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Os Cus de Judas

antônio lobo antunes

Seis anos após o término da guerra colonial, é lançado Os Cus de Judas, de Antonio Lobo Antunes que conta a trajetória de um soldado português que servira o exército colonial em Angola e, a partir desse contacto com a situação em África, vê sua vida, seus valores sendo destruídos.

Segundo o autor, em entrevista publicada em Lisboa em abril de 1994, o livro é parte de uma trilogia que inclui Memória de Elefante (anterior) e, Conhecimento do Inferno (posterior) a obra em questão. O retrato da guerra colonial é a marca dessa etapa ou ciclo de sua vida, como ele mesmo afirma.

O texto de Antunes não se enquadra no gênero de narrativa de viagem tal como é concebido pela literatura moderna, entretanto, é possível a leitura de um discurso de viagem apanhado de viés, ou seja; a desconstrução ou a ante-viagem (se é que podemos utilizar esses termos) , visto sob a óptica de uma simbologia atual.

Discutir o tema da viagem como resgate de uma experiência humana dolorosa, num cenário em que os atores não dialogam amigavelmente, não desejam trocas de experiências culturais e, se sobreviverem, trarão no corpo as marcas de uma guerra fratricida, é o cerne dessa comunicação.

Os oceanos Índico e Atlântico, palco da aventura marítima lusitana, caminhos líquidos por onde a língua portuguesa navegou, aportando em outras terras, conforme palavras de Carmen Lucia Tindó Ribeiro, remete-nos à Camões, observando que a viagem como aventura em busca do desconhecido era algo assustador, porém, desejável para aqueles intrépidos destemidos navegantes. O poeta maior da Nação lusitana exaltava no Canto Primeiro de sua obra prima:

I

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram

II

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
Cantando espalharei por toda parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte

Os feitos grandiosos, de que nos fala o poeta, dos heróis navegantes portugueses, que realmente fundaram novo reino em África, ao apagar das luzes do século XX, adquiriu outros sabores e outros contornos. A par da história recente dos países africanos colonizados por Portugal e, ao contrário da viagem desejável, temos em Os cus de Judas, a viagem indesejada, de uma personagem que absolutamente odeia a colônia (Angola) e, os colonizadores que ‘inventaram a guerra’, nos territórios ultramarinos.

Optamos, fazendo um recorte necessário, destacar alguns pontos da viagem histórica a que eram submetidos os soldados portugueses comparando-a com a viagem literária da personagem de Lobo Antunes.

"A viagem para África começava muito antes do embarque. O processo que levava um jovem até Angola, Guiné ou Moçambique iniciava-se habitualmente logo após o final da instrução da especialidade."Jl

A personagem não nomeada de Antunes é incitada por membros de sua família, tradicional portuguesa, a acreditar que o exército fabrica homens de verdade. As maiores virtudes tais como; valentia, honestidade, caráter entre outras, são atributos da farda, não do homem.

"Estás magro (...) . Felizmente que a tropa há de torná-lo homem. ( Os cus de Judas pág.12)

Numa crescente angústia o soldado mobilizado para combater em terras de além-mar, vai sendo conduzido, como um boi para o abatedor. Imagens do navio se afastando do cais a incerteza da volta, o choro, as lágrimas, talvez a última visão da cidade vão sendo retratadas.

"...Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhão cada vez mais atenuado de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostos trágicos e imóveis da despedida..." (idem, pág. 16)

Porém, nem todos os que eram mobilizados deixavam-se levar nessa viagem quase suicida. Registros militares davam conta de um sem números de faltosos por ocasião da chamada para o engajamento final. O procedimento é assim descrito pelo jornal Diário de Notícias.

"Nos primeiros tempos, o capelão rezava uma missa campal, que depois caiu em desuso; o comandante da unidade mobilizadora, um coronel, proferia umas palavras alusivas à missão e entregava o guião ao comandante do batalhão mobilizado, um tenente-coronel, ou então da companhia, um capitão; (...) era concedida a licença de dez dias antes de embarque e pagas as ajudas de custo."

Neste momento, o militar era um mobilizado, ia a casa, despedia-se da família, fazia umas asneiras por conta, arranjava umas correspondentes para lhe escreverem, ou umas madrinhas de guerra e voltava à unidade mobilizadora para daí iniciar verdadeiramente a viagem.

Neste regresso faltavam uns quantos camaradas, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital com uma doença mesmo a calhar, mas os que restavam formavam de novo na parada do quartel..." (Jornal Diário de Notícias- Fasc. 5 pág. 50)

Para aqueles que iam sendo embarcados a viagem não é de busca, nem de aventura, tampouco trata da questão de conhecimento ou de experiências novas que se buscam por iniciativas próprias. São seres humanos que não entendem por devem ir matar outros de sua espécie em prol de um poder político que não lhes dizia respeito nem sequer o exerciam.

"Por volta do meio-dia, o navio recolhia as escadas e os cabos, a sirena apitava e, durante alguns anos, a instalação sonora tocava uma marcha intitulada ‘Angola é nossa’, independentemente do destino – um ritual abandonado nos anos mais próximos do fim da guerra.

O navio afastava-se lentamente, virava a proa à foz do Tejo, passava por baixo da ponte e deslizava diante da Torre de Belém" (J D.N. pág.5l)

O mar: estrada líquida pela qual Portugal alcançou a notoriedade em função da rota de suas caravelas, é, neste caso, símbolo de agruras para a soldadesca em cujo destino preferem não pensar. Os pioneiros navegantes contemplaram suas águas salgadas com outros olhos, com espanto e admiração. Estes, que vão rumo aos Cus de Judas, quase não o reparam e, se o fazem, o maldizem.

Por dentro das águas há quadros e sonhos/E coisas que sonham o mundo dos vivos
Peixes milagrosos, insetos nocivos/Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos/Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar/ Daqueles que caçam em mar revoltoso
Outros que devoram com gênio assombroso/As vidas que caem na beira do mar

( Zé Ramalho )

Na poesia popular brasileira, o mar é via de chegada dos colonizadores, contributo por inserir aqui sua cultura, línguas e religiões, mas também, pode adquirir ‘um valor metafórico absoluto’ como reserva de uma memória intemporal, ‘essências pressentidas’ e guarda ainda ancestralidades e ecos misteriosos no presente.

Entretanto para o soldado português combatente na guerra colonial na obra de Antunes tanto a cidade como o mar são visto como símbolos negativos.

Cidade colonial pretensiosa e suja de que nunca gostei, gordura de umidade e calor, detesto as tuas ruas sem destino, o teu Atlântico domesticado de barrela (...) O meu país, Ruy Belo, é o que o mar não quer (Os cus de Judas, pág. 68)

Para a personagem de Antunes, a água do mar de Luanda ‘assemelhava-se a creme solar turvo’ (pág.19), e eles (soldados), não passavam de ‘peixes mudos em aquários(pág.86), ratificando a simbologia do mar que já constatara na poesia Melo e Castro.

Após a chegada dos portugueses(...) o mar passa a ser, não só a via da invasão européia portadora da descaracterização cultural, mas também, a via da partida, da ruína e da morte causadas pela captura e venda dos escravos, pela emigração forçada e pelo drama dos contratados. Mar, espaço da morte, de onde se não volta mais.( págs. 11-16)

À guisa de conclusão, diríamos que Lobo Antunes tece um discurso que nos deixa pistas sobre a desconstrução da viagem no contexto colonial português, que se revelará em outras obras como As Naus. Neste cenário o encontro com a situação de guerra vai expor as feridas que ainda ecoam no contato entre colonizador e colonizado.

ANÁLISE 2
(Maurício Martins do Carmo )

(...) a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstrato e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloqüentes, profundos e afi-nal vazios que a família, a escola, a catequese e o estado me haviam impingido para melhor me domarem, para extingui-rem (...) no ovo os meus desejos de protesto e de revolta..
(António Lobo Antunes, Os cus de judas, p. 106)

Num mundo estilhaçado, sem nada que estruture o centramento do eu, a expres-são artística parece a última possibilidade de criação, a única válvula de escape de um ser dilacerado. Os caminhos se fecharam para a felicidade em seus longínquos universos, feitos de verdades forjadas no interior das tradicionais instituições portuguesas. Tal é o que se infere da leitura de Os cus de judas, de António Lobo Antunes, romance de 1979 concebido ainda sob o impacto do retorno de colonos e soldados portugueses, ao fim da guerra colonialista. A leitura da epígrafe acima sugere muito bem a postura do narrador-protagonusta ante o seu antigo mundo, agora em frangalhos: restam apenas sarcásticas lembranças da moral patriótica e religiosa pacientemente construída pelo estado e pela família, numa espécie de "ditadura de sacristia" em cujo contexto se justifica o engodo que foi a convocação para uma guerra insana e anacrônica. O narrador é um médico, que serviu nas forças portuguesas em Angola, na irônica missão de salvar vidas em meio às atrocidades das batalhas. Após essa experiência, sua existência malogra: decai profissio-nalmente, não consegue manter sua antiga estrutura familiar e refugia-se numa angústia sem saída. Em geral sob a forma de monólogo, com poucas inserções de outras vozes, o livro tem um ritmo arrastado e triste, procurando captar as palavras que melhor transmi-tiriam o sentimento de derrota que fere o narrador. Para tanto, serão necessárias frases demasiado longas, ditadas pela cadência da melancolia, algo que aparenta não lograr conclusão, por mais que se fale, por mais que se tente explicar - pois, enfim, nada con-segue decifrar a profunda sensação de aniquilamento espiritual: "Nunca as palavras me pareceram tão supérfluas como nesse tempo de cinza, desprovidas do sentido que me habituara a dar-lhes, privadas de peso, de timbre, de significado, de cor (...)" [p. 41] - diz o narrador, em um de seus incontáveis momentos de desalento.

Torna-se praticamente impossível empreender a leitura de Os cus de judas sem atentar para o estilo literário, para o trato com essas palavras que perderam o "peso" e o "timbre" de suas corriqueiras denotações e que então passam a se apresentar sem a gra-tuidade das narrativas comuns. A retorcida construção de imagens afigura-se como sí-mile ou homólogo de um drama que o narrador vivencia ao perder seus antigos pontos de referência. Embora nem de longe se mostre revolucionário, uma vez que trabalha, nas suas melhores partes, com o fluxo de consciência e a associação de idéias - marcas de una técnica literária que brilha desde o início deste século -, o criativo pensar do narra-dor, aparentemente sem nada que o constranja à narração naturalista de uma realidade concreta, surpreende por uma tentativa final, sentida intimamente pelo leitor, de apreen-são racional e impossível de um novo todo, muito particular e desvinculado das antigas percepções. A visão do mundo em fantasma, diluída no período longo, a buscar o fôlego perdido num semi-intangível ponto final, apela para contundentes metáforas e compara-ções explícitas na busca desesperada de uma explicação - se não razoável - ao menos artística de um mundo arruinado. Lobo Antunes não poupa sua inventividade e espanta o leitor a cada parágrafo com o insólito poético de uma consciência depressiva e niilista, a buscar algum sentido na irrealidade imagética.
Encadeando comparações e metáforas, o leitor vai-se acostumando a períodos concluídos com uma idéia aparentemente desvin-culada por completo daquela que se apresentara inicialmente. Em meio a esse liquidifi-cador asfixiante, apenas as remissões à infância e à arte sugerem repousos ilusórios para a angústia. Na extensa frase que abre o romance, a falta de consciência e de moral - algo próprio da infância - e a nostalgia pelo gosto das coisas em si, antipragmáticas e lúdicas, são expressas de maneira comovente:

Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinação sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam seguramente vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunci-am a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua. Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bi-chos, a solidão de espaguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápi-des do cemitério dos cães subiam de tempos em tempos latidos aflitos de caniche. [p. 7]

A guerra não permite a volta do narrador - não gratuitamente sem nome - a seu antigo mundo. Nem mesmo o seu retorno a Lisboa faz com que ele recupere a sensação de "pertencer a esse mundo nítido e direto onde as coisas possuem consistência de coisas (...)" [p. 45]:

(...) eu procurava desesperadamente reconhecer a minha cidade (...). A minha lembrança grandiosa de uma capital cintilante de agitação e de mistério (...), que alimentara fervo-rosamente durante um ano nos areais de Angola, encolhia-se envergonhada defronte de prédios de subúrbio onde um povo de terceiros-escriturários ressonava entre salvas de casquinha e ovais de croché. [p. 72-73]

Numa interpretação sintética e sem amor a pormenores, Os cus de judas repre-sentariam a luta inglória do narrador em rememorar - sem recuperar - um mundo des-truído, no qual, se "os bichos eram mais bichos", as coisas, fatos e pessoas deveriam então ser mais explicáveis em si mesmos, sem a percepção de uma realidade outra que os anulasse. No caso, tal realidade se constrói a partir da vivência da guerra colonialista em Angola, apresentada como armadilha pacientemente engendrada não só pelo tacanho regime ditatorial, como por toda uma estrutura familiar apegada às tradições e crente nos padrões salazaristas. Reside aí uma das conotações do "cu de judas", expressão que em Angola remete a significados de traição. O protagonista mesmo, apesar de observar com constante sarcasmo o apego português ao moralismo e à história das épicas naus - "(...) em toda a parte do mundo a que aportamos vamos assinalando a nossa presença aventu-reira através de padrões manuelinos e de latas de conservas vazias, numa sutil combina-ção de escorbuto heróico e de folhas-de-flandres ferrugenta." [p. 19-20] -, não consegue negar que pertence a um determinado espaço cultural, o português, sendo incapaz de assimilar o outro mundo em que é brutalmente atirado. A visão dos corpos estraçalha-dos, da miséria dos colonizados, a premência da angústia e da solidão imprimem na ma-neira de ser e pensar do narrador uma sensação catastrófica de perda. E a irrecuperabili-dade de um mundo coeso leva-o aos refúgios da melancolia, traduzida num monólogo que mantém com a silenciosa e impotente narratária do romance, certa mulher que co-nhece num bar e leva a casa para uma noite de sexo sem amor. Esse relacionamento fortuito parece albergar uma irônica tentativa de reabilitar o passado através do prazer e da paixão, agora inacessíveis:

Se fôssemos, por exemplo, papa-formigas, a senhora e eu, em lugar de conversarmos um com o outro neste ângulo de bar, talvez que eu me acomodasse melhor ao seu silêncio, às suas mãos paradas no copo, aos seus olhos de pescada de vidro boiando algures na mi-nha calva ou no meu umbigo, talvez que nos pudéssemos entender numa cumplicidade de trombas inquietas farejando a meias no cimento saudades de insetos que não há (...) Compraríamos bilhetes para o comboio que circula o Jardim, de bicho em bicho (...). Eu afago-lhe os seios à sombra oblíqua das raposas, você compra-me um picolé ao pé do re-cinto dos palhaços, bofetadas de sobrancelhas para cima que um saxofone trágico subli-nha. E teríamos recuperado dessa forma um pouco da infância que a nenhum de nós pertence, e teima a descer pelo escorrega num riso de que nos chega de longe em longe e numa espécie de raiva, o eco atenuado. [p. 8-9]

A postura até certo ponto blasé do protagonista e sua angústia existencial e nii-lista, bem como a atmosfera meio noir também não irão surpreender o leitor moderno. Ressumbra nesse ambiente tanto esfumaçado quanto bêbado e asfixiante referências cla-ras na cultura ocidental, que, num arco generoso, abrangem desde Humphrey Bogart até Albert Camus. Nada em Os cus de judas choca pelo novo; marca-o, sim, algum caráter adverbial de intensidade, que remodela, ressignifica e atualiza certa maneira de escrever tornada adjetivo gasto na literatura ocidental, utilizada à exaustão por autores repetitivos e medíocres. O talentoso Lobo Antunes salva sua narrativa de ser um simples exercício de autopiedade e repetição literária não só por uma insólita qualidade metafórica como pela validade dos recursos utilizados na caracterização do que em geral se designa por "ambiente pós-moderno", no qual a fragilização das cosmovisões de um mundo unitário, de sentido inflexível, perdem dramaticamente a razão de existir. Por tal viés, Os cus de judas são a outra face de um diálogo pungente com manifestações da literatura africana que também lidam com semelhante idéia de fragmentação. Alguns romances angolanos, nas décadas de 70 e 80, descobrem a ruptura de significado nas visões utópicas e autori-tárias do socialismo de estado, superando os esquemas naturalistas forçados pelo enga-jamento e perscrutando as possibilidades da linguagem para a dramatização do conflito identitário. As perdas de sentido do mundo, gerando os dramas pessoais e coletivos dos povos angolano e português, referem-se a uma visão peculiar da pós-modernidade, inse-rida que está em espaços - Portugal e suas colônias - que sequer conheceram, ao menos profundamente, a chamada modernidade. Lobo Antunes revela em seu romance a difícil reconstrução pessoal dos retornados, a realidade de uma sociedade cambiante entre a grandiloqüência épica de outrora e os valores liberais do presente que buscam superar o passado colonial, mas que hão de carregar as mazelas dos bairros de lata e das chagas físicas e morais da guerra colonialista.

Da mesma forma que Antunes, os angolanos Luandino Vieira e Manuel Rui tam-bém localizaram na infância o suposto espaço semi-utópico em que as contradições ine-vitáveis do mundo concreto se dissolveriam ou superariam os conflitos. Luandino amal-gama tintas brancas na literatura negra de Angola e, ficcionalizando os dados de sua própria existência de português nato que se tornou não apenas angolano mas também revolucionário do MPLA, explora as possibilidades aflitivas da pluralidade do ser num ambiente de guerra que exige a inimizade extremada, a opção e a exclusão. A infância, na rica narrativa de Luandino, Nós os do Makulusu - plena de características da literatu-ra ocidental e da cultura angolana -, estabelece um possível espaço de confraternização natural do ser humano, sendo rememorada com angústia existencial pelo narrador adulto inserido no ambiente hostil da luta anticolonialista. Essa análise não deixa de ser válida para os contos de Luuanda e mesmo para duas obras-primas de final de carreira, Lou-rentinho e João Vêncio, que exploram ainda mais a visão plural da sociedade angolana e a percepção de uma formação identitária em processo dialético, dificilmente resumida em marcas de pureza ou concebidas ontologicamente - a identidade, enfim, entendida como "identificações em curso". Já Manuel Rui, em Quem me dera ser onda, ainda crendo nos ideários utópicos do socialismo, reserva para a infância o resguardo da espe-rança, pelo que se abre uma perspectiva prazerosa de futuro, submergindo a melancolia ante a necessidade de construção e idealização. Mais explicitamente que Luandino, Rui mantém acesa a chama da luta política pragmática, já que alude explicitamente à contur-bada situação política de Angola, não descartando o retrato da realidade à maneira da crônica. Luandino busca no mítico, no simbólico e no desvio lingüístico a superação da narrativa naturalista, sem referências diretas à crônica diária - a história não mais como retrato, mas como espaço para a alegoria. De qualquer sorte, tanto Rui como Luandino deixam expressas, explícita ou implicitamente, os postulados do comprometimento político.

Já a fragmentação da visão unitária em Lobo Antunes envolve não só a rejeição do modelo anacrônico do salazarismo como também a pouca identificação com uma realidade que lhe é estranha - a de Angola, enfim o "cu de judas", no sentido que damos habitualmente ao termo no Brasil e em Portugal, a que o narrador se vê amarrado absur-damente. Sem opções que julgue interessantes, possíveis e construtivas, não se permiti-rão quaisquer visões esperançosas, restando apenas a consciência destrutiva do imobi-lismo. A ironia para com a solução de uma via intermediária, baseada na educação dis-tinta, esclarecida, própria de intelectuais engajados que superaram a explosão adoles-cente da esquerda - preservada também como resquícios de uma utopia destruída -, fica patente em uma das partes mais sublimes do livro:

Se a revolução acabou (...) é porque os mortos da África, de boca cheia de terra, não po-dem protestar, e hora a hora a direita os vai matando de novo, e nós, os sobreviventes, continuamos tão duvidosos de estar vivos que temos receio de, através da impossibilida-de de um movimento qualquer, nos apercebermos de que não existe carne nos nossos gestos nem som nas palavras que dizemos, nos apercebemos que estamos mortos como eles, acomodados nas urnas de chumbo que o capelão benzia e de que se escapava, ape-sar da solda, um odor grosso de estrume (...). [p. 52-53]

Quem sofreu a realidade, no entanto, não tem a inteireza mental para fabricar a re-volução, produto de quem observa de longe o processo político:

O tipo sem rosto agoniza numa agitação incontrolável, amarrado à marquesa de ferro (...) e queria estar a treze mil quilômetros dali (...). Queria não ter nascido para assistir àqui-lo, à idiotia e colossal inutilidade de tudo aquilo, queria achar-me em Paris a fazer revo-lução no café, ou a doutorar-me em Londres e a falar do meu país com a ironia horrivel-mente provinciana do Eça, falar da choldra do meu país para meus amigos ingleses, franceses, suíços, portugueses, que não tinham experimentado no sangue o vivo e pun-gente medo de morrer, que nunca viram cadáveres destroçados por minas ou por balas (...) e apetecia-me estudar Economia, ou Sociologia, ou a puta que o pariu em Vincen-nes, aguardar tranqüilamente, desdenhando a minha terra, que os assassinados a libertas-sem, que os chacinados de Angola expulsassem a escória covarde que escraviza a minha terra, e regressar então, competente, grave, sábio, social-democrata, sardônico, transpon-do na mala dos livros a esperteza fácil da última verdade de papel. [p. 142-143]

Para quem ainda guarda o vezo de aproximar a literatura à realidade sangrenta do cotidiano, esse trecho de Os cus de judas mereceria ser destaque nas nossas aulas de história, literatura e língua portuguesa - e quem sabe de ecologia? -, pois desperta a consciência para a visão de lições mal-aprendidas das "últimas verdades de papel", sem-pre assíduas na história da humanidade. A validade da literatura reside na ausência de restrições de suas mensagens quanto a espaço e tempo. No caso da realidade brasileira, o trecho de Antunes desperta nossa consciência conformada, e acabamos por revisitar a perniciosa situação em que insistimos em viver, governados por uma elite - agora social-democrata, como o sábio mencionado nos Cus - sem a participação daqueles que vivem a carne, o osso e a guerra das dificuldades econômicas e sociais.

Lobo Antunes não vê qualquer solução à vista, prefere derreter as observações no tacho impuro do sarcasmo. Nesse sentido, cabe uma aproximação de sua perspectiva com a de outro angolano, Pepetela, que em A geração da utopia rende-se à falta de pos-sibilidade política para a superação das contradições. Ao contrário de Pepetela, no en-tanto, que busca na cultura ancestral uma espécie de "desbunde" africano, Lobo Antunes vê tudo sem a mais absoluta saída. Nietzscheanamente se vislumbra apenas um consolo metafísico na arte. Pintores, músicos e escritores pululam em citações e, juntamente com alguns pedaços da infância, surpreendem positivamente o nojo de viver.

A infância rememorada em flashes de aparente paz, as imagens da arte como sublimação da angústia e a canhestra tentativa de aproximação com o sexo oposto como imagem fantasmagórica do amor fazem do narrador de Lobo Antunes uma espécie de flâneur às avessas, a observar imagens culturais ou factuais, desobedientes à cronologia, a aparecerem conforme as exigências de construção de sentidos. Retratando a crueza da guerra e revelando a fantasmagoria da realidade, o protagonista reconstrói a voz lírica de Cesário Verde no paradigmático "O sentimento dum ocidental", para quem as coisas, apesar de insistentemente descritas, ao ritmo da caminhada, em grandes fôlegos de perí-odos generosos, aparentavam obter novas e cruéis significações. As imagens de Cesário são também desconcertantes, os seres se remendam com vislumbres novos: "(...) sujos, sem ladrar, ósseos, febris, / amareladamente, os cães parecem lobos."

Seria o flâneur finissecular de Cesário e sua aproximação com o narrador "pós-tudo" de Antunes um alerta para nosso espanto monstruoso, para nosso inesgotável pen-dor de prever idades, marcos e rupturas, guiados pelas perdas de sentido brutais, mas, enfim, historicamente já corriqueiras? No lugar do caminhante que, no raiar da moderni-dade baudelaireana, observa a Lisboa num anoitecer em que "há tal soturnidade, há tal melancolia, / que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia" acabam por despertar-lhe "um desejo absurdo de sofrer", o narrador de Os cus de judas se depara com o mesmo sofrimento, na noite de uma dolorosa Lisboa mais recente, da qual o passado ressurge em cacos: nova época, velhas angústias; ancestrais desconfortos, cromossômicos terro-res.

Fonte: Escola Vesper