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ATO PRIMEIRO

Sala de visitas em casa de Valentina. Duas portas de cada lado e duas janelas de sacada ao fundo. À esquerda do espectador, sofá; ao lado deste, poltrona. À direita, escrivaninha, com preparos para escrever. Cadeiras, consolos com porta-jóias, estatuetas, quinquilharias, etc. Nos intervalos das portas, gravuras ricamente emolduradas. Reposteiros de lã em todas as portas e cortinas de rendas às janelas. Piano. Tapete. Lustre de gás. É dia.

Cena I

Valentina, Um Sujeito

(Valentina está sentada na poltrona, de penteador branco. O sujeito de pé, pronto para sair, de chapéu na cabeça, tem uma das mãos entre as dela.)
VALENTINA — Adeus. De mim não se esqueça
Nem do número da porta.
O SUJEITO — Não.
VALENTINA — Se, de saudades morta
Me não quer ver, apareça.
O SUJEITO (Aborrecido.) — Adeus.
VALENTINA — Adeus. (Ele vai saindo.) Até quando?
O SUJEITO (Parando.) — Prometo voltar bem cedo.
VALENTINA — Não minta.
O SUJEITO — Não tenhas medo!
Pois eu vivo em ti pensando. (Sai.)

Cena II

Valentina, só

[VALENTINA] — Pensando em mim!... Na verdade,
o tempo emprega bem mal,
(Abrindo o envelope que o sujeito lhe tem deixado nas mãos.)
Sim senhor, foi liberal.
Quanta generosidade!...
(Erguendo-se, e como que dirigindo-se ao sujeito que acaba de sair.)
Bem! cá fica arquivado
no livro dos preciosos... (Tirando três cédulas do envelope.)
Que três bilhetes formosos!
Fazem-lhe falta... Coitado...
Sei de dois credores seus
que a porta não lhe abandonam,
e sei também que tencionam
mandar citá-lo... (Outro tom.) Ora, adeus!
Deixemos estas lembranças...
Fechemos a porta à chave...
(Vai fechar a porta da esquerda, segundo plano, e voltando à cena, vai abrir uma das gavetas da secretária.)
E, nesta solidão suave,
vamos tratar de finanças.
Esta semana rendeu!
A receita, com certeza,
cento por cento a despesa
nestes dias excedeu.
(Senta-se à secretária, donde tira um monte de notas de banco, que põe-se a contar.)
Dez, vinte, trinta, quarenta,
cento e quarenta, duzentos,
trezentos, e quatrocentos,
quinhentos e cinqüenta,
seiscentos... — Que nota antiga!
Não estará recolhida? (Guarda pressurosa o dinheiro, por ouvir bater à porta.)
Quem está aí?
GUSTAVO (Fora.) — Sou eu, querida!
VALENTINA (Erguendo-se.) — Gustavo?
GUSTAVO (Fora.) — Sim, minha amiga.
(Valentina vai abrir a porta a Gustavo, que entra.)

Cena III

Valentina, Gustavo

VALENTINA (Apertando-lhe a mão)
— Não te esperava já, palavra de honra!
GUSTAVO — Já?
Querias que eu ficasse eternamente lá?
VALENTINA — Deste-te bem?
GUSTAVO — Então? Não vês como estou nédio?
Para o blazé não há mais eficaz remédio
do que passar um mês de vida regular
onde os prazeres são difíceis de encontrar.
O físico e o moral a roça purifica:
tens precisão também da roça, minha rica.
(Repoltreando-se na poltrona.)
Dize-me cá: tem vindo o deputado?
VALENTINA (Encostando-se ao espaldar da poltrona.)— Tem.
GUSTAVO — O João Ramos?
VALENTINA — E o Pimenta?
VALENTINA — Também.
GUSTAVO — Que bons amigos tens! Sou eu que tos arranjo!
Em consideração deves tomar, meu anjo...
VALENTINA (Descendo à cena.)
— Pois queres mais dinheiro?! És exigente.
GUSTAVO — Sou;
mas vê lá também a roda que te dou!
VALENTINA (Sentando-se à direita.)
— Não trouxeste o melhor dos que aqui vêm agora.
GUSTAVO — Quem é? Não é segredo?
VALENTINA — Um tipo que me adora!
Um fazendeiro rico e velho que supõe
ser ele só que os pés em minha casa põe.
GUSTAVO (Com interesse.)
— E onde foste encontrar esse tesouro raro?
VALENTINA — No Prado Fluminense. Eu vi-o, deu-me o faro,
sorri-lhe, ele sorriu-me... Eu dei-lhe o meu cartão..
Veio. Adora-me e... crê que tenho coração.
GUSTAVO — Um fazendeiro é mina; e quanto mais se explora,
mais ouro dá!... Pois bem, caríssima senhora,
- não é por me gabar - acredito que o seu
é muito bom, mas tenho um ótimo!
VALENTINA — Tu?
GUSTAVO — Eu.
VALENTINA (Erguendo-se.) — Onde ele está?
GUSTAVO (Idem.) — Depois... depois nós falaremos...
VALENTINA — Mas que custa dizer?
GUSTAVO — Tempo de sobra temos.
VALENTINA — Mas dize-me...
GUSTAVO — Não posso agora; logo mais
voltarei.
VALENTINA —‘Stás com pressa?
GUSTAVO — Estou.
VALENTINA — Aonde vais?
GUSTAVO — Subi só por te ver. Espera-me um amigo
que convidado está para almoçar comigo.
VALENTINA — Bem; vai e volta.
GUSTAVO — Dá-me uns cinqüenta mil-réis.
VALENTINA (Vai à secretária e conta o dinheiro.)
— Com muito gosto. É já... Dois, quatro, cinco, seis...
Dez e dez vinte, e trinta... Ah! Cinqüenta... Pega!
(Dá o dinheiro a Gustavo que o guarda.)
GUSTAVO — Obrigado. Até logo! (Sai por onde entrou.)
VALENTINA — Adeus. (Só.) Supõe-me cega...
Com tal balela quis uns cobres me apanhar!
(Fechando a porta.) Enfim... Vamos a ver... Bem posso me enganar.

Cena IV

Valentina , só

(Senta-se de novo à secretária, abre-a e recomeça a contar dinheiro.)
[VALENTINA] — Terminemos esta conta...
Três contos... quatro e quinhentos...
e seiscentos... setecentos...
Quase a cinco contos monta
desta semana a receita!
Vamos conferir... (Toma a pena.) O Ramos
deu-me na quarta... - Escrevamos -
oitocentos de uma feita...
(Escrevendo.) “Oitocentos”. (Pensa.) O Pimenta
aquele broche me deu
que há três dia me rendeu
trezentos e cinqüenta...
Entregou-me o deputado
todo o subsídio. Que bolo!...
É justo: um fútil, um tolo,
que só diz “muito apoiado”
e ganha um conto e quinhentos. (Escreve.)
Deu-me no dia seguinte
Mais quatro notas de vinte...

O Sá tem dado trezentos...
O fazendeiro... (Batem à porta.) Quem é?
Já lá vou!
(Guardando o dinheiro que estava espalhado.)
Deve estar certo...
Levo isto ao Banco, que é perto,
daqui a pouco. (Batem de novo.) Olé! Olé!
Com que pressa está!
O JOALHEIRO (Fora.) — Estou!
Não se acha em casa a senhora?
VALENTINA — Se quer, espere!
O JOALHEIRO (Fora.) — A demora
é pequenina.
VALENTINA — Lá vou.
(Vai abrir a porta: entra o joalheiro com uma caixa de jóias na mão.)

Cena V

Valentina, O Joalheiro

VALENTINA — Ah! é o senhor!
O JOALHEIRO (Abrindo a caixa, deixa ver um formoso par de bichas de brilhantes.)
— Ora veja!
VALENTINA — Vem aqui tentar-me, aposto!
O JOALHEIRO — Não tentei nunca, nem gosto
de tentar quem quer que seja.
(Entregando a jóia a Valentina que a examina.)
Venho mostrar-lhes uns brilhantes
como os Farâni não os tem;
Se os quer comprar, muito bem!
Se os não quer, passo adiante.
Não tento... não sei tentar...
Apenas lhos ofereço...
Nem sequer os encareço...
Isto é pegar, ou largar!
Veja bem que são granditos!
Sem jaça... veja... sem jaça...
Examine... veja... faça
O que quiser.
VALENTINA — São bonitos!
O JOALHEIRO — ‘Stou a vendê-los disposto:
se lhos vim mostrar agora,
é porque sei que a senhora
pode comprar, e tem gosto.
Não tento... tentar não vim...
VALENTINA (Fechando ao caixa.) — E baratinho mos vende?
O JOALHEIRO — Ora, a senhora compreende
que dois brilhantes assim...
de dez quilates!... É boa!
VALENTINA (Abrindo de novo a caixa.) — Dez quilates?
O JOALHEIRO — Está visto!
VALENTINA — Porém quanto valem?
O JOALHEIRO — Isto
não são brilhantes à toa!
VALENTINA — Bem vejo! Que tentação!
(Vai ao espelho e chega uma das bichas à orelha.)
O JOALHEIRO — Não são jóias de mascates,
brilhantes de dez quilates...
sem jaça... como estes são!...
VALENTINA — Mas o preço?
O JOALHEIRO — Ora, avalie...
A senhora os tem comprado...
VALENTINA (Descendo.) — Quatro contos!
O JOALHEIRO (Tomando a jóia.) — Obrigado!
Por favor não calunie
os meus brilhantes! (Mostrando-lhos.)Repare!
Cravados em dois anéis,
davam dez contos de réis!
Ambas as pedras compare:
são iguais... não vale a pena
separar...(Fecha a caixa.) Dou-lhe os marrecos...
VALENTINA — Por quanto?
O JOALHEIRO — Por seis contecos.
A diferença é pequena...
VALENTINA — Não tenho dinheiro agora;
leve os brilhantes. Adeus! (Vai sentar-se à direita.)
O JOALHEIRO — Ora por amor de Deus!
Que não mos pague a senhora,
mas algum...

Cena VI

Valentina, O Joalheiro, Joaquim Carvalho

(Joaquim Carvalho entra pela esquerda, segundo plano, sem reparar no joalheiro que, de costas voltadas para ele, limpa as bichas com o lenço.)
CARVALHO — Cá vou entrando.
(Tomando as mãos ambas de Valentina.)
Como estás?
VALENTINA — Bem, obrigada.
Mas de saudades ralada...
e você nem se lembrando
talvez que existo!
CARVALHO (Protestando.) — Ó minha...
(Vendo o joalheiro interrompe-se.)
Quem é aquele senhor?
VALENTINA — Um caixeiro.
CARVALHO — Manda-o pôr
a panos.
VALENTINA — Uma continha
vem receber, e não há
com que pagar...
CARVALHO — Não me espanta!
Gastas tanto, minha santa!
Queres dinheiro? (Tirando a carteira.) Aqui está.
Quanto lhe deves?
VALENTINA — Pouquito:
oitenta mil réis.
CARVALHO — É pouco. (Dando-lhe uma nota de cem mil réis.)
Paga, e fica tu com o troco,
enquanto eu leio o Mosquito.
(Senta-se à direita e lê um periódico de caricaturas que vai buscar sobre a secretária. Valentina dirige-se ao joalheiro.)
O JOALHEIRO (A meia voz.) —‘Stá terminado o negócio?
VALENTINA (Idem.) — Vá para casa, que em breve
alguém procurá-lo deve.
O JOALHEIRO — Se não estou eu, está meu sócio.
Se uma decisão dar pode...
VALENTINA — Irei eu mesma em pessoa
em meia hora!
O JOALHEIRO — Essa é boa!
Não quero que se incomode,
nem tenho mais pretendentes...
VALENTINA — Em meia hora lá estou.
O JOALHEIRO — Bem! bem! descansado vou.
VALENTINA — Até logo1 (O joalheiro sai por onde entrou.)

Cena VII

Valentina, Joaquim de Carvalho

CARVALHO (Deixando periódico.) — Impertinentes
são estes credores!
VALENTINA — São
por isso é que me coíbo
de dever muito;
CARVALHO — E o recibo?
Pediste-lho?
VALENTINA — E por que não?
(Aproximando-se de Carvalho e passando-lhe o braço em volta do pescoço.)
Por que não vieste esta noite?
Ai, que saudades eu tive!
Para a mísera que vive
de teu amor, fero açoite
é tua ausência! Sozinha
a noite inteira passei...
Lembrei-me tanto... Nem sei
mesmo por quê...
CARVALHO — Coitadinha!
VALENTINA (Sentando-se num tamborete, aos pés do Carvalho.)
— Porém. vamos lá saber:
e tu?... tu como passaste?
CARVALHO — Assim...
VALENTINA — De mim te lembraste?
CARVALHO — De ti me posso esquecer?
E tu?
VALENTINA — Muito despeitada...
CARVALHO — Por que, meu bem?
VALENTINA — Faze idéia:
desejar uma tetéia
e não poder... Que maçada!
CARVALHO — Não poder o quê?
VALENTINA — Comprá-la.
CARVALHO — Por que comprá-la não podes?
VALENTINA — Pois pensa que a dão de godes?
CARVALHO — Se é muito cara, deixá-la!
VALENTINA — É difícil esquecer!
CARVALHO — Dificuldades não vejo...
VALENTINA (Erguendo-se.) — Sufocar o meu desejo!
Matá-lo logo ao nascer!
Esquecer! Fora um suplício!
Pois desejar hei de em vão! (Batendo o pé.)
Oh! não! não!... Mil vezes não!...
CARVALHO (Erguendo-se.) — Mas eu não digo...
VALENTINA (Evitando-o.) — Outro ofício!
CARVALHO — Menina, não te exacerbes!
Se queres a tal tetéia,
não me faças cara feia,
que dentro em pouco a recebes!
(Tomando o chapéu que deixou na cadeira perto da secretária.)
Dize-me o que é que num salto,
vou buscá-la. Dize! o que é?...
VALENTINA (À parte.) — Parece estar de maré...
Preparemos este assalto!...
CARVALHO — Algum chapéu enfeitado
pras corridas de amanhã?
Algum vestido de lã?
VALENTINA (Com desprezo.) — Lã.
CARVALHO — Ou seda.
VALENTINA — ‘Stá enganado.
É um capricho.
CARVALHO (Deixando o chapéu.) — Ah! caprichas?
VALENTINA — Procure.
CARVALHO — É coisa que enfeita?
VALENTINA — É uma cosa que se deita
nas orelhas!
CARVALHO — Umas bichas?
VALENTINA — Tem talento: adivinhou!
(Senta-se no sofá.)
CARVALHO — Nas orelhas... Pois quem julga
não sejam bichas? (À parte.) Coa pulga
atrás das minhas estou.
De que são as bichas?
VALENTINA — Ora!
CARVALHO (À parte.) — Estes caprichos aleijam...
VALENTINA (Erguendo-se.) — Pois há bichas que não sejam
de brilhantes?
CARVALHO — Sim, senhora:
há bichas de coralina;
há de esmeralda, safira,
de pingos d’água...
VALENTINA — Mentira!
CARVALHO — Não me desmintas, menina!
Aos teus desejos conforme
‘stou, mesmo quando caprichas;
mas entre tetéias e bichas
há uma diferença enorme!
VALENTINA — Em quê?
CARVALHO — No preço: a tetéia
é sempre coisa miúda,
e as bichas, Deus nos acuda!
VALENTINA — Nem tanto assim!
CARVALHO — Faço idéia
que essas, que desejas tanto,
custam dois contos!
VALENTINA (Irônica.) —Ou três!
Sem os brilhantes talvez...
CARVALHO (Benzendo-se.) — Padre, Filho e Esp’rito Santo!
VALENTINA — Valem dez contos de réis;
o dono, que é meu amigo,
além de freguês antigo,
deixa-as...
CARVALHO — Por quanto?
VALENTINA — Por seis.
CARVALHO — Seis contos!
VALENTINA — Então não valho
seis contos, meu... Que chalaça!
Não me lembra a tua graça!
CARVALHO (Sombrio.) — Joaquim dos Santos Carvalho.
VALENTINA — Meu Quincas, meu Carvalhinho,
meu primeiro amor!
CARVALHO (À parte.) — Tramóias.
VALENTINA — Uma mulher que quer jóias
é o mesmo que o nenezinho
que quer balas!
CARVALHO (À parte.) — Não sou zebra,
que, se quer balas alguém,
compra-as a três por vintém;
e recebe uma de quebra. (Alto.)
Menina, deixa os brilhantes
para essas escandalosas
que contam dúzias e grosas
de indiferentes amantes.
Tu, meu bem, que não és destas,
que só me tens, que não vives
para prazer dos ouvires,
compra umas bichas modestas...
VALENTINA (Desdenhosa.) — Modestas...
CARVALHO — Iguais a umas
que comprei para a Qué-qué...
VALENTINA (Arrebatadamente.) — Oh! essa Qué-qué, quem é?
Quero saber!
CARVALHO — Não presumas
que seja alguma cocote:
é minha mulher.
VALENTINA — Se acaso
me mentes, vai tudo ao raso!
CARVALHO — Eu, nem mesmo em rapazote
Nunca menti.
VALENTINA (Acariciando-o.) — Ó meu Quincas!
(Desatando a chorar.) Mas ah! que não me conheço!
Imploro... peço... Pareço
uma mendiga!
CARVALHO (Tomando-a nos braços com interesse.) — Tu brincas!
VALENTINA — E quem me avilta? É este homem
que tanto amor me inspirou!
Que mais me resta? Que sou?
Minhas ilusões se somem,
e para sempre! Não voltam!
Cruéis desenganos surgem!
Contra mim os céus de insurgem
e os infernos se revoltam!
Amor! qual amor! É peta!
(Soluçando.) E eu, desgraçada! que adore... (Senta-se no sofá.)
CARVALHO (Aproximando-se dela com mimo e bonomia paterna.)
— ‘Stás tal e qual a Ristóri
na Maria Antomieta
VALENTINA (A fingir um ataque de nervos.) — Ah! Ah!..
CARVALHO — Meu Deus! o que é isto?!
VALENTINA (A espernear.) — Socorro!...
CARVALHO (Percorrendo a cena.) — Jesus!
VALENTINA — Socorro!
Eu morro!
CARVALHO (Atarantado.) — Qual morres!
VALENTINA — Morro!
Quem me acode?
CARVALHO — Jesus Cristo!...
Que devo fazer? Eu vou...
Queres médico?
VALENTINA — Decerto.
CARVALHO — Há doutor por aqui perto?
Corro a chamá-lo!
(Na ocasião em que toma o chapéu, Valentina ergue-se.)
VALENTINA — Passou.
CARVALHO (Deixando o chapéu.) — Pois os médicos da corte
são bens bons; basta fazer
tenção de os chamar, pra ver
o doente livre da morte!
VALENTINA (Depois de alguns momentos, angustiada.)
— A provação foi atroz...
Foi cruel o sofrimento...
Porém, desde este momento
não há mais ente nós.
(Sai pela direita, segundo plano.)

Cena VIII

Carvalho, só

[CARVALHO] (Depois de alguma pausa.)
— Se eu não fosse um covarde,
que bela ocasião para me por a andar...
(Pegando o chapéu,) Ainda não é tarde!
Nem um momento mais eu devo aqui ficar!
(Dispõe-se a sair, e para, olhando para a porta por onde entrou Valentina.)
Encerrou-se na alcova!
‘Stá soluçando a triste... o seu amor maldiz...
Oh! que eloqüente prova
de que ela me estremece e de que sou feliz!
(Colocando o chapéu sobre uma cadeira e o sobretudo nas costas da poltrona. Resoluto.)
Não! não sairei! Fico!...
Mas a colheita?... a safra? os filhos e a mulher?
Eu sou bastante rico
e posso demorar-me o tempo que quiser!
Fui sempre ótimo pai, fui ótimo marido:
é muito que um momento eu me esqueça de mim?
Hei de voltar melhor assim fortalecido...
Oh! maldito o momento em que a cidade vim!
(Pausa.) E se eu pilhado for coa boca na botija?
Não me posso entender!
Não sei para que lado os passos meu dirija!...
sou preso por ter cão e preso por não ter!
(Dirigindo-se à porta por onde saiu Valentina.)
Ela está mal comigo... as pazes fazer vamos...
Prometo dar-lhe a jóia; e, quando a vir, direi
que é muito cara... e tal... Depois nós combinamos!
E uma jóia barata então lhe comprarei...
(Ajoelha-se à porta.) Vamos lá... vamos lá... Meu anjo... Valentina...
dentre os soluços teus soluça o meu perdão
Não zangues-te, meu bem; não chores mais, menina...
Abre-me a porta, já... Vem cá, meu coração!

Cena IX

Carvalho e Valentina

(Valentina está pronta para sair. Tem os olhos vermelhos. Dirige-se à secretária e guarda em uma bolsa que traz na mão as notas de banco, que tira da gaveta sem que Carvalho veja.)
CARVALHO — Menina, dos calcanhares
olha que não me levanto
nem mesmo a cacete, enquanto
teu perdão me não lançares!
(Valentina acaba de guardar o dinheiro e desce à cena, fingindo que chora, mas rindo-se à socapa. À parte.)
Coitadinha! que lamúria!
VALENTINA — Sei que não tenho o direito
de exigir nenhum respeito,
de perdoar uma injúria...
Vocês têm razão: enxerguem
na mulher que cai somente
a meretriz impudente,
que nem as lágrimas erguem.
Tem graça o perdão! De rastros,
sou eu que devo alcançá-lo!
(Ajoelha-se também. Ficam ajoelhados defronte um do outro.)
Sou perdida e quis amá-lo!
Sou lama: quis ir aos astros!
CARVALHO — Um astro és! És minha lua,
és minha lua querida!
VALENTINA — Sua sombra, refletida
num charco imundo da rua,
serei...
(Ergue-se e vai sentar-se na poltrona.)
Meu pobre passado!
Tu onde estás? onde fostes?
- Dá licença que me encoste
ao seu capote? - Obrigado.
Eu tive a flor dos maridos...
Que quer? Não havia meio
de amá-lo! Um dia deixei-o.
deu um tiro nos ouvidos!
Como mariposa inquieta,
pousei aqui e ali...
Amar jamais consegui...
mas encontrei-te... poeta!...
(Vai arrebatadamente colocar-se outra vez de joelhos, defronte de Carvalho.)
CARVALHO (Admirado.) — Poeta!...
VALENTINA — Poeta, repito!
A ti não parecia;
mas tinhas tanta poesia!...
Escuta: não és bonito...
já não és novo, sequer...
És calvo, tens nariz grande;
mas nisso mesmo se expande
meu coração de mulher.
Não sou vulgar... amo o horrível,
e és horrivelmente belo!
Ao teu carão amarelo
meu coração foi sensível...
Um instante me pareceu
- mas, ai de mim, me enganara -
que tu, com tão feia cara,
deverias ser só meu!
(Erguendo-se.) Sim, o velho mundo espante-se
e belas razões deduza:
seis contos você recusa
a tanto afeto! — Levante-se!
CARVALHO (Erguendo-se.) — És um anjo!
VALENTINA — E você é...
CARVALHO — Teu escravo!
VALENTINA — É um verdugo!
Entretanto, Victor Hugo
disse: Oh! n’insullez jamais...
CARVALHO — Então? Estou perdoado?
VALENTINA — Estás, que tudo se esquece.
(Vendo que Carvalho limpa os olhos.)
Choraste?
CARVALHO — Se te parece!
Falas como um advogado!
Onde é que as bichas se vendem?
Vou buscá-las.
VALENTINA (Mudando inteiramente de tom.) — Meu amigo,
o ouvires vem ter contigo
e vocês dois cá se entendem.
CARVALHO — Quem o manda?
VALENTINA — Eu.
CARVALHO — Deveras?
VALENTINA — Eu fiquei de lá ir. (À parte.) Como
tenho de ir ao banco, tomo
um carro e vou lá. (Alto.) Esperas?
CARVALHO — Espero.
VALENTINA (Beijando-o.) — Adeus.
CARVALHO — Sedutora!
(Saída falsa de Valentina, pela esquerda, segundo plano.)
Se eu não puder arredar-me,
conto que hei de desforrar-me
pela colheita vindoura.
(Senta-se no sofá.)
VALENTINA (Voltando.) — Outra bicota. (Beija-o.) Mais duas!
A chama do amor me abrasa!
Ainda não saí de casa,
já tenho saudades tuas!
(Vai saindo e para.) Não queres ler um pouquinho?
CARVALHO — Quero, sim.
VALENTINA — Olha, aqui tens...
(Dá-lhe o Mosquito e dirige-se para a porta da esquerda, segundo plano.)
CARVALHO (Deitando-se.) — Enquanto tu vai e vens,
eu fico lendo o Mosquito.

[Cai o pano]


ATO SEGUNDO

A mesma decoração

Cena I

Carvalho, só

[CARVALHO] (Está ainda deitado no sofá; dorme e sonha alto, muito agitado. O Mosquito está caído a seus pés.)
— Ai! o que é isto? O que é?
Não me agarrem!... Não me puxem!...
Que mais querem!... Desembuchem!...
Não creias nisso, Qué-qué!
(Levanta-se do sofá e desperta, atônito.)
Hein? Que foi?... Ah! era um sonho
Um sonho... não há que ver...
Já me lembro: estava a ler
o Mosquito... Foi medonho
o pesadelo! Primeiro,
sonhei que havia chegado
à fazenda, e visitado
senzala, alpendre, chiqueiro,
horta, engenho, etcet’ra e tal.
Depois fui ter coa patroa...
Os sonhos são coisa à toa,
pois que não é natural
que eu, se à fazenda chegasse,
do que à madama, primeiro
senzala, alpendre, chiqueiro,
horta e pomar visitasse.
No momento justamente
em que os meus lábios se uniram
aos lábios dela, surgiram,
donde não sei, de repente,
mulheres assim... assim...
(Gestos indicando que eram muitas.)
Altas, baixas, magras, cheias;
belas umas e outras feias,
que se acercaram de mim!
Contei dez... mais dez... mais dez!
Saía uma por uma
do teto... do chão... Em suma,
a alma caiu-me aos pés!
Pr’agravar o pesadelo,
dessa tropa feminina
vinha à frente Valentina,
em desalinho o cabelo,
e às outras dizia assim:
“ — Segurem-me esse tratante!
Não sabem que é meu amante
e que se afastou de mim?...”
E as outras me carregavam!
Davam-me beijos... abraços...
Disputavam-me nos braços;
aos trambolhões me levavam!
“— Levem-no; tenho o direito
de disputar o seu amor,
pois amo-o... amo-o!...” Senhor!
que pesadelo! No leito
a Qué-qué se revolvia...
Teve mais um faniquito!
Dava gritos! Cada grito
que um surdo despertaria!
Nisto acordei; já de pé,
protestos inda fazia,
e à pobre Qué-qué dizia:
“— Não creias nisso...”
(Batem à porta da esquerda, segundo plano.)
Quem é?
O JOALHEIRO (Fora.) — Um criado de Vossa Senhoria
CARVALHO (Consigo.) — É o sujeito das bichas. (Alto.) Pode entrar.

Cena II

Carvalho, O Joalheiro

O JOALHEIRO — Com licença, senhor. Muito bom dia.
CARVALHO — Bom dia. Faz favor de se sentar.
(Senta-se e indica-lhe uma cadeira.)
O JOALHEIRO — Estou a gosto.
CARVALHO — Sente-se.
O JOALHEIRO (Sentando-se.) — Obrigado.
CARVALHO (À parte.) — Olho vivo! Tem cara de judeu..
As bichas, o senhor....
O JOALHEIRO (Erguendo-se.) — Um seu criado...
CARVALHO — ... é que vem...
O JOALHEIRO — Sim, senhor...
CARVALHO — ... mostrar?
O JOALHEIRO — Sou eu.
CARVALHO — Queira sentar-se. Faz favor de dar-mas?
O JOALHEIRO (Tirando a caixa do bolso e abrindo-a. Senta-se)
— Aqui as tem. Perdão! (Limpa-as mais uma vez.)
CARVALHO (À parte.) — Vejam com o tratante apronta as armas!
(O joalheiro entrega-lhe a jóia, que ele examina com atenção.)
O JOALHEIRO — São bonitos, não acha?
CARVALHO — Acho que são;
mas também acho exorbitante o preço.
O JOALHEIRO — Exor... Meu caro, por amor de Deus!
que preço lhe disseram?
CARVALHO — Seis!
O JOALHEIRO — Não desço
um real. Veja bem!
CARVALHO (À parte.) — Estes judeus!
O JOALHEIRO (Erguendo-se.)
— Que me conste, até hoje aqui não houve
dois brilhantes assim!
Donos deles fazer-me aos céus aprouve;
porém... pobre de mim!
Muitos há que desejam possuí-los;
mas seu valor não dão...
E na vidraça os míseros tranqüilos
por muito tempo permanecerão!
(Pausa durante a qual Carvalho continua a examinar os brilhantes, mas com indiferença.)
Estes brilhantes tinham mais preço
em dois grandes anéis;
mas não nos quero separar. O preço
sãos seis contos de réis.
Se não achar de todo nesta terra
quem os queira comprar,
vou vendê-los à c’roa de Inglaterra
que os não há de enjeitar.
(Toma os brilhantes, coloca-os nas orelhas e passeia pela sala como uma senhora.)
Veja que belos são! De conta faça
que uma senhora sou:
Veja que alvura!... que ladrões sem jaça!
CARVALHO — Por quatro contos dá-lo quer?
O JOALHEIRO — Não dou;
CARVALHO — Então, amigo, não fazemos nada:
perde o seu tempo e perde o seu latim...
(À parte.) Se eu me livrar puder desta rascada,
hei de um terço rezar a São Joaquim,
meu glorioso patrono.
O JOALHEIRO (À parte, embrulhando a caixa.) — A sirigaita
disse-me que o velho dava-me os seis paus;
ela supõe que berimbau é gaita...
Não se lembra que os tempos vão tão maus...
Hei de sempre falar-lhe... talvez queira...
(Alto, guardando a jóia.)
Até mais ver, senhor.
CARVALHO — Passasse bem!
O JOALHEIRO — A palavra já disse derradeira!
Não dá mais nada, não?
CARVALHO — Nem mais um vintém.
(O joalheiro cumprimenta e sai por onde entrou.)

Cena III

Carvalho, só

[CARVALHO] — Seis contos! seis contos! Irribus!
É mesmo muito dinheiro!
Trabalho um semestre inteiro
para seis contos ganhar,
e devo sem mais preâmbulos
gastá-los com Valentina?
Sai muito cara a menina;
não devo continuar...
mas serei bastante enérgico
pra fugir desta voragem?
Bater a linda plumagem,
ir para junto dos meus?
Lembrar-me dos meus negócios?
dos meus compromissos tantos?
de Valentina aos encantos
dizer pra sempre adeus?...
Seis contos! São seis apólices
pra garantir o futuro:
de cinco por cento ao juro
hão de trezentos render!
No fim de quinze anos, chega-se,
com juros acumulados,
a ter dez contos guardados
para o que der e vier.
Seis contos! compra-se um prédio,
que se aluga a dez por cento!
E, afinal, num bom momento
dez contos por ele dão!
Cinco bons escravos mandam-se
vir do Norte de encomenda,
que, a trabalhar na fazenda,
vinte por cento darão!
Eu bem sei que a jóia, cáspite!
por seis contos não ‘stá cara;
é de uma beleza rara:
o homem no preço está.
Of’reci-lhe uma miséria,
e muito acertadamente;
por quatro contos somente
jóias dessas ninguém dá.
(Senta-se na poltrona junto da secretária e fica a meditar com a cabeça entre as mãos e os cotovelos fincados nas coxas. Aparecem à porta da esquerda, segundo plano, Valentina e o joalheiro, que não são pressentidos por Joaquim Carvalho.)

Cena IV

Carvalho, Valentina, O Joalheiro

VALENTINA (A meia voz.) — Ele ali está!... Psiu... sentido!
Vá pra sala de jantar...
(Encaminha-o na ponta dos pés, para a porta da esquerda, primeiro plano.)
Queira um instantinho esperar,
enquanto a questão decido.
O JOALHEIRO (A meia voz.) — Senhora, se acha isso caro...
Não tento... Tentar não vim...
VALENTINA (No mesmo tom.) — Entre e espere. É já. (O joalheiro desaparece.)
Enfim!
(Logo que o joalheiro desaparece, Valentina machuca o chapéu e desmancha um pouco o penteado.)
É preciso este preparo...
(Desde à cena fingindo estar desesperada, e falando em voz muito alta.)
Desaforo! Não se atura
Tamanha pouca vergonha!
CARVALHO (Arrancado de súbito de sua meditação.)
— Valha-me Deus! vem medonha.
VALENTINA (Passeando de um lado para o outro.)
— Fiz uma bela figura!

Cena V

Carvalho, Valentina

CARVALHO (À parte.) — Ele já sabe de tudo...
Temo-la travada!
VALENTINA (Na mesma agitação, senta-se na poltrona e amarrota e rasga o lenço.)
— Inferno!
CARVALHO (À parte.) — Está tão zangada,
que incontinente me mudo...
(Pega no chapéu e dispõe-se a sair sorrateiramente.)
VALENTINA (Levantando-se rapidamente.) — Faça favor!...
CARVALHO — Valentina...
VALENTINA (Imperiosamente.) — Venha cá!
CARVALHO (Aproximando-se timidamente.) — Cá estou
VALENTINA — Aqui!
Como o senhor nunca vi
homem tão tolo e sovina!
Vá-se embora, se quiser,
nem mais um segundo tarde!
Mas saiba que é de um covarde
maltratar uma mulher!
Pois se é tão pobre o senhor,
que meia dúzia de contos
não tem na carteira prontos,
e deles possa dispor,
por que razão prometeu
dar-me uma jóia?...
CARVALHO — Eu te digo...
VALENTINA (Passeando agitada.) — Supu-lo tão meu amigo...
CARVALHO (Acompanhando-a.) — E eu não sou amigo teu?
VALENTINA — Encontrei ali na esquina
o joalheiro! Se ouvisse
as coisas que ele me disse!
CARVALHO (No mesmo.) — Mas ouve cá, Valentina...
VALENTINA — Julga o senhor por acaso
que eu não tenho quem me dê
seis... vinte contos?! não vê!
Sou eu que não faço caso
de muitos banqueiros que andam
a fazer-me roda!... Ontem
(deixá-los que desapontem:
não recebo o que me mandam!)
um lá da Rua Direita
que fez fortuna a galope,
mandou-me num envelope
um conto! Fiz-lhe a desfeita
de não querer: devolvi-lho!
CARVALHO — Ele não te conhecia?
VALENTINA — Não senhor.
CARVALHO — Foi covardia:
maltratou-te! Ai, que se o pilho!
VALENTINA — Covardia foi a sua!
Uma covardia enorme!
CARVALHO — Mas ouve, afinal!
VALENTINA — Expor-me
ao ridículo na rua!
Escute, senhor... Seu nome?
Sempre me esquece!...
CARVALHO — Carvalho
Pra evitar este trabalho,
aqui tem um cartão. (Dando-lhe.) Tome.
VALENTINA — Escute: se o senhor fosse
um pobretão, um mendigo;
se não trouxesse consigo
os contos de réis que trouxe,
o mesmo afeto lhe tinha,
a mesma atenção lhe dava,
o mesmo agrado mostrava,
o mesmo gosto mantinha!
Mas o senhor está bem...
Antes o não estivesse...
CARVALHO (À parte.) — Esta agora! se eu soubesse
não tinha gasto vintém...
VALENTINA — Em minha casa que paga
julga o senhor, porventura,
a amizade santa e pura
desta infeliz que o afaga?
Pois saiba que o seu dinheiro,
se o gasta, não é comigo!
CARVALHO — Pois eu não gasto contigo?
VALENTINA — Não, senhor. Ouça primeiro
e depois fale à vontade.
(Fazendo-o sentar-se à força na poltrona.)
Sente-se... Vamos! convenha...
Acha provável que tenha
mais doce comodidade
em qualquer outra poltrona?
CARVALHO — Não acho, não, certamente
que este cômodo excelente
nenhuma outra proporciona.
VALENTINA — Bem! agora venha cá.
(Fá-lo erguer-se da poltrona e deitar-se no sofá.)
Deite-se... deite-se! Assim!
CARVALHO (Deitado.) — Mas que queres tu de mim?
VALENTINA — Que tal acha este sofá?
Diga... Diga!
CARVALHO — É uma obra prima!
É o melhor sofá do mundo!
A gente vai para o fundo
e depois volta pra cima!
Hoje - não te digo nada -
fiz uma bela soneca!
VALENTINA — Levante um pouco a careca,
e chegue mais a almofada.
CARVALHO (Depois de obedecer.) — Estou no sétimo céu!
VALENTINA — Pois bem: venha ver o oitavo!
Erga-se! siga-me!
(Leva-o à porta da direita alta.)
CARVALHO (Olhando para dentro.) — Bravo
Que belo sobrecéu!
que cortinado bonito!
VALENTINA — E a cama?
CARVALHO — A cama conheço...
VALENTINA — Que tal?
CARVALHO — Um traste de preço,
de um gosto muito esquisito
pouco mais alta que o chão...
VALENTINA — É moda agora...
CARVALHO — Sei... sim...
A gente, se faz assim,
bate nas esteira coa mão
Minha cama na fazenda
é deste tamanho...
VALENTINA — É alta!
CARVALHO — Ninguém para cima salta
sem que a dar um pulo aprenda!
Por causa disto a madama
viu-se muito embaraçada:
muito depois de casada,
não se deitava na cama,
sem subir por uma escada!
Hoje pula como um gato!
VALENTINA (Apontando sempre para o quarto.)
— Veja que lindo tapete!
que magnífica toalete!
que guarda-roupa!
CARVALHO — É exato.
VALENTINA — Peanhas, estatuetas,
ondinas de biscuit!
(Percorrendo a cena e mostrando a sala, trazendo Carvalho pela mão.)
Veja: nada falta aqui!
Chinoiseries, bocetas,
e reposteiros de rendas!
Espelhos, lindas gravuras
em suntuosas molduras!
CARVALHO — Sim, tens aqui muitas prendas.
VALENTINA (Descendo à cena.) — Muito dinheiro enterrado
está aqui!
CARVALHO — Tens gosto. Toca!
VALENTINA (À Parte.) — Na Rua da Carioca
tem sido tudo comprado...
CARVALHO — O que te digo é que há trastes
que com o dono parecem!
Teus olhos tudo merecem;
que importa que tudo gastes?
VALENTINA (Aproximando uma cadeira.)
— Meu caro, agora expliquemo-nos.
Os cobres que me tem dado
emprego... tenho empregado
em tudo isto...
CARVALHO — Sei.
VALENTINA — Sentemo-nos.
CARVALHO — Sim... tanto se paga em pé
como sentado. (Senta-se.)
VALENTINA — O senhor
não traz o meu puro amor
dentro do porte-monnaie
Paga poltrona macia,
leito fofo e perfumado,
suntuoso cortinado,
custosa tapeçaria.
Os carinhos de uma amante
com beijos se restituem:
eles nãos se retribuem
com sujo metal sonante.
Este rifão acertado
sempre na memória traga:
amor com amor se paga...
CARVALHO — É muito velho o ditado
porém não menos o é
o que diziam meus tios...
VALENTINA — Qual é?
CARVALHO — Dois sacos vazios
não se podem ter de pé.
E há mais outro...
VALENTINA — Ouça primeiro:
o senhor gosta do luxo;
pois bem: agüente o repuxo,
uma vez que tem dinheiro.
Eu, para estar de harmonia
com o luxo que vejo em roda
de mim, devo andar à moda,
ter preciosa pedraria.
Quer que lhe tenha paixão,
sem que lhe custe brilhantes?
Vivamos quais dois amantes
dos tempos que já lá vão.
Pr’algum romance ou comédia
terão assunto depois!
Carvalho! sejamos dois
amantes da Idade Média!
Lá, numa ilha deserta,
longe da vista mundana,
vivamos numa choupana
de verdes folhas coberta!
Deixa tudo quanto tens,
esposa, filha, fortuna!
Nada disso se coaduna
coa vida que viver vens.
Sim ou não? Responde, enfim! (Erguendo-se.)
Mas nos teus olhos eu leio
a hesitação, o receio...
É que só me amas assim!
Se por acaso me visses
magra, suja, maltrapilha...
CARVALHO (Levantando-se.) — Onde, meu Deus?...
VALENTINA — Na tal ilha...
... duvido que tu sentisses
a caridade vulgar,
sequer, por esta a quem hoje
o dinheiro foge, foge,
porque quer decente andar.
Se me amas porque sou bela,
mais bela faze-me ainda:
verás como fico linda
com os tais brilhantes!
CARVALHO (À parte.) — Cautela!
(Conduz Valentina para o sofá e sentam-se.)
Agora atenção me presta?
Pois não me interrompa, e ouça!
Arre! que nunca vi moça
mais exaltada que esta!
Eu quero dar-te as tais bichas:
tomo o céu por testemunha!
Mas tomas o pião à unha
e desejas que haja rixas
onde amor só deve haver!
- É um refinado tratante,
(acredita!) o meliante
que as tais bichas quer vender.
Conheço aquele menino!
e juro, por Quem nos ouve,
que até esta data, não houve
quem me enganasse... sou fino.
VALENTINA — Muito fino! És um portento!
CARVALHO — As bichas são muito belas;
mas ele pede por elas
mais cinqüenta por cento
do que deve! O maganão
quer roubar duma assentada
dois contos! Que vá pra estrada,
de bacamarte na mão!
Já fiz ver ao tal sujeito:
por quatro coas bichas fico.
E não abro mais o bico
a semelhante respeito.
(Ergue-se e passeia pela sala, com as mãos nas costas. Pausa.)
VALENTINA (À parte.) — Que idéia! (Levanta-se. Alto.)
Bem pouco entendo
de jóias.
CARVALHO — Entendo eu!
Por isso o preço ao judeu
fui logo, logo dizendo.
VALENTINA — Não sei se estás a iludir-me;
se as bichas valem somente
o preço que dás...
CARVALHO — Ó gente!
Outro ouvires que o confirme!
(À parte.) Se ela indaga, estou perdido!
VALENTINA — Pode bem ser que não queiras
dar-me os seis contos e...
CARVALHO — Asneiras!
Não quero é ser iludido!
Faze-me mais um discurso!
vem-me com outras cantigas!...
mas olha que não me obrigas
a fazer figura de urso!
VALENTINA — Não queres gastar, mau, feio!
Tens um meio extraordinário
para provar-me o contrário.
CARVALHO — Vamos lá ver esse meio.
VALENTINA — Vou falar já com o ouvires,
se o valor a jóia tem
que dás, ele cede...
CARVALHO — Bem!
VALENTINA — Mas, para que não te prives
do gosto de me of’recer
os seis contos por inteiro...
CARVALHO (À parte.) — Aí! que aí volta o pampeiro!
(Alto.) Mais eu não posso entender...
VALENTINA (Afagando-o.) — Não te contrario: assim
bem mostro que te idolatro:
se a jóia compras por quatro
dar-me-ás os dois para mim.
CARVALHO (À parte.) — Ai, ela agora filou-me!
VALENTINA (Largando-o.) — Hesitas? Eu logo vi!
CARVALHO (Titubeando.) — É que... tu sabes... mas... se...
(À parte.) ‘Stou arranjado! apanhou-me!
VALENTINA — Senhor, supus...
CARVALHO — Não te excites;
eu vou buscar o dinheiro...
manda chamar o joalheiro. (Tomando o chapéu.)
Mas ouve, e não te arrebites:
se ele der por quatro, é tua
e tens mais dois. Se não der
por isso, não hás de ter
nem jóia nem... (Sinal de dinheiro.)
VALENTINA — Anda! Rua!
(Carvalho sai.)

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