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Casadinha de Fresco

artur azevedo

ATO PRIMEIRO

Pátio de uma estalagem. Portão ao fundo. Portas aos lados.

Cena I

Bento, Beatriz, viajantes, estancieiros, camaradas, depois peões. (Os viajantes comem e bebem, sentados defrontes de pequenas mesas. Bento e Beatriz andam azafamados de um lado para o outro, servindo-os.)

Introdução

CORO — Mais presteza!
Ligeireza!
É petiscar e partir!
A carreta com certeza
sem demora vai sair.
UM ESTANCIEIRO — Olá senhor!
OUTRO — Olá senhora!
OUTRO — É despachar!
BENTO — Não val’zangar:
inda tendes muita demora.
BEATRIZ — Podeis com vagar
mastigar
BENTO (A um viajante.) — Provai desta botelha.
BEATRIZ (A outro.) — Que belo pastelão!
BENTO (A outro.) — Eis uma pinga velha!
BEATRIZ (A outro.) — Não quer que o sirva, não?

CORO — Mais presteza! etc.
(Ouve-se o rodar de um carro, e o barulho dos guizos dos animais.)
UM VIAJANTE — Atenção, rapaziada!
Os guizos ouvi!
CORO — Os guizos ouvi
da tal carreta abençoada.
(Entrada ruidosa de oito peões.)
CORO DE PEÕES — Hop! Hop! Hop!
Bonitos peões,
lampeiros, ligeiros,
ligeiros, lampeiros...
Hop! Hop! Hop!
vos dizem: Patrões,
é já seguir
sem tugir
nem mugir.
Eis os peões
ligeiros, lampeiros!
(Aprontam-se todos para seguir viagem.)
BENTO — Escutai! Um costumezinho,
ao qual convém vos conformar,
a Beatriz, neste instantinho,
vai, a cantar, vos explicar...
CORO — Pois venha lá mais essa!
BENTO — Beatriz, escarra e começa.

Canção

I

BEATRIZ — Há muito já, fregueses meus,
abriu-se a nossa hospedaria;
tem sido um — louvar a Deus —
lá no que toca à freguesia;
mas a razão plausível é:
desde que abriu-se esta casita
a estalajadeira é bonita
e o vinho é velho como a Sé.
O vinho é bom! Mais um almude!
Convém os copos esgotar!
Da estalajadeira a saúde
bebei! bebei! É de virar!

TODOS — O vinho é bom, etc.

II

BEATRIZ — Ah! Portugal! Quem negará
que o deus das vinhas o protege?
A sua uva é um maná!
deixai-lhe que o mundo lha inveje.
Se, quanto a mim, formosa sou,
é que aqui, nesta casita,
a estalajadeira é bonita
o vinho é... um vinho avô
O vinho é bom, etc.

Repetição do Coro

Hop! Hop! Hop! etc

(Saída geral e animadíssima. Carlos aparece ao fundo e observa inquieto a cena.)

Cena II

Carlos, depois um alfaiate e uma costureira

CARLOS — Enfim! Foram-se enfim!
Afinal!
Se alguém aqui me viu! É hora do sinal...
(Chamando alguém da esquerda.)
Olá!
UMA VOZ — Olá!
CARLOS (Examinando a cena.)
— Oh! meu Deus! se alguém deu por mim...
O ALFAIATE —Psiu!
CARLOS — Psiu!
AMBOS — Silêncio!
CARLOS — ‘Stá pronto?
O ALFAIATE — Já pronto está.
CARLOS (Apontando para a direita.) — Entre para lá...
O ALFAIATE — Já sei: por acolá (Vai saindo.)
CARLOS — Falar não vá
Hein? ... Olhe lá!
Psiu!, etc.
(Carlos conduz o Alfaiate à direita, e volta depois para a esquerda.)
Oh! meu Deus! Se acaso alguém me viu!
(Chamando.) Olá!
UMA VOZ — Olá!
(Aparece à esquerda a Costureira, também com um embrulho.)
CARLOS — Psiu! etc.
(Mesmo jogo de cena que com o Alfaiate. Carlos, depois de ter feito entrar a Costureira para a esquerda, dirige-se para o fundo, inquieto, sempre como se esperasse ainda alguém, e sai. Cessa a música.)

Cena III

Bento, Beatriz, depois Carlos

(Bento e Beatriz, que reapareceram à porta, acompanharam todo o jogo de cena.)
BEATRIZ - Titio?
BENTO - Minha sobrinha?
BEATRIZ - Vossa Mercê viu?
BENTO - Tu reparaste?
BEATRIZ - O que quer isto dizer?
BENTO - Sei cá! este estrangeiro, que aqui chegou há oito dias, em companhia de um velhote e de sua filha, não me inspira lá muita confiança.
BEATRIZ - No entanto o velhote tem cara de boa pessoa e a menina é bem simpática.
BENTO - Sim, não duvido; mas o moço tem assim uns modos...
BEATRIZ - Tem uns modos assim... É um foguete; não pára! Preocupado, sombrio! Além disso, titio, dos viajantes moços que tem aqui pousado, é o único que ainda não me deu sequer um beijo...
BENTO - Como é lá isso? Pois ele não te beijou ainda?
BEATRIZ (Suspirando.) - Não, titio! E creio que se irá embora sem cumprir essa formalidade!
BENTO - Oh! Oh! Um homem que não beija a sobrinha do estalajadeiro! A coisa é mais séria do que eu supunha! Se fossem conjurados?!
BEATRIZ - O moço é estrangeiro: não deve conjurar.
BENTO - Quem nos diz a nós que não é tão brasileiro como tu? Estes conjurados de tudo se lembram! Uma conjuração em minha casa! Não me faltava mais nada!
BEATRIZ - O Senhor Capitão-general dizem que não é para graças!
BENTO - Estou perdido! O desembargo do paço manda-me enforcar como toda a certeza!
BEATRIZ - É preciso sabermos ao certo que gente é esta!
BENTO - Tens razão... tens razão...
BEATRIZ - Mas como há de ser?
BENTO - Muito simplesmente; vendo e ouvindo. Olha, vai espiar aquela porta e eu esta. (Vai espreitar à direita; a sobrinha faz o mesmo à esquerda.)
CARLOS (Entrando.) - E o meu amigo, nada de aparecer! Queira Deus que não me deixe a ver navios! (Vendo Bento e Beatriz.) Hein? O que é aquilo? (Aproxima-se de Bento e dá-lhe um pontapé.) Ah! patife!
BENTO (Gritando.) Ai!
BEATRIZ (Voltando-se.) - Viu alguma coisa, titio?...
BENTO (Esfregando a parte ofendida.) - Não! Isto é , vi estrelas.
CARLOS (Agarrando-o pela orelha) - O que fazia você ali? Musque-se!
BENTO (Tremendo.) - Sim, meu fidalgo. Anda daí Beatriz!
BEATRIZ - Vamos, titio!
BENTO - Aqui anda maroteira, e grande maroteira! (Saem Bento e Beatriz.)

Cena IV

Carlos, só

[CARLOS] - É isto! ando cercado de espiões. De um momento para outro tudo se descobrirá, e então... Começo a arrepender-me de haver dado esse passo! É o diabo! Quem me mandou sair de Lisboa? (O Alfaiate e a Costureira entram. Música.) Ah! finalmente deram conta do recado... (Dá-lhes dinheiro. O Alfaiate e a Costureira saem.)

Cena V

Carlos, depois Gabriela

CARLOS - Ninguém os viu entrar nem sair... Muito bem! (Ao público.) Se eu disser que estes dois indivíduos, que assim envolvo no mais tenebroso mistério, são simplesmente... Qual! Ninguém acredita! São simplesmente um alfaiate e uma costureira que trazem a roupa de noivado de meu futuro sogro e de minha futura mulher... (Com terror.) Ó céus! falei tão alto! Creio que ninguém me ouviu! (Olhando em volta de si.) Não... Ninguém... Respiro! (A porta de Gabriela abre-se lentamente.) Vem alguém! Calma, sangue frio!
GABRIELA (Entrando.) - Aqui estou, meu queridinho!
CARLOS (À parte.) - Gabriela! E como vem vestida!

Dueto

GABRIELA — Eis-me afinal, ó meu marido!
CARLOS (À parte.) — Ó céus! já seu marido...
GABRIELA — Querido amor!
CARLOS — Anjo querido!
GABRIELA — Vem para mais perto de mi...
CARLOS — De ti?
GABRIELA — De mi...
CARLOS (Aproximando-se, receoso). — Eis-me aqui.

Coplas
I

GABRIELA — Venho mostrar-me ao noivo meu,
quase a chegar o f’liz momento,
a ver se sou do agrado seu,
vestida já pro casamento.
Saber do meu futuro quis
se este vestido é do seu gosto,
e se achas a cor destes rubis
d’acordo coa cor do meu rosto.
É mui suspeita a opinião
daquele que por mim palpita;
mas diga lá, por compaixão,
se a noivazinha está bonita.

II

— Mas, oh! meu Deus! que quer dizer
este ar assim tão inquieto?
Pois não lhe dá nenhum prazer
coroado ver nosso afeto?
Acaso ao gosto seu não ‘stou?
Repare bem... não viu direito...
Do mesmo parecer não sou,
pois o vestido está bem feito.
Aflito esteja, meu senhor;
mas se não quer me ver aflita,
diga-me lá, faça o favor,
se a noivazinha está bonita.
(Carlos volta a cabeça; Gabriela afasta-se despeitada.)
Amor, então, já me não tem?
CARLOS — Juro fazer quanto em mim caiba
para que sejas feliz porém,
convém, amor, que ninguém saiba...
GABRIELA — Como ninguém?...
CARLOS — — Ninguém! Ninguém!
Eu te falo sério...
Não duvides, não!
Lá no coração
guardemos o mistério
deste ardente amor...
Ninguém seja sabedor
deste amor...
GABRIELA — Só posso então dizer que te amo...
CARLOS — Bem devagar.
GABRIELA — Bem devagar?
Pois assim seja: eu não reclamo.
CARLOS (À meia voz.) — Eu te amo!
GABRIELA (No mesmo.) — Eu te amo
JUNTOS — Eu te falo!}
} sério
Tu me falas}
Não duvides }
} não
Não duvido }
Lá no coração, etc.

GABRIELA - Mas por que todo este mistério? Quem se casa corre perigo?
CARLOS - O casamento é um perigo para os homens em geral, e para mim em particular... Oh!
GABRIELA - O que receias tu? Não gozas de tanta influência? Não é o privado do Capitão-general?
CARLOS - O Capitão-general! Oh! não pronuncieis esse nome, Gabriela! Se ele soubesse...
GABRIELA - O quê?
CARLOS - Não me perguntes mais nada! Amas-me, não é assim? Casemo-nos.
GABRIELA - Decerto! Isso é coisa resolvida! (Ouve-se rumor de fora.) Jesus! Aí vem papai! Ele é que não está nada satisfeito com estas reservas!
CARLOS - É teu pai? Aí vem ele deitar a casa abaixo! E todo mundo vai ouvi-lo!

Cena VI

Os mesmos e Castelo Branco

CASTELO BRANCO (Entrando de muito mau humor.) Palavra d’honra! Isto não se comenta! (Vendo Carlos.) Ah! é Vossa Mercê, Monsiu? Quisera vê-lo no inferno, e ao seu casamento absurdo!
CARLOS - Então! tenha calma, senhor meu sogro.
GABRIELA - O que é papai? o que é?
CASTELO BRANCO - O que é? O que é? Não é nada! (Com toda a calma.) Ah! falta-me um botão. (Zangado.) Quando digo que tudo me chega!
GABRIELA - É só isso? Descanse: hei de pregá-lo, papai.
CASTELO BRANCO - Pois bem, pois bem. Mas não me posso conter! Quero desabafar! por que cargas d’alhos, eu, Antonio Pedro Salema Coutinho Castelo Branco, morgado de São Gabriel e podre de rico, consenti no casamento de minha filha com Vossa mercê, que não é meu compatriota, nem tem, nem pode ter posição oficial definida?
GABRIELA - Eu sempre gostei muito do Senhor Carlos, papai.
CASTELO BRANCO - Não é um motivo plausível!
GABRIELA - Pois não é?
CASTELO BRANCO - O motivo foi outro. Já lhes disse que sou podre de rico, e, por conseqüência, proprietário de muitas propriedades. Uma dessas propriedades, e justamente aquela que ligo mais apreço, de tal modo está situada, que tira a vista do rio ao palácio do Capitão-general. Muitas vezes chegou a dizer-me o Capitão-general: “Morgado de São Gabriel, você não quer vender-me o cochicholo.” recusei sempre ceder-lhe o cochicholo. Então, vai um belo dia e diz-me o Capitão-general: “Morgado de São Gabriel, você não quer vender-me o cochicholo? hei de possuí-lo sem gastar um real. Vou mandar arbitrá-lo pela municipalidade, e babau!”
CARLOS - Mas não sei que relação possa haver...
CASTELO BRANCO - Espere! Um dia pareceu-me que a rapariga tinha certa inclinação por Vossa mercê.
GABRIELA - Oh! muita, muita, muita, papai!
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga. Inclino-me a crer que, de seu lado, Vossa Mercê tinha também certa inclinação pela rapariga. Iam ambos por um plano inclinado! Vai uma vez, convidei-o para jantar. No dia seguinte Vossa mercê apresentou-se, também para jantar, mas desta vez sem ser convidado. Assim aconteceu durante um mês inteiro. Vocês iam numa desfilada...
GABRIELA - Numa grande desfilada!
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga. O mal estava feito. O que não tem remédio...
CARLOS - Mas a que conclusão deseja chegar o senhor meu sogro?
CASTELO BRANCO - A que conclusão? pois Vossa Mercê não compreendeu o meu plano? Eu dissera com os meus botões: o Carlos é privado do Capitão-general: se lhe dou a rapariga, eis-me sogro do privado; excelente meio de não ser privado de minha propriedade.
GABRIELA (Curiosa.) - Como assim? Pois o papai casa-me para segurança de sua propriedade?
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga! Infelizmente o resultado foi nulo, pois o Monsiú declarou ser preciso que o casamento se efetue clandestinamente!
GABRIELA - Mas, papai, eu já lhe disse que tanto me faz clandestinamente como às claras.
CASTELO BRANCO - A ti, tanto faz assim como assado; mas a mim? O que lucro eu com semelhante casamento? serei o sogro do privado, é certo; mas de que serve tudo isso, se hei de ser um sogro anônimo?
CARLOS - Enfim, onde quer chegar?
CASTELO BRANCO - Quero desabafar, eis o que eu quero! Vamos, não percamos mais tempo! Toca para a matriz! Acabemos com isto, acabemos com isto!
GABRIELA - Sim, sim, eu acho bom!
CARLOS - Um momento: estou à espera de...
CASTELO BRANCO - De quem?
CARLOS - Precisamos de dois padrinhos... Um deles já está lá dentro... É um mudo!
CASTELO BRANCO - Um mudo!
CARLOS - Tenho certeza de que não há de dar com a língua nos dentes. Infelizmente não pude arranjar dois mudos. Escrevi a um amigo íntimo e seguro. Já devia aqui estar.
CASTELO BRANCO - Se convidarmos o dono da estalagem?
GABRIELA - É verdade; dir-lhe-emos que meta esse serviço na conta.
CARLOS - Deus me defenda! Um homem curiosíssimo que anda a espreitar às portas! Iria apregoar por toda a parte meu casamento! Nunca! Nunca!...
CASTELO BRANCO - Portanto...
GABRIELA - Se o tal amigo tardar?
CARLOS - Esperaremos.
CASTELO BRANCO (De mau humor.) - Oh! mas isto é demais, senhor Monsiú! Isto é demais!
CARLOS - Senhor Morgado de São Gabriel!
CASTELO BRANCO - Há oito dias que Vossa Mercê parece estar a caçoar comigo e com a rapariga. É demais!
GABRIELA - Papai!
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga! (A Carlos.) Convidamos o estalajadeiro?
CARLOS - Não! não e não!
CASTELO BRANCO - Tome sentido Monsiú: eu posso desmanchar a igrejinha!
CARLOS (Encolhendo os ombros.) - Pois desmanche: é o mesmo.
GABRIELA - Hein! Pois é o mesmo?
CASTELO BRANCO - Mas devo observar-lhe que se não devia meter de gorra em minha casa!
CARLOS - Diga antes que me armou uma ratoeira!
CASTELO BRANCO - Por que razão vinha jantar comigo?
CARLOS - Se não fosse convidado...
CASTELO BRANCO - Por que aceitava os meus convites?
CARLOS - Que culpa tenho de que sua filha me pespegasse como um cáustico?
GABRIELA (Furiosa.) - Um cáustico, papai, um cáustico!...
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga! (A Carlos.) Estava em suas mãos desviá-la.
GABRIELA - A culpa foi sua.
CARLOS - Minha!

Terceto

CARLOS — Tão amável não fosse a senhora...
GABRIELA — Não me houvesse jurado afeição...
CASTELO BRANCO — Meu genro não seria agora,
se não gabasse tanto a sua posição!
CARLOS — ... de certo a não teria amado!
GABRIELA — ... não me teria apaixonado!
CASTELO BRANCO — Eu não havia de lembrar
de o convidar para jantar!
GABRIELA — Mas o senhor é tão galante...
CARLOS — Mas a senhora é tão chibante...
CASTELO BRANCO — Tal posição!
GABRIELA — Ai! que ilusão!

Juntos
CASTELO BRANCO GABRIELA E CARLOS

— Estou despeitado! — Fui de seu agrado
Que sogro eu sou! e já não sou!
‘Stá tudo acabado... ‘Stá tudo acabado...
Tudo entre nós acabou! Tudo entre nós acabou!

CARLOS — Oh! Felizmente inda podemos
sanar o mal que feito está!
GABRIELA — O dito por não dito demos!
A mim bem pouco se me dá!
CASTELO BRANCO — Tudo entre nós acabará!
CARLOS — Pois não, senhor morgado! É já!
CASTELO BRANCO — Isto é, se for do seu agrado...
CARLOS — Senhor, não vai ficar zangado...
CASTELO BRANCO — Tudo acabou!
GABRIELA e CARLOS — Tudo acabou!
CASTELO BRANCO — Já despir este fato vou!
GABRIELA e CARLOS — Tudo acabou!
CASTELO BRANCO — Meu genro, tudo acabou!
(Silêncio. Cada um toma direção diversa.)
GABRIELA — Adeus, senhor!
CARLOS — Adeus, minha senhora!
GABRIELA (Parando à porta, à parte.) — Porém...
CARLOS (Mesmo jogo de cena, no fundo.) — Porém...
JUNTOS — Meu Deus! quero-lhe bem!
Quem o negará? Ninguém! Ninguém!
CARLOS (Voltando.) — De novo o coração se humilha...
GABRIELA — De novo o meu também se humilha...
CASTELO BRANCO — Então, minha filha?
CARLOS — Meu anjo!
GABRIELA — Meu amor!
CASTELO BRANCO — Voltam ao velho estado?
GABRIELA — Meu amor!
CARLOS — Meu anjo!
JUNTOS — ‘Stá tudo arranjado.
CASTELO BRANCO — Nada acabou?
CARLOS e GABRIELA — Nada acabou!
CASTELO BRANCO — Oh! já não está cá quem falou!
CARLOS e GABRIELA — Nada acabou!
CASTELO BRANCO — Meu genro, nada acabou!

JUNTOS
CASTELO BRANCO GABRIELA E CARLOS
— Não estou despeitado! — Fui de seu agrado
Que sogro eu sou! E ainda sou!
Nada está acabado... Nada está acabado...
Nada entre nós acabou! Nada ente nós acabou!

CASTELO BRANCO (Rosnando sempre.) - Está bem, está bem; fique de parte o estalajadeiro. Esperaremos...
GABRIELA - Vê se arranja isso depressa.
CASTELO BRANCO - Não insistas, rapariga! Vamos. Até logo, senhor meu genro.
CARLOS - Fale mais baixo...
CASTELO BRANCO (Baixinho.) - Até logo, senhor meu genro. (Vai saindo com Gabriela.)
CARLOS (Idem.) - Até logo, senhor meu sogro.
GABRIELA (Voltando, baixinho.) - Veja se arranja isso depressa. (Sai.)

Cena VII

Carlos, Bento e Beatriz

CARLOS - E o outro padrinho que não aparece? Haveria algum transtorno?
BENTO (Que entra pelos fundos com Beatriz, baixinho.) - Olha, ele fala sozinho... Oh! estes estrangeiros!
BEATRIZ - Estes conjurados!
CARLOS (Vendo-os.) - Ainda vocês! o que há?...
BENTO - Não vos zangueis! Vínhamos prevenir-vos...
BEATRIZ - Que vieram agora mesmo...
BENTO - Neste instante...
BEATRIZ - Não há cinco minutos...
BENTO - Qual cinco minutos...
CARLOS - Então? Então?
BEATRIZ - Trazer esta cartinha...
CARLOS - Está bem! Dê cá!
BENTO (A Beatriz.) Vai tu, vai levar-lhe. Eu sou capaz de apanhar outro pontapé, e tu não!
BEATRIZ (Aproximando-se com precaução.) Aqui tem... (Dá-lhe a carta e retira-se vivamente.)
BENTO (Levando-a) - Anda daí... Credo! Um conjurado.
CARLOS (Que abriu e leu a carta.) - Oh! Sapristi! Isto só a mim acontece! O padrinho não pode vir: estou reduzido ao mudo. Todavia é preciso outro... Hei de arranjá-lo por força.

Cena VIII

Carlos e Manuel de Souza

MANUEL DE SOUZA (Fora.) - Estou muito apressado! Façam com que meu cavalo coma a galope! Não me posso demorar! (Entra.)
CARLOS - Um estancieiro!...
MANUEL DE SOUZA - Três dias de atraso! Gertrudes deve estar furiosa!
CARLOS (Observando.)- Esta cara não me é estranha!
MANUEL DE SOUZA (No mesmo.) - Não me engano! É ele...
CARLOS (Dirigindo-se a ele.) - Não é por ventura o Senhor Manuel de Souza?
MANUEL DE SOUZA - Não é ao Monsiú Carlos que tenho a honra de...
CARLOS - Exatamente. Foi pelo ano passado...
MANUEL DE SOUZA - Tomávamos banhos no rio... em Porto Alegre.
CARLOS - Eu nadava como um peixe...
MANUEL DE SOUZA - Eu nadava como uma pedra...
CARLOS - Tu andavas em uma barquinha..
MANUEL DE SOUZA - De repente a barquinha virou-se, e bumba...
CARLOS - Ias morrer afogado, quando agarrei-te pelos cabelos e trouxe-te à tona d’água.
MANUEL DE SOUZA - Eu estava salvo! Devo-te a vida, meu bom Carlos.
CARLOS - Ora este Manuel de Souza! (À parte.) Tenho padrinho (Alto.) Não fazes idéia do prazer que me causa a tua presença! Tu vais bem, não vais?
MANUEL DE SOUZA - Menos mal... Isto é, eu casei-me...
CARLOS - Casaste-te? pois, aqui onde me vês, vou fazer outro tanto!
MANUEL DE SOUZA - Oh! diabo!
CARLOS - E mesmo a esse respeito, preciso muito de ti, é indispensável que me prestes um serviçozinho.
MANUEL DE SOUZA - Tenho a observar-te que estou com muito pressa.
CARLOS - Apenas uma hora.
MANUEL DE SOUZA - Uma hora! Sinto muito não te poder ser útil, meu caro, mas minha mulher está à minha espera.
CARLOS - Ela que espere mais uma hora. Que inconveniente há nisso?
MANUEL DE SOUZA - Que inconveniente? Ah! bem se vê que não sabes quem é Gertrudes! Que mulher, meu amigo! ela me tem um amor, mas que amor tão veemente que, não me lembra sob que pretexto, fui obrigado a ausentar-me de casa. Devia estar de volta no fim de quinze dias, e há dezoito que saí de casa. Faz tu idéia da recepção que me aguarda! Além de tudo, Gertrudes tem um péssimo costume.
CARLOS - Qual é?
MANUEL DE SOUZA- Como gosta muito de montar a cavalo, tem sempre uma chibatinha na mão... e quando zanga-se comigo... zás...
CARLOS - E tu consentes nisso?
MANUEL DE SOUZA - Que queres tu? Ela tem-me um amor!
CARLOS - E tu temes a chibatinha! Pois bem: uma vez que já estás habituado a semelhante sistema, algumas carícias de mais ou de menos, para servires um amigo que te salvou a vida...
MANUEL DE SOUZA - Mas...
CARLOS - É absolutamente preciso que me sirvas de padrinho.
MANUEL DE SOUZA - De padrinho! Pois ainda não estás batizado?
CARLOS - Padrinho de casamento...
MANUEL DE SOUZA - Pois é para isso? Por que não agarras tu outro sujeito, que tenha menos pressa?
CARLOS - Porque o meu casamento deve ser ignorado por todos... Já arranjei um mudo. Preciso de outro... Manuel de Souza, esse outro mudo hás de ser tu.
MANUEL DE SOUZA - Mas por quê?
CARLOS - Por quê... queres tu saber?
MANUEL DE SOUZA - Sim... não! tenho muita pressa.
CARLOS - Pois bem! Escuta... e treme!
MANUEL DE SOUZA (À parte.) - Diabo! uma história... Quanto mais pressa, mais vagar...
CARLOS - Como muito bem sabes, Manuel de Souza, eu sou há muito tempo, o amigo... o privado do Capitão-general. Vim com ele de Lisboa, e até hoje tenho-me conservado sempre ao seu lado. Hoje esse tirano está viúvo, mas, antes disso, era casado...
MANUEL DE SOUZA - Ah! (Lembrando-se.) Naturalmente, pois se é viúvo...
CARLOS - Muito bem! A mulher do Capitão-general, uma italiana de temperamento de fogo, de sangue cálido, de alma ardente e vulcânica...
MANUEL DE SOUZA - Como Gertrudes...
CARLOS - Era admiravelmente formosa... eu andava pelo beicinho...
MANUEL DE SOUZA - Como eu...
CARLOS - Era inevitável o escândalo... Um belo dia, ou antes um mau dia, o Capitão-general surpreendeu-nos em um colóquio que...
MANUEL DE SOUZA - Não deites mais na carta...
CARLOS - Em meu lugar, outro qualquer abriria a janela, e deixar-se-ia escorregar pela goteira. Eu fui sublime! Fiquei! Coloquei-me entre a mulher e o marido ultrajado, e exclamei: “Perdoai-lhe, senhor! É de sangue que precisais! Aqui tendes o meu! É vosso!”
MANUEL DE SOUZA - Foste muito nobre, mas um tanto estúpido...
CARLOS - “Um escândalo, respondeu ele, para dar lugar a que, ainda em cima, zombem de mim! Não! Minha vingança há de ser mais calma. Tranqüiliza-te. Tu és o meu privado; continua a sê-lo, sê-lo-ás para todo o sempre!”
MANUEL DE SOUZA - Ora ali está um homem comedido!
CARLOS - Ouve o resto. “Era teu amigo; de hoje em diante o serei mais que nunca, porém...”
MANUEL DE SOUZA - Ah! temos um porém...
CARLOS - “Algum dia te hás de casar... Emprazo-te para lá... Nesse dia, meu amigo, ajustaremos contas, e então, dente por dente, olho por olho. Fizestes das tuas, eu farei das minhas. Entendeste?” “Sim”. “Muito bem! Vai amanhã jantar comigo. Seremos os mesmos um para o outro”. — Como de fato, desde esse momento, nem mais uma palavra a respeito... “Diante do mundo, o sorriso das salas; no fundo. o ódio e a vingança!”
MANUEL DE SOUZA - Tudo isso que me acabas de contar é muito interessante; mas... Adeus. meu amigo, estou com muita pressa.
CARLOS (Detendo-o.) - Bem sei o que me queres dizer: nesta situação restava-me tomar um partido muito simples: não casar-me nunca..
MANUEL DE SOUZA - É verdade!
CARLOS - Disso lembrei-me eu... Estava resolvido a ficar solteiro toda a minha vida, ou toda a vida do Capitão-general, se fechasse o olho primeiro que eu... Infelizmente, porém, o homem é um ser incompleto, que, por ser incompleto, cedo ou tarde sente a necessidade de completar-se.
MANUEL DE SOUZA - E é hoje que te completas?
CARLOS- Como vês. O meu casamento deve ser efetuado no mais profundo segredo. Para mais segurança fiz com que alguns médicos de Porto Alegre me recomendassem os ares do campo a um reumatismo que não tenho. Desde que aqui estou, tenho escrito ao Capitão-general, dizendo-lhe que vou cada vez pior, a fim de que ele não desconfie de minha prolongada estada em Viamão. Ontem mesmo (vê tu que excesso e precaução!) mandei-lhe dizer que estava quase a bater a bota. Tal é, Manuel de Souza, a narração exata e dolorosa que tinha a fazer. Convirás que é absolutamente preciso que me sirvas de padrinho. Ficas, não é assim?
MANUEL DE SOUZA - Homem... é que... Como já tive ocasião de dizer-te, Gertrudes... Gertrudes não é nada, mas a chibatinha...
CARLOS - Só uma hora!
MANUEL DE SOUZA - Uma hora! É muito, meu amigo, é muito!
CARLOS - Vamos! Uma hora, Manuel de Souza!
MANUEL DE SOUZA - Pois vá lá! Ora adeus! Diga Gertrudes o que quiser! Fico!
CARLOS - Ah! eu logo vi! Obrigado, muito obrigado! (Aperta-lhe a mão com efusão.)

Cena IX

Os mesmos, Bento, Beatriz, depois Castelo Branco, Gabriela e o mudo

BEATRIZ (Entrando com Bento, a Manuel de Souza.) - Está pronto o cavalo.
CARLOS - Deixe-o estar. Não é preciso por ora.
BEATRIZ - Sim, senhor.
BENTO (Examinando a Manuel de Souza.) - É outro que tal! Decididamente isto não é uma estalagem; é um valhacouto de conjurados...
BEATRIZ - Estamos bem aviados, titio. (Saem.)
CARLOS - Agora, mãos à obra! (Indo à porta de Castelo Branco.) Olá Senhor Morgado de São Gabriel! Gabriela!
CASTELO BRANCO (Entrando com a filha.) - Podemos ir?
CARLOS - Sim, senhor. (Apresentando Manuel de Souza.) Meu padrinho, o Senhor Manuel de Souza, a quem salvei a vida. (Cumprimentos.)
MANUEL DE SOUZA - Estou com muita pressa. Vamos ligeiro, hein?
CARLOS - A demora não há de ser por mim. Vou buscar o mudo. (Chamando para dentro.) Oh! Senhor Mudo... Psiu! Venha cá! (Entra o Mudo e cumprimenta a todos.)
MANUEL DE SOUZA - Então você é mudo? (O Mudo faz sinal afirmativo.) Não pode dizer com a boca? É preciso estar a ... (Arremedando o Mudo, ri-se bestialmente — a Carlos.) Saiu-te ao pintar, hein?
CARLOS - E baratinho... Vinte cruzados só... Mas vamos, vamos embora!
TODOS - Vamos embora!

Quinteto

CARLOS — É já safar,
sem mais tardar
sem haver demora!
GABRIELA — Com precaução,
com prontidão!
vamo-nos embora!
TODOS É já safar, etc.
MANUEL DE SOUZA — É já partir com todo o afã!
O MUDO — An, an, an, an!
CARLOS — Cautelosos
pressurosos
convém sairmos daqui!
MANUEL DE SOUZA — Tempo é de andar daí!
O MUDO — Hi, hi, hi, hi!
GABRIELA — Com prudência,
com cadência,
partamos sem tardar!
TODOS — Sem demorar!
Já, já, já, já!
O MUDO — Ah! Ah! Ah! Ah!

(Saem todos. O Mudo fica só em cena continuando mentalmente o motivo da saída. Vendo que está só.)
O MUDO (Confidencialmente.) - Eu sou mudo de profissão; mas se isto só me render o ajuste, mudo de profissão! (Sai a correr.)

Cena X

Bento, Beatriz, depois Gertrudes

BENTO - Então, minha sobrinha?
BEATRIZ - Então, titio?
BENTO - Não é o que te digo? Aqueles desgraçados vão revoltar o interior da província!
BEATRIZ - Ah! titio! O que será de nós!...
GERTRUDES (Entrando bruscamente com uma chibatinha na mão.) Olá! Oh! de casa! Venha alguém! (Vendo Bento e Beatriz.) - Olá velhote, olá rapariga!
BEATRIZ (Voltando-se.) - Uma senhora!
BENTO (Com solicitude.) - Oh! minha senhora, vós...
GERTRUDES (Sem lhe dar tempo de falar.) - Nem claro, nem moreno...
BENTO - Senhora...
GERTRUDES (No mesmo.) - Nem alto, nem baixo...
BENTO - Senh...
GERTRUDES (No mesmo.) - Nem gordo, nem magro; figura insignificante, boca sem expressão; sorriso desenxabido; mas com um certo ar de distinção... Nem muito nem muito pouco... São estes os seus sinais. Viram-no? (Passeia agitando a chibata).
BEATRIZ - O que diz ela?
BENTO - Nem muito, nem muito pouco... (Com uma idéia.) Ah! é a senha... a senha dos conjurados... Senhora, também pertence a ...
GERTRUDES -A quê, homem de Deus?
BENTO - Bem sabe... (Baixo.) À conjuração..
GERTRUDES - Você é um tolo! Quem foi que lhe falou em conjuração? É meu marido, é o meu Manuel de Souza que procuro.
BENTO - Seu marido!
GERTRUDES - Não percebem? Meu marido! Só tenho aquele e não me faz conta perdê-lo!

Ária

O meu amor, meu tudo,
o grande cabeçudo,
grandíssimo infiel,
— meu belo Manuel;
o meu gentil marido,
meu confidente infido,
— de casa se ausentou;
sozinha me deixou!
Ai! quanto é mau, embora belo!
O Manuel de mim já se esqueceu!
Pra ele todo meu desvelo,
pra mim o esquecimento seu...
Mas se o ciúme me maltrata
o desvairado coração,
(Agitando a chibata.)
vinga-me, olé! me vinga esta chibata,
a fustigar o maganão.
Olá!
Toma lá!
Olá!
Meu sandeu!
Toma lá que te dou eu,
judeu!
À vez primeira em que nos vimos,
amor veemente aqui brotou;
os nossos corações unimos:
ai, meu Deus! foi quanto bastou.
pouco depois de a ele unida
(recordação que mal me faz),
Manuel fez-me uma partida...
Eu estava armada... Ah! meu rapaz!...
Olá!, etc.
(Com uma expressão langorosa.)
Ah! Ah! Ah!
O meu amor, meu tudo, etc.

BENTO - Ah! a senhora anda à procura de seu Manuel?
GERTRUDES - Ele está cá, pois não está! Ah! meu senhor estalajadeiro, diga-me, diga-me que ele está cá.
BENTO - Sinto muito dizê-lo, senhora, mas... nunca o vi mais gordo.
GERTRUDES - Aquele monstro! Aquele miserável! Semelhante conduta! Aposto que ele neste momento engana-me com mulheres, talvez!... Ah! senhor estalajadeiro, se você soubesse a história do retrato...
BENTO - Que retrato!
GERTRUDES (Mostrando um medalhão que tira d’algibeira.) - Deste que trago sempre aqui, na algibeira... uma senhora de Porto Alegre por quem ele andou outrora apaixonado. (Abrindo o medalhão.) Você conhece por acaso alguma senhora de Porto Alegre, que se pareça com isto?
BENTO - Não...
BEATRIZ - Nunca a vi mais gorda...
GERTRUDES (Fechando o medalhão com cólera.) - Ó raiva! Sempre que me lembro de semelhante velhacada, fico de tal forma impressionada... Senhor estalajadeiro, segure-me... eu... (Finge que desmaia nos braços de Bento.)
BENTO - Então o que é isto, minha senhora? o que é isto?...
GERTRUDES (A Beatriz, com voz sumida.) - Menina?
BEATRIZ - Senhora?
GERTRUDES - Quero tomar alguma coisa... alguma coisa quente!
BEATRIZ - Quer ir lá para dentro?
GERTRUDES - Não sei! Estou tão fraca! Vou experimentar... (Dá alguns passos sustida por Bento e Beatriz; depois endireita-se bruscamente e entra na estalagem, agitando a chibata.) - Ah! velhaco! alma de cão! Se te apanho... (Beatriz segue-a.)
BENTO (Só.) - Com certeza esta senhora tem uma aduela de menos! (Rodar de carruagem fora.) Hein? uma carreta. (Vai ver ao fundo.) Que vejo! Soldados! Misericórdia! A conjuração foi descoberta! Vão ser presos os conjurados, e aqui estou eu comprometido.
CAPITÃO-GENERAL (Fora.) - Anda daí, Teobaldo.
TEOBALDO (Fora.) Pronto!

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