Ela deixou cair o seu olhar de rainha sobre a esplêndida natureza virgem que a cercava. Bosques e bosques acumulavam-se numa interminável aglomeracão de tons, em que entravam todas as tintas da mágica palheta do divino artista, dissolvidas em fogo, essa cor primordial que nenhum outro pintor possui. O horizonte ardia em chamas; o céu rasgava-se, deixando transbordar em jorros uma cascata de luz que dava ao menor objeto da terra o brilho de um metal precioso. As florestas cintilavam. Gigantescos paus-d'arco bracejavam por entre as árvores vizinhas para mostrar bem alto a sua coroa de ouro; mas as palmeiras não se deixavam vencer e reagiam vitoriosamente por entre a espessura da mata, agitando no ar o seu penacho indígena; a gameleira brava procurava erguer a cabeça engrinaldada de heras e parasitas; pinheiros seculares, cedros mais velhos que a religião, primeiras, angicos, perobas, todos os gigantes da selva, pelejavam para sobressair! Uma luta silenciosa e terrível! Viam-se púrpuras que se rompiam de cólera; cetros que se despedaçavam de inveja! As tímidas plantas escondiam-se de medo e os lírios retraíam-se, estremecidos e assustados, procurando ocultar a candura das suas urnas embalsamadas atrás de rasteiros tinhorões e discretas folhas de begônia. Entretanto, o indiferente rio, em preguiçosos torcicolos, rastreava lá em baixo, franjando de rendas de prata aquela imensa túnica de veludo verde-negro, que a montanha arrastava, estendendo-a sobranceiramente pelo vale. Afinal declinou a luta era a noite que vinha já, com os seus cabelos sempre molhados, a sacudi-os, orvalhando estrelas pelo espaço e apaziguando a terra debaixo das suas asas.
Ah! como Magdá amava agora tudo isso! Como estremecia aquela montanha em que vivera os seus primeiros dias com Luiz! Era lá a pátria da sua felicidade!
E ficou a cismar embevecida neste devaneio, revendo-se na sua fraqueza de então, quando ainda lhe não era permitido dar um passo sem o auxilio do amante. E veio-lhe uma grande saudade, uma forte vontade desensofrida de rever no mesmo instante aquele lugar querido, onde ela tanto padecera e gozara ao mesmo tempo! Ao seu lado, Luiz parecia tomado dos mesmos enlevos; e tão distraídos estavam ambos, que a moça, sem reparar, colhera uma das tais florinhas feiticeiras, e ele a deixara colher sem dar por isso.
Mal, porém, a flor se desprendeu da haste, um medonho estampido ecoou pelo espaço, deslocando o ar e abalando a terra. Magdá estremeceu, soltou um grito e viu, em menos de um segundo, o rio que cercava a ilha levantar-se com ímpeto e, enovelando-se, arrojar-se para cima das margens opostas e rebentar em pororocas, engolindo a terra. E a montanha, com a sua túnica real, e os monarcas da floresta, com os seus diademas cravejados de pedraria, e os prados com as suas cândidas boninas, e os vales com os seus lírios tímidos. tudo defronte dos seus olhos se convertera rapidamente num oceano sem fim, onde enorme sol vermelho e trôpego se atufava, arquejante, ensangüentando as águas.
E Magdá, vendo a ilha isolada no meio de tamanho mar, atirou-se ao chão, escabujando em gritos e soluços, e por alguns instantes perdeu de todo os sentidos.
Voltou a si chamada por uma voz meiga que lhe dizia:
— Magdá, minha filha! Valha-me Deus! Valha-me Deus! Até o demônio daquela pedreira havia de ficar defronte justamente aqui do quarto!.
E, reconhecendo a voz do Conselheiro, reconheceu também a da Justina. que exclamava:
— Pestes! Atacarem fogo à pedreira sem prevenir nada, sabendo que há aqui uma pobre doente neste estado! É maldade, como não ?
Magdá, quando abriu os olhos, percebeu que estava nos braços do pai.
— Ora graças! Ora graças, minha filha, que recuperas os sentidos!
De todos os seus sonhos este foi até aí o que a deixou mais vencida pela fadiga e pela vergonha. Duas horas depois de acordada, ainda permanecia na cama, a cismar, sem ânimo de se erguer. Aquele incidente da ilha, em que ela se via completamente nua, punha-lhe o espírito em dura revolta, contra a qual a desgraçada antejulgava que não encontraria consolações.
— Mas, pensava, que mal fizera a Deus para ser castigada daquela forma?.... Pois não bastavam já os seus padecimentos físicos, os seus desgostos e os seus tédios?... Porque e para que ia então o Criador descobrir com tamanha falta de coração aquele novo modo de tortura?... Atacá-la no que ela mais encarecia — atacá-la no seu pudor...! Não! antes morrer; antes mil vezes, do que suportar por mais tempo semelhante desvario dos sentidos!
Felizmente veio a reação; deliberou-se a abrir luta contra o sonho. E, para dar logo começo à campanha, resolveu passar a seguinte noite acordada.
— Minh'ama quer o seu chocolate? perguntou Justina pela terceira vez.
Magdá levantou-se afinal.
— Você porque se enfrasca deste modo em perfumes, sabendo que isso me faz mal?
— Eu, minha senhora?
— Então quem há de ser?
— Juro por esta luz que não pus nenhum cheiro no corpo.
— Veja então se há algum frasco de perfumaria por aí desarrolhado! Está rescendendo, não sente?
— Não, minh'ama, não sinto, respondeu a criada a fungar forte, como um animal que procura descobrir alguma coisa pelo faro. — Não sinto nada!...
— Que olfato tem você, benza-a Deus! Estou sufocada! Abra o diabo dessa porta, deixe entrar o ar!
Justina apressou-se a cumprir a ordem da senhora, mas o maldito cheiro continuava. E o mais estranho é que era aquele mesmo perfume agudo da ilha do Segredo; aquele perfume ativo que lhe penetrava no fundo do cérebro como agulhas de gelo.
— Veja se deixaram por aí algumas flores!... Sinto cheiro de magnólia!
Justina percorreu a alcova e os aposentos imediatos, fariscando ruidosamente.
Nada! Não encontrava nada de flores!
— Vá então lá em baixo saber o que é isto! Parece que estou numa fábrica de perfumarias!
A, criada afastou-se, e Magdá ficou a estalar a língua contra o céu da boca. Era ainda o terrível gosto de sangue que não a deixava.
— Oh! Quanta coisa desagradável, meu Deus!
Lembrou-se então da extravagante passagem da ilha, em que ela sugara o sangue do trabalhador. Vieram-lhe engulhos, muita tosse e acabou vomitando o chocolate que tomara nesse instante.
— É o mesmo cheiro, não há dúvida, pensou depois, indo à janela; o mesmo cheiro que eu sentia no sonho!
E respirava alto, com insistência. — Sim, sim, é o mesmo perfume! Ora esta! Parece que tudo tresandava a magnólia! Será muito bonito se eu, de agora em diante, não puder livrar-me, nem acordada, de semelhante perseguição!...
Todo esse dia, entretanto, se passou assim: o cheiro de magnólia e o gosto de sangue não a deixaram um segundo. Nunca estivera tão nervosa, tão excitada; achando em tudo um pretexto para implicar, chorando sem causa aparente, irrequieta, a passarinhar pela casa, com um desassossêgo de ave quando está para fazer o ninho. O Dir. Lobão conversou com o Conselheiro e os olhos deste se encheram dágua.
— Acha então que ela está pior, Doutor?... Acha que está muito mal?.,..
— Está entrando já no terceiro período da moléstia. Esse desassossêgo que sobreveio agora é um terrível sintoma... Mas não desanime! não desanime!
E, para o consolar, afiançou que Magdá era o caso mais bonito de histeria observado por ele.
Á noite a enferma pediu café.
— Café?
Houve um espanto. Não lho quiseram dar; afinal, depois de grande disputa, consentiram em ceder-lhe meia chávena, muito fraco.
— Não, não, não! Ela não queria assim! queria um bulezinho cheio e de café forte.
— Mas, minha filha, lembra-te do estado melindroso em que tens os nervos! Se o café em grandes doses faz mal a qualquer um, quanto mais a ti.
Magdá chorou, arrepelou-se, arrancou cabelos. O médico, porém, voltando à noite, aconselhou que a deixassem tomar todo o café que lhe apetecesse
— Deixem-na beber à vontade! Pode ser até que isso lhe produza uma reação favorável sobre os nervos! Nada de contrariá-la!
Foi levada uma cafeteira para o quarto de Magdá. Esta assentou-se à mesinha defronte do candieiro e começou a ler, depois de tomar uma chávena de café, que se lhe conservou no estômago.
— Você, ordenou à criada, não durma, hein? Nem me deixe dormir também, compreende?
— Como, minh'alma ? Pois vosmecê não tenciona dormir tão cedo?...
— Tenciono passar a noite em claro.
— Jesus! Mas isso lhe há de fazer muito mal! Ora como não?
— Vá buscar-me aqueles jornais ilustrados e aqueles álbuns de desenho, que estão lá na sala, e ponha-me tudo aí em cima da mesa.
Justina afastou-se trejeitando esgares de lástima.
Magdá sentia-se agora menos inquieta; fazia-lhe bem o empenho com que ela queria pregar um logro ao sonho, faltar à entrevista com o moço da pedreira. Sentia gosto em enganar alguém. Era uma preocupação e por conseguinte um divertimento. Ardia de impaciência por ver passada aquela noite; afigurava-se-lhe que, depois disso, poderia dormir à vontade, tranqüilamente, sem cair nunca mais nas garras do seu maldito perseguidor.
A Justina é que daí a pouco cabeceava, sem conseguir abrir olhos. Magdá obrigou-a a tomar uma xícara de café, o que não impediu que a boa mulher uma hora depois ressonasse, ali mesmo, de pé, encostada à ombreira da porta, com os braços cruzados.
A senhora sacudiu-a, frenética.
— Eu não lhe disse, criatura, para ficar acordada?
A pobre respondeu com bocejos.
— Vamos! Ponha-se esperta! Tome outra xícara de café!
A senhora que a desculpasse; havia, porém, um 'rôr de tempo que ela não dormia direito e puxava muito pelo corpo durante o dia...
— E porque você não tem dormido direito?
— Ora! porque é necessário estar sempre meio acordada, para ver quando minh'ama precisa de alguma coisa... Como não?
— Eu então não tenho o sono tranqüilo?
— Tranqüilo? Quem lho dera! Vosmecê durante o sono tem arrepios de vez em quando; doutras parece que está ardendo em calor; que sente comichões pelo corpo: coça-se, remexe-se, abraça-se e esfrega-se nos travesseiros; geme, suspira; tão depressa dá p'ra chorar, como p'ra rir; ora se encolhe toda, ora atira com as pernas e com os braços e quer lançar-se fora da cama! Pois então? E' preciso que a gente a endireite; que lhe dê o remédio do frasco maior ou uma pouca dágua com flor de laranja... De quantas e quantas feitas eu não tenho deitado a vosmecê no meu colo, para sossegá-la?...
— E não falo quando durmo?
— Ás vezes, como não? e muito! mas não se entende patavina; fala entre dentes. Ainda ontem, foi muito boa! vosmecê, lá pela volta das duas da madrugada, deu p'ra embirrar por tal modo com a roupa, que eu tive de sacar-lhe fora a camisa.
— Pois você me despiu, mulher?
— E tornei a vestir depois, sim senhora.
— E eu não acordei! ...
— Ah! vosmecê agora tem um sono muito ferrado. Quer parecer que acorda, mas qual! está dormindo que é um gosto! abre os olhos, isso abre; passa a mão pela testa; se lhe dou a água — bebe-a; às vezes levanta-se, quer andar, eu não deixo. Uma ocasião, quando dei fé, já minh'ama se tinha safado da cama e estava a procurar não sei o que naquele canto do quarto... Por sinal que me pregou um tal 'susto, credo!
Magdá ficou a cismar com as palavras da criada, estalando sempre a língua contra o céu da boca. Uma idéia extravagante atravessava-lhe o espírito nesse momento: "E quem sabia lá se aquela mulher não lhe tinha dado sangue a beber?..."
Fitou Justina, e com tal insistência, que a rapariga perguntou:
— Sente alguma coisa, minh'ama?...
— Deixe ver o seu braço.
Justina estendeu o braço, intrigada.
Magdá examinou-o todo, minuciosamente, mas não descobriu nele a menor escoriação.
— Porque vosmecê me revista o braço? ...
— Cale-se!
E, depois de fitá-la de novo: — O que é que você me tem dado a beber durante o sono? Mas não minta!
— Ó minha senhora, eu já disse, como não? A água pura ou com açúcar e flor de laranja, ou quando não, aquele remédio de frasco maior, que o Doutor mandou dar, quando vosmecê acordasse à noite com os seus incômodos.
Magdá pediu o tal frasco para ver e, apanhando uma gota do remédio com a língua, ficou a tomar-lhe o sabor.
Qual! Não era dali que vinha o gosto de sangue!
Bateu meia noite no relógio da sala de jantar.
— Olhe, minh'ama, meia noite!
— Já sei! Vá lá abaixo buscar um pouco de presunto com pão.
— Que diz, minh'ama ? Não caia nessa! Vosmecê tem visto o mal que lhe faz a comida fora d'horas...
— Não me aborreça! Veja o que lhe disse!
Justina saiu do quarto, resmungando, e a senhora logo que se achou sozinha, teve um tremor de medo. A criada felizmente não se demorou muito.
— Cá está, minh'ama. Vosmecê quer vinho?
— Não.
~ Magdá gulosou algumas febras de presunto, bebeu mais café e atirou-se aos seus jornais ilustrados, disposta a não ceder um passo na resolução tomada.
— Porque vosmecê não se vai deitar, minh'ama? E' melhor! Agasalhe-se! Daqui a pouco está aí a friagem da madrugada! Já passa de uma hora!
A filha do Conselheiro não respondeu e ferrou a vista, com uma fixidez de teima, no desenho que tinha debaixo dos olhos.
— Vosmecê nunca se deitou tão tarde..
— Cale-se, que diabo!
— É que lhe pode fazer mal...
— Pior!
A criada calou-se, bocejou traçando com a mão uma cruz, mais sobre o nariz do que sobre a boca, e daí a nada pediu, quase de olhos fechados, que su'ama então lhe deixasse encostar a cabeça um instante. "Ela estava a cair de canceira".
Pois sim, que fosse, mas que ficasse alerta.
"Como não?" Mal porém. encostou a cabeça, dormiu logo a sono solto.
No entanto, a senhora parecia bem entretida com as suas ilustrações. Correu meia hora — e ela sempre a ver os desenhos e a ler. De repente teve uma contração nervosa, muito rápida.
— Mau!... disse, e procurou segurar melhor a atenção no que estava lendo.
Mas com pouco um calefrio empolgou-lhe os ombros e foi lhe descendo pelo dorso, até fazer vibrar-lhe o corpo inteiro
— Justina! Justina!
A criada não se abalou, e o silêncio e a solidão da noite começaram prontamente a fazer das suas. A histérica estremeceu de novo, olhando para os lados, aterrada, sem poder mais articular palavra. Um pânico apoderou-se dela, pondo-lhe estranha agitação no sangue.
Teve uma idéia — rezar.
Ergueu-se desvairada, com os cabelos em pé, e encaminhou-se para o crucifixo. Nisto ouviu distintamente uma voz dizer ao seu ouvido:
— Magdá!
Voltou-se com um gemido rouco e caiu de joelhos defronte da imagem, toda trêmula e gelada.
Tinha reconhecido a voz do seu amante fantástico. E principiou logo a ver tudo avermelhado como nos sonhos: o que era branco fazia-se cor de rosa; o que era cor de rosa tingia-se de escarlate; o amarelo tomava a cor de laranja e o azul arroxeava-se.
Ela arfava; levou a mão à testa: os dedos voltaram úmidos de suor frio; quis gritar, e não pôde. E o seu corpo escaldava em febre; e suas fontes latejavam. Contudo não tinha perdido ainda de todo a razão e mentalmente suplicava a Deus que a amparasse, que a socorresse naquele horroroso transe:
— Pois não me será dado escapar a esta maldita perseguição?... Ó meu pai misericordioso, que irá me suceder? Que irá me suceder agora?
Mas os objetos difundiam-se já e transformavam-se em torno de seus olhos, que só viam a imagem de Cristo — de braços abertos, e a crescer, a crescer, enchendo a parede.
E, naquela palpitação nervosa, Magdá sentia as palavras borbotarem no seu espírito e derramarem-se pelos seus lábios com a verbosidade e a inspiração de um poeta ébrio.
— Preciso não sonhar! Preciso arrancar aqui de dentro esta dolorosa loucura que me absorve, gota a gota, toda a substância da minha vida!
E, de joelhos, o rosto levantado, as mãos erguidas para o céu, as lágrimas a desfiarem-lhe uma a uma pelas faces, ela acrescentou depois da oração que lhe ensinara a tia Camila: — Jesus, meu amado, meu esposo, acode-me, acode-me depressa, que a fera já aí está comigo! Vem, que ela me farisca e me cerca rosnando! Vem, que lhe ouço o respirar assanhado e já sinto o seu bafo e o cheiro carnal que ela solta de si! Vem, que a maldita me acompanha por toda a parte e me cheira como o cão à cadela! Vem de pressa; não a deixes saciar no meu corpo de virgem os seus apetites lascivos! Não me deixes assim, amado do meu coração, cair tão feiamente em pecado de impureza e luxúria! Não me atires como um pedaço de carne às garras do lobo imundo! Esconde-me à tua sombra; protege-me como o fizeste com a outra Madalena, menos merecedora do que eu, que sou donzela e sempre te amei e servi com a mesma candura! Lembra-te, querido de minh'alma, de que estou enferma e fraca e só tenho força e ânimo para te amar! Vê que não me posso defender só por mim! Ajuda-me! tem pena de quem te quer e adora acima de todas as coisas! Vê como tremo e choro! Se és o pai dos humildes, vale-me agora, salva o meu pudor e não consintas que de hoje em diante a minha virgindade se haja ainda de retrair corrida e envergonhada! Vem e acompanha-me nos meus sonhos, conduze-me pela tua mão, como fazias com as crianças que encontravas perdidas no caminho; se te vir a meu lado não sonharei desatinos e sujidades que me matam de vexame e nojo contra mim própria! Vem ter comigo e exorciza de dentro de mim o demônio que habita minha carne e enche de fogo todas as veias do meu corpo! Não deixes que a luxúria esverdinhe minha alma com a baba do seu veneno! Reabilita-me, para que eu me estime e preze como dantes! Lava-me da cabeça aos pés com a luz da tua divina graça; perfuma-me com os teus aromas celestiais; sopra teu hálito sobre mim, para que não me fique vestígio de terra na pele e nos cabelos; beija minha boca, para lhe apagar o gosto de pecado que a põe amarga e suja; beija meus olhos, para que eles não enxerguem o que não devem ver; beija meus ouvidos, para que eles não escutem o que não devem ouvir; beija-me toda, para que toda eu me purifique e me faça digna do teu amor! Sacode em cima de mim o orvalho do teu manto e as gotas do teu cabelo, para que eu me acalme e abrande; traça com a tua mão pura uma cruz sobre a minha testa, para afastar por uma vez os maus pensamentos, e passeia três voltas em torno do meu corpo para que a fera nunca mais se aproxime de mim! Vem, vem! que ela aí torna e começa a uivar de novo! Acode-me, Senhor, acode-me!
Estremeceu toda num arrepio mortal, escondendo o rosto, sacudida pelos soluços. E, como em resposta às suas súplicas, não descia dos céus nenhum alívio, ela revoltou-se afinal contra Jesus: — Para que então servis? interrogou — Para que então sois Deus, se não baixais em meu socorro, quando eu tanto preciso de amparo e de defesa?! Que é feito então do extremoso amigo das mulheres e das crianças, ao qual me ensinaram a amar desde o berço? que é feito desse ente apaixonado e casto, que tinha dantes consolações para toda a desgraça, e um raio de luz para secar a mais escondida lágrima dos que padeciam? que é feito do sudário cor de lírio em que se enxugava o pranto dos desamparados? que é feito dessas bênçãos de pai, que apaziguavam a terra e confortavam o coração dos pobres? para onde se voltaram aqueles olhos misericordiosos, que dantes enchiam o mundo com o eflúvio da sua ternura? como para sempre se fecharam aquelas entranhas de piedade, aquele peito de amor, onde a mísera humanidade se refugiava, como num templo de ouro e marfim? Se não vierdes imediatamente em meu socorro, acreditarei no que dizem os contrários da vossa igreja, ou que desertastes de vez para os céus, esquecidos de todo das vossas criaturas! Se não vierdes já e já, acreditarei que estais outro e que já não sois aquele mesmo Jesus, terno, humilde, casto, bom, fiel e onipotente! acreditarei que viveis no egoísmo e na indiferença, amarrado ao trono, ébrio de orgulho e vaidade, como qualquer miserável monarca da terra!
E interrogou a imagem com um olhar em que havia súplica e ameaça. Mal soltou logo um rugido surdo, apontando para o crucifixo e balbuciando, cheia de terror: — Não! Já não sois vós quem aí está crucificado! Quem está aí agora é o outro! É ele! É o demônio!
E caiu do bruços no chão, com um grito. E logo em seguida, sem ânimo de erguer a cabeça, transida de medo, sentiu distintamente que o Cristo se agitava na parede, como forcejando para despregar-se da cruz, e que afinal descia, pisava no chão, encaminhava-se para ela e tocava-lhe de leve com a mão no ombro, aproximando a boca, para lhe falar ao ouvido. Magdá sentiu rescender o cheiro da murta.
— Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem! A mangueira começou a dar as suas primeiras mangas; as flores do caju lançaram já o seu cheiro! Vem, pomba minha: nos segredos do teu quarto mostra-me a tua face; soe a tua voz dentro dos meus ouvidos, porque a tua voz é doce e a tua face graciosa!
A moça ergueu a cabeça.
Ele beijou-a, prosseguindo, com o rosto unido ao dela: — Sim, Magdá, minha irmã, minha esposa, minha amada, teus olhos de tão belos se parecem com os olhos de Maria Santíssima; são ternos, são negros, humildes o majestosos; tuas mãos brancas relembram os lírios da Virgem e os teus dedos distilam a mirra mais preciosa; as faces do teu rosto rescendem como as rosas do amor divino; os teus cabelos excedem no cheiro aos aromas excelentes do seu altar; os teus peitos são brancos como duas ovelhas gêmeas e tão rijos como os jacintos da sua coroa de rainha dos céus; a tua carne é tão macia como o cetim do seu manto e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do incenso; o sorrir da tua boca é tão lindo como o dela, mas eu gosto mais do teu, por menos divino e etéreo e porque mais me enfeitiça e me abrasa de amor; o teu hálito, minha pomba, é melhor que os perfumes do país de Cedar; tua garganta é de sândalo; tua voz é um aroma; a luz dos teus olhos é um diamante líquido; teus dentes são pérolas de orvalho entre pétalas de rosa. Tu, entre as mulheres da terra, és a mais bonita, a mais sedutora e a mais amável; entre as mulheres tu és como a palmeira entre as outras árvores: não tens igual; és majestosa como os cedros do Líbano e delicada e cheirosa como os eloendros de Jerusalém
Magdá deixava-se embalar pela música sensual e mística destas palavras e o cheiro de murta. E, já sem medos nem sobressaltos, quedava-se imóvel e comovida, como se estivesse conversando em êxtasis com um Cristo só dela, um Cristo destronado e sem orgulhos de Deus, um Cristo seu amante, fraco, de carne, submisso e humano.
E a voz ainda lhe disse, entrando-lhe pelos ouvidos, pela boca, por todos os poros, com o seu aroma agreste e afrodisíaco: — Levanta-te, minha amada, e torna comigo ao nosso ninho de amor! Eu te busquei esta noite a meu lado, busquei-te e não te encontrei! Ergui-me à luz das estrelas e rodeei como um louco a ilha, e não te achei! busquei-te pelas matas, pelos vales e pelo monte, e não te descobri! Chamei-te: "Magdá! Magdá! Magdá!" e não me respondeste! Perguntei às águas do mar, às arvores do campo, aos ventos do espaço, se tinham visto aquela a quem ama minh'alma; e todos eles não souberam dar novas tuas; e eu aqui estou; eu vim buscar-te, e não tornarei sem te levar comigo! Vem! Na tua ausência fiz um leito de madeiras aromáticas e alcatifei-o todo de flores, para te receber; colhi os mais saborosos frutos para a tua chegada, e fermentei a uva mais doce para nos embriagarmos com ela!
— Sim, sim, respondeu afinal Magdá, entregando-se a ele; leva-me! Eu te acompanho de novo para onde bem quiseres! Carrega-me, querido! Preciso ir beber do teu vinho, comer dos teus frutos, amor do teu amor e reviver com o teu sangue! Leva-me! Aqui me tens! Sou tua!
Esta crise prostrou-a de cama por dois dias, dois dias de febre e delírios, em que ela não deu acordo de si e falava de coisas inteiramente estranhas para os mais. Sonhava-se na ilha do Segredo.
- Quando, enfim, se levantou havia já entrado totalmente no terceiro período da moléstia. Estava cadavérica; os olhos muito fundos; as faces cavadas e a pele estalando em pequeninas rugas, como porcelana velha. Contudo, em nenhum dos seus gestos, como em nenhuma de suas palavras se lhe notava desarranjo cerebral; aparentemente era a mesma em orgulho, em virtudes e em fidelidade aos seus princípios religiosos, apenas sucedia que todas estas qualidades cada vez mais se acentuavam com certo exagero progressivo. O cheiro de magnólia e o gosto de sangue ainda a perseguiam com maior ou menor intensidade. De novo o que Magdá apresentava agora de mais notável eram umas espécies de alucinações letárgicas, muito rápidas, que a acometiam de vez em quando e nas quais reatava quase sempre o seu último sonho; mas não falava durante essas crises, ficava num estado comatoso, estática, de olhos bem abertos, dentes cerrados, um ligeiro rubor nas faces; às vezes sorrindo e às vezes deixando que as lágrimas lhe corressem surdamente pelo rosto.
O médico recomendou que não a despertassem dessas letargias. "Deixassem-na lá, que por si mesma havia de recuperar a razão."
Outra novidade era que já não parecia sentir, como dantes, repugnância em ouvir falar no futuro cunhado de Justina; agora, ao contrário, quando esta se referia ao rapaz, a senhora escutava-a com interesse e até já lhe fazia perguntas a respeito do pobre diabo. Uma ocasião quis saber que tal era ele de gênio; quais os seus costumes, se bons ou maus; se estimava muito a noiva; se pretendia realizar em breve o casamento; se era homem dado a bebidas, ou ao jogo, ou a outras coisas feias. A criada informou muito a favor do Luiz: elogiou-lhe o caráter; contou as suas boas ações; falou na sua economia, no seu amor pela mãe e pela avó, e terminou declarando que a Rosinha apanhara um homem às direitas. "Às direitas, como não?"
À filha do Conselheiro contrariaram um tanto estes elogios. Não sabia porque, mas intimamente desejava que aquele imbecil fosse mais desgraçado e menos digno de estima; preferia ouvir dizer pelos outros os horrores que ela tinha vontade e não podia despejar contra o miserável; preferia saber que ele era um perdido, sem a menor idéia de estabelecer família, um bêbado devorado pela vil e baixa crápula das vendas e dos cortiços. E Magdá ficava revoltada, sentia as mãos frias de raiva, quando, ao chegar por acaso à janela, dava com o cavoqueiro que ia ou vinha do trabalho, ostentando o ar satisfeito de quem traz a vida direita e anda em dia com as obrigações.
— Ah! o seu desejo era descarregar-lhe um tiro na cabeça!
Um domingo, em que ela espairecia à porta da chácara, o Luiz passou na rua, todo chibante nas suas roupas de ver a Deus, de braço dado à noiva, e rindo muito e conversando com a mãe e com a velhinha Custódia: contentes que metia gosto vê-los. Pois a filha do Conselheiro, só por causa disso, mostrou-se contrariada e ficou pior esse dia. Tanto que, já de noite, estando a cismar na sala, com os olhos fitos num pequeno grupo de mármore que aí havia, ergueu-se, tomou-o nas mãos e, depois de o examinar com o rosto muito carregado, arremessou-o de encontro à laje da janela. O grupo representava em miniatura: "Amor e Desejo", de Miguel Ângelo — Um casal de quinze anos preso pelos lábios em um beijo ideal e ardente. — Quando o Conselheiro, deveras contrariado, perguntou quem havia quebrado a escultura, ela respondeu sem se alterar:
— Foi a Justina, papai, mas não lhe diga nada, coitada!
Sim, por último dera para isto: pregar destas pequenas mentiras e, se acaso queriam provar o contrário do que afirmava, punha-se furiosa, acabando sempre por desabafar em soluços a sua contrariedade. Assim, tendo uma vez matado um casal de rolas que havia na sala de jantar, só porque o surpreendera em flagrante delito de procriação, não só fugiu à responsabilidade do ato como ainda afetou grande desgosto pela morte dos brutinhos, chegado a revolucionar toda a casa para descobrir o suposto assassino.
Entretanto, os sonhos com Luiz continuavam sem interrupção, e Magdá, a contra gosto, habituava-se com a sua existência em duplicata, ajeitando-se pouco a pouco ao contraste daquelas duas vidas tão diversas e tão inimigas. Não podia ser mais feliz do que era ao lado do seu fantástico amante; ah! mas bem caro pagava depois essa felicidade, quando, acordada, o seu orgulho de mulher honesta abria em luta contra as degradantes lubricidades do sono.
Viviam nus desde o fatal momento em que se prenderam na ilha do Segredo. Luiz construíra uma cabana de bambú, coberta de pindoba, e fez alguns utensílios domésticos; já tinham cama, bancos, um armário para guardar frutas, e dois ou três potes para conservar o mel das abelhas, o vinho do cajú e o leite de uma cabra que apanharam no monte.
Cercaram a choupana com valentes toros de madeira e, quando anoitecia levantavam uma fogueira defronte da porta. É que já se não sentiam tão seguros como dantes; Luiz temia até qualquer invasão, porque, logo que o rio se converteu em mar, estava franqueada a ilha.
E, com efeito, um belo dia, passeavam os dois na praia, secando os cabelos ao sol depois do banho, quando avistaram no horizonte uma vela que se aproximava. Ficaram ambos transidos de sobressalto; Luiz ordenou a Magdá que se metesse em casa e não saísse sem ser chamada por ele.
A filha do Conselheiro obedeceu, mas ficou espiando lá de dentro.
Daí a pouco viu chegar num escaler, tripulado por quatro marinheiros, um magote de seis pessoas que, pela distância, não podia reconhecer, distinguindo apenas que havia quatro mulheres no grupo; que um dos homens trazia farta de oficial de marinha e que o outro estava todo envolvido numa enorme capa negra, que lhe dava aparências de espectro.
O oficial saltou a ilha e fez apeiarem-se as mulheres. Estas, logo que se pilharam em terra, correram de braços abertos sobre Luiz, soltando gritos de contentamento. E, depois de muitos beijos e abraços, puseram-se todos a caminhar na direção da palhoça, acompanhados pelos quatro marinheiros que vinham armados de escopetas e machadinhas de abordagem.
Magdá reconheceu então que o oficial era o Conselheiro, vestido e remoçado como num retrato a óleo, que ele tinha no seu gabinete de trabalho em Botafogo.
Tremeu, quis fugir, mas lembrou-se da ordem de Luiz e deixou-se ficar. Em uma das mulheres descobriu Justina; em outra Rosinha; nas outras a mãe e a avó do moço da pedreira. Vinham todas com as roupas do domingo; as duas velhas traziam lenços de ramagem na cabeça, e nos ombros xales encarnados de Alcobaça. As raparigas, com os seus vestidinhos de chita, tinham o ar contrafeito e grosseiramente sério das moças de cortiço; as mangas do casaquinho muito justas, quase insuficientes, dando difícil saída a punhos grossos, vermelhos e lustrosos, terminados em mãos curtas, socadas, de gordura sanguínea.
O outro, o da túnica negra, é que Magdá não conseguiu reconhecer, a despeito dos esforços que empregava para isso; só pôde distinguir-lhe as feições quando ele lá se achava a uns quarenta passos da choupana. Era seu falecido irmão, o Fernando; vinha cor de cadáver, muito desfeito; parecia ter saído naquele instante da sepultura. Ela estremeceu toda e, com um arranco de anta bravia, pinchou o corpo para fora da toca e abriu num carreirão pelo mato.
— Não fujas! gritou Luiz. — Não tenhas medo, que ninguém aqui te quer fazer mal
— Magdá! Magdá!
— Espera, minha filha!
Era tudo inútil. Magdá, completamente una, os cabelos soltos ao vento, lá ia, por trancos e barrancos, internando-se na floresta. Um fugir vertiginoso de cabrita assustada! Morros e valados desapareciam atrás dela; não havia encruzamento de cipó que lhe tolhesse a marcha, nem espinheiro, por mais bravio, que lhe quebrasse a fúria. E sentia atrás de si uma gritaria infernal e um tropel confuso de passos rápidos.
— Magdá! Magdá! Bradavam-lhe na pista.
E ela corria mais De repente — parou. Uma voz grossa exclamava-lhe pela frente:
— Cerca! Cerca!
Em menos de um minuto fecharam-na por todos os lados gritos de caçadores e passos que se aproximavam com vertigem.
— Cerca! Cerca!
— Por aqui!
— Por ali!
E de cada ponto surgiu logo uma cabeça de marujo, rompendo a argamassa das folhas.
Magdá caiu por terra sem forças, as carnes alanhadas, os pés em sangue, os cabelos arrebentados. Incontinente os homens a rodearam, sem todavia nenhum deles lhe tocar com um dedo; a prisioneira, estarrecida no chão, arquejava, cruzando as pernas e os braços para esconder as suas partes vergonhosas. Afinal chegaram os outros, entre os quais vinha o Luiz, agora mais composto por uma capa, que o Conselheiro lhe pusera aos ombros; o primeiro a aproximar-se dela foi Fernando, que despiu logo a manta e estendeu-a sobre a nudez da irmã.
— Minha filha! minha filha! disse o Conselheiro, vergando-se para lhe dar um beijo. — Em que estado a encontro, meu Deus! E ordenou aos marinheiros que improvisassem uma padiola de bambús e folhas de bananeira.
Daí a pouco Magdá era levada ao ombro daqueles para a cabana. Arrearam-na sobre o tosco leito fabricado pelo amante; deram-lhe a beber os confortativos que se foram buscar a bordo com toda a pressa e lavaram-lhe em arnica as feridas que ainda sangravam.
Quando conseguiu falar, pediu ao pai e ao irmão que não a castigassem.
— Castigar-te, minha filha...? respondeu o Conselheiro, afagando-a. — Não! Nada tenho que te exprobar, porque agora compreendo que o moço da pedreira te salvou a vida, trazendo-te para o seu desterro. Se eu te obrigasse a ficar lá em casa, sozinha comigo, a estas horas estarias sem dúvida debaixo da terra; ao passo que aqui — vives! e estás forte, e bela, e feliz! Não! eu te abençôo, como abençôo a este rapaz, cujos esforços foram muito mais proveitosos que os do Dr. Lobão.
E, palavras ditas, o pai de Magdá abraçou-se a Luiz.
— Não desejo contrariar-te... prosseguiu ele, voltando-se de novo para a rapariga, com os olhos carregados dágua, se quiseres continuar a viver aqui, fica; se quiseres voltar para a minha companhia, eu te receberei e mais ao teu homem; apenas o que lhes peço. quer vão ou fiquem, é que se casem e quanto antes. Trouxe no meu navio um padre e tenho a bordo o necessário para armar o altar.
— Pois está dito, balbuciou Magdá. E chegando os lábios ao ouvido do pai, disse-lhe um segredo, que a ela própria fez corar, mas que a ele encheu de vivo contentamento.
— Um neto, exclamou o Conselheiro. — Oh, que felicidade!
Magdá, afogada em pejo. tapou-lhe a boca com a polpa da mão.
— Ter um neto era o meu sonho dourado! Como vou ser feliz no resto da minha vida!...
— Ora, papai!...
Que mal faz que o saibam todos, se vais esposar de teu filho?... Acaso, desse momento em diante; não ficarás reabilitada aos olhos do mundo inteiro!
— Cale-se, papai...
— Não! Deixe-me falar! Deixa-me dar expansão à minha alegria! Não vês como estou rindo... . e não sentes, minha filha, estas lágrimas que me abandonam, porque o coração, de tão contente que está, as enxota de casa, como inúteis de hoje em diante? Oh! obrigado, Magdá! muito obrigado!
De junto, Fernando contemplava-a silenciosamente com o seu imóvel e apagado olhar de morto; os braços em cruz sobre o casco do peito; a pele sem brilho; as barbas ressequidas e cobertas de pó. Agora é que ele de todo se parecia com o Cristo da Mater Dolorosa; a irmã teve impulsos de ajoelhar-se defronte daquela melancólica imagem e rezar. como fazia dantes nas suas tredas escápulas religiosas.
Ficou resolvido que o casamento se efetuaria daí a dois ou três dias com a maior solenidade que lhe pudessem dar. Começou-se logo a construir outra casa maior, não mais de bambús amarrados com embira e coberta de folhas de pindoba, mas feita de madeiras escolhidas, forrada de tábuas pela parte de fora e de lona pela parte de dentro. Mobiliaram-na depois com muito gosto e sortiram-na com enorme provisão de mantimentos cm conserva, e pipas de vinho e aguardente e latas de bolacha inglesa E vieram também aparelhos de porcelana e lanternas e candieiros, muitas caixas de velas, jarros, quadros, um piano, colchão, colchas lavradas e roupas de toda a espécie, não esquecendo as jóias, os livros e mais objetos de que se privara Magdá ao partir com o cavoqueiro.
— Mas isto é uma mudança completa! Meu pai não deixou nada em terra...! — observou ela, notando as coisas que desembarcavam e reconhecendo-as uma por uma.
Com efeito, vinha tudo; lá estavam as louças da Saxônia, os candelabros bisantinos, as peles da Sibéria. as velhas tapeçarias do salão de Botafogo, os caprichosos kakimanos, os espelhos, os damascos bordados a ouro e prata, e os consolos com mosaicos de Florença. É que o Conselheiro, uma vez que a filha não estivesse resolvida a acompanhá-lo, voltaria à vida inconstante do mar, para nunca mais se desprender do seu navio.
Pronta e armada a casa, principiou-se a fazer defronte dela um altar ao ar livre, com uma imensa cruz de cedro tosco entre duas palmeiras e fincada num grande pedestal de troncos d'árvores, cujos degraus não se viam, era tal a profusão de flores que os carregava de alto a baixo. Arranjaram-se faróis para iluminar toda a ilha, e a tripulação de bordo saiu, em parte armada de espingardas, a caçar pela floresta, e em parte carregada de redes para a pescaria. Engendrou-se uma soberba tenda destinada ao banquete, embandeirou-se tudo e pregaram-se lanternas chinesas em volta da habitação.
No dia das bodas cinqüenta peças de caça e outras tantas de pesca rechinavam e lourejavam sobre braseiros e fogueiras; grandes tachos de cobre luziam ao fogo, soprando nuvens de vapor odorante; fabricavam-se os doces mais estimados; batiam-se as massas mais delicadas. E os marinheiros, agora de avental branco e carapuça de cozinheiro, cruzavam-se no morro, ora levando largas braçadas de frutas, ora carregando enormes travessões de assado, ou conduzindo para & mesa ânforas de prata cheias de vinho. Havia uma grande atividade; a velha Custódia e a tia Zefa não descansavam um segundo, iam e vinham azafamadas, a saia enrodillhada na cintura, os braços arremangados, tão depressa a encher garrafas e cangirões, como preparando ramilhetes para os jarros ou pejando as corbelhas com frutas que lhe traziam os marujos. O Conselheiro, sempre de farda, dirigia todo o serviço tal qual como se manobrasse um navio; só dava as suas ordens apitando ou então gritando por um porta-voz de que se não separava nunca. E ao seu comando afestoava-se toda a ilha, com uma rapidez de serviço de bordo.
A cerimônia religiosa estava marcada para o meio-dia em ponto e devia ser seguida por uma salva de vinte tiros de canhão, toque de caixa e corneta, repiques de sino e vivas da marinhagem. O capelão havia chegado já, acompanhado por dois marujos vestidos de batina e sobrepeliz, vendo-se-lhes por debaixo as botas de couro cru, sentindo-se-lhes ranger o cinturão e adivinhando-se-lhes a navalha grudada aos largos quadris. Os turíbulos e a caldeirinha pareciam em risco de esfarelar-se entre os seus dedos grossos como cabos de enxárcia. Aquelas caras marcadas, com a barba feita de fresco e uma faixa branca no lugar da testa em que o boné não deixara que o sol as encardisse, não pareciam de gente, e, no entanto, coisa singular! ambas lembravam a carranca do Dr. Lobão. Magdá, ao vê-las, retraiu-se intimidada e não se animou a dar palavra, nem a mexer-se do lugar em que estava. Ficou tolhida, a fitá-las por muito tempo.
A voz da Justina despertou-a com uma vibração estranha, que a fez estremecer toda; uma voz que desafinava do resto.
— Que é, mulher perguntou Magdá, arregalando os olhos sobre ela.
Acordara por instantes, mas não chegou a reconhecer o seu quarto da Tijuca.
— Então, minh'ama não se veste?... Fica vosmecê desse modo a olhar para mim?... Vamos, prepare-se...
— Sim, tens razão; são horas. Dá-me o banho.
E acrescentou de si para si:
— Está tudo pronto! Já chegou o padre com os seus ajudantes; meu noivo deve agora parecer lindo como um Deus! Vou perfurmar-me e fazer-me bela, para que ele mais se abrase de amor assim que me veja...
Era o delírio que prosseguia, mesmo sem a intervenção do sono.
A criada trouxe-lhe o banho que lhe servia todos os dias; ela, porém, supondo~se na sua casa da ilha, tinha que se lavava em águas perfumadas e que cortava e brunia as unhas, alisava os cabelos com óleo cheiroso, enchia-se de aromas finos, e em seguida que se cobria toda de rendas e cambraias e punha um vestido de veludo branco bordado de prata, calçava meias de seda finíssima, sapatinhos de cetim e guarnecia a cabeça e o pescoço com longos fios de pérolas.
Mirou-se no espelho e nunca se achou tão bela.
— Está pronta a noiva! Está pronta a noiva! — exclamaram de todos os lados, assim que a viram surgir à porta da habitação, acompanhada pela Justina.
Os marujos soltaram gritos de entusiasmo.
Magdá volveu os olhos em redor de si e notou, sorrindo, que, nem só as pessoas que ali estavam, como também a natureza inteira, pareciam alegrar-se com a sua felicidade; mas deixando cair a vista para o fundo do vale, teve um sobressalto: lá em baixo, na fralda do monte, o espectro de Fernando passeava tristemente por entre as árvores, arremedando Cristo no Horto das Oliveiras; tinha os passos lentos, a figura alquebrada, uma doce resignação na fisionomia. Viu depois uma mulher aproximar-se dele, atirando-se ao chão para lhe beijar os brancos pés descalços e a fímbria da sua túnica rota pelos espinhos e embranquecida pela areia das estradas; reconheceu Rosinha. E a dura melancolia daquele canto de paisagem, mergulhado na sombra, lembrava Jerusalém; e menina do cortiço, com as suas roupas em desalinho, cabelos soltos e cobertos de terra, o rosto escorrendo de lágrimas, parecia estrangulada por uma aflição profunda e fascinadora como a de Maria Madalena. A infeliz abraçava-se às pernas de Fernando, desfazendo-se em queixas e lamentos, que Magdá não conseguia ouvir; ele, afinal, ergueu-a carinhosamente, pousou-lhe a mão aberta sobre a cabeça, e, terno e comovido, tornou para o céu os olhos castos, onde havia súplicas de infinita doçura.
Rosinha pôs-se então a rezar vergada sobre o peito; enquanto o outro se afastava, caminhando sutil, que nem uma sombra, por entre as árvores.
Magdá desceu de carreira pela encosta da montanha na direção que ele tomara. O seu vulto de noiva sobressaia errante na azul penumbra dos caminhos como um lírio levado pelo vento; mas, quando alcançou a campina, já Fernando ia distante.
— Atende! Atende! gritou atrás dele.
O espectro não atendeu e lá foi por diante, agitando às brisas do mar a sua túnica solta.
— Fernando! irmão meu amado de minha alma, não me fujas!
E o lírio precipitava-se pelo vaie, sem conseguir alcançar a sombra dos seus amores.