Então, José da Silva sentiu mais negra por dentro a sua viuvez; sentiu um grande desejo de chegar a casa, mas queria encontrar uma boa mesa, onde comesse e bebesse à vontade, como dantes; queria a sua cama larga, de casados, o seu cachimbo, o seu trajo de casa.
Ah! Nada disso encontraria!... O quarto, em que ele, durante tantos anos, dormia feliz, devia ser àquela hora um ermo pavoroso; a cozinha devia estar gelada, os armários vazios, a horta murcha, os potes secos, o leito sem mulher!
Que desconsolo!
Apesar de tudo sentia fundas saudades da esposa.
- Como o homem precisa de família! .. lamentava ele no seu isolamento. Ah padre! Aquele maldito padre! E daí, quem sabe?... se eu perdoasse?... ela talvez se arrependesse e viesse ainda a dar uma boa companheira, virtuosa e dócil!... Mas... e ele?... Oh nunca! Ele existiria! A duvida continuava na mesma! Ele, só ele é que eu devia ter matado!
E depois de refletir um instante:
- Não! antes assim! Assim foi melhor!
Esta conclusão, arrancada só pelo seu espírita religioso, foi seguida de um movimento rápido de esporas. O cavalo disparou. Fez-se então um correr vertiginoso, em que José, todo vergado sobre a sela, parecia dormir na cadeia do galope. Mas, de súbito, contraiu as rédeas e o animal estacou.
O cavaleiro torceu a cabeça, concheando a mão atrás da orelha. Vinha de longe uma toada estranha de vozes sussurrantes, e um confuso tropel de cavalgaduras.
A noite exalava da floresta. Sentiam-se ainda as derradeiras claridades do dia e já também um crescente acumular de sombras. A lua erguia se, brilhando com a altivez de um novo monarca que inspeciona os seus domínios, e o céu ainda estava todo ensangüentado da púrpura do último sol, que fugia no horizonte, trêmulo. como um rei expulso e envergonhado.
José da Silva, entregue todo aos seus tormentos. assistia, sem apreciar, ao espetáculo maravilhoso de um crepúsculo de verão no extremo norte do Brasil.
O sol descambava no ocaso, retocando de tons quentes e vigorosos, com a minuciosidade de um pintor flamengo, tudo aquilo que o cercava. Desse lado, montes e vales tinham orlas de ouro; era tudo vermelho e esfogueado: ao passo que, do ponto contrário, lhe opunha o luar o doce contraste da sua luz argentina e fresca, debuxando contra o horizonte o trêmulo e duvidoso perfil das carnaubeiras e dos pindovais.
Destas bandas, no conflito boreal daquelas duas luzes inimigas, um grupo mal definido e rumoroso agitava-se e crescia progressivamente.
Era uma caravana de ciganos que se aproximava.
Vinha lentamente, com o passo frouxo de uma boiada. Na solidão tristonha e sombria da floresta iam-se pouco a pouco distinguindo vozes de tons diversos e acentuavam-se grupo de homens. mulheres e crianças, de todas as cores e de todas as idades, cavalgando magníficos animais. Uns cantavam ao embalo monótono da besta; outros tocavam viola; esta acalentava o filho, aquela repetia as modas que lhe ensinara a gajoa. Viam-se moços. de calça e quinzena, cabelos grandes, o ar indolente, o cachimbo ao canto da boca, o olhar vago e cheio de volúpia, ao lado de raparigas fortes, queimadas do sol, com as melenas muito negras e lisas escorrendo sobre a opulência das espáduas. Sentavam-se à moda de odaliscas em volumosas trouxas, que serviam, a um tempo, de alforje e de sela. Algumas delas traziam filhos ao colo ou na garupa do cavalo.
E, lenta e pesadamente, a caravana dos ciganos se aproximava. José escondeu-se no mato, para a ver passar.
Com certeza vinha enxotada de alguma fazenda, porque o chefe, um velho membrudo, de grandes barbas brancas, olhos cor de fumo, cavados e sombrios, mas irrequietos e vivos, erguia, de vez em quando, o braço e ameaçava o poente:
- Jacarés te piquem diabo! Atravessado tu sejas na boca de um bacamarte!
E a voz rouca e profunda do ancião perdia-se na floresta.
Meio deitada nas pernas dele, cingindo-lhe a cintura, uma mulher bela, o colo nu e fresco, a garganta lisa e carnuda, procurava, com o olhar muito mole de uma ternura úmida e escrava, diminuir-lhe a cólera.
E a caravana, iluminada pelos últímos raios da claridade poente, foi passando. E a pouco e pouco o sussurrar das vozes foi se perdendo no tristonho murmúrio das matas, como no horizonte se perdia a última réstia de luz vermelha.
Em breve, tudo recaiu no silêncio primitivo, e a lua, do alto, baldeava com a sua luz misteriosa e triste a solidão das clareiras.
José ficou imóvel, pensativo, perdido num desgosto invencível. O espetáculo daquele velho boêmio, abraçado a uma mulher bonita e sem dúvida fiel, mordia-o por dentro com o dente mais agudo da inveja. "Aquele. um vagabundo, um miserável. sem lar, sem dinheiro, sem mocidade ao menos, tinha contudo nesta vida uma fêmea que o acarinhava e seguia como escrava: ao passo que ele, ali, no meio do campo, desacompanhado, inteiramente esquecido, chorava, porque lhe arrancaram tudo, tudo - a casa, a mulher e a felicidade!" E depois pela associação natural das idéias, punha-se a lembrar do rosto pálido de Diogo. A despeito do ódio que lhe votava, achava-o bonito, com o seu cabelo todo anelado, o sorriso temo e piedoso, olhos e lábios de uma expressão sensual e ao mesmo tempo religiosa. Este contraste devia por força agradar às mulheres, vencê-las pelos mistérios, pelo incognoscível. E chorava, chorava cada vez mais.
"Como eles não se amariam!... Quanto prazer não teriam desfrutado!... "
Instintivamente comparava-se ao padre e, cheio de raiva, de inveja, reconhecia-se inferior. De repente, veio-lhe esta idéia:
"E se eu o matasse?..."
Repeliu-a logo, sem querer nem ao menos escutá-la; mas a idéia não ia e agarrava-se-lhe ao cérebro, com uma obstinação de parasita.
Então, vieram-lhe à lembrança, sob uma reminiscência lúcida e saudosa-o seu casamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quitéria. Tudo isso nunca lhe pareceu tão bom, tão apetecível como naquele momento. Agora, descobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as quais nunca atentara dantes.
"Seria eu o culpado de tudo?... Não teria cumprido com os meus deveres de bom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?.." interrogava ele à própria consciência; esta respondia opondo-lhe duvidas que valiam acusações. Ele defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor, lembrava a sua dedicação e a sua amizade pela defunta; mas a maldita rezingueira não se acomodava e não aceitava razões. E José abriu a chorar como um perdido.
Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas no cavalo. Correu muito, à rédea solta como se fugira perseguido pela própria sombra.
"E se eu o matasse?..."
Era a maldita idéia que vinha de novo à superfície dos seus pensamentos.
"Não! Não!" E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua imaginação, como o assassino que repele no mar o cadáver da sua vítima; ela mergulhava com o impulso, mas logo reaparecia, boiando.
"E se eu o matasse?..."
- Não! não! exclamou, desferindo um grito no silêncio da floresta. Já basta a outra!
E assanhavam-se-lhe os remorsos.
Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho; José suava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos eriçava-lhe os cabelos.
No entanto - corria.
Pouco lhe faltava já para chegar à fazenda, muito pouco, uma miserável distancia, e, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto da viagem. Fechou os olhos e deixou que o cavalo corresse à toa, galopando ruidosamente na terra úmida de orvalho. Ele ofegava, acossado por fantasmas Via a sua vitima. com a boca muito aberta, os olhos convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa voz de moribunda, a língua de fora, enorme e negra, entre gorgolhões de sangue. E via também surgir aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe, sorrindo, um alvitre, propor uma condição e passar logo à ameaça brutal: "Tenho-te na mão, assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te à justiça! "
E José gritou, como doido, soluçando:
- E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!
Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detrás do tronco de um ingazeiro, e uma bala, seguida pela detonação de um tiro, varou o peito de José da Silva.
Os negros de São Brás viram aparecer lá o animal as soltas, e todo salpicado de sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada, correram todos nessa direção à procura da vítima.
Foi Domingas que a descobriu, e, num delito, precipitou-se contra o cadáver, a beijar-lhe as mãos e as faces.
- Meu senhor! meu querido' meus amores! exclamava ela, a soluçar convulsivamente.
Mas, tomada de uma idéia súbita, ergueu-se, e gritou, apontando vagamente para o lado da vila.
- Foi ele! Não foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!
E pôs-se a rir e a dançar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que voltava.
O crime foi atribuído aos mocambeiros e o corpo de José da Silva enterrado junto à sepultura da mulher, ao lado da capela, que principiava a desmoronar com a mingua dos antigos cuidados.
A fazenda aos poucos se converteu em tapera e lendas e superstições de todo o gênero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vigário do lugar, pessoa insuspeita e criteriosa, nem só confirmava o que diziam, como aconselhava a que não fossem lá. ''Aquilo eram terras amaldiçoadas!"
Anos depois, contavam que nas ruínas de São Brás vivia uma preta feiticeira, que, por alta noite, saia pelos campos a imitar o canto da mãe-da-lua.
Ninguém se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que se perdesse em tais paragens, via percorrer o cemitério, a cantar e a rodar, um vulto alto e magro de mulher, coberto de andrajos.
A morte inesperada de José causou grande abalo no irmão e ainda mais em Mariana. Raimundo era muito criança, não a compreendeu; por esse tempo teria ele cinco anos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e disseram-lhe que estava de luto pelo pai. Manuel tratou do inventário; recebeu o que lhe coube e mais a mulher na herança; depositou no recém-criado banco da província o que pertencia ao órfão e, apesar das vantagens que propôs para vender ou arrendar a fazenda de São Brás, ninguém a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo esclarecimentos à Casa Peixoto, Costa & Cia., e uma vez bem informado no que desejava, remeteu o sobrinho para um colégio daquela cidade.
Muito custou à bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Doía aquele coração amoroso ver expatriar-se, assim, tão sem mãe, uma pobre criança de cinco anos. O pequeno, todavia, depois de preparado com todo o desvelo, foi metido, a chorar, dentro de um navio, e partiu.
Ia recomendado ao comandante e lamentava-se muito em viagem. Quando chegou a Lisboa teve horror de tudo que o cercava. Entretanto, foi sempre bem tratado: seu correspondente hospedou-o como a um parente, tratou o como filho; depois, meteu-o num colégio dos melhores.
Raimundo envergou o uniforme da casa, recebeu um número, e freqüentou as aulas. A princípio, logo que o deixavam sozinho, punha-se a chorar. Tinha muito medo do escuro; à noite, cosia-se contra a parede, abraçado aos travesseiros. Não gostava dos outros meninos, porque lhe chamavam "Macaquinho". Era teimoso, cheio de capuchos, ressentia-se muito da má educação que os portugueses trouxeram para o Brasil.
No colégio era o único estudante que se chamava Raimundo e os colegas ridicularizavam-lhe o nome, "Raimundo Mundico Nico!" diziam lhe, puxando-lhe a blusa e batendo-lhe na cabeça tosquiada à escovinha; até que ele se retirava enfiado, sem querer tomar ao recreio, a chorar e a berrar que o mandassem para a sua terra. Mas, com o tempo, apareceram lhe amigos e a vida então se lhe afigurou melhor. Já faziam as suas palestras; os companheiros não se cansavam de pedir-lhe informação sobre o Brasil. "Como eram os selvagens?... E se a gente encontrava, pelas ruas, mulheres despidas: e se Raimundo nunca fora varado por alguma flecha dos caboclos."
Um dia recebeu uma carta de Mariana e, pela primeira vez, deu-se ao cuidado de pensar em si. Mas as suas reminiscências não iam além da casa do tio; no entanto, queria parecer-lhe que a sua verdadeira mãe não era aquela senhora aquela vinha a ser sua tia, porque era a mulher de seu tio Manuel: e até, se lhe não falhava a memória, por mais de uma vez ouvira dela própria falar na outra, na sua verdadeira mãe... 'Mas quem seria a outra? Como se chamava?... Nunca lho disseram!..."
Quanto a seu pai, devia ser aquele homem barbado que, numa noite, lhe apareceu, muito pálido e aflito, e por quem pouco depois o cobriram de luto. Da cena dessa noite lembrava-se perfeitamente! Já estava recolhido, foram buscá-lo à rede e trouxeram-no, estremunhado, para as pernas do tal sujeito, por sinal que as suas barbas tinham na ocasião certa umidade aborrecida, que Raimundo agora calculava ser produzida pelas lágrimas; depois foi se deitar e não pensou mais nisso. Recordava-se também. mas não com tamanha lucidez, do tempo em que aquele mesmo homem esteve doente, lembrava-se de ter recebido dele muitos beijos e abraços, e só agora notava que todos esses afagos eram sempre ocultos e assustados, feitos como que ilegalmente, às escondidas, e quase sempre acompanhados de choro.
Depois destas e outras divagações pelo passado, Raimundo, se bem que muito novo ainda, punha-se a pensar e os véus misteriosos da sua infância assombravam-lhe já o coração com uma tristeza vaga e obscura, numa perplexidade cheia de desgosto. Todo o seu desejo era correr aos braços de Mariana e pedir-lhe que lhe dissesse, por amor de Deus, quem afinal vinha a ser seu pai e, principalmente, sua mãe.
Passaram-se anos, e ele permaneceu enleado nas mesmas dúvidas. Concluiu os seus preparatórios, habilitou-se a entrar para a Academia. E sempre as mesmas incertezas a respeito da sua procedência.
Matriculou-se em Coimbra. Desde então a sua vida mudou radicalmente; todo ele se transformou nos seus modos de ver e julgar. Principiou a ser alegre.
Mas um golpe terrível veio de novo entristecê-lo - a morte da sua mãe adotiva. Chorou-a longa e amargamente; não só por ela, mas também muito por si próprio: perdendo Mariana, perdia tudo que o ligava ao passado e à pátria. Nunca se considerou tão órfão. Todavia, com o correr dos tempos, dispersaram-se-lhe as magoas e a mocidade triunfou; a criança melancólica produziu um rapaz cheio de vida e bom humor; sentiu-se bem dentro da sua romântica batina de estudante; meteu-se em pândega com os colegas; contraiu novos amigos, e afinal reparou que tinha talento e graça; escreveu sátiras, ridicularizando os professores antipatizados; ganhou ódios e admiradores; teve quem o temesse e teve quem o imitasse. No segundo ano deu para namorador: atirou-se aos versos líricos, cantou o amor em todos os metros depois vieram-lhe idéias revolucionárias, meteu-se em clubes incendiários, falou muito, e foi aplaudido pelos seus companheiros. No terceiro ano tornou-se janota, gastou mais do que nos outros, teve amantes, em compensação veio-lhe a febre dos jornais, escreveu com entusiasmo sobre todos os assuntos, desde o artigo de fundo até à crônica teatral. No quarto, porém, distinguiu-se na Academia, criou gosto pela ciência, e daí em diante fez-se homem, firmou a sua imputabilidade, tomou-se muito estudioso e sério. Seus discursos acadêmicos foram apreciados; elogiaram-lhe a tese. Formou-se.
Veio-lhe então à idéia fazer uma viagem. Em Coimbra todos o diziam rico; tinha ordem franca. Preparou as malas. Sua principal ambição era instruir-se, instruir-se muito, abranger a maior quantidade de conhecimentos que pudesse; e senha-se cheio de coragem para a luta e cheio de confiança no seu esforço.
Às vezes, porém uma sombra de tristeza mesquinha toldava-lhe as aspirações - não sabia ao certo de quem descendia, e de que modo e por quem, fora adquirido aquele dinheiro que lhe enchia as algibeiras. Procurou o seu correspondente em Lisboa, pediu-lhe esclarecimentos a esse respeito - Nada! O Peixoto dizia-lhe, em tom muito seco, "que o pai de Raimundo havia morrido antes da chegada deste a Portugal, e o fio, o tutor, esse estava no Maranhão, estabelecido na Rua da Estrela com um armazém de fazendas por atacado". De sua mãe - nem uma palavra, nem uma atribuição!...
Era para enlouquecer! "Mas, afinal, quem seria ela?... Talvez irmã daquela santa senhora que foi para ele uma segunda mãe... Mas então por que tanto mistério?... Seta alguma história, a tal ponto vergonhosa, que ninguém se atrevesse a revelar-lhe?... Seria ele enjeitado?... Não, decerto, porque era herdeiro de seu pai..." E Raimundo, quanto mais tentava por a limpo a sua existência, mais e mais se perdia no dédalo das conjeturas.
Das cartas que recebia do Brasil, nem uma só lhe falava no passado, e todavia, era tanto o seu empenho em penetrá-lo, que às vezes, com muito esforço de memória, conseguia reconstruir e articular fragmentos dispersos de algumas reminiscências, incompletas e vagas, da sua infância. Lograva recordar-se da Aniquinha, que tantas noites, adormecera a seu lado, na mesma esteira, ouvindo cantar por D. Mariana o "Boizinho do curral, vem papar neném"; recordava-se também da Sra. D. Maria Bárbara, a sogra de Manuel, que ia, com muito aparato, visitar a neta; passar dias. Em geral, ela chegava à boca da noite, no seu palanquim carregado por dois escravos, vestida de enorme roda cercada de crias e moleques, precedida por um preto encarregado de alumiar a n a com um lampião de folha, oitavado, duas velas no centro. E o demônio da mulher sempre a ralhar, sempre zangada, batendo nos negros e a implicar com ele, Raimundo, a quem, todas as vezes que lhe dava a mão a beijar, pespegava com as costas destas uma pancada na boca. E recordava-se bem do rosto macilento de Mana Bárbara, já então meio descaído; recordava-se dos seus olhos castanho-claros, de seus dentes triangulares, truncados a navalha, como barbaramente faziam dantes, por luxo, as senhoras do Maranhão, criadas em fazenda.
Raimundo, uma vez, ainda em Coimbra, aspirando o cheiro de alfazema queimada, sentiu, como por encanto, sugerirem-lhe à memória muitos fatos de que nunca se recordara até então. Lembrou-se logo do nascimento de Ana Rosa: A casa estava toda silenciosa e impregnada daquele odor; Mariana gemia no seu quarto; Manuel andava, de um para outro lado da varanda, inquieto e desorientado; mas, de repente, apareceu na porta do quarto uma mulata gorda, a quem davam o tratamento de "Inhá comadre", e esta, que vinha alvoroçada, chamou de parte o dono da casa, disse-lhe alguma coisa em segredo, e daí a pouco estavam todos felizes e satisfeitos. E ouvia-se vir lá de dentro um grunhido fanhoso, que parecia uma gaita. Na ocasião, Raimundo nada compreendeu de tudo isto; disseram-lhe que Mariana recebera uma menina de França, e ele acreditou piamente.
Assim lhe acudiam outras recordações; por exemplo a do macassar cheiroso, então muito em uso na província, com que D. Mariana lhe perfumava os cabelos todas as manhãs antes do café; mas, dentre tudo, do que melhor ele se recordava era dos lampiões com que iluminavam a cidade. Ainda lá não havia gás, nem querosene; ao bater d'AveMarias vinha o acendedor, desatava a corrente do lampião, descia-o, abria-o, despejava-lhe dentro aguarrás misturada com álcool, acendia-lhe o pavio, guindava-o novamente para o seu lugar, e seguia adiante. "E que mau cheiro em todas as esquinas em que havia iluminação!... Oh! a não ser que estivesse muito transformada a sua província devia ser simplesmente horrível!"
Não obstante, queria lá ir. Sentia atrações por essa pátria, quase tão desconhecida para ele como o seu próprio nascimento misterioso. "Com a viagem descobriria tudo! Mas, primeiro, era preciso dar um passeio à Europa."
E, resolvido, foi ao escritório de Peixoto, Costa & Cia., sacou a quanta de que precisava, abraçou os amigos, e fez-se de vela para a França.
Passou pela Espanha, visitou a Itália, foi à Suíça, esteve na Alemanha, percorreu a Inglaterra, e, no fim de três anos de viagem, chegou ao Rio de Janeiro, onde encontrou os seus antigos correspondentes de Lisboa. Demorou-se um ano na Corte, gostou da cidade, relacionou-se, fez projetos de vida e resolveu estabelecer ai a sua residência.
"E o Maranhão?... Oh, que maçada! Mas não podia deixar de lá ir! Não podia instalar-se na Corte, sem ter ido primeiro à sua província! Era indispensável conhecer a família; liquidar os seus bens e..."
- Verdade, verdade, dizia ele, conversando com um amigo, a quem confiara os seus projetos, a coisa não é tão feia como quer parecer, porque, no fim de contas, fico conhecendo todo o norte do Brasil, dou um pulo ao Pará e ao Amazonas, que desejo ver, e, afinal, volto descansado para cá com a vida em ordem, a consciência descarregada e o pouco que possuo reduzido a moeda. Não posso queixar-me da sorte!
O passeio à Europa não só lhe beneficiara o espírito, como o corpo. Estava muito mais forte bem exercitado e com uma saúde invejável Gabava-se de ter adquirindo grande experiência do mundo; conversava à vontade sobre qualquer assunto tão bem sabia entrar numa sala de primeira ordem como dar uma palestra entre rapazes numa redação de jornal ou na caixa de um teatro. E em pontos de honra e lealdade, não admitia, com todo o direito, que houvesse alguem mais escrupuloso do que ele.
Foi nessa bela disposição de espírito, feliz e cheio de esperanças no futuro que Raimundo tomou o "Cruzeiro" e partiu para a capital de São Luís do Maranhão.
Entretanto, com a chegada de Raimundo, reuniram-se em casa de Manuel as velhas amizades da família. Vieram as Sarmentos com os seus enormes penteados: moças feias, mas de grandes cabelos, muito elogiados e conhecidos na província. "Tranças como as das Sarmentos!... Cabelo bonito como o das Sarmentos! Cachos como os das Sarmentos!..." Estas e outras tantas frases se haviam convertido em preceitos invariáveis. Fora das Sarmentos! não conheciam termo de comparação para cabelos; e elas, cônscias daquela popularidade, ostentavam sempre o objeto de tais admirações em penteados: assustadores, de tamanhos fantásticos.
- Tenho pena, afetava às vezes D. Bibina Sarmento (esta era Bernardina) de ter tanto cabelo!... Para desembrulhá-lo é um martírio. E, quando depois do banho, não me penteio logo, ou quando passo um dia sem botar óleo... Ah, dona, nem lhe digo nada!...
E arregalava os olhos e sacudia a juba, como se descrevesse uma caçada de leões.
A família Sarmento compunha-se, além desta D. Bibina, de outra rapariga e de uma senhora de cinqüenta anos, muito nervosa, tia das duas moças. A velha só falava em moléstias e sabia remédios para tudo; tinha um grosso livro de receitas, que ela em geral trazia no bolso; em casa uma variadíssima coleção de vidros, garrafas e púcaros; guardava sempre as cascas de laranja, de romã e os caroços de tuturubá, os quais, dizia pateticamente "Abaixo de Deus, eram santo remédio para as dores de ouvido!" Chamava-se Maria do Carmo, e as sobrinhas tratavam-na por "Mamãe outrinha". Era sumamente apreensiva e entendida de doces.
Viúva. Passara a mocidade no Recolhimento de Nossa Senhora da Anunciação e Remédios, onde concebera o seu primeiro filho do homem com quem depois veio a casar -- o tenente Espigão, tenente do exército, um espalhafateiro dos quatro costados, que andava sempre de farda e desembainhava a durindana por dá cá aquela palha. Contavam dele que, um dia, num jantar de festa, perdendo a paciência com o peru assado, que parecia disposto a resistir ao trinchante, arranca do chanfalho e esquarteja a golpes de espada o inocente animal.
Gostava de fazer medo as crianças, fingindo que as prendia ou afiando a lamina reluzente no tijolo do chão; e ficava muito lisonjeado quando lhe diziam que se parecia com o Pedro II. Tinha-se na conta de muito abalado e a todos contava que fora poeta em rapaz: referia-se a meia dúzia de acrósticos e recitativos, que lhe inspirava D. Maria do Carmo, no seu tempo de recolhida.
Coitado! Morreu de uma tremenda indigestão no dia seguinte a uma cela, ainda mais tremenda, na qual praticara a imprudência de comer uma salada inteira de pepinos, seu pratinho predileto. A viúva ficou inconsolável, e, em homenagem à memória do Espigão, nunca mais comeu daquele legume; seu ódio estendeu-se implacável por toda a família do maldito; não quis ouvir mais falar de maxixes. nem de abóboras, nem de jerimuns.
- Ai o meu rico tenente! lamentava-se ela quando alguém lhe lembrava o esposo. Que maneiras de homem! que coração de pomba' aquilo é que era um marido como hoje em dia não se vê!...
A outra sobrinha de D. Mata do Carmo, chamava-se Etelvina. Criaturinha sumamente magra, e tão nervosa como a tia: nariz muito fino grande e gelado, mãos ossudas e frias, olhos sensuais e dentes podres Era detestável: os rapazes do comércio chamavam-lhe "Lagartixa".
Fazia-se muito romântica; prezava a sua cor horrivelmente pálida; suspirava de cinco em cinco minutos e sabia estropiar modinhas sentimentais ao violão. diziam, em ar muito sério, que ela tivera aos dezesseis anos uma formidável paixão por um italiano professor de canto o qual fugira aos credores para o Pará e que, desde então, Etelvina nunca mais tomara corpo.
Apresentou-se também em casa de Manuel a Srª D. Amância Sousellas, velha de grande memória para citar fatos, datas e nomes; lembrava-se sempre do aniversário natalício dos seus inúmeros conhecidos e nesse dia filava-lhes impreterivelmente o jantar. Estava sempre a falar mal da vida alheia, à sombra da qual aliás vivia; quinze dias em casa de uma amiga, outros quinze em casa de um parente, o mês seguinte em casa de um parente e amigo, e assim por diante; sempre, sempre de passeio. Ia a qualquer parte, fosse ou não fosse desejada, e, às duas por três, era da casa. Conhecia todo o Maranhão contava, sem reservas, os escândalos que lhe calam no bico e andava sozinha na rua passarinhando por toda a cidade de xale metendo o nariz em tudo. Se morria algum conhecido seu lá estava ela a vestir o cadáver, a cortar-lhe as unhas, a dizer os lugares-comuns da consolação, tida e citada por muito serviçal, ativa e prestimosa.
Era cronicamente virgem, mas afirmava que em moça, rejeitara muito casamento bom. Dava-se a coisas de igreja; sabia vestir anjos de procissão e pintava os cabelos com cosmético preto.
Detestava o progresso.
- No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham a sua tarefa de costura para tantas horas e haviam de pôr pr'ali o trabalho! se o acabavam mais cedo iam descansar?... Boas! desmanchavam minha senhora! desmanchavam para fazer de novo! E hoje?... perguntava dando um pulinho, com as mãos nas ilhargas - hoje é o maquiavelismo da máquina de costura! Dá-se uma tarefa grande e é só "zuc-zuc-zuc!" e está pronto o serviço! E daí, vai a sirigaita pôr-se de leitura nos jornais, tomar conta do romance ou então vai para a indecência do piano!
E jurava que filha sua não havia de aprender semelhante instrumento, porque as desavergonhadas só queriam aquilo para melhor conversar com os namorados sem que os outros dessem pela patifaria!
Também dizia mal da iluminação a gás:
- Dantes os escravos tinham que fazer! Mal serviam a janta iam aprontar e acender os candeeiros deitar-lhes novo azeite e colocá-los no seu lugar... E hoje? É só chegar o palitinho de fogo à bruxaria do bico de gás e... caia-se na pândega! Já não há tarefa! Já não há cativeiro! É por isso que eles andam tão descarados! Chicote! chicote, até dizer basta! que é do que eles precisam. Tivesse eu muitos, que lhes juro, pela bênção de minha madrinha, que lhes havia de tirar sangue do lombo!
Mas a especialidade de D. Amância Sousellas, o que a tornava adorável para certos rapazes e detestada por muitos pais de família que iam de nariz torcido lhe recebendo visitas e obséquios de cortesia, era sem dúvida, o seu antigo hábito de contar anedotas baixas e grosseiras Sempre fora muito desbocada; no entanto alguns basbaques da sua roda, diziam dela, num frouxo de riso: "Com a D. Amância não pode a gente estar séria! - O diabo da velha tem uma graça!..."
Lá estava também em casa de Manuel a Eufrasinha, viúva do oficial de infantaria. Toda enfeitada de lacinhos de fita roxa, moreninha apesar da superabundância do pó de arroz; as feições muito desenhadas à superfície do rosto e com um sinal de nitrato de prata ao lado esquerdo da boca, desastradamente imitado do de uma francesa excantora com quem ela se dava. O sinal era para ficar do tamanho de uma pulga e saiu do tamanho e do feitio de um feijão-preto. Saracoteava-se, cheia de novidades, levantando-se de vez em quando para ir dizer um segredinho ao ouvido de Ana Rosa, enquanto disfarçadamente lhe endireitava o penteado; nestes passeios olhava de esguelha para os quartos e para a varanda - dando fé - e voltava à sua cadeira, mirando-se a furto nos espelhos da sala, sempre muito curiosa, irrequieta, querendo achar em tudo que lhe diziam, uma significação dupla, trejeitando sorrisos e momices expressivas quando não entendia, para fingir que compreendera perfeitamente. Tinha a voz sibilante e afetada, associava os SS, e dela silabadas.
O Freitas, em cuja casa Ana Rosa tivera o seu último histérico, também se achava presente, com a filha, a sua querida Lindoca.
O Freitas era um homem desquitado da mulher "que se atirara aos cães", explicava friamente, muito teso, magro, alto, com o pescocinho comprido no seu grande colarinho em pé. Não relaxava as calças brancas, e gabava-e do segredo de conservá-las limpas e engomadas durante uma semana; trazia sempre, apesar do calor da província, o colarinho duro e o peito da camisa irrepreensível; gravata preta - invariavelmente. Tratava uma enorme unha no dedo mínimo, com a qual costumava pentear o bigode, feito de longos fios, tingidos e lisos, que lhe velavam a boca. Jamais consentira que barbeiro algum lhe encostasse a mão no rosto"; fazia ele mesmo a sua barba, um dia sim, outro não. Escondia a calva com as compridíssimas farripas do cabelo, muito espichadas, como que grudadas a goma-arábica sobre o crânio. Dispunha de uma memória prodigiosa, gabada por toda a cidade; fazia-se grande conhecedor da história antiga; quando falava escolhia termos, procurava fazer estilo, e, sempre que se referia ao Imperador dizia gravemente: "O nosso defensor perpétuo!" Afiançavam que era habilidoso, em tempo fizera, com muita paciência, uma árvore genealógica de sua família e mandara-a litografar no Rio de Janeiro. Este trabalho foi muito apreciado e comentado na província.
Era empregado público havia vinte e cinco anos e só faltara à repartição três vezes - por uma queda, um antraz, e no dia do seu malfadado casamento; contava isto a todos, com glória. Quando temia constipar-se, aspirava cautelosamente o fartum do conhaque. "Isto e o bastante para me fazer ficar tonto!..." afirmava com uma repugnância virtuosa. Tinha honor às cartas e sabia tocar clarinete, mas nunca tocava, porque o médico lhe dissera ''não achar prudente". Fumara em tempo, mas o médico dissera do charuto o mesmo que do clarinete. - Nunca mais fumou. Não dançava, para não suar; falava com raiva das mulheres e, nem caindo de fome, seria capaz de comer à noite. "Além do chá, nada! nada!" protestava com firmeza; estivesse onde estivesse, havia de retirar-se impreterivelmente à meia-noite. Usava sapatos rasos, de polimento, e nunca se esquecia do chapéu-de-sol.
Jamais arredara o pé da ilha de São Luís do Maranhão, tal era o medo que tinha do mar.
- Nem para ir a Alcântara! jurava ele, conversando essa noite em casa do Manuel. Daqui - para o Gavião! Nada, meu caro senhor quero morrer na minha caminha, sossegado, bem com Deus!
- Com toda a comodidade, observou Raimundo, a rir.
Era devoto: todos os anos carregava na procissão o andor do milagroso Senhor Bom Jesus dos Passos. E muito arranjadinho: "Em casa dele havia de tudo, como na botica." Diziam os seus íntimos. "Só falta dinheiro..." completava o Freitas em ar discreto de pilhéria. No mais: - sempre o mesmo homem; nunca fora de estroinices; mesmo em rapaz, era já consigo; não gostava de dever nada a ninguém; colecionava selos velhos; dava homeopatia de graça aos amigos, e tinha a fama do maior maçante do Maranhão.
A tal "sua querida Lindoca" era uma menina de dezesseis anos, pequenina, extremamente gorda, quase redonda, bonitinha de feições, curta de idéias, bom coração e temperamento honesto. A Etelvina dissera uma vez que ela estava engordando até nos miolos.
Lindoca Freitas não escondia o seu desejo de casar e amava extremosamente o pai, a quem só tratava por "Nhozinho".
- Tenho um desgosto desta gordura!... Lamentava-se ela às camaradas, que lhe elogiavam a exuberância adiposa. Se eu soubesse de um remédio para emagrecer... tomava!
As amigas procuravam consolá-la: "Dá-me gordura que te darei formosura! - Gordura é saúde!"
Mas a repolhuda moça não se conformava com aquela desgraça. Vivia triste. As banhas cresciam-lhe cada vez mais; estava vermelho; cansava por cinco passos. Era um desgosto sério! Recorria ao vinagre; dava-se a longos exercícios pela varanda; mas qual! - as enxúndias aumentavam sempre. Lindoca estava cada vez mais redonda, mais boleada; a casa estremecia cada vez mais com o seu peso; os olhos desapareciam-lhe na abundância das bochechas; o seu nariz parecia um lombinho; as suas costas uma almofada. Bufava.
Dias, o piedoso, o doce Luís Dias, também comparecera aquela noite à sala do patrão. Lá estava, metido a um canto, roendo ferozmente as unhas, o olhar imóvel sobre Ana Rosa, que, ao piano, dispunha-se a tocar alguma coisa e experimentava as teclas.
Em uma das janelas da frente, encostados contra a sacada, Manuel e o cônego Diogo ouviam de Raimundo a descrição em voz baixa de um passeio de Paris à Suíça. No resto da sala coma o sussurro das senhoras, que conversavam.
- Então! Estamos passando o Boqueirão? exclamou o Freitas, erguendo-se do sofá, a sacudir as calças, para evitar as joelheiras. E, voltando-se para uma das sobrinhas de D. Maria do Carmo: - Diga alguma coisa, D. Etelvina!...
Etelvina ergueu os olhos para o teto e soltou um suspiro.
- Por quem suspiras? perguntou-lhe. em misterioso falsete, a velha Amância que lhe ficava ao lado.
- Por ninguém... respondeu a Lagartixa, sorrindo melancolicamente com os caquinhos dos dentes.
- Ele não é feio... a senhora não acha D. Bibina?... segredava Lindoca à outra sobrinha de D. Maria do Carmo, olhando furtivamente para o lado de Raimundo.
- Quem? O primo d Ana Rosa?
- Primo? Eu creio que ele não é primo dona!
- É! sustentou Bibina quase com arrelia E primo, sim, por parte de pai!. E olhe ali está quem lhe sabe bem a história!...
E indicava a fia com o beiço inferior.
- An... resmungou a gorducha, passando a considerar da cabeça aos pés o objeto da discussão.
Por outro lado, Maria do Carmo segredava a Amância Sousellas:
- Pois é o que lhe digo D. Amância muito boa preta!... negra como este vestido! Cá está quem a conheceu!...
E batia no seu peito sem seios. - Muita vez a vi no relho. Iche!
- Ora quem houvera de dizer!... resmungou a outra fingindo ignorar da existência de Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim só no Maranhão! Credo!
- É como lhe minha rica! O sujeitinho foi farto à pia, e hoje olhe só pr'aquilo! está todo cheio de fumaças e de filáucias!... Pergunte ao cônego, que está ao lado dele.
- Cruz! T'arrenego, pé de paro!
E Amância bateu por hábito nas faces engelhadas.
Nisto, ouviu-se um grande moam, que vinha da varanda.
- Ó Benedito! Moleque! Ó peste! Estás dormindo, sem vergonha?!
E logo o estalo de uma bofetada. - Arre! que ate me fazes zangar com visitas na sala!...
Era Maria Bárbara, que andava às voltas com o Benedito.
- Vai deitar a mesa do chá moleque!
Manuel correu logo à varanda, contrariado.
- Ó senhora!... disse à sogra. Que inferneira! Olhe que está ai gente de fora!...
Freitas passou-se à janela de Raimundo, e aproveitou a oportunidade para despejar contra este uma estopada a respeito do mau serviço doméstico feito pelos escravos.
- Reconheço que nos são necessários, reconheço!... mas não podem ser mais imorais do que são!... As negras, principalmente as negras!... São umas muruxabas, que um pai de família tem em casa, e que domem debaixo da rede das filhas e que lhes contam histórias indecentes! f uma imoralidade! Ainda outro dia, em certa casa, uma menina, coitada apareceu coberta de piolhos indecorosos, que pegara da negra! Sei de outro caso de uma escrava que contagiou a uma família inteira de impigens e dartros de caráter feio! E note doutor que isto e o menos, o pior é que elas contam às suas sinhazinhas tudo o que praticam ai por essas ruas! Ficam as pobres moças sujas de corpo e alma na companhia de semelhante corja! Afianço-lhe meu caro senhor doutor, que, se conservo pretos ao meu serviço, é porque não tenho outro remédio! Contudo...
Foi interrompido por Benedito que nu da cintura para cima e acossado pela velha Bárbara, atravessou a sala com agilidade de macaco. As senhoras espantaram-se, mas abriram logo em gargalhadas. O moleque alcançara a porta da escada e fugira. Então, o Dias, que até ai se conservara quieto no seu canto, ergueu-se de um pulo e deitou a correr atrás dele. Desapareceram ambos.
Benedito era cria de Maria Bárbara; um pretinho seco, retinto, muito levado dos diabos; pernas compridas, beiços enormes dentes branquíssimos. Quebrava muita louça e fugia de casa constantemente.
A velha estacara no meio da sala furiosa.
- Ai, gentes! não reparem!.. bradou. Aquele não sei que diga! aquele maldito moleque!... Pois o desavergonhado não queria vir trazer água na sala, sem pôr uma camisa?... Patife! Ah, se o pego!... Mas deixa estar, que não as perdes, malvado!
E correndo à janela: - Se seu Dias não te alcançar, tens amanhã um campeche te seguindo a pista, sem-vergonha!
E saiu de novo para a varanda, muito atarefada, gritando pela Brígida:
- Ó Brígida! Também estás dormindo, seu diabo?!
Na sala as visitas discutiam rindo a cena do moleque e o mau gênio de Maria Bárbara, mas tiveram de abafar a voz, porque Ana Rosa pôs-se a tocar uma polca ao piano.
Pouco depois, ouviu-se um farfalhar de saias engomadas, e em seguida apresentou-se a Brígida, uma mulata corpulenta a carapinha muito trançada e cheia de flores, um vestido de chita com três palmos de cauda, recendendo a cumaru. Preparava-se daquele modo, para ir à sala, oferecer água. com ambas as mãos uma enorme salva de prata, cheia de copos, dirigia-se a todos, um por um, a bambalear as ancas volumosas.
A criadagem de Manuel e Maria Bárbara constava, além de Brígida, e Benedito, de uma cafuza já idosa, chamada Mônica, que amamentara Ana Rosa e lavava a roupa da casa, e mais de uma preta só para engomar, e outra só para cozinhar, e outra só para sacudir o pó dos trastes e levar recados à rua. Pois, apesar deste pessoal, o serviço era sempre tardio e malfeito.
- Estas escravas de hoje tem luxos!... observou Amância em voz baixa a Maria do Carmo, apontando com o olhar para o vulto empantufado de Brígida.
E entraram a conversar sobre o escândalo das mulatas se prepararem tão bem como as senhoras. "Já se não contentavam com a sua saia curta e cabeção de renda; queriam vestido de cauda; em vez das chinelas, queriam botinas! Uma patifaria!" Depois falaram nos caixeiros, que roubavam do patrão para enfeitar as suas pininchas; e, por uma transição natural, estenderam a crítica até aos passeios a cano, às festas de largo e aos bailes dos pretos.
- Os chinfrins, como lhes chamava o meu defunto Espigão, acudiu Maria do Carmo, Conheço! ora se conheço!... Bastante quizília tivemos nós por amor deles!...
- É uma sem-vergonheira! Ver as escravas todas de cambraia, laços de fita, água de cheiro no lenço, a requebrarem as chandangas na dança!...
- Ah, um bom chicote!... disseram as duas velhas ao mesmo tempo
- E elas dançam direito?... perguntou a do Carmo,
- Se dançam!... O serviço é que não sabem fazer a tempo e a horas! Lá para dançar estão sempre prontas! Nem o João Enxova!
A indgnação secava-lhe a voz.
- Até parecem senhoras, Deus me perdoe! Todas a se fazerem de gente! os negros a darem-lhe excelência "E porque minha senhora pra cá! Vossa Senhoria pra lá!" E uma pouca vergonha, a senhora neo imagina!... Uma vez, em que fui espiar um chinfrim, porque me disseram que o meu defunto estava lá metido, fiquei pasma! E o melhor é que os descarados não se tratam pelo nome deles tratam-se pelo nome dos seus senhores!... Não sabe Filomeno?... aquele mulato do presidente?... Pois a esse só davam "Sr. Presidente!" Outros são "Srs. Desembargadores, Doutores, Majores e Coronéis!" Um desaforo que deveria acabar na palmatória da polida!
Ana Rosa terminou a sua polca.
- Bravo! Bravo!
- Muito bem, D. Anica!
E estalaram palmas.
- Tocou às mil maravilhas!...
- Não senhor foi uma polca do Marinho.
Correram a cumprimentar a pianista. O Freitas profetizou logo "que ali estava um segundo Lira!"
Raimundo foi o único que não se abalou. Estava fumando à janela, e fumando deixou-se ficar. Ana Rosa, sem dar a perceber, sentiu por isso uma ligeira decepção. Esforçara-se por tocar bem e ele, nem assim! "Até parecia não ter notado nada!... E um malcriado!" concluiu ela, de si para si. E, com uma pontinha de mau humor, assentou-se ao lado de Lindoca. Eufrásia correu logo para junto da amiga.
- Que tal o achas?... perguntou em segredo, assentando-se, com muito interesse.
- Quem? disse Ana Rosa, fingindo distração e franzindo o nariz.
A outra indicou misteriosamente a janela com um dos polegares.
- Assim, assim...
E a filha do negociante fez um bico de indiferença. - Nem por isso!...
- Um peixão! opinou Eufrásia com entusiasmo.
- Gentes!... Que é isto, Eufrasinha?...
- É uma tetéia!
E a viúva mordia os beiços.
- Sim, ele neo é feio... tornou Ana Rosa, impacientando-se, Mas também não é lá essas coisas!...
- Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele brinca com o charuto!... olha como ele se encosta à grade da janela!... Parece um fidalgo, o diabo do homem!...
Ana Rosa, sem desfranzir o nariz enviesada os olhos contra o primo e Sentia melhor do que a amiga a evidencia do que esta lhe dizia. "Raimundo era com efeito elegante e bem bonito mas, que diabo, desde que chegara ainda lhe não tinha dispensado uma única palavra de distinção, um só gesto que a especializassem, quando ali, no entanto, era ela, incontestavelmente a mais chique, a mais simpática, e, além disso - sua prima! (Ana Rosa pouco ou nada sabia ao certo do grau do seu parentesco com ele) Não! Não fora correto! Falara-lhe como às outras, igualmente frio e reservado; não fizera como os rapazes do Maranhão, que, mal se aproximavam dela estavam desfeitos em elogios e protestos de amor!" Aquela indiferença de Raimundo doía-lhe como uma injustiça: sentia-se lesada roubada, nos seus direitos de moça irresistivel. "Um pedante é o que ele é! Um enfatuado! Pensa que vale muito, porque se formou em Coimbra e correu a Europa! Um tolo!..."
Nessa ocasião, entraram na sala, com ruídos, dois novos tipos - o José Roberto e o Sebastião Campos.
Foram logo apresentados a Raimundo e seguiram a cumprimentar as senhoras, dando a cada qual uma frase ou uma palavra ou um gesto de galanteio familiar: "D. Eufrasinha sempre bela como os amores, que pena ser eu já papel queimado! - Então D. Lindoca, onde vai com essa gordura? divida a metade comigo! - Quando se come doce desse casamento, D. Bibina?... E tinham sempre na ponta da língua uma pilhéria, um dito, para bulir com as moças; coisas desengraçadas e sediças, mas que as faziam rebentar de riso.
- Deus os fez e o diabo os ajuntou! explodiu, com um estalo de boca, a velha Amância quando os dois passaram por ela.
José Roberto, a quem só tratavam por "Seu Casusa" era moço de vinte e tantos anos; magro, moreno crivado de espinhas, olhos muito negros, boca em ruínas, uma enorme cabeleira, rica toda encaracolada e reluzente de óleo cheiroso, preta bem preta dividida pacientemente ao meio da cabeça. Usava lunetas azuis e cantava ao violão modinhas da sua própria lavra e de outros, apimentadas à baiana com o travo sensual e árabe dos lundus africanos. Quando tocava, tinha o amaneirado voluptuoso do trovador de esquina; vergava-se todo sobre o instrumento, picando as notas com as unhas cujos dedos pareciam as pernas de um caranguejo doido, ou abafando com a palma da mão o som das cordas, que gemiam e choravam como gente.
Tipo do Norte, perfeito, cheio de franquezas, com honor ao dinheiro, muito orgulhoso e prevenido contra os portugueses, a quem perseguia com as suas constantes chalaças, imitando-lhes o sotaque, o andar e os gestos. Tinha alguma coisinha de seu e passava por estróina. Gostava das serenatas, das pândega com moças; pilhando dança - não perdia quadrilha nem pulada, mas no dia seguinte ficava de cama, estrompado.
Havia muito que José Roberto procurava agradar a Ana Rosa, esta sempre o repelia a rir. Também poucos o tomavam a sério: "Um pancada" diziam mas queriam-lhe bem.
O Sebastião Campos, esse era viúvo da primeira filha de Maria Bárbara e, como aquele, um tipo legítimo do Maranhão; nada, porém, tinha do outro senão o orgulho e a birra aos portugueses, a quem na ausência só chamava "marinheiros - puçás - galegos".
Senhor de engenho, de um engenho de cana, lá para as bandas do Munim, onde passava três meses no tempo da colheita; o resto do ano passava-o na cidade. Devia ter quase o duplo da idade de José Roberto, baixote, muito asseado, mas com a roupa sempre malfeita. Usava calças curtas, em geral brancas, deixando aparecer, desde o tornozelo, os seus pezinhos ridiculamente pequenos e mimosos; barba cerrada, ainda preta, desproporcionada do corpo, beiços grossos e vermelhos, mostrando a dentadura miudinha e gasta, porém muito bem tratada, tratada a mel de fumo de corda, que era com que ele asseada a boca.
Bairrista, isso ao último ponto: a tudo preferia o que fosse nacional. "Não trocava a sua boa cana-capim - e o seu vinho de caju por quantos cognacs e vinhos do Porto havia por ai! nem o seu gostoso e cheiroso fumo de molho, fabricado no Maranhão, pelo melhor tabaco estrangeiro, ou mesmo importado das outras províncias! Ou bem que se era maranhense ou bem que se não era!"
Não cochilava com os seus escravos. Na roga era temido até pelo feitor, um pouco devoto e cheio de escrúpulos de raça. "Preto é preto; branco é branco! Moleque é moleque menino é menino!" E estava sempre a repetir que o Brasil teria ganho muito, se perdesse a Guerra dos Guararapes.
- A nossa desgraça, rezava ele, é termos caldo nas mãos destas bestas! Uns lesmas! Uma gente sem progresso, que só cuida de encher o papo e aferrolhar dinheiro!