SATÃ
Eis o que é profundamente verdade! Perguntai ao libertino que venceu o orgulho de cem virgens e que passou outras tantas noites no leito de cem devassas, perguntai a D. Juan, Hamlet ou ao Faust o que é a mulher, e... nenhum o saberá dizer. E isso que te digo não é romantismo. Amanhã numa taverna poderás achar Romeu com a criada da estalagem, verás D. Juan com Julietas, Hamlet ou Faust sob a casaca de um dandy. É que esses tipos são velhos e eternos como o sol. E a humanidade que os estuda desde os primeiros tempos ainda não entende esses míseros, cuja desgraça é não entender; e o sábio que os vê a seu lado deixa esse estudo para pensar nas estrelas; o médico que talvez foi moço de coração e amou e creu, e desesperou e descreu, ri-se das doenças da alma e só vê a nostalgia na ruptura de um vaso, o amor concentrado quando se materializa numa tísica. Se Antony ainda vive e deu-se à medicina é capaz de receitar uma dose de jalapa para uma dor íntima; um cautério para uma dor de coração!
MACÁRIO
Falas como um livro, como dizem as velhas. Só Deus ou tu sabes se o La Ramée ou D. Cesar de Basan, Santa Teresa ou Marion Delorme, o sábio ou o ignorante, Creso ou Iro, Goethe ou o mendigo ébrio que canta, entenderam a vida. Quem sabe onde está a verdade? nos sonhos do poeta, nas visões do monge, nas canções obscenas do marinheiro, na cabeça do doido, na palidez do cadáver, ou no vinho ardente da orgia? Quem sabe?
SATÃ
És triste como um sino que dobra. Não falemos nisto. Fala-me antes na beleza de alguma virgem nua, na languidez de uns olhos negros, na convulsão que te abala nalguma hora de deleite. A minha guitarra está ali: queres que te cante alguma modinha? Pela lua! estás distraído como um fumador de ópio!
MACÁRIO
No que penso? Hás de rir se contar-to. É uma história fatal.
SATÃ
Deixa-me acender outro charuto...Muito bem. Conta agora. É algum romance?
MACÁRIO
Não: lembrei-me agora de uma mulher. Uma noite encontrei na rua uma vagabunda. A noite era escura. Eu ia pelas ruas à toa ...Segui-a. Ela levou-me à sua casa. Era um casebre. A cama era um catre: havia um colchão em cima, mas tão velho, tão batido, que parecia estar desfeito ao peso dos que aí haviam-se revolvido. Deitei-me com ela. Estive algumas horas. Essa mulher não era bela: era magra e lívida. Essa alcova era imunda. Eu estava aí frio: o contato daquele corpo amolecido não me excitava sensações; e contudo eu mentia à minha alma, dando-lhe beijos. Eu saí dali. No outro dia de manhã voltei. A casa estava fechada. Bati. Não me responderam. Entrei: uma mulher saíu-me ao encontro. Perguntei-lhe pela outra. Silêncio! me disse a velha, está deitada ali no chão Morreu esta noite E com um ar cínico..."Quereis vê-la? está nua... vão amortalhá-la..."
SATÃ
Na verdade, é singular. E o nome dessa mulher?
MACÁRIO
Esqueci-o. Talvez amanhã eu to diga: amanhã ou depois... que importa um nome? E contudo essa misérrima com quem deitei-me uma noite, que pretendia ter o segredo da virgindade eterna de Marion Delorme, que me falava de amanhã com tanta certeza, que mercadejava sua noite de amanhã como vendera segunda vez a de seu hoje e que de certo morreu pensando nos meios de excitar mais deleite, na receita da virgindade eterna que ela sabia como a antiga Marion Delorme... essa mulher que esqueci como se esquecem os que são mortos, me fez ainda agora estremecer.
SATÃ
E quem sabe se aquela mulher a cujo lado estiveste não era a ventura?
MACÁRIO
Não te entendo.
SATÃ
Quem sabe se naquele pântano não encontrarias talvez a chave de ouro dos prazeres que deliram?
MACÁRIO
Quem sabe! Talvez.
SATÃ
É tarde. Agora é uma caveira a face que beijaste -uma caveira sem lábios, sem olhos e sem cabelos. O seio se desfez... A vulva onde a sede imunda do soldado se enfurnava-como um cão se sacia de lodo-foi consumida na terra. Tudo isso é comum. É uma idéia velha não? E quem sabe se sobre aquele cadáver não correram lágrimas de alguma esperança que se desvaneceu? se com ela não se enterrou teu futuro de amor? Não gozaste aquela mulher?
MACÁRIO
Não.
SATÃ
Se ali ficasse mais alguma hora, talvez ela te morresse nos braços. Aquela agonia, o beijo daquela moribunda talvez te regenerasse. Da morte nasce muitas vezes a vida. Dizem que se a rabeca de Paganini dava sons tão humanos, tão melodiosos, é que ele fizera passar a alma de sua mãe, de sua velha mãe moribunda, pelas cordas e pela caverna de seu instrumento. Sentes frio, que te embuças assim no teu capote?
MACÁRIO
Satã, fecha aquela janela. O ar da noite me faz mal. O luar me gela. Demais, senti nas folhagens ao longe um estremecer. Que som abafado é aquele ao longe? Dir-se-ia o arranco de um velho que estrebucha.
SATÃ
É a meia-noite. Não ouves?
MACÁRIO
Sim. É a meia-noite. A hora amaldiçoada; a hora que faz medo às beatas, e que acorda o ceticismo. Dizem que a essa hora vagam espíritos, que os cadáveres abrem os lábios inchados e murmuram mistérios É verdade, Satã?
SATÃ
Se não tivesses tanto frio, eu te levaria comigo ao campo. Eu te adormeceria no cemitério e havias ter sonhos como ninguém os tem, e como os que os têm não querem crê-los.
MACÁRIO
Bem, muito bem. Irei contigo.
SATÃ
Vamos pois. Dá-me tua mão. Está fria como a de um defunto! Dentro em alguns momentos estaremos longe daqui. Dormirás esta noite um sono bem profundo.
MACÁRIO
O da morte?
SATÃ
Fundo como o do morto: mas acordarás, e amanhã lembrarás sonhos como um ébrio nunca vislumbrou.
MACÁRIO
Vamos: --estou pronto.
SATÃ
Deixa-me beber um trago de curaçau. Vamos. A lua parou no céu. Tudo dorme. É a hora dos mistérios. Deus dorme no seio da criação como Lot no regaço incestuoso de sua filha. Só vela satã. satã, com a mão sobre o estômago de Macário, que está deitado sobre um túmulo.
SATÃ
Acorda!
MACÁRIO (estremece)
Ah! pensei nunca mais acordar! Que sono profundo!
SATÃ
Divertis-te muito à noite, não?
MACÁRIO
É horrível! horrível!
SATÃ
Fala.
MACÁRIO
Meu peito se exauriu. Meus lábios não podem transbordar estes mistérios.
SATÃ
Era pois muito medonho o que vias? Levanta-te daí.
MACÁRIO
Não posso: quebrou-se meu corpo entre os braços do pesadelo. Não posso.
SATÃ
Liba esse licor: uma gota bastaria para reanimar um cadáver.
MACÁRIO (toca-o nos lábios)
Que fogo! meu peito arde. Ah! ah! que dor!
SATÃ
Não sabes que para o metal bruto se derreter e cristalizar é míster um fogo ardente, ou a centelha magnética ?
MACÁRIO
Que sonho! Era um ar abafado...sem nuvens e sem estrelas!...Que escuridão! Ouvia-se apenas de espaço a espaço um baque como o de um peso que cai no mar e afunda-se ... Às vezes vinha uma luz, como uma estrela ardente, cair e apagar-se naquela lagoa negra... Depois eu vi uma forma de mulher pensativa. Era nua... e seu corpo perfeito como era de um anjo-mas era lívido como o mármore. Seus olhos eram vidrados, os lábios brancos, e as unhas roxeadas. Seu cabelo era louro, mas tinha uns reflexos de branco. -Que dor desconhecida a gelara assim e lhe embranquecera os cabelos? Não o sei. Ela se erguia às vezes, cambaleando, estremecendo suas pernas indecisas, como uma criança que tirita;...e se perdia nas trevas. Eu a segui. Caminhamos longo tempo num chão pantanoso...
SATÃ
E tu a viste parar numa torrente que transbordava de cadáveres-tomá-los um por um nos braços sem sangue, apertar-se gelada naqueles seios de gelo, revolver-se, tremer, arquejar e erguer-se depois sempre com um sorriso amargo.
MACÁRIO
Quem era essa mulher?
SATÃ
Era um anjo. Há cinco mil anos que ele tem o corpo da mulher e o anátema de uma virgindade eterna. Tem todas as sedes, todos os apetites lascivos, mas não pode amar. Todos aqueles em que ela toca se gelam. Repousou o seu seio, roçou suas faces em muitas virgens e prostitutas, em muitos velhos e crianças, bateu a todas as portas da criação, estendeu-se em todos os leitos e com ela o silêncio... Essa estátua ambulante é quem murcha as flores, quem desfolha o outono, quem amortalha as esperanças.
MACÁRIO
Quem é?
SATÃ
E depois o quc viste?
MACÁRIO
Vi muita coisa. . . Eram mil vozes que rebentavam do abismo, ardentes de blasfêmia! Das montanhas e dos vales da terra, das noites de amor e das noites de agonia, dos leitos do noivado aos túmulos da morte erguia-se uma voz que dizia:-Cristo, sê maldito! Glória, três vezes glória ao anjo do mal! E as estrelas fugiam chorando, derramando suas lágrimas de fogo. . . E uma figura amarelenta beijava a criação na fronte, e esse beijo deixava uma nódoa eterna...
SATÃ
Estás muito pálido. E contudo sonhaste só meia hora.
MACÁRIO
Eu pensei que era um século. O que um homem sente em cem anos não equivale a esse momento. Que estrela é aquela que caiu do céu, que ai é esse que gemeu nas brisas?
SATÃ
É um filho que o pai enjeitou. É um anjo que desliza na terra. Amanhã talvez o encontres. A pérola talvez se enfie num colar de bagas impuras, talvez o diamante se engaste em cobre. Aposto como daqui a um momento será uma mulher, daqui a um dia uma Santa Madalena!
MACÁRIO
Descrido?
SATÃ
O anjo é a criatura do amor. E o que há mais aberto ao amor que a filha de Jerusalém? Qual é a sombra onde mais vezes tem vibrado essa pólvora mágica e incompreensível? Qual é o seio onde têm caído ardentes mais lágrimas de gozo?
MACÁRIO
Não ouviste um ai? um outro ai ainda mais dorido?
SATÃ
É algum bacurau que passou: algum passarinho que acordou nas garras de uma coruja.
MACÁRIO
Não: o eco ainda o repete. Ouves? é um ai de agonia, uma voz humana! Quem geme a essas horas? Quem se torce na convulsão da morte?
SATÃ (dando uma gargalhada)
Ah! ah! ah!
MACÁRIO
Que risada infernal. Não vês que tremo? que o vento que me trouxe esse ai me arrepiou os cabelos? Não sentes o suor frio gotejar de minha fronte?
SATÃ (ri-se)
Ah! ah! ah!
MACÁRIO
satã! satã! Que ai era aquele?
SATÃ
Queres muito sabê-lo?
MACÁRIO
Sim! pelo inferno ou pelo céu!
SATÃ
É o último suspiro de uma mulher que morreu, é a última oração de uma alma que se apagou no nada.
MACÁRIO
E de quem é esse suspiro? por quem é essa oração?
SATÃ
De certo que não é por mim! Insensato, não adivinhas que essa voz é a de tua mãe, que essa oração era por ti?
MACÁRIO
Minha mãe! minha mãe!
SATÃ
Pelas tripas de Alexandre Bórgia! Choras como uma criança!
MACÁRIO
Minha mãe! minha mãe!
SATÃ
Então ficas aí?
MACÁRIO
Vai-te, vai-te; Satã! Em nome de Deus! em nome de minha mãe! eu te digo:-Vai-te!
SATÃ (desaparecendo)
É por pouco tempo. Amanhã me chamarás. Quando me quiseres é fácil chamar-me. Deita-te no chão com as costas para o céu; põe a mão esquerda no coração: com a direita bate cinco vezes no chão, e murmura- Satã!
A ESTALAGEM DA ESTRADA (Do princípio. As janelas fechadas. Batem à porta.)
MACÁRIO ( acordando)
Que sonho! Foi um sonho... Satã! Qual Satã! Aqui estão as minhas botas, ali está o meu ponche... A ceia está intacta na mesa! Minha garrafa vazia do mesmo modo! Contudo eu sou capaz de jurar que não sonhei! Olá mulher da venda!
A MULHER (batendo de fora)
Senhor moço! Abra! abra!
MACÁRIO
Que algazarra do diabo é essa?
(Abre a porta. Entra a mulher).
A MULHER
Ah! Senhor! estou cansada de bater à sua porta! Pois o senhor dorme a sono solto até três horas da tarde!
MACÁRIO
Como?
A MULHER
Nem ceou-aposto:.. Nem ceou. A vela ardeu toda. Ora vejam como podia pegar fogo na casa! Pegou no sono, comendo de certo!
MACÁRIO
Esta é melhor! Pois aqui não esteve ninguém ontem comigo?
A MULHER
Pela fé de Cristo! ninguém.
MACÁRIO
Pois eu não saí daqui de noite, alta noite, na garupa de um homem de ponche vermelho e preto, porque meu burro tinha fugido para o sítio do Nhô Quito?
A MULHER (espantada, benzendo-se)
N ao, senhor! não ouvi nada....O burro está amarrado na baia. Comeu uma quarta de milho. . .
MACÁRIO (chega à janela)
Como! Não choveu a cântaros esta noite? É singular! Eu era capaz de jurar que cheguei até a cidade, antes de meia-noite!
A MULHER (benzendo-se)
Se não foi por artes do diabo, o senhor estava sonhando.
MACÁRIO
O diabo! (Dá uma gargalhada à força.) Ora, sou um pateta! Qual diabo, nem meio diabo! Dormi comendo, e sonhei nestas asneiras!. . Mas que vejo! (Olhando para o chão) Não vês?
A MULHER
O que é? Ai! ai! uns sinais de queimado aí pelo chão! Cruz! Cruz! minha Nossa Senhora de S. Bernardo!.. É um trilho de um pé...
MACÁRIO
Tal e qual um pé!...
A MULHER
Um pé de cabra ...um trilho queimado...Foi o pé do diabo! o diabo andou por aqui!
SEGUNDO EPISÓDIO
NA ITÁLIA
(Um vale, montanhas à esquerda.-Um rio torrentoso à direita -No caminho uma mulher sentada no chão acalenta um homem com a cabeça deitada no seu regaço.)
MACÁRIO ( cismando)
Morrer! morrer!... quando o vinho do amor embebeda os sentidos, quando corre em todas as veias e agita todos os nervos... parece que esgotou-se tudo. Amanhã não pode ser tão belo como hoje. E acordar do sonho, ver desfeita uma ilusão! Nunca!. . Olá, mulher, afasta-te do caminho. Quero passar.
A MULHER
Não o piseis, não, ele dorme. Dorme.... está cansado Não vedes como está pálido? Coitado!
MACÁRIO
Sim: está pálido: não é o luar que o faz lívido. Eu o vejo. É teu amante? A lua que alveja tuas tranças grisalhas ri de teu amor. Messalina de cabelos brancos, quem apertas no seio emurchecido? Tão alta noite, quem é esse mancebo de cabelos negros que adormece no teu colo? . Como está pálido... Que testa fria... Mulher! louca mulher, quem acalentas é um cadáver.1
A MULHER
Um defunto?... não... ele dorme: não vedes? É meu filho... Apanharam-no boiando nas águas levado pelo rio...Coitado! como está frio!... é das águas. Tem os cabelos ainda gotejantes . . Diziam que ele morreu.... Morrer! meu filho! é impossível... Não sabeis? ele é a minha esperança, meu sangue, minha vida. É meu passado de moça, meus amores de velha...Morrer ele? É impossível. Morrer? Como? Se eu ainda sinto esperanças, se ainda sinto o sangue correr-me nas veias, e a vida estremecer meu coração!
MACÁRIO
Velha! estás doida.
A MULHER
Não morreu, não... Ele está dormindo. Amanhã há de acordar. . . Há muito tempo que ele dorme... Que sono profundo... nem um ressonar! Ele foi sempre assim desde criança Quando eu o embalava ao meu seio, ele às vezes empalidecia... que parecia um morto, tanto era pálido e frio... Meu filho! Hei-de aquentá-lo com meus beiços, com meu corpo...
MACÁRIO
Pobre mãe!
A MULHER
Falai mais baixo. Eu pedi ao vento que se calasse, ao rio que emudecesse... Não vedes? tudo é silencio. Escuta: sabes tocar? Vai ver tua viola-e canta alguma cantiga da tua terra. Dizem que a música faz ter sonhos sossegados...
MACÁRIO
Sonhos! que sonhos soerguem teu lençol, ó leito da. morte? (Passa adiante). Esta mulher está doida. Este moço foi banhar-se na torrente e afogou-se. Eu vi carregarem seu cadáver úmido e gelado. Pobre Mãe! embala-o nu e macilento no seu peito, crendo embalar a vida. Lonca... Feliz talvez! quem sabe se a ventura não é a insânia?
(Mais longe, sentado num rochedo à beira do rio, está Penseroso cismando).
PENSEROSO
É alta noite. Disseram-me ainda agora que eram duas horas. É doce pensar ao clarão da lua quando todos dormem. A solidão tem segredos amenos para quem sente. O coração do mancebo é como essas flores pálidas que só abrem de noite, e que o sol murcha e fecha. Tudo dorme. A aldeia repousa. Só além, junto das fogueiras os homens da montanha e do vale conversam suas saudades. Mais longe a toada monótona da viola se mistura à cantilena do sertanejo, ou aos improvisos do poeta singelo da floresta, alma ignorante e pura que só sabe das emoções do sentimento, e dos cantos que lhe inspira a natureza virgem de sua terra. O rio corre negro a meus pés, quebrando nas pedras sua escuma prateada pelos raios da lua que parecem gotejar dentre os arvoredos da margem. No silencio sinto minha alma acordar-se embalada nas redes moles do sonho. É tão doce o sonhar para quem ama!...No que estará ela pensando agora? Cisma, e lembra-se de mim? Dorme e sonha comigo? Ou encostada na sua janela ao luar sente uma saudade por mim?
MACÁRIO ( passando )
Penseroso! Boa noite, Penseroso! Que imaginas tão melancólico?
PENSEROSO
Boa noite, Macário. Onde vais tão sombrio?
MACÁRIO (sombrio)
Vou morrer.
PENSEROSO
Eu sonhava em amor!
MACÁRIO
E eu vou morrer!
PENSEROSO
Tu brincas. Vi um sorriso nos teus lábios.
MACÁRIO
É um sorriso triste, não? Eu to juro pela alma de minha mãe, vou morrer.
PENSEROSO
Morrer! tão moço! E não tens pena dos que chorarão por ti? daquelas pobres almas que regarão de lágrimas ardentes teu rosto macilento, teu cadáver insensível ?
MACÁRIO
Não; não tenho mae. Minha mãe não me embalará endoidecida entre seus joelhos, pensando aquentar com sua febre de louca o filho que dorme. Ninguém chorará. Não tenho mãe.
PENSEROSO
Pobre moço! não amas!
MACÁRIO
Amo... amo sim. Passei toda esta noite junto ao seio de uma donzela, pura e virgem como os anjos.
PENSEROSO
Que tens? Cambaleias. Estás ébrio?
MACÁRIO
Ébrio sim! ébrio de amor...de prazer. Aquela criança inocente embebedou-me de gozo. Que noite! Parece que meu corpo desfalece. E minha alma absorta de ternura só tem um pensamento-morrer!
PENSEROSO
Amar e não querer viver!
MACÁRIO
Ela é muito bela. Eu vivi mais nesta noite que no resto de minha vida. Um mundo novo se abriu ante mim. Amei.
PENSEROSO
Não é verdade que a mulher é um anjo?
MACÁRIO
Sim-é um anjo que nos adormece, e nos seus braços nos leva a uma região de sonhos de harmonias desconhecidas. Sua alma se perde conosco num infinito de amor, como essas aves que voam à noite, e se mergulham no seio do mistério.
PENSEROSO
A mulher! Oh! se todos os homens as entendessem! Essas almas divinas são como as fibras harmoniosas de uma rabeca. O ignorante não arranca dela um som melodioso...embalde suas mãos grosseiras revolvem e apertam o arco sobre elas-embalde! somente sons ásperos ressoam. Mas que a mão do artista as vibre, que a alma do músico se derrame nelas, e do instrumento grosseiro do mendigo ignorante, ou do cego vagabundo, como do stradivarius divino, exalam-se ais, vozes humanas, suspiros e acentos entrecortados de lágrimas.
MACÁRIO
Oh! sim! Se na vida há uma coisa real e divina é a arte; e na arte se há um raio do céu é na música; na música que nos vibra as cordas da alma, que nos acorda da modorra da existência a alma embotada. Oh! é tão doce sentir a voz vaporosa que trina, que nos enleva c que parece que nos faz desfalecer, amar, e morrer!
PENSEROSO
E é tão doce amar! Eu amei, eu amo muito. Sabe Deus as noites que me ajoelho pensando nela!... A brisa bebe meus suspiros, e minhas lágrimas silenciosas e doces orvalham meu rosto.
MACÁRIO
Oh! o amor! e por que não se morre de amor! Como uma estrela que se apaga pouco a pouco entre perfumes e nuvens cor-de-rosa, por que a vida não desmaia e morre num beijo de mulher? Seria tão doce inanir e morrer sobre o seio da amante enlanguescida! No respirar indolente de seu colo confundir um último suspiro!
PENSEROSO
Amar de joelhos, ousando a medo nos sonhos roçar de leve num beijo os cílios dela, ou suas tranças de veludo! Ousando a medo suspirar seu nome! Esperando a noite muda para contá-lo à lua vagabunda!
MACÁRIO
Morrer numa noite de amor! Rafael no seio de sua Fornarina! Nos lábios perfumados da Italiana, adormecer sonolento...dormir e não acordar!
PENSEROSO
Que tens? Estás fraco. Senta-te junto de mim. Repousa tua cabeça no meu ombro. O luar está belo, e passaremos a noite conversando em nossos sonhos e nossos amores . . .
MACÁRIO (desfalecendo)
Tudo se escurece... Não sentes que tudo anda à roda?... Que vertigem!... Dá-me tua mão!... Sim. Enxuga minha fronte. Que suor!
PENSEROSO
Como estás abatido...Como empalideces! Ah! Como resvalas... Que tens, meu amigo?
MACÁRIO
Se eu pudesse morrer! (Desmaia).
SATÃ (entra) .
SATÃ
Que loucura! Esse desmaio veio a tempo; seria capaz de lancar-se à torrente. Porque amou, e uma bela mulher c embriagou no seu seio, querer morrer!
(Carrega-o nos braços).
Vamos... E como é belo descorado assim! com seus cabelos castanhos em desordem, seus olhos entreabertos e úmidos, e seus lábios feminis! Se eu não fora Satã, eu te amaria, mancebo...
(Vai levá-lo).
PENSEROSO
Quem és tu? Deixa-o. . eu o levarei.
SATÃ
Quem eu sou? que te importa? Vou deitá-lo num leito macio. Daqui a pouco seu desmaio passará. É um efeito do ar frio da noite sobre uma cabeça infantil ardente de febre. Adeus, Penseroso.
PENSEROSO
Quem és tu, desconhecido, que sabes meu nome?
MACÁRIO E SATÃ
MACÁRIO
Tenho tédio, Satã! Aborreces-me como se aborrecem as amantes esquecidas.
SATÃ
Tens cartas aí? Joguemos. Que queres? a ronda, a barca, o lasquenet?
MACÁRIO
Sou infeliz no jogo. Queimo-me e perco. Quando aposto e perco, tenho desejos de atirar com as cartas à cara do banqueiro.
SATÃ
Pois eu jogo, perco e gosto de jogar. É que somos como Adão e Eva, os ex ossibus, caro ex carne. A propósito de jogo, queres que te conte uma história?
MACÁRIO
Mentirosa ou verdadeira?
SATÃ
É o que não importa: nem mais nem menos que as Mil e Uma Noites. Um dia deu-me à lua para virar a cabeça de uma moca. Meti-me no paletó de um mancebo pálido, alumiado de seus sonhos de poeta, transbordando de orgulho: no mais nem feio nem bonito, tinha olhos pardos, o cabelo longo em anéis e a barba luzente como cetim. O moço tinha uma amante. Era uma moca bonita, morena, de olhos muito lânguidos e muito úmidos; o que tinha de mais melindroso era a boquinha de rosa e mãozinhas as mais suaves do mundo.
MACÁRIO
Tua história é velha como o dilúvio. É difusa como um folhetim.
SATÃ
Estás massante como Falstaff bêbedo. Não importa Quero alegrar-te um pouco. A história é divertida. Podia-se bem torneá-la num volume em 8° com estampas e retrato do autor, com a competente carta-prólogo de moda.Mas escuta: sou mais fiel que os Sermonistas, serei breve o mais possível. Ora, a amante tinha uma irmã. Pálida e suave como a mais bela das amantes de Filipe II: era o retrato vivo da Calderona. Eram aquelas pálpebras rasgadas à espanhola, uns olhos negros cheios de fogo meridional, o seio adormecido. Acrescenta a essa imagem que a moça era virgem como um botão de rosa...Fazia sonhar a amante do rei quando seminua, sentada sobre as bordas do leito, repousando a mão sobre a face, sentia as lágrimas do amor e da saudade banharem-lhe os olhos ao luar. Isto que te digo o moço o pensou. Foi um nunca findar de versos, de passeios românticos pelos vales, pelas encostas das montanhas, um inteiro viver e morrer por ela, como ele o dizia nalgum soneto... Vês que torno-me poético... Quando vi o moço com a cabeça tonta, revolvendo-se pálido nos seus delírios esperançosos, à fé de bom Diabo que sou, interessei-me por ele. Demais, pareciam morrer um pelo outro. Os apertos de mãos a furto, os olhares cheios de languidez, tudo isso parece que azoinou a mente virginal da donzela. Uma noite na sombra, a medo beijaram-se. Aquele beijo tinha amor e loucura nos lábios. O moço perdeu-se de amor. Escreveu-lhe uma carta: transbordou aí todas as suas poesias, toda a febre de seu devaneio... Não te rias, é d'estilo, Macário. O que há de mais sério e risível que o amor? As falas de Romeu ao luar, os suspiros de Armida, os sonetos de Petrarca tomados ao sério dão desejos de gargalhar...
A partida estava proposta, as paradas feitas, e eu para assegurar o jogo tinha chumbado os dados. Era de apostar a minha cabeça contra a de um santo, todas as mulheres belas da terra por uma bruxa.
MACÁRIO
Adivinho...ganhaste?
SATÃ
Que sofreguidão! Não contava com o anjo da guarda da moça. Fez umas cócegas na criancice da virgem, e lá se vai ela toda chorosa levar a carta à irmã... O tal anjo que sabia orelhar a sua sota bifou-me o jogo; velhaqueou com o velhaco, surripiou os dados, e numa risada inocente chuleou-me a parada.
MACÁRIO
Pobre moça!
SATÃ
E o rapaz que perdeu as suas ilusões...Mas quero desforra.
MACÁRIO
Desforra? tomas duas vezes.
SATÃ
É doloroso. Mas o mundo é do diabo, assim como o céu é dos tolos. Falam de convento. Querem cortar os cabelos negros da moça e cosê-la na mortalha da freira. Ora pois, se consigo ao mesmo tempo virar a cabeça da moça e da freira, mandar o anjo limpar a mão à parede, as santas que lhe peguem com um trapo quente. Demais a partida começou.
MACÁRIO
E ela quer?
SATÃ
Isso de mulheres, nem eu, que sou o Diabo, as entendo. Quem entende o vento, as ondas e o murmurar das folhas? A mulher é um elemento. A santa mais santa, a virgem mais pura, há instantes em que se daria a Quasímodo; e Messalina era capaz de enjeitar Romeu ou Don Juan. Mas enfim... Macário?
MACÁRIO ( dormindo)
Hum!
SATÃ
Dorme como um cão. Boa noite, minha criança. Vou fazer uma visita a uma bela da vizinhança que anda regateando o que lhe resta de alma para ser moça três dias. Até lá dará meia-noite.
MACÁRIO, PENSEROSO.
MACÁRIO
Que idéia rola no teu cérebro inflamado, meu poeta Como um ramo despido de folhas que se dobra ao peso de um bando de aves da noite, por que tua cabeça se inclina ao peso dos pensamentos?
PENSEROSO
E contudo eu amei-a! eu amei tanto Sagrei-a no fundo de minha alma a rainha das fadas, e ressumbrei nela o anjo misterioso que me havia de conduzir adormecido no seu batel mágico a um mundo maravilhoso de amores divinos. Se fui poeta, se pedi a Deus os delírios da inspiração, foi para encantar com seu nome as cordas douradas do alaúde, para votar nos seus joelhos as páginas de ouro de meus poemas, e semear o seu caminho dos louros da minha glória!
MACÁRIO
Oh! acordar como Julieta com seu Romeu pálido no seio, com a cabeça romântica ainda dourada do último reflexo do crepúsculo da vida, acordar dos sonhos de noiva no sudário da morte, com os goivos murchos dos finados na fronte em vez da coroa nupcial cheirosa da amante de Romeu! Apertá-lo embalde ao seio ardente, banhar-lhe de lágrimas de fogo as faces pálidas, e de beijos os lábios frios, e procurar-lhe insana pelos lábios um derradeiro assomo de vida ou uma gota de veneno para ela. É duro, é triste! é um caso que merece as lágrimas mais doloridas dos olhos.-Mas dói ainda mais fundo acordar dos sonhos esperançosos com o cadáver frio das esperanças sobre o peito! Pobre Penseroso! Amaste um instante que foi tua vida, como Julieta e como Romeu: e não tiveste a conversa ao luar no jardim de Capuleto, não tremeste nas falas amorosas da primeira noite de amor, e não soubeste que doces que são os beijos da longa despedida, e o pensar que não são as aves da manhã, mas o rouxinol do vale quem gorjeia nas romeiras, que o revérbero de luz branca nas nuvens do Oriente, e o apagar das estrelas não crespusculava o dia, e crer na vida em si e numa mulher com as mãos de uma pálida amante sobre o coração!
PENSEROSO
Por ela fui pedir à solidão os murmúrios, fui abrir meu coração aos hálitos moribundos do crepúsculo, ajoelhei-me junto das cruzes da montanha, e no sussurro das aves que adormeciam, no cintilar das primeiras estrelas da noite, na gaze transparente e purpurina que desdobrava seu véu luminoso por entre as sombras do vale, em toda essa natureza bela que dormia fui escutar as vozes intimas do amor, e meu peito acordou-se cantando e sonhando com ela!
MACÁRIO
Tenho pena de ti. Mas consola-te. Que valem as lágrimas insensatas? Todas elas são assim. Eu também chorei, mas, como as gotas que porejam da abóbada escura das cavernas, essas lágrimas ardentes deixaram uma crosta de pedra no meu coração. Não chores. Vem antes comigo. Geórgio dá hoje uma ceia: uma orgia esplêndida como num romance. Teremos os vinhos da Espanha, as pálidas voluptuosas da Itália, e as americanas morenas, cujos beijos têm o perfume vertiginoso das magnólias e o ardor do sangue meridional. Não há melhor túmulo para a dor que uma taça cheia de vinho ou uns olhos negros cheios de languidez.
PENSEROSO
Não: vai só.-Se tu soubesses no que eu penso e no que tenho pensado! Enquanto eu falo a minha alma desvaria, e a minha febre devaneia. Sonhei sangue no peito dela, sangue nas minhas mãos, sangue nos meus lábios, no céu, na terra.... em tudo! Pareceu-me que tremia nas escadas bambas do cadafalso... senti a risada amarela do homem da vingança... depois minha cabeça escureceu-se...Pensei no suicídio...Macário, Macário, não te rias de mim! como o vagabundo, que se debruça sobre um precipício sem fundo, senti a vertigem regelar meus cabelos hirtos e um suor de medo banhar minha fronte...tenho medo! Sou um doido, Macário, eu o sei. Que longa vai essa noite! A lua avermelhada não lança luz no céu escuro; nem a brisa no ar: é uma noite de verão, ardente como se a natureza também tivesse a febre que inflama meu cérebro!...
NUMA SALA
(Sobre a mesa livros de estado. PENSEROSO encostado na mesa. MACÁRIO fumando.)
PENSEROSO
Li o livro que me deste, Macário... Li-o avidamente. Parece que no coração humano há um instinto que o leva à dor, como o corvo ao cadáver. Aquele poema é frio como um cadáver. É um copo de veneno. Se aquele livro não é um jogo de imaginação, se o ceticismo ali não é máscara de comédia, a alma daquele homem é daquelas mortas em vida, onde a mão do vabagundo podia semear sem susto as flores inodoras da morte.
MACÁRIO
E o ceticismo não tem a sua poesia?... O que é a poesia, Penseroso? Não é porventura essa comoção íntima de nossa alma com tudo que nos move as fibras mais íntimas, com tudo que é belo e doloroso?... A poesia será só a luz da manhã cintilando na areia, no orvalho, nas águas, nas flores, levantando-se virgem sobre um leito de nuvens de amor, e de esperança? Olha o rosto pálido daquele que viu, como a Niobe, morrerem uma por uma, feridas pela mão fatal que escreveu a sina do homem, suas esperanças nutridas da alma e do coração-e dize-me se no riso amargo daquele descrido, se na ironia que lhe cresta os beiços não há poesia como na cabeça convulsa do Laocoonte. As dores do espírito confrangem tanto um semblante como da carne. Assim como se cobre de capelas de flores a cruz de uma cova abandonada, por que não derramar os goivos da morte no cemitério das ilusões da vida? A natureza é um concerto cuja harmonia só Deus entende, porque só ele ouve a música que todos os peitos exalam. Só ele combina o canto