A dream that was not at all a dream.
LORD BYRON, Darkness
Cerraste enfim as pálpebras sombrias!...
E a fronte esverdeou da morte à sombra,
Como lâmpada exausta!
E agora?... no silêncio do sepulcro
Sonhas o amor... os seios de alabastro
Das lânguidas amantes?
E Haidéia, a virgem, pela praia errando,
Aos murmúrios do mar que lhe suspira
Com incógnito desejo
Te sussurra delícias vaporosas...
E o formosoestrangeiro adormecido
Entrebeija tremendo?
Ou a pálida fronte libertina
Relembra a tez, o talhe voluptuoso
Da oriental seminua?
Ou o vento da noite em teus cabelos
Sussurra e lembra do passado as nódoas
No túmulo sem letras?
Ergue-te, libertino! eu não te acordo
Para que a orgia te avermelhe a face
Que a morte amarelou...
Nem para jogo e noites delirantes,
E do ouro a febre e da perdida os lábios
E a convulsão noturna!
Não, ó belo Espanhol! Venho sentar-me
À borda do teu leito, porque a febre
Minha insônia devora...
Porque não durmo quando o sonho passa
E do passado o manto profanado
Me roça pela face!
Quero na sombra conversar contigo,
Quero me digas tuas noites breves,
As febres e as donzelas
Que no fogo do viver murchaste ao peito!
Ergue-te um pouco da mortalha branca,
Acorda, Don Juan!
Contigo velarei: do teu sudário
Nas dobras negras deporei a fronte,
Como um colo de mãe...
E como leviano peregrino
Da vida as águas saudarei sorrindo
Na extrema do infinito!
E quando a ironia regelar-se
E a morte me azular os lábios frios
E o peito emudecer...
No vinho queimador, no golo extremo,
Num riso... à vida brindarei zombando
E dormirei contigo!
Mas não: não veio na mortalha envolto
Don Juan, seminu, com rir descrido,
Zombando do passado,
Só além... onde as folhas alvejavam
Ao luar que banhava o cemitério,
Vi um vulto na sombra.
Cantava: ao peito o bandolim saudoso
Apertava, qual nu e perfumado
A Madona seu filho;
E a voz do bandolim se repassava...
Mais languidez bebia ressoando
No cavernoso peito.
Do sombrero despiu a fronte pálida,
Ergueu à lua a palidez do rosto
Que lágrimas enchiam...
Cantava: eu o escutei... amei-lhe o canto,
Com ele suspirei, chorei com ele:
— O vulto era Don Juan!
A CANÇÃO DE DON JUAN
"Ó faces morenas! ó lábios de flor!
Ouvi-me a guitarra que trina louçã,
Vos tragou meu peito, meus beijos de amor
Ó lábios de flor,
Eu sou Don Juan!
"Nas brisas da noite, no frouxo luar,
Nos beijos do vento, na fresca manhã
Dizei-me: não vistes, num sonho passar,
Ao frouxo luar,
Febril Don Juan?
"Acordem, acordem, ó minhas donzelas,
A brisa nas águas lateja de afã!
Meus lábios têm fogo e as noites são belas
Ó minhas donzelas,
Eu sou Don Juan!
"Ai! nunca sentistes o amor d’espanhol!
os lábios mimosos de flor de romã
Os beijos que queimam no fogo do sol!
Eu sou o espanhol:
Eu sou Don Juan!
"Que amor, que sonhos no febril passado!
Que tantas ilusões no amor ardente!
E que pálidas faces de donzela
Que por mim desmaiaram docemente!
"Eu era o vendaval que às flores puras
Do amor nas manhãs o lábio abria!
Se murchei-as depois... é que espedaça
As flores da montanha a ventania!
"E tão belas, meu Deus! as níveas pérolas
Mergulhei-as no lodo uma por uma,
De meus sonhos de amor nada me resta!
Em negras ondas só vermelha escuma!
"Anjos que desflorei! que desmaiados
Na torrente lancei do lupanar!
Crianças que dormiam no meu peito
E acordaram da mágoa ao soluçar!
"E não tremem as folhas no sussurro,
E as almas não palpitam-se de afã,
Quando entre a chuva rebuçado passa
Saciado de beijos Don Juan?"
Como virgem que sente esmorecer
Num hálito de amor a vida bela,
Que desmaia, que treme...
Como virgem nas lentas agonias
Os seus olhos azuis aos céus erguendo
Co’as mãos níveas no seio...
Pressentindo que o sangue lhe resfria
E que nas faces pálidas a beija
O anjo da agonia...
Exala ainda o canto harmonioso...
Casuarina pendida onde sussurra
O anoitecer da vida...
Assim nos lábios e nas cordas meigas
Do palpitante bandolim a mágoa
Gemia como o vento...
Como o cisne que bóia, que se perde...
Na lagoa da morte geme ainda
O cântico saudoso!
Mas depois no silêncio uma risada
Convulsiva arquejou... rompeu as cordas
Das ternas assonias,
Rompeu-as e sem dó... e noutras fibras
Corria os dedos descuidoso e frio
Salpicando-as d’escárnio...
"Os homens semelham as modas de um dia,
E velha e passada
A roupa manchada...
Porém quem diria
Que é moda de um dia,
Que é velho Don Juan?!
"Os anos que passem nos negros cabelos
Branqueiem de neve
As c’roas que teve!
Dizei, anjos belos
De negros cabelos,
Se é velho Don Juan!
"E quando no seio das trêmulas belas
De noite suspira
E nuta e delira...
Que digam pois elas
As trêmulas belas
Se é velho Don Juan!
"Que o diga a sultana, a violenta espanhola,
A loira alemã
E grega louçã...
Que o diga a espanhola
Que a noite consola...
Se é velho Don Juan!
"...........................................................
............................................................."
Era longa a canção... Cantou; e o vento
Nos ciprestes com ele esmorecia!
Pendeu a fronte, os lábios
Emudeceram... como cala o vento
Do trópico na podre calmaria...
Cismava Don Juan
Como é bela a manhã! Como entre a névoa
A cidade sombria ao sol clareia
E o manto dos pinheiros se aveluda...
E o orvalho goteja dos coqueiros...
E dos vales o aroma acorda o pássaro...
E o fogoso corcel no campo aberto
Sorve d’alva o frescor, sacode as clinas,
Respira na amplidão, no orvalho rola,
Cobra em leito de folhas novo alento
E galopa nitrindo!
Agora que a manhã é fresca e branca
E o campo solitário e o val se arreia...
Ó meu amigo, passeemos juntos
Na várzea que do rio as águas negras
Umedecem fecundas...
O campo é só: na chácara florida
Dorme o homem do vale e no convento
Cintila a medo a lâmpada da virgem,
Que pálidas vestais no altar acendem!
Tudo acorda, meu Deus, nestas campinas!
Os cantos do Senhor erguem-se em nuvens,
Como o perfume que evapora o leito
Do lírio virginal!
Acorda, ó meu amigo: quando brilha
Em toda a natureza tanto encanto,
Tanta magia pelo céu flutua
E chovem sobre os vales harmonias,
É descrer do Senhor dormir no tédio,
É renegar das santas maravilhas
O ardente coração não expandir-se
E a alma não jubilar dentro do peito!
Lá onde mais suave entre os coqueiros,
O vento da manhã nas casuarinas
Cicia mais ardente suspirando,
Como de noite no pinhal sombrio
Aéreo canto de não vista sombra,
Que enche o ar de tristeza e amor transpira...
Lá onde o rio molemente chora
Nas campinas em flor e rola triste...
Alveja, à sombra, habitação ditosa,
Coroa os frisos da janela verde
A trepadeira em flor do jasmineiro
E pelo muro se avermelha a rosa.
Ali quando a manhã acorda a bela,
A bela, que eu sonhei nos meus amores...
Ao primeiro calor do sol d’aurora
Entorna-se da flor o doce aroma,
Inda mais doce em matutino orvalho,
Nas tranças negras da donzela pálida,
Mais bela que o diamante se aveluda,
Camélia fresca, inda em botão, tingida
De neve e de coral... no seio dela
Não reluz o colar... em negro fio
A cruz da infância melhor guarda o seio,
Que o amor virginal beija tremendo
E os ais do coração melhor perfuma...
Vem comigo, mancebo: aqui sentemo-nos...
Ela dorme: a janela inda cerrada
Se enche de rosas e jasmins, à noite...
E as flores virgens com o aberto seio
Um beijo da donzela ainda imploram.
Mais doce o canto foge de mistura
Co’as doces notas do violão divino!
Anjo da vida te verteu nos lábios
O mel dos serafins que a voz serena,
Que a transborda de encanto e de harmonia
E faz no eco propulsar meu peito!
Suspire o violão: nos seus lamentos
Murmura essa canção dos meus amores,
Que este peito sangrento lhe votara,
Quando a seus pés, acesa a fantasia,
Em doce engano derramei minh’alma!
Quando a brisa seus ais melhor afina,
Quando a frauta no mar branda suspira,
Com mais encanto as folhas do salgueiro
Debruçam-se nas águas solitárias
E deixam, gota a gota, o argênteo orvalho
Como prantos nas folhas deslizar-se.
Quando a voz do cantor perder-se, à noite,
Na margem da torrente, ou nas campinas,
Ou no umbroso jardim que flores cobrem...
Mais doce a noite pelo céu vagueia,
Melhor florescem as noturnas flores...
E o seio da mulher, que a noite embala,
Pulsa quente e febril com mais ternura!
Se o anjo de meus tímidos amores
Pudesse ouvir-te os cândidos suspiros,
Que a minha dor de amante lhe revelam...
Se ela acordasse, nos cabelos soltos
Inda o semblante sonolento e pálido
E o seio seminu e os ombros níveos
E as trêmulas mãos cobrindo o seio...
Se esta janela num instante abrisse
A fada da ventura, embora apenas
Um instante... sequer... Meus pobres sonhos,
Como saudosos vos murchais sedentos!
Flores do mar que um triste vagabundo
Arrancou de seu leito umedecido
E grosseiro apertou nas mãos ardentes,
Eu morro de saudade! e só me nutre
Inda nas tristes, desbotadas veias
O sangue do passado e da esperança!
A poesia transcrita é de Torquato,
Desse pobre poeta enamorado
Pelos encantos de Leonora esquiva,
Copiei-a do próprio manuscrito;
E, para prova da verdade pura
Deste prólogo meu, basta que eu diga
Que a letra era um garrancho indecifrável,
Mistura de borrões e linhas tortas!
Trouxe-ma do Arquivo lá da lua
E decifrou-ma familiar demônio...
Demais... infelizmente é bem verdade
Que Tasso lastimou-se da penúria
De não ter um ceitil para a candeia.
Provo com isso que do mundo todo
O sol é este Deus indefinível,
Ouro, prata, papel, ou mesmo cobre,
Mais santo do que os Papas — o dinheiro!
Byron no seu Don Juan votou-lhe cantos,
Filinto Elísio e Tolentino o sonham,
Foi o Deus de Bocage e d’Aretino,
— Aretino! essa incrível criatura
Lívida, tenebrosa, impura e bela,
Sublime... e sem pudor, onda de lodo
Em que do gênio profanou-se a pérola,
Vaso d’ouro que um óxido terrível
Envenenou de morte, alma — poeta
Que tudo profanou com as mãos imundas
E latiu como um cão mordendo um século...
............................................................................
Quem não ama o dinheiro? Não me engano
Se creio que Satã, à noite, veio
Aos ouvidos de Adão adormecido,
Na sua hora primeira, murmurar-lhe
Essa palavra mágica da vida,
Que vibra musical em todo o mundo,
Se houvesse o Deus-Vintém no Paraíso
Eva não se tentava pelas frutas,
Pela rubra maçã não se perdera:
Preferira decerto o louro amante
Que tine tão suave e é tão macio!
Se não faltasse o tempo a meus trabalhos,
Eu mostraria quanto o povo mente
Quando diz que — a poesia enjeita e odeia
As moedinhas doiradas. É mentira!
Desde Homero (que até pedia cobre),
Virgílio, Horácio, Calderón, Racine,
Boileau e o fabuleiro LaFontaine
E tantos que melhor decerto fora
De poetas copiar algum catálogo,
Todos a mil e mil por ele vivem
E alguns chegaram a morrer por ele!
Eu só peço licença de fazer-vos
Uma simples pergunta: — na gaveta
Se Camões visse o brilho do dinheiro...
Malfilâtre, Gilbert, o altivo Chatterton
Se o tivessem nas rotas algibeiras,
Acaso blasfemando morreriam?
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que nas orgias gastou o peito insano...
Que foi ao lupanar pedir um leito,
Onde a sede febril lhe adormecesse!
Não podia dormir! nas longas noites
Pediu ao vício os beijos de veneno...
E amou a saturnal, o vinho, o jogo
E a convulsão nos seios da perdida!
Misérrimo! não creu... Não o maldigam,
Se uma sina fatal o arrebatava...
Se na torrente das paixões dormindo
Foi naufragar nas solidões do crime.
Oh! não maldigam o mancebo exausto
Que no vício embalou, a rir, os sonhos,
Que lhes manchou as perfumadas tranças
Nos travesseiros da mulher sem brio!
Se ele poeta nodoou seus lábios...
É que fervia um coração de fogo
E da matéria a convulsão impura
A voz do coração emudecia!
E quando p’la manhã da longa insônia
Do leito profanado ele se erguia,
Sentindo a brisa lhe beijar no rosto
E a febre arrefecer nos roxos lábios...
E o corpo adormecia e repousava
Na serenada relva da campina...
E as aves da manhã em torno dele
Os sonhos do poeta acalentavam...
Vinha um anjo de amor uni-lo ao peito,
Vinha uma nuvem derramar-lhe a sombra...
E a alma que chorava a infâmia dele
Secava o pranto e suspirava ainda!
Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune,
adoré; on a considération, honneurs, qualités, vertus.
Quand on n’a point d’argent on est dans la dépendance
de toutes choses et de tout le monde.
CHATEAUBRIAND
Sem ele não há cova! quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Danáes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a deputado, até ministro,
Quem é mesmo eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus, mas esse texto
Explica-se melhor e d’outro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!
Minha desgraça não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco...
E, meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco...
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro...
Eu sei... O mundo é um lodaçal perdido
cujo sol (quem mo dera) é o dinheiro...
Minha desgraça, ó cândida donzela,
O que faz que meu peito assim blasfema,
É ter por escrever todo um poema
E não ter um vintém para uma vela.
Et pourtant que le parfum d’un pur
amour est suave!
GEORGE SAND
Meu pobre coração que estremecias,
Suspira a desmaiar no peito meu:
Para enchê-lo de amor, tu bem sabias
Bastava um beijo teu!
Como o vale nas brisas se acalenta,
O triste coração no amor dormia;
Na saudade, na lua macilenta
Sequioso ar bebia!
Se nos sonhos da noite se embalava
Sem um gemido, sem um ai sequer,
E que o leite da vida ele sonhava
Num seio de mulher!
Se abriu tremendo os íntimos refolhos,
Se junto de teu seio ele tremia,
E que lia a ventura nos teus olhos,
É que deles vivia!
Fonte: www.biblio.com.br