Personagens e Seus Criadores
Lola Pepa Ruiz
D. Fortunata Clélia
Benvinda Olímpia Amoedo
Quinota Estefânia Louro
Juquinha Adelaide Lacerda
Mercedes Maria Mazza
Dolores Marieta Aliverti
Blanchette Madalena Vallet
Um Literato Maria Granada
Uma Senhora Maria Granada
Uma Hóspede do Grande Hotel da Capital Federal Olívia
Eusébio Brandão
Figueiredo Colás
Gouveia H. Machado
Lourenço Leonardo
Duquinha Zeferino
Rodrigues Portugal
Pinheiro Portugal
Um Proprietário Pinto
Um Freqüentador do Belódromo Pinto
Outro Literato Lopes
O Gerente do Grande
Hotel da Capital Federal Lopes
S’il Vous Plaît, amador de bicicleta Louro
Mota Azevedo
Lemos Azevedo
Um Convidado Oliveira
Guedes Oliveira
Um Inglês Peppo
Um Fazendeiro Montani
O Chasseur N.N.
Hóspedes e criados do Grande Hotel da Capital Federal, vítimas
de uma agência de
alugar casa, amadores de bicicleta, convidados, pessoas do povo, soldados
etc.
ATO I
Quadro I
(Suntuoso vestíbulo do Grande Hotel da Capital Federal. Escadaria ao
fundo. Ao levantar
o pano, a cena está cheia de hóspedes de ambos os sexos, com
malas nas mãos, e criados e
criadas que vão e vêm. O gerente do hotel anda daqui para ali
na sua faina.)
— Cena I —
O Gerente, um Inglês, uma Senhora, um Fazendeiro e um Hóspede
Coro e Coplas
Os Hóspedes
De esperar estamos fartos
Nós queremos descansar!
Sem demora aos nossos quartos
Faz favor de nos mandar!
Os Criados
De esperar estamos fartos!
Precisamos descansar!
Um hotel com tantos quartos
O topete faz suar!
Um Hóspede — Um banho quero!
Um Inglês — Aoh! Mim quer come!
Uma Senhora — Um quarto espero!
Um Fazendeiro — Eu estou com fome!
O Gerente
Um poucochinho de paciência!
Servidos todos vão ser, enfim!
Eu quando falo, fala a gerência!
Fiem-se em mim!
Coro
Pois paciência,
Uma vez que assim quer a gerência!
Coplas
O Gerente
— I —
Este hotel está na berra!
Coisa é muito natural!
Jamais houve nesta terra
Um hotel assim mais tal!
toda a gente, meus senhores,
Toda a gente, ao vê-lo, diz:
Que os não há superiores
Na cidade de Paris!
Que belo hotel excepcional
O Grande Hotel da Capital
Federal!
Coro
Que belo hotel excepcional, etc...
O Gerente
— II —
Nesta casa não é raro
Protestar algum freguês:
Acha bom, mas acha caro
Quando chega o fim do mês.
Por ser bom precisamente,
Se o freguês é do bom-tom
Vai dizendo a toda a gente
Que isto é caro mas é bom.
Que belo hotel excepcional!
O Grande Hotel da Capital Federal!
Coro
Que belo hotel excepcional, etc...
O Gerente (Aos criados.) — Vamos! Vamos! Aviem-se! Tomem as malas e
encaminhem
estes senhores! Mexam-se! Mexam-se!... (Vozeria. Os hóspedes pedem
quartos, banhos,
etc... Os criados respondem. Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria,
outros pela
direita.)
— Cena II —
O Gerente, depois Figueiredo
O Gerente (Só.) — Não há mãos a medir! Pudera!
Se nunca houve no Rio de Janeiro um
Hotel assim! Serviço elétrico de primeira ordem! Cozinha esplêndida,
música de câmara
durante as refeições da mesa-redonda! Um relógio pneumático
em cada aposento! Banhos
frios e quentes, duchas, sala de natação, ginástica e
massagem! Grande salão com um
plafond pintado pelos nossos primeiros artistas! Enfim, uma verdadeira novidade!
— Antes
de nos estabelecermos aqui, era uma vergonha! Havia hotéis em S. Paulo
superiores aos
melhores do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi organizada a Companhia do
Grande
Hotel da Capital Federal, que dotou esta cidade com um melhoramento tão
reclamado! E o
caso é que a empresa está dando ótimos dividendos e as
ações andam por empenhos!
(Figueiredo aparece no topo da escada e começa a descer.) Ali vem o
Figueiredo. Aquele
é o verdadeiro tipo do carioca: nunca está satisfeito. Aposto
que vem fazer alguma
reclamação.
— Cena III —
O Gerente, Figueiredo
Figueiredo — Ó seu Lopes, olhe que, se isto continuar assim,
eu mudo-me!
O Gerente (À parte.) — Que dizia eu?
Figueiredo — Esta vida de hotel é intolerável! Eu tinha
recomendado ao criado que me
levasse o café ao quarto às sete horas, e hoje...
O Gerente — O meliante lhe apareceu um pouco mais tarde.
Figueiredo — Pelo contrário. Faltavam dez minutos para as sete...
Você compreende que
isto não tem lugar.
O Gerente — Pois sim, mas...
Figueiredo — Perdão; eu pedi o café para as sete e não
para as seis e cinqüenta!
O Gerente — Hei de providenciar.
Figueiredo — E que idéia foi aquela ontem de darem lagostas ao
almoço?
O Gerente — Homem, creio que lagosta...
Figueiredo — É um bom petisco, não há dúvida,
mas faz-me mal!
O Gerente — Pois não coma!
Figueiredo — Mas eu não posso ver lagostas sem comer!
O Gerente — Não é justo por sua causa privar os demais
hóspedes.
Figueiredo — Felizmente até agora não sinto nada no estômago...
É um milagre! E sextafeira
passada? Apresentaram-me ao jantar maionese. — Maionese! Quase atiro
com o prato
à cara do criado!
O Gerente — Mas comeu!
Figueiredo — Comi, que remédio! Eu posso lá ver maionese
sem comer? Mas foi uma
coisa extraordinária não ter tido uma indigestão!...
— Cena IV —
Os mesmos, Lola
Lola (Entrando arrebatadamente da esquerda.) — Bom dia! (Ao gerente.)
Sabe me dizer
se o Gouveia está?
O Gerente — O Gouveia?
Lola — Sim, o Gouveia — um cavalheiro que está aqui morando
desde a semana passada.
O Gerente (Indiscretamente.) — Ah! o jogador... (Tapando a boca.) Oh!...
Desculpe!...
Lola — O jogador, sim, pode dizer! Porventura o jogo é hoje um
vício inconfessável?
O Gerente — Creio que esse cavalheiro está no seu quarto; pelo
menos ainda o não vi
descer.
Lola — Sim, o Gouveia é jogador, e essa é a única
razão que me faz gostar dele.
O Gerente — Ah! A senhora gosta dele?
Lola — Se gosto dele? Gosto, sim, senhor! Gosto, e hei de gostar, pelo
menos enquanto der
a primeira dúzia!
O Gerente (Sem entender.) — Enquanto der...
Lola — Ele só aponta nas dúzias — ora na primeira,
ora na segunda, ora na terceira,
conforme o palpite. Há perto de um mês que está apontando
na primeira.
Figueiredo (À parte.) — É um jogador das dúzias!
Lola — Enquanto der a primeira, amá-lo-ei até o delírio!
Figueiredo — A senhora é franca!
Lola — Fin de siècle, meu caro senhor, fin de siècle.
Valsa
Eu tenho uma grande virtude:
Sou franca, não posso mentir!
Comigo somente se ilude
Quem mesmo se queira iludir!
Porque quando apanho um sujeito
Ingênuo, simplório, babão,
Necessariamente aproveito,
Fingindo por ele paixão!
Engolindo a pílula,
Logo esse imbecil
Põe-se a fazer dívidas
E loucuras mil!
Quando enfim, o mísero
Já nada mais é,
Eu sem dó aplico-lhe
Rijo pontapé!
Eu tenho uma linha traçada,
E juro que não me dou mal...
Desfruto uma vida folgada
E evito morrer no hospital.
Descuidosa,
Venturosa,
Com folias
Sem amar,
Passo os dias
A folgar!
Só conheço as alegrias,
Sem tristezas procurar!
Eu tenho uma grande virtude, etc...
Mas vamos, faça o favor de indicar-me o quarto do Gouveia.
O Gerente — Perdão, mas a senhora não pode lá ir.
Lola — Por quê?
O Gerente — Aqui não há disso...
Figueiredo (À parte.) — Toma!
O Gerente — Os nossos hóspedes solteiros não podem receber
nos quartos senhoras que
não estejam acompanhadas.
Lola — Caracoles! Sou capaz de chamar o Lourenço para acompanhar-me.
O Gerente — Quem é o Lourenço?
Lola — O meu cocheiro. Ah! Mas que lembrança a minha! Ele não
pode abandonar a
caleça!
O Gerente — O que a senhora deve fazer é esperar no salão.
Um belo salão, vai ver, com
um plafond pintado pelos nossos primeiros artistas!
Lola — Onde é?
O Gerente (Apontando para a direita.) — Ali.
Lola — Pois esperá-lo-ei. Oh! Estes prejuízos! Isto só
se vê no Rio de Janeiro!... (Vai a sair
e lança um olhar brejeiro a Figueiredo.)
Figueiredo — Deixe-se disso, menina! Eu não jogo na primeira
dúzia! (Lola sai pela
direita.)
— Cena V —
O Gerente, depois o Chasseur
O Gerente — Oh! Sr. Figueiredo! Não se trata assim uma mulher
bonita!...
Figueiredo — Não ligo importância a esse povo.
O Gerente — Sim, eu sei... é como a lagosta... Faz-lhe mal, talvez,
mas atira-se-lhe que...
Figueiredo — Está enganado. Essas estrangeiras não têm
o menor encanto para mim.
O Gerente — Não conheço ninguém mais pessimista
que o senhor.
Figueiredo — Falem-me de uma trigueira... bem trigueira, bem carregada...
O Gerente — Uma mulata?
Figueiredo — Uma mulata, sim! Eu digo trigueira por ser menos rebarbativo.
Isso é que é
nosso, é que vai com o nosso temperamento e o nosso sangue! E quanto
mais dengosa for a
mulata, melhor! Ioiô, eu posso? entrar de caixeiro, sair como sócio?...
Você já esteve na
Bahia, seu Lopes?
O Gerente — Ainda não. Mas com licença: vou mandar chamar
o tal Gouveia.
(Chamando.) Chasseur. (Entra da direita um menino fardado.) Vá ao quarto
nº 135 e diga
ao hóspede que está uma senhora no salão à sua
espera. (O menino sai a correr pela
escada.)
Figueiredo — Chasseur! Pois não havia uma palavra em português
para...
O Gerente — Não havia, não senhor. Chasseur não
tem tradução.
Figueiredo — Ora essa! Chasseur é...
O Gerente — É caçador, mas chasseur de hotel não
tem equivalente. O Grande Hotel da
Capital Federal é o primeiro no Brasil que se dá ao luxo de
ter um chasseur! — Mas como
ia dizendo... a Bahia?...
Figueiredo — Foi lá que tomei predileção pelo gênero.
Ah, meu amigo! É preciso conhecêlas!
Aquilo é que são mulatas! No Rio de Janeiro não as há!
O Gerente — Perdão, mas eu tenho visto algumas que...
Figueiredo — Qual! Não me conte histórias. — Nós
não temos nada! Mulatas na Bahia!...
Coplas
— I —
As mulatas da Bahia
Têm de certo a primazia
No capítulo mulher;
O sultão lá na Turquia
Se as apanha um belo dia,
De outro gênero não quer!
Ai gentes! Que bela,
Que linda não é
A fada amarela
De trunfa enroscada,
De manta traçada,
Mimosa chinela
Levando calçada
Na ponta do pé!...
— II —
As formosas georgianas,
As gentis circassianas
São as flores dos haréns;
Mas, seu Lopes, tais sultanas,
Comparadas às baianas,
Não merecem dois vinténs!
Ai! gentes! Que bela, etc...
Seu Lopes, você já viu a Mimi Bilontra?
O Gerente — Isso vi, mas a Mimi Bilontra não é mulata.
Figueiredo — Não, não é isso. Na Mimi Bilontra
há um tipo que gosta de lançar mulheres.
Você sabe o que é lançar mulheres?
Lopes — Sei, sei.
Figueiredo — Pois eu também gosto de lançá-las!
Mas só mulatas! Tenho lançado umas
poucas!
Lopes — Deveras?
Figueiredo — Todas as mulatas bonitas que têm aparecido por aí
arrastando sedas foram
lançadas por mim. É a minha especialidade.
O Gerente — Dou-lhe os meus parabéns.
Figueiredo — Que quer? Sou solteiro, aposentado, independente: não
tenho que dar
satisfações a ninguém. (Outro tom.) Bom: vou dar uma
volta antes de jantar. Não se
esqueça de providenciar para que o criado não continue a levar-me
café às seis e cinqüenta!
O Gerente — Vá descansado. A reclamação é
muito justa.
Figueiredo — Até logo! (Sai).
O Gerente (Só.) — Gabo-lhe o gosto de lançar mulatas!
Imaginem se um tipo assim tem
capacidade para apreciar o Grande Hotel da Capital Federal!
— Cena VI —
O Gerente, Lola, depois Gouveia, depois O Gerente
Lola (Entrando.) — Então? Estou esperando há uma hora!...
O Gerente — Admirou o nosso plafond?
Lola — Não admirei nada! O que eu quero é falar ao Gouveia!
O Gerente — Já o mandei chamar. (Vendo o Gouveia que desce a
escada.) E ele aí vem
descendo a escada. (À parte.) Pois a esta não se me dava de
lançá-la. (Sai.)
Gouveia (Que tem descido.) — Que vieste fazer? Não te disse que
não me procurasses
aqui? Este hotel...
Lola — Bem sei: não admite senhoras que não estejam acompanhadas;
mas tu não me
apareceste ontem nem anteontem, e quando tu não me apareces, dir-se-ia
que eu
enlouqueço! Como te amo, Gouveia! (Abraça-o.)
Gouveia — Pois sim, mas não dês escândalo! Olha o
chasseur. (O chasseur tem
efetivamente descido a escada, desaparecendo por qualquer um dos lados.)
Lola — Então? A primeira dúzia?
Gouveia — Tem continuado a dar que faz gosto! 5... 11... 9... 5... Ontem
saiu o 5 três vezes
seguidas!
Lola — Continuas então em maré de felicidade?
Gouveia — Uma felicidade brutal!... Tanto assim, que tinha já
preparado este envelope
para ti...
Lola — Oh! dá cá! dá cá!...
Gouveia — Pois sim, mas com uma condição: vai para casa,
não estejas aqui.
Lola (Tomando o envelope.) — Oh! Gouveia, como eu te amo! Vais hoje
jantar comigo,
sim?
Gouveia — Vou, contanto que saia cedo. É preciso aproveitar a
sorte! Tenho certeza de que
a primeira dúzia continuará hoje a dar!
Lola (Com entusiasmo.) — Oh! Meu amor!... (Quer abraçá-lo.)
Gouveia — Não! Não!... Olha o gerente!...
Lola — Adeus! (Sai muito satisfeita.)
O Gerente (Que tem entrado, à parte.) — Vai contente! Aquilo
é que deu a tal primeira
dúzia! (Inclinando-se diante de Gouveia.) Doutor...
Gouveia — Quando aqui vier esta senhora, o melhor é dizer-lhe
que não estou. É uma boa
rapariga, mas muito inconveniente.
O Gerente — Vou transmitir essa ordem ao porteiro, porque eu posso não
estar na ocasião.
(Sai.)
— Cena VII —
Gouveia (Só.) — É adorável esta espanhola, isso
é... não choro uma boa dúzia de contos de
réis gastos com ela, e que, aliás, não me custaram a
ganhar... mas tem um defeito: é muito
colante... Estas ligações são o diabo... Mas como acabar
com isto? Ah! Se a Quinota
soubesse! Pobre Quinota! Deve estar queixosa de mim... Oh! Os tempos mudaram...
Quando estive em Minas era um simples caixeiro de cobranças... É
verdade que hoje nada
sou, porque um jogador não é coisa nenhuma... mas ganho dinheiro,
sou feliz, muito feliz!
A Quinota, no final das contas, é uma roceira... mas tão bonita!
E daí, quem sabe? — talvez
já se tivesse esquecido de mim.
— Cena VIII —
Gouveia, Pinheiro, depois O Gerente
Pinheiro (Entrando.) — Oh! Gouveia!
Gouveia — Oh! Pinheiro! Que andas fazendo?
Pinheiro — Venho a mandado do patrão falar com um sujeito que
mora neste hotel... Mas
que luxo! Como estás abrilhantado! Vejo que as coisas têm te
corrido às mil maravilhas!
Gouveia (Muito seco.) — Sim... deixei de ser caixeiro... Embirrava com
isso de ir a
qualquer parte a mandado do patrão... Atirei-me a umas tantas especulações...
Tenho
arranjado para aí uns cobres...
Pinheiro — Vê-se... Estás outro, completamente outro!
Gouveia — Devo lembrar-te que nunca me viste sujo.
Pinheiro — Sujo não digo... mas vamos lá, já te
conheci pau de laranjeira! Por sinal que...
Gouveia — Por sinal que uma vez me emprestaste dez mil-réis.
Fazes bem em lembrar-me
essa dívida.
Pinheiro — Eu não te lembrei coisa nenhuma!
Gouveia — Aqui tens vinte mil-réis. Dou-te dez de juros.
Pinheiro — Vejo que tens a esmola fácil, mas — que diabo!
— guarda o teu dinheiro e não
o dês a quem to não pede. Fico apenas com os dez mil-réis
que te emprestei com muita
vontade — e sem juros. Quando precisares deles, vem buscá-los.
Cá ficam.
Gouveia — Oh! Não hei de precisar, graças a Deus!
Pinheiro — Homem, quem sabe? O mundo dá tantas voltas!
Gouveia — Adeus, Pinheiro. (Sai pela esquerda.)
Pinheiro — Adeus, Gouveia. (Só.) Umas tantas especulações...
Bem sei quais são elas...
Pois olha, meu figurão, não te desejo nenhum mal, mas conto
que ainda hás de vir buscar
estes dez mil-réis, que ficam de prontidão.
O Gerente (Entrando.) — Deseja alguma coisa?
Pinheiro — Sim, senhor, falar a um hóspede... Eu sei onde é,
não se incomode. (Sobe a
escada e desaparece.)
O Gerente (Só.) — E lá vai sem dar mais cavaco! Esta gente
há de custar-lhe habituar-se a
um hotel de primeira ordem como é o Grande Hotel da Capital Federal!
— Cena IX —
O Gerente, Eusébio, Fortunata,Quinota, Benvinda, Juquinha, Dois Carregadores
da
Estrada de Ferrocom malas, depois o Chasseur,Criados e Criadas.
(A família traz maletas, trouxas,embrulhos, etc.)
O Gerente — Olá! Temos hóspedes! (Chamando.) Chasseur!
Vá chamar gente! (O
chasseur aparece e desaparece, e pouco depois volta com alguns criados e criadas.)
Eusébio (Entrando à frente da família, fechando uma enorme
carteira.) — Ave Maria!
Trinta mil-réis pra nos trazê da estação da estrada
de ferro até aqui. Esta gente pensa que
dinheiro se cava! (Aperta a mão ao gerente. O resto da família
imita-o, apertando também
a mão ao chasseur e à criadagem.) Deus Nosso Sinhô esteje
nesta casa!... (Vai pagar aos
carregadores, que saem.)
Fortunata — É um casão!
Quinota — Um palácio!
Juquinha — Eu tou com fome! Quero jantá!
Benvinda — Espera, nhô Juquinha!
Fortunata — Menino, não começa a reiná!
O Gerente — Desejam quartos?
Eusébio — Sim sinhô!... Mas antes disso deixe lhe dizê
quem sou.
O Gerente — Não é preciso. O seu nome será escrito
no registro dos hóspedes.
Eusébio — Pois sim, sinhô, mas ouça...
Coplas-Lundu
Eusébio
— I —
Sinhô, eu sou fazendeiro
Em São João do Sabará,
E venho ao Rio de Janeiro
De coisas grave tratá.
Ora aqui está!
Tarvez leve um ano inteiro
Na Capitá Federá!
Coro
Ora aqui está! etc...
Eusébio
— II —
Apareceu um janota
Em São João do Sabará;
Pediu a mão de Quinota
E vei’ se embora pra cá.
Ora aqui está!
Hei de achá esse janota
Na Capitá Federá!
Coro
Ora aqui está, etc...
Esta é minha muié, Dona Fortunata.
Fortunata — Uma sua serva. (Faz uma mesura.)
O Gerente — Folgo de conhecê-la, minha senhora. E esta moça?
É sua filha?...
Eusébio — Nossa.
Fortunata — Nome dela é Quinota... Joquina... mas a gente chama
ela de Quinota.
Quinota — Cala a boca, mamãe. O senhor não perguntou nada.
Eusébio — É muito estruída. Teve três professô...
Este é meu filho... (Procurando
Juquinha.) Onde está ele? Juquinha! (Vai buscar pela mão o filho,
que traquinava ao
fundo.) Tá aqui ele. Tem cabeça — qué vê?
Diz um verso, Juquinha!
Juquinha — Ora, papai!
Fortunata — Diz um verso, menino! Não ouve teu pai tá
mandando?
Juquinha — Ora, mamãe!
Quinota — Diz o verso, Juquinha! Você parece tolo!...
Juquinha — Não digo!
Benvinda — Nhô Juquinha, diga aquele de lá vem a lua saindo!
Juquinha — Eu não sei verso!
Fortunata — Diz o verso, diabo! (Dá-lhe um beliscão. Juquinha
faz grande berreiro.)
Eusébio (Tomando o filho e acariciando-o.) — Tá bom! não
chora! não chora! (Ao
gerente.) Tá muito cheio de vontade... Ah! mas eu hei de endireitá
ele!
O Gerente — Não será melhor subirem para os seus quartos?
Eusébio — Sim, sinhô. (Examinando em volta de si.) O hotezinho
parece bem bão.
O Gerente — O hotelzinho? Um hotel que seria de primeira ordem em qualquer
parte do
mundo! O Grande Hotel da Capital Federal!
Fortunata — E diz que é só de família.
O Gerente — Ah! Por esse lado podem ficar tranqüilos.
— Cena X —
Os mesmos, Figueiredo
(Figueiredo volta; examina os circunstantes e mostra-se impressionado por
Benvinda,que
repara nele.)
O Gerente (Aos criados.) — Acompanhem estas senhoras e estes senhores...
para
escolherem os seus quartos à vontade. (Vai saindo e passa por perto
de Figueiredo.)
Figueiredo (Baixinho.) — Que boa mulata, seu Lopes! (O gerente sai.)
Os Criados e Criadas (Tomando as malas e embrulhos.) — Façam
favor!... Venham!...
Subam!...
Eusébio (Perto da escada.) — Suba, Dona Fortunata! Sobe, Quinota!
Sobe, Juquinha!
(Todos sobem.) Vamo! (Sobe também.) Sobe, Benvinda! (Quando Benvinda
vai subindo,
Figueiredo dá-lhe um pequeno beliscão no braço.)
Figueiredo — Adeus, gostosura!
Benvinda — Ah! Seu assanhado! (Sobe.)
O Gerente (Que entrou e viu.) — Então, que é isso, Sr.
Figueiredo? Olhe que está no
Grande Hotel da Capital Federal!
Figueiredo — Ah! Seu Lopes, aquela hei de eu lançá-la!
(Sobe a escada.)
O Gerente (Só.) — Queira Deus não vá arranjar uma
carga de pau do fazendeiro! (Sai,
Mutação.)
Quadro II
(Corredor. Na parede uma mão pintada, apontando para este letreiro:
“Agência de alugar
casas. Preço de cada indicação,Rs. 5$000, pagos adiantados.”Ao
fundo um banco,
encostado à parede.)
— Cena I —
Vítimas, entrando furiosas da esquerda,depois, Mota, Figueiredo
Coro
Que ladroeira!
Que maroteira!
Que bandalheira!
Pasmado estou!
Viu toda a gente
Que o tal agente
Cinicamente
Nos enganou!
Mota (Entrando da esquerda também muito zangado.) — Cinco mil-réis
deitados fora!...
Cinco mil-réis roubados!... Mas deixem estar que... (Vai saindo e encontra-se
com
Figueiredo, que entra da direita.)
Figueiredo — Que é isto, seu Mota? Vai furioso!
Mota — Se lhe parece que não tenho razão! Esta agência
indica onde há casas vazias por
cinco mil-réis.
Figueiredo — Casas por cinco mil-réis? Barata feira!
Mota — Perdão; indica por cinco mil-réis...
Figueiredo (Sorrindo.) — Bem sei, e é isso justamente o que aqui
me traz. Resolvi deixar o
Grande Hotel da Capital Federal e montar casa. Esgotei todos os meios para
obter com que
naquele suntuoso estabelecimento me levassem o café ao quarto às
sete horas em ponto.
Como não estou para me zangar todas as manhãs, mudo-me. O diabo
é que não acho casa
que me sirva. Dizem-me que nesta agência...
Mota — Volte, seu Figueiredo, volte, se não quer que lhe aconteça
o mesmo que me
sucedeu e tem sucedido a muita gente! Indicaram-me uma casa no morro do Pinto,
com
todas as acomodações que eu desejava... Você sabe o que
é subir ao morro do Pinto?
Figueiredo — Sei. Já lá subi uma noite por causa de uma
trigueira.
Mota — Pois eu subi ao morro do Pinto e encontrei a casa ocupada.
Figueiredo — Foi justamente o que me aconteceu com a trigueira.
Mota — Volto aqui, faço ver que a indicação de
nada me serviu e peço que me restituam os
meus ricos cinco mil-réis. Respondem-me que a agência nada me
restitui, porque não tem
culpa de que a casa se tivesse alugado.
Figueiredo — E não lhe deram outra indicação?
Mota — Deram. Cá está. (Tira um papel.)
Figueiredo (À parte.) — Vou aproveitá-la!
Mota — Mas provavelmente vale tanto como a outra!
Figueiredo (Depois de ler.) — Oh!
Mota — Que é?
Figueiredo — Esta agora não é má! Rua dos Arcos
nº 100. Indicaram a casa da Minervina!
Mota — Que Minervina?
Figueiredo — Uma trigueira.
Mota — A do morro do Pinto?
Figueiredo — Não. Outra. Outra que eu lancei há quatro
anos. Mudou-se para a Rua dos
Arcos não há oito dias.
Mota — Então? Quando lhe digo!
Figueiredo — Oh! As trigueiras têm sido o meu tormento!
Mota — As trigueiras são...
Figueiredo — As mulatas. Eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo...
Ainda agora está
lá no hotel uma família de Minas que trouxe consigo uma mucama...
Ah, seu Mota...
Mota — Pois atire-se!
Figueiredo — Não tenho feito outra coisa, mas não me tem
sido possível encontrá-la a
jeito. Só hoje consegui meter-lhe uma cartinha na mão, pedindo-lhe
que vá ter comigo ao
Largo da Carioca. Quero lançá-la!
Mota — Mas vamos embora! Estamos numa caverna!
Figueiredo — E é tudo assim no Rio de Janeiro... Não temos
nada, nada, nada... Vamos...
— Cena II —
Os mesmos, uma Senhora, depoisum Proprietário
A Senhora (Vindo da esquerda.) — Um desaforo! Uma pouca vergonha!
Mota — Foi também vítima, minha senhora?
A Senhora — Roubaram-me cinco mil-réis!
Figueiredo — Também — justiça se lhes faça
— eles nunca roubam mais do que isso!
A Senhora — Indicaram-me uma casa... Vou lá, e encontro um tipo
que me pergunta se
quero um quarto mobiliado! Vou queixar-me...
Mota — Ao bispo, minha senhora! Queixemo-nos todos ao bispo!... (O Proprietário
entra
e vai atravessando a cena da direita para a esquerda, cumprimentando as pessoas
presentes.)
Figueiredo (Embargando-lhe a passagem.) — Não vá lá,
não vá lá, meu caro senhor! Olhe
que lhe roubam cinco mil-réis.
O Proprietário — Nada! Eu não pretendo casa. O que eu
quero é alugar a minha.
Os Três — Ah! (Cercam-no.)
A Senhora — Talvez não seja preciso ir à agência.
Eu procuro uma casa.
Mota — E eu.
Figueiredo — E eu também.
A Senhora — A sua onde é?
O Proprietário — Se querem a indicação, venham
cinco mil-réis de cada um!
Os Três — Hein?
O Proprietário — Ora essa! Por que é que a agência
há de cobrar e eu não?
Mota — A agência paga impostos e é, apesar dos pesares,
um estabelecimento legalmente
autorizado.
O Proprietário — Bem; como eu não sou um estabelecimento
legalmente autorizado, dou a
indicação por três mil-réis.
Mota — Guarde-a!
Figueiredo — Dispenso-a!
A Senhora — Aqui tem os três mil-réis. A necessidade é
tão grande que me submeto a
todas as patifarias!
O Proprietário (Calmo.) — Patifaria é forte, mas como
a senhora paga... (Guarda o
dinheiro.)
A Senhora — Vamos!
O Proprietário — A minha casa é na Praia Formosa.
Mota e Figueiredo — Que horror!
O Proprietário — Um sobrado com três janelas de peitoril.
Os baixos estão ocupados por
um açougue.
Mota e Figueiredo — Xi!
A Senhora — Deve haver muito mosquito!
O Proprietário — Mosquitos há em toda a parte. Sala, três
quartos, sala de jantar, despensa,
cozinha, latrina na cozinha, água, gás, quintal, tanque de lavar
e galinheiro...
A Senhora — Não tem banheiro?
O Proprietário — Terá, se o inquilino o fizer. A casa
foi pintada e forrada há dez anos; está
muito suja. Aluguel, duzentos e cinqüenta mil-réis por mês.
Carta de fiança passada por
negociante matriculado, trezentos mil-réis de posse e contrato por
três anos. O imposto
predial e de pena d’água é pago pelo inquilino.
A Senhora — Com os três mil-réis que me surrupiou compre
uma corda e enforque-se!
(Sai.)
Figueiredo (Enquanto ela passa.) — Muito bem respondido, minha senhora!
Mota — Com efeito!
O Proprietário — Mas os senhores...
Figueiredo (Tirando um apito do bolso.) — Se diz mais uma palavra, apito
para chamar a
polícia.
O Proprietário — Ora vá se catar! (Vai saindo.)
Figueiredo — Que é? Que é?... (Segue-o.)
O Proprietário — Largue-me!
Figueiredo — Este tipo merecia uma lição! (Empurrando-o.)
Vamos embora! Deixá-lo!
Mota — Vamos!
O Proprietário (Voltando e avançando para eles.) — Mas
eu...
Os Dois — Hein? (Atiram-se ao Proprietário, que foge, desaparecendo
pela esquerda.
Mota e Figueiredo encolhem os ombros e saem pela direita, encontrando-se à
porta com
Eusébio, que entra. O Proprietário volta e, enganado, dá
com o guarda-chuva em Eusébio,
e foge. Eusébio tira o casaco para persegui-lo.)
— Cena III —
Eusébio, só; depois, Fortunata,Quinota, Juca, Benvinda
Eusébio — Tratante! Se eu te agarro, tu havia de vê o que
é purso de mineiro! Que terra
esta, minha Nossa Senhora, que terra esta em que um home apanha sem sabê
por quê? Mas
onde ficou esta gente? Aquela Dona Fortunata não presta pra subi escada!
(Indo à porta da
direita.) Entra! É aqui! (Entra a família.)
Fortunata (Entrando apoiada no braço de Quinota.) — Deixe-me
arrespirá um
bocadinho! Virge Maria! quanta escada!
Eusébio — E ainda é no outro andá! Olhe! (Aponta
para o letreiro.)
Juca (Vendo Eusébio a vestir o casaco.) — Mamãe, papai
se despiu!
As Três — É verdade!
Eusébio — Tirei o casaco pra brigá! Não foi nada.
Fortunata — Não posso mais co’esta história de casa!
Quinota — É um inferno!
Benvinda — Uma desgraça!
Eusébio — Paciência. Nós não podemo ficá
naquele hoté... Aquilo é luxo demais e custa os
óio da cara! Como temo que ficá argum tempo na capitá
federá, o mió é precurá uma casa.
A gente compra uns traste e alguma louça... Benvinda vai pra cozinha...
Benvinda (À parte.) — Pois sim!
Eusébio — E Quinota trata dos arranjo da casa.
Quinota — Mas a coisa é que não se arranja casa.
Eusébio — Desta vez tenho esperança de arranjá.
Diz que essa agência é muito séria.
Vamo!
Fortunata — Eu não subo mais escada! Espero aqui no corredô.
Eusébio — Tudo fica! Eu vou e vorto! (Vai saindo.)
Juca (Chorando e batendo o pé.) — Eu quero i com papai! eu quero
i com papai!
Fortunata — Pois vai, diabo!...
Eusébio — Vem! vem! não chora! Dá cá a mão!
(Sai com o filho pela esquerda.)
— Cena IV —
Fortunata, Quinota e Benvinda
Quinota — Mamãe, por que não se senta naquele banco?
Fortunata — Ah! é verdade! não tinha arreparado. Estou
moída. (Senta-se e fecha os
olhos.)
Benvinda — Sinhá vai dromi.
Quinota — Deixa.
Benvinda (Em tom confidencial.) — Ó nhanhã?
Quinota — Que é?
Benvinda — Nhanhã arreparou naquele home que ia descendo pra
baixo quando a gente
vinha subindo pra cima?
Quinota — Não. Que homem?
Benvinda — Aquele que mora lá no hoté em que a gente mora...
Quinota — Olha mamãe! (D. Fortunata ressona.)
Benvinda — Já está dromindo. Nhanhã arreparou?
Quinota — Reparei, sim.
Benvinda — Sabe o que ele fez hoje de menhã? Me meteu esta carta
na mão!
Quinota — Uma carta? E tu ficaste com ela? Ah! Benvinda! (Pausa.) É
para mim?
Benvinda — Pra quem havera de sê?
Quinota — Não está sobrescritada.
Benvinda (À parte, enquanto Quinota se certifica de que Fortunata dorme.)
— Bem sei
que a carta é minha... O que eu quero é que ela leia pra eu
ouvi.
Quinota — Dá cá. (Toma a carta e vai abri-la, mas arrepende-se.)
Que asneira ia eu
fazendo!
Duetino
Quinota
Eu gosto do seu Gouveia;
Com ele quero casar;
O meu coração anseia
Pertinho dele pulsar;
Portanto a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!
Benvinda
Está longe seu Gouveia;
Aqui agora não vem...
Abra a carta, a carta leia...
Não digo nada a ninguém!
Quinota
Não! não! a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!
Entretanto, é verdade
Que tenho tal ou qual curiosidade,
Mamãe — eu tremo! —
Dormindo está?
Benvinda
Sim, e ela memo
Respondeu já. (Fortunata tem ressonado.)
Quinota
É feio,
Mas que importa? Abro e leio! (Abre a carta.)
Juntas
Quinota Benvinda
Eu sou curiosa! É bem curiosa!
Não sei me conter! Não há que dizê!
A carta amorosa A carta amorosa
Depressa vou ler! Depressa vai lê!...
Ambas — Uê!...
Quinota (Lendo a carta.) — “Minha bela mulata.”
Ambas — Uê!...
Quinota (Lendo.) — “Minha bela mulata. Desde que está morando
neste hotel, tenho
debalde procurado falar-te. Tu não passas de uma simples mucama...”
(Dá a carta a
Benvinda.) A carta é para ti. (À parte.) Fui bem castigada.
Benvinda — Leia pra eu ouvi, nhanhã.
Quinota (Lendo.) — “Se queres ter uma posição independente
e uma casa tua...”
Benvinda — Gentes!
Quinota — “...deixa o hotel, e vai ter comigo terça-feira,
às quatro horas da tarde, no Largo
da Carioca, ao pé da charutaria do Machado.”
Benvinda (À parte.) — Terça-feira... quatro hora...
Quinota — “Nada te faltará. Eu chamo-me Figueiredo.”
Benvinda — Rasga essa carta, nhanhã! Veja só que sem-vergonhice
de home!
Quinota (Rasgando a carta.) — Se papai soubesse...
Benvinda (À parte.) — Figueiredo...
— Cena V —
As mesmas, Eusébio, Juquinha
Eusébio — Já tenho uma indicação!
D. Fortunata (Despertando.) — Ah! quase pego no sono! (Erguendo-se.)
Já temo casa?
Eusébio — Parece. O dono dela é o home com quem eu briguei
indagorinha. Tinha me
tomado por outro. Vamo à Praia Fermosa pra vê se a casa serve.
D. Fortunata — Ora graça!
Benvinda (À parte.) — Perto da charutaria.
Eusébio (Que ouviu.) — Não sei se é perto da charutaria,
mas diz que o logá é aprazive; a
casa munto boa... Fica pro cima de um açougue, o que qué dizê
que nunca fartará carne!
Vamo!
Quinota — É muito longe?
Eusébio — É; mas a gente vai no bonde...
Benvinda (À parte.) — Largo da Carioca...
Eusébio (Que ouviu.) — Que Largo da Carioca! É os bondinho
da Rua Direita! Vamo!
Juquinha — Eu quero i co Benvinda!
Fortunata — Vai vai co Benvinda! É perciso munta paciência
para aturá este demônio
deste menino! (Saem todos.)
Benvinda (Saindo por último, com Juquinha pela mão.) —
Terça-feira... quatro hora...
Figueiredo...
— Cena VI —
O Proprietário (Vindo da esquerda.) — Queira Deus que o mineiro
fique com a casa... mas
não lhe dou dois meses para apanhar uma febre palustre! (Sai pela direita.
Mutação.)
Quadro III
(O Largo da Carioca. Muitas pessoas estão à espera de bonde.
Outras passeiam.)
— Cena I —
Figueiredo, Rodrigues, Pessoas do Povo
Coro
À espera do bonde elétrico
Estamos há meia hora!
Tão desusada demora
Não sabemos explicar!
Talvez haja algum obstáculo,
Algum descarrilamento,
Que assim possa o impedimento
Da linha determinar!
(Figueiredo e Rodrigues vêm ao proscênio. Rodrigues está
carregado de pequenos
embrulhos.)
Rodrigues — Que estopada, hein?
Figueiredo — É tudo assim no Rio de Janeiro! Este serviço
de bondes é terrivelmente
malfeito! Não temos nada, nada, absolutamente nada!
Rodrigues — Que diabo! Não sejamos tão exigentes! Esta
companhia não serve mal. Não é
por culpa dela esse atraso. Ali na estação me disseram. Na Rua
do Passeio está uma fila de
bondes parados diante de um enorme caminhão, que levava uma máquina
descomunal não
sei para onde, e quebrou as rodas. É ter um pouco de paciência.
Figueiredo — Eu felizmente não estou à espera de bonde,
mas de coisa melhor.
(Consultando o relógio.) Estamos na hora.
Rodrigues — Ah! Seu maganão... alguma mulher... Você nunca
há de tomar juízo!
Figueiredo — Uma trigueira... uma deliciosa trigueira!
Rodrigues — Continua então a ser um grande apreciador de mulatas?
Figueiredo — Continuo, mas eu digo trigueiras por ser menos rebarbativo.
Rodrigues — Pois eu cá sou o homem da família, porque
entendo que a família é a pedra
angular de uma sociedade bem organizada.
Figueiredo — Bonito!
Rodrigues — Reprovo incondicionalmente esses amores escandalosos, que
ofendem a
moral e os bons costumes.
Figueiredo — Ora, não amola! Eu sou solteiro... não tenho
que dar satisfações a ninguém.
Rodrigues — Pois eu sou casado, e todos os dias agradeço a Deus
a santa esposa e os
adoráveis filhinhos que me deu! Vivo exclusivamente para a família.
Veja como eu vou
para casa cheio de embrulhos! E é isto todos os dias! Vão aqui
empadinhas, doces, queijo,
chocolate andaluza, sorvetes de viagem, o diabo!... Tudo gulodices!...
Figueiredo (Que, preocupado, não lhe tem prestado grande atenção.)
— Não imagina
você como estou impaciente! É curioso! Não varia aos quarenta
anos esta sensação
esquisita de esperar uma mulher pela primeira vez! Note-se que não
tenho certeza de que
ela venha, mas sinto uns formigueiros subirem-me pelas pernas! (Vendo Benvinda.)
Oh!
Diabo! Não me engano! Afaste-se, afaste-se, que lá vem ela!...
Rodrigues — Seja feliz. Para mim não há nada como a família.
(Afasta-se e fica
observando de longe.)
— Cena II —
Os mesmos, Benvinda
Benvinda (Aproximando-se com uma pequena trouxa na mão.) — Aqui
estou.
Figueiredo (Disfarçando a olhar para o céu.) — Disfarça,
meu bem. (Pausa.) — Estás
pronta a acompanhar-me?
Benvinda (Disfarçando e olhando também para o céu.) —
Sim, sinhô, mas eu quero sabê
se é verdade o que o sinhô disse na sua carta...
Figueiredo (Disfarçando por ver um conhecido que passa e o cumprimenta.)
— Como
passam todos lá por casa? As senhoras estão boas?
Benvinda (Compreendendo.) — Boas, muito obrigado... Sinhá Miloca
é que tem andado
com enxaqueca.
Figueiredo (À parte.) — Fala mal, mas é inteligente.
Benvinda — O sinhô me dá memo casa pra mim morá?
Figueiredo — Uma casa muito chique, muito bem mobiliada, e uns vestidos
muito bonitos.
(Passa outro conhecido. O mesmo jogo de cena.) — Mas por que esta demora
com a minha
roupa lavada?
Benvinda — É porque choveu munto... não se pôde
corá... (Outro tom.) Não me fartará
nada?
Figueiredo — Nada! Não te faltará nada! Mas aqui não
podemos ficar. Passa muita gente
conhecida, e eu não quero que me vejam contigo enquanto não
tiveres outra encadernação.
Acompanha-me e toma o mesmo bonde que eu. (Vai se afastando pela direita e
Benvinda
também.) Espera um pouco, para não darmos na vista. (Passa um
conhecido.) Adeus, hein?
Lembranças à Baronesa.
Benvinda — Sim, sinhô, farei presente. (Figueiredo afasta-se,
disfarçando, e desaparece
pela direita. Durante a fala que se segue, Rodrigues pouco a pouco se aproxima
de
Benvinda.) Ora! Isto sempre deve sê mió que aquela vida enjoada
lá da roça! Ah! seu
Borge! seu Borge! Você abusou porque era feitô lá da fazenda;
fez o que fez e me prometeu
casamento... Mas casará ou não? Sinhá e nhanhã
ondem ficá danada... Pois que fique!
Quero a minha liberdade! (Vai afastar-se na direção que tomou
Figueiredo e é abordada
pelo Rodrigues, que não a tem perdido de vista um momento.)
Rodrigues — Adeus, mulata!
Benvinda — Viva!
Rodrigues (Disfarçando.) Dá-me uma palavrinha?
Benvinda — Agora não posso.
Rodrigues — Olhe, aqui tem o meu cartão... Se precisar de um
homem sério... De um
homem que é todo família...
Benvinda (Tomando disfarçadamente o cartão.) — Pois sim.
(Saindo, à parte) — O que
não farta é home... Assim queira uma muié... (Sai.)
Rodrigues (Consigo.) — Sim... lá de vez em quando... para variar...
não quero dizer que...
(Outro tom.) E o maldito bonde que não chega! (Afasta-se pela direita
e desaparece.)
— Cena III —
Lola, Mercedes, Blanchette, Dolores, Gouveia, Pessoas do Povo
(As quatro mulheres entram da esquerda, trazendo Gouveia quase à força.)
Quinteto
As Mulheres
Ande pra frente,
Faça favor!
Está filado,
Caro senhor!
Queira ou não queira,
Daqui não sai!
Janta conosco!
Conosco vai!
Lola
Há tantos dias
Tu não me vias,
E agora qu’rias
Deixar-me só!
A tua Lola,
Meu bem, consola!
Dá-me uma esmola!
De mim, tem dó!
As Outras
Há tantos dias
Tu não a vias,
E agora qu’rias
Deixá-la só!
A tua Lola,
Meu bem, consola!
Dá-lhe uma esmola!
tem dó, tem dó!
Gouveia
Não me aborreçam!
Não me enfureçam!
Desapareçam!
Quero estar só!
Isto me amola!
Perco esta bola!
Querida Lola,
De mim tem dó!
Lola
Ingrato — já não me queres!
Tu já não gostas de mim!
Gouveia
São terríveis as mulheres!
Gosto de ti, gosto, sim!
Mas não serve este lugar
Pra tais assuntos tratar!
Lola
Então daqui saiamos!
Vamos!
Todas
Vamos!
Há tantos dias, etc...
Lola — Vamos a saber: por que não tens aparecido?
Gouveia — Tu bem sabes por quê.
Lola — A primeira dúzia falhou?
Gouveia — Oh! não! Ainda não falhou, graças a Deus,
e por isso mesmo é que não a tenho
abandonado noite e dia! Não vês como estou pálido? como
tenho as faces desbotadas e os
olhos encovados? É porque já não durmo, é porque
já me não alimento, é porque não penso
noutra coisa que não seja a roleta!
Lola — Mas é preciso que descanses, que te distraias, que espaireças
o espírito. Por isso
mesmo exijo que venhas jantar hoje comigo, quero dizer, conosco, porque, como
vês, terei
à mesa estas amigas, que tu conheces: a Dolores, a Mercedes e a Blanchette.
As Três — Então, Gouveia? Venha, venha jantar!...
Gouveia — Já deve ter começado a primeira banca!
Lola — Deixa lá a primeira banca! Tenho um pressentimento de
que hoje não dá a primeira
dúzia.
As Três — Então, Gouveia, então? (Querem abraçá-lo.)
Gouveia (Esquivando-se.) — Que é isto? Vocês estão
doidas! Reparem que estamos no
Largo da Carioca!
Lola — Vem! Não te faças rogado!
As Três (Implorando.) — Gouveia!...
Gouveia — Pois sim, vamos lá! Vocês são o diabo!
Lola — Ai! E o meu leque?! Trouxeste-o, Dolores?
Dolores — Não.
Blanchette — Nem eu.
Mercedes — Tu deixaste-o ficar sobre a mesa, no Braço de Ouro.
Gouveia — Que foi?
Lola — Um magnífico leque, comprado, não há uma
hora, no Palais-Royal. Querem ver
que o perdi?
Gouveia — Se queres, vou procurá-lo ao Braço de Ouro.
Lola — Pois sim, faze-me esse favor. (Arrependendo-se.) Não!
se tu vais à Rua do
Ouvidor, és capaz de encontrar lá algum amigo que te leve para
o jogo.
Mercedes — E esta é a hora do recrutamento.
Lola — Vamos nós mesmas buscar o leque. Fica tu aqui muito quietinho
à nossa espera. É
um instante.
Gouveia — Pois vão e voltem.
Lola — Vamos! (Sai com as três amigas.)