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O MULATO

ALUÍSIO DE AZEVEDO

Favores, de quem quer que fosse, não os aceitava "que não queria dever obrigações a nenhum filho da mãe!..." Mas também, quando dava para meter as botas em qualquer pessoa - era aquela desgraça! Não tinha papas na língua! Era nervoso e ativo; gostava todavia de ler ou conversar, escarranchado na rede durante horas esquecidas, em ceroulas fumando o seu cachimbo de cabeça preta, fabricado na província. Na rua encontravam-no de sobrecasaca aberta, coletinho de chamalote, camisa bordada, guarnecida por três brilhantes grandes; ao pescoço, prendendo o cebolão, um trancelim muito comprido, de ouro maciço, obra antiga, com passador. Adorava os perfumes ativos, as jóias e as cores vivas, para ele, nada havia, porém, como um passeio ao sitio embarcado, à fresca da madrugada, bebericando o seu trago de cachaça e pitando o seu fumo do Codó. Em casa muito obsequiador. Passava à farta.

Com a vinda destes dois, a reunião tornou-se mais animada. Reclamou-se logo o violão, e seu Casusa, depois de muito rogado, afinou o instrumento e principiou a cantar Gonçalves Dias:

"Se queres saber o meio Por que às vezes me arrebata Nas asas do pensamento A poesia tão grata;"

Nisto, rebentou uma corda do violão.

- Ora pistolas!... resmungou o trovador. E gritou: - Ó D. Anica! a senhora não terá uma prima?

Ana Rosa foi ver se tinha, andou remexendo lá por dentro da casa, e voltou com uma segunda. "Era o que havia." O Casusa arranjou-se com a segunda e prosseguiu, depois de repetir os versos já cantados; ao passo que o Freitas, na janela, importunava Raimundo, a propósito do autor daquela poesia e de outros vultos notáveis do Maranhão "da sua Atenas brasileira" como a denominava ele. O cônego fugiu logo para a varanda, covardemente, com medo à seca.

- Não sou bairrista. não senhor... dizia o maçante, mas o nosso Maranhãozinho é um torrão privilegiado!...

E citava, com orgulho, "os Cunha, os Odorico Mendes, os Pindaré e os Sotero etcetera! etcetera!'' O seu modo de dizer etcetera era esplêndido!

- Temos os nossos faustos, temos!

Passou então a falar nas belezas da sua Atenas: no dique das Mercês, "estava em construção, mas havia de ficar obra muito de se ver e gostar..." afiançava ele cheio de gestos respeitosos. Falou do Cais da Sagração, "também não estava concluído" dos Quartéis, "iam entrar em conserto", na igreja de Santo Antônio, "nunca chegaram a terminá-la, mas se o conseguissem, seria um belo templo!" Elogiou muito o teatro São Luís. "Dizia o cônego que era o São Carlos de Lisboa, em ponto pequeno!" Lembrou respeitosamente a companhia lírica do Ramonda, o Remorini o tenor "morrera de febre amarela, depois de ser muito aplaudido na Gemma de Vergi. Ah, como aquela, jurava não voltaria outra companhia ao Maranhão! Mas que, mesmo na província havia moços de grande habilidade..." Referia-se a uma sociedade particular, de curiosos. "Tinham seu jeito, sim senhor!" E, engrossando a voz, com muita autoridade: "Representavam Os Sete Infantes de Lara! - Os Renegados! - O Homem da Máscara Negra, e outras peças de igual merecimento! Tinham a sua queda para a coisa, tinham!... Não se pode negar!..." E assoava-se, meneando a cabeça, convencido "Principalmente a dama... sim! o moço que fazia de dama!... Não havia que desejar - o pegar do leque, o revirar dos olhos, certos requebros, certas faceirices!... Enfim, senhores! era perfeito, perfeito, perfeito!"

Raimundo bocejava.

E o Freitas nem cuspia. Acudiam-lhe fatos engraçados sobre o teatrinho. soltava as anedotas em rebanho, sem intervalos. Raimundo já não achava posição na janela; virava-se da esquerda. da direita, firmava-se ora numa perna, ora na outra deixando afinal pender a cabeça e olhando para os pés entristecido pelo tédio. "Que maçante!..." pensava.

Entretanto, o Freitas a sacudir-lhe a manga do fraque, que Raimundo sujara na caliça da janela, ia confessando que "estavam em vazante de divertimentos; que a sua distração única era cavaquear um bocado com os amigos..."

- Ah! exclamou, minto! minto! Há uma festa nova! - a de Santa Filomena! Mas não será como a dos Remédios, isso, tenham paciência!...

- Sim, decerto, balbuciou Raimundo, fingindo prestar atenção.

E espreguiçou-se.

- A festa dos Remédios!... repetiu o outro, estalando os dedos e assoviando prolongadamente, como quem diz: "Vai longe!"

Raimundo estremeceu, ficou gelado ate a raiz dos cabelos, percebeu aquela tremenda ameaça e mediu instivamente a altura da janela, como se premeditasse uma fuga.

- O nosso João Lisboa... disse o Freitas. E meteu profundamente as mãos nas algibeiras das calças. O nosso João Lisboa já, em um folhetim publicado no numero... Ora qual é o número do Publicador Maranhense?... Espere!...

E fitou o teto.

- 1173 - Sim! 1173, de 15 de outubro de 1851. Pois nesse folhetim descreve ele, circunstanciadamente e com muito donaire e gentilezas de estilo, a nossa popular e pitoresca festa dos Remédios.

Raimundo, aterrado, prometeu, sob palavra de honra, ler o tal folhetim na primeira ocasião.

- Ah!... volveu terrível o Freitas é que ela hoje é outra coisa!... Hoje não se compara! - há muito mais luxo, mas muito!

E segurando com ambas as mãos a gola do fraque de Raimundo e ferrando-lhe em cima dos olhos arregalados, acrescentou energicamente: - Creia, meu doutor, mete pena o dinheirão que se gasta naquela festa! faz dó ver as sedas, os veludos, as anáguas de renda, arrastarem-se pela terra vermelha dos Remédios!...

Raimundo empenhou a cabeça como faria idéia aproximada.

- Qual! Qual! Tenha paciência meu amigo, não é possível! E Freitas repeliu com torça a vitima. Aquilo só vendo e sentindo, Sr. Dr. Raimundo José da Silva!

E descreveu minuciosamente a cor, a sutileza da terra; como a maldita manchava o lugar em que caia; como se insinuava pelas costuras dos vestidos, das botas, nas abas dos chapéus, nas máquinas dos relógios; como se introduzia pelo nariz, pela boca, pelas unhas, por todos os poros!

- Aquilo, meu caro amigo...

Raimundo queixou-se inopinadamente de que tinha muito calor.

Freitas levou-o pelo braço até a varanda; deu-lhe uma preguiçosa, passou-lhe uma ventarola de Bristol preparou-lhe uma garapada, e, depois de havê-lo regalado bem, como antigamente se fazia com os sentenciados antes do suplício, de pé, implacável, verdadeiro carrasco em face do paciente, despejou inteira uma descrição do dia da festa dos Remédios, recorrendo a todos os mistérios da tortura, escolhendo palavras e gestos, repetindo as frases, frisando os termos, repisando o que lhe parecia de mais interesse, cheio de atitudes como se discursasse para um grande auditório.

Principiou expondo minuciosamente o Largo dos Remédios, com a sua ermida toda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira, muito foguete, muito toque de sino. Descreveu com assombro o luxo exagerado em que se apresentavam todos, todos! para a missa das seis e para a missa das dez nas quais, dizia ele circunspectamente,

4.25pt;text-autospace:none'> reúne-se a nata da nossa judiciosa sociedade!..." Era tudo em folha, e do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam, desde o capitalista até o ralé caixeiro de balcão: velho ou moço, branco ou preto, ninguém lá ia, sem se haver preparado da cabeça aos pés; não se encontrava roupa velha, nem coração triste!

- As quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a encher. Pensará talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manhã...

- Naturalmente...

- Pois engana-se! e tudo outra vez novo! são novos vestidos, novas calças, novas...

- Etc., etc.! Vamos adiante.

- Afirmam alguns estrangeiros... e dizendo isto tenho dito tudo!... que não há, em parte alguma do mundo festa de mais luso!...

E a voz do maçante tomava a solenidade de um juramento.

- O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço. Aparecem cédulas gordas moedas amarelas; troca-se dinheiro; queimam-se charutos caros, no bazar (há um bazar) as prendas sobem a um preço escandaloso! Digo-lhe mais: nesse dia não há homem, por mais pichelingue, que não gaste seu bocado nos leilões, nas barracas, nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte; nem há mulher senhora ou moça-dama, que não arrote grandeza, pelo menos seu vestidinho novo de popelina. Vêem-se enormes trouxas de doce seco, corações unidos de cocada, navios de massa com mastreação de alfenim jurarás dourados, cutias enfeitadas dentro da gaiola pombos cheios de fitas frascos de compota de murici, bacuri, buriti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas cativas, ou forras surgem com os seus ouros as suas ricas telhas de tartaruga as suas ricas toalhas de rendas, suas belas saias de veludo. suas chinelas de polimento seus anéis em todos os dedos aos dois e aos três em cada um... E este povo mesclado. coberto de luso, radiante, com a barriga confortada e o coração contente, passeia, exibe-se, ancho de si pensando erradamente chamar a atenção de todos, quando aliás cada qual só pensa e repara em si próprio e na sua própria roupa!

Raimundo ria-se por delicadeza, e espreguigava-se na cadeira, bocejando.

- À noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se grandes e deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os emblemas do Comercio e da Navegação. que Nossa Senhora dos Remédios é padroeira do Comércio, e é este que lhe dá a festa. Mas bem, faz-se a iluminação - armas brasileiras estrelas vasos caprichosos, o nome da santa, tudo a bico de gás. não contando uma infinidade de balõezinhos chineses que brilham por entre as bandeiras, os florões os ariris, as casas de música; em uma palavra fica tudo, tudo, claro como o dia!

Raimundo soltou um suspiro profundo e mudou de posição.

- Há também para os moleques, um pau-de-sebo balanços e cavalinhos. E verdade! o doutor sabe o que e um pau-de-sebo?...

- Perfeitamente Tenha a bondade de não explicar.

- Com franqueza! Se não sabe, diga, que eu posso...

- Ora por amor de Deus! faz-me o favor em não se incomodar juro-lhe! Estou impaciente pelo resultado da festa. Continue!

- Pois sim, senhor Dão oito horas.. Ah. meu caro amigo! então surge de todos os cantos da cidade uma aluvião interminável de famílias, de velhos, moços, meninos, mulatinhas e negrinhas que enchem o largo que nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades desde o moleque até o tio velho, acodem, trazendo equilibradas nas cabeças imensas pilhas de cadeiras, e, com estas cadeiras, formam-se grandes rodas mesmo na praça, ao ar livre, e as famílias, ou ficam ai assentadas, ou, a titulo de passeio, acotovelam-se entre o povo. Fazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha..

- Ralha?

- Ora! Já houve uma senhora que castigou um moleque a chicote, lá mesmo no largo!

- A chicote?

- Sim, a chicote! Aquilo, meu caro doutor, é uma espécie de romaria! As famílias levam consigo potes de água, cuscuz, castanhas assadas, biscoitos e o mais . E tudo isto ao som desordenado da pancadaria de três bandas de música, dos gritos do leiloeiro e da inqualificável algazarra do povo!

Raimundo quis levantar-se; o outro obrigou-o a ficar sentado, pondo-lhe as mãos nos ombros.

- Estamos no apogeu da festa! exclamou o maçante.

- Ah! gemeu Raimundo.

- Soltam-se balões de pape! fino; cruzam-se moças aos pares; giram aos pares os janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja, doces, pasteis, chupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela; gastam-se os últimos cartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e, finalmente, com grande jubilo geral arde o invariável fogo de artifício. Então rebentam todas as bandas de música a um só tempo, levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole, e, no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multidão, aparece no castelo, deslumbrante de luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Foguetes de lágrimas voam aos milhares pelo espaço; o céu some-se. Todos se descobrem em atenção à santa, e abrem o chapéu-de-sol com medo das tabocas. Há uma chuva de luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os grupos, todas as fisionomias, todas as casas, tomam. sucessivamente as irradiações do prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contemplação mística, terminada a qual, está terminada a festa!

E Freitas tomou fôlego. Raimundo ia falar, ele atalhou:

- De repente, o povo acorda e quer sair! Cone, precipita-se em massa à Rua dos Remédios, aglomera-se, disputa os carros, pragueja, assanha-se! Cada um entende que deve chegar primeiro a casa; há trambolhões, descomposturas, gritos, gargalhadas, gemidos, rinchos de cavalos, tabuleiros de doce derramados, vestidos rotos, pés esmagados, crianças perdidas, homens bêbados; mas, de súbito, como por encanto, esvazia-se o largo e desaparece a multidão!

- Como? por quê?

- Daí a pouco estão todos recolhidos, sonhando já com a festa do ano seguinte, calculando economias, pensando em ganhar dinheiro, para na outra fazer ainda melhor figura!

E o Freitas resfolegou prostrado, com a língua seca.

- Mas por que diabo se retiram tão depressa?... perguntou Raimundo.

Freitas engoliu sofregamente três goles de água e voltou-se logo.

- E porque este povinho, por fogo de vista, é pior que macaco por banana! Tirem-lhe de lá o fogo que ninguém se abalará de casa!

- Com efeito! E é muito antiga esta festa, sabe?

- Bastante. Ela já tem seu tempo. Ora espere!

E o memorião atirou logo o olhar para o teto.

- No tempo dos governadores portugueses, disse, depois de uma pausa, era ali o convento de São Francisco; isso foi... poderia ser... em.. em mil, setecentos... e dezenove! Chamava-se então a ponta, que forma hoje o Largo dos Remédios, "Ponta do Romeu". Ora, os frades cederam esse terreno a um tal Monteiro de Carvalho, que fez a ermida, como se pode calcular, no mato. Uma ocasião, porém, um preto fugido matou nesse lugar o seu senhor, e os romeiros, que lá iam constantemente, abandonaram receosos a devoção. Só depois de cinqüenta e seis anos, é que o governador Joaquim de Melo e Póvoas mandou abrir uma boa estrada, a qual vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Remédios. A ermida caiu em ruínas, mas o ermitão, Francisco Xavier mandou, em 1818, construir a que lá está presentemente; e daí data a festa, que tive a honra e o gosto de descrever-lhe.

17.45pt;text-autospace:none'> - De tudo isso, aventurou Raimundo, o que mais me admira é a sua memória: o senhor com efeito tem uma memória de anjo.

- Ora! O senhor ainda não viu nada! Vou contar-lhe...

17.45pt;text-autospace:none'> O outro ia disparatar sem mais considerações, quando, felizmente, acudiram todos à varanda. Criou alma nova.

17.45pt;text-autospace:none'> - Apre! disse Raimundo consigo, respirando. É de primeira força!...

Serviu-se o chocolate.

O cônego vinha a discretear para Manuel em voz sotuna:

17.45pt;text-autospace:none'> - Pois é o que lhe digo, compadre, fique você com as casas e divida-as em meias-moradas que rendem?...

17.45pt;text-autospace:none'> - Acha então que vou bem, dando quatro contos de réis por cada uma...

17.45pt;text-autospace:none'> - Decerto, são de graça!... Homem aquilo é pedra e cal - construção antiga! - deita séculos! Além disso, as casinhas têm bom quintal, bom poço e não são devassadas pela vizinhança... verdade é que não deixam de ser um bocadinho quentes mas...

- Abrem-se-lhe janelas para o nascente, concluiu o negociante.

17.45pt;text-autospace:none'> E, assim, conversando, chegaram à varanda, onde já estavam à mesa.

17.45pt;text-autospace:none'> José Roberto e Sebastião Campos serviam às senhoras acompanhando com uma pilhéria cada prato que lhes ofereciam. Raimundo pediu dispensa do chá, com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado do seu.

17.45pt;text-autospace:none'> Ouvia-se mastigar as torradas e sorver, aos golinhos, o chocolate quente.

17.45pt;text-autospace:none'> - Doutor, exclamou o cônego, procurando espetar com o garfo uma fatia de um bolo de tapioca. Prove ao menos do nosso "Bolo do Maranhão". Também o chamam por ai "Bolo podre". Prove, que isto não há fora de cá... é uma especialidade da terra!

17.45pt;text-autospace:none'> - Não é mau... disse Raimundo, fazendo-lhe a vontade. Muito saboroso, mas parece-me um tanto pesado...

17.45pt;text-autospace:none'> - E de substância - acrescentou Maria Bárbara. Faz-se de tapioca de forno e ovos.

17.45pt;text-autospace:none'> - D. Bibina! chamou Ana Rosa, apontando para os beijus. São fresquinhos...

Amância, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:

- Pois minha amiga, quando precisar de missa com cerimônia, não tem mais do que se entender com o padre que lhe digo.. P muito pontual e contenta-se com o que a gente lhe da! Est'r'o dia, apanhou-me dezoito mil-réis por uma missinha cantada, mas também podia se ver a obra que o homem apresentou!.. Pois então! Há de dar uma criatura seus cobrinhos, que tanto custam a juntar, a muito padre, como há por aí, desses que, mal chegam ao altar, estão pensando no almoço e na comadre?... Deus te livre, credo! Até pesa na consciência de um cristão!

- Como o padre Murta! .. lembrou a outra.

17.45pt;text-autospace:none'> - Oh! Esse, nem se fala! Às vezes, Deus me perdoe! nos enterros, até se apresenta bêbado!

17.45pt;text-autospace:none'> E Maria do Carmo bateu na boca - Cá está, acrescentou, quem já o viu a todo o pano encomendar o corpo de José Caroxo!...

17.45pt;text-autospace:none'> - Não! que hoj'em dia a gente perde a fé. . isso está se metendo pelos olhos!... Mas é o que já não tem o outro... porta-se muito bem! muito bem procedido! muito cumpridor das suas obrigações! Zeloso da religião! Acredite, minha amiga, que faz gosto... Dizem até...

E Amância, segredou alguma coisa à vizinha Maria do Carmo baixou os olhos. e resmungou beaticamente:

- Deus lhe leve em conta. coitado!

Houve um rumor de cadeiras que se arrastam. Os comensais afastaram-se dos seus lugares

- Mesa feita. companhia desfeita!...gritou logo José Roberto chupando os restos dos dentes E tratou de seguir as senhoras, que se encaminhavam silenciosas para a sala.

Nisto, entrou o Dias, trazendo o Benedito pelo cós. Vinha a deitar os botes pela boca e, quase sem poder falar, contou que "seguira o ladrão até o fim da Rua Grande, e que c, ladrão quebrara para o Largo dos Quartéis e quase que alcança o mato da Camboa". Dito isto, conduziu ele mesmo o moleque lá para dentro. Anda, peste! Vai preparando o pelo, que ainda hoje te metes em relho!"

Apreciaram muito o serviço da Dias, e conversaram sobre aquele ato de dedicação, elogiando o zelo do bom amigo e caixeiro de Manuel. Daí a uma hora despediam-se as moças. entre grande barafunda de beijos e abraços.

- Lindoca! gritava Ana Rosa, agora não arribe de novo, ouviu?...

- Sim, minha vida. hei de aparecer... olha!

E subiu dois degraus para lhe dizer m um segredinho.

- Sim, sim! E Eufrasinha adeus! D. Mana do Carmo, não deixe de levar essas meninas à quinta no dia de São João. Temos torta de caranguejos, olhe lá!

- Adeus, coracão!

- Etelvina, não se esqueça daquilo!...

- Bibina, despeça-se da gente!... guarde seus quatro vinténs!...

- Olhe, observou o Sebastião Campos, que as tais moças, para se despedirem... são terríveis!

- "Pudesse uma só nau contê-las todas..." recitou o Freitas. coçando o bigode com a sua unha de estimação, "e o piloto fosse eu... triunfo eterno!..." E.. após uma gargalhada seca, voltou-se para Raimundo e ofereceu-lhe com ar pretensioso "um talher na sua parca mesa".

- Vá doutor, vá por aquela choupana, disse. Vá aborrecer-se um pouco...

Raimundo prometeu distraidamente. Bocejava. Por mera delicadeza, perguntou se alguma das senhoras `'queria um criado para acompanhá-las a casa".

As Sarmentos aceitaram logo, com muitos trejeitos de cortesia. Ele interiormente contrariado, levou-as até às Mercês, onde moravam, ali mesmo, perto. Voltou pouco depois.

- Recolha-se. doutor, trate de recolher-se... aconselhou-lhe Manuel, que o esperava de pé. O senhor deve estar com o corpo a pedir descanso...

Raimundo confessou que sim, apertou-lhe a mão. "Boas noites, e obrigado".

- Até amanhã! Olhe! se precisar de qualquer coisa, chame pelo Benedito, ele dorme na varanda. Mas deve estar tudo lá; a Brígida é cuidadosa Passe bem!

Raimundo fechou-se no quarto: despiu se, acendeu um cigarro e deitou-se. Abriu por hábito um livro; mas, no fim da primeira página, as pálpebras se lhe fechavam Soprou a vela. Então sentiu um bem-estar infinito, profundamente agradável: abraçou-se aos travesseiros e, antes que algum dos acontecimentos desse dia lhe assaltasse o espírito, adormeceu.

Todavia, a pouca distancia dali, alguém velava, pensando nele.

V

19.85pt;text-autospace:none'> Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mônica.

- Mãe- pretinha!

19.85pt;text-autospace:none'> Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo da sua rede...

- Mãe-pretinha! Ó senhores!

- O que é, laiá? Não se agaste!

- Você tem um sono de pedra! oh!

Deu um estalo com a língua.

- Dispa-me!

19.85pt;text-autospace:none'> E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando à criada os pés pequeninos e bem calçados.

19.85pt;text-autospace:none'> Mônica tomou-os, com amor, entre as suas mãos negras e calejadas; descalçou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias; depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de Nossa Senhora, começou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o cadarço das anáguas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou só em camisa, disse, apalpando-lhe as costas:

- laiá? vos vossemecê está tão suada!...

E correu logo ao baú.

19.85pt;text-autospace:none'> A senhora pusera-se a cismar, distraída, coçando de leve a cintura, o lugar das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram comprimidas por muito tempo. Mônica voltou com uma camisola toda cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os braços, enfiou pela cabeça de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus pés a camisa servida e conchegou a outra à pele, afagando os seus peitos virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu uma carreira para a rede, na pontinha dos pés, como se neo quisesse tocar no chão.

19.85pt;text-autospace:none'> A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as jóias.

- laiá quer mais alguma coisa?

19.85pt;text-autospace:none'> - Água, disse a moça, aninhando-se já nos lençóis defumados de alfazema. Só se lhe via a graciosa cabeça, saindo despenteada dentre nuvens de pano branco.

19.85pt;text-autospace:none'> A cafuza trouxe-lhe uma bilha de água, e a senhora, depois de servida, beijou-lhe a mão.

- Boas noites mãe-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.

19.85pt;text-autospace:none'> - Deus te faça uma santa! respondeu Mônica, traçando no ar uma cruz com a mão aberta.

E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.

19.85pt;text-autospace:none'> Mônica orçava pelos cinqüenta anos; era gorda, sadia e muito asseada; tetas grandes e descaidas dentro do cabeção Tinha ao pescoço um barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200 réis, uma fava de cumaru, um dente de cão e um pedaço de lacre encastoado em ouro. Desde que amamentara Ana Rosa, dedicara-lhe um amor maternalmente extremoso, uma dedicação desinteressada e passiva. Iaiá fora sempre o seu ídolo, o seu único 'querer bem", porque os próprios filhos esses lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte, onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a pequenina, constituía o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe "sua filha, seu cativeiro" e todas as noites, e todas as manhãs, quando chegava ou quando saia para o trabalho, lançava lhe a bênção, sempre com estas mesmas palavras: "Deus te faça uma santa! - Deus te ajude! Deus te abençoe!" Se Ana Rosa fazia em casa qualquer diabrura, que desagradasse a mãe-preta, esta a repreendia imediatamente, com autoridade; desde, porém, que a acusação ou a reprimenda partissem de outro, fosse embora do pai ou da avó, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais.

Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha, o que muita gente desaprovou, "terás o pago!..." diziam-lhe. Mas a boa preta deixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela laia melhor que até então, mais cativa do que nunca.

Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, intima tranqüilidade do seu quarto frouxamente iluminado à luz mortiça do candeeiro de azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia. Raimundo avultava dentre a multidão dos fatos como uma letra maiúscula no meio de

um período de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do mar em dias de tempestade, aqueles lábios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente. "Que espécie de homem estaria ali!..."

Procurava com insistência recordar-se dele em algum dos episódios da sua infância-nada! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino, e que foram amigos, companheiros de berço criados juntos, que nem irmãos. E todas estas coisas lhe produziam no espírito um efeito muito estranho e singular. As meias sombras, as reservas e as reticências, com que a medo lhe falavam dele, ainda mais interessante o tomavam aos olhos dela. "Mas, afinal, quem seria ao certo aquele belo moço?... Nunca '"o explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre outros como por cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros que deixavam abertos a respeito do passado de Raimundo, todos esses véus em que o envolviam como a Uma estátua que se não pode ver emprestavam-lhe atrações magnéticas, Um encanto irresistível e perigoso de mistério, uma fascinação romântica de abismo.

Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distinção e a fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa franqueza de um selvagem produzia-lhe na razão o efeito de Um vinho forte, mas de Uma doçura irresistível e traidora ficava estonteada; perturbava-se toda com a lembrança do contraste daquela fisionomia, com a expressão contraditória daqueles olhos, suplicantes e dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada defronte daquele mito; reconhecia-lhe certo império, certa preponderância que jamais descobrira em ninguém; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava superior, único, excepcional.

E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que não fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: "Como deve ser bom o seu amor!..." E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julgá-lo minuciosamente, da cabeça aos pés. Parou nos olhos: "Quantos tesouros de ternura não estariam neles escondidos? neles, do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de pestadas crespas e negras, como os pêlos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe as sedas de uma aranha caranguejera." Estremeceu, porém, vieram-lhe desejos de os apalpar com os lábios. "Como devia ser bom ouvir dizer - Eu te amo! - por aquela boca e por aquela voz!..." E ficava assustada, como se de fato, no silêncio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao rosto, palavras de amor.

Mas logo tomava a si com a idéia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulhoso, levanta-lhe. na sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.

E entre mil devaneios deste gênero, com o sangue a percorrer-lhe mais apressado as artérias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansaço. E, quem pudesse observá-la pela noite adiante. vê la-ia de vez em quando abraçar-se aos travesseiros e, trêmula, estender os lábios, entre abertos e sôfregos. como quem procura um beijo no espaço.

Na manhã seguinte acordara pálido e nervosa, a semelhança de uma noiva no dia imediato às núpcias. Faltava-lhe animo até para se preparar e sair do quarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos cheia de fadiga.

Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.

Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolução: as pálpebra]s lânguidas, as narinas dilatadas pelo hálito quente e doendo: os beiços secos e ásperos; o corpo moido sob um fastio geral, que lhe dava espreguiçamentos de febre e má vontade. E., assim prostrada, deixava-se ficar entre os lençóis, tolhida de vexame e enleio, pelas loucuras da noite.

A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava café, despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se. lavou se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enforcada, posto não estivesse pior que nos outros dias, endireitou-se toda, cobriu o rosto de pó de arroz, arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.

Apareceu lá fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um "Bons dias" frio. de olhos baixos. Não podia encará-lo. Maria Bárbara já lá estava na labutação, a cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.

- Olha esse bilhete da Eufrásia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma tira de papel. engenhosamente dobrada em laço c com um galhinho de alecrim enfiado no centro.

Ana Rosa teve um gesto involuntário de contrariedade. Aborrecia-lhe agora sem saber por quê, a amizade da viúva, dela, que era ate ai a sua íntima, a sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha enfastiado o seu desejo, naquele instante, era ficar só, bem só, num lugar em que ninguém pudesse importuná-la.

Serviu-se de uma xícara de café, deu-se por incomodada.

- V. Exª sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.

Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz, abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:

- Não é nada... Nervoso...

- É isto! acudiu Maria Bárbara, que parara para ouvir a resposta da neta. Nervoso! Olhem que estas moças dagora são tão cheias de tanta novidade e de tantas invenções!... E o nervoso! é a tal da enxaqueca! é o flato! é o faniquito! Ah, meu tempo, meu tempo!...

Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferença pelo que dizia a velha.

- Não faça caso, moço! Esta menina está assim já de tempos, e ninguém me tira que foi quebranto que lira botaram!...

Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava de assentar-se. 'Esta vovó!... pensou ela envergonhada. Que idéia não ficará ele fazendo da gente!..."

- Não se ria, nhô Mundico! não se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que aqui esta - e bateu no peito - quem já andou de quebranto a dar-não-dá com os ossinhos no Gavião!

E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada em ouro:-Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do mau-olhado!

- Mas, Srª D. Maria Bárbara, conte-me como foi essa história do quebranto, pediu Raimundo.

- Ora o quê! Pois então o senhor não sabe que o mau-olhado pegando Uma criatura de Deus -está despachadinha?... Então, credo! que andou o senhor aprendendo lá por essas paragens que correu?!

- V. Ex.ª, minha prima, também acredita no quebranto? interrogou o moço, voltando-se para Ana Rosa.

- Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.

- Ah, então não é supersticiosa?...

- Não, felizmente. Além disso - e abaixou a voz, rindo-se mais - ainda que acreditasse, não corria risco... dizem que o quebranto só ataca em geral as pessoas bonitas...

E sorriu para Raimundo.

- Nesse caso, é prudente acautelar-se... volveu ele galanteando.

E, como se Ana Rosa lhe chamara a atenção para a própria beleza passou a considerá-la melhor; enquanto a velha taramelava:

- Meu caro senhor Mundico, hoj' em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão - cheios de febres, de bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que aquilo é! Diz que é "beribéri" ou não sei quê; o caso é que nunca vi em dias de minha vida semelhante diabo de moléstia, e que o tal como-chama está matando de repente que nem obra do sujo, credo! Até parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai, mas é tudo caminhando para uma república há de dar-lhes uma. que os faça ficar ai de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se já não há tementes de Deus! já poucos são os que rezam!.. Hoje, com perdão da Virgem Santíssima - e bateu uma palmada na boca - até podres! até há padres que não prestam!

Raimundo continuava a rir.

- Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais se V. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.

Então e que ficaria pasma deveras!

- Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá ,: ir esse mundão de esconjurados! Por isso e que agora está se vendo li sue se vê, benza-me Deus!


E, benzendo-se ela própria com ambas as mãos, pediu que a deixassem ir dar uma vista de olhos pela cozinha.

- É eu não estar lá e o serviço fica logo pra trás!. Caem no remancho, diabo das pestes!

Afastou-se gritando, desde a varanda pela Brígida: Aí estavam a pingar as nove, e nem sinal de almoço!..."

Raimundo e Ana Rosa ficaram a sós defronte um , outro, ela de olhos baixos, confusa, na aparência quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a observá-la com interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples e bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irmã, de quem ele estivera ausente desde a infância "Deve ser, com certeza, uma excelente moca... calculou de si para si Pelo seu todo esta a dizer que é boa de coração e honesta por natureza Além do que, bonita..."

Sim, que até ai Raimundo ainda não tinha reparado que sua prima era bonita. Notou-lhe então a frescura da pele, a pureza da boca, a abundância cabelos. Achou-a bem tratada; as mãos claras, os dentes asseados, a tez muito limpa, fina e lustrosa, na sua palidez simpática de flor do Norte.

Principiaram a conversar, depois de algum silêncio, com muita cerimônia. Ele continuava a dar-lhe excelência, o que a constrangia um tanto, perguntou lhe pelo pai

Que tinha ido para o armazém, como de costume, e só subiria para almoçar e para jantar. Daí, queixou-se da solidão em que vivia no aborrecimento daquela casa "Um cemitério de triste!..." Lamentou não ter um irmão e, em resposta a uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que a leitura muitas vezes a fatigava também. O primo, se tinha um romance bom, que lho emprestasse.

Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixão que ainda estava pregado.

A propósito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa lamentou não ter saido nunca do Maranhão. Tinha vontade de conhecer outros climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrição de certos lugares; falou, suspirando, da Itália. "Ah, Nápoles!...""

- Não, não! objetou o rapaz. Não é o que V. Exª supõe! Os poetas exageram muito! É bom não acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!

E, depois de uma ligeira súmula das impressões recebidas na Itália, perguntou à prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e Raimundo, muito solicito, correu a buscar o seu álbum.

Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alívio: respirou como se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas já não estava tão nervosa e até parecia disposta a rir e gracejar; é que Raimundo, no meio da conversa, dissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante e bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe ao semblante a sua natural expressão de bom humor.

Ele voltou com o álbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.

Começaram a ver. Ana Rosa era toda atenção para os desenhos; enquanto Raimundo, ao seu lado ia virando as folhas com os seus dedos morenos e roliços. e explicando as paisagens montanhosas da Suíça os edifícios e os jardins de França, os arrabaldes de Itália. E contava os passeios que realizara, os almoços que tivera em viagem, as serenatas em gôndola; ia dizendo tudo o que aqueles desenhos lhe chamavam à memória: como chegara a certo lago; como passara tal ponte; como fora servido em tais e tais hotéis e o que sabia daquele chalezinho verde, que a aquarela representava escondido entre árvores sonolentas e misteriosas.

Ana Rosa escutava com um silêncio de inveja.

- Que é isto? perguntou ela, ao ver um esboço, que expunha dois bispos, já amortalhados dentro dos competentes caixões de defunto, como à espera do momento de baixarem a tenra. Um estava imóvel, de mãos postas e olhos cerrados; o outro, porém, erguia-se a meio e parecia voltar à vida. Ao lado deles havia um frade.

- Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso é copiado de um quadro, que vi na sacristia do velho convento de São Francisco, da Paraíba do Norte. Não vale nada, como todos os quadros que lá estão, e não poucos, pintados sobre madeira; um colorido impossível; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse é um dos mais antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade cronológica. Vê esse escudo nas mãos do frade? Tenha a bondade de virar a página; que V. Exª encontrará um soneto que aí estava escrito a pincel.

Ana Rosa virou a folha e leu:

"Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te põe. que morto estar a, Mostra quanto Francisco o estimava Pois não quer vá com culpa à sepultura.

Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o expõe: este formava Contra a Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades trágico jatura.

Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma a ti a que for mais conducente:

O primeiro ama a Ordem e toma à vida: O segundo a aborrece e o golpe sente. Ambos prêmios têm por igual medida."

- Quem há de gostar disto. é vovó... ela tem muita devoção com São Francisco!

- Olhe! ai tem Vossa Exª um dos pontos mais bonitos de Paris.- É desenho de um pintor meu amigo; muito forte! - Essas ruínas, que aparecem ao fundo, são das Tulherias.

E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do álbum, via e ouvia tudo, com muito empenho; queria explicações; não lhe escapava nada. Raimundo, debruçado nas costas da cadeira em que ela estava. tinha às vezes de abaixar a cabeça para afirmar o desenho e rogava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.

Ao virar de uma folha deram de súbito com um cartão fotográfico, que estava solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posição de teatro: com as suas saias de cambraia, curtíssimas, formando-lhe uma nuvem vaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e braços de meia.

- Oh! articulou a moça, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa estranha que viesse entremter-se no seu colóquio.

E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria do cartão com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a logo detestável.

- Ah, certamente!... E uma dançarina parisiense, explicou Raimundo, fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artístico...

E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa não percebesse a dedicatória nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas já vistas do álbum.

Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a música viesse à conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoço. Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco de desafinação, executou vários trecho italianos.

Benedito apareceu à porta de corpo nu.

- laiá! Sinhô está chamando pra mesa.

O almoço correu pilheriado e alegre. O cônego Diogo viera a convite de Manuel, no propósito de sairem os dois mais o Raimundo. para dar uma vista d'olhos pelas casinhas de São Pantaleão.

Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ruído de pés.

Por esse tempo aqueles três surgiam na rua, formando cada qual mais vivo contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante, calças de brim e paletó de alpaca; o cônego imponente na sua batina lustrosa, aristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o pé mimoso, apertadinho no sapato de polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de casimira leve adequada ao clima do Maranhão, escandalizando o bairro comercial com o seu chapéu-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte de dentro. "Formavam dizia este último, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma respeitável trindade filosófica, na qual, ali, o Sr. Cônego representava a teologia, o Sr. Manuel a metafísica, e ele, Raimundo, a filosofia política; o que, aplicado à política, traduzia-se na prodigiosa aliança dos três governos - o do papado, o monárquico e o republicano!"

Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas semicerradas de uma janela.

Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a atenção a todos. As negrinhas comam ao interior das casas, chamando em gritos a sinhá-moça para ver passar "Um moço bonito!" Na rua, os linguarudos paravam com ar estúpido, para examiná-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabeça aos pés, como em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na calçada.

- Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapéu de palha?

- Or'essa! Pois ainda não sabes? respondia um Bento. É o hóspede de Manuel Pescada!

- Ah! este é que é o tal doutor de Coimbra?

- O cujo! afirmava o Bento.

- Mas Brito, vem cá! disse o outro, com grande mistério, como quem faz uma revelação importante. - Ouvi dizer que é mulato!...

E a voz do Brito tinha o assombro de uma denúncia de crime.

- Que queres, meu Bento? São assim estes pomadas cá da terra dos papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar lhes a raça, sem cobrar nada por isso!

- Branquinho nacional! É gentinha com quem eu embirro. ó Bento, como com o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a sua genealogia galega.

Em outra parte, dizia-se:

- Olé Um cara nova? Que achado!

- É o Dr. Raimundo da Silva...

- Médico?

- Não. Formado em Direito.

- Ah! É advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?

- Vem advogar a própria causa por cá! Está tratando do que lhe pertence e do que lhe não pertence!

- O que me conta você, homem?...

- Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os casamentos ricos andam a ufa!...

Em uma casa de família:

- Sabem? passou por aí o Raimundo!

- Que Raimundo? perguntam logo em coro.

- Aquele mulato, que diz que é doutor e está às sopas do Manuel Pescada!

- Dizem que ele tem alguma coisa...

- Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por cá, trazem o rei na barriga!

- E o Pescada para que o quer em casa?

Qual quer o quê! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se ficar!

- Sempre há muita gente sem vergonha!...

Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cônego Diogo e que vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido Conservador; o redator do "Maritacaca" dizia a um correligionário: "Espere um pouco! deixe chegarem as eleições e então você verá este sujeito de cama e mesa com o presidente. Olhe! eles hão de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um, como o outro!"

E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentários diversos e estúpidas conjeturas.

À noite estava fechado o negócio das casas, e decidido que, mel fizesse bom tempo, iria ele ao Rosário com o Manuel, resolver o da fazenda.