- Sim tornou Manuel. com mais animo. Você bem sabe que não tenho obrigação de estar a moer-me com o nhonhô Mundico... e, se bem que...
- Pchio!... fez o padre, cortando a conversa, e disse: - Hóspede o homem!
E saiu da saleta, revestindo logo o seu pachorrento e estudado ar de santarrão.
Ao chegarem à varanda Ana Rosa, já em trajes de passeio, os esperava para sair toda debruçada no parapeito da janela e derramando sobre o Bacanga um olhar mole e cheio de incertezas.
- Então, sempre te resolveste, minha caprichosa?... disse o pai.
E contemplava a filha, com um risinho de orgulho. Ela estava realmente boa com o seu vestido muito alvo de fustão, alegre, todo cheirando aos jasmins da gaveta: com o seu chapéu de palhinha de Itália emoldurando o rosto oval, fresco e bem feito com o seu cabelo castanho, farto e sedoso, que aparecia em bandós no alto da cabeça e reaparecia no pescoço enrodilhado despretensiosamente.
- Tinhas dito que não ias...
- Vá se vestir, papai.
E assentou-se.
- Lá vou! Lá vou!
Manuel bateu no ombro do cônego:
- Meto-lhe inveja, hein, compadre?.. Olhe como o diacho da pequena esta faceira, não é?
- Ne insultes miseris!
- Quê?... interjeicionou o negociante, olhando para o relógio da varanda. Quatro e meia! E eu que ainda tinha de ir hoje tratar do despacho de um açúcar!...
E foi entrando apressado no quarto, a gritar para o Benedito "que lhe levasse água morna para banhar o rosto".
O cônego assentou-se defronte de Ana Rosa.
- Então onde é hoje o passeio minha rica afilhada?
- À casa do Freitas. Não se lembra? Lindoca faz anos hoje.
- Cáspite! Temos então peru de forno!..
- Papai fica para o jantar... vossemecê não vai dindinho?
- Talvez apareça à noite... Com certeza há dança...
- Hum-hum... mas creio que o Freitas conta com uma surpresa da Filarmônica.. disse Ana Rosa, entretida a endireitar os folhos de seu vestido com a biqueira da sombrinha.
Nisto ouviram-se bater embaixo as portas do armazém, que se fechavam com grande n ido de fechaduras, e logo em seguida o som pesado de passos repetidos na escada. Eram os caixeiros que subiam para jantar.
Entrou primeiro na varanda o Bento Cordeiro. Português dos seus trinta e tantos anos arruivado, feio de bigode e barba a cavanhaque Gabava-se de grande prática de balcão chamavam-lhe "Um alho". Para aviar encomendas do interior não havia outro! Cordeiro "metia no bolso o capurreiro mais sabido".
Dos empregados da casa era o mais antigo; nunca, porém lograra ter interesse na sociedade, continuava sempre de fora e tinha por isso um ódio surdo ao patrão ódio, que o patife disfarçava por um constante sorriso de boa vontade Mas o seu maior defeito o que deveras depunha contra ele aos olhos das - raposas - do comércio; o que explicava na Praga a sua não entrada na sociedade da casa em que trabalhava havia tanto tempo era sem duvida a sua queda para o vinho. Aos domingos metia-se na tiorga e ficava de todo insuportável.
Bento atravessou silencioso a varanda cortejando com afetada humildade o cônego e Ana Rosa, e seguiu logo para o mirante, onde moravam todos os caixeiros da casa.
O segundo a passar foi Gustavo de Vila Rica; simpático e bonito mocetão de dezesseis anos, com as suas soberbas cores portuguesas, que o clima do Maranhão ainda não tinha conseguido destruir. Estava sempre de bom humor; lisonjeava-se de um apetite inquebrantável e de nunca haver ficado de cama no Brasil. Em casa todavia ganhara fama de extravagante; é que mandava fazer fatos de casimira a moda, para passear aos domingos e para ir aos bailes familiares de contribuição, e queimava charutos de dois vinténs. O grande defeito deste era uma assinatura no Gabinete Português, o que levava a boa gente do comércio a dizer "que ele era um grande biltre, um peralta, que estava sempre procurando o que ler!"
O Bento Ribeiro bradava-lhe as vezes, furioso:
- Com os diabos! o patrão já lhe tem dado a entender que não gosta de caixeiros amigos de gazeta?.. Se você quer ser letrado, vá pra Coimbra, seu burro!
Gustavo ouvia constantemente destas e doutras amabilidades, mas, que fazer? precisava ganhar a vida!... O outro era caixeiro mais antigo na casa... Conformava-se, sem respingar, e em certas ocasiões até satisfeito, graças ao seu bom humor.
Ao passar pela varanda foi menos brusco no seu cumprimento à filha do patrão; chegou mesmo a parar, sorrir, e dizer, inclinando a cabeça: "Minha senhora!..."
O cônego teve uma risota.
- Que mitra! . julgou com os seus botões.
Em seguida, atravessou a varanda, muito apressado, com as mãos escondidas nas enormes mangas de um jaquetão, cuja gola subia ate à nuca, uma criança de uns dez anos de idade. Tinha o cabelo à escovinha; os sapatos grandemente desproporcionados; calças de zuarte dobradas na bainha; olhos espantados; gestos desconfiados, e um certo movimento rápido de esconder a cabeça nos ombros, que lhe traia o hábito de levar pescoções.
Este era em tudo mais novo que os outros - em idade, na casa, e no Brasil. Chegara havia coisa de seis meses da sua aldeia no Porto; dizia chamar-se Manuelzinho e tinha sempre os olhos vermelhos de chorar à noite com saudades da mãe e da terra.
Por ser o mais novo na casa varria o armazém limpava as balanças e bumia os pesos de latão. Todos lhe batiam sem responsabilidade, não tinha a quem se queixar. Divertiam-se à custa dele; riam-se com repugnância das suas orelhas cheias de cera escura.
Desfeava-lhe a testa uma grande cicatriz; foi um trambolhão que levou na primeira noite em que lhe deram uma rede para dormir O pobre desterradozinho, que não sabia haver-se com semelhante engenhoca, caiu na asneira de meter primeiro os pés, e zás! lá foi por cima de uma caixa de pinho de um dos companheiros. Desde esse dia ficou conhecido em casa pela alcunha de "Salta-chão". Punham-lhe nomes feios e chamavam-lhe "O coisa! - Ó maroto! - O bisca!" tudo servia para o chamarem, menos o seu verdadeiro nome.
Ia atravessando a varanda, como um bicho assustado, quase a correr. O cônego gritou por ele:
- O pequeno? anda cá!
Manuelzinho voltou, confuso, coçando a nuca, muito contrariado sem levantar os olhos.
Ana Rosa teve um olhar de piedade.
- Então que e isso? disse o cônego. Pareces-me um bicho do mato! Fala direito com a gente, rapaz! Levanta essa cachimônia!
E, com a sua mão branca e fina, suspendeu-lhe pelo queixo a cabeça, que Manuelzinho insistia em ter baixa.
- Este ainda está muito peludo!... acrescentou. E perguntou-lhe depois uma porção de coisas: "Se tinha vontade de enriquecer, se não sonhava já com uma comenda: se tinha visto o pássaro guariba, se encontrara a árvore das patacas." O pequeno mastigava respostas inarticuladas, com um sorriso aflito...
- Como te chamas?
Ele não respondeu.
- Então não respondes?... Com certeza és Manuel!
O portuguesinho meneou a cabeça afirmativamente, e apertou a boca, para conter o riso que procurava uma válvula.
- Então é com a cabeça que se responde? Tu não sabes falar, mariola?
E, voltando-se para Ana Rosa:
- Isto é um sonso, minha afilhada! olhe em que estado ele traz as orelhas! Se tens a alma como tens o corpo, podes dá-la ao diabo! Tu já te confessaste aqui, maroto?
Manuelzinho não podendo já suster os beiços, abriu a boca e, com a forca de uma caldeira, soprou o riso que a tanto custo refreada.
- Olha que estas a cuspir-me, o patife! gritou o cônego. Bom, bom! vai-te! vai-te!
Repeliu-o e limpou a batina com o lenço.
Ana Rosa então correu os dedos pela cabeça do menino e puxou-o para si. Arregaçou-lhe as mangas da jaqueta e revistou-lhe as unhas. Estavam crescidas e sujas.
- Ah! censurou ela, você também não tão pequeno, que se desculpe isto!...
E, tirando do seu indispensável uma tesourinha, começou, com grande surpresa do caixeiro e até do cônego, a limpar as unhas da criança, dizendo ao outro, baixinho:
- Não sei como há mães que se separam de filhos desta idade... Também, coitados! devem amargar muito!...
A sua voz tinha já completa solicitudes de amor materno.
O cônego levantou-se e foi encostar-se ao parapeito da varanda, enquanto Ana Rosa, que continuava a cortar as unhas do menino, ia em segredo perguntando a este se não tinha saudades da sua terra e se não chorava ao lembrar-se da mãe.
Manuelzinho estava pasmado. Era a primeira vez que no Brasil lhe falavam com aquela ternura. Levantou a cabeça e encarou Ana Rosa; ele, que tinha sempre o olhar baixo e terrestre, procurou, sem vacilar, os olhos da
rapariga e fitou-os, cheio de confiança, sentindo por ela um súbito respeito, uma espécie de adoração inesperada. Afigurava-se extraordinário ao pobrezito desprezado de todos, que aquela senhora brasileira, tão limpa, tão bem vestida, tão perfumada e com as mãos tão macias, estivesse ali a cortar-lhe e assear-lhe as unhas.
A principio foi isto para ele um sacrifício horrível, um suplício insuportável. Desejava, de si para si, ver terminada aquela cena incômoda; queria fugir daquela posição difícil; resfolegava, sem ousar mexer com a cabeça, olhando para os lados, de esguelha, como a procura de uma saida, de algum lugar onde se escondesse ou de qualquer pretexto que o arrancasse dali.
Senha-se mal com aquilo, que dúvida! Não se animava a respirar livremente, receoso de fazer notar o seu hálito pela senhora; já lhe doíam as juntas do corpo, tal era a sua imobilidade contrafeita; não mexia sequer com um dedo. Depois do primeiro minuto de sacrifício, o suor começou logo a correr-lhe em bagas da cabeça pela gola do jaquetão, e o pequeno teve verdadeiros calafrios; mas quando Ana Rosa lhe falou da pátria e da mãe, com aquela penetrante meiguice que só as próprias mães sabem fazer, as lágrimas rebentaram-lhe dos olhos e desceram-lhe em silêncio pela cara.
Pois se era a primeira vez que no Brasil lhe falavam dessas coisas!...
O cônego assistia a tudo isto, calado, rufando sobre a sua tabaqueira de ouro as unhas burnidas a cinza de charuto e a sorrir como um bom velho. E, enquanto Ana Rosa, de cabeça baixa, toda desvelos, tratava do desgraçadinho, provocando-lhe as lágrimas e contendo as próprias, sabe Deus como! passava o Dias pelo fundo da varanda, sem ser sentido, o andar de gato, levando no coração uma grande raiva, só pelo fato de ver a filha do patrão acarinhando o outro.
Ralava-o aquela caridade. "Ele nunca tivera quem lhe cortasse as unhas!..." Amorfinava-o ver a Sra. D. Ana Rosa as voltas com semelhante bisca. "Punha a perder de todo a peste do pequeno!-Ora para que lhe havia de dar!... embonecar o súcio! Queria-o com certeza para seu chichisbéu! Contava já com ele para levar-lhe as cartas do desaforo e trazer-lhe os presentinhos de flores e os recados dos pelintras!... Ah! mas ele, o Dias, ali estava para lhes cortar as vazas!"
O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo fechado como um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podridão interior. Todavia, nas cores biliosas do rosto, no desprezo do próprio corpo, na taciturnidade paciente daquela exagerada economia, adivinhava-se-lhe uma idéia fixa um alvo, para o qual caminhava o acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que se equilibrasse sobre um corda tesa. Não desdenhava qualquer meio para chegar mais depressa aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho desde que lhe parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse mais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa - havia de passar por cima; havia de chegar ao alvo - enriquecer.
Quanto à figura, repugnante: magro e macilento, um tanto baixo um tanto curvado, pouca barba, testa curta e olhos fundos. O uso constante dos chinelos de trança fizera-lhe os pés monstruosos e chatos quando ele andava, lançava-os desairosamente para os lados, como o movimento dos palmípedes nadando. Aborrecia-o o charuto, o passeio, o teatro e as reuniões em que fosse necessário despender alguma coisa; quando estava perto da gente senta-se logo um cheiro azedo de roupas sugas.
Ana Rosa não podia conceber como uma mulher de certa ordem pudesse suportar semelhante porco "Enfim, resumia ela, quando, conversando com amigas, queria dar-lhes uma idéia justa do que era o Dias - sempre há um homem que não tem coragem de comprar uma escova de dentes!" As amigas respondiam "Iche!" mas em geral tínhamos na conta de moço benfazejo e de conduta exemplar.
À noite só deixava a porta do patrão nos sábados, para ir ao peixe frito em casa de uma mulata gorda que morava com duas filhas lá para os confins da Rua das Crioulas. Ia sempre sozinho. "Nada de troças!"
- Não tenho amigos... dizia ele constantemente, tenho apenas alguns conhecidos...
Nesses passeios levava às vezes uma garrafa de vinho do Porto ou uma lata de marmelada, e chamava a isso "fazer as suas extravagâncias". A mulata votava-lhe grande admiração e punha nele muita confiança: dava-lhe a guardar "os seus ouros" e as suas economias. Além desta, ninguém lhe conhecia outra relação particular; uma bela manhã, porém, o "exemplar moço" aparecera incomodado e pedira ao patrão que lhe deixasse ficar aquele dia no quarto. Manuel, todo solicito pelo seu bom empregado, mandou-lhe lã o médico.
- Então, que tinha o rapaz?
- Aquilo é mais porcaria que outra coisa, respondeu o facultativo, franzindo o nariz; mas receitou, recomendando banhos momos. "Banhos! de banhos principalmente é que ele precisava!"
E, quando viu o doente pela segunda vez, não se pôde ter, que lhe não dissesse:
- Olhe lá, meu amigo, que o asseio também faz parte do tratamento!
E acabou provando que a limpeza não era menos necessária ao
corpo do que a alimentação, principalmente em um clima daqueles
em que um homem esta sempre a transpirar.
Manuel foi à noite ao quarto do caixeiro. Falou-lhe com brandura paternal; lamentou-o com palavras amigáveis, e desatou um protesto, em forma de sermão contra o clima e os costumes do Brasil.
- Uma terrinha com que é preciso cuidado! Perigosa! Perigosa! dizia ele. Aqui a gente tem a vida por um fio de cabelo!
Tratou depois, com entusiasmo, de Portugal; lembrou as boas comezainas portuguesas: "As caldeiradas d'eirozes, a orelheira de porco com feijão branco, a acorda, o caldo gordo, o famoso bacalhau do Algarve!"
- Ai! o pescado! suspirou o Dias, saudoso pela terra. Que rico pitéu!
- E os nossos figos de comadre, e as nossas castanhas assadas, e o vinho verde?
Dias escutava com água
- Ai! a terra! .
O patrão falou-lhe também das comodidades, dos ares, das frutas e por fim dos divertimentos de Lisboa, terminando por contar fatos de moléstia; casos idênticos ao do Dias; transportou-se rindo ao seu tempo de rapaz, e, já de pé, pronto para sair, bateu-lhe no ombro, carinhosamente:
- Você, homem, o que devia era casar!...
E jurou-lhe que o casamento lhe estava mesmo calhando. "O Dias, com aquele gênio e com aquele método, dava por força um bom marido!... Que se casasse, e havia de ver se neo teria outra importância!..."
- Olhe! concluiu, digo-lhe agora como o doutor "Banhos! banhos, meu amigo" mas que sejam de igreja, compreende?
E, rindo com a própria pilhéria e todo cheio de sorrisos de boa intenção, saiu do quarto na ponta dos pés, cautelosamente, para que os outros caixeiros, a quem ele não dava a honra de uma visita daquelas, não lhe ouvissem as pisadas.
Quando Ana Rosa acabou de cortar as unhas de Manuelzinho deu-lhe de conselho que estudasse alguma coisa; prometeu que arranjaria com o pai metê-lo em uma aula noturna de primeiras letras, e recomendou-lhe que todos os dias de manhã tomasse o seu banho debaixo da bomba do poço.
- Faça isso, que serei por você, rematou a moça, afastando-o com uma ligeira palmada na cabeça.
O menino retirou-se, muito comovido, para o andar de cima, mas o Dias, de pé, no tope da escada, esperava por ele, furioso.
- Que estava fazendo, seu traste?
- Nada, respondeu a criança, a tremer. Fora a senhora que o chamara!...
Dias, com um muno, explicou que o maroto não podia pôr-se de palestra na varanda, em vez de cuidar das obrigações.
- E se me constar, acrescentou, cada vez mais zangado, que você me toma a ir com lamúrias para o lado de D. Anica, comigo se tem de haver, Seu mariola! Vai tudo aos ouvidos do patrão!
Manuelzinho arredou-se dali, convencido de que havia praticado uma tremenda falta; no íntimo, porém, ia muito satisfeito com a idéia de que já neo estava tão desamparado, e sentindo renascer-lhe, na obscura mágoa do seu desterro, um desejo alegre de continuar a viver.
A reunião em casa do Freitas esteve animada. Houve violão, cantoria, muita dança Chegaram a deitar chorado da Bahia.
Mas, pela volta da meia-noite, Ana Rosa, depois de uma valsa fora acometida de um ataque de nervos. Era o terceiro que lhe dava assim, sem mais nem menos.
Felizmente o médico, chamado a toda a pressa afiançou que aquilo não valia nada. "Distrações e bom passadio!" receitou ele, e, ao despedir-se de Manuel, segredou-lhe sorrindo:
- Se quiser dar saúde á sua filha, trate de casá-la...
- Mas o que tem ela, doutor?...
- Ora o que tem! Tem vinte anos! Está na idade de fazer o ninho! mas, enquanto não chega o casamento, ela que vá dando os seus passeios a pé. Banhos frios exercícios, bom passadio e distrações! Percebe?
Manuel na sua ignorância, imaginou que a filha alimentava ocultamente algum amor mal correspondido. Sacudiu os ombros. "Não era então coisa de cuidado." E, em cumprimento as ordens do médico, inaugurou com a enferma longos passeios pela fresca da madrugada.
Daí a dias, o cônego Diogo, contra a todos os seus hábitos, procurava o compadre às sete horas da manhã.
Atravessou o armazém, apressado como quem traz grande novidade, e, mal chegou ao negociante, foi lhe dizendo em tom misterioso:
- Sabe? Faz sinal de aparecer, e é o Cruzeiro...
Manuel largou logo de mão o serviço que fazia, subiu à varanda, deu as suas providências para receber um hóspede, e em seguida ganhou a rua com o amigo.
Eles a saírem de casa e a fortaleza de São Marcos a salvar, anunciando com um tiro, a entrada de paquete brasileiro.
Os dois tomaram um escaler e foram a bordo.
9.0pt;text-autospace:none'> Daí a pouco, entre as vistas interrogadoras dos curiosos, atravessou a Praça do Comércio um rapaz bem parecido, que ia acompanhado pelo cônego Diogo e por Manuel.
A novidade foi logo comentada. Os portugueses vinham, com as suas grandes barrigas. às portas dos armazéns de secos e molhados os barraqueiros espiavam por cima dos óculos de tartaruga: os pretos cangueiros paravam para "mirar o cara-nova". O Perua-gorda, em mangas de camisa, como quase todos os outros, acudiu logo à rua:
- Quem será esse gajo, ó coisa? perguntou ele ruidosamente a um súcio que passava na ocasião.
- Algum parente ou recomendado do Manuel Pescada. Veio do Sul.
- Ó aquele! sabes quem é o lanceiro que vai com o Pescada?
- Não sei, homem, mas é um rapagão!
Manuel apresentou o sobrinho a vários grupos. Houve sorrisos de delicadezas e grandes apertos de mão.
- É o filho de um mano do Pescada... diziam depois. Conhecemos-lhe muito a vida! Chama-se Raimundo Estava nos estudos.
- Vem estabelecer-se aqui? indagou o José Buxo.
- Não, creio que vem montar uma companhia...
Outros afiançavam que Raimundo era sócio capitalista da casa de Manuel. Discutiam-lhe a roupa, o modo de andar, a cor e os cabelos. O Luisinho Língua de Prata afirmava que ele "tinha casta".
Entretanto os três subiam a Rua da Estrela.
Chegados a casa, onde já havia pronto um quarto para o Sr. Dr. Raimundo José da Silva, o cônego e Manuel desfizeram-se em delicadezas com o rapaz.
- Benedito! vê cerveja! Ou prefere conhaque, doutor?... Olha moleque, prepara guaraná! Doutor, venha antes para este lado que esta mais fresco... não faça cerimônias! Vá entrando! vá entrando para a varanda! O senhor está em sua casa!...
Raimundo queixava-se do calor.
- Está horrível! dizia ele, a limpar o rosto com o lenço. Nunca suei tanto!
- O melhor então é recolher-se um pouco e ficar à vontade. Pode mudar de roupa, arejar-se A bagagem não tarda ai. Olhe, doutor, entre, entre e veja se fica bem aqui!
Os três penetraram no quarto destinado ao hóspede.
- O senhor, disse Manuel, tem aqui janelas para a rua e para o quintal. Ponha-se a gosto. Se precisar qualquer coisa, é só chamar pelo Benedito. Nada de cerimônias!
Raimundo agradeceu muito penhorado.
- Mandei dar-lhe cama, acrescentou o negociante, porque o senhor naturalmente não está afeito à rede, no entanto se quiser...
- Não, não muito obrigado. Está tudo muito bom. O que desejo é repousar um pouco justamente. Ainda tenho a cabeça a andar à roda.
- Pois então descanse, descanse, para depois almoçar com mais apetite… Até logo.
E Manuel e mais o compadre afastaram-se, cheios de cortesia e sorrisos de afabilidade.
Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro se não foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos lustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte mais característica da sua fisionomia era os olhos - grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo vaporoso e úmido as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a nanquim faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba raspada lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre papel de arroz.
Tinha os gestos bem educados. sóbrios, despidos de pretensão, falava em voz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e bom gosto; amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco menos, a política.
Em toda a sua vida, sempre longe da pátria, entre povos diversos, cheia de impressões diferentes tomada de preocupações de estudos, jamais conseguira chegar a uma dedução lógica e satisfatória a respeito da sua procedência. Não sabia ao certo quais eram as circunstâncias em que viera ao mundo não sabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se no entanto de haver saído em pequeno do Brasil e podia jurar que nunca lhe faltara o necessário e até o supérfluo. Em Lisboa tinha ordem franca.
Mas quem vinha a ser essa pessoa encarregada de acompanhá-la de tão longe?... Seu tutor, com certeza, ou coisa que o valha, ou talvez seu próprio tio pois, quanto ao pai sabia Raimundo que já o não tinha quando foi para Lisboa. Não porque chegasse a conhecê-lo, nem porque se recordasse de ter ouvido de alguém o doce nome de filho, mas sabia-o por intermédio do seu correspondente e pelo que deduzia de algumas vagas reminiscências da meninice.
"Sua mãe, porem, quem seria?..." Talvez alguma senhora culpada e receosa de patentear a sua vergonha!... "Seria boa? Seria virtuosa?..."
Raimundo perdia-se em conjeturas e, malgrado o seu desprendimento pelo passado, sentia alguma coisa atraí-lo irresistivelmente para a pátria. "Quem sabia se ai não descobriria a ponta do enigma?... Ele, que sempre vivera órfão de afeições legítimas e duradouras, como então seria feliz!... Ah, se chegasse a saber quem era sua mãe, perdoar-lhe-ia tudo, tudo!"
O quinhão de ternura, que a ela pertencia, estava intacto no coração do filho. Era preciso entregá-lo a alguém! Era preciso desvendar as circunstâncias que determinaram o seu nascimento!
"Mas, no fim de contas, refletia Raimundo em um retrocesso natural de impressões, que diabo tinha ele com tudo isso, se até ai, na ignorância desses fatos, vivera estimado e feliz!... Não foi decerto para semelhante coisa que viera à província! Por conseguinte, era liquidar os seus negócios, vender os seus bens e - por aqui é o caminho! O Rio de Janeiro lá estava a sua espera!
"Abriria, ao chegar lá, o seu escritório, e, ao lado da mulher com quem casasse e dos filhos que viesse a ter, nem sequer havia de lembrar-se do passado!
"Sim, que mais poderia desejar melhor?... Concluíra os estudos viajara muito, tinha saúde, possuía alguns bens de fortuna. - Era caminhar pra frente e deixar em paz o tal - passado! - O passado, passado! Ora adeus!"
E, chegando a esta conclusão, sentia-se feliz, independente, seguro contra as misérias da vida, cheio de confiança no futuro. "E por que não havia de fazer carreira? Ninguém podia ter melhores intenções do que ele?.. Não era um vadio, nem homem de maus instintos; aspirava ao casamento, à estabilidade; queria, no remanso de sua casa, entregar-se ao trabalho sério, tirar partido do que estudara, do que aprendera na Alemanha, na França, na Suíça e nos Estados Unidos. Faltava-lhe apenas vir ao Maranhão e liquidar os seus negócios. - Pois bem! cá estava - era aviar e pôr-se de novo a caminho!"
Foi com estas idéias que ele chegou à cidade de São Luís. E agora, na restauradora liberdade do quarto, depois de um banho tépido, o corpo ainda meio quebrado da viagem, o charuto entre os dedos, sentia se perfeitamente feliz, satisfeito com a sua sorte e com a sua consciência
- Ah! bocejou fechando os olhos. É liquidar os negócios e pôr-me ao fresco!...
E, com um novo bocejo, deixou cair ao chão o charuto, e adormeceu tranqüilamente.
No entanto, a história de Raimundo, a história que ele ignorava, era sabida por quantos conheceram os seus parentes no Maranhão.
Nasceu numa fazenda de escravos na Vila do Rosário, muitos anos depois que seu pai, José Pedro da Silva ai se refugiara, corrido do Pará ao grito de "Mata bicudo!" nas revoltas de 1831.
José da Silva havia enriquecido no contrabando dos negros da África e fora sempre mais ou menos perseguido e malquisto pelo povo do Pará; até que, um belo dia, se levantou contra ele a própria escravatura, que o teria exterminado, se uma das suas escravas mais moças por nome Domingas, não o prevenisse a tempo. Logrou passar incólume ao Maranhão, não sem pena de abandonar seus haveres e risco de cair em novos ódios, que esta província, como vizinha e tributária do comércio da outra, sustentava instigada pelo Farol contra os brasileiros adotivos e contra os portugueses. Todavia, conseguiu sempre salvar algum ouro; metal que naquele bom tempo corria abundante por todo o Brasil e que mais tarde a Guerra do Paraguai tinha de transformar em condecorações e fumaça.
A fuga fizeram eles, senhor e escrava, a pé, por maus caminhos, atravessando os sertões. Ainda não existia a companhia de vapores e os transportes marítimos dependiam então de vagarosas barcas, a vela e remo e, às vezes, puxadas a corda, nos igarapés. Foram dar com os ossos no Rosário. O contrabandista arranjou-se o melhor que pôde com a escrava que :. e restava, e, mais tarde, no lugar denominado São Brás, veio a comprar uma fazendola, onde cultivou café, algodão, tabaco e arroz.
Depois de vários abortos, Domingas deu à luz um filho de José da Silva. Chamou-se o vigário da freguesia e, no ato do batismo da criança, esta, como a mãe, receberam solenemente a carta de alforria.
Essa criança era Raimundo.
Na capital, entretanto, acalmavam-se os ânimos. José prosperou rapidamente no Rosário; cercou a amante e o filho de cuidados; relacionou-se com a vizinhança, criou amizades, e, no fim de pouco tempo, recebia em casamento a Sra. D. Quitéria Inocência de Freitas Santiago, viúva, brasileira rica, de muita religião e escrúpulos de sangue, e para quem um escravo não era um homem, e o fato de não ser branco, constituía só por si um crime.
Foi uma fera! a suas mãos, ou por ordem dela, vários escravos sucumbiram ao relho, ao tronco, à fome, à sede, e ao ferro em brasa. Mas nunca deixou de ser devota, cheia de superstições; tinha uma capela na fazenda, onde a escravatura, todas as noites com as mãos inchadas pelos bolos, ou as costas lanhadas pelo chicote, entoava súplicas à Virgem Santíssima. mãe dos infelizes.
Ao lado da capela o cemitério das suas vítimas.
Casara com José da Silva por dois motivos simplesmente: porque precisava de um homem, e ali não havia muito onde escolher, e porque lhe diziam que os portugueses são brancos de primeira água.
Nunca tivera filhos Um dia reparou que o marido, a titulo de padrinho, distinguia com certa ternura, o crioulo da Domingas e declarou logo que não admitia, nem mais um instante, aquele moleque na fazenda.
- Seu negreiro! gritava ela ao marido, fula de raiva. Você pensa que lhe deixarei criar, em minha companhia, os filhos que você tem das negras?... Era só também o que faltava' Não trate de despachar-me, quanto antes, o moleque, que serei eu quem o despacha, mas há de ser para ali, para junto da capela!
José, que sabia perfeitamente de quanto ela era capaz, correu logo à vila para dar as providências necessárias à segurança do filho. Mas, ao voltar à fazenda, gritos horrorosos atrairam-no ao rancho dos pretos. entrou descoroçoado e viu o seguinte:
Estendida por terra, com os pés no tronco, cabeça raspada e mãos amarradas para trás, permanecia Domingos, completamente nua e com as partes genitais queimadas a ferro em brasa. Ao lado, o filhinho de três anos, gritava como um possesso, tentando abraçá-la, e, de cada vez que ele se aproximava da mãe, dois negros, a ordem de Quitéria, desviavam o relho das costas da escrava para dardejá-lo contra a criança. A megera, de pé, horrível, bêbada de cólera, ria-se, praguejava obscenidades, uivando nos espasmos flagrantes da cólera Domingas, quase morta, gemia, estorcendo-se no chão O desarranjo de suas palavras e dos seus gestos denunciava já sintomas de loucura.
O pai de Raimundo, no primeiro assomo de indignação, tão furioso acometeu sobre a esposa, que a fez cair. Em seguida, ordenou que recolhessem Domingas à casa dos brancos e que lhe prodigalizassem todos os cuidados.
Quitéria, a conselho do vigário do lugar, um padre ainda moço, chamado Diogo, o mesmo que batizara Raimundo, fugiu essa noite para a fazenda de sua mãe, D. Úrsula Santiago, a meia légua dali.
O vigário era muito da casa das Santiago; dizia-se até aparentado com elas. O caso é que foi na qualidade de confessor, parente e amigo, que ele acompanhou Quitéria.
José da Silva, por esse tempo, chegava à cidade de São Luís com o filho. Procurou seu irmão mais moço, o Manuel Pedro, e entregou-lhe o pequeno, que ficaria sob as vistas do tio até ter idade para matricular-se num colégio de Lisboa.
Feito isso, tornou de novo para a sua roga. "Agora contava viver mais descansado. era natural que a mulher se deixasse ficar em casa da mãe." Ao chegar lá, sabendo que não o esperavam essa noite e como visse luz no quarto da esposa, apeou-se em distância e, para não se encontrar com ela, guardou o cavalo e entrou silenciosamente na fazenda.
Os cães conheceram-no pelo faro e apenas rosnaram. Mas, na ocasião em que ele passava de fronte do quarto de Quitéria, ouviu aí sussurros de vozes que conversavam. Aproximou-se levado pela curiosidade e encostou o ouvido à porta. Reconheceu logo a voz da mulher.
"Mas, com quem diabo ela conversaria aquela hora?..."
Conteve a impaciência e esperou de ouvido alerta.
"Não havia dúvida! - a outra voz era de um homem!..."
Sem esperar mais nada, meteu ombros à porta e, precipitou-se dentro do quarto, atirando-se com fúria sobre a esposa, que perdera logo os sentidos.
O padre Diogo, pois era dele a outra voz, não tivera tempo de fugir e caíra, trêmulo, aos pés de José. Quando este largou das mãos a traidora, para se apossar do outro, reparou que a tinha estrangulado. Ficou perplexo e tolhido de assombro.
Houve então um silêncio ansioso. Ouvia-se o resfolegar dos dois homens. A situação dificultava-se; mas o vigário, recuperando o sangue-frio, ergueu-se, concertou as roupas e, apontando para o corpo da amante, disse com firmeza:
- Matou-a! Você é um criminoso!
- Cachorro! E tu?! Tu serás porventura menos criminoso do que eu?
- Perante as leis, decerto! porque você nunca poderá provar a minha suposta culpa e, se tentasse fazê-lo, a vergonha do fato recairia toda sobre a sua própria cabeça, ao passo que eu, além do crime de injúria consumado na minha sagrada pessoa, sou testemunha do assassínio desta minha infeliz e inocente confessada, assassínio que facilmente documentarei com o corpo de delito que aqui está!
E mostrava a marca das mãos de José na garganta do cadáver.
O assassino ficou aterrado e abaixou a cabeça.
- Vamos lá!... disse o padre afinal, sorrindo e batendo no ombro do português. Tudo neste mundo se pode arranjar, com a divina ajuda de Deus... só para a morte não há remédio! Se quiser, a defunta será sepultada com todas as formalidades civis e religiosas...
E, dando à voz um cunho particular de autoridade: - Apenas pelo meu silêncio sobre o crime, exijo em troca o seu para a minha culpa... Aceita?
José saiu do quarto, cego de cólera, de vergonha e de remorso.
- Que vida a sua! exclamava. Que vida, santo Deus!
O padre cumpriu a promessa o cadáver enterrou-se na capela de São Brás, ao lado das suas vítimas; e todos os do lugar, até mesmo os de casa, atribuíram a morte de Quitéria ao espírito maligno que se lhe havia metido no corpo.
O vigário confirmava esses boatos e continuava a pastorar tranqüilamente o seu rebanho, sempre tido por homem de muita saudade e de grandes virtudes teologais. Os devotos continuaram a trazer-lhe, de muitas léguas de distância, os melhores bácoros, galinhas e perus dos seus cercados.
Em breve, as coisas voltavam todas aos eixos: José entregou a fazenda a Domingas e mais três pretos velhos, que alforriou logo, e, acompanhado pelo resto da escravatura, seguiu para a cidade de São Luís, no propósito de liquidar seus bens e recolher-se à pátria com o filho.
A mãe de Raimundo conseguiu enfim descansar. São Brás criou a sua lenda e foi aos poucos ganhando fama de amaldiçoada. Entretanto, o pequeno, quando chegou à casa do tio na capital, estava, como facilmente se pode julgar, com a pele sobre os ossos. A falta de cuidados espalhara-lhe na carinha opada uma expressão triste de moléstia; quase que não conseguia abrir os olhos. Todo ele era mau trato e fraqueza; tinha o estômago muito sujo, a língua saburrenta, o corpo a finar-se de reumatismo e tosse convulsa, o sangue predisposto à anemia escrofulosa. Apesar do instinto materno, que a tudo resiste e vence, a pobre escrava não podia olhar nunca pelo filho: lá estava Quitéria para desviá-la dele, para cortar-lhe as carícias a chicote; tanto assim, que, quando José lhe anunciou que Raimundo ia para a casa do fio na cidade, a infeliz abençoou com lágrimas desesperadas aquela separação.
Todavia, o desgraçadinho foi encontrar em Mariana, cunhada de seu pai, a mais carinhosa e terna das projetoras. A boa senhora, como sabia que o marido o pouco que tinha devia à generosidade do irmão, julgou-se logo obrigada a servir de mãe ao filho deste. Ana Rosa, único fruto do seu casamento, ainda não era nascida nesse tempo, de sorte que as premissas da sua maternidade pertenceram ao pupilo.
Dentro em pouco, no agasalho carinhoso daquelas asas de mãe, Raimundo, de feio que era, tornou-se uma criança forte, sã e bonita.
Foi então que Ana Rosa veio ao mundo; a principio muito fraquinha e quase sem dar acordo de si. Manuel andava aflito, com medo de perdê-la. Que luta, os três primeiros meses de sua vida! Parecia morrer a todo instante, coitadinha! Ninguém dormia na casa; o negociante chorava como um perdido, enquanto a mulher fazia promessas aos santos da sua devoção.
Era por isto que a menina, mais tarde, se recordava agradavelmente de ter feito o anjo da verônica nas procissões da quaresma.
E ao lado de Mariana, que noite e dia velava o berço da filhinha enferma, estava Mundico, o outro filho, que este também a chamava de mãe e já se não lembrava da verdadeira, da preta que o trouxera nas entranhas.
A menina salvou-se, graças aos bons serviços de um médico, que chegara havia pouco da universidade de Montpellier, Dr. Jauffret, e, a partir daí Manuel não quis saber de outro facultativo em sua casa.
Por essa época, mais ou menos, chegava do Rosário a notícia de haver D. Quitéria sucumbido a uma congestão cerebral.
- Deu-lhe de repente! explicava o correio, com o seu saco de couro às costas. Foi obra do sujo, credo!
E, pouco depois, José Pedro da Silva, todo coberto de luto, muito encanecido e desfeito, vinha liquidar os seus negócios e partir logo para Portugal. Manuel estimava-o deveras e sentia-se de vê-lo naquele estado.
Aprontou-se tudo para a viagem e José recolheu-se a última noite em casa do irmão. Mas não pôde pregar olho, estava excitado, e a lembrança dos terríveis sucessos, que ultimamente se haviam dado com ele, nunca o apoquentara tanto. Levantou-se e começou a passear no quarto, a falar sozinho, nervoso, delirante, vendo surgir espectros de todos os lados.
Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas as vezes que acordava, via luz no quarto do hóspede e ouvia-lhe o som dos passos trôpegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o vozear frouxo e doloroso, não se pôde ter e levantou-se. "Terá alguma coisa o José?..." pensou ele, embrulhando-se no lençol e tomando aquela direção. A porta achava-se apenas no trinco, abriu-a devagar e entrou. O viúvo, ao sentir alguém, voltou-se assombrado e dando com o fantasma que lhe invadia a alcova, recuou de braços erguidos, entre gritos terror. Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse a conhecer, já o assassino de Quitéria havia caldo desamparadamente no chão.
Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no Caminho Grande, e na qual os caixeiros do negociante ainda neo moravam com o patrão. A boa Mariana acudiu pronta cheia de zelo. "Um escalda-pés! depressa!" dizia, apalpando os contraídos e volumosos pós do cunhado. Tisanas, mezinhas de toda a espécie, foram lembradas; pôs-se em campo a medicina doméstica, e, daí a uma hora o desfalecido voltava a si.
Mas não pôde erguer-se: ficara muito prostrado. À síncope sobreveio-lhe uma febre violenta, que durou até à noite, quando chegou afinal o Jauffret.
Era uma febre gástrica, explicou este. E mais: que a moléstia; requeria certo cuidado-muito sossego de espírito! Nada de bulha, principalmente!
José, malgrado a recomendação do médico, quis ver o filho. Abraçou-o soluçando, disse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de cama, perfilhou-o; pediu um tabelião, fez testamento e, chorando, chamou Manuel para seu lado.
- Meu irmão, recomendou-lhe. Se eu for desta... o que é possível, remete-me logo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.
Terminou dizendo "que o queria - com muito saber - que o metessem num colégio de primeira sorte. Ficava ai bastante dinheiro... não tivessem pena de gastar com o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais fino". Estas coisas fizeram-no piorar; já todos os choravam como morto, e, pelos dias de mais risco, quando José delirava na sua febre, apareceu em casa do Manuel o pároco do Rosário; vinha muito solicito, saber do estado do seu amigo José "do seu irmão" dizia ele com uma grande piedade.
E daí, não abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, serviçal discreto, às vezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo Manuel e Mariana não se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom padre, o interesse com que ele chegava todos os dias para pedir noticias do amigo. Dispensavam-lhe um grande acolhimento; achavam-no meigo, jeitoso e simpático.
- É um santo homem! dizia Manuel convencido.
Mariana confirmava acrescentando em voz baixa:
- Por adulação não é, coitado! Todos sabem que o padre Diogo não precisa de migalhas!...
- É remediado de fortuna, pois não! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o que possui...
Seguia-se uma longa resenha dos episódios louváveis da vida do santo vigário; citavam-se rasgos de abnegação, boas esmolas a criaturas desamparadas, perdões de ofensas graves, provas de amizade e provas de desinteresse. "Um santo! Um verdadeiro santo!"
E assim foi o padre Diogo tomando pé em casa de Manuel e fazendo-se todo de lá. Já contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas as tardes com café, e à noite, nos serões da família, marido e mulher não perdiam ocasião de contar as boas pilhérias do senhor vigário, glorificar-lhe as virtudes religiosas e recomendá-lo às visitas como um excelente amigo e magnífico protetor. Um dia em que ele, como sempre, cheio de solicitude, perguntava pelo "seu doente" disseram-lhe que José estava livre de maior perigo e que o restabelecimento seria completo com a viagem à Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito; mas, se alguém lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas, ter-se-ia admirado de ouvir estas e outras frases:
- Diabo!... Querem ver que ainda não se vai desta, o maldito?... E eu, que já o tinha por despachado!...
No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: - Bom, agora que o nosso homem está livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha paróquia... Já não vou sem tempo!...
E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos angélicos, acompanhado pelas bênçãos da família.
- Senhor vigário! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. Não faça agora como os médicos, que só aparecem com as moléstias!... Seja cá de casa!
-Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Apareça!
Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueirão em demanda da sua freguesia.
Essa noite, nas salas de Manuel, só se conversou sobre as boas qualidades e os bons precedentes do estimado cura do Rosário.
José, com geral contentamento dos de casa, convalescia prodigiosamente. Manuel e Mariana cercavam-no de afagos, desejosos por fazê-lo esquecer a imprudência da madrugada fatal, o que, supunham, fosse o único motivo da moléstia; daí a coisa de um mês, o convalescente resolveu tomar à fazenda, a despeito das instâncias contrárias da cunhada e dos conselhos do irmão.
- Que vais lã fazer, homem de Deus? perguntava este. Se era por causa da Domingas, que diabo! fizesse-a vir! O melhor porém, segundo a sua fraca opinião, seria deixá-la lã onde estava. Uma preta da roça, que nunca saiu do mato!...
Não! não era isso! respondia o outro. Mas neo iria para a terra, sem ter dado uma vista d'olhos ao Rosário!
- Ao menos não vai só, José. Eu posso acompanhar-te.
José agradeceu. Que já estava perfeitamente bom. E, em caso de necessidade, podia contar com os canoeiros, que eram todos seus homens.
E dizia as inúmeras viagens que tinha feito até ali; contava episódios a respeito do Boqueirão. "E que se deixassem disso! Não estivessem a fazer daquela viagem um bicho de sete cabeças!... Haviam de ver que, antes do fim do mês, estava ele de velas para Lisboa."
Partiu. A viagem correu-lhe estúpida, como de costume naquele tempo, em que o Maranhão ainda não tinha vapores. Demais, a sua fazenda era longe, muito dentro, a cinco léguas da vila. Urgia, por conseguinte, demorar-se aí algumas horas antes de internar-se no mato; comer, beber, tratar dos animais; arranjar condução e fazer a matalotagem.
Os poucos familiarizados com tais caminhos tomam sempre, por precaução, um "pajem", é este o nome que ali romanticamente se dá ao guia; e o pajem menos serve para guiar o viajante, que a estrada é boa, do que para lhe afugentar o tenor dos mocambos, das onças e cobras de que falam com assombro os moradores do lugar.
Não é tão infundado aquele tenor: o sertão da província está cheio de mocambeiros, onde vivem os escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos, formando uma grande família de malfeitores. Esses desgraçados, quando não podem ou não querem viver da caça, que é por lá muito abundante e de fácil venda na vila, lançam-se à rapinagem e atacam na estrada os viajantes; travando-se, às vezes, entre uns e outros, verdadeiras guerrilhas, em que ficam por terra muitas vítimas.
José da Silva comprou na vila o que lhe convinha e seguiu, sem pajem para a fazenda.
Ah! Ele conhecia perfeitamente essas paragens!...
E quantas recordações não lhe despertavam aquelas carnaubeiras solitárias, aqueles pindovais ermos e silenciosos e aqueles trêmulos horizontes de verdura! Quantas vezes, perseguindo uma paca ou um veado, não atravessou ele, a galope, aqueles barrancos perigosos que se perdiam da estrada!
Pungia-lhe agora deixar tudo isso; abandonar o encanto selvagem das florestas brasileiras O europeu sentia-se americano, familiar às vozes misteriosas daqueles caités sempre verdejantes, habituado à companhia austera daquelas árvores seculares, às sestas preguiçosas da fazenda, ao viver amplo da roga, descalço, o peito nu, a rede embalada pela viração cheirosa das matas, o sono vigiado por escravos.
E tinha de deixar tudo isso!
"Para que negar? Havia de custar-lhe muito!" considerou ele, fazendo estacar o seu animal. Havia andado quatro léguas e precisava comer alguma coisa.
No interior do Maranhão o viajante, de ordinário, "pousa" e come nas fazendas que vai encontrando pelo caminho, tanto que todas elas, contando já com isso, têm sempre cômodos especiais, destinados exclusivamente aos hóspedes adventícios; mas com José da Silva, que, aliás muitas e muitas vezes pernoitara em diversas e conhecia de perto a hospitalidade dos seus vizinhos, a coisa mudava agora de figura: não queria de forma alguma suportar a companhia de ninguém; receava que o interrogassem sobre a morte da mulher. Preferiu pois jantar mesmo ao relento, e seguir logo sua viagem.
Não obstante, ia já escurecendo, as cigarras estridulavam em coro; ouvia-se o lamentoso piar das rolas que se aninhavam para dormir; toda a natureza se embuçava em sombras, bocejando.
Anoitecia lentamente.