O meu amigo João Felício Trancoso, conceituado, chefe de seção, prometeu um dia, em troca já não sei de que serviço, que me faria um presente à minha escolha. Resisti, como cumpria, à promessa de outra compensação que não fosse a da sua velha e sempre nova amizade.
Mas Trancoso é obstinado e não me deixou sossegar. Exigiu sempre que eu lhe dissesse o que preferia - se a coleção das obras de Jorge Ohnet (a sua maior predileção em literatura), se uma cigarreira de prata, se um guarda-chuva de seda.
Como eu teimasse em recusar, mandou-me o guarda-chuva e, não satisfeito, pouco depois me veio ameaçar com as obras de Jorge Ohnet. Urgia romper o cerco.
Ora, eu sabia que Trancoso, muito calado, rascunhava um diário das suas impressões de viagem. Das viagens que há vinte anos faz, como bom empregado público, de casa para a repartição e da repartição para casa. Tomei-lhe um punhado de folhas, li-o, e disse-lhe: "Este é o presente que exijo".
Tentou repontar, quis sofismar o contrato: venci-o à força de senso jurídico e de severas admoestações.
Nenhuma lembrança do velho amigo me poderia ser mais grata do que esses papéis em que lançou uma verdadeira porção de si mesmo. Verdadeira, porque Felício não conhece a arte dos desdobramentos literários da personalidade. Nota no memorial as espontâneas modificações de sua alma ao contato das coisas e dos homens. Não edifica a sua obra: segrega-a. Não a escreve para verificar ou provar que também é capaz de fazer literaturas, mas "para ter a sensação de que se expurgou de uma inevitável porção de tolices".
Assim, o seu ponto de vista de escrevedor é inteiramente oposto ao dominante: outros constróem, com esforço, uma personalidade exterior, feita de escritos, na qual põem toda a sua complacência e o melhor das suas esperanças; este deita fora as suas idéias, como um refugo, para conservar o equilíbrio, a saúde e a leveza do seu ser interior e inviolável - o único que vale a pena de ser vivido e cultivado, (mesmo porque não se lhe pode sair da casca).
Demais, gosta de escrever "para ter a impressão, ao reler-se, de ser uma alma que vai vivendo, apesar de reduzida à mínima expressão social de empregado público e viajante de bonde." E acrescenta: "A lesma, na sua existência branca, só deve ter uma tal ou qual sensação de vida quando olha para o rasto prateado que vai deixando pela parede." Contudo, os mais sonsos têm o seu sistema de idéias e Trancoso não escapa à necessidade. O seu ponto de vista autoral, atrás indicado, já representa uma posição filosófica diante do mundo e da sociedade. Há mais: o nosso memorialista visivelmente gosta dos casos e coisas mais ordinários, mais mesquinhos, mais insignificantes: esses, de preferência, regista e comenta. É que pensa, com Chamfort, que, "nas grandes coisas, os homens se mostram como lhes é conveniente, mas nas pequenas se revelam tais quais são". Daí o sabor das pequenas coisas, que são na verdade as realmente grandes, porque formam os alicerces e as armaduras de tudo.
O sabor? Antes a amargura Entretanto, Trancoso não é um cético nem um pessimista. Homem são na sua humana enfermidade e forte na sua complexão mediana, conhece o valor higiênico da variedade de exercícios e a conveniência de a gente se abandonar um pouco à ondulação natural do sentimento e das intuições ordinárias. No fundo, talvez, crente, - crente do bom senso da inteligência e do coração, qualidade ativa, inimiga nata do senso comum, "consagração social e passiva de toda a sorte de preconceitos mendazes e de pré-sentimentos daninhos".
Enfim, aqui tem o leitor as impressões de viagem de Felício Trancoso. Temo que este prefácio o prepare mal para avaliar a verdadeira índole dessas páginas despreocupadas. A eterna impertinência dos prefácios! As coisas da vida surgem por si mesmas, sem prefácios nem explicações, e no entanto conseguem perfeitamente o fim de todas as coisas: passar. Pois façamos de contas que este prefácio já passou. Não existe.
L'áme respire avec des paroles UNAMUNO, L'Agonie du Christianisme O BONDE Quando ia tomar o meu bonde, hoje pela manhã, o meu vizinho Dr. Viegas passou no seu Dodge e atirou-me. num gesto, a fisga de um convite. Hesitei um pouco, e afinal optei pelo bonde. O Dr. Viegas partiu.
Entrei no carro elétrico, conquistei um lugar no último banco, e só depois que me vi instalado e refestelado é que me ocorreu dirigir a mim próprio esta interpelação: "Por que será que recusei o automóvel? Porque preferi o bonde?" A resposta não foi imediata nem rápida; veio porém, e aqui a reduzo a conserva: "Preferi o bonde porque não tenho pressa. E não quero ter pressa, porque estou contente, e o contentamento em mim propende naturalmente à lenteza das degustações silenciosas e chuchurreadas. Trago a alma numa pacificação pessoal e cantante, num desses estados de harmonia orgânica que crescem de dentro para fora, como uma florescência, sem se saber porque, e por isso mesmo são mais doces. Para fruir esta eufórica disposição, preciso de estar só. E a melhor maneira de estar só é ainda achar-se no meio de uma quantidade grande de estranhos. Sentimo-nos, assim, não apenas insulados, mas diversos. Duplo círculo de segregação. Solidariedade enfestada. - E eis aí a única forma de solidariedade perfeita que os homens até hoje inventaram: a união de todos para deixar cada um entrincheirado em si mesmo, como uma pedra.
Depois, o automóvel me é antipático. A rapidez posta a serviço dos que não têm que fazer! A faculdade de deslocamento veloz em posse dos que menos razão teriam para correr! Assim, os relógios de bolso foram nos seus princípios um luxo de ricos, depois de apatacados; adorno e brinquedo dos que tinham mais tempo ao seu dispor. Velha história da maioria dos inventos: charadas e curiosidades de mecânica para pessoas lunáticas ou desocupadas, acabam impondo-se a todo o mundo. Não os determina a necessidade: eles é que a suscitam. Os que trabalham deveras, os que suam e gemem na tarefa de todos os dias são os que precisariam de ter automóvel, para poupar minutos, para espremer uma gota de vida e de sangue em cada segundo. Mas esses não o podem adquirir e manter; podem quando muito sonhar em possuí-lo um dia - quando já não seja necessário.
Assim se vive perpetuamente, em busca do supérfluo; por ele nos batemos e sacrificamos. O supérfluo é-nos tão indispensável como para certos doentes o ar das montanhas ou os banhos de mar. Nele pomos as nossas esperanças de saúde e rejuvenescimento. A vida é uma carreira louca em pós de automóveis relampejantes. Poucos os agarram. E os que os agarram, apenas aboletados mandam tocar mais depressa para alcançar um outro que faiscou ao longe. E toda esta canseira se resolve numa carreira desesperada empós do último carro, aquele que tem douradas e negruras.
O automóvel é o veículo dos que fogem a si mesmos. Qual a causa dessa febre de pressa? Vaidade material, exteriorização do centro de gravidade psíquica. Depois, gosto puro da velocidade, pendor infantil reencontrado na idade madura - prazer de um tropel de sensações, dominado pela sensação central e capitosa de sermos uma vertigem que voa através do delírio das coisas. Tudo maneiras novas de embriaguez. O automóvel vem da mesma prateleira que o whisky, o tango e a morfina. Tudo maneiras de uma pessoa esquivar o olho antipático e fulgurante do seu Eu profundo, o consciente, o rememorador, o censurante, o meditativo, que desperta e fala quando abandonamos o corpo e os sentidos, e os braços descansam, e o animal estatela como um mecanismo cuja corda se acabou.
O automóvel é o veículo dos que não amam, apenas desfloram libertinamente a beleza das coisas. - A melhor atenção do viajante, por essas estradas, se concentra na máquina. "Como se porta? Quanto anda? Quantos quilômetros andou? Como funcionam os freios? Bastará a provisão de gasolina? Onde encontrar gasolina aos litros? Olha um que lá vem como um louco! Vamos a uma chispada! Cuidado com essa volta... Diabo, lá se foi um pneu!... - Assim, conjugado ao passageiro por todas as fibras da atenção e da vontade, o auto é como um corpo doente que uma triste criatura tem de conduzir, absorvida nele, por entre esbarros e escorregões. É um prolongamento imediato do Eu material, e pois um reforço tremendo da múltipla escravidão que amarra a endolorece o espírito. O ideal do filósofo é despojar-se de tudo quanto nos limita e nos pesa: o ideal comum é encarapitar novas cargas e novos prolongamentos, novas estruturas postiças à personalidade natural.
Os homens na verdade amam todo gênero de escravidão, contanto que lhe ponham um nome aprazível. Dirigir um automóvel é "dirigir" alguma coisa. (Veja-se a tradicional imponência dos indivíduos atrelados a uma boléia). Chamam a isso dominar a matéria cega e a força bruta.
Dominar a matéria e a força, quem o faz é o inventor que labuta no gabinete e no laboratório. Os outros apenas reproduzem a história do mágico aprendiz. - Chamam a isso fazer esporte, cooperar na obra de não sei que vago progresso. E com estas idéias se alegram. Fáceis de contentar, os homens. É pena que os forçados das galés antigas não tenham tido a consolação de algum pensamento nesse estilo, quando se dobravam e desdobravam amarrados à mecânica extenuante do remo! Sim, automobilistas há que têm tempo para ver; que colecionam sensações; que trazem braçadas de impressões da natureza, dos povoados, das caras e das almas entrevistas.
Impressões talvez nítidas, mas fragmentárias e superficiais, como fotografias. A objetividade chata e unilateral do instantâneo. Nada das penetrações, das tatilidades envolventes, das sondagens reveladoras, das adivinhações enlevadas, das apreensões íntimas, concretas, totalizantes, de uma alma em lento contato, em luta e em núpcias com a virgindade fugitiva do real. A imparcialidade química, a mentirosa, a estúpida imparcialidade da fotografia.
Enquanto que o bonde... Ah! o bonde é outra história. Nem tão vagaroso que dê sono, nem tão veloz que dê vertigem, tem a suprema vantagem de ser seguro e repousante. "Repousante" quer dizer que nos deixa o descanso necessário para continuarmos em lida e em briga conosco mesmos. Quer dizer que no bonde não intervém a força centrífuga que nos estraçalha e nos projeta contra as coisas ambientes, na alucinação das corridas elásticas e esfuziantes. Em vez de domar a pulso umas engenhocas pomposas e traiçoeiras, acho mais razoável e mais agradável degustar as aquisições já provadas e certas do gênio inventivo, das quais nos podemos servir sem lhes dar maior atenção. E que formidáveis aquisições, já docemente incorporadas aos nossos modos de ser! Por exemplo, este meu Faber n.0 2, macio, leve e corrente como uma agulha sensibilíssima adaptada a um aparelho psicográfico; este papel em que escrevo, liso e lúcido como porcelana, claro como a cordialidade, alvo como a inocência, receptivo como um espelho; este humilde capote de lã que molemente me escorrega dos ombros à medida que trabalho, brando como um carinho piedoso que discretamente se retira; este meu relógio paciente e incansável, que há seis anos tiquetaqueia todos os minutos da minha vida, já embaciado, já com os relevos do tempo meio delidos, já com um ponteiro meio torto, já com o vidro meio opaco, mas con moto dentro firme e obstinado no seu trabalho, sempre a contar lá consigo, na sua vizinha martelada e tilintante, a medida perpétua de todas as monotonias essenciais deste mundo tumultuoso.
O bonde permite que eu me concentre em mim mesmo. Não vale isso grande coisa, mas sempre é um meio de eu me sentir viver enquanto vivo. O que não é possível no automóvel à solta, onde a nossa alma se vai espadanando pelos caminhos como a água de uma vasilha sacolejada.
O bonde permite-me ver de perto, viver o bicho-homem na substancial realidade dos seus gestos inadvertidos. E esse bichinho (verme da terra, lá diz o Evangelho) é afinal só o que há de interessante no mundo.
As próprias estrelas são uma poeira estúpida, na sua mudez mortal e na sua mecânica fria. De onde lhes vem a magnitude e a beleza? Da pequenez e da miséria desse bichinho que pensa e que imagina, entre as minhocas e os sapos. A sua pequenez e a miséria o fazem visionário de esplendores.
Deliciae meae esse cum filiis hominum.
O bonde é uma galeria inesgotável de exemplares desse verme sempre igual e sempre vário; uma exposição permanente, renovada a cada instante, de tipos, de esboços, de caricaturas, rica e múltipla como a vida, sugestiva como deve ser a antecâmara do Purgatório. Se as almas soassem, o bonde seria como um poderoso jazz-band sobre rodas em que os uivos, os berros, os soluços, as casquinadas interiores se despenhariam em cataratas de dissonâncias - sem perder o fio às grandes linhas monótonas da composição.
"Ah! o bonde, sim..." Depois de me dar esta resposta, achei que era um pouco longa demais para explicar uma resolução tomada em dois segundos. Mas não sei fazê-lo por outro modo. Sei apenas que é assim, ordinariamente, com todas as nossas resoluções. Elas pressupõem longos trabalhos de raciocínio e reflexão; na verdade, esses trabalhos vêm depois, e só servem, quando muito, para as seguintes edições do mesmo ato.
No cabo de tudo, se eu ainda dispusesse de dinheiro sobrante, compraria um automóvel, ou uma dessas máquinas que mais se assemelham automóvel.
UM SONETO Saí, hoje, de casa maquinando um soneto. Não foi culpa minha, mas obra do acaso. Lendo um jornal, depara-se-me, perdido no entrecho de uma notícia ordinária, em que se narrava a prisão de uma negrinha gatuna, este retalho de frase: "Toda a ilusão da triste Gabriela..." - Magia do número! Não foi sem razão, ó sombra venerável de Pitágoras! que a pressentiste por tudo nas esferas como nas almas. Repeti duas, três, dez vezes esse pedaço de frase vulgar, que é um verso inteiro e excitante. Gabriela alvejou-se-me e transfigurou-se-me logo na remota imagem de uma linda pessoa que de repente se vira nua de toda ilusão, nua como lady Godiva montada num asno, em meio da praça. Comecei a compor... não, começou a compor-se em mim um soneto: Já não tens ilusão, ó Gabriela! Nega-ta o amor, essa comédia triste.
Nega-ta a vida. E em tudo quanto existe, O espinho do real se te revela.
Subi para o bonde a escandir mentalmente esses decassílabos, que para ser sincero comigo mesmo, não me pareceram maravilhosos. Mas alentava-me a esperança de que pudessem ir melhorando do meio para o fim do soneto. - O que me apepinava um bocado era que as rimas aproveitáveis não se deixavam pegar como frangos de pés amarrados. A memória, afeita a servir-me os torresmos do vocabulário trivial, só me deparava coisas como fivela, moela, espinhela, chiste, alpiste, que não se coadunavam à pura nobreza da inspiração. Encolhi-me, cerrei as pálpebras e atirei-me à caça de boas rimas, exercício muito útil, para refrescar as idéias e especialmente indicado como passatempo higiênico e divertido para homens atarefados, nas horas vagas.
Ia engolfado nesse labor - Cellini do verso! - quando senti que uns dedos me bicavam no ombro.
Voltei-me, era o meu amigo Fabiano Alves, prático de farmácia meu vizinho. Bom homem, mas confiado, e ainda com a particularidade esquisita de se achar sempre numa temperatura espiritual completamente diversa da minha.
- "Está calculando?" indagou.
Tive ganas de lhe perguntar que conta lhe fazia que eu estivesse calculando ou voando muito acima do lodaçal do mundo, onde patejam os boticários sem alma.
- "Vem tão concentrado, mexendo com os lábios." - "Cá umas coisas." Fabiano entrou imediatamente a explicar que era tapadíssimo em questões de cálculo.
Decididamente, não dava para essa especialidade. De uma feita, propuseram-lhe um problema, no clube de Periquitos, sua terra natal: "Um pássaro faz sete voltas em redor de uma torre de cantaria em quarenta segundos; quantas torres serão precisas para que sete pássaros façam uma volta..." Mais ou menos isso. Coisa à-toa, simples aplicação da regra de três; podendo-se também resolver rapidamente por análise. Pois levou mais de meia hora para dar com a solução! Uma vergonha.
- "Ainda assim, você é um bicho, Fabiano." - "Não; em Matemática, serei bicho, mas de má qualidade: um burrego. De todas as ciências, a que dá com o meu feitio é esta" (e batia com a larga e magra mão sobre a capa de um livro de espiritismo) "é esta, a filosofia." E Fabiano falou copiosamente sobre a doutrina espírita, "a mais consoladora de todas", e em particular sobre a moral, "sem discussão possível, a mais perfeita." - "Fabiano" (lhe disse eu, apenas por dizer alguma coisa), "você conhece a moral de Sócrates? Ele sorriu: - "Esse, justamente, freqüenta o meu círculo. Um espírito evoluído. Adiantado!" E dizendo "adiantado", Fabiano esticou os beiços para um assobio, que deixou subentendido.
Mas eu, intrigado, questionei: - "Como é isso, ó Fabiano? Então Sócrates freqüenta..." Ele sorriu com bonomia, explicando: - "Manifesta-se, compreende? Está desencarnado há muitos anos, desde um desastre que houve aqui na Central. Saiu com as pernas esmigalhadas. Nesse mesmo dia visitou uns nossos irmãos, no Pará; por sinal que fez o pobre do aparelho gritar com dores nas pernas!" Fabiano discorria, discorria. A certeza da verdade dava-lhe um ar de beatitude. "Ele já parecia respirar o eterno, planava além de todas as coisas perecedouras, que vão da molécula às estrelas. Este prático de farmácia, que acabava de largar o almofariz para ir comprar uma porção de calomelanos à drogaria, achava-se absolutamente integrado nos planos perpétuos da vida e do movimento universal. E o curioso é que se consolava com isto.
Ia sorrindo, no bonde, como sorriria um arcanjo na sua biga de chamas, através do infinito, assistindo ao florir e ao despertar das constelações pelos abismos sem fundo. Ou como uma criança contemplando um queimar de rodinhas e traques.
Com isto, deixei de fazer o meu soneto. Quando pretendi reinvocar a inspiração, ela havia batido as asas. Um acaso ma trouxera, um outro ma levou.
Assim acontece com tantas coisas belas e boas da alma! Nascem e morrem por aí na sombra e na bruma da vida larvada. Nascem por acaso, por acaso morrem. E nós caminhamos sobre as flores mortas dos nossos jardins interiores, como um cordão de porcos-do-mato sobre uma camada de pétalas, na época da inumerável florescência dos manacás. Mas entre a preta Gabriela e o boticário Fabiano, minha alma teve um momento de ventura inocente, embalada no berço dos ritmos e dos timbres. E, se não chegou a perpetrar nada, tanto melhor.
O melhor da poesia e de tudo quanto se lhe parece é a elaboração, o estado de graça, a embriaguez esporeante, a doce liberdade interior em que vive quem a elabora ou rumina. Talvez que o mais alto poeta seja um simples ruminante mudo de formas, O mais, vaidade e pretexto.
Bendita a Gabriela, e bendito o Fabiano.
RUFINA - "Entre, Rufina." Quando eu voltava, hoje, para casa, lendo uma folha da tarde, ouvi soar essa frase num dos bancos dianteiros. Instintivamente, olhei: Quem a proferira fora um senhor idoso, com uma grande cara bonacheirona e sonsa, dirigindo-se a uma rapariga que, não sei por que motivo, parecia hesitar sobre o estribo, como uma baratinha machucada.
O bonde estava parado. Quando o homem acabava de falar, o carro subitamente arrancou, e a moça ia perdendo o equilíbrio, soltando um desses guinchos de boneca rapidamente apertada na barriguinha. Dei um salto, voei, e quando caí em mim estava agarrando a jovem por um dos braços com a energia de um guindaste, enquanto os passageiros se levantavam à uma, como se o bonde fosse peneira de sururucar em movimento, e eles quirera.
Larguei logo a presa, que, cabisbaixa e ruborizada, foi para perto do senhor idoso. Como este me fizera uma cortesia, agradecendo a intervenção, aproveitei-me da oportunidade para pedir desculpas à menina, ainda arrufada do incidente, de a ter agarrado um pouco à bruta, no receio de a ver sofrer uma queda. Ela riu-se, com uma pontinha de desdém.
- "Queda? Ah! disso não havia perigo. Tomo o bonde em movimento a cada passinho!" Curvei a cabeça com dignidade, como quem deliberadamente interrompe uma situação delicada; recostei-me, e recomecei a leitura da minha gazeta. Tentei recomeçar. Mas não podia dar com o seguimento do artigo em que viera mergulhado. As seções tinham feito um chassêcroasê completo. Trechos vistosos, que antes me saltavam aos olhos, agora andavam brincando de Maria-condê pelas oito páginas do diário. Cheguei a desconfiar que alguma página se houvesse evaporado. E, na correnteza das minhas emoções embrulhadas, a consciência apenas tinha força para me sussurrar: "Toma, burro! Bem feito. Por que é que te meteste? Por que é que não a deixaste periclitar à vontade?" Já então, o gesto da moça, que fora quase imperceptivelmente abespinhado - também, com aquele susto - me reaparecia, em imagem, todo a arder em pura má criação. Cheguei a sentir por ela uma espécie de ódio. (Digo espécie de ódio, porque teria remorso, caso julgasse o meu coração à ligeira, capaz de tão grosseiro sentimento. O amor da justiça é inato nas almas; todos temos infinitos escrúpulos em sentenciar contra nós mesmos.) Como quer que seja, no aceso da raiva, afastei um pouco o meu paravento, isto é, o meu jornal, e dardejei contra a rapariga uma torva olhadela de esguelha. Ela estava agora voltada para mim, de um modo repassado e calmante, olhando-me com esse ar de complacência desinteressada com que se contempla um animal de jardim zoológico. Dei imediatamente à minha olhadura envenenada o ar mais neutro e casual que foi possível. Sorri. Ela sorriu. Aquilo foi como se um céu borrascoso de repente clareasse, todo florido de nuvenzinhas recémnascidas, castas como roupa lavada ao sol. Sorri, mais docemente. Ela baixou as pálpebras pestanudas e deu meia volta ao rosto moreno e rosado sobre cuja superfície; dura e lisa como a de uma figura de biscuít, o fumo de um cigarro vizinho punha a indecisão aérea de um tenuíssimo nevoeiro. E ainda sorria; e pude perceber que por entre a franja dos cílios a sua íris umidamente faiscava, enviesada para o meu lado, embutida numa sedosa penumbra. E os cílios palpitavam.
......................................................................... ainsi qu'un noir feuillage où filtre un long rayon d'étoile.
Nisto, o velho bezerrão fez sinal ao condutor e, na sua voz plácida: "Vamos, Rufina; mas não caia!" A moça riu-se de boa vontade, como um lindo modelo para anúncio de dentifrício; fez-me um cumprimento de cabeça, largo e cordial, e saltou, acompanhada pelo velhote.
Vieram-me ímpetos de saltar igualmente, mas uns temores me agarraram ao banco, pelos fundilhos, como cola. Não me acharia ela ridículo. Não daria o meu ato na vista dos passageiros? Refleti que este receio era estúpido. Eu tinha o sagrado direito de saltar onde quisesse. Demais, como é que se podia decentemente receber um sorriso de mulher bonita, sem a seguir, ainda que a custo de algum risco? Ia eu refletindo, quando olhei para trás: Rufina tinha desaparecido. Bolas! Encolhi-me, num acabrunhado desprezo de mim mesmo, e deixei o bonde rodar. Quando dei acordo de mim, era o único passageiro restante e estava no fim da linha. Só, só na solidão do carro vazio. Só e triste como a fruta murcha que ficou no fundo do cesto. A voz do condutor português rolava, irônica, conclusiva, retumbando-me na alma como a voz do pai de Hamlet nos subterrâneos de Elsenor: Pooonto finale!!! O PESCADOR E O SILÊNCIO "Com que então, Barbosa, você é pescador?" Esta simples frase, dita numa voz branca, de um jeito quase distraído, me ia hoje rendendo uma quebra de amizade.
Frederico Paulo Barbosa Ramires é o homem mais calmo, sisudo e direito que jamais conheci.
O senso comum encarnou-se nele como a seiva se infunde e se solidifica numa cabiúna. Dir-seia que a própria arquitetura de Barbosa fora armada com aquele material primário: os ossos robustos, as carnes duras, o corpanzil maciço, a fisionomia densa de hoplita membrudo.
Familiarizamo-nos há muito. E nunca descobri no meu amigo uma trinca, um recanto desleixado, uma dependência indecisa e frouxa.
Vendo-o, hoje, no bonde, de caniço em punho, tive uma pequena surpresa, olhei para ele fiz-lhe aquela pergunta inócua. Parece que lhe toquei num ponto dolorido. Não se desconcertou, nem se irritou propriamente, mas respondeu-me com um nadinha de impertinência: - "É verdade; pescador. Todos têm a sua mania, a minha é esta. Não faz mal a ninguém - senão aos peixes. É higiênica, tem a sua dose de poesia..." - "Bem, Barbosa, pesque, pesque, isso não precisa de justificação." - "Mas, se eu quiser justificar?" Fez então o elogio da pesca de vara. Uma pessoa fica à beira da água com a cana em punho, lança o anzol, e espera. Não há nisso nenhum desbarato de energias físicas nem morais. Por outro lado, não há tampouco a mínima astúcia nem a mínima violência. Fica à espera. Não corre atrás do peixe, não vai agarrá-lo. Nem o enxerga sequer. É como quem tira a sorte. O rio traz o peixe, o peixe vê a isca, engole-a, engasga-se. Então, o pescador sente na ponta da vara um estremecimento característico, dá-lhe um meneio, e puxa.
- "Como vê" (prosseguiu) "a intervenção do pescador é em tudo semelhante à do acaso, ou dos acidentes cegos que semeiam o curso dos rios e de todas as coisas. Ele espera, entendeu? ali, parado. Não vê o peixe, não sabe se o peixe virá, nem de que espécie há de ser caso venha; não sabe nada. Espera. É de uma imparcialidade absoluta." - "Em todo caso atalhei, sabe que o rio é piscoso. E a imparcialidade, aí, quer dizer simplesmente que qualquer um serve." - "Sim. Mas o peixe, se não pegasse no anzol, seria imortal? Não teria de morrer logo adiante?" - "Dizem que eles têm o sestro de viver muito; até duzentos anos, conforme.,' - "E você acredita isso? Quem é que contou os aniversários do peixe? E depois, olhe aqui, e depois que vem a ser um século ou dois diante da imensidade do tempo." - "Alto lá, nós não vivemos a imensidade do tempo, Barbosa. Com esse artifício metafísico, se tem justificado muita pose de espíritos inumanos e muita monstruosidade material. Nós vivemos um minuto! Esse minuto é que deve ser a nossa medida. Tudo que o excede é imensurável. E, sendo imensurável, é sagrado." - "Ahn..." - "Mas, falando sério, você não precisa ter esse trabalho de justificar o seu gosto. Nada de repreensível na pesca, nem mesmo na caça. É lei do mundo que as espécies umas às outras se exterminem, por necessidade, por esporte, por prazer, por passar o tempo, é lei do homem que combata as outras espécies todas e a própria. Que lhe havemos de fazer? Observo-lhe, simplesmente, que a sua filosofia piscatória poderia justificar também uma larga parte da moral corrente nas relações humanas. Lança-se o anzol, fica-se à espera. Conheci um mercador que, fisgando e aleijando o freguês, não se desculpava por outra forma: Veio porque quis! Não obrigo ninguém a comprar." - "Mas está muito direito" (replicou Barbosa). "Ele tinha razão. Eu, dono de um negócio, daria o preço que bem entendesse às minhas coisas." - "Você não o faria, Barbosa." - "Faria, sim, e você também." - "Pois, se eu o fizesse, seria um espertalhão como qualquer outro." Barbosa amuou, resmungou, e creio que só a sua sensatez e bonomia de animal forte, o impediu de levar adiante a contenda. Separamo-nos sem nos encarar. Fiquei penalizado com esse primeiro fio partido na teia de seda que vínhamos tecendo há tantos anos. Por um fio roto vai-se às vezes o tecido inteiro.
Todo o mal está em se falar demais.
O que vale deveras, deveras, nos indivíduos, não são as idéias, que mudam, que ondulam, que o menor sopro de interesse ou paixão modifica, é o fundo indefinível de bondade que neles exista. E esse fundo mesmo, e preciso que não se pretenda apurar com fúrias de análise! Não é senão um pouco menos mudável e incerto, neste perpétuo devenir em que tudo o que vive se resume num equilíbrio momentâneo e precário de elementos errantes e fluidos.
Devemos crer nesse fundo, sem o examinar com insistente rigor. A nossa boa vontade o faz crescer. Acreditar que ele existe é corroborar-lhe a existência. A nossa fé transfunde-se no íntimo dos outros como uma levedura vivaz. E assim cada um de nós é um pouco criador; criador das mais doces coisas do mundo.
Os homens de bem são geralmente melhores do que a sua própria lógica faria supor. Há indivíduos excelentes que falam como cínicos ou malvados.
A palavra não foi dada a todos os homens para encobrir os seus pensamentos: foi dada à maior parte para encobrir a falta de pensamento. Felizes os que ainda têm pensamentos que encobrir! A maioria pensa à medida que fala. A necessidade de falar é que a obriga a pensar um pouco. E há pior: a necessidade de falar a obriga por vezes a dizer coisas que nunca teria pensado.
Era preciso falar muito menos. O silêncio seria a nossa melhor cura. E seria freqüentemente a melhor das satisfações que pudéssemos dar de nós, em nossa irremediável enfermidade.
No silêncio germinam as forças heróicas. No silêncio condensam-se as forças invencíveis. O silêncio é a túnica invisível e pesada das almas inquebrantáveis, sumidas na profundidade triste da sua clarividência e da sua piedade.
Silence and Secrecy! - palavra de Carlyle que devia ser a divisa das almas religiosas, isto é, das almas humanas.
Os amigos deviam estar juntos apenas para se sentirem viver um ao outro, mantendo entre si esses largos silêncios falantes que são o que há de mais expressivo na linguagem do amor. A linguagem do amor é uma brosladura vã de palavras sobre um fundo uniforme de sentimento.
Para que sobrecarregar a brosladura? Para que arriscar desenhos supérfluos que podem comprometer irremediavelmente o tecido? A linguagem apropriada seria musical, a meia voz, lenta como um cantus planus envolvido pela melancolia suave que banha as felicidades efêmeras.
O mundo com todas as suas complicações miseráveis e a nossa personalidade mundana e aparente, com todas as suas pretensões, e imbecilidades, mistificações e parlapatices, deveriam desaparecer, como fumo varrido por um vento puro e purificador, diante do milagre de duas almas que de verdade se querem, - milagre! coisa incompreensível e estupefaciente, nesta raça de macacos famélicos e obscenos. E seria como se cada uma dissesse para a outra, sem dizer nada: "Eis-me aqui. Tal como sou, eis-me aqui: um pouco de lodo com duas asas.
Amemo-nos, pelas nossas asas. Mas em silêncio, chut! em si-lên-ci-o... Basta o sopro de uma palavra vã para que essas asas se rompam como teias de aranha! Etre méconnu memê par ceux qu'on aime, é est la coupe d'amertume et la croíx de la vie...
escreveu Amiel com o seu sangue.
Dentro do silêncio, a compreensão mútua, despindo os incômodos véus da palavra exterior e dos conceitos ordinários, e mesmo da palavra interior, poderia assumir a forma serena de uma iluminação. De uma claridade difusa e divina. Para além da lógica tardígrada das magras aparências, das reflexões esterilizantes. - Poderia. Mas!...
O HOMEM QUE FUMA Vou deixar o hábito de ler no bonde, hábito estúpido. Ver o homem viver é mais interessante do que ler as histórias do que ele faz e pensa, (ou pensa que pensa.) É certo que no bonde, geralmente, salvo numerosas exceções, vai quieto e sorumbático. Mas onde quer que esteja, e como quer que esteja respira humanidade. E os seus gestos e momos mais fugitivos são debuxos descosidos do grande jogo de cena que faz a dramaticidade da história.
"Todo ser humano é para mim um templo, e eu gostaria mais de distinguir os traços originais, as leves pinceladas que aí se encontram, do que de ver o famoso quadro da Transfiguração de Rafael." Esta opinião de Sterne em sua Viagem Sentimental, é justamente a minha. Honra a Sterne. - Só divirjo dele em que não gosto apenas dos traços originais, mas de todos. Aliás, no fundo, cada homem é sempre uma síntese original, um composto único, um exemplar sem parelha. A nossa visão grosseira ou a nossa necessidade e sede de catalogação é que nos obriga a converter as semelhanças em identidades e as analogias em semelhanças, a criar espécies e gêneros para ver o indivíduo, única realidade tangível, único depósito real de humanidade vivente e vibrante.
Viajei ao lado de um homem que, pela casca, devia ser negociante de secos e molhados. Era, de fato. Cheirava a suor, tinha os dedos grossos e encardidos, trazia um casaco de casimira cinzenta semeado de respingos, coscorões e tintas de varias cores. Contudo, carregava relógio com uma grossa cadeia de ouro, guardava na pupila a chispa da independência e, enfim, tinha esse ar de cavaleiro garbosamente escarranchado em cavalgadura mansa, tão próprio dos homens classificados e prósperos.
Mascava um toco de charuto, soltando baforadas na cara dos vizinhos, entre os quais havia senhoras de várias idades, formatos e cores. Não lhe ocorria sequer a idéia de que pudesse incomodar. Isso me irritou, e figurei-me logo esse mesmo homem, em mangas de camisa, por trás do balcão a desfazer-se em mesuras com os habítués do parati e em gatimonhas gentis com as cozinheiras.
Portanto, um abjeto ganhador de níqueis? um tipo que se faz calculadamente macio e untuoso quando lhe convém, altaneiro e maroto quando não depende? Não será bem isso. Para ele, ser paciente e obsequioso com a freguesia é uma forma de virtude. Disto se ufana. Ensina essa virtude ao caixeirinho, ensina-a aos filhos, e está candidamente plantado na convicção de que o Bem é uma coisa que logo se reflete na gaveta.
No bonde, o Sr. Joaquim já não é um negociante, é um passageiro. Aí, já não sente os limites que de ordinário lhe circunscrevem a personalidade, pungindo-lhe a carne; dá liberdade ao corpo; reveste, como uma roupa larga, os gestos e modos comuns do passageiro.
A este não lhe incumbem senão três coisas: pagar a passagem, não fumar nos três primeiros bancos, e só ocupar o lugar de uma pessoa - o que não é difícil, a menos que tenha um volume incapaz de redução à unidade, na aritmética dos bondes. De resto, todos iguais perante o condutor e o motorneiro. Todos podem, ser brutos, dentro das regras, bastante amplas, que presidem a vaga polícia dos carros. - O Sr. Joaquim está igualmente compenetrado deste princípio, que da mesma forma já se lhe incorporou à maquinalidade dos reflexos.
Ora, quem estiver isento de culpa, esse lhe atire a primeira pedra! Todos, nesta vida, cada um a seu modo, não fazem senão aquilo que faz o Sr. Joaquim. Todos, no fundo, vendeiros amabilíssimos com a freguesia, e passageiros que fumam nos bondes da vida muito à sua vontade.
Onde estão a originalidade do Sr. Joaquim? Eis o que não pude descobrir, mas tenho a certeza de que lá está, dentro dele, como uma pérola no ventre de um galo. Questão de tempo e de paciência. - Há criaturas difíceis de decifrar. São enigmas que a Vida compõe para os propor a Deus, o grande matador de todas as charadas.
RUFINA Esquisita vaga de saudade! Ontem, anteontem, nada vi no bonde: nada vi senão Rufina, a moça que salvei de um desastre iminente.
A princípio, entrei a duvidar se ficara preso ao feitiço da sua pessoa, que tinia de vida e mocidade, se lhe guardara afeição apenas pelo fato de a ter socorrido. - Há no fundo de nossa alma um veiozinho de sentimento que fica agradecido aos que nos devem serviço. E quando quem deve o serviço é uma bonita mocetona, temos evidentemente uma complicação a mais.
Ser útil a alguém no perigo ou na penúria, é o melhor caminho para vir a querer-lhe bem: ficanos pertencendo um pouco, já que nos custou alguma coisa. Andam errados os moralistas filantropos quando pregam a necessidade de amar ao próximo como condição e preparação para o ajudar e suportar. O primeiro passo é ajudá-lo e suportá-lo: o amor vem depois.
Mas isto não tem nada que ver com o amor-amor, amor-desejo, o amor-folia; e a perturbação que Rufina deixou em mim veio muito menos do susto de que a livrei do que do filtro luminoso que a furto se lhe escorreu de entre as pálpebras semicerradas.
..................................... un long rayon d'étoile! Ah! Rufína, meteoro rutilante perpassaste pelo céu caliginoso de minha vida! Estarás a estas horas olvidada de mim. Nem por um momento esvoaçará tua cabecinha pequenina e redonda a idéia de que deixaste um farpão enroscado na carne de um pobre funcionário; de que esta pobre alma, jogada de cá para lá sobre os trilhos imutáveis, está a ver-te sempre no mesmo banco, ao lado do mesmo ancião de rosto severo e pausada voz, como um avezita ao lado de um rinoceronte. - Perdoa-me, se é teu pai, ou teu avô, ou padrinho; mas não podias ter companheiro que melhor fizesse realçar a tua brevidade graciosa e arrogante de galinha garnisé.
Não te verei mais, Rufina? BRINQUEDOS No bonde em que voltei da cidade, hoje à tardinha, vinham crianças com brinquedos.
Perto de mim, um senhor idoso e barbeado fazia ver ao filho de seis anos como funcionava um galante volantim mecânico, que o pequeno, mais por comprazer ao tipo velho, inutilmente lidava por acionar.
Mais adiante, uma senhorita loura, sopesava uma bola nas pontas dos dedos compridos, fazendo-a girar velozmente, com prazer, como sentindo nas papilas, a carícia de uma tatilidade nova, e uma sensação ótica inédita na rotação dos gomos bancos, azuis, amarelos e escarlates.
E essa dança de cores parecia emanar, pela mão translúcida e ágil, como um vago punhado de flores e de borboletas, de toda aquela pessoa que se diria a própria Primavera a viajar de bonde.
Perto, uma menina embezerrada olhava esse exercício e essa bola com um ar de proprietária complacente, estéril de uma bola.
Na cidade, quando lá perambulei à cata do bonde, havia azáfama nas lojas de brinquedos e novidades. As crianças eram poucas, porque geralmente os grandes não gostam de sair com crianças e porque, nestes dias de festas, preferem fazer-lhes a clássica surpresa. - Na verdade, os grandes é que se divertem com os presentes que fazem; e, não satisfeitos, ainda se reservam, no seu egoísmo, o direito de saborear a surpresa dos presenteados. É com delícias que aproveitam, entre Natal e Reis, a concessão feita pelos costumes para mergulhar a sua infantilidade envergonhada no mundo maravilhoso das coisas inúteis e bonitas.
Outrora, mais ou menos até Rousseau, considerava-se a criança como um homem pequeno. Os próprios artistas as presentavam como adultos em escala menor. Muito custou reconhecer-se que o homem é que é uma criança crescida. Entretanto, dir-se-ia que isso entra pelos olhos.
Para as crianças ainda não crescidas, tudo é brinquedo.
O brinquedo especializado é uma invenção que os grandes fizeram para se divertirem com eles e com as crianças. Estas muitas vezes, se vêem reduzidas ao papel de usufrutuárias, ou menos ainda, ao de guardas e conservadoras dos bonitos objetos. Para elas, coitadas, tudo é brinquedo. Uma toalha enrolada, que se revestiu de um casaco velho, faz o papel de uma boneca perfeita, ainda melhor do que a própria boneca perfeita. Um cabo de vassoura pode ser um cavalo sem rival, com vantagem de não impor ao dono sua raça, nem os acidentes da sua forma ou do seu caráter, mas com a capacidade preciosa de ser árabe ou ponney pangaré ou ruano, fuá ou poleiro, à vontade. Uma galinha, um ferro de engomar, um grilo ou uma caixa de fósforos são divertimentos mais interessantes e de mais durável prestigio de que o macaco de pau que sobe por um cordel, do que o trenzinho de ferro com túneis e estações, do que o palhaço que gira sobre o calcanhar de pinho e tilinta soalhas e guizos de lata. - Estas observações não são originais, mas apesar disso são justas.
É verdade que os petizes recebem com ânsias esses presentinhos de festas, e fazem a propósito um pouco de rumor. É o atrativo da novidade. É a pressa de ver e experimentar. É o prazer de dizer "meu". É a tentação de fazer inveja aos outros pequenos. É, sobretudo, a mímica do desejo, do alvoroço, da cobiça, do egoísmo apropriador, que os grandes lhes têm ensinado e que os pequenos vão executando, numa adaptação mecânica do sentimento confuso e alvorecente aos recortes do gesto distinto e expressivo.
As crianças amam acima de tudo a espontaneidade da sua própria imaginação, que os brinquedos, quanto mais complicados e perfeitos, mais embaraçam. Ou então preferem a complicação extrema e sempre nova das coisas vivas. Se por natureza são assim, devia deixarse obrar a natureza. Mas os adultos querem o artifício, todos os gêneros de artifício, e impõemos às crianças, perturbando-lhes o viço da curiosidade espontânea e da livre investigação. Por isso mesmo, a ciência é o último luxo da humanidade, sendo o seu primeiro desejo.
A ROUPA E O GESTO Gosto de viajar no último banco. Vai-se mais resguardado de maçantes. Pode-se inspecionar o carro inteiro, quase sem ser visto. Não se vêem caras.
Evita-se o risco de pagar a passagem para os amigos que não o são, e pode-se fazer aos amigos que o são a surpresa de lha pagar, numa traição delicada, pelas costas, - o que, como fineza, tem na sua independência um especialíssimo sabor. - Por fim, pode-se fumar sem a preocupação de ser incômodo a senhoras, por que muito raramente vão senhoras no último banco e dá-se a coincidência de não haver outro depois do último.
Aliás, deixo de fumar perto de senhoras, não por uma particular deferência, mas apenas para não me incomodar a mim mesmo. Saborear um cigarro é prazer tão leve e tão fino, que o simples pensamento de que alguém no-lo possa estar amaldiçoando amarga os gorgomilos e embacia a transparência azulejante das espirais.
Apesar de preferir ordinariamente o último, fui hoje para o primeiro, e fiz toda a viagem voltado para o resto do carro. Não influiu nisto o fato de eu envergar o meu novo terno cinzento e de estrear uma comburente gravata de listras amarelas e filetes encarnados.
Não. Detesto exibições. E não distingo entre exibições, sejam de roupas, sejam de talentos ou virtudes, sejam de vícios ou maroteiras. Propendo até a perdoar mais facilmente a exibição de roupas, que não é assim tão idiota como inculcam os que não a podem pagar.
Ter vaidade de uma farpela bonita é geralmente uma falta venial e, por assim dizer, exterior, que não repercute nas regiões nobres da alma; ao passo que a vaidade intelectual envenena e turba as próprias fontes do pensamento, e a vaidade da boa ação destrói exatamente essa misteriosa e fragílima levedura de heroísmo, que é o seu único valor, - o imponderável que a análise não pode reduzir e ante o qual o escalpelo se detém, enquanto faísca no olho implacável do operador uma centelha de humana emoção.
É a vaidade exterior que tem preservado na mulher o seu secreto manancial de piedade e de energias profundas. Aparentemente frívola, ela é na realidade mais forte e melhor. Os seus tecidos aéreos, as suas rendas e fitas, as suas exterioridades espumosas e florais de criatura espetacular, são na realidade umas couraças, uns adarves, umas muralhas, - são tranqueiras e circunvalações defensivas que a mulher estende em redor de si, para ir entretendo o inimigo enquanto ela conserva lá dentro, na intimidade da cidadela sacra, o seu tesouro e o seu altar.
Não, a indumentária (termo suntuoso, que eu sentia envolver-me, luxuosamente, como a coisa designada) a indumentária não me influiu na resolução de ir para o primeiro banco. Predispôsme bem, quando muito deu-me um calorzinho de otimismo e de simpatia difusa. Isto, sim. - De onde infiro que devíamos usar mais freqüentemente de roupa nova, revezando-a talvez com as mais velhas, para acentuar o efeito pelo contraste, mas enfim usar mais freqüentemente de roupa nova.
Se todos vivêssemos enfiados em estojos de boa fazenda e bom corte, de certo lucraria a disciplina interna das almas e com ela a facilidade e o concerto das relações entre os homens. - Um indivíduo rudemente estrafegado pela vida, mas sempre cingido em ternos corretos e confortáveis, suporta com outra filosofia e outra elegância os baldões da fortuna.
Principalmente, é claro, quando a roupa está paga.
Homens há que são relembórios por teima, por descaso, por sistematização inconsciente das sugestões da preguiça, da somiticaria ou da falta de gosto. Querem fazer crer que são assim por vontade e que vão executando um programa bem meditado. Dão-se ares de desprezar profundamente essas materialidades ineptas. E a verdade é que são às vezes sinceros. Mas como se iludem! O indivíduo mais sinceramente lavado de vaidades decorativas não pode, quando menos, quando menos, deixar de sentir a cada instante a discrepância em que se encontra nos meios que freqüenta. Então, para manter a sua atitude interior de dissidência, não pode evitar a necessidade de pensar nisso, de fazer reflexões que deixam forçosamente um sedimento amargo, sobretudo quando reagem contra atitudes e atos depreciativos com que esbarrou.
Sendo assim, onde está a liberdade interior que ele pretende prezar acima de tudo? A liberdade perfeita e bela seria a que implicasse no mesmo desprezo profundo e sereno as materialidades exteriores e todas as suas conseqüências - a liberdade de Diógenes ou de Francisco de Assis.
Sem isso não é liberdade: é um simulacro, um escamoteio, um sofisma em ação, que traz consigo mesmo a sua pena perpétua, como a sua própria sombra.