios"!
Ela havia-se desprendido das mãos do Conselheiro e passeava agora pelo quarto, muito agitada, com as faces em fogo, os lábios secos e os olhos ainda úmidos das últimas lágrimas. E em todos os seus movimentos nervosos, em todos os seus gestos, sentia-se uma resolução enérgica, altiva e orgulhosa.
— Não há outro remédio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada e fria da neve, não há outro remédio!
E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz estrangulada pela vergonha:
— Fernando não se casa contigo, porque é teu irmão...
Magdá retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos uma faísca elétrica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabeça num angustioso resfolegar de delinqüente.
— Ora aí tens... balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual só se ouviam os soluços de Magdá que se lhe havia atirado nos braços. — Já vês que aqui o único culpado sou eu; nunca devia ter consentido que vocês se criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua mãe ignorou sempre que Fernando fosse meu filho...
— Vá ter com ele... pediu Magdá chorando. — Que me perdoe! Que me perdoe! Diga-lhe que eu não sabia de nada, e que sou muito desgraçada!
Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou à cama, e daí a pouco delirava com febre.
Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lobão, que receitou; e, só à tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um sono profundo que durou muitas horas.
Despertou tranqüila, um pouco abstrata. — Tinha sonhado tanto!...
Levou um bom espaço a cismar, por fim soltou um profundo suspiro resignado e pediu que conduzissem o irmão à sua presença. Ele foi logo, acompanhado pelo Conselheiro, e assentou-se, sem dizer palavra, numa cadeira ao lado da cabeceira da cama. Magdá tomou-lhe as mãos em silêncio, beijou-las repetidas vezes, e em seguida levou uma delas ao rosto e ficou assim por algum tempo, a descansar a cabeça contra a palma da mão de Fernando. Como por encanto, a sua meiguice havia se transformado da noite para o dia: já não eram de noiva os seus carinhos, mas perfeitamente de irmã. Não por isso menos expansivos, antes parecia agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe havia tomado as mãos daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face contra o seu colo e cingiu-lhe o braço em volta da cintura.
— E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!... balbuciou, com uma voz tão arrependida, tão humilde e tão meiga, que o rapaz a apertou contra o seio e deu-lhe um beijo no alto da cabeça.
Magdá estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os travesseiros, com os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.
— Então, agora estão feitas as pazes?... perguntou o Conselheiro, alisando com os dedos o cabelo da filha.
Esta ergueu as pálpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso sofredor e triste.
— E ainda pensas no Martinho de Azevedo?... interrogou o velho, afetando bom humor.
Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perdão daquela vingança tão tola e tão imerecida.
Todo o resto desse dia se passou assim, sem uma nuvem que o toldasse; a paz era completa, pelo menos na aparência. Magdá não se queixava de coisa alguma. O Dr. Lobão, quando foi à noite, encontrou-a de pé, muito esperta, conversando com a gente de Brito. O médico desta vez olhou para a rapariga com mais atenção e fez-lhe um cúmulo de perguntas à queima-roupa: — Se era muito impressionável; se era sujeita a enxaquecas e dores de cabeça; o que costumava comer ao almoço e ao jantar; se tinha bom apetite; se usava o espartilho muito apertado; desde que idade freqüentava os bailes; se as suas funções intestinais eram bem reguladas; e, como estas, outras e outras perguntas, a que Magdá respondia por comprazer, afinal já importunada.
Ela sempre embirrara com o Dr. Lobão; tinha-lhe velha antipatia; achava-o sistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de primeiro cirurgião do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes um despropósito pelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta as descomposturas que lhes passava.
— A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de estudar, medindo-a de alto a baixo, por cima dos óculos.
Magdá sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.
— Não ouviu? Pergunto se tem tido muitos namorados!
— Não sei!
E ela afastou-se, enquanto o cirurgião resmungava:
— Que diabo! Para que então me fazem vir cá?...
Ia já a sair, quando o Conselheiro foi ter com ele:
— Então?
— Não é coisa de cuidado; um abalo nervoso. Que idade tem ela?
— Dezessete anos.
— É...! mas não convém que esta menina deixe o casamento para muito tarde. Noto-lhe uma perigosa exaltação nervosa que, uma vez agravada, por interessar-lhe os órgão encefálicos e degenerar em histeria...
— Mas, doutor, ela parece tão bem conformada, tão...
— Por isso mesmo. Ah! Eu leio um pouco pela cartilha antiga. Quanto melhor for a sua compleição muscular, tanto mais deve ser atendida, sob pena de sentir-se irritada e esbravejar por’aí, que nem o diabo dará jeito! E adeus. Passe bem!
Mas voltou para perguntar: — E a barata velha, como vai?
— Minha irmã...? ao mesmo, coitada! Enfermidades crônicas...
— Ela que vá continuando com as colheradas de azeite todas as manhãs e que não abandone os clisteres. Hei de vê-la, noutra ocasião; hoje não tenho mais tempo. Adeus, adeus!
E saiu com os seus movimentos de carniceiro, resmungando ao entrar no carro:
— Não tratam da vida enquanto são moças e agora, depois de velhas, o médico que as ature! Súcia! Não prestam p’ra nada! nem p’ra parir!
A festa de Fernando realizou-se na véspera da sua partida. Magdá nuca pareceu tão alegre nem tão bem disposta de saúde; pôs um vestido de cassa cor-de-rosa, todo enfeitado de margaridas, deixando ver em transparência a ebúrnea riqueza do colo e dos braços.
Estava fascinadora: toda ela era graça, beleza e espírito; causou delírios de admiração. Nessa noite dançou muito, cantou e, durante o baile inteiro, mostrou-se para com Fernando de uma solicitude, em que não se percebia a menor sombra de ressentimento; dir-se-ia até que estimava haver descoberto que era sua irmã. Conversaram muito; ela contou-lhe, ora rindo, ora falando a sério, as declarações de amor que recebera; citou nomes, apontou indivíduos, pediu-lhe conselhos sobre a hipótese de uma escolha e declarou, mais de uma vez, que estava resolvida a casar.
No dia seguinte apresentaram-se alguns amigos para o bota-fora. Magdá foi à bordo, chorou, mas não fez escarcéu; em casa compareceu ao jantar, comeu regularmente e até a ocasião de se recolher falou repetidas vezes do irmão, sem patentear nunca na sua tristeza desesperos de viúva, nem alucinações de mulher abandonada.
Só dois meses depois foi que notaram que estava tanto mais magra e um tanto mais pálida; e assim também que o seu riso ia perdendo todos os dias certa frescura sanguínea, que dantes lhe alegrava o rosto, e tomando aos poucos uma fria expressão de inexplicável cansaço.
Alguns meses mais, e o que havia de menina desapareceu de todo, par só ficar a mulher. Fazia-se então muito grave, muito senhora, sem todavia parecer triste, nem contrariada; as amigas iam vê-la com freqüência e encontravam-na sempre em boa disposição para dar um passeio pela praia, ou para fazer música, dançar, cantar; tudo isto, porém, sem o menor entusiasmo, friamente, como quem cumpre um dever. Vieram-lhe depois intermitências de tédio; tinha dias de muito bom humor e outros em que ficava impertinente ao ponto de irritar-se coma menor contrariedade. Não obstante, continuava a ser admirada, querida e invejada, graças ao seu inalterável bom gosto, à sua altiva de procedimento e à sua aristocrática beleza. O pai votava-lhe já essa reverente consideração, que nos inspiram certas damas, cuja pureza de hábitos e extrema correção nos costumes se tornam lendárias entre os grupos com que convivem; tanto assim que, vendo o Militão forçado a retirar-se com a família par uma fazenda que ia administrar, o Conselheiro não os substituiu por ninguém, e a casa ficou entregue a Magdá.
Quanto à saúde — assim, assim... Às vezes passava muito bem semanas inteiras; outras vezes ficava aborrecida, triste, sem apetite; apareciam-lhe nevralgias, acompanhadas de grande sobreexcitação nervosa. Então, qualquer objeto ou qualquer fato repugnante indispunha-a de um modo singular; não podia ver sanguessugas ,rãs, morcegos ,aranhas; o movimento vermicular de certos répteis causava-lhe arrepios de febre; se à noite não estando acompanhada, encontrava um gato em qualquer parte da casa, tinha um choque elétrico, perfeitamente elétrico, e não podia mais dormir tão cedo.
Uma madrugada, em que a tia foi acometida de cólicas horrorosas e sobressaltou a família com os seus gritos, Magdá sofreu tamanho abalo que, durante dois dias, pareceu louca. Desde essa época principiou a sofrer de uma dores de cabeça, que lhe produziam no ato do crânio, que ora a impressão de uma pedra de gelo, ora a de um ferro em brasa.
Agora também o barulho lhe fazia mal aos nervos: ouvindo música desafinada, sentia-se logo inquieta e apreensiva; o mesmo fenômeno se dava com o aroma ativo de certas flores e de certos extratos: o sândalo, por exemplo, quebrantava-lhe o corpo; o perfume da magnólia enfreneziava-a; o almíscar produzia-lhe náuseas. Ainda outros cheiros a incomodavam: o fartum que se exala da terra quando chove depois de uma grande soalheira, o fedor do cavalo suado, o de certos remédios preparados com ópio, mercúrio, clorofórmio; tudo isto agora lhe fazia mal, porém de um modo tão vago, que ela muita vez sentia-se indisposta e não atinava porque.
Notava-se-lhe também certa alteração nos gostos com respeito à comida; preferia agora os alimentos fracos e muito adubados; tinha predileções esquisitas; voltava-se toda para a cozinha francesa; gostava mais de açúcar, mas queria o chá e o café bem amargos
As cartas de Fernando não a alteraram absolutamente; a primeira, entretanto, fora recebida com exclamações de contentamento. Ele dizia-se feliz e divertido, apoquentamento apenas pelas saudades da família. Magdá escrevia-lhe de irmã para irmão, afetando muita tranqüilidade, procurando fazer pilhéria, citando anedotas, dando-lhe notícias do Rio de Janeiro, falando em teatros e cantores.
E assinava sempre "Tua irmãzinha que te estremece — Madalena".
Decorreu uma no. O incidente romanesco do namoro entre os dois irmãos ia caindo no rol das puerilidades da infância; Magdá se lembrava dele com um criterioso sorriso de indulgência.
— Criancices! criancices!
Agora, no seu todo de senhora refeita, com as suas intransigências de dona de casa, com as suas preocupações de economia doméstica, ela estava a pedir um marido prático, um homem de boa posição, que lhe trouxesse tanto ou mais prestígio que o pai; mesmo porque este, ultimamente, e só por causa dela, havia-se alargado um pouco mais com aquelas festas e começava a sentir necessidade de apertar os cordéis da bolsa.
Não é brincadeira dar um baile por mês!
Foi essa a sua época mais fecunda em pretendentes; apareceram-lhe de todos os matizes, desde o pingue senador do império, até o escaveirado amanuense de secretaria; concorreram negociantes, capitalistas e doutores de vária espécie. Ela, porém, como se estivesse brincando a "Cortina de amor" em jogo de prendas, não entregou o lenço a nenhum. Não os repelia com denodo, antes tinha sempre para cada qual um sorriso amável; mas — repelia-os.
Todavia, de vez em quando, lhe vinham reações. — Precisava acabar com aquilo de uma vez, decidir-se por alguém. E fazia íntimos protestos de resolução, e empregava todos os esforços para se agradar deste ou daquele que lhe parecia preferível; mas na ocasião de dar o "Sim" hesitava, torcia todo o corpo, e afinal não se dispunha por ninguém.
Ah! Magdá sabia claramente que era preciso tomar uma resolução! bem parecia que o pai, coitado, já estava fazendo das fraquezas forças e morto por vê-la encaminhada; além disso, o Dr. Lobão, com aquela brutalidade que todos lhe perdoavam, como se ele fosse um privilégio, por mais de uma vez lhe dissera: "É preciso não passar dos vinte anos que depois quem tem de agüentar com as maçadas sou eu! compreende?"
Sim, ela compreendia, compreendia perfeitamente. — Mas por ventura teria culpa de estar solteira ainda? Que havia de fazer, se entre toda aquela gente, que o pai lhe metia pelos olhos, nenhum só homem lhe inspirava bastante confiança? — Não era uma questão de amor, era uma questão de não fazer asneira! Lá ilusões a esse respeito, isso não tinha; sabia de antemão que não encontraria nenhum amante extremoso e apaixonado; não sonhava nenhum herói de romance. — A época dessas tolices já lá se havia ido para sempre; sabia muito bem que o casamento naquelas condições, era uma questão de interesse de parte a parte, interesses positivos, nos quais o sentimento não tinha que intervir; sabia que no círculo hipócrita das suas relações todos os maridos eram mais ou menos ruins; que não havia um perfeitamente bom. — De acordo! mas queria dos males o menor!
Casava-se, pois não! estava disposta a isso, e até compreendia e sentia melhor que ninguém o quanto precisava, por conveniência mesmo da sua própria saúde, arrancar-se daquele estado de solteira que já se ia prolongando por demais. Estava disposta a casar, que dúvida! Mas também não queria fazer alguma irreparável doidice, que tivesse de amargar em todo o resto da sua vida... Nem se julgava nenhuma criança, para não saber o que lhe convinha e o que não lhe convinha! Enfim, a sua intenção era, como se diz em gíria de boa sociedade: "Casar bem".