Um dos seguros efeitos da roupa nova e bem cortada é que ela cria e mantém o hábito das posições perfiladas e dos movimentos harmoniosos. Vale por um esporte. Excelente esporte para o corpo, visto que o submete a uma disciplina retificadora e a uma continuada economia de força. Excelente esporte para a alma, que se modela à feição do corpo. - As atitudes e movimentos da alma são atitudes e movimentos corporais: a alma põe-se de pé, acocora-se, desliza, descai, ajoelha-se, caminha direita e alegre, ou cambaleia, ou rasteja. A alma toma todas as posições de luta, desde a de um calmo e melódico guerreiro de Fídias até à de um torpe moleque agachado e sinuoso, com a navalha empalmada e o pé igualmente pronto para a rasteira ou para a fuga.
Nas aulas de educação moral e cívica devia-se ensinar, antes de mais, a selecionar e fixar posturas e gestos. Aquele que aprendeu uma simples maneira nova de segurar o cigarro, de puxar e soltar a fumaça, de arremessar o coto, uma certa maneira vivaz, ritmada, incisiva e distinta de realizar todos esses pequenos movimentos, adquiriu alguma coisa que positivamente lhe modifica a personalidade, por via de ressonâncias que se vão convertendo em movimentos interiores habituais. - Inversamente, para convencer uma menina de que ela deve ser boazinha, não há como convencê-la de que assim se torna mais bonita. Há muito menina grande que faz toda a força do seu domínio interior com a simples preocupação de não ter cara de espeloteada ou de evitar a inflamação das pálpebras. Chamfort conta de uma dama que assim se justificava de assistir com olhos secos a uma comovedora representação teatral: "Eu choraria; mas é que tenho de cear na cidade".
Compreende-se bem a confusão que de ordinário se faz entre o gesto significativo e a coisa significada, entre o valor da virtude e suas aparências externas. Este pratica uma ação honrada, não por esta ou aquela razão abstrata, mas para poder andar "de cabeça erguida"; aquele, para poder "dar uma...", isto é, fazer um gesto violento e desaforado aos seus detratores. Conheci um homem que, dando uma grossa esmola a uma igreja, dizia: "Não é lá tanto pela religião, porque enfim eu vivo a fazer por ela o que posso; mas é cá por uma birra, - é um couce que eu prego ao Alvarenga, aquele idiota, que deu um conto de réis e disso se pavoneia." A metáfora é mais do que um artifício pitural, é a gesticulação das almas.
Somos bonecos à procura de gestos. Estes preexistem e persistem fora de nós, e nós passamos por eles como a água passa pelos vasos e canais que a contêm e lhe dão forma, como a água passa pelos acidentes da própria correnteza e do próprio caminho, pelas suas rugas, pelas suas cintilações e sombras, pelas suas espumas e cachões.
Tomamo-los no lar, desde o berço, e na escola; apanhamo-los no teatro, no cinema, nos livros, nos quadros, na escultura, na rua, nas salas, na própria música, que espontaneamente se resolve em desenhos cinéticos de uma aérea e fulmínea expressividade.
Os gestos de dignidade serena, de compostura discreta e elegante estão, em parte, incorporados às roupas distintas, como um forro invisível. O alfaiate corta pelo pano e, sem o saber, vai cortando ao mesmo tempo por uma tela espiritual, fabricada por duas tecelãs incansáveis, a Humanidade e a Natureza.
Dizem que o hábito não faz o monge. Imagine-se o que seria um frade de São Francisco sem o seu hábito! O hábito só não faz o monge quando esse está de tal maneira conformado pela vestimenta, que já pode impunemente despi-la, sem de fato arrancá-la toda do corpo.
A toga foi talvez a mais importante das invenções romanas. De certo contribuiu mais do que tudo para fortalecer e ritmar, para esculturizar o caráter daquela gente estrepitosa e derramada.
Por uma razão semelhante, as estátuas clássicas (isto me parece que foi dito por Alam) são formas imperecíveis de idealidade ética, formas que precedem e sobrevivem ao conteúdo ideal que nelas vão sucessivamente vazando as gerações.
A roupa é muita coisa, porque a expressão é tudo. Tudo quanto em nós representa idéia, pensamento, espirito, são expressões que se refletiram para dentro e puseram um pouco de luz e de ordem no caos de que brotaram - como esses deuses barbáricos e frustes que nasceram da pedra informe, das águas indeterminadas, dos elementos brutos e confusos, para individuar as coisas e esboçar uma organização do mundo.
RUFINA Hoje de manhã, ao tomar o bonde, lobriguei lá dentro um vulto de mulher e, com a instantaneidade do raio, enxerguei a imagem de Rufina. Trêmulo, sentei-me, e verifiquei: o vulto era uma velha gorda e tostada. Fechei os olhos, procurei esquecer-me da velha e de Rufina - ejusdem farínae, afinal de contas! - e comecei a resolver o seguinte problema: qual seria a renda bruta da companhia, supondo-se que tinha em tráfego quatrocentos bondes, cada bonde transportando em média vinte e cinco passageiros? A questão me interessava, porque estou tratando de redigir uma reclamação para a imprensa contra certas irregularidades do serviço.
- Vejamos. 25 x 200 = vinte por duzentos, que são 4.000, mais... Ru-fi-na... cinco por duzentos, que são mil... Erre, um = Ru.... Quatro mil mais mil, cinco mil; cinco mil que? Ora, o diabo da velha! Cinco mil contos... - Desisti das contas. A matemática é inconciliável com o coração. É inconciliável com a vida.
Como é que Newton pôde ser pai de família, ter uma esposa, ter filhos, ter afetos, preocupações, desejos, e calcular continuamente? Eu, quando alguma vespa me pica, faço até as máquinas de cálculo errar uma adição. Tudo aquilo em que ponho as mãos desconcerta, extravaga. Até o Melquíades, meu servente, que em matéria de calma e paciência e um urso de bazar, fica esparavonado, entorta, arrebita e disparata! Preciso esforçar-me para me corrigir. Não tanto, porém, que me torne apto a maquinar friamente com a cabeça no meio das tormentas e das delícias da vida. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Eu prefiro sonhar com Rufina a cavar uma celebridade em cálculo diferencial.
O GATO Sentei-me hoje ao pé de uma velhota embrulhada num xale. Logo notei, sem ter nada investigado, que ela dissimulava qualquer coisa por baixo da manta. - Como foi que cheguei a isso? não o sei ao certo. Um movimento de suas mãos ocultas a arrepanharem o xale sobre o regaço... o seu ar demasiado "inocente"... sei lá.
Eu podia ter-me ufanado da minha perspicácia. Mas não. Nem houve propriamente perspicácia alguma; ou, se houve, foi toda inconsciente: pouco se me dava daquela mulher, do seu xale, dos seus gestos. Ser Sherlock por vontade, por estudo, por aplicação determinada e metódica da inteligência, é um esporte razoável, embora não me seduza. Mas esta espécie de "suspicácia" inata e vulgar é aborrecível como todas as inclinações tolas e baixas.
Senti-me desgostoso de mim, e mal me consolei com a reflexão, que fiz em seguida, de que o dom não me era particular, nada tinha de diferencialmente pessoal, Pois que alheio a todo pensamento, a toda vontade e a toda tendência definida. É qualidade humana, com raízes fundas na camada mais funda da nossa humanidade. Todos temos dentro de nós um bicho indiscreto e malévolo, em simbiose com o nosso Eu distinto e consciente, que às vezes o ignora ou faz por ignorá-lo, ou mesmo lhe dá largas.
Arrastado pela curiosidade, antes que acabasse de refletir, não me custou perceber que de fato a mulher escondia qualquer coisa, e que essa coisa era um gato. Um gato branco, boquinha rósea, olhos muito grandes estriados por um chuvisco de luz entre vegetações de esmeralda e ouro. Tinha um ar pouco amigável, meio enfezado, meio suplicante. - Percebi tudo isso num ápice, porque tenho a vista habituada a inspecionar gatos. É este o animal da minha predileção, o único semovente que me agrada sem reservas.
Gostaria também bastante dos cavalos de raça desde o possante Brabançon até o árabe naturalizado e aperfeiçoado nos haras de Inglaterra, por seu instinto da atitude pictórica ou escultural, se tais cavalos fossem do tamanho de gatos e se pudessem ter dentro de casa, pôr ao colo e deixar correr por cima das mesas. - O defeito desse animal é ser excessivamente grande. Isto o reduziu ao papel pouco distinto de mero acessório do homem, e tornou-o um prosaico objeto de utilidade ou de ostentação.
Dentre todos os caprichos da natureza, o mais estranho está nessa fantasia inutilíssima e zombeteira com que ela repartiu a força e a beleza pela escala das dimensões, no reino animal.
Os insetos, em regra, são feíssimos e fortíssimos; ao mesmo tempo, pequeninos e inaproveitáveis. Os cavalos e outros viventes grandes e belos são relativamente fracalhões.
Tudo se resolveria bem se houvesse gafanhotos do tamanho de girafas, besouros do volume de vacas holandesas, pulgas das dimensões de bezerros; que motores formidáveis à disposição do homem! Entretanto, escusava que os animais nobres e formosos ocupassem tanto espaço e, sendo na verdade os bibelots da natureza, fossem condenados ao estábulo, à estrebaria, ao amanho da terra, à tração de veículos, ao trabalho bruto, à escravidão humilhante.
Essa a justiça da grande Mãe! E ainda se isso passasse exclusivamente com os bichos! Mas, não. Toda beleza é escrava. Mulher, - é o alvo e a presa da matilha esfaimada dos instintos.
Vende-se nos mercados. Aprisiona-se. Condena-se a ser uma forma vazia, ornada de vermelhão, de pó-de-arroz e de jóias, com a noite dentro, como a cabaça mágica do bugre.
Talento, gênio, bondade, amor, - tudo capturado, amarrado, explorado, torturado, agadanhado, sangrado, e finalmente reduzido a cacos, a cisco, a lama, a cinza, a pó, a pó que se espalha ao vento, entre o delírio e a confusão da macumba retumbante e frenética.
Ao cavalo, a certos respeitos, eu preferiria o elefante. Embora convivendo, em determinadas regiões, com a espécie humana, esse, contudo, guarda a dignidade de um escravo testarudo e resignado - obediente, fiel, mas inamoldável, sempre intransigentemente elefante. Não tem a elegância do nobre equus (elegância, aliás, já um pouco desacreditada, como a do estilo ciceroniano), mas lá tem a sua, que lhe é própria e, além de própria, intransferível, por mais que haja indivíduos humanos a quererem tomar-lha, na classe que compreende os grandes vendeiros, os desembargadores e os clérigos.
A elegância do elefante, revelam-na bem certos artistas. Há bibelots de louça, marfim ou bronze, em que ela se manifesta com a evidência da luz. Hierática, cheia, pesada, a massa liga-se às proporções e aos contornos numa sóbria unidade de concepção e de fantasia, e tudo é um só élan de inspiração enternecida e brincalhona. A gravidade unida ao peso, a paciência ao volume, a doçura à simplicidade, e um quê de majestoso, e um quê de ingênuo, e um quê de gaiato. - Apenas falta a essas composições o indefinível encanto da vida, esse encanto que resulta da nossa perversa inclinação para só gostar completamente das coisas que sofrem.
O certo é que, se eu pudesse possuir um elefante em casa, aí com umas dez ou doze polegadas de altura, e que me viesse comer à mão, e brincasse com o meu bichano, às correrias por baixo de mesas e cadeiras, isto me seria um verdadeiro enlevo na minha solidão povoada de imagens inertes. - O pior é que um dia... Tudo tem o seu fim neste mundo. Seria possível que o meu bibelot animado devolvesse antes de mim a sua porção de fluido vital ao laboratório do universo. O meu bichano havia de andar miando tristemente pelos cantos. A minha cozinheira talvez enxugaria lágrimas, às escondidas, ao ver-me acariciar o Romão, à hora das refeições, na ausência do outro.
Gatos que miam e cozinheiras lacrimejantes estragam uma casa. Desisto do elefantinho.
A verdade é que tenho um fraco pelos gatos, e fiquei a pensar no que a mulher do bonde faria daquele. Iria deitá-lo fora? Iria dá-lo a alguém que lhe destinasse o indigno emprego de caçador de ratos? Eu estou convencido de que os gatos não querem mal ao gênero mus. Procuram agarrar os roedores por simples prazer e necessidade de brincar. E se preferem esses a quaisquer outros, é apenas porque o rato, de todos os bichos proporcionados ao felino doméstico, é, o que mais radicalmente difere deste.
O gato só pode compreender o rato como uma coisa sem afinidade alguma com ele, mais ou menos como nós encaramos os peixes, aos quais não concedemos nenhuma sobra de respeito, nem de simpatia, nem de piedade. São objetos de um outro mundo, criações de um outro plano, obras de uma outra série. A teoria que Malebranche sustentava com referência à sua triste cadela - cujos latidos de dor eram no seu entender simples passagem do ar pelo mecanismo da garganta - é por todo o mundo imemorialmente e inconscientemente aplicada aos peixes. O próprio dilúvio, condenação e aniquilamento de todos os viventes não embarcados, deixou à margem, isto é, dentro da água, esses interessantes autômatos.
O rato, roedor meticuloso, destruidor frio, amigo das sombras, dos recantos ocultos, das gretas e frinchas secretas, dos buracos dissimulados e recônditos, grande trabalhador sem horizonte, medroso, tenaz, esperto, estúpido, o rato é o antípoda psicológico e moral deste príncipe dos quadrúpedes, deste poeta de pelo, deste artista de garras, deste sonhador indolente e desdenhoso, que compreendeu a imensa utilidade de não fazer nada, amigo do sol, das noites de lua, dos jardins floridos, dos telhados altos e desertos.
Este, quando procura a penumbra e o aconchego, é no borralho familiar onde o fogo deixou um pouco da sua alma quente e errante, é entre cobertas moles e cariciosas, é no regaço quieto das pessoas pensativas, ternas ou tristes.
Acusam-no de ser desamoroso e ingrato. Julgamento mesquinho. O mal do gato está unicamente em não ser nem servil nem serviçal. O homem só compreende as afeições no seu tríplice aspecto de promessa, desejo ou saudade de serviços. (Triste de quem as concebeu algum dia como um culto e um puro gozo interior, esquecendo-se de que a vida que vale é a que se processa e corre da periferia do corpo para fora!) O gato saboreia melhor do que os próprios donos a fina flor da humanidade, aquilo que há em nós de mais seleto, e despreza tranqüilamente o farelo. Por isso é que se apega mais à casa do que ao habitante, como alguém, de refinado olfato, que preferisse, numa paisagem, o ar embalsamado por um resto de perfume de flores ausentes.
O homem canta - Home, sweet home!, e vai para a pândega, a dissipação, o tráfico, as feiras dos negócios, dos vícios e das vaidades: o gato fica, adorando com recolhida finura o melhor produto do homem, o melhor retrato do homem melhor, a Casa, a Casa onde o fogo prisioneiro canta a ária encantatória das coisas perpétuas, verazes e substanciais, a mesa em torno da qual a família reparte o pão cotidiano em paz no meio da tormenta, as paredes de onde pendem alfaias e recordações, as portas em cuja tela de penumbra se enquadraram vultos amigos que nunca mais vieram empurrá-las, mas parece às vezes que vão chegar a todo momento, que andam ali perto, ali. - A Casa! A Casa do Homem, em tudo superior ao habitante que passa, ao hóspede mofino de uns dias fugazes; ilha de estabilidade, de composição, de recolhimento, de segurança e de amor, no meio da instabilidade, da precariedade, da confusão, do desperdício, da angústia e da loucura universal.
O homem faz a sua casa e foge dela; ainda lá dentro, foge em espírito; não chega a compreender nem a sentir que fez um mundo, um mundo maravilhoso, para o qual todo o mundo grande, desde tempos imemoriais, vem acumulando infinitos elementos; um pequeno mundo sensível e supra-sensível onde a soma dos elementos imateriais é incomparavelmente maior do que a dos outros, onde cada pedra ou tijolo, cada móvel, cada quadro, cada retrato, cada canto encerra uma saturação imensa de humanidade e de vida vivida e vem a ser mais rica em poder irradiante do que a mais carregada petchblenda...
Mas eu estava em que os gatos não têm aversão aos ratos. E não têm. O que há é que são antípodas uns dos outros. O bichano vê no rato um simples mecanismo, bom para esporte e brinquedo.
É verdade que das brincadeiras resulta muitas vezes o óbito da presa. Mas é natural que um gato não tenha idéias claras acerca dos sofrimentos e da morte.
Nós, que somos gente, ou tendemos a isso, apenas sentimos que há dor no mundo por experiência própria e individual, e nada nos custa como acreditar que a experiência dos outros possa coincidir com a nossa.
Por isso o rancor é dez mil vezes mais comum do que a piedade; além de que a piedade é freqüentemente uma forma de rancor fatigado.
Quanto à morte, pode-se muita vez duvidar que seja motivo de mágoa para algum dos que ficam; ao passo que se tem a certeza de que é festa para os herdeiros, pão para os gatopingados, rócio para várias indústrias, e espetáculo para os vizinhos do falecido.
Tive ganas de ver se a dona quereria vender-me o gatinho, mas deteve-me a dificuldade do transporte. Se eu o levasse na mão até à secretaria, rir-se-iam de mim pelo caminho e na repartição. Carregá-lo no bolso, impossível. Mandá-lo levar a casa, despesa. Eu neste ponto me pareço muito com toda a gente: sou comodista e econômico em matéria de prazeres do coração.
Desisti da compra e consolei-me com os poetas que amam damas imaginárias, sob o pretexto de que as de osso e carne são imperfeitas, mas na realidade por uma questão de economia: pus-me a pensar amorosamente num gato ideal. E desfiei de memória aquilo de Beaudelaire: Viens, mon bon chat, sur mon coeur amoureux, Retiens les griffes de ta patte.
Logo o enxerguei junto de mim, grande, perfeito, maravilhosamente gato, lambendo a mão com a língua rósea, o olhar tranqüilamente perdido no borborinho das ruas, e como que a repetir aquela sentença grave de Eurípedes: "Zeus aborrece os homens atarefados e os que se agitam demais".
O gato é uma das mais completas expressões de beleza dadas ao mundo. Completas? Digo mal. Nem nós esgotamos todo o seu potencial, nem o próprio acabou de se realizar. Como os colibris, as rosas e os periquitos, é uma obra-prima, feita pela Natureza no caprichoso intento de mostrar como aquela que faz montanhas e mares é também capaz de compor coisas de paciência, de fantasia graciosa e de gosto quintessencial.
Desconfio, porém, às vezes, que não foi a Natureza, mas o próprio Deus quem modelou esses objetos com os próprios dedos, para humilhar o homem e divertir os anjos. E que os anjos os deixaram cair à terra por descuido, ou para os destruir. - É talvez por isso que os periquitos têm a cabeça achatada, e aquele arzinho de devotos irônicos, e aquele ânimo desconfiado e áspero que faz com que se irritem e escancarem o bico recurvo quando os queremos acariciar. De certo, é pela mesma razão que os gatos conservam essa aura de humana nostalgia que os distingue, essas atitudes de insatisfação gemente e errabunda, esses enrodilhamentos imóveis e solitários, com os olhos estanhados, esfomeadamente arregalados para o ar, como na desesperada esperança de ver cair alguma traga migalha do paraíso perdido! APÊNDICE DO GATO Meu Deus, como a arte de escrever é difícil e como eu faço bem de não escrever senão para mim mesmo! À medida que vou enchendo estas minhas costaneiras de almaço, trezentas coisas que eu dantes não suspeitava, se me apresentam, - pequenos e grandes problemas de composição e de expressão, de lógica e de verdade, de método e de maneira. Enxergando-os, palpando-os, sentindo-os bulir sobre a lauda como insetos descobertos e espicaçados pelo bico da pena, surpreendo-me de os ver tão numerosos e tão estranhos; e gozo um indefinível prazer: o prazer de não ser obrigado por coisa nenhuma, a atormentar-me com eles.
Um exemplo de inadvertência galucha: falando de animais bonitos e nobres, dei a minha preferência, precipitadamente, depois do gato, ao cavalo e ao elefante. Entretanto, seria tão natural que tivesse refletido em que os vertebrados, geralmente, são belos e que os há tão encantadores como aqueles! Tanto mais quanto Remy de Gourmont, nas suas Dissociações, já o fizera notar.
Na verdade, só há um animal feio, é o homem. O Esporte, que se aplica em fomentar a beleza física da espécie, tem nesse ponto fracassado, uniformemente, em toda a parte do mundo. Só apresenta indivíduos bonitos quando os colheu da natureza. Belos, sempre muito raros, ele não os revela em maior número do que o simples Acaso. O aspecto ordinário das suas legiões é desencorajante. - Os esportes particulares deformam, dando excessivo desenvolvimento a certas aglomerações musculares. Pensou-se em remediar, doutrinando o atletismo completo: vão-se com isso criando deformações generalizadas.
Veja-se entretanto um coelho, um veado, uma onça, um porco-do-mato em condições normais de desenvolvimento e saúde: cada qual, dentro dos princípios da sua construção respectiva, é uma obra deliciosa de acerto, de rêussite, de precisão sem sobras e sem falhas. Surge-nos sem traços de esforço nem de intenção, com a corrente naturalidade de um descuido! - Conformação e movimento permanecem dentro de uma lógica infrangível, de uma unidade perfeita, de uma economia necessária, onde cada coisa tem um valor e entretanto, se engolfa e se dissimula na totalidade. Nada que estale, bambeie, descaia, descole, descontinue; um admirável concerto de transições e transformações simultâneas e sucessivas. O jogo das massas e dos contornos perde-se fluidicamente em si mesmo. Cada imagem emerge da precedente como numa espiral de fumo, dissolve-se na seguinte como num caleidoscópio sem recortes e sem chocalho. Tudo facilidade, afinação, fusão, correnteza, equilíbrio, tudo aquela suprema simplicidade que é o nome familiar da complexidade infinita na perfeição.
Bem, mas porque foi que eu cometi esse erro? Porque estava possesso de Rufina. A imagem da moça do bonde se interpunha entre mim e os bichos, o som da sua voz golpeava cada momento a membrana fragílima das minhas idéias, os seus gestos rápidos rebentavam a todo instante o meu colar de miçangas. Embalde eu protestava que ela era mais feia do que o elefante, menos perfeita do que uma leitoa. Embalde eu procurava esquecer, embrenhar-me no meu produto como a aranha no seu, embriagar-me com esses pensamentos de luxo, suspender-me a essas teias, atar as minhas arrobas ao vôo dessas borboletas extraterrenas. E, na verdade, nem agora consigo exconjurar aquele demônio.
UM ROMANCE Entre os passageiros com os quais freqüentemente me encontro, pela manhã, há uma bonita mulata, não de olhar azougado, mas calmo e um pouco triste. O condutor cumprimenta-a com respeito, e trocam notícias de família. Veste-se com decência e modéstia. Sobe e salta sem ruído, instala-se no seu canto e não se mexe. Tem as mãos lisas e mórbidas, os dedos compridos e afusados; as unhas ogivais parecem recortadas em porcelana. Usa saias pouco acima dos tornozelos. Os pés, pequenos e arqueados, comprimidos em botins de couro, sob a massa movediça das saias, têm uma graça hesitante de pássaros timoratos. Será o pudor dos botins? Essa criatura acabou por me interessar. A freqüência das suas viagens, a constância dos seus modos, a sua beleza um tanto fanada, o seu donaire involuntário de juriti meio desplumada e taciturna, a sua familiaridade familiar com o condutor, enfim o contraste entre o abafado concerto da sua pessoa e as mulheres brancas e chiques de braços e pernas ao léu, tudo me intrigava. A custo obtive umas informações vagas. Ontem, finalmente, encontrando-me com o prático de farmácia, o homem do Infinito, ouvi dele a informação cabal.
"Pois não a conhece? Não conhece, deveras, a Florinda?" - Contou-me toda a história de Florinda, a mesma história de tantas outras, tantas outras Florindas, e finalizou: "Hoje, uma senhora. E ainda bonita, não viu? Costura fora de casa. É companheira de um empregado aposentado dos correios, um casca, velho, reumático, bravo como um gato sarnento. Serve-lhe de irmã de caridade, de cozinheira, de mãe e de filha. E até de armazém de pancadas." É aquilo de Amiel: Pas um brin d'herbe qui n'ait une histoire à raconter, pas un coeur qui n'ait son roman..., que é aquilo mesmo de Emerson: "Todo indivíduo tem uma história que valeria a pena conhecer, se ele pudesse contá-la, ou se nós lha pudéssemos arrancar". - Cada um carrega em si um epítome do drama humanal, tecido de trevas e de lumes. E cada um nos dá uma sensação de humanidade imensa, como cada onda pode dar a vertigem do abismo.
LENÇO PERDIDO Quando eu acabava de saltar do bonde, esta manhã, ouvi atrás de mim um pchiu!, voltei-me, e um passageiro, homem do povo, esticando o braço até no meio da rua, me apresentou um lenço que ficara no banco. Apalpei os bolsos, não me faltava lenço nenhum. Tive pena de que o objeto não me pertencesse, porque pareceu-me que sem isso o meu agradecimento não encaixaria perfeitamente com a amabilidade do homem. Por um instante, pensei em aceitar o lenço, mas prevaleceu o austero dever, tirei o chapéu, agradeci, e fui-me. O homem ainda me pediu desculpa e ficou a olhar em redor, a ver se aparecia o legítimo dono.
Segui o meu caminho a fruir esta agradável impressão - que ainda há muito sentimento sadio e cordial por este mundo! A honestidade do ato, valha a verdade, não era grande. Os objetos transviados são quase sempre restituídos, quando de pouco importância. Mas a galantaria do gesto! Linda coisa, a galantaria. A honestidade, afinal, é uma obrigação. Tem um princípio passivo. É uma astúcia do egoísmo socializado, que evolveu para virtude, como o réptil se fez pato. Mas a galantaria é soberana: impulso livre, ação de luxo e primor, dom incompulsório, fantasia espontânea do coração, scherzzo garboso e supérfluo da vontade senhora de si mesma. - O excesso da medida justa vale a medida inteira.
Ia eu a pensar estas coisas aprazíveis, num passo vagaroso de quem vê que carrega borboletas no ombro ou no chapéu e não quer afugentá-las. Ao entrar num café, dei com o homem do lenço na minha frente. Notei que tinha o nariz vermelho. Sorriu-se, descobriu-se e, inclinando a cabeça para um lado: - "Seu doutor, não tem aí uns nicolaus que lhe sobrem, para eu tomar um pingado?" Dei-lhe os nicolaus.
CANUDO-DE-PITO A manhã, hoje, era uma festa, e o meu bairro, todo em manchas aéreas e frescas de paredes claras, telhados vermelhos, jardins verdes, morros azulegos e violáceos a derreterem-se na distância como caramelos, me divertia como uma paisagem refletida numa bola de cristal. Eu não tinha senão olhos, enquanto o bonde corria. "Corre mais devagar, bonde do diabo! que assim como vais se me atrapalha tudo. - Corre mais depressa, bonde do inferno! que assim lentamente a desfilada das coisas mal se liberta da rigidez e do peso." De repente, do meio da grande nuvem escura de um velho bosque, saltou como de um capulho, uma nuvem amarela, a fronde arredondada de uma árvore de ouro. "Olhe, que lindo! "(disse eu ao meu vizinho mais chegado, o Sr. João Cesário da Costa, capitalista, quarenta e oito anos).
"Veja aquele ipê!" O meu vizinho deu uma olhadela e informou friamente: "Canudo-de-pito".
O fato de se tratar de um canudo-de-pito, e não de ipê, madeira de lei, influía decisivamente na reação da sua sensibilidade ante aquele quadro fugente e alucinatório. O mundo, para ele, reduziu-se a uma coleção de conceitos, ou a um dicionário ilustrado. Costa não foi composto para comunicar diretamente com as coisas, no absoluto momentâneo e original da sensação, nesse largo e surpreendente aquém da idéia e do pensamento, mais maravilhoso e menos triste do que o Além por onde vagam os Fabianos.
A civilização cada vez mais afasta os homens do contato imediato e regenerativo das coisas sensíveis. Só as enxergam de longe e de viés, através dos tipos, modelos, noções, definições, poeira brumosa de abstração, sob a qual a intimidade fluente e jovial do mundo se desvanece, e a alma encantada da criação foge como um Ariel zombeteiro. Diante de uma paisagem, não vêem a paisagem, mas uma coleção de objetos e de efeitos conhecidos e explicados, formando um conjunto visual de acordo com meia dúzia de normas laboriosas. Diante de um ser vivo, desarticulam as partes, (como se um ser vivo, como se as coisas tivessem na realidade partes) examinam, medem, subdividem, espedaçam, e cada ato desses decorre de uma idéia feita, de um critério preconcebido, de uma prefiguração normativa, de uma série de operações mentais anteriores ou presentes. A grande descoberta instantânea tornou-se impossível. O delicioso milagre só se revela a quem confia, franciscanamente, na luminosa estupidez do seu instinto e dos seus sentidos, e ingenuamente se lhes abandona, como o pássaro se deixa librar nas suas asas.
Por isso, um imenso repositório de beleza jaz inexplorado e ignorado no mundo e na vida.
Quanta mulher feia por definição não é por natureza uma coisa formosa! Quanto rosto irregular, escabroso, macilento, não guarda, um poucochinho mais além desses acidentes, dissimulado como um seixo branco no fundo de um rio, uma harmoniosa, surpreendente disposição fundamental de linhas, de relevos e de contornos! E a quantidade de beleza que não se vê porque o objeto em si mesmo é desprezível ou repugnante! Um charco é uma imagem intelectual e oratória de dissolução, de paralisia, de morte, de decadência; é um foco pestilento, uma chaga aberta na terra, tapada de moscas, de vermes, de batráquios: um horror "por conseqüência". Uma cobra - puh! medonha! Entretanto, olhemos para isso tudo como uma criança, com a atenção e a curiosidade nuas de uma criança que não conhece nada, não sabe nada, não teme nada. O charco talvez nos apareça, cheio de azul, como um buraco da terra sobre um abismo sem fundo, todo lavado de claridade e povoado de numes joviais. A superfície da água, aqui lisa, ali borbulhante, além com placas e refegos de nateiro grosso, ora arrepiada pelo vento, ora quebrada por um bicho que se mexeu, toda betada de sombras movediças e de reflexos morrentes, golpeantes, explosivos, filiformes, maculares, difusos, - como se andasse ali a dissolver-se uma taxada de luminosidades, de negruras e de cores, pode ser um retalho fresco e maravilhoso de beleza arrancado ao monturo da realidade intelectiva.
A cobra, essa é positivamente um objeto encantador. Vê-la enrodilhar-se é apreender a nitidez perfeita da imagem, aliada quase paradoxalmente à cambiante contínua. Vê-la caminhar é ter a impressão de um liquido que se solidificou conservando a propriedade de escorrer.
Vai tão sutil e estreitamente adaptada aos altos e baixos do terreno, que se diria que a cobra não existe, é um simples movimento ondulatório do solo, um fragmento funiforme de sismo, uma estilha perdida e deslizante de terremoto. Esse corpo sem membros parece também não ter ossos, e apenas se percebe que é formado de anéis ou forma anéis à medida que se move, e que esses anéis se desmancham, mal se desenharam em outros que vão desvanecer-se de igual maneira: um devaneio maluco objetivado.
É um pau que se fez cipó e um cipó que parece querer voltar aos enlaces e aos balanços com as ramas. Irritado, arroja o bote com a fulminante rapidez e a fatalidade mecânica de um galho seco atirado pela raiva súbita da rajada. Como se tivesse barbatanas e asas invisíveis, bóia, nada, voa pela superfície da terra, e, quando se diria que lhe vai fugir, mergulha por ela dentro.
Vejamo-la em repouso: é uma obra esquisita de tapeçaria, com desenhos tão bem arabescados e cores tão bem distribuídas, que os nossos olhos se espreguiçam como ela e, como ela o nosso prazer se enrodilha e se esquece nas suas próprias roscas, e sonha.
Disse Boileau, sentenciosamente, como sempre: Il n'est pas de serpent ni de monstre odjeur, Qui, par l'art imité, ne puísse plaire aux yeux, - mas quais são os monstros odiosos para os meus olhos? não têm ódios nem amores. Tudo é natureza, tudo é espetáculo, tudo é necessário, tudo é expressão da multiplicidade sem fim na unidade substancial do infinito mistério e da infinita beleza.
No meio desse infinito, que nos cerca, nos trespassa, nos convida, vivemos um tanto à maneira daqueles dormentes estatelados nas ruas, nos palácios, nos pátios, nos jardins, nos mercados, nos templos e nos bosques do conto oriental. Príncipes, vizires, xeques, mercadores, ganhões, - todos alheios à magia do espetáculo colorido e móbil do mundo, eles próprios mero espetáculo para os olhos de um triste fugitivo e da sua amorosa e assustada companheira.
RUFINA Se eu fosse Rufina, hoje recostado no banco do bonde, enquanto um céu muito lavado se arqueava sobre todas as coisas, e um grande desejo de amor e ventura abrolhava nas almas, que teria feito? Teria pensado naquele passageiro desconhecido que me arrancara aos braços da morte; ter-me-ia lembrado com infinito carinho daquele homem tão corajoso e tão tímido, e teria refletido que por força ele devia ter um grande coração e uma alma adolescente.
Pensaria, outrossim, que ele provavelmente era solteirão, pois os homens casados não são assim tão solícitos, ou pelo menos tão tímidos com as damas. Pensaria que ele devia viver só e melancólico, habitando uma pensão inóspita, ou uma casa de família onde ansiasse rodeado de intimidades e ternuras que não eram para ele. E tanta coisa mais! Entretanto, quem sabe lá o que Rufina àquela hora pensaria! Pensaria nalgum namorado vulgar, suavemente grosseiro e agradavelmente chato. Ou talvez estivesse com ele, mãos nas mãos, olhos nos olhos. Esta idéia me perturba e me desalenta. Aquela mão rósea e mole ficaria tão bem na minha, ossuda e pilosa! Aquele braço torneado encaixaria tão deliciosamente ao redor do meu pescoço! E eu me sentiria tão ufano e pacificado, como um gato no borralho, ao calor do seu corpo e do seu coração! Poderíamos estar aqui juntos, ela bordando tranqüilamente um pano de mesa, uma almofada, ou lá o que lhe desse, e eu, quieto, a esta secretária, bordando as notas felizes de um memorial de venturas brandas, a interrompê-lo de quando em quando para dar um ósculo à minha gata.
Mas aquela pestinha é lá capaz de sonhar por esta mesma partitura! LOUVA-A-DEUS Tivemos hoje, à ida, um inesperado companheiro de viagem. Não sei quando nem como se aboletou no carro; só foi notado ao levantar o vôo do chapéu de um cavalheiro velho para ir pousar no seio de uma senhora gorda, copiando a abelha da pequena ode de Anacreonte. A senhora gorda enxotou-o, num gesto de susto muito gracioso, como convinha ao sexo. O bicharoco, executando um rápido vôo plané, foi aterrar no ombro de um rapaz elegante. Este se apresentava para lhe desfechar um tiro com o dedo médio armado em aríete, quando ele se passou para as costas de um homem distraído, onde se deixou e o deixaram ficar.
Uma vaga de hilaridade desencadeou-se no bonde ao toque das asas daquele forasteiro. Todos lhe acompanhavam as evoluções com sorrisos. E alguns manifestavam na cara uma curiosidade lorpa, como se estivessem diante de um invento completamente novo. Porque essa hilaridade? Problema complicado e escuro. Lembro-me de Bergson, mas não vejo como aplicar ao caso a sua teoria. Até nova ordem, penso que o riso proveio apenas de que o bonde não é veículo para passageiros dessa classe; de que o lugar habitual onde imaginamos o louva-a-deus não é o bonde, não as ruas ladeadas de prédios, calçadas de pedras, atravancadas de carruagem e caminhões, riscadas de fios de metal e pontas de cimento, - e de que os passageiros sentiam, ou melhor, não sentiam, mas tinham necessidade de deixar ver uns aos outros a impressão de desconcerto ou desconveniência que o transviado lhes produzia.
De fato, a mecânica do riso assenta no irreprimível instinto de comunicação próprio do homem.
Como o pranto, o riso é uma forma de linguagem, em grande parte inconsciente, destinada a comunicar o incomunicável, a exprimir o inexprimível, o que não se pode, não se sabe, não se quer ou não se pensa exprimir por palavras ou por gestos que lhes eqüivalham. (Se é certo que rimos e choramos a sós, também é certo que falamos conosco mesmos - e todo pensamento é diálogo interior - sem que por isso possa negar-se o caráter eminentemente, social da linguagem articulada, cujas origens supõem fatalmente troca, relação entre indivíduos, fixação coletiva de sinais sonoros). A mímica do pranto e do riso nasceu provavelmente da necessidade de se solidarizarem e coligarem os ânimos, na horda primeva diante do perigo, da contrariedade ou do benefício comum que iam encontrando pela frente. Seria um elemento de coesão sublimável. Uma circulação rápida de psiquismo coletivo. Com o tempo, isso se teria refletido e entranhado no indivíduo, até assumir uma sorte de vida inferior, independente. Mas a inconsciência do seu mecanismo interindividual aí está para lhe atestar as origens gregárias. - Somos ovelhas que se vão apenas destacando do rebanho por ligeiras diferenças de pêlo, de dimensões ou de andadura; mas a alma da ovelha pertence mais ao rebanho do que a ela própria.
E se tudo isto estiver errado? Não importa. Para um simples passageiro de bonde, as idéias são como os bilhetes de loterias: é preciso jogar em muitas, para ter probabilidade de acertar em alguma. E ainda o melhor é não acertar. Criar fama de rico é uma das mais graves maçadas que possam cair sobre quem não necessite de tanto numerário. Responsabilidade social muito pesada. Admiradores. Compromissos. Facadas, amabilidades, invejas, intrigas, amofinações...
Que bom travesseiro, a pobreza! A mim, o que me fez sorrir diante do louva-a-deus foi o riso dos outros, tão saudavelmente natural e estúpido. E foi também o próprio louva-a-deus, natural e bobo como esse riso.
O louva-a-deus é talvez um simples broto que de repente se animou, mexeu as suas folhazinhas tenras mal transformadas em asas, saltou, olhou o mundo em torno com os dois olhitos esbugalhados que se lhe acabavam de pôr - e esqueceu-se do papel que vinha representar.
Todo trangalhadanças e todo indeciso, na sua irrepreensível casaquinha verde, é como um mascarado tanto que não tem coragem de ir ao baile nem sabe se há de voltar para casa, e fica a estatelar-se macambúzio pelas esquinas.
Desconfio agora que o louva-a-deus talvez fosse um broche que um artista primitivo, das cavernas ou das palafitas, modelasse,- no barro verdengo de algum açude, dando-lhe, por inabilidade e por fantasia, uma feição de monstro quimérico e grotesco. Um dia, a senhora Natureza, num momento de nervos, confundindo-o com os seus modelos infelizes e inacabáveis ter-lhe-ia comunicado o sopro da vida, lançando-o fora; "Enfim! sume-te, diabo!" Outra hipótese. Esse e, com esse, muitos bicharocos parecem ter sido produzidos pela artífice quando ela ainda não podia desprender a imaginação dos liames do concreto. A minhoca teria sido tirada de uma raiz de tubérculo. A serpente, de uma haste de foraminífera. O besouro foi talvez copiado de um caroço de mamona. O elefante originar-se-ia de uma pedra viajada, do período glaciário, quer por acaso se tivesse vindo suster em cima de outras pedras menores e espaçadas. O lagarto, de um estilhaço de pau nodoso rachado pelo raio. Os peixes não teriam vindo da sugestão de um cardume de folhas polpudas caídas de grossas plantas aquáticas? E o morcego? O morcego foi de certo imitado de um pequeno guarda-chuva esfrangalhado pelo vento. (Contudo, não estou seguro da existência pré-histórica do guarda-chuva).
Só depois, muito depois, a Artista se libertou das formas anteriores para as inventar novas e mais perfeitas - o galo, esse objeto de luxo, o cisne, esse sonho de paz e perfeição, o gato, essa pequena mistura de inocência e de malignidade, a mulher... Ai, a mulher! complexa obra de fantasia terna, cruel e humorística: cisne, galinhola e gata. Rufina, meu amor, eu adivinho que tu és isso tudo! Tive também um acesso de ternura pelo coitado do meu louva-a-deus, perdido entre paralelepípedos e almas, na cidade poeirenta e dura, longe do fluido verdor fresco das moitas e dos aguaçais. E lembrei-me do meu tempo de menino, lá muito longe (muito longe, muito longe, num outro mundo que já nem sei se existe!), onde o louva-a-deus se conhecia por cavalinho de Nosso Senhor e onde me divertia com outros pequenos a caçá-lo, para o ver fazer a sua oração de mãos postas e para lhe amarrar um cordelinho a uma das patas traseiras.
Vi os agros lavrados, grandes remendos postos ao manto das lombas, com estrias roxas de terra e bordados verdes de planta nova. Vi a vegetação mole e tufada dos grotões por onde a água corria e ofegava, como rapariga surpreendida nua. Vi o empastamento violáceo-azulfumaça dos morros distantes. Vi o risco sangrento do caminho velho através da solidão virgiliana dos pastios. Senti o cheiro salubre das macegas. Ouvi ranger a velha porteira pesada e pensa, ao pé do valo esboroado, entupido de gravatás, à sombra do pau-d'alho fechado e baixo como uma cabana triste. Ouvi ecos errantes de vozes grossas a chamarem pelo gado, de cantigas de lavadeiras no córrego, do jorro da bica a referver no esqueleto negro da roda de água. E havia no meio de tudo isso, ainda mais distante, mais real e mais irreal, mais vivo e mais sonhado, um toque fremente e forte de buzina de caça, lá pelas barrocas e pelos cerrados desertos, um toque ululante; ansioso, resoluto, que estraçalhava o silêncio com ímpetos heróicos e melancólicos, de desafio e de saudade.
Transpassou-me a alma hereditária de lavrador desenraizado um sentimento agudo de solidão e de incomunicabilidade, e fiquei a olhar para o louva-a-deus na ânsia com que alguém, perdido em terra estrangeira, se poria a amar de longe um compatriota com quem houvesse topado por acaso. (Assim as nossas ternuras vêm sempre acabar em nós mesmos. Aí, senhor duque de la Rochefoucauld!) Viajava a meu lado um moço atochado de conhecimentos exatos. Disse-me, com certa indignação, que o louva-a-deus, mante réligieuse, é um dos seres mais sinistros da criação viva: a fêmea tem o indelicado costume de devorar o incauto esposo logo no festim de bodas (ao contrário portanto de outras que comem os seus aos bocadinhos, a vida inteira).
Eu já sabia disso pelos Souvenirs do Fabre; mas o moço tinha prazer em me instruir, e eu não lhe quis aguar essa satisfação não de todo inocente, mas tolerável. Não lha tolerei por generosidade, mas porque não queria jogar com ele a cena dos dois pedantes que se travam de sabenças.
Tenho pavor a essa espécie de gente, (aliás estimável, posto que daninha) a essa espécie de gente que vive a verter sabidelas decoradas por todas as juntas, como pipotes de melado em que não se pode pôr o dedo sem sentir o pegajoso das escorrências. São sucursais vivas da tipografia. São jornais parlantes, cheios de reportagens, de ciência feita, mas sem artigos de fundo e sem rodapés literários. A ciência, para eles, é o refugium, desde que se reconheceram anêmicos de bom senso, de imaginação, de sensibilidade e privados dessa divina capacidade de simpatia cósmica, que faz as almas verdad.... Mas não vale a pena repetir Nietzsche.
SANFONA Tivemos hoje concerto de sanfona durante a viagem da tarde. O homem tocava bem, e tocava de tudo.
Amo de coração estes artistas humildes, que têm a paixão da arte, com o mínimo possível de cálculo, ou sem nenhum. São, na sua imperfeição, mais artistas do que muitos outros mais hábeis, mais cultos, mais refinados: não procuram na arte senão o seu prazer - sem pensar em proveitos; e exercem-na com a simplicidade e a inocência de quem pratica os atos mais ordinários da vida. Dão generosamente e anonimamente o que têm, o bom e o mau, o certo e o errado, sem presunção e sem torturas, e vão seguindo o seu caminho. Quem gostar, goste à vontade; quem não gostar, perdoe; e, se não quiser perdoar, é o mesmo. Que boa, alegre e higiênica maneira de ser artista! Durante vinte minutos, o homenzinho da sanfona foi o único que veio deitar um pouco de alegria purificadora na alma fechada e amarrotada de quarenta e tantos passageiros.
Pela minha parte, Deus lhe pague, frater desconhecido! EMBRIAGUEZ Viajou hoje no bonde um homem embriagado, meio dormindo. Quando chegamos ao ponto, no centro, todos descemos, e ele ficou. O condutor foi interrogá-lo, ver porque não descia. Sacudiuo.
"Ó amigo, já chegamos! Ó amigo..." O bêbedo abriu um olho, ergueu a cabeça, e deixou-a tombar de novo sobre o peito. "Ó amigo! então não desce? Ó amigo..." O ébrio tornou a abrir um olho, fixou-o no condutor, e murmurou: "Toca o bonde." - "Mas olhe que tem de pagar outra passagem! Ó cidadão! está ouvindo? Tem de pagar outra passagem!" - "Sim!" berrou o homem.
"Sim! eu pago outra passagem! Toque essa porcaria! Siga! Eu pago quanto você quiser. Olhe, tome!" E estendeu ao condutor uma prata de dez tostões.
Quando o condutor lhe restituía o troco, o beberrão, já manso, fez um gesto trêmulo de repulsa amigável. "Guarde para você, guarde lá... ouviu? Mas olhe aqui, condutor, mande tocar mais devagar nas curvas... sim? É só o que eu lhe peço. Mais devagarinho nas curvas!" E o ébrio recostou-se, acomodou-se, cruzou as mãos sobre os joelhos e fechou os olhos, como se estivesse na mais fofa poltrona, debaixo de um teto amigo.
Explicou então o condutor porque é que ele queria menos rapidez nas curvas: é que já havia levado um meio trambolhão do bonde abaixo, numa delas. Assistiam à cena dez ou doze curiosos, que muito se divertiram. Nunca há maior divertimento do que ver um homem em situação degradante, e "risível", que por via de regra é risível porque seria própria para entristecer.
E porque o estado de bebedeira é degradante? Já sei: é pela mesma razão por que é risível, é que diminui o homem ex abrupto, o reduz à condição de autômato, de um autômato e amarfanhado. Mas há tanto outro gênero de embriaguez que passa como se não fosse degradante nem ridículo! Por que? Os efeitos são os mesmos: um homem sem a posse completa de si próprio, sem sequer essa espécie de dignidade animal que consiste na harmonia espontânea dos movimentos com as "finalidades" naturais, da estrutura; um homem que se torna inconveniente ou se torna perigoso, que tem de ser aturado nas suas importunações, ou carregado como uma coisa, ou conduzido como um animal, ou que extravasa, dá escândalo e faz desordem.
Há a bebedeira de morfina, éter e similares, e das paixões políticas, profissionais e confessionais, a da ambição doentia, a do exibicionismo patológico; há a embriaguez moderna da atividade exacerbada, que, como todas, enfuria, desfalca, mecaniza e deforma a natureza do homem. E há a embriaguez da sensualidade que se desdobra nesta epidemia universal de ostentação, de festas e de fantochismo dançante. E há a embriaguez do automóvel, embriaguez típica.
O paciente começa por tomá-lo aos poucos, e às vezes arrenega, às vezes duvida entre si se é bom ou se não será. Mas volta, e prova mais uma vez, mais outra, e mais outra, aumentando as doses. Para encurtar, não tarda que seja um viciado. Torna-se um automobilimaníaco. Anda quase constantemente automobiliagado, com períodos lúcidos de mais em mais breves, em que trata de seus negócios e participa da vida íntima de sua família.
Quando está em crise, empalidece, enrija-se, tem os olhos parados, o lábio descaído e branco.
A pequena velocidade é a fase alegre e brincalhona: ele pirueteia, ziguezagueia, faz gracinhas com a máquina, assusta o transeunte pacífico, dirige pilhérias aos guardas. A velocidade média é a fase da provocação e do "leve o diabo". A velocidade máxima média é o estado delirante: a consciência acaba de desaparecer, desaparece tudo, ou tudo se reduz a um sonho agônico, em que a personalidade tem a abafada impressão de se libertar das prisões materiais e voar no vento e na luz.
Embriaguez detestável como qualquer outra. Mais do que qualquer outra produz vítimas, que não são unicamente os enfermos, conforme todos os dias revelam as crônicas. E, como muitas outras, deixa suas heranças à descendência.
Entretanto, não se cogita de uma lei seca para esse flagelo.
A verdade é que o homem é um ser que se embriaga. Não importa a maneira: o essencial é embriagar-se. Morfina, éter, coca, ópio, vinho, grappa, whisky, gin, vodca, cerveja, automóvel, jogo, esporte, dança, negócios, arte, política, notoriedade, glória, ódio, tudo lhe serve, contanto que lhe permita, conforme os temperamentos, sentir a falsa plenitude de um desaforo interior, embora à custa do desbarate e da quebra do rico, vário e harmônico plano natural da construção humana.
Dizia Tolstói que o homem procura no álcool e no tabaco o entorpecimento do Eu consciente. E é verdade. Mas o álcool e o tabaco não são os únicos mananciais dessa felicidade mutilante.
Há-os em barda por aí, todos produzindo efeitos exteriores análogos, todos proporcionando o mesmo resultado interior, quer se trate de um cigarro ou de um trago, quer de um veículo atirado como um buscapé ou de uma paixão ou preconceito absorvente, que se cultiva: reduzir o campo dos cuidados, abafar uma porção de vozes que balbuciam dentro de nós, prevenir um mundo de preocupações e de angústias possíveis, apequenar a nossa humanidade, pôr entre nós e o cariz oceânico da vida um véu que o esfume e nos tranqüilize.
Não nos ríamos do bêbedo, ríamo-nos de nós. Todos temos o nosso copo, e todos parecemos obedecer ao conselho de Omar Kayyám: Sonha que já não és, e sê feliz.
És que? Homem, cá para o nosso caso.
BOA PROSA Boa prosa, o Antônio Palhares. É curioso como há indivíduos inteligentes, perspícuos e engraçados, perdidos na multidão que não aparecem nas crônicas impressas, nem nas volantes e sonantes da gente que se conhece. De repente, surde-nos um da obscuridade e da indeterminação do vasto mundo que desdenhamos e ignoramos, - e é um bicho de compreensividade, de senso, de espírito! Palhares é assim.
Conversei com ele hoje pela manhã, e nem sei dizer como me divertiu. Valeu por um livro novo que eu abrisse e folheasse, vendo as gravuras, o índice, os títulos de alguns capítulos, alguns relances de páginas. Quanta novidade, quanta frescura, quanto inesperado, e também quanto sabor de sinceridade libérrima e despreocupada, nos seus dizeres de homem sem galeria presente nem futura! Queixei-me a Palhares dos inconvenientes da notoriedade. Não por mim, que sou um obscuro chapado e contente, mas por um amigo meu, que é uma espécie de terça parte minha, o qual muito tem sofrido por via desse flagelo. O rapaz não pode mais isolar-se, meter-se consigo, perder-se na fecunda anonímia multitudinária que lhe permitiria o descanso, o recolhimento, a respiração livre, a remodelação dos hábitos, a cura das feridas sempre abertas pela esfregação mundana: é um escravo aflito e amarfanhado das relações, das amizades, dos compromissos, das idéias que outros formaram a seu respeito, das solicitações e dos estímulos que por isso lhe vêm de todos os lados; e então padece, e geme, e desespera, porque desejaria romper com o seu passado, deixar de ser o homem frívolo, o homem vento, o homem-inundação que tem sido, para ser um homem concêntrico e dono de si.
Palhares ouviu-me, ouviu-me, e, afinal, perguntou: - "Mas esse moço é deveras uma inteligência sagaz, ou é uma dessas grandes inteligências bobas que há por esse mundo?" - "Sagacíssima." - "Pois não parece. Seria tão fácil libertar-se, isolar-se!" - "É o que se afigura à primeira vista." - "Precisa dos outros, efetivamente, para viver?" - "Não; isso, não; tem a sua independência material bem segura." - "Então, não compreendo. Por que não se retira?" - "Impossível. Relacionadíssimo. Cheio de laços, que não se dissolvem senão quando novos laços os submergem: um homem que se procura, se aprecia, se quer, se disputa, se admira.