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A filha de Maria Angu

artur azevedo

Adaptação brasileira da Opereta

LA FILLE DE MME. ANGOT DE SIRAUDIN, CLAIRVILLE E KONING

Música de Lecocq Nova edição, Alterada 1893

OPERETA EM 3 ATOS

Representada pela primeira vez no Rio de Janeiro, no Teatro Fênix

Dramática, em 21 de março de 1876, e, depois de alterada conforme esta edição, representada pela primeira vez na mesma cidade, no Teatro Santana, em 17 de março de 1894

Personagens:

Clarinha Angu
Chica Valsa
Ângelo Bitu
Sampaio
Barnabé
Sota-E-Ás
O Escrivão
Cardoso
Guilherme
Uma Autoridade
Um Tipo
O Juiz da Festa
Chica Pitada
Gaivota
Genoveva
Babu
Teresa
Leonor
Cidalisa
Mademoiselle X

Operários, jogadores, urbanos, festeiros, cocotes, soldados da polícia, pessoas do povo, etc.

A ação do 1º e 3º ato passa-se na freguesia de Maria Angu, e a do 2º na cidade do Rio de Janeiro, em 1876.

ATO PRIMEIRO

Praça pública em Maria Angu. A esquerda uma casa com este letreiro:

“Barnabé, barbeiro e sangrador. Apelica bixas.” Ao fundo, uma grande fábrica com

este letreiro: “Fábrica de Fiação e Tecidos Pinho & Companhia.”

Cena I

Botelho, Cardoso, Guilherme, Gaivota, Teresa, Operários depois Barnabé

Coro

— Que prazer,

Que alegria

Deve haver

Neste dia!

Pois Clarinha

Casadinha

Enfim nós vamos ver!

Os Homens (À esquerda.) — Olá! Olá! Barnabé! Olá!

Barnabé (Aparecendo à janela.) — Aqui estou!

Todos — O Barnabé lá está!

Barnabé — Já lá vou! (Desaparece.)

Uns — Que pressa tem!

Outros — Faz muito bem!

As Mulheres (À direita) —- Clarinha! Clarinha! Clarinha!

Babu (Aparecendo à janela.) — ‘Stá se aprontando a sinhazinha.

Todos — Que diz a mulatinha!

Babu — Mas não se pode demorar,

Pois o véu já foi colocar.

Barnabé (Saindo de casa, vestido de noivo.) — Gentis amigos meus

Aqui estou! Aqui estou!

Eu sou feliz, meu Deus!

Coplas

I

— Inda um sonho me parece

Tudo quanto aconteceu!

Toda a minha alma estremece

Estremece o peito meu!

Todo mundo agora inveja

O prazer que vou sentir...

Vou solteiro entrar na igreja

E casado vou sair!

Vendo as coisas neste pé,

Sinto dentro um quer-que-é!

Coro

— Nosso amigo Barnabé

Sente dentro um quer-que-é!

II

Barnabé

— Vai chegar a noiva amada

Nos seus trajes virginais!

Vai chegar envergonhada,

E mais bela, muito mais!

Meus senhores e senhoras,

Tenham compaixão de nós:

Não nos macem muitas horas...

Nós queremos ficar sós!

Vendo as coisas neste pé,

Sinto dentro um quer-que-é!

Babu (À Janela.) — Aí vai a noiva bela!

Barnabé — Ah! É ela!

Todos — É ela!

Cena II

Os mesmos, Clarinha Vestida de noiva e acompanhada pela madrinha de

casamento

Coro

— Aí! como vem galante!

Assim tão elegante

Ninguém há!

Meu Deus, está tão linda!

É mais bonita ainda

Vestida como está!

(Durante toda esta cena, Clarinha deve conservar os olhos baixos.)

Os Homens —Vem abraçar a gente!

As Mulheres — A nós primeiramente!

Barnabé —Vão amarrotar-lhe o vestido!

Abraça apenas teu marido!

Clarinha — Da mesma forma amarrotá-lo-ia!

Cardoso (Repelindo Barnabé.) — Sim! sim! Pra trás!

As Mulheres — Então Clarinha,

Que dizes tu desta festinha

Clarinha — Que digo eu?

As Mulheres — Fala!

Clarinha — Não sei.

Romança

I

— Meus qu’ridos pais, vós dissestes-me um dia

Que era preciso de estado mudar:

Contrariar-vos eu não pretendia,

E consenti sem me fazer rogar.

Mas, com franqueza, aqui digo e sustento

Que ignoro ainda em que vou me meter...

Que poderei dizer do casamento?

Eu nada sei, nada posso dizer...

Coro — Candura só Clarinha tem!

Barnabé — Ela nada sabe! Ainda bem!

II

Clarinha

— Aqui fiquei, orfãzinha inocente,

E resolvestes mandar-me educar;

Tudo aprendi, isto é, tão somente

O que uma moça não deve ignorar.

Fui até hoje ajuizada e modesta,

E de hoje em diante de certo o serei;

Mas só direi o que penso da festa

Quando souber, pois ora não sei...

Coro — Candura só Clarinha tem!

Barnabé — Ela nada sabe! Ainda bem!...

Botelho — Para a Matriz marchar sem mais demora!

Cardoso

— Para a Matriz? Cedo inda é!

Temos por nós inda uma hora,

Para cair num balancê!

Barnabé

— Vou para perto da Matriz,

Sentar-me vou no chafariz,

Pois junto ao templo do himeneu,

Mais paciência terei eu!

Coro

— Pois dito está!

Vamos pra lá!

Que prazer,

Que alegria

Deve haver

Neste dia!

Pois Clarinha

Casadinha

Enfim nós vamos ver!

Cena III

Os mesmos, Chica Pitada

Chica — Ouçam!

Todos — Que é?

Chica — Um obstáculo se opõe ao casamento!

Todos — Um obstáculo!

Barnabé — Bonito!

Chica — Não é nada de cuidado. Sossega, Barnabé, que não te foge a noiva! Tratase

de uma pequena contrariedade. Vou dizer o que tenho a dizer, mas é preciso que

Clarinha não esteja aqui. ( Levando-a para casa.) Entra por alguns momentos...

vai...

Todos (Entre si, murmurando.) - Que será? Um obstáculo!

Cena IV

Os mesmos, menos Clarinha e Babu

Guilherme — Vamos! Desembuche! Que há de novo?

Todos — Fale! Fale!

Botelho — Vamos, senão rebento!

Barnabé — Estou em brasas!

Chica — Lá vai rapazes! Sabem vocês que nos metemos em boas?

Cardoso — Quais boas, homem?

Chica — Quando a defunta Maria Angu morreu, pobre que nem Jó, ela que tinha

tanto dinheiro, e deixou no mundo uma filhinha que, com a graça do Senhor, nasceu

no Hotel Ravot, lá na Corte...

Todos — Sim, sim! E que mais?

Chica — Não estivemos com meias medidas, hein? Dissemos todos a uma: Já que

a pequena não tem pai, nem mãe, há de ser filha da gente cá da fábrica! Foi dito e

feito, rapazes! Vocês ficaram sendo pais (Às mulheres.) e nós, mães! Ora aí está!

Teresa — Até aí morreu o Neves.

Guilherme (Meio triste.) — Mas para que diabo vir cá lembrar essas coisas?

Chica — Essas coisa pouco têm que ver com o que lhes quero contar. O caso é que

trasantontem fizemos uma grande asneira.

Todos — Uma asneira!

Chica — Para podermos casar a pequena, como não havia certidão de idade, fomos

ao Senhor Vigário e declaramos que ela era filha do Alferes Angu e de sua mulher,

Dona Maria Ernestina de Carvalho Angu.

Todos — E daí?

Chica — Daí que a pequena tem vinte anos e há vinte e dois que o Alferes Angu

deu a casca!

Cardoso — Nem tal nos passou pela cabeça!

Botelho — Mas havia de passar pela do alferes...

Chica — Não me interrompam! Ontem mandaram uma carta anônima à comadre do

Senhor Vigário, dizendo que a Clarinha entrou neste mundo dois anos depois que o

pai saiu.

Barnabé — Que é lá isso? Então minha noiva não é filha do seu pai? De quem

então é ela filha?

Chica — Valha-me Nossa Senhora! Não há de ser do outro senão daquele sujeito

rico que lhe dava cama e mesa no Hotel Ravot.

Barnabé — A quem? Ao pai de minha?...

Chica — Não: à mãe... Era um barão muito rico!

Barnabé — Quem?... a mãe?...

Chica — Não: o pai!

Barnabé — O pai da minha noiva, um barão! Que honra, meu Deus! que honra para

um barbeiro sangrador! Ó seu Botelho, o pai, sendo barão a filha que vem a ser?

Botelho — Baroa!

Cardoso — Continue, tia Chica Pitada. Que tem a comadre do Senhor Vigário com

o que nos acaba de contar?

Chica — A comadre nada; mas diz o Senhor Vigário que é preciso por força

arranjar-lhe outro pai.

Todos — Ah!

Botelho — Se o noivo estiver pelos autos!

Barnabé — Eu? ora essa! Não me caso com o pai, caso-me com a filha!

Guilherme— E podes levantar as mãos para o céu! Aquilo é mesmo uma tetéia!

Gaivota — Nós, que lhe servimos de pai e mãe, não olhamos as despesas para darlhe

uma educação esmerada.

Cardoso — Foi criada como uma marquesa!

Chica — Podes dizer uma princesa, porque o foi no colégio das irmãs de caridade.

Guilherme — Razão pela qual ficou com um ligeiro sotaque francês que lhe dá

muita graça.

Teresa — E que juizinho o dela! Como é modesta... inocente!...

Barnabé — Oh! lá inocente é ela! Por isso meto eu as mãos no fogo!

Cardoso — E ainda te queixas?

Barnabé — Tão inocente que não se atreve nem a olhar para mim que sou seu

noivo!

Chica — Que diferença entre mãe e filha!

Barnabé — É verdade: vocês que conheceram como as palmas das mãos essa

famosa Maria Angu, que deu nome a esta freguesia, digam-me: é verdade tudo o

que contam a seu respeito?

Chica — Se é verdade? Ora essa! Ouve lá, meu rapaz!...

Coro

I

— Na fábrica do Pinho

Ainda a encontrei

Era um santo Antoninho,

Onde é que te porei!

Se acaso lhe tocava

Algum sujeito, zás!

(Deita as mãos nas ilhargas.)

Aqui as mãos botava

E agora vê-lo-ás!

Arrogante,

Petulante,

tendo uns cobres no baú,

Respondona,

Gritalhona,

— Era assim Maria Angu!

Coro — Arrogante, etc.;

II

Chica

— Andou por Sorocaba

Por Guaratinguetá,

Por Pindamonhangaba

Por Jacarepaguá.

Depois, em Caçapava,

Um certo capitão

Vendeu-a como escrava

E foi pra correção!

Paraíba

Guaratiba,

Chapéu d’Uvas, Iguaçu,

Itaoca

Aiuroca

Tudo viu Maria Angu!

Coro — Paraíba, etc.

III

Chica

— Enfim, por toda a parte

Depois de muito andar,

Sem mais tirte nem guarte

Na corte foi parar;

Um barão com grandeza

Por ela se enguiçou,

E deu-lhe cama e mesa

No grande Hotel Ravot!

Arrogante, etc.

Barnabé — Tudo isso é muito bom, mas vamos, vamos, que se vai fazendo tarde!

Eu sinto uma vontade de me casar...

Vozes (Fora.) — Viva o Imparcial! Viva Nhonhô Bitu!

Todos — Que é isto? Que barulho é este?

Chica — Ora o que há de ser? É o vagabundo do Nhonhô Bitu!

Guilherme — Quê! pois já saiu da cadeia?...

Teresa — Ele para lá na prisão!...

Cardoso — Não sei como diabo tece os pauzinhos! O Senhor Subdelegado, que

não é para graças, manda prendê-lo todas as semanas, e daí a três dias aparece de

novo o jornal!...

Gaivota — Mas por que o prendem?

Chica — Pois não sabes que ele é republicano, e escreve artigos contra o Senhor

Subdelegado, que faz o que entende? Manda quem pode! E a graça é que está

proibida a leitura do Imparcial, sob pena de três dias de prisão e multa

correspondente... a três meses!

Barnabé — Se esse pássaro de arribação se contentasse com escrever gazetas

contra a autoridade, era bem bom, mas arrastar a asa à minha noiva!...

Botelho — Lá nesse ponto, Barnabé, podes estar sossegado.

Guilherme — Ora adeus! cá estamos nós!

Os Homens — E também nós!

As Mulheres — E então nós? e então nós?

Barnabé — Vocês tem razão, meus estimados sogros e sogras; quando uma

rapariga tem tantos pais e tantas mães, não se deve temer um sedutor! (Rumor

fora.)

Bitu (Fora.) — Meu povo, daqui a nada aparece o Imparcial! A assinatura são cinco

mil réis por trimestre, pagos adiantados! Número avulso, cem réis! (Entrando.) Daqui

a pouco será distribuído o interessante e enérgico periódico o Imparcial! Vem

descompostura bravia! Viva a liberdade de imprensa!

Vozes (Fora.) — Viva! viva!

Cena V

Os mesmos, Bitu

Botelho — Então já saiu do xilindró, Nhonhô Bitu?

Bitu — Olé! que chiquismo!

Guilherme — Mais dia, menos dia, o senhor é enforcado ali ao Largo da Matriz!

Bitu — Não creia nisso, Mestre Guilherme; fui hoje solto pela qüinquagésima; mas é

muito provável que me prendam daqui a pouco, logo que se distribua o Imparcial,

para ser solto amanhã. E que fazem vocês, infelizes filhos de Maria Angu? Que

fazem vocês, que não reagem contra as arbitrariedades de um burlesco fanfarrão,

arvorado em autoridade policial? Mas, ora adeus! diz o ditado “o boi solto lambe-se

todo”; eu mesmo preso lambo-me bem...

Barnabé — Então você é boi?

Bitu — Já estabeleci na Câmara Municipal, isto é, na cadeia, o meu escritório de

redação.

Cardoso — Mas o senhor quem é e de onde veio, não nos dirá?

Bitu — Pergunta-me bem a quem não lhe pode responder. Todos sabem a minha

história, menos eu, que ignoro quem sou, de onde vim e para onde vou. Aqui onde

me vêem está um grande homem! Abraço as idéias do século e pugno pela nobre

causa da democracia! Em 1867 tentei proclamar uma pequena república na Ilha dos

Ratos! Foi a falta de metal sonante que me privou de fazer lavrar a minha santa

propaganda...

Barnabé (À parte.) — Santa propaganda! nunca vi esta santa na folhinha!

Bitu — Mas para que todo este aparato?

Barnabé (À parte.) — Um bonito nome! Propaganda!

Chica (A Bitu.) — Temos hoje um casório.

Barnabé (À parte.) — Quando tiver uma filha, hei de chamá-la Propaganda!

Botelho (Mostrando Barnabé.) — E o futuro está presente.

Bitu — Pois é este paspalhão? Estou passado!

Barnabé — Paspalhão é ele!

Bitu — Meus sinceros parabéns, mestre Barnabé.

Barnabé — Aceito os parabéns, mas engula, engula o paspalhão!

Bitu — Pois engulo, essa não seja a dúvida.

Barnabé — E não engolisse!

Bitu — E com quem se casa este pax-vobis?

Barnabé (Entre dentes.) — Insolente!

Cardoso — A noiva é nossa filha.

Chica — A filha dos operários da fábrica!

Todos — Clarinha!

Bitu — Clarinha? Ah! é a Clarinha? (Inclinando-se diante de Barnabé.) Nova edição

de parabéns!

Botelho — A propósito, meu escrevinhador de gazetas; tenho a lembrar-lhe que a

honra de nosso futuro genro nos é tão preciosa como a nossa, ouviu?...

Cardoso — E que se algum pelintra tivesse o desaforo de ... Percebe?

Guilherme — Tinha de se haver conosco, entende!

Os Homens — Com todos nós!

As Mulheres — E então nós!

Bitu — Que querem vocês dizes na sua?

Cardoso — Simples advertência, Nhonhô. Agora rapaziada, vamos embora!

Todos — Vamos embora!

Coro — Arrogante petulante, etc., etc., (Saem todos.)

Cena VI

Bitu (Só)

Bitu (Só.) — Com que então ela casa-se... apesar de todas as suas promessas,

apesar do juramento, que lhe fiz, de matar-me, se ligasse ao paspalhão do barbeiro!

Olhem que é mesmo um paspalhão! Mas, enfim, louvado Deus, não me hão de faltar

consolações, e, para prova, aqui está uma cartinha que acabo de receber pelo

correio. (Lendo.) “Senhor Ângelo Bitu. Uma pessoa que vela pelo senhor e se

desvela pelo seu bem estar, espera que depois d’amanhã se ache no Largo do

Rossio, na Corte, às quatro horas da tarde, junto ao quiosque que fica em frente à

Rua do Sacramento, e siga a preta velha que lhe disser: venho da parte daquela que

se desvela pelo senhor”. (Declamando.) E com tanta vela estou às escuras! Não

importa! Tomarei o trem das dez... Naturalmente esta carta é escrita por uma

mulher... (Cheirando a carta.) Isto não é cheiro de homem...

Rondó

— Eu gosto muito da Clarinha,

Mas não devo me entristecer,

Pois quero crer que esta cartinha

Consolação vem me trazer.

Este perfume capitoso

Revela esplêndida mulher,

Que, desejando arder em gozo,

Nos lábios seus, meus lábios quer!

Eu gosto muito da Clarinha,

E ser quisera o esposo seu;

Digam porém, se é culpa minha

Coisa melhor baixar do céu!

— Esta carta misteriosa

Me pôs, confesso, o juízo a arder!

A mão que fez tão bela prosa

Ansioso estou por conhecer!

Eu gosto muito da Clarinha;

Ela, porém, vai se casar...

Passou-me o pé a Sinhazinha,

Hei de lhe o pé também passar!

De mais a mais este mistério

o meu espírito agitou!

Para saber se o caso é sério,

No trem das dez à Corte vou.

Mas deixe estar, Dona Clarinha,

Que, se me passa agora o pé,

Um belo dia será minha,

Ligada embora ao Barnabé!

Cena VII

Bitu, Clarinha, Babu

Bitu (Á parte.) — Ela!

Clarinha (A Babu.) — Ouviste bem? Está alerta!

Babu — Eh, eh, Sinhazinha! Veja o que faz!

Clarinha — Fica ali na esquina, e, se os vires, vem dizer-me depressa.

Babu — Ah, Sinhazinha! No dia do seu casamento! (À parte.) O que fará depois?

(Sai.)

Clarinha (Indo resolutamente a Bitu.) — Então? Não me cumprimentas pelo meu

vestuário?

Bitu (Friamente.) — Minha senhora...

Clarinha — Não gostas de me ver assim vestida?

Bitu — Se queres que te fale com franqueza...

Clarinha — O caso é que a estas horas eu já devia estar casadinha da silva...

Bitu (Tristemente.) — Casada...

Clarinha — Mas achei um pretexto para demorar a cerimônia: escrevi uma carta

anônima ao vigário.

Bitu — E a cerimônia foi transferida à última hora?

Clarinha — Infelizmente a carta não produziu um resultado completo.

Bitu — E agora?

Clarinha — É preciso procurar outro pretexto; não achas?

Bitu — Se eu achasse, estava tudo arranjado.

Clarinha — Não te lembras de nenhum?

Bitu — O mais simples é este: declaras que morres por mim e que eu morro por ti;

que somos dois morrões, como dizia o outro.

Clarinha — Mas não me havias pedido que guardasse segredo?

Bitu — Então não sabes por quê? Porque nada sou, porque não tenho onde cair

morto... não passo de um simples jornalista da roça. A propósito: aqui tens o número

de hoje do Imparcial. Tem de ser distribuído daqui a pouco. Estou só a espera do

entregador; não o mostres por ora a ninguém.

Clarinha (Guardando o jornal.) — Eu já recusei dezenove pretendentes. Bem sabes

que meus pais e minhas mães fazem empenho em meu casamento com Barnabé.

Eu não tinha motivo algum para recusá-lo, e, se o recusasse, seria afligi-los. Que me

restava a fazer, se devo tudo àquela boa gente?

Bitu – Casas por gratidão, não é assim?

Clarinha – Não! não me caso, mesmo porque, se o fizesse, tu suicidavas-te.

Bitu (Tirando uma grande faca.) — E suicido-me!... (Como quem quer cortar o

pescoço.)

Clarinha — Acredito... acredito... guarda a faca! (Fá-lo guardar a faca.) Vê o dilema

em que me acho; se me caso, matas-te; se não me caso, desgosto a meus pais e

minhas mães. Ah! se minha verdadeira mãe estivesse em meu lugar, outro galo

cantaria!

Bitu — Quem? Maria Angu?

Clarinha — Era mulher decidida! Para ela não havia obstáculo possível!

Bitu — Como diabo se sairia a velha deste entalação?

Clarinha — É nisso que estou parafusando...

Bitu — Parafusemos...

Dueto

Ambos

— Esse pretexto desejado

Encontraremos, tu verás,

Pois diz um célebre ditado

Que a união a força faz.

Clarinha — Posso dizer que estou doente

Bitu — Isso não pega! Tens tão boa cor!

Clarinha — Vou procurar coisa melhor.

Bitu — Esse pretexto é deficiente.

Clarinha — Não! Não! Dificultoso está!

Maria Angu teria achado já!

Ambos — Maria Angu teria achado já!...

Bitu — Se o Barnabé, o teu futuro,

Exp’rimentar a força do Bitu?

Clarinha — Queres dar-lhe?

Bitu — Hein? que dizes tu?

Creio que enfim achei um furo!

Clarinha —Não! Não! Dificultoso está!

Maria Angu teria achado já!...

Ambos —Maria Angu teria achado já!...

13

Bitu

— Ao Barnabé prevenirás,

Para ver se te renuncia,

Que tu, mais dia menos dia,

O enganarás...

Clarinha — Isso se faz...

Mas sem se dizer.

Bitu — Então não sei que possamos fazer!

Clarinha

— Eu tenho um meio extraordinário

Que pode evitar tamanho desgosto:

No momento em que o S’or Vigário

Perguntar se caso por gosto,

Em vez de “sim”, eu direi ”não”!

Bitu — Tu dirás “não”?

Clarinha — Eu direi ”não”!

Bitu

—‘Stá dito então!

Ah! que alegria em mim nasce!

Quero beijar-te a rubicunda face!

Clarinha — Vê que estou vestida assim!

Não queiras beijos de mim!

Bitu

— Oh! que te importa o vestuário?

Ainda não foste ao Vigário!

Não me dás um beijo tu?

A teus pés morre o Bitu

Juntos

Bitu Clarinha

— Meu amor, não tenhas pejo! — Eu não quero, não desejo

Sem demora, dás-me um beijo Receber nem dar um beijo!

Ai, ladrão, não queiras tu Fica quieto, meu Bitu!

Que a teus pés morra o Bitu! Ai, meu Deus! Que fazes tu?

(No fim do dueto, no momento em que Bitu dá um beijo em Clarinha, Sampaio e o

Escrivão aparecem ao fundo. Os namorados fogem, ele para a esquerda e ela para

casa.)

Cena VIII

Sampaio, o Escrivão

Sampaio — Que é isto? Escândalos na via pública!...

Escrivão — Senhor Subdelegado, saiba Vossa Senhoria que aquele capadócio que

deu as de vila Diogo é ele!

Sampaio — Ah! é ele? Mas ele quem, seu escrivão?

Escrivão — Ele, o Ângelo Bitu, mais conhecido por Nhonhô Bitu.

Sampaio — O redator do Imparcial.

Escrivão — Tão certo como dois e três são trinta e dois às avessas.

Sampaio — Eu mandei-o soltar inda agorinha mesmo, e ele já aqui anda fazendo

das suas?!

Escrivão — Em soltá-lo é que Vossa senhoria faz mal; para aquilo galés perpétuas

por toda a vida e mais cinco anos!

Sampaio — Se aparecer de novo o pasquim, cadeia com ele!

Escrivão — Com o pasquim?

Sampaio — Com o Bitu, seu escrivão! Você é um bolas!... Bem como com todo

indivíduo ou indivídua que o ler em público!

Escrivão – As ordens de Vossa Senhoria serão cumpridas à risca. Mas eu achava

melhor desterrar o tal Bitu.

Sampaio – Qual desterrar nem meio desterrar ! Você é um bolas, seu escrivão! Por

artes de berliques e berloques, o tal rabiscador veio ao conhecimento de meus

amores com a Chiquinha Valsa... aquela rapariga da Corte, que parece francesa...

aquela que foi passear à Europa à minha custa?...

Escrivão — Na verdade, só por artes de berloques e berliques...

Sampaio — E você compreende que, se aqui sabem de minhas relações com

aquela mulher, vai tudo raso!

Escrivão — Se eu estivesse no lugar de Vossa Senhoria, bem pouco se me dava...

Ora! um subdelegado!

Sampaio — Você é um bolas, seu Escrivão! pois não vê que sou chefe de família?

Não tenho mulher, sou viúvo, mas adeus! aí estão três filhas solteiras... A propósito,

seu Escrivão: recebi hoje notícias que a Chiquinha voltou da Europa. É preciso

partirmos amanhã para a Corte. Vamos estabelecer de novo a banca, que há ano e

meio me rendeu bem bom cobre. Você acompanha-me para evitar suspeitas,

entende? E pode arranjar seu gancho, servindo de ficheiro...

Escrivão — As ordens de Vossa Senhoria serão cumpridas à risca.

Sampaio — O que pretendo fazer, antes de partir, é entender-me com o tal Bitu. Sei

que é um troca-tintas, e não hesitará em quebrar a pena, mediante algumas

pelegas.

Escrivão – Eu também estou convencido de que Vossa Senhoria alcançará mais

com pelegas do que com a cadeia. (Vendo vir Bitu.) Olhe, a ocasião é excelente...

ele aí vem..

Sampaio — Afaste-se, mas não vá para muito longe. Olhe que o cabra é capoeira!

Quando eu gritar...

Escrivão — Cadeia com ele! As ordens de Vossa Senhoria serão cumpridas à risca.

(Sai).

Cena IX

Bitu, Sampaio

Bitu — Separaram-se finalmente! Que amoladores serão estes?

Sampaio (Consigo.) — Não sei por onde hei de principiar...

Bitu (Consigo.) — Que grande maçante!

Sampaio (Consigo.) — Ora! pelo dinheiro! (Dirigindo-se a Bitu.) Não é o célebre

redator do acreditado periódico o Imparcial, ao Doutor Ângelo Bitu que tenho a

honra de...

Bitu — O próprio, menos o Doutor: não passei dos preparatórios.

Sampaio (Amável.) — Aceite minhas felicitações; sou entusiasta pelo seu talento...

admiro os seus bonitos artigos...

Bitu (À parte.) — Apanho uma assinatura!

Sampaio — Apontar os abusos, desmascarar os intrigantes, difundir a instrução é

muito bonito, é muito louvável, é... Mas o senhor tem sido muito injusto com um

cidadão conspícuo, pai de três filhas solteiras, que é constantemente injuriado nas

colunas do Imparcial.

Bitu — De quem se trata?

Sampaio — Do subdelegado desta freguesia. O senhor não o conhece...

Bitu — Não o conheço de vista, mas sei que é um refinado tratante!

Sampaio (Gritando.) — Senhor Bitu! (Vendo o Escrivão que espia ao fundo.) Vá

embora! não há novidade! (O escrivão desaparece.) O senhor sabe com quem está

falando?

Bitu — Não tenho a distinta...

Sampaio — Eu sou o subdelegado!

Bitu — o Sampaio?! ... Ah!Ah!...

Dueto

Bitu — Pois quê! é o Subdelegado?

Sampaio — Sim, senhor: Subdelegado!

Bitu

— Eu não tinha imaginado

Encontrá-lo agora cá!

Ah!ah!ah!ah!ah!ah!ah!

Sampaio — De que ri, não me dirá?

Bitu — Eu não ligava o nome...

Sampaio

— Eu cá não me constranjo

Para propor-lhe um bom arranjo:

É matar o Imparcial,

Suprimir o seu jornal!

Bitu (Altivo).— Nem quero responder!

Sampaio (Á parte.) — Tratante, eu cá te entendo!

(Alto.) Se um bom conteco eu lhe oferecer?

Bitu (Com dignidade) — Então, quer me comprar?

Senhor, eu não me vendo!

Sampaio — Pois bem! Dois contos! quer!

Bitu — Senhor!...

Sampaio — Então três contos, sim?

Bitu — Três contos...

Sampaio — Está dito?

Bitu (À parte.) — Três contos, safa! Um bom dote é bem bonito.

E não tem tanto o Barnabé!

Sampaio (À parte.) — Oh! Que bom! ele hesita! (Alto.) Eu já propus até

Três contos!

Bitu — Não!

Sampaio — Dou quatro!

Bitu — Não há meio!

Sampaio — Pois bem! pois bem! eu dou-lhe quatro e meio!

Bitu — Não! Eu quero inda mais!

Sampaio — Eu generoso sou.

Pois arredondo as contas e cinco dou!

Bitu — Cinco contos?

Sampaio — Pegou?

Bitu — Sim! aceito os cinco contos!

Sampaio — E o seu jornal acabará?

Bitu — O meu jornal acabou já!

Sampaio — E o senhor sai daqui?

Bitu — Já tenho os baús prontos!

Quero ser pago já e já!

Sampaio — Em minha casa o cobre está!

Juntos

Bitu Sampaio

— Sim senhor, fiz bom negócio — Sim senhor, fiz bom negócio

— Vou viver em santo ócio! Co’este grande capadócio!

Cinco contos eu ganhei! Cinco contos eu gastei,

Sou mais feliz que um rei! Porém melhor viverei

Brevemente estou casado! Posso agora sossegado

Viva o S’or Subdelegado Ser um bom Subdelegado!

Viva, viva o meu jornal! Morra, morra o tal jornal!

Viva, viva o Imparcial! Morra, morra o Imparcial

(Sampaio sai)

Cena X

Bitu, depois Babu

Bitu — Então, seu redator do Imparcial, sabe você o que acaba de fazer? Nada

menos que vender a sua pena! Vendê-la, sem! Mas em que há nisto mal? Para

velhaco, velhaco e meio. Eu gostava da Chiquinha Valsa como se pode gostar de

uma mulher bonita. É a brasileira mais francesa que eu conheço! Ela andava

também pelo beicinho, e, durante o tempo em que isso durou, passei uma vida de

Lopes. Um dia apareceu este subdelegado em casa dela. Eu disse-lhe que não a

queria em companhia de um matuto... Palavra puxa palavra... zangamo-nos... ela foi

para a Europa... e o resultado foi perder eu a mina! Resolvi vingar-me deste tipo!

Vim para cá, fundei o Imparcial, tenho-lhe dado bordoada de criar bicho, e agora

obrigo-o a gastar cinco contos de réis para tapar-me a boca. Isto é o que se chama

habilidade, e o mais são histórias!

Babu (Correndo) — Saia! Depressa! Depressa! Aí vem toda gente! (Reparando.) Uê!

Sinhazinha já foi?

Bitu — Já. Vai ter com ela, e dize-lhe de minha parte que já achei o pretexto que

procurávamos.

Babu — O ... quê?

Bitu — Pretexto. Não se pode falar com gente inculta!

Babu (Repetindo a palavra para lembrar-se.) — Pretexto... pretexto... pretexto...

pretexto... (Sai. Rumor fora.)

Bitu — Eles aí vêm! Coragem, Bitu! Um homem é um homem!...

Cena XI

Bitu, Cardoso, Guilherme, Botelho, Chica Pitada, Gaivota, Teresa, Barnabé,

depois Clarinha à janela

Cardoso — Não é preciso tanta pressa. Temos tempo.

Barnabé — Mas olhem que minha noiva deve estar com cuidados! Ela ignora o

motivo da demora do casamento, e a estas horas supõe talvez - coitadinha! - que

algum obstáculo mais importante nos prive da ventura de pertencer um ao outro!

Bitu — Se é só isso o que receia...

Botelho — Ainda o Nhonhô Bitu!

Bitu — Eu estava aqui à espera de todos vocês.

Todos — Ah!

Guilherme — À nossa espera!

Bitu — Aí vai tudo em duas palavras: casando-se aqui com o mestre barbeiro e

sangrador, Clarinha sacrificava-se à gratidão que lhes deve.

Barnabé — Que diz ele?

Cardoso — Cala a boca! (A Bitu.) Adiante!

Clarinha (Aparecendo à janela, à parte.) — De que pretexto lembraria ele?

Bitu — O que é verdade é que eu e Clarinha nos amamos!

Clarinha (À parte.) — Que ouço!

Bitu — Se até agora ocultei esta circunstância, é que estava pobre; mas hoje o

negócio muda de figura.

Clarinha (À parte.) — Hein?

Todos — Explique-se...

Bitu — Tenho cinco conto de réis!

Todos — Cinco contos de réis!...

Bitu — Portanto o que vocês podem fazer de melhor é dizer ao Barnabé que volte

às suas navalhas e ao seu sabão, e aceitar-me em seu lugar.

Barnabé — Ah!

Todos — Oh!...

Guilherme — Então, que dizem vocês a isto?

Chica — Digo é que tenho visto muito homem descarado, mas assim também,

não!...

Gaivota — Mas, dado o caso que Clarinha goste de você...

Barnabé — Deixe-se disso!

Gaivota — É uma suposição.

Todos — Sim... sim...

Gaivota — Quem é você? Donde vem? Para onde vai? Sabe dizê-lo?

Bitu — Querem saber quem sou? Sou um homem! Donde venho? Da Corte, onde

fui educado... Aonde vou? Aonde o destino e o meu cobre me levarem.

Teresa — E onde foi buscar esse dinheiro? Que cabras não tem...

Bitu — Esse dinheiro? Arranjei-o com o Imparcial!

Chica — Pois é esse papelucho que lhe dá cinco contos de réis?

Todos — Ora!ora!ora!

Chica — Então pensa que comemos araras?

Bitu — Mas eu asseguro-lhes que...

Cardoso — E quando assim fosse? Julga que vendemos nossa filha como você

vendeu sua folha?

Bitu — Mas eu já lhes disse que ela não gosta do Barnabé!

Barnabé — Isto revolta!

Cardoso — Cala-te, que vamos pôr tudo em pratos limpos. Precisamos entendernos

com ela.

Botelho — Sim, está claro.

Cardoso — E quanto a você, seu imparcial, fique na certeza de

que, se ela o ama, damo-lhes cabo do canastro!

Clarinha (À parte.) — Que ouço! (Deixa a janela.)

Guilherme E se ela não o ama, degolamo-lo! (Saem.)

Bitu ( Á parte.) — Estou metido em bons lençóis; enfim.

Barnabé (Voltando.) — Sim! se ela o ama.

Bitu (Ameaçando.) — Ai mau! ai mau!...

Barnabé (Fugindo.) — Eu não!... Eu não!... (De longe.) ... dão-lhe cabo do canastro!

(Sai)

Cena XII

Bitu (só)

Bitu — Ah! seu Bitu, não bastam cinco contos para se alcançar quanto se deseja! E

tinha você precisão de comprar a felicidade quando ela se lhe oferece grátis?

(Mostra a carta.) Acaso esta mulher, que tão depressa esqueci, este anjo misterioso

que vela e se desvela por mim, exige cinco contos de réis? Ingrato! Idiota!... para teu

castigo suprimirás a tua folha, mas também não receberás semelhante dinheiro, que

te escaldaria as mãos!

Cena XIII

Bitu, um Tipo, pessoas do povo

O Tipo — Ali está ele! ali está ele!

Bitu — Bonito! Aí chegam alguns dos meus assinantes!

O Tipo — Viva o redator do Imparcial!

Todos — Viva! Viva Nhonhô Bitu!

Bitu — O Imparcial morreu, meus senhores! (À parte.) E sacrifico toda esta

popularidade!

Todos — Hein?

Bitu — Morreu!

O Tipo — Não pode ser! De hoje em diante quem defenderá os interesses da

freguesia?

Bitu — Procurem outro. Não esperem nada de mim. Amanhã piro-me para a Corte.

Todos — Ah!

O Tipo — Tu prometeste distribuir agora o jornal!

Bitu — Já lhes disse o que tinha a dizer!

Todos — Oh!

Final

Coro

— Nhonhô Bitu, venha o jornal!

Sem mais tardar queremos lê-lo!

Se não aparecer , a gente vai-te ao pêlo!

É já

Pra cá

O Imparcial!

Cena XIV

Os mesmos, Cardoso, Guilherme, Botelho, Clarinha, Chica Pitada, Gaivota,

Teresa, Operários

Operários — Que será? Por que tanto alarido?

Assinantes — É Bitu que falta ao prometido!

Operários — Bitu é coisa ruim

E o seu jornal pasquim!

Assinantes — Não! não! não! não!

É antes um poltrão!

O Tipo — Não quer mais uma vez

Dormir lá no xadrez!

Clarinha (À parte.) — O Imparcial aqui vou ler

E deste modo me faço prender!

Coro

— Mas ele prometeu, e nós queremos já!

Venha o jornal, senão apanhará!

O jornal! o jornal!

Nhonhô Bitu, venha o jornal, etc.

Clarinha(Lançando-se no meio de todos.) — Ouçam lá!

Barnabé — Que vens aqui buscar?

Clarinha

— Desse jornal que tanto faz gritar

Eu consegui um número arranjar!

Tenho-o cá,

E posso lê-lo já!

Bitu (À parte.) — Que diz ela!

Operários — Tu, a leres na rua!

Barnabé — E isso à hora de casar!

Cardoso

— Pois esta pombinha sem fel

Tem a lembrança singular

De ler na rua este papel!

Coro — Sim! vai ler e nós vamos ouvir!

Mas ela vai para a prisão...

Bitu (À parte.) — Eu tremo!

Clarinha — Haja atenção!

Cena XV

Os mesmos, o Escrivão, que entra e observa cautelosamente tudo quanto se passa

Coplas

I

Clarinha (Lendo o jornal.)

— Esta maldita freguesia

De um grande abismo à beira está

Não tem o povo garantia,

Moralidade aqui não há!

O famoso subdelegado

Do cargo seu não quer cuidar,

Porque leva esse desgraçado

Todas as noites a jogar!

É isto, leitores, pregar no deserto,

E não vale a pena, não vale, decerto,

Qu’rer dar remédio a tanto mal

No independente Imparcial!

Coro — É isto, leitores, pregar no deserto, etc.

O Escrivão (À parte.) — Ora espera! (Sai.)

II

Clarinha

— Conquanto viúvo e já cansado,

E com três filhas a educar,

Tem o Senhor Subdelegado

Uma mulher particular.

Lá na Corte essa tipa mora,

Casa de muito luxo tem...

Tudo quanto ela deita fora

Paga este povo e mais ninguém!

É isto, leitores, pregar no deserto, etc.

Cena XVI

Os mesmos, o Escrivão, Soldados

Escrivão — Prendam esta senhora!

Coro — Céus!

Bitu

— Isso não quero eu!

Alego sem demora

Que aquele artigo é meu!

Escrivão e Soldados — Para a prisão sem tardar!

Bitu — O preso devo ser eu!

Escrivão e Soldados — Para a prisão sem tardar!

Bitu — Pois se aquele artigo é meu!

Escrivão e Soldados — Para a prisão sem demorar!

Barnabé — Ai! fica o noivo em casa só,

E a noiva vai pro xilindró!

Clarinha

— Deixem, deixem que me prendam!

Vou contente pra prisão!

Não dispute, não contendam!

Assim quer meu coração!

Bitu

— Oh! entreguem-na ao desprezo!

Vossem’cês não têm razão!

Sou eu que devo ser preso,

Eu que devo ir pra prisão!

Barnabé e Operários

— Oh! meu Deus, que coisa feia

Ir Clarinha pra prisão!

E livrá-la da cadeia

Ai! não está na nossa mão!

Escrivão

— Prendam, prendam sem demora!

Não aceito apelação!

Levem, levem a senhora

Direitinha pra prisão!

(Durante este coro, grande movimento. O Escrivão arrasta Clarinha, enquanto os

soldados cruzam as baionetas contra o povo, que se quer opor à prisão.)

[(Cai o pano.)]

ATO SEGUNDO

Sala muito rica. Portas laterais e ao fundo. Candelabros com luzes.

Cena I

Cocotes, sentadas aqui e ali; entre elas Cidalisa, Leonor, e Mademoiselle X;

Sampaio, de pé, depois, Chica Valsa.

Coro de Cocotes

— É decerto muito engraçado

O que acaba de nos contar!

Realmente faz espantar

O poder de um subdelegado,

Que até mesmo pode matar!

Se bem que em lugar afastado

Se desse o caso singular,

É decerto muito engraçado

O que acaba de nos contar!

Sampaio — Pois é verdade, minhas senhoras; foi assim que o caso se passou, em

plena praça, e com uma rapariga que ia casar naquele dia!

Leonor — Na roça dão-se coisas!

Mademoiselle X — C’est incroyable!

Cidalisa — Mas que escândalo!...

Sampaio — Não há como ser subdelegado lá fora! Faz-se o que se quer, e mais

alguma coisa!

Chica Valsa (Entrando.) — Seu Sampaio, veja se fala de outra coisa. Não há mais

assunto para a conversa senão a sua subdelegacia?

Sampaio — Lá na freguesia eu posso quero e mando! Um vagabundo, vendo que

aqui na Corte não arranjava farinha, arvorou-se em redator de gazeta, foi para lá, e

fundou um pasquim, o Imparcial.

Chica Valsa (À parte.) — É ele!

Sampaio — O patife embirrou comigo, e toca a dar-me bordoada. Tenho apanhado

como boi ladrão. No último número descobriu os meus amores aqui com a

Chiquinha...

Chica Valsa (À parte.) — Deveras? (Alto.) Se você não fosse se gabar lá na roça do

que faz aqui na cidade...

Sampaio — Eu gabar-me! Por meu gosto ninguém o sabia! Tenho três filhas

solteiras!

Cidalisa — Adiante.

Sampaio — O tratante descobriu também que eu ia todas as noites jogar o vira-vira

em casa de Lopes Boticário, e pôs-me a calva à mostra. Se eu não tivesse

autoridade e se não tivesse dinheiro, estava a estas horas desmoralizado!

Mademoiselle X — C’est incroyable!

Sampaio — Mas que fiz eu? Proibi a leitura do Imparcial em público sob pena de

cadeia!

Todas — Oh!...

Sampaio — Depois encontrei o troca-tintas a jeito e, vendo que com a cadeia nada

arranjava (pois já o tinha mandado prender meia dúzia de vezes) prometi-lhe cinco

contos de réis para acabar com o pasquim e bater a linda plumagem.

Chica Valsa — E ele aceitou essa proposta?

Sampaio — Aceitou, mas depois disso já saiu mais um número do jornaleco... e até

essa data ele ainda não foi buscar os cobres.

Chica Valsa(À parte.) — Pois Bitu faria isso? (Alto.) Então? Joga-se ou não se joga

hoje?

Mademoiselle X — Mais, dame! Le rende-vouz est à minuit!

Sampaio — O meu escrivão foi prevenir os parceiros para a meia-noite. O Sota-e-ás

incumbiu-se de trazer mais alguns.

Chica Valsa — O diabo é a polícia... Moramos num lugar tão público! Para evitar

suspeitas, lembrei-me de iluminar a casa para um baile, como estão vendo.

Sampaio — É o diabo! os morcegos não dormem!

Chica Valsa — Tive outra lembrança. Os sujeitos que vêm cá jogar são muito

conhecidos da polícia. Preveni-lhes que trouxessem barbas postiças e casacões.

Com os senhores urbanos é preciso muita cautela.

Mademoiselle X — C’est incroyable!

Chica Valsa — São finos como lã de cágado!

Coplas

Chica Valsa — Respeitai os senhores urbanos!

Coro — Os urbanos!

Chica Valsa

— Não são pra graça tais maganos;

Tem olho vivo, espertos são,

E contra nós, paisanos,

Em guarda sempre estão!

I

— Como um corcel bem ardido a galope.

A morcegada avante vai!

Ninguém com ela tope,

Porque por terra cai!

Se acaso encontra uma senhora,

Bem pouco se lhe dá! esteja muito embora!

Aqui é cutilada!

Ali é pescoção!

Pontapé! Cabeçada!

Cachaça! Bofetão!

Coro — Respeitai os senhores urbanos, etc.

II

Chica Valsa

— Já não se pode estar tranqüilamente

Jogando numa reunião:

Na sala de repente

Os morcegos estão!

Abre de par em par a porta

A morcegada, e investe, arranha, fere e corta!

Uns correm pr’este lado

E os outros para ali!

Metida em tal assado

Mais de uma vez me vi!

Coro — Respeitai os senhores urbanos, etc.

Cena II

Os mesmos, Sota-E-Ás

Sota — Boa noite! boa noite! Cada vez mais béias, mais areebatadoias!(A Chica

Valsa.) Góia à deusa desta casa! (A Mademoiselle X.) Bom soir; passez-vous bien?

Mademoiselle X — Oh! quel français! C’est incroyable!

Sota — Fancês muito bom! Aprendi-o no Acazá! Tou arrebatado! Boa noite, seu

Sampaio... você tá na presença de um home arrebatado! (Dá um pulo e pisa

Sampaio.)

Sampaio (Gritando.) — Oh! muito arrebatado!

Mademoiselle X — Quelle grâce!

Cidalisa — Como ele pula!

Leonor — E como cai tão chique!

Sampaio — Em cima do meu melhor calo! Muito obrigado!

Sota — Eu sei puiá! E dançar! Quem dança na Cote como eu? Sou um dançarino!

(Dá viravoltas.)

Chica Valsa — O que admiro é sua imprudência de entrar aqui a estas horas, sendo

jogador conhecido e sabendo que a polícia...

Sampaio — E que os urbanos...

Sota — Olha! A polícia! os urbanos! Passei no meio deis!

Todos — No meio deles?

Sota — Acotovelando-os assim! (Acotovela-os.)

Sampaio — Mas o senhor estava só?

Sota — Sozinho com a graça de Deus e meu poder executivo! (Brande a bengala)

Mademoiselle X — Aussi beau que charmant!

Cidalisa — E como é leve!

Sota — Como uma pena! Qué vê? (Vai para pular, Sampaio pega-lhe no pé.)

Sampaio — Deixe disso!

A voz de Barnabé — Deixem-me entrar! deixem-me entrar!

Chica Valsa — Quem é? Quem é? (Entra Barnabé esbaforido, com uma mala

debaixo do braço.)

Cena III

Os mesmos, Barnabé

Barnabé — Com licença, minha senhora... Desculpe... é que...

Sampaio (À parte) — Valha-me Nossa Senhora! É o barbeiro lá da freguesia!

(Escondendo-se atrás de uma cadeira.) Vem atrás da noiva. Não há que ver!

Chica Valsa — Quem é este homem? que deseja?...

Barnabé — Minha senhora... preciso falar-lhe... eu... minha noiva...

Chica Valsa — Tome fôlego, senhor!

Sota — Como ei tem os cabelos eriçados!

Chica Valsa — E o olhar esgazeado!

Todos — Fale! fale!

Sampaio (À parte.) — Estou metido em boas!

Barnabé — Se tenho os cabelos esgazeados e o olhar eri... não!... o olhar

esgazeia... não...

Chica Valsa — Veja lá no que fica!

Barnabé — É que me sucedeu uma grande desgraça!...

Chica Valsa — E que tenho eu com isso?

Barnabé — Ia casar-me com um anjo que adorava, e...

Chica Valsa — E foi traído?

Barnabé — Por ora não; mas ouça: no próprio dia de nosso casamento, ela foi

presa por ler uma gazeta que se imprime lá na freguesia, apesar de estar proibida a

leitura pelo subdelegado. No outro dia quiseram soltá-la e não a encontraram mais

na prisão. O escrivão do juiz de paz, a quem costumo ir aos queixos, contou-me

tudo: minha noiva fugiu aqui para a Corte em companhia do senhor subdelegado.

Chica Valsa — Mas de onde é o senhor?

Barnabé — Eu sou de Maria Angu!

Chica Valsa — E o subdelegado chama-se?

Barnabé — Chama-se Seu Sampaio;

Chica Valsa — Ah!

Barnabé — Ora, como O senhor subdelegado, sempre que vem à Corte, hospedase

em sal casa, eu vim pedir-lhe, Senhora Dona, que...

Sampaio (À parte.) — Estou arranjadinho...

Barnabé — Oh! se a senhora conhecesse a minha noiva... É tão inocente,

coitadinha... Acredite que não fez aquilo por mal.

Romance

I

— Ela é muitíssimo inocente!

Supôs que não fizesse mal,

E pôs-se a ler o Imparcial

Pra que o ouvisse toda a gente!

Não julgou ser coisa imprudente

Em alta voz ler um jornal,

De mais a mais imparcial!

Ela é muitíssimo inocente!

II

— Ela é muitíssimo inocente;

Tem bem formado o coração;

Não tinha visto a proibição.

E foi filada incontinente!

Dói-me bastante vê-la ausente,

Porém não devo recear

Que alguém ma possa conquistar!

Ela é muitíssimo inocente!

Chica Valsa — Muito bem! Onde está o Senhor Sampaio? (Vendo-o.) Que faz aí

escondido? Venha, que temos contas a ajustar! (Sampaio sai do seu esconderijo.)

Sota — C’est bon ça... c’est bon ça...

Barnabé — (Vendo Sampaio.) - Olé! Vai dar-me contas de minha noiva! (Avança.)

Sota (Suspendendo-o.) — Não se deite a perder!

Sampaio (Atrapalhado.) — Espere, senhor! Vou explicar-lhe tudo. (À parte.) Esta

gente não entende de justiça: posso mentir a meu gosto. (Alto e arrogante.) Nós

somos subdelegado, entendem? Muito bem! A noiva deste senhor leu publicamente

um jornal cuja leitura havíamos por bem proibir entendem? Tratava-se de uma

menor branca e de bons costumes...

Barnabé — Eu arrebento!

Sota — Não rebente!

Sampaio — O código não previne este caso..

Barnabé — Eu é que o previno de que...

Sota — Não se deite a perder. É a polícia que tá faiando. (A Sampaio) Continue a

polícia...

Sampaio — Nós, como tínhamos que vir para a Corte, trouxemos a presa conosco.

Barnabé — Nós quem?

Sampaio — Nós eu! Quando a autoridade fala, é nós!

Chica Valsa — Adiante!

Sampaio — Trouxemo-la conosco... e temo-la em depósito... Vamos apresentá-la ao

chefe de polícia. (À Parte.) Foi bem sacada!

Chica Valsa — Sabe que mais? Vá buscá-la!

Sampaio — Hein?

Chica Valsa — Bem te conheço, quaresma mas não posso jejuar! Como o senhor,

contando-nos a prisão dessa moça, não nos disse que a tinha trazido? Ande! vá

buscá-la! (A Barnabé.) Você volte logo.

Barnabé — E a senhora promete-me?...

Chica Valsa — Sim, sim, mas volte logo!

Barnabé (Já risonho.) — Então vou ver as figuras de cera na Guarda-velha, e

volto.(Vai saindo e dá um encontrão em Sampaio.)

Sampaio — Irra!... (Atira-o sobre Sota-e-ás.)

Sota (Empurrando-o.) — Passa f´óia!

Barnabé — Perdoem! (Sai.)

Chica Valsa — Esta rapariga é bonita?

Sampaio — Fazenda.

Chica Valsa — Foi um achado. Vá buscá-la.

Sampaio — Mas...

Chica Valsa — Não ouve? Nós o queremos!

Sampaio — É que...

Chica Valsa — Eu também sou autoridade!... eu também sou nós!...

Sampaio — Eu vou... eu vou... (Sai.)

Chica Valsa — Seu Sota, você hoje tem ocasião de falar ao Barão de Anajamirim?

Sota — Talvez

Chica Valsa — Diga-lhe que pode vir ver aquilo de que falamos. Olhe, vá procurá-lo.

Adeus, até a meia noite. Não falte!

Sota — Vou num pulo! Como um zéfiro!... (Antes de sair, dirige-se à Mademoiselle X

e dá-lhe um pequeno embrulho.) O Amará lhe manda esse presente. Vem uma

cartinha dento. Adieu! Adieu! (Sai dançando.)

Chica Valsa (Às cocotes.) — Vocês por que não vão até o jardim do cassino que é

tão perto? Ainda é cedo; até as onze e meia há tempo para fintar um paio.

Leonor — Ou mesmo dois! (Às outras.) Vamos?

Todas — Vamos! Até logo..

Cena IV

Chica Valsa, depois Genoveva

Chica Valsa (Só.) — O Sampaio e o jogo não me bastam. A incumbência é

lucrativa, e não é a primeira que desempenho com felicidade. Se a pequena é

realmente bonita, o barão me pagará bem... Hoje é um dia completo! Só me falta o

meu Bitu!...

Genoveva (Entrando.) — Minh’ama, Senhô Sampaio trouxe uma moça vestida de

noiva, que está esperando que vossemecê a mande entrar.

Chica Valsa — Já?! O tal depósito era perto! Diga-lhe que entre!

Genoveva (À parte.) — Entre, Sinhá! (Sai.)

Cena V

Chica Valsa, Clarinha

Clarinha (Ao fundo, consigo.) — Como isto é bonito!... Que luxo!... Como se deve

viver bem aqui!...

Chica Valsa — Aproxime-se, moça!

Clarinha — Aqui estou, minha senhora!

Chica Valsa — Chegue-se mais!... (Reparando.) Gentes!

Clarinha — Que vejo!

Chica Valsa — Clarinha!

Clarinha — Tu aqui?! Conheces a dona da casa?...

Chica Valsa — A dona da casa sou eu...

Clarinha — Será possível?...

Chica Valsa — Nunca ouviste falar na célebre Chica Valsa? Sou eu!

Clarinha — Tu?... Mas no colégio chamavam-te Chiquinha Morais...

Chica Valsa — Deitei fora a moralidade, e o povo entrou a chamar-me Chica

Valsa, porque ninguém valsava como eu nos bailes do Pavilhão.

Clarinha — E o caso é que ficaste, mais do que eu, com este sotaquezinho que nos

deixou a educação entre franceses.

Chica Valsa — Eu faço de propósito para que tomem por francesa.

Clarinha — Eu já tenho perdido todo o sotaque.

Chica Valsa — Mas conta-me a tua história, pelo menos de anteontem para cá.

Clarinha — É muito engraçada. Queriam casar-me contra a minha vontade com o

mestre barbeiro lá da terra.

Chica Valsa — Continua.

Clarinha — Ora, eu não podia nem casar-me nem deixar de me casar.

Chica Valsa — Como assim?

Clarinha — Primeiro que tudo, porque há lá um bonito rapaz que julgo preferir...

Chica Valsa — Que julgas?

Clarinha — Que... prefiro, se assim o queres.

Chica Valsa — Agora entendo.

Clarinha — Segundo que tudo, esse rapaz tinha jurado matar-se, se eu me casasse

com o barbeiro!

Chica Valsa — E tu acreditaste nisso, criança?

Clarinha — Se o conhecesses? É um rapaz destemido... meio maluco! — Esse

casamento era imposto pelos, operários da fábrica do Pinho, que me educaram...

Chica Valsa — Lembra-me bem: teus pais e tuas mães. Como vão eles?

Clarinha — Bem, obrigada. Enfim, para sair do embaraço em que me via, só tive um

meio: deixe-me prender lendo um jornal cuja leitura...

Chica Valsa — Eu sei disso. Foi uma boa idéia.

Clarinha — O subdelegado foi à minha prisão, achou-me bonita, e perguntou-me: —

Menina, quer ir para a Corte comigo? — Eu disse aos meus botões: Uma vez na

Corte, escrevo ao meu namorado, reunimo-nos, casamo-nos,... aceitei a proposta do

subdelegado.

Chica Valsa — E daí?

Clarinha — Daí, cá estou. Passarei pelo perigo e ficarei incólume, compreendes? O

que não sei é para que me trouxeram à tua casa. Ele havia-me alugado um quarto

no Hotel dos Príncipes.

Chica Valsa — Mas que lembrança a tua!

Clarinha — Lembranças as que tínhamos no colégio, hein? Aquilo sim!..

Chica Valsa — Ah! bom tempo! bom tempo!

Clarinha (Suspirando) — O colégio!..

Chica Valsa (Suspirando.) — O colégio...

Dueto

Juntas

— Tempo feliz da infância pura,

Em que há mamãe, em que há papai!

Tanto prazer, tanta ventura,

Fugiu veloz, bem longe vai!

Chica Valsa

— Lembrada estás quando fui ao portão

Pra conversar cum estudante

Do qual conservo ainda — e por que não?

Muita cartinha interessante?

Clarinha

— Lembrada estás de um professor

Que, me encontrando um dia a jeito,

Apertou-me contra o seu peito

E quatro beijos me pregou?

Chica Valsa — E felizmente o tal sujeito

Com isso só se contentou...

Juntas — Tempo feliz da infância pura, etc.

Chica Valsa — Hoje aqui — deixa que te diga!

Passo uma vida de invejar!

Clarinha — Eu não invejo, minha amiga,

O teu viver de lupanar!

Chica Valsa

— Ah! naquele belo tempo,

Que passou, não volta mais,

Eu dar-te-ia esta resposta

Na linguagem dos teus pais:

(Pondo as mãos à ilharga.)

Eh! Olá! Não grimpes, não!

Ou retiras a expressão,

Ou co’esta mão

Dou-te muito pescoção

Clarinha

— Eu poderia responder

(mesmo jogo de cena.)

Vosmecês não querem ver

Esta tipa sem pudor,

Negociando o seu amor,

E vendendo a quem mais der

Seus encantos de mulher!

Juntas — Ai que prazer!

Chica Valsa — Isto é melhor, pudera não!

Do que a linguagem de valão!

Juntas

Ah! ah! ah! bonitas coisas

No colégio fui saber,

E hoje em dia,

Todavia,

Tenho ainda que aprender!

Que prazer a infância dá!

Outro assim não há!...

Chica Valsa

Lembrada está de alguns dizeres

Que sem querer fui saber eu?

Diziam que teu pai morreu

Dois anos antes de nasceres

Clarinha

Lembrada estás de certa história

Que foi bem pública e notória

No bom tempo que lá vai?

Nós não soubemos nunca o nome de teu pai!

Juntas — Ah! ah! ah! bonitas coisas, etc.

Chica Valsa — Tu serás muito feliz, muito feliz, Clarinha; quem to assegura sou eu.

(À parte.) O resultado é duvidoso...

Cena VI

As mesmas, Genoveva, depois o Escrivão

Genoveva (Entrando.) — Minh’ama, posso falar a vossemecê?

Chica Valsa — Por que não?

Genoveva — A vossemecê só?

Chica Valsa — Que temos?

Genoveva — Uma preta velha, acompanhada por um moço, que querem falar a vossemecê. Estão no corredor.

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