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O HOMEM

- Ah! disse, e olhou em torno de si, procurando reconhecer o sítio da quimérica felicidade.

Sorriu logo, satisfeita: era o mesmo lugar em que na véspera havia pegado no sono acalentada pelo amante. - Era, que dúvida! - lá estavam as mesmas árvores, agora tranqüilas e confortadas; as mesmas paineiras sussurrantes, o inalterável regato de águas diamantinas em que se destacavam os nenúfares, formando pequenas ilhas cor de esmeralda e guarnecidas de grandes flores vermelhas e brancas. E, como para se certificar de que o seu amado ainda era também o mesmo, pôs-se a tatear-lhe a musculatura dos braços e do peito.

— Era ele mesmo! Era! Nem outro possuía aquela rijeza de carnes junto àquela maciez de pele.

Apalpou-o todo. Depois, como se ainda não estivesse bem convencida, esfregou o rosto nas barbas dele, meteu os dedos por entre os anéis do seu cabelo, cheirou-lhe a boca.

— Era! Era o mesmo! cheirava a murta.

E beijou-o.

Olha, falou o moço. — Enquanto dormias tu, andei por aí colhendo estas frutas. Deves sentir fome.

- E' verdade, respondeu Magdá. — Tenho uma fome enorme. Há muito tempo que não como.

E ergueu-se a meio para o banquete.

- Vê como são boas... observou o outro, trincando um cajá e levando-lhe à boca o pedaço que tinha entre dentes.

Ela comeu e pediu outro bocado, mas queria assim mesmo - de boca para boca.

— Como é bom! Como é bom! repetia batendo palmas.

— Estes, que estão picados de passarinho, são os mais doces. Olha! experimenta.

Ela afinal deitou-se no colo dele, para comer à moda das crianças. O rapaz escolhia os melhores frutos, mordia-os primeiro e dividia o pedaço com ela, ambos a rirem-se muito desta brincadeira.

— Mais! mais!

Ele mostrou uma grande manga.

— Oh! Que bela! exclamou a filha do Conselheiro, tomando em cheio nas mãozinhas a imensa manga que o companheiro lhe apresentava. E, farta de admirá-la, lembrou com um repente

— Vamos chupá-la os dois juntos?...

— Como?

— Deita-te aqui no chão, ao meu lado. Assim!

E, uma vez deitados, começaram, com o rosto muito unidos, a chuchurrear a manga, como se mamassem ao mesmo tempo por uma só teta. Magdá sentia com isto uma volúpia indefinível; de vez cm quando despregava os lábios da fruta, para poder olhar o amigo, soltava uma risadinha e continuava a mamar. Quando se sentiram satisfeitos, ele foi buscar água na parra de um tinhorão e deu de beber à companheira.

— Bem, disse depois. — Agora vamos dar um passeio.

— Sim, mas eu não posso ir muito longe. Sinto-me ainda tão fraca...

— Eu te carregarei, quando não puderes andar. Encosta-te a mim.

Magdá ergueu-se e pôs-se a caminhar vagarosamente ao lado do amante, toda reclinada sobre ele; os braços na cintura um do outro. Ouviam-se então cantar as aves e as plantas inclinavam-se com ternura e respeito por onde seguia o amoroso par; a folhagem tinha sorrisos; as boninas beijavam-lhes os pés.

Um cheiro delicado de baunilha enriquecia o ar.

Chegaram à beira do regato e Magdá mirou-se nágua com faceirice de noiva. Ao seu lado refletia-se a robusta figura do moço.

— Dá-me algumas flores, pediu ela. — Quero enfeitar-me para te parecer mais bonita. Estou tão magra!...

Ele afastou-se e voltou logo com um braçado de rosas, magnólias, jasmins e manacás. O ambiente trescalou de aromas. Magdâ soltou o cabelo e depois, a rever-se na própria imagem refletida a seus pés, fez novas tranças em que ia intercalando flores com o mimoso capricho de quem faz uma obra d'arte. O moço olhava-a sorrindo.

— Vaidosa... murmurou.

— Ingrato! E' para te agradar... E ela, quando deu por pronto o seu toucado, foi colocar-se defronte do amigo para receber os afagos da aprovação.

— Senta-te aqui, disse este, em seguida a um beijo.

A amante obedeceu; ele deitou-se na relva e pousou a cabeça no colo de Magdá, que começou a afagar-lhe os cabelos, segredando ternuras, vergando-se sobre o seu rosto, para alcançar-lhe os lábios. Estiveram assim um tempo infinito; alheios e esquecidos de tudo, bebendo pela boca um do outro o vinho da sua animalidade, embriagando-se de camaradagem, aos poucos, voluptuosamente; até que, ébrios de todo, se deixaram rolar ao chão e se quedaram abraçados, mudos, inconscientes, quase mortos na deliciosa prostração do coma venéreo.

Só deram por si ao declinar do dia. Continuaram o passeio.

— Que ruído é este? perguntou Magdá, parando em certa altura da floresta.

— Não tenhas medo, meu amor, é o trapejar de uma cascata que fica do outro lado da montanha. Havemos de lá ir um dia.

— Espera! Parece que vai chover... Senti uma gota dágua cair-me na face.

— Vai, sim, mas não faz mal; nós nos recolhemos à gruta.

— Que gruta?

— Verás. Fica muito perto daqui. Vamos.

Principiava com efeito a chuviscar. Ele tomou Magdá nos braços e correu para a gruta, que em verdade, era muito perto dali. Consistia numa grande rocha negra, toda encipoada de heras e parasitas com uma pequena fenda que mal dava passagem a uma só pessoa de cada vez. O cavoqueiro transpôs a brecha e em seguida fez entrar a companheira.

— Agora pôde lá fora chover a cântaros! Declarou — estamos perfeitamente agasalhados.

Magdá olhou em torno de si na meia escuridão da caverna, e notou que se achava num lugar muito aprazível, de atmosfera de alcova. Os seus pés eram embebidos em armelina e doce alfombra; suas mãos tocavam nas paredes uma penugem macia que lembrava a pluma do algodão. Era um ninho, um verdadeiro ninho de musgo cheiroso, aveludado e tépido.

O rapaz deixou-se cair em cheio sobre o tapete de relva, arrastando Magdá na queda. E, fechando-a nos seus braços, disse-lhe com o rosto unido ao dela:

— Não ouves lá fora um arrulhar mavioso e triste?...

— Sim, porque ?

— É o urú que anuncia a noite. Vamos dormir.

E ela sonhou que adormecia, justamente na ocasião em que acordava na vida real. O gemebundo piar das rolas desdobrou-se na monótona e pesarosa cantilena dos trabalhadores da pedreira.

XIII

— Terceiro sonho ~... Era já o terceiro sonho!... cismava Magdá, muito impressionada e ainda recolhida na sua cama de erable com esculturas de mogno. — Três sonhos seguidos, de noite inteira, com aquele miserável trabalhador... E não poder reagir contra semelhante violência!... Não dispor de um único recurso contra esse misterioso tirano que a constrangia àquela convivência extravagante, àquele amor ignóbil por um ente, que ela na vida real malqueria e desprezava. Terrível cativeiro! Não poder dizer à sua imaginação: "Acomoda-te, demônio! Sossega!" Isto com quem não estava habituada a repetir uma ordem; com ela, que não fora nunca desatendida nos menores caprichos, como nas maiores imposições!... Que desespero — ter de submeter-se ao jugo da sua carne! Que inferno — sentir-se todos os dias ao acordar humilhada por si mesma, indignada contra os seus próprios sentidos.

E se aquilo desse para continuar?... Sim, como havia de ser, se nunca mais terminasse aquela nova existência que ela agora vivia com o cavoqueiro durante a noite?.... Oh, antes a morte! antes a morte!

Justina abriu o cortinado da cama, para saber se a senhora queria já o chocolate.

— Que horas são!

— Meio-dia.

— Não consigo acordar mais cedo...

E notava agora na boca um gosto acre e doce ao mesmo tempo, muito enjoativo, sabendo a sangue.

— Minh'ama sente alguma coisa? perguntou a criada, reparando que Magdá estalava com insistência a língua contra o céu da boca.

— Um gosto esquisito.

— E' do estômago! Não tenho dito a vosmecê que não é bom estar paparicando guloseimas todo o dia?... Como não! Está aí!

— Mas eu ontem nada comi que me pudesse fazer mal. Tomei um caldo e bebi um cálice de vinho; e à tarde... Ah! talvez seja do xarope... diz o doutor que leva muita estriquinina...

— Deve ser, como não? Estes remédios de hoje são todos uns venenos, Deus me perdoe!

— Prepara-me água para lavar a boca.

— Está tudo pronto.

Magdá ergueu-se da cama.

E, enquanto se preparava: — Ó senhores! que frenesi me mete aquilo!

— Aquilo que, minh'ama?

— Aquela maldita cantilena!

— Ah! Os homens da pedreira! Coitados! Diz que assim não sentem tanto o peso do serviço... Aquilo é um trabalho muito bruto! Vosmecê não imagina... Ainda outro dia...

— Sim, sim! Meu pai já saiu?

— Ainda não, senhora, e já veio saber como minh'ama passou a noite.

— 'Stá bem.

— ... Ainda outro dia, o Luiz...

— Que Luiz... ?

— Esse rapaz que está para casar com minha irmã, com a Rosinha; aquele que desceu minh'ama da pedreira!... O Luiz, vosmecê conhece, como não ?

— Sim, sim! Não quero saber disso... — Dá-me o chocolate e o remédio.

Justina precipitou-se logo para fora da alcova, e Magdá, contra a sua vontade repetia mentalmente: "O Luiz, esse rapaz que está para casar com Rosinha..." Mas a fisionomia não se lhe alterou e, como era do seu costume ao levantar-se do leito, tomou um espelhinho de mão e pôs-se a mirar de perto as feições. Achou-se extremamente abatida e muito descorada; em compensação sentia-se agora de melhor humor e até disposta a sair do quarto. O diabo era aquele maldito gosto de sangue que lhe não deixava a boca. Bebeu dois tragos de chocolate, rejeitou o frasco do xarope, e em seguida desceu ao primeiro andar, mais animada que nos outros dias.

O pai fez um espalhafato quando a viu.

— Assim é que ele queria!

E beijou-a na testa. — Assim é que Magdá devia fazer sempre! Hoje até, acrescentou risonho e afagando-lhe o queixo, bem podias dar um passeio comigo, hein? Mando buscar o carro? Que dizes?

— Onde o passeio?

— Onde quiseres; em qualquer parte. Está dito?

Ela aceitou, com grande contentamento do Conselheiro; e a surpresa deste subiu ao zênite quando viu a filha ordenar ao copeiro que lhe servisse um pouco dum roast-beef que estava sobre a mesa.

— Bravíssimo! Bravíssimo

Magdá, porém, logo que percebeu sangue no assado, repeliu o prato, a estalar a língua; mas exigiu que lhe dessem sardinhas de Nantes e comeu depois meia costeleta de carneiro, um pouco de pão, queijo com mostarda, um gole de vinho e ainda tomou uma chávena de chá preto. E não sentiu náuseas.

O pai ficou louco de contente.

— O xarope está produzindo efeito!... raciocinou ele, esfregando as mãos.

Ela pôs um vestido de cor, o que havia muito tempo não fazia; e daí a pouco embarcava no carro com o Conselheiro.

Mandou tocar para o lado da cidade. — Ah! Estava farta de árvores e de florestas; agora precisava ver casas, ruas com gente, movimento de povo; para deserto bastava-lhe o paraíso dos seus sonhos!

Durante o caminho mostrou-se de magnífica disposição, conversou bastante, chegou a rir mais de uma vez. Ao passar pelo Campo de Santana apeteceu-lhe entrar no jardim. O carro ficou à espera defronte da Estação de Bombeiros.

Eram três horas da tarde quando penetraram no parque. Fazia calor; a areia dos caminhos estava quente; os lagos reluziam e os côncavos tabuleiros de grama, que dão vontade à gente de rolar por eles, tinham reflexos de esmeralda nos pontos em que lhes batia o sol; os patos e os gansos amoitavam-se nas touceiras de verdura, à beira dágua, procurando sombra; a mole compacta dos crotons parecia formada de incontáveis retalhozinhos de seda de várias cores; os gordos cactos e as bromélias cintilavam como se fossem de aço polido. Mas toda esta natureza simétrica, medida como que metrificada e até rimada, parecia mesquinha em confronto com as luxuriantes paisagens, que Magdá sonhara naquelas últimas noites. Todavia, nem por isso deixou de impressioná-la, trazendo-lhe ao espírito recordações vexativas; por mais de uma vez sentiu a moça subir4he o sangue às faces, à maneira do seu delito; mas não falou em retirar-se; apenas propôs ao pai que descansassem um pouco.

O Conselheiro levou-a até à cascata. Aí estava com efeito muito mais agradável; fazia inteira sombra, e a água, que caía lá do alto, esfarelando-se contra os pedregulhos artificiais, refrescava o ar e punha-lhe um tom úmido de beira de praia. Magdá ficou um instante à entrada da gruta, apoiada na corrente da ponte, entretida a olhar os peixinhos vermelhos que nadavam em cardumes por entre as ilhotas de pedra. O velho esperava ao lado, em silêncio, sem nenhuma expressão na fisionomia, com uma paciência de pai; ao penetrarem na gruta, ele percebeu que o braço da filha tremia.

— Sentes alguma coisa?...

— Não. E' que isto escorrega tanto...

Lá dentro havia um casal que se retirou com a chegada deles, conversando em voz baixa e afetando grande interesse na conversa. S. Ex. teve um gesto largo de quem admira; Magdá olhou indiferentemente o teto de cimento, as grossas estalactites pingando sobre as estalagmites com um aprazível ruído de noite de inverno. A umidade da gruta fez-lhe sede; o Conselheiro procurou uma bica e descobriu afinal uma caneca pendurada a um canto, donde jorravam goteiras mais grossas.

— Eu bebo aí mesmo. disse Magdá, correndo para ele e arrepanhando as saias, porque o chão era nesse lugar muito encharcado. O Conselheiro notou a impropriedade daquelas estalactites numa rocha que fingia ser de granito; Magdá não prestou nota à observação científica do pai e enfiou por um corredor à esquerda. Foi dar lá em cima; assentou-se cansada no rebordo onde está a entrada para a caixa dágua. O velho ficou de pé.

— Aqui está bom, não achas? perguntou.

Ela não deu resposta. Olhava. A voz de um sujeito, que tinha subida pelo lado oposto, espantou-a; a nervosa soltou um pequenino grito e ficou ligeiramente trêmula.

— E' melhor descermos... aconselhou S. Ex., vendo que dois vagabundos se aproximavam com as suas calças de boca muito larga, a cabeleira maior que a aba do chapéu e grossos porretes na mão.

Voltaram pelos fundos da cascata. Um bêbado dormia aí, estendido por terra, meio descomposto, uma garrafa ao lado. O Conselheiro fez um trejeito de contrariedade e seguiu mais apressado com a filha. Quando se acharam fora da gruta, o sol declinava já e as ruas do parque enchiam-se de sombra. Corria então um fresco agradável. Anilavam-se as verduras mais distantes; desfolhavam-se os heliotrópios ao tépido soprar da tarde; as amendoeiras desfloreciam, recamando o tapete verde de pontos amarelos. Havia uma surda transformação nas plantas; reviviam as flores amigas da noite e começavam a murchar os miosótis e as papoulas; as árvores sacudiam-se, rejubilavam, aliviadas do mal que lhes fazia tanto sol; ouviam-se nas moitas suspiros de desabafo. Os patos e os gansos deslizavam agora vitoriosamente, rasgando com o peito a brunida superfície dos lagos; chilreavam pássaros, saracuras assustadas cortavam de vez em quando o caminho, olhando para os lados; ouviam-se grasnar marrecos e frangos dágua. Tudo estava mais satisfeito. Uma nuvem de gaivotas pairava sobre os tabuleiros verdes, debicando na relva; as cambachilras saltitavam por toda a parte. Via-se aparecer ao longe, por detrás dos horizontes de folhagem, a agulha da igreja de S. Gonçalo, destacando-se do límpido azul do céu toda esmaltada pelo sol das cinco e meia.

Principiava a chegar gente; surgiam homens de palito na boca, o colete desabotoado sobre o ventre; calcinhas brancas, curtas e mal feitas, mostrando botas empoeiradas; gorduras feias dos climas abrasados; hidroceles obscenas; chapéus altos ensalitrados de suor. Mulheres da Cidade Nova, com umas caras reluzentes, vermelhas como se acabassem de ser esbofeteadas; portuguesas monstruosas, com umas ancas que pediam palmadas, os pés turgidos cm sapatos de pano preto sem feitio. "Uma gente impossível!" Magdá via-os a todos, um por um, enjoada, com o narizinho torcido e cheia de uma secreta vontade de chicoteá-los.

Deteve-se para contemplar o grupo muito pulha de L. Despret, logo à direita de quem sai da gruta; um homem, auxiliado por um cão, a lutar com um tigre; mas o homem corta o peito da fera como se estivesse talhando pão-de-ló, e o cão raspa com os dentes a anca da mesma, como se tentasse morder um animal de bronze. Não obstante, Magdá parou defronte da escultura e parecia interessada por ela. Aquele homem de músculos atléticos prendia-lhe a atenção. Porque? — Sabia lá! O Conselheiro, intimamente estranhado pela importância que a filha dava a semelhante obra, falou-lhe no museu do Louvre, nos belos mármores que os dois mais de uma vez apreciaram juntos. Ela não ouviu e, depois de muito contemplar o lutador, disse:

— Não há no mundo um homem assim como este, hein, papai?

_ Assim como, minha filha?

-- Assim forte, musculoso...

-- Ah! de certo que não...

-- Mas já houve...

-- Ora, noutros tempos, quando os guerreiros carregavam ao corpo armaduras de dez arrobas.

-- E as mulheres dessa época? Deviam ser também bastante vigorosas...

-- Com certeza! Pois se uns descendiam dos outros...

Nisto passou perto deles um bêbado. muito esbodegado, a cambalear cantarolando; a camisa esfobada no estômago, o chapéu à ré; os punhos sujos a saírem-lhe da manga do paletó, engolindo-lhe as mão. O Conselheiro desviou-se discretamente com a filha para o deixar passar; o borracho parou um instante, cumprimentou-os com toda a cerimônia, quase sem poder abrir os olhos, e lá se foi aos bordos, empinando a barriga para a frente. Magdá soltou uma risada tão gostosa, que abismou S. Ex.

— Definitivamente aquele era o dia dos prodígios... pensou o extremoso pai — E qual não seria o seu espanto quando ouviu a rapariga soltar a segunda e a terceira, a quarta e, enfim, uma crescente escala de gargalhadas contínuas.

— Com efeito!... disse. Muita graça achaste tu naquele tipo!

Ela não podia responder; o riso sufocava-a

-- Está bom, minha filha, não vá isso te fazer mal...

Magdá procurava conter a hilaridade, mas não conseguia. Os transeuntes olhavam-na tomados de grosseira curiosidade; o Conselheiro, meio vexado por ver que ela chamava a atenção de todos, repetia-lhe baixinho:

-- Está bom... está bom...

Foi um capadócio quem afinal a fez calar; um que passou de súcia com outros, medindo-a de alto a baixo e que, depois de mirá-la muito, começou por caçoada a remedar-lhe o riso. Magdá ficou furiosa. Subiu-lhe sangue à cabeça e teve ímpetos de... nem ela sabia de que!... fazer um disparate! tomar a bengala do pai e quebrá-la na cara do tal sujeito.

— Atrevido! resmungava entre dentes cerrados, afastando-se com o Conselheiro.

E, apesar dos esforços que este empregou para distraí-la, o resto do passeio foi todo feito sob a impressão daquele incidente.

— Não penses mais nisso... insistia o velho, quando Magdá, já dentro do carro, se referia ao fato pela milésima vez.

Tocaram para casa; ela em toda a viagem não falou noutra coisa. Vinha-lhe agora um a inhabitual vontade de brigar, de fazer escândalo. Esteve quase a pedir ao pai que voltasse e fosse à procura do malcriado até descobri-lo, para lhe pespegar duas bengaladas, mas bem fortes!

E jurava que, naquele momento, seria capaz de estrangular o maldito. Não parecia a mesma. Ela, que fora sempre tão inimiga de tudo em que transpirasse escândalo e barulho, sentia agora uma estranha sede de provocações, de desordens; já não era com o capadócio do jardim, mas com qualquer pessoa. Quando entrou em casa, porque a Justina não respondeu logo a' primeira pergunta que lhe fez, bradou trêmula:

— Você também é um estafermo!

— Estafermo?

— Não me replique!

— Eu não estou replicando...

— Rua!

— Vosmecê despede-me?...

— Rua! Não a quero aqui nem mais um instante!

— Mas, minh'ama...

— Rua! Não ouviu?

O Conselheiro interveio:

— Então, minha filha, não te mortifiques

— Pois meu pai não vê como esta mulher me provoca, só pelo gostinho de me pôr nervosa?

— Tu parecias gostar tanto dela.

— Nunca! Não a posso olhar! Tenho-lhe ódio!

Justina, coitada, ia tentar a sua defesa, já banhada cm lágrimas, quando o pai de Magdá lhe fez sinal de que se afastasse; ao passo que a histérica, falando sozinha e praguejando contra tudo e contra todos, dirigia-se furiosa para o quarto.

Uma súcia! Todos uma súcia, resmungava, enterrando as unhas na palma da mão. E fechou-se por dentro com arremesso, atirando-se à cama, desesperada e arquejante.

Justina enxugava as lágrimas no avental, dando guinadas com todo o corpo a cada suspirado soluço que lhe vinha.

— Descanse que você não irá embora, disse-lhe o amo. — Quando a Sra. D. Madalena chamar por alguém, apresente-se e não se mostre ressentida com o que se deu. Aquilo passa! É da moléstia! Vá!

— Uma coisa assim!... lamuriou a criada. — Eu que tanto faço por agradá-la.

— 'Stá bem, 'stá bem! já lhe disse que você não será despedida.

— Não é por nada, mas é pela aquela que a gente toma às pessoas!. . Eu estava já afeita com minh'ama, e ter de deixá-la assim de um momento p'ra outro, sem lhe ter dado motivo... dói, como não dói?.

— Mas vá, vá sossegada, que não haverá novidade.

Justina afastou-se chorando a valer.

O Dr. Lobão chegava nesse momento e o Conselheiro passou a narrar-lhe as últimas esquisitices da doente. O médico escutou-o calado, fazendo bico com a boca sem lábios; olhando por cima dos óculos, com as sobrancelhas no meio da testa, arqueadas como duas sanguessugas.

— Ela tem tido as funç5es mensais com regularidade?... perguntou no fim da sua concentração. E rosnou, depois da resposta: — É o diabo! é o diabo!... Preciso examiná-la de novo! E lembrar-me de que tudo isto se teria evitado com tão pouco sacrifício para todos nós! Pensam que é brincadeira contrariar a natureza! Agora — o médico que a agüente!

Quando o doutor saiu, já a filha do Conselheiro dormia a sono solto e sonhava: escusado é dizer com quem.

XIV

— Magdá, Magdá, repara que já é dia! Aqui não é permitido dormir assim até tão tarde! Vem ver despontar o sol. A passarada já está toda de fora, não ouves? Não há mais um só casal nos ninhos! Levanta-te! Sua Majestade aí chega, esfogueado da viagem, pedindo a cada corola uma gota de orvalho para beber e acendendo em cada gota de sangue uma centelha de amor!

A filha do Conselheiro abriu os olhos — sonhando. A primeira palavra que lhe escapou dos lábios foi o nome do trabalhador da pedreira.

— Bravo! exclamou este apanhando-lhe a boca num beijo. — Até que enfim te ouço dizer o meu nome!

— É que o ignorava...

— E como o sabes tu agora?

— Sonhei.

— Ah! sonhaste comigo?...

— Todo tempo que levei a dormir.

— E que sonhaste, meu amor ?

— Que estava ainda na minha primitiva existência, no mundo que troquei por este, e do qual não tenho saudades, a não ser por meu pai.

— E então?

— Via-te a todo o instante; levava-te comigo no pensamento para toda a parte; vi-te até em estátua, lutando com um tigre...

— Fantasias de sonho...

— Sonhei com tudo isto que nos cerca neste nosso éden; sonhei com esta gruta, com estas árvores, com estes lagos e com esta deliciosa luz sanguínea que me aviventa.

— Sim, sim, mas vai tratando de deixar a cama, que não havemos de ficar aqui metidos o dia inteiro. Hoje quero levar-te ao vale, onde passa o rio que nos separa da ilha do Segredo.

— Ilha do Segredo? ~ Que vem a ser isso?

— Tu verás... É encantadora.

— Muito longe daqui?

— Não, e se fosse? Não estou eu a teu lado para te carregar?

— É que me sinto tão fraca, tão pobre de coragem... tão magra!...

— Lá encontrarás novas forças. Vamos!

Ela ergueu-se pela mão do companheiro, e saíram da gruta.

Repontava o dia. Tudo se enchia de vida: as abelhas saíram para as suas obrigações; borboletas peralteavam já pelo ar, em troça, mexendo com as flores; a pequenada dos ninhos reclamava o almoço, e os pais andavam por fora, a tratar da vida, aflitos, preocupados, mariscando na umidade da terra o pão-nosso da família. O sol erguia-se como um patrão madrugador e ativo, acordando toda a sua gente e chicoteando a golpes de luz a mata inteira, folha por folha, para não deixar nenhum preguiçoso dormindo acoitado pela sombra. Uma dourada nuvem de lavandeiras doudejava sobre os lagos, picando a água com a cauda, de instante a instante, num crepitar frenético de asas.

— Então perguntou Luiz, de braço passado na cintura de Magdá. — Não é melhor estarmos aqui no que metidos lã na gruta?

— Certamente, meu amigo.

— Ampara-te pois ao meu corpo e deixa o passeio por minha conta.

Puseram-se a andar por entre a chilreada dos caminhos. De vez em quando paravam para colher um fruto, que dividiam entre si com a boca.

Andaram muito. Quando a moça chegou ao vale estava prostrada de cansaço. O sol ia já bem alto no horizonte.

— Descansemos aqui à sombra deste tamarindeiro, para irmos depois até ao rio, propôs Luiz. E, enquanto Magdá repousava no chão, ele foi apanhar um coco e trouxe-lho já em estado de se lhe sorver o saboroso leite refrigerante. Quando a viu de todo acalmada, principiou a descalçar-lhe os sapatinhos de cetim.

— Que fazes!

Vou despir-te.

E tirou-lhe as meias.

— Despir-me, para que? ~ perguntou a filha do Conselheiro com um retraimento de pudor.

— Para atravessarmos o rio.

E foi logo lhe desabotoando o colo. Magdá não se animou a dizer que não, mas fez-se vermelha e abaixou os olhos. Luiz, todo vergado sobre ela, ajudou-lhe a desenfiar as mangas do corpinho e sacou-o fora. Desacolchetou-lhe depois as saias na cintura e arrepanhou-as para debaixo das pernas dela.

À moça levou as mãos às roupas, assustada, olhando com receio para os lados, como se quisesse, antes de despi-las, certificar-se bem de que não era vista senão pelo seu amante. Este compreendeu o gesto e disse-lhe sorrindo e tocando-lhe com os dedos no alvo cetim da espádua:

— Não tenhas medo... Aqui não há mais ninguém além de nós! Podemos ficar à nossa plena vontade, fazer o que bem quisermos; rolar nus e abraçados por estes tabuleiros de relva; entregar-nos a todos os delírios do amor; enlouquecer de gozo! Só Deus nos espreita, e Deus foi quem te fez para mim, para que eu te goze e te fecunde, minha flor! Ele observa-nos satisfeito, lá de muito alto, espiando pelas estrelas e sorrindo a cada beijo que damos! Quando nascer o fruto do teu ventre, ele descerá logo num raio de luz, e virá abrir na boca de nosso filhinho o seu primeiro riso e beber-lhe dos olhos a primeira lágrima. É com esta lágrima e com esse riso das criancinhas que o bom velho fabrica todos os dias o mel e o perfume das flores, o canto dos pássaros e o azul dos céus.

E Luiz continuou a despi-la.

Magdá cruzou os braços sobre os peitos — ele acabava de lhe arrancar afinal a camisa — e fechou os olhos, toda vexada e retraída. Mas depois, sentindo nas carnes o olhar ardente que a queimava, porque o moço permanecia a contemplá-la, embevecido e mudo, torceu-se logo sobre o quadril esquerdo, repuxando para esconder a sua mimosa nudez as largas parras de um tinhorão que havia junto.

Vergonhosa!... balbuciou o amante, ajoelhando-se aos pés dela.

E acrescentou em voz alterada, procurando alcançar. com os lábios o rosto que Magdá se empenhava em esconder: — Não deves ter desses escrúpulos comigo esposa de minha alma!... Acaso não sou todo teu! não és toda minha?... Porque escondes o semblante! porque abaixas os olhos? Fita-os antes em mim e deixa-me beber o mel dos teus lábios! Deixa-me abraçar-te bem! assim! toda inteira, toda nua, que eu sinta na minha carne, a carne do teu corpo! Cinge-me nos teus peitos! Aperta-me! Mais! mais ainda Magdá — um beijo... dá-me um bei... Ah!

— Tu me matas de amor! soluçou ela.

E, por entre o suspirado resfolegar dos dois, estalejava o seco farfalhar das folhas caídas.

Seguiram depois para o rio. Ele levou-a de colo, porque Magdá não podia andar descalça; só a largou à margem dâgua.

— Mas eu não sei nadar... considerou ela, assustada.

— Sabes sim; todos sabem nadar. A questão é não ter medo.

— Ah! Eu tenho medo!...

— Irás comigo. Espera.

Luiz entrou no rio e disse à companheira que lhe passasse os braços em volta do pescoço. Magdá obedeceu.

— Ah! Não me soltes, hein?...

— Não tens confiança em mim?...

— Ui, ui, ui, meu Deus!

— Então!

— Ai, minha Nossa Senhora! É agora!

— Medrosa! Não vês como vamos tão bem ...

— Voltemos para terra! Voltemos!

— Olha que estás me apertando a garganta...

— Aqui já é muito fundo!... É melhor voltar-mos.

— Não sejas criança...

— A ilha está muito longe ainda?...

— Não a vês defronte de ti?

— É verdade! Oh! E como é linda!...

Calaram-se por instantes.

— Ainda tens medo? perguntou depois o moço.

— Não. Ela agora estava até gozando daquela excursão.

— Não te dizia?...

— E tu, não te sentes cansado?

— Qual o que!

Parecia mesmo não cansar; nadava como um cisne, quase sem se lhe perceberem os movimentos, de tão suaves que eram. E a outra perdera afinal inteiramente o medo, e, toda estendida à flor das águas, com os cabelos derramados pelo rosto e pelos ombros, lá ia flutuando segura no amante, mais branca e leve que uma pena de gaivota arrastada pela corrente.

— Então?... consultou o rapaz, tomando vau à margem da ilha e passando o braço em volta de Magdá.- Que me dizes do passeio?...

— Delicioso.

— Aqui podes andar por teu pé, que o chão é todo de areia fina; mas vamos primeiro assentar-nos debaixo daquelas juçareiras para repousarmos um instante. Tens fome?

— Não, respondeu a moça, contemplando a ilha.

Era esta encantadora com a sua praia argentina lavada em esmeralda. Daqui e dali surgiam dentre o salivar das espumas pequenos rochedos reverdecidos de musgo aquático, onde garças e guarás mariscavam tranqüilamente. Um palmeiral sem fim nascia quase á beira dágua e, pouco a pouco, à medida que se entranhava pela terra, fazia-se mais compacto, até se fechar de todo com murmurosa cúpula de verdura suspensa por milhões de colunas. Mundos de parasitas serpenteavam em todas as direções, já suspensas e pendentes, embaladas pelo vento; já dependuradas em arco, formando grinaldas; já grimpando encaracoladas pelos troncos e alastrando em cima, como se quisessem quebrar a interminável noite daquele céu de folhas com um infinito de estrelas de todas as cores.

Magdá, ao transpor o assombrado átrio da floresta, deteve-se para fazer notar ao companheiro o perfume ativo que se respirava ali; um cheiro como o da magnólia, agudo e penetrante, que ia direito ao cérebro com sutil impressão de frio.

— Vem dessas florinhas que vês aqui nos espiando de todos os lados; essas que ora são cor de rosa, ora avermelhadas, ora cor de laranja e ora cor de sangue. É uma trepadeira; não há canto da ilha em que não as encontres. Mas não toques em nenhuma delas, porque, se colhesses alguma, nunca mais poderíamos sair daqui.

— Ora essa! Porque?

— Não sei, é segredo! Foi Deus que assim o quis... Repara: não se descobre uma só dessas flores pelo chão, e também a gente não as vê nascer; quando vão murchando mudam de cor e revivem.

— E não dão fruto!

— Nunca.

— É esquisito.

— E perigoso...

— Mas como é que elas prendem a quem lhes toca?...

— Pois se é um segredo, como queres tu que eu saiba?...

— E nunca tiveste desejos de descobri-lo!

— Para que! Sou perfeitamente feliz sem isso...

— Não és curioso.

— Sou, mas tenho medo de tornar-se desgraçado.

Nesta conversa haviam chegado à fralda de um oiteiro coberto de murta e empenachado por um frondoso bosque de bambús.

- Este morro divide a ilha em duas partes, explicou Luiz. — Queres subir?

Magdá consentiu, posto se visse já bastante fatigada e fraca; tanto que, do meio para o fim da viagem, foi preciso que o rapaz a carregasse. Sentia-se quase desfalecida.

— Meu Deus, como estás pálida! disse ele, pousando-a à sombra dos bambús. — Vou busear4e um pouco dágua ali à fonte. Espera um instante; eu volto já.

- Não, não! gemeu a moça, segurando-o com ambas as mãos. — Não te afastes de mim! Não é de água que eu preciso, é de um pouco de vida! Sinto fugirem-me as últimas forças! Eu preciso de sangue.

E fazia-se cor de cera, e fechava os olhos, e entreabria os lábios, como um orfãozinho abandonado que morre à míngua do leite materno.

Cortava o coração

— Magdá! meu amor! minha vida! exclamou Luiz, tomando-a nos braços. — Não desfaleças! Não fiques assim! Desperta!

Ela soergueu as pálpebras, e murmurou baixinho, quase imperceptivelmente:

— Sangue! sangue! sangue, senão eu morro!...

— Ah! fez o moço com vislumbre. E sem sair donde estava, quebrou um espinho de palmeira e com ele picou uma artéria do braço. — Toma! disse, apresentando à amante a gota vermelha que havia orvalhado na brancura da sua carne. — Bebe!

Magdá precipitou-se avidamente sobre ela e chupou-a com volúpia. Não se ergueu logo; continuou a sugar a veia, conchegando-se mais ao amigo, agarrando-se-lhe ao corpo, toda grudada nele, apertando os olhos, dilatando os poros, arfando, suspirando desafogadamente pelas narinas, como se matasse uma velha sede devoradora.

Luiz, sem uma palavra, ouvia-lhe os estalinhos da língua e o gluglutar sôfrego de criancinha gulosa pela mama.

Ah! respirou enfim a filha do Conselheiro, desprendendo os lábios do braço dele e sorrindo satisfeita e vitoriosa. — Agora sim! posso viver!

O amante encarou-a e recuou, não podendo conter a sua surpresa e a sua admiração. Magdá readquiria por encanto a frescura, a beleza e a saúde, que havia perdido nos últimos anos. Reconstruía-se, revivificava-se à semelhança das florinhas feiticeiras da ilha.

Ergueu-se triunfante.

As suas faces eram de novo duas rosas que atraíam beijos, como o matiz das flores atrai sobre a sua corola o inseto portador do pólen; os olhos rebrilhavam-lhe já com a sedutora expressão primitiva. Os seus lábios trêmulos recuperaram logo o perdido sorriso dos tempos passados; a garganta carneou-se, reconquistando as linhas macias, as doces flexibilidades da pele sã; as curvas do desnalgado quadril retomaram enérgicas ondulações; os seios empinaram; as coxas enrijaram; e toda ela se retesou, se refez de músculos e nervos, num a súbita revisceração deslumbradora.

Luiz caiu-lhe aos pés, beijando-lhos com transporte.

— Como estás bela! Como estás bela! Abençoada gota de sangue que te dei!

Magdá sorriu, estendendo-lhe os braços, agora carnudos e torneados. E, logo que ele se levantou, cingiram-se ambos um contra o outro, num só arranco, em igualdade pletórica de ternura.

Passaram o resto da tarde à sombra dos bambús, celebrando a sua nova lua de mel com um opulentíssimo banquete de amor. Sentia-se já a aproximação da noite, quando resolveram abandonar a ilha.

Magdá quis, porém, antes de partir, lançar lá de cima um olhar de despedida sobre aquelas paragens encantadas. O companheiro levou-a ao ponto mais elevado do morro.

— Contempla os teus domínios! disse, desferindo no ar um círculo com a mão aberta.

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