COM O SANTÍSSIMO SACRAMENTO EXPOSTO. (**)
Loquente Jesu ad turbas, extollens vocem quaedam mulier de turba, dixit illi: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti. At ille dixit: Quinimmo beati, qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud ( 1 ) .
Propriedade do presente Evangelho à nova festa do Rosário. A perfeita oração definida por S. Gregório Niceno e S. João Crisóstomo. Assunto do sermão: a oração vocal do Rosário, figurada no diálogo entre Cristo e a mulher do povo, é a mais alta e levantada de todas.
Pregando Cristo, Redentor nosso, a uma grande multidão de bons e maus ouvintes, depois de ter convencido, com força de evidentes razões, a rebeldia dos maus, levantou a voz uma boa mulher, dizendo: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti (Lc 11, 27): Bem-aventurado o ventre que trouxe dentro em si tal Filho, e bem-aventurados os peitos a que foi criado. - Não negou o Senhor o que disse a devota mulher, porque eram dignos louvores da bendita entre todas as mulheres; mas, porque no rompimento daquelas vozes mostrava bem o inteiro juízo que fizera do que tinha ouvido, respondeu o Mestre divino: Quinimmo beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud (ibid. 28): Antes te digo que bem-aventurados são, como tu fizeste, os que ouvem a palavra de Deus e a guardam. - Isto é pontualmente, e letra por letra, tudo o que nos refere o evangelista S. Lucas no texto que propus, largo para tema, mas breve para Evangelho, e mais em dia de tão grande solenidade.
0 que nele noto, e me admira muito, é que em tal tempo e em tal concurso esta mulher falasse com Cristo, e Cristo lhe respondesse. Não é ponderação minha, senão do mesmo evangelista: Factum est autem, cum haec diceret: extollens vocem quaedam mulier de turba, dixit illi ( 2 ) . Aquele termo factum est autem, é uma prefação, em que mostra o evangelista que passa a dizer um caso raro, notável, novo, que de nenhum modo se podia esperar nem presumir. E assim foi. Que no meio da pregação fale uma mulher, não é novidade, mas que levante a voz: extollens vocem - e que fale, não com outrem, senão com o mesmo pregador: dixit illi - caso foi muito notável. Porém que o pregador, sendo Cristo, no meio e no fim da pregação: Cum haec diceret - não só dê ouvidos à mulher, mas lhe responda, e pelos mesmos termos: beatus venter, beati qui audiunt - maior caso, e mais notável ainda. Mas assim havia de ser, e assim importava que fosse. Por que, ou para quê? Para que os pregadores, que nos mistérios e solenidades da Virgem, Senhora nossa, temos tanto trabalho em acomodar os Evangelhos, tivéssemos um Evangelho muito próprio, muito proporcionado, muito natural e muito fácil, com que pregar do seu Rosário. E esta é a razão por que a Igreja Católica, alumiada pelo Espírito Santo, instituindo novo Ofício e nova Missa do Rosário, mandou cantar nela, não outro, senão o Evangelho que ouvistes, e eu referi todo. Assim que este Evangelho é o mais próprio e acomodado, e este, na sua mesma brevidade, o mais capaz de se poder pregar nele a devoção santíssima do Rosário, e se declararem por ele a essência e excelências de tão soberana oração.
S. João Crisóstomo e S. Gregório Niceno, dois grandes lumes da Igreja, e seus intérpretes, definiram a perfeita oração desta maneira. S. Crisóstomo, falando da oração em comum no livro primeiro De Orando Deum, diz que a perfeita oração é um colóquio do homem com Deus: Colloquium animae cum Deo. - E S. Gregório Niceno, comentando particularmente a oração do Padre-Nosso, que é a primeira e principal do Rosário, diz que a oração perfeita é uma prática e conversação com Deus: Est conversatio, sermocinatioque cum Deo. E que fundamento tiveram estes grandes doutores, a quem seguem Santo Tomás, e todos os teólogos, para definir a oração com nome de colóquio, de conversação e prática com Deus? O fundamento que ambos tiveram foi porque o colóquio, a prática e a conversação, não só é falar, senão falar e ouvir: é dizer de uma parte, e responder de outra; e nesta comunicação recíproca consiste a essência e excelência da perfeita oração. Na oração menos perfeita fala o homem com Deus; na perfeita e perfeitíssima fala o homem com Deus e Deus com o homem. E isto é o que reciprocamente exercita o Rosário, como oração perfeitíssima, nas duas partes de que é composto. O Rosário compõe-se de oração vocal e mental; vocal nas orações que reza: mental nos mistérios que medita. Enquanto rezamos falamos com Deus: enquanto meditamos fala Deus conosco. O nosso rezar são vozes, o nosso meditar é silêncio; mas neste silêncio ouvimos melhor do que somos ouvidos nas vozes, porque nas vozes ouve-nos Deus a nós, no silêncio ouvimos nós a Deus.
Tal é o colóquio da oração perfeita, tal a prática do Rosário, e tal, com toda a propriedade, o diálogo do nosso Evangelho. A mulher falou com Cristo, e Cristo respondeu à mulher; a mulher disse da sua parte: dixit illi - e Cristo também disse da sua: at ille dixit - : ela disse bem, porque disse beatus venter - : o Senhor disse melhor porque disse quinimmo beati. E porque na parte vocal ouve Deus, e na mental ouve o homem, ela levantou a voz, para que o Senhor ouvisse as suas palavras: extolens vocem - e o Senhor louvou os ouvidos com que ela tinha ouvido as palavras de Deus: Qui audiunt verbum Dei.
Suposto, pois, que no caso do presente Evangelho temos historiado o Rosário, e resumida, com tanta propriedade, a idéia de sua admirável composição, assim como Deus primeiro formou o corpo de Adão, e depois lhe infundiu a alma, o mesmo farei eu. A parte mental, que é a alma do Rosário, ficará para outro discurso; neste tratarei só da vocal, que é o corpo: queira Deus que me caiba nele. O assunto não há de ser meu, senão de quem levantou a voz: extollens vocem. A mesma que levantou a voz levantou o assunto. Assim que o que determino mostrar, e havemos de ver hoje, será: que a oração vocal do Rosário, enquanto vocal, é a mais alta e levantada de todas: extollens vocem. Para que a Senhora nos assista com sua graça, ofereçamos-lhe agora uma vez o que tantas repetimos no Rosário: Ave Maria.
A oração da mulher do Evangelho foi altíssima na consideração do que louvou, a quem louvou e por quem louvou; do mesmo modo é altíssima a voz do Rosário na consideração do que pede, a quem pede, e por quem pede. A oração panegírica ou laudatória, e a oração deprecatória.
Extollens vocem.
Para compreender a excelência e alteza de qualquer oração vocal, nas mesmas vozes ou palavras de que é composta, se devem considerar três respeitos ou três partes essenciais: o que se pede, a quem se pede, e por quem se pede; o que, a quem, e por quem. Esta mesma distinção observou a mulher do Evangelho. A sua oração foi panegírica e laudatória, e na voz que levantou: extollens vocem - tocou os mesmos três pontos e os mais altos a que podia chegar o mais levantado espírito. O que louvou foi o mistério altíssimo da Encarnação; a quem louvou foi a pessoa do mesmo Verbo encarnado; e por quem o louvou foi pela Mãe que o concebeu em suas entranhas e o criou a seus peitos: Beatus venter qui te portavit. Não pudéramos desejar nem melhor texto para dividir o nosso discurso, nem melhor guia para o seguir. A oração vocal do Rosário só se distingue desta do Evangelho pelo fim porque o fim, desta oração, como panegírica, foi louvar e a do Rosário, como deprecatória, é pedir. Aquela voz foi altíssima na consideração do que louvou, a quem louvou, e por quem louvou; e do mesmo modo é altíssima a voz do Rosário na consideração do que pede, a quem pede, e por quem pede. E estas serão as três partes do nosso discurso. Alta e altíssima a oração vocal do Rosário pela alteza das petições que nela fazemos: extollens vocem; alta e altíssima pela alteza da Majestade, a quem as presentamos: extollens vocem; e alta, finalmente, e altíssima pela alteza da intercessão de que nos valemos: extollens vocem. Ouçam agora com atenção os devotos do Rosário, e com inveja e arrependimento os que o não forem.
Primeira parte: É alta e altíssima a oração vocal do Rosário pela alteza da majestade a que presentamos nossas petições. A oração de Davi. A esfera da vista e a esfera da voz. Os céus, onde chegam os anjos com a vista, chegam os homens com a voz. Ana, mãe de Samuel, excelente figura dos que rezam o Rosário. Por que oramos a Deus enquanto está no céu? A oração do fariseu e a oração do publicano. A presença de Deus na terra e a Majestade de Deus no céu considerados na oração do Filho Pródigo.
Considerando, pois, em primeiro lugar, a alteza da majestade a que presentamos nossas petições, e começando - para maior clareza - por onde começa o Rosário, qual é a sua primeira voz? A primeira voz do Rosário é: Pater noster qui es in caelis (Mt 6, 9): Padre Nosso, que estás em os céus. - E voz que chega da terra ao céu, e ao céu onde está Deus, vede se é alta e altíssima: extollens vocem?
Nós não reparamos nesta que parece vulgaridade; mas o maior mestre de orar, que foi Davi, faz grande reparo nela: Voce mea ad Dominum clamavi, et exaudivit de monte sancto suo ( 3 ). Davi era grande contemplativo, mas nesta ocasião - que foi quando fugia de seu filho - orou vocalmente. Isso quer dizer voce mea, oração vocal. E o que muito pondera é que esta voz, saindo do vale do Cedrão, por onde caminhava, fosse ouvida no Monte Tabor da glória, onde Deus tem o trono de sua majestade: De caelo et sublimi throno gloriae suae (4) comenta S. Atanásio. O céu, onde Deus tem o trono de sua majestade, não é algum dos céus que vemos, senão outro céu sobre estes, quase infinitamente mais levantado e sublime; por isso não dizemos: qui es in caelo, senão: qui es in caelis. Da mesma frase usou Cristo, quando disse que os anjos que assistem na terra em nossa guarda sempre vêem a Deus que está, não no céu, senão nos céus: Semper vident faciem Patris, qui in caelis est (5). E, combinando um texto com outro, é prerrogativa verdadeiramente admirável que, onde chegam os anjos com a vista cheguem os homens com a voz. A esfera da voz é, sem comparação, mais limitada que a da vista. Mas isto se entende da voz com que falamos, e não da voz com que oramos. A voz com que falamos mal se estende a toda esta igreja; e a vista tem tanto maior e mais alta esfera que chega ao firmamento, onde vemos as estrelas. Porém, a voz com que oramos, não só chega ao firmamento, que vemos, que é o céu das estrelas, mas ao mesmo empíreo, que não vemos, que é o céu de Deus. O céu que vemos é o céu da terra; o céu onde está Deus é o céu do céu: Caelum caeli Domino (6). E isto é o que ponderava e admirava Davi na voz da sua oração: Voce mea ad Dominum clamavi, et exaudivit me de monte sancto suo.
Mas daqui mesmo se vê que a alteza desta voz ainda é mais maravilhosa nos que rezam o Rosário. Davi diz que clamou e bradou com a sua voz: Voce mea ad Dominum clamavi - e no Rosário não é necessário clamar, nem ainda soar. Ana, mãe de Samuel, foi uma excelente figura dos que rezam o Rosário. Dela diz o texto sagrado que, multiplicando as preces, somente se lhe viam mover os beiços, mas a voz de nenhum modo se ouvia: Cum multiplicaret preces coram Domino, tantum labia illius movebantur, et vox penitus non audiebatur (7). 0 mesmo passa cá pontualmente. Ana multiplicava as suas preces, e quem reza o Rosário também as multiplica, porque repete muitas vezes a mesma oração. A Ana só se lhe viam os movimentos da boca, porém a voz não se ouvia; e vós rezais o vosso Rosário com uma voz tão interior - e por isso mais devota - que nem os que estão muito perto vos ouvem, nem vós mesmos vos ouvis. E quando vós não ouvis a vossa mesma voz, é ela tão alta, e sobe tão alto: Extollen vocem - que chega ao céu dos céus, onde está Deus: Qui es in caelis.
Não faltará, porém, quem diga que esta circunstância de orarmos a Deus enquanto está no céu parece uma cerimônia supérflua, e não só não necessária, mas nem ainda conveniente. Comentando Santo Agostinho estas palavras, que em seu tempo ainda não eram do Rosário, mas eram as mesmas, diz assim: Non dicimus Pater noster, qui es ubique, cum et hoc verum sit, sed Pater noster, qui es in caelis ( 8 ). Deus, por sua imensidade, está em toda a parte, e não só conosco, senão em nós, em qualquer lugar onde estivermos. Logo não é necessário invocar a Deus enquanto está no céu, pois também o temos na terra quanto mais que invocá-lo no céu, parece que é afastarmos a Deus de nós, e orar de longe, quando fora mais conveniente e mais conforme ao afeto da devoção fazê-lo de perto. Não é mais conveniente falarmos com Deus onde ele está e nós estamos, que onde ele está e nós não? O mesmo Davi, tão grande mestre desta arte, pedia a Deus que a sua oração chegasse muito perto do seu divino acatamento: Appropinquet deprecatio mea in conspectu tuo (9). E o Rosário, antes de as Ave-Marias convertidas em rosas lhe darem este nome, chamava-se o Saltério da Virgem, porque o de Davi se compõe de cento e cinqüenta salmos, e o da Senhora de outro tanto número de saudações angélicas. Pois, se Davi, no seu Saltério, pede a Deus que a sua oração chegue muito perto dele: Appropinquet deprecatio mea in conspectu tuo - como nós, no Saltério da Virgem, nos pomos tão longe de Deus, ou a Deus tão longe de nós, quanto vai da terra ao céu: Qui es in caelis?
Digo que não é diferente o nosso ditame, senão o mesmo que o de Davi. E por quê? Porque quanto o que ora se põe mais longe de Deus, tanto a sua oração chega mais perto dele. Põe-se a oração e o que ora diante de Deus como em duas balanças: enquanto o que ora mais se abate e fica mais longe, tanto a oração mais sobe e chega mais perto: ele mais longe por reverência, e ela mais perto por aceitação. Foram dois homens ao templo a orar, diz Cristo, um fariseu e outro publicano. O fariseu, como religioso que era daquele tempo, chegou-se muito perto do altar e do Sancta Sanctorum, e ali representava a Deus suas boas obras. O publicano, pelo contrário, pôs-se lá muito longe: Stans a longe (Lc 18, 13) - e sem se atrever a levantar os olhos ao céu, batia nos peitos, e pedia perdão dos seus pecados. Esta foi a diferença dos oradores e das orações. E qual foi o sucesso? Descendit hic justificatus ab illo ( 10). O que se chegou muito perto do altar e de Deus ficou a sua oração muito longe, porque foi reprovada, e o que se pôs muito longe: Stans a longe - chegou a sua oração muito perto de Deus, porque foi aceita. Ele longe por respeito, e a sua oração perto por agrado; ele longe por reverência, e ela perto por aceitação: Non audebat appropinquare, ut Deus ad eum appropinquaret (11) - diz o Venerável Beda. E isto é o que nós fazemos logo no princípio do Rosário. Ainda que Deus está em toda a parte, não o invocamos de perto, enquanto assiste na terra por imensidade, senão de longe, e tão longe, enquanto preside no céu por majestade: Qui es in caelis - e quanto nós, como é razão, mais nos abatemos, tanto a voz da nossa oração mais se levanta: Extollens vocem.
É verdade, como ponderava Santo Agostinho, que para a eficácia da nossa oração bastava orar a Deus na terra, mas para a dignidade não. Porque Deus na terra está só por presença, como imenso, no céu está por majestade, como Altíssimo. Esta foi a diferença que considerou e distinguiu o Pródigo na sua oração: Peccavi in caelum, et coram te (Lc 15, 18 ) : Pequei contra o céu, e na vossa presença. - E por que fez aquele moço, já bem entendido, esta diferença de lugar a lugar e de Deus a Deus? Porque na terra reconhecia a sua presença, e no céu considerava a sua majestade. No coram te confessava a presença ofendida, no peccavi in caelum a majestade lesa. E como Deus na terra está só por presença, como imenso, e no céu por majestade, como Altíssimo: Tu solus Altissimus in omni terra (12) - por isso o divino autor desta divina oração, para que conhecêssemos o modo de orar altíssimo, que nos ensinava, nos mandou que orássemos a Deus, não enquanto está por presença em todo lugar, mas enquanto está por majestade no céu dos céus: In caelis. O publicano que orou bem, mas a modo da lei velha, diz o evangelista que nem os olhos se atrevia a levantar ao céu: Nolebat nec oculos ad caelum levare (Lc 18, 13) - porém, o Mestre divino da lei da graça, não só quer que levantemos os olhos e as mãos ao céu, mas que logo no princípio da nossa oração a presentemos no céu dos céus diante do divino acatamento, e que onde Deus assiste por majestade como Altíssimo, lá entre confiadamente a nossa oração, e lá suba e se levante a nossa voz: Extollens vocem.
A ousadia da língua mortal ao pronunciar: Pater Noster. O sagrado horror com que o faz a Igreja Católica. A altura de que Lúcifer caiu porque entendeu que havia de haver um homem que chamasse a Deus pai, é a mesma a que nós subimos: muito alta quando dizemos: Qui in caelis, mas infinitamente mais alta quando dizemos: Pater noster. Excelência da nossa oração em comparação da oração dos patriarcas e profetas. Por que Cristo, na sua Paixão, três vezes orou a Deus como Pai, e uma só vez como Deus?
E se esta voz ou esta oração vocal do Rosário se levanta tanto, e é tão alta quando dizemos: Qui es in caelis, quem poderá bastantemente declarar a alteza, não só inacessível, mas tremenda, aonde se levanta e remonta a mesma voz, quando com ela se atreve a língua mortal a pronunciar Pater Noster? O grande S. Pedro Crisólogo, cujas palavras, por antonomásia, foram chamadas de ouro, subindo um dia ao púlpito de Ravena, onde, como arcebispo seu era visto freqüentemente, começou desta maneira: Hodie, quod audituri estis, stupent angeli, miratur caelum, pavet terra, caro non fert, auditus non capit, non attingit mens tota non potest sustinere creatura, ebo dicere non audeo, tacere non possum (13): 0 que trago hoje para pregar, e o que haveis de ouvir - diz Crisólogo - é um caso de que pasmam os anjos, de que se assombra o céu, de que tem medo a terra, de que se estremecem as carnes: é um caso que não cabe nos ouvidos, que não alcançam os entendimentos, que não tem ombros para o suportar toda a máquina das criaturas, e que eu me não atrevo a dizer nem posso calar: Dicere non audeo, tacere non possum. - Tende mão, Demóstenes divino. E que exórdio é este tão desusado? Que caso tão novo, tão inaudito, tão tremendo para a terra, tão espantoso para o céu, e para homens e anjos tão estupendo? Ainda é maior do que tenho representado, e maior que quanto se pode encarecer nem imaginar. E qual é? É - conclui o grande teólogo e eloqüentíssimo orador - é que se pode atrever a língua humana a dizer a Deus: Pater noster. Pois dizer a Deus: Padre nosso, esta voz tão breve, este nome tão amoroso, é aquele trovão que faz estremecer o céu e a terra, o pasmo dos anjos, o assombro dos homens, o horror de todas as criaturas? Sim. E se nós tivéssemos entendimento para compreender o mesmo que dizemos quando olhássemos para as alturas, aonde se levanta a nossa voz: Extollens vocem - antes havíamos de emudecer que pronunciá-la, e dizer como Crisólogo: Dicere non audeo.
Ainda depois de Cristo nos mandar orar por estes termos, ainda depois de sua majestade nos dar esta licença, e seu amor esta confiança, vede o tento, a submissão, o recato e o sagrado horror, com que o faz a Igreja Católica: Praeceptis salutaribus . moniti, et divina institutione formati, audemus dicere; Pater noster: Obrigados, Senhor, do vosso preceito, admoestados da vossa doutrina, e instruídos na forma da vossa divina instituição, ousamos a vos dizer! quê? Pater noster. - De sorte que invocar a Deus com o nome de nosso Pai, é uma coisa tão alta, tão sublime, tão superior a toda a capacidade humana que, ainda depois de instruídos, e admoestados e obrigados com preceito a orar por estes termos, e a invocar a Deus com este nome, lhe chama a Igreja ousadia: Audemus dicere. Tão grande ousadia, se não fora preceito, era a maior arrogância, e se não fora fé, a maior soberba. Assim o entendeu S. Agostinho, quando disse: Non ergo hic arrogantia est, sed fides; non superbia, sed devotio. Invocarmos a Deus com o nome de Pai nosso, é graça e doutrina de seu próprio Filho; logo, não é arrogância, senão fé, logo não é soberba, senão devoção. Mas fé e devoção tão alta, que a soberba de Lúcifer se precipitou do céu, só porque entendeu que havia de haver um homem que chamasse a Deus Pai. E esta altura, de que ele caiu, é a mesma a que nós subimos: muito alta quando dizemos: Qui es in caelis, mas imensa e infinitamente mais alta quando dizemos: Pater noster.
E por quê? A diferença é manifesta. Porque quando dizemos: Qui es in caelis, sobe a nossa oração no céu até o trono de Deus: mas quando dizemos: Pater noster, sobe a mesma oração em Deus até o seio do Padre. O seio do Padre é o lugar de seu Unigênito Filho: Unigenitus qui est in sinu Patris (14) - e onde o Filho tem o assento por natureza quis que nós tivéssemos o acesso por graça, e que ao mesmo Pai, de quem ele é Filho, disséssemos nós com verdade: Pater noster. Assim o ensina com toda esta especialidade não menos que o apóstolo S. Paulo - Non enim accepistis spiritum servitutis iterum in timore, sed accepistis spiritum adoptionis filiorum, in quo clamamus: Abba, Pater (15). Exorta-nos o apóstolo a que vivamos conforme a dignidade do nosso estado, não com espírito de temor, e servil, como os da lei velha, mas com espírito de amor, e filial, como nascidos na lei da graça, advertindo - diz - que vos levantou Deus ao lugar de seu próprio Filho, adotando-vos por tais, como bem se mostra na confiança com que as nossas vozes dizem, ou nós dizemos a vozes: Padre nosso: In quo clamamus: Abba, Pater. - Primeiro que tudo notai o Pater e o clamamus: o clamamus, que é próprio da oração vocal, e o Pater, que é a primeira voz do Rosário. Mas, se Moisés, Josué, Davi, Elias, Eliseu, e os mais, também oravam, e oravam ao mesmo Deus que nós invocamos, em que consiste esta diferença ou excelência da nossa oração, que S. Paulo tanto encarece em comparação da sua? Consiste, como declara o mesmo apóstolo, em que na nossa oração chamamos a Deus Pai: In quo clamamus: Abba, Pater. Na lei velha, nem em Deus era conhecido o nome de Padre, nem o Padre tinha comunicado aos homens a adoção de filhos. Uma e outra coisa fez Cristo. Deu a conhecer o nome do Padre: Pater, ego manifestavi nomen tuum hominibus ( 16) - e deu aos homens a graça de poderem ser filhos do mesmo Padre: Dedit eis potestatem filios Dei fieri (17) - e por isso os da lei velha, como servos, oravam a Deus como Deus, e os da lei da graça, como filhos, oramos a Deus como Pai.
Grande texto na mesma pessoa do Filho, e com inteligência pouco observada e, porventura, não sabida. Quatro vezes orou Cristo na sua Paixão, mas não pelos mesmos termos. Três vezes orou a Deus como Pai, e uma vez como Deus. No Horto como Pai: Pater, si possibile est (18); quando o pregavam na cruz como Pai: Pater dimitte illis, (19); quando finalmente expirou como Pai: Pater in manus tuas comendo spiritum meum (20). Porém, quando se lamentou de se ver desamparado e deixado, não chamou a Deus Pai, senão Deus, e Deus repetidamente: Deus meus, Deus meus, ut quit dereliquisti me (21)? Pois, se Cristo, se o Filho do Eterno Padre em tantas outras ocasiões o invocou com o nome de Pai, como agora lhe não chama Pai, senão Deus? Maior dúvida ainda, e mais nova. As outras orações em que Cristo usou do nome de Pai, todas refere o texto sagrado, assim grego, como latino, na mesma língua vulgar, e só esta, em que o Senhor usou do nome de Deus, lê o Evangelho na língua hebraica: Eli, Eli, lamma sabacthani (Mat 27, 46). - Qual é, logo, a razão de uma e outra diferença, ambas tão particulares e tão notáveis? A primeira - torno a dizer - por que só nesta oração chama Cristo ao Padre Deus? A segunda, por que só esta oração se escreve na língua hebraica? Direi. Cristo Redentor nosso na cruz, como quem atualmente estava pagando pelos pecados de todo o gênero humano, representava em sua pessoa os dois povos, de que o mesmo gênero humano se compunha: o judaico e o gentílico. E como Deus naquela hora deixava e lançava de si o povo judaico, por isso Cristo, enquanto representava o mesmo povo, se lamentava de se ver deixado: Ut qui dereliquisti me? Assim expõe este texto Teofilato, e, creio, entenderão todos os doutos, que é o sentido mais próprio e mais literal dele: Ut quid dereliquisti me, id est, meum genus, meum populum, qui secundum carnem mihi cognati sunt. - E daqui ficam finalmente respondidas ambas as nossas questões: a de se referir só este texto na língua hebréia, porque Cristo naquela ocasião representava o povo judaico deixado, e em seu nome se lamentava; e a de orar então a Deus como Deus, e não como Pai, porque os do mesmo povo, por mais santos e favorecidos que fossem, não falavam a Deus como Pai, senão como Deus. É pontualmente tudo o que dizia S. Paulo. Eles, porque viviam à lei de servos: In spiritu servitutis - oravam a Deus como Deus, nós, que vivemos em foro de filhos: In spiritu adoptionis filiorum - oramos a Deus como Pai: In quo clamamus: Abba, Pater. - E notai outra vez a palavra clamamus, que não só significa voz senão voz muito alta e levantada. Porque aquela grande altura, aonde nunca puderam chegar as orações e vozes dos maiores patriarcas, por essa começamos nós hoje com a primeira oração e a primeira voz do Rosário: Extollens vocem.
Segunda parte: Alta e altíssima é a oração vocal do Rosário pela alteza das petições que nela fazemos. As três primeiras petições do Padre-nosso: o nome de Deus, o reino de Deus e a vontade de Deus. A oração perfeita não é pedirmos nós para nós, é pedirmos a Deus para Deus. A oração ao Senhor da messe. As três petições do Rosário representadas nas alegações de Judite a Deus, durante o cerco da cidade de Betúlia. Os que rezam o Padre-nosso às avessas, como os sitiados de Betúlia.
Passando à segunda parte do nosso discurso, vejamos agora como a mesma voz, ou oração vocal do Rosário, não é menos alta e altíssima pela alteza das petições que nela fazemos. As do Padre-nosso, antes de chegar a Ave-Maria - em que fazemos uma só - são sete; e as três por onde começamos - para que as ponderemos por junto - muito notáveis. A primeira: Sanctificetur nomen tuum - em que pedimos a Deus a santificação de seu nome; a segunda: Adveniat regnum tuum - em que pedimos a propagação universal do seu reino: a terceira: Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra - em pedimos a execução da sua vontade, tão inteiramente na terra como no céu. Mas estas petições, se bem se consideram, parece que o não são. Quem pede a Deus - como bem argúi aqui S. Gregório Niceno (22) - ou pede o remédio de suas necessidades, ou o socorro de seus trabalhos, ou o aumento e conservação de seus bens, ou outra coisa sua, e para si. Mas nestas petições nada é nosso, nem nos pertence a nós; tudo é do mesmo Deus a quem pedimos: nomen tuum: o teu nome; regnum tuum: o teu reino; voluntas tua, a tua vontade. Pois, se tudo isto é seu, e não nosso, se tudo pertence a Deus, e não a nós, por que lho pedimos a ele? Porque esta é a alteza altíssima da oração vocal do Rosário: Extollens vocem. O mais alto ponto a que se pode levantar e subir a oração humana não é pedir a Deus para nós, é pedir a Deus para Deus.
Quando Cristo, Senhor nosso, ajuntou ao número dos apóstolos o dos setenta e dois discípulos, disse-lhes assim: Messis quidem multa, operarii autem pauci. Rogate ergo dominum messis ut mittat operarios in messem suam (Lc 10, 2): A seara que vos mando cultivar é muita, mas os operários ou lavradores são poucos; pelo que rogai ao Senhor da seara que mande mais operários à sua seara, ou à seara sua: In messem suam. - Este suam e aquele ergo parece que não fazem boa conseqüência. Se Cristo é o Senhor da seara: Dominum messis: se a seara é sua: In messem suam - como nos manda a nós que lhe roguemos e peçamos a ele que mande operários? Não é o mesmo Senhor aquele vigilante pai de famílias que madrugou muito cedo, e em todas as horas do dia saiu em pessoa à praça a chamar e alugar operários para a vinha, não por outra razão, senão porque era sua: Ite et vos in vineam meam (23)? - Pois, se a cultura e a colheita da sua seara está à conta da sua providência e do seu cuidado, por que a encomenda às nossas orações: Rogate Dominum messis? - Se a seara fora nossa, então nos incumbia a nós rogar e pedir a Deus nos desse os meios para ela; mas que, sendo a seara de Deus, nós hajamos de rogar ao mesmo Deus que se lembre da cultura da sua seara: Ut mittat operarios in messem suam? - Bem se mostra que o mesmo autor do Padre-nosso é o mestre desta doutrina. Manda que, sendo a seara de Deus, e não nossa, sejamos nós os que roguemos por ela, porque a oração perfeita e perfeitíssima não é pedirmos nós para nós, é pedirmos a Deus para Deus. Pedirmos nós para nós é procurar os nossos interesses; pedirmos a Deus para Deus é solicitar a sua glória. E isto é o que fazemos nas primeiras três petições do Rosário. Se dizemos sanctificetur, para glória de Deus: nomen tuum; se dizemos adveniat, para glória de Deus outra vez: regnum tuum; se dizemos fiat, para glória de Deus do mesmo modo: voluntas tua.
Um rei houve no mundo, tão soberbo e tão louco, que tudo isto quis para si. Quis a exaltação de seu nome, fazendo-se chamar Deus; quis a dilatação de seu reino, tratando de o estender por todo o mundo; quis a execução universal da sua vontade, mandando que ela só, e nenhuma outra, fosse obedecida. Já sabeis que falo de Nabucodonosor, mais que bruto quando entrou neste pensamento que quando pastava no campo. Tinha cercado a cidade de Betúlia, mais apertada já da sede que do mesmo sítio; orou Judite a Deus; mas como orou? Lástima é que o não fizesse com um Rosário nas mãos. Mas por isso disse S. Paulo que tudo o que se fazia na lei velha era figura da nova: Omnia in figura contingebant illis (24). A oração que fez depois de alegar as maravilhas de Deus em favor e defesa do seu povo foi nesta forma: Erige brachium tuum sicut ab initio, et allide virtutem illorum in virtute tua: cadat virtus eorum in iracundia tua (Jdt 9, 11 ): Levantai, Senhor, vosso onipotente braço como antigamente, quebrantai o poder de nossos inimigos com a força do vosso, e sinta a soberba e violência dos seus exércitos o justo rigor da vossa ira. - Isto é o que pede a oração de Judite; agora se seguem os motivos que alega a Deus: Qui promittunt se violare sancta tua, et polluere tabernaculum nominis tui, et dejicere gladio suo coru altaris tu ( Jdt 9, 11 ): Porque vêm prometendo e ameaçando que hão de violar o sagrado de vosso santuário, que hão de profanar o tabernáculo de vosso santíssimo nome, e que com o ferro das suas armas hão de destruir e arrasar os vossos altares. - Pois, senhora, isto é o que só alegais a Deus? Muito mais é o que promete, muito mais o que ameaça o inimigo, de que está cercada e tão apertada Betúlia. Ameaça que há de assaltar a cidade e levá-la à viva força; ameaça que, a quantos a quiserem defender, não há de perdoar a vida, mas serem passados todos ao fio da espada; ameaça que o saco e despojos hão de ser a rica presa de seus soldados, em que a vossa casa terá mais que roubar; ameaça que os poucos que escaparem da primeira fúria, grandes, pequenos, homens, mulheres, meninos, hão de ficar cativos - ou não hão de ficar - porque todos serão levados em cadeias ao desterro remotíssimo da terra dos assírios. Pois, se isto, e muito mais, é o que ameaça o exército de Holofernes, e a fama e terror de seu nome, como vós só alegais a Deus os sacrilégios do seu santuário, as injúrias do seu tabernáculo, a desolação de seus altares? Eis aqui porque na oração de Judite, e nestas três alegações que faz a Deus, se representaram as três petições do Rosário. Nada teme e nada pede a Deus para si: tudo teme e tudo pede a Deus para Deus. Assim como nós dizemos: Nomen tuum, regnum tuum, voluntas tua, assim Judite não diz nem representa outra coisa a Deus, senão: Sancta tua, tabernaculum nominis tui, cornu altatis tui (25).
E se alguém me disser que somos humanos, e não divinos, de carne, e não espíritos, que padecemos trabalhos, necessidades, misérias, e que, assim como pedimos a Deus para Deus, devemos também pedir a Deus para nós, respondo que assim é verdade, e que nem por isso devemos perder a devoção ao Rosário, nem a piedade ao Padre-nosso. Deixada a quarta petição para melhor lugar, assim como nas três primeiras só pedimos para Deus, assim nas três últimas só pedimos para nós. Nas três primeiras tudo para Deus: Nomen tuum, regnum taum, voluntas tua: nas três últimas tudo para nós: Dimitte nobis, ne nos inducas, libera nos (26). Mas, em que se vê a ordem e diferença de umas a outras petições, digníssima da sabedoria do seu divino autor? Vê-se - como bem notaram Santo Tomás e S. Boaventura - vê-se em que as que pertencem a nós vão em segundo lugar, e as que pertencem a Deus no primeiro. Oh! se guardássemos esta ordem, como seriam aceitas nossas orações! Mas muitos rezam o Rosário e o Padre-nosso às avessas. E queira Deus que não haja alguns que todo seu emprego ponham na quarta petição mal interpretada, e só tratem do panem nostrum, quando não seja do alheio. Deixados porém estes, os que rezam o Padre-nosso às avessas são os que põem em primeiro lugar o que lhes toca a eles, e no último o que pertence a Deus. Na mesma Betúlia e sem sair das linhas do sítio, temos o exemplo. Já ouvimos a oração de Judite: ouçamos agora a dos outros cercados, e, não só guiados pelo seu ditame, senão pelo dos mesmos sacerdotes, que é o que mais me escandaliza. Cobriram os sacerdotes os altares de luto e de cilício, e fizeram a sua oração desta maneira: Clamaverunt ad Dominum unanimiter ne darentur in praedam infantes eorum, et uxores eorum in divisionem, et civitates eorum in exterminium et sancta eorum in pollutionem (Jdt 4, 10). - Vede por onde acabam e por onde começaram.- Clamaram a Deus - diz o texto - pedindo que seus filhos não ficassem cativos, que suas mulheres não fossem divididas deles e desterradas, que suas cidades e casas não fossem destruídas, e que as coisas sagradas não fossem profanadas. - Pois agora? Sim, agora. O sagrado e o de Deus no último lugar; nós e o nosso no primeiro. Oram os homens como vivem. Os interesses e conveniências temporais diante de tudo, como se faz na vida; o de Deus, o da consciência, o da alma lá para o fim, como se faz na morte. E esta ordem, ou desordem, tão encontrada com a disposição das petições de Cristo, não é de quem reza quinze vezes no Rosário a oração do Padre-nosso, nem de quem sabe o que pede, ou como há de pedir.
As três últimas petições do Padre-nosso. Com a primeira: Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores - dizemos a Deus que nos imite a nós. Comentários de S. Pedro Crisólogo e de Hugo Cardeal sobre o perdão dos pecados.
Mas vamos às três últimas petições, também por junto, porque não sofre outra coisa a brevidade, e veremos que ainda que em todas elas tratamos de nós, nem por isso a voz de cada uma é menos alta e levantada: Extollens vocem. A primeira é altíssima na confiança, a segunda altíssima na generosidade, a terceira altíssima no juízo, e todas três altíssimas na importância. Dimitte nobis, diz a primeira - sicut et nos dimittimus debitoribus nostris: perdoai-nos as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores. Quem há de dizer que fala com Deus quem assim fala? Há tal modo de pedir? Há tal resolução? Há tal confiança? Isto é pormo-nos nós a Deus por exemplo, isto é dizermos a Deus que nos imite a nós, e que faça o que nós fazemos. Assim o nota em próprios termos S. Gregório Niceno: Ut Deus facta nostra imitetur: ut dicas; Ego fecit Domine fac; solvi, solve; dimisi, dimitte ( 27). Não se poderá argüir nem encarecer melhor. Mas não diz isto o santo e doutíssimo padre para estranhar a confiança da petição, senão para declarar a alteza a que Deus nos levanta, mandando-nos orar em tal forma. Quando Cristo nos manda que lhe peçamos perdão, alegando juntamente que nós também temos perdoado, cuidava eu que era o mesmo que fazer a petição com folha corrida. Porém, os santos, que o entendem melhor, não querem que seja tão pouco.
S. Pedro Crisólogo, escrevendo sobre esta mesma petição, diz que, quando perdoamos as ofensas que nos fazem nossos inimigos, nós mesmos nos damos o perdão das ofensas que temos feito a Deus: Homo, intellige, quia remittendo aliis, tu tibi veniam dedisti (28). Com razão disse a santo: Homo intellige: Homem, entende porque isto parece que se não pode entender. Dar perdão de pecados é jurisdição ou regalia somente de Deus: Quis potest dimittere peccata, nisi solus Deus (29) ? Logo, como me posso eu dar a mim mesmo o perdão de meus pecados? Tu tibi veniam dedisti? Funda-se esta sentença naquela promessa de Cristo: Dimittite, et dimittemini ( Lc 6, 37): Perdoai, e sereis perdoados. - E como esta promessa é condicional, e a condição depende de mim, quando eu cumpro a condição eu sou o que me perdôo. Deus não me pode perdoar as suas ofensas sem que eu perdoe as minhas; e, se eu perdôo as minhas, não pode Deus deixar de me perdoar as suas. Daqui vem que o perdão mais depende de mim que de Deus porque Deus está obrigado à sua promessa, e eu não estou obrigado à condição. Deus não pode faltar ao perdão, ainda que quisesse, e eu não posso perdoar, se quiser. Tanto assim que não duvidou Hugo Cardeal de proferir uma proposição que não sei como coube no juízo de um teólogo tão douto e tão insigne.
Diz que ao homem que perdoa o faz Deus seu senhor. As palavras são estas: Jubet remittere, ut conscientiam purget, promittit veniam, ut statuat in spe, et te facit dominum suum: Manda-te Deus perdoar para te purgar a consciência; promete-te o perdão para te confirmar na esperança: Et te tacit dominum suum: e te faz Deus seu senhor. (30) - Mas como se pode entender ou defender que Deus, neste caso, faça ao homem seu senhor? A razão ou sutileza deste pensamento é que, como Deus se pôs a si mesmo aquela lei de perdoar a quem perdoa; o homem fica livre, e Deus obrigado; o homem fica senhor da lei, e Deus sujeito a ela. E quando o homem é senhor da lei, e Deus não, fica o homem por este modo senhor do mesmo Deus: Te facit dominum suum. Explica Hugo o seu dito, acrescentando em ·nome de Deus! Sicut decreveris de eo, et ego de te decernam: Assim como tu julgares de quem te ofendeu, assim julgarei eu de ti. - Parece-se este privilégio com o das chaves de S. Pedro; mas S. Pedro julgava como vigário, e o que perdoa, como senhor, e como senhor, neste caso, não de outrem, senão do mesmo Deus: Te facit dominum suum. - Isto é, em uma palavra, fazê-lo Deus senhor do seu poder, o qual se não distingue dele. E como os que rezam o Rosário dizendo tantas vezes: Sicut et nos dimitimus, demitem de si o senhorio que têm sobre aquela lei, e, por este modo, sobre o mesmo Deus, vede se é alto e altíssimo o ponto a que sobe e se levanta a voz desta petição: Extollens vocem.