A cena passa-se na cidade do Rio de Janeiro, em 1880.
O teatro representa uma sala. Duas janelas ao fundo, duas portas de cada lado,
quatro
cadeiras e uma poltrona, consolos.
Rosinha , debruçada a uma das janelas; Dona Perpétua , entrando
da esquerda, primeiro plano;
logo depois Gonçalo , da direita, segundo plano.
DONA PERPÉTUA (Entrando de muito mau humor, com um vergalho na mão.)
- Ora
valha-me Deus! Não me faltava mais nada!...
ROSINHA e GONÇALO (Descendo ao proscênio.) - O que foi?
DONA PERPÉTUA - O diabo do negro - Deus me perdoe! - agora é
que se lembrou de cair
doente! Como até estas horas não saía do quarto, fui
buscá-lo preparada com este vergalho, e
encontrei-o ardendo em febre. Desavergonhado!
GONÇALO (Timidamente.) - O Liberato?
DONA PERPÉTUA - O Liberato, sim senhor Pois quem havia de ser? É
surdo? Que inferno!
Esta só a mim acontece!
ROSINHA - É coisa de cuidado?
DONA PERPÉTUA - Um negro nunca tem coisa de cuidado! E este diabo,
se não fosse valer
uns oitocentos mil réis...
GONÇALO - Vou chamar o médico?
DONA PERPÉTUA - Vá, homem de Deus, vá! Mexa-se, com todos
os demônios! Parece
estar a dormir!
GONÇALO (Vai buscar o seu chapéu sobre o consolo que deve estar
entre as duas janelas,
e dirige-se para a esquerda, segundo plano. A Rosinha, que se dirige à
porta da esquerda,
primeiro plano.) - Onde vai?
ROSINHA (Naturalmente.) - Vou ver o Liberato;
DONA PERPÉTUA (Com autoridade.) Fique! (Rosinha volta e vai para a
janela.) Por
causa destas e de outras confianças, é que o demônio do
negro...
GONÇALO (Quase a sair, parando.) - Adoeceu?
DONA PERPÉTUA - Cale-se. (Gonçalo desaparece) Agora vá
lá ficar o dia inteiro, como é
seu costume! Que marido! (Sai pela direita, segundo plano.)
Rosinha, só
[ROSINHA] (À janela. Ouvindo dar horas tem um gesto de impaciência
e desce ao
proscênio.) - Duas horas, e primo Ramiro nada de aparecer! A que será
devida esta demora? É
o primeiro domingo em que não aparece logo depois do meio dia! Estará
doente? (Aplicando o
ouvido.) Parece que sobem a escada... Deve ser ele... É ele, é,
não me engano... (Aparece
Moreira da esquerda, segundo plano.- Vendo-o, despeitada.) - Ora!
Rosinha, Moreira
MOREIRA (Entrando.) - Licença para um. (Dirigindo-se a Rosinha, com
muita
amabilidade.) Como tem passado, Dona Rosinha? Tem passado bem?
ROSINHA (Secamente.) - Bem, obrigada.
MOREIRA (Sentando-se na poltrona. Tem deixado o seu chapéu sobre o
consolo que estará
entre as duas portas da esquerda.) - Eu vou indo conforme Deus é servido.
(Tomando uma
pitada de tabaco, movimento este que repete quatro ou cinco vezes durante
a peça.) Mamãe
está boa?
ROSINHA - Boa, obrigada. (Vai à janela, a ver se chega o primo.)
MOREIRA - Não lhe pergunto por papai, porque o encontrei ali na esquina.
Disse-me que ia
chamar o médico para ver o negro, que caiu doente. Isto de negros,
põem-se finos com duas
lambadas. Lá na fazenda, tenho o Doutor Bacalhau que faz milagres!
ROSINHA (Voltando da janela.) - O senhor viu por aí primo Ramiro?
MOREIRA (Muito sério.) - Vi, minha senhora, e também vi seu
tio!
ROSINHA (Interessada.) - Onde?
MOREIRA - Na tal conferência!
ROSINHA - Que conferência?
MOREIRA - Pois não sabe que se trama entre nós uma grande conspiração
contra a
propriedade particular?
ROSINHA - Uma grande conspiração?
MOREIRA - Que meia dúzia de rapazolas inconseqüentes, que nada
tem que perder, que não
possui um moleque ou uma negrinha para remédio, arvorou-se em defender
a emancipação dos
escravos, empunhando o facho da discórdia, e anda a proclamar urbi
et orbi - pelos botequins,
pelas gazetas e até pelos teatros - a dilapidação da
fortuna particular?!
ROSINHA - Deveras?
MOREIRA - Em outra qualquer parte que não fosse o Rio de Janeiro, isto
seria uma
quadrilha de ladrões; aqui chama-se a isto o Partido Abolicionista!
(Erguendo-se percorrendo a
cena, de muito mau humor.) Pois não! Uma gente sem eira nem beira,
nem ramo de figueira:
uns pobres diabos, carregados de esteiras velhas, que se ralam de inveja,
quando vêm um
cidadão prestante como eu, que possuo cinqüenta escravos, ganhos
com o suor do meu rosto!
(Surpreendendo um sorriso de Rosinha.) Sim, senhora: ganhei-os com o suor
do meu rosto, a
trabalhar, (Gesto como se tirasse suor da testa com o polegar.) e não
a dizer baboseiras no
teatro...
ROSINHA - E foi no teatro que se encontrou com primo Ramiro?
MOREIRA - No teatro, sim, senhora: agora há comédias também
de dia. E seu primo dava
palmas e gritava: - Bravo! - àquela caterva de desmiolados que desejam
a ruína do país!
ROSINHA - Oh!
MOREIRA - Do país, sim, que depositou na grande lavoura as suas esperanças.
- E seu tio, o
Doutor Lopes, um homem formado, que deve ter juízo, nem sequer repreendia
o filho!
ROSINHA - Modere-se, Senhor Moreira!
MOREIRA (Esbravejando.) - A ruína do país ainda não é
nada!... Mas o aniquilamento da
riqueza particular? E o meu dinheiro?
ROSINHA - Vejo que o senhor é um patriota...
MOREIRA - Patriotismo é isto (Bate no ventre.) e isto. (Sinal de dinheiro.)
Já não bastava
a famosa lei de 28 de setembro, que me obriga a educar moleques que não
são meus filhos, e
que, se são meus filhos, não são meus escravos! Canalha!
(Muito exaltado, e ameaçando, com
os punhos cerrados, a porta da rua.) Canalhas!
ROSINHA - Modere-se.
MOREIRA - Tem razão; o melhor é não dar-lhes importância.
(Põe-se de novo a passear
pela sala, proferindo frases entrecortadas. Acalma-se pouco a pouco. Rosinha,
durante este
passeio, vai de novo à janela ver se chega o primo, e volta. Pausa.)
ROSINHA - Com que então, o senhor tem cinqüenta escravos, hein?
MOREIRA (Muito amável, pegando-lhe na mão.) - Cinqüenta
escravos que serão seus no
dia em que consentir que eu peça a seus pais esta mãozinha.
ROSINHA (Admirada.) - Que a peça? Mas... para quem?
MOREIRA - Para mim mesmo; pois para quem há de ser?
ROSINHA (Retirando-lhe a mão, sorrindo.) - Neste caso, desconfio, meu
caro senhor, que
os seus escravos nunca serão meus.
MOREIRA (Desabridamente.) - Veremos.
ROSINHA - Hein?
MOREIRA - Pois não é tão bom possuir cinqüenta escravos?
Cinqüenta e um, porque eu
serei o mais humilde, o mais cativo de todos os seus cativos.
ROSINHA - Se julga que os meus pais disponham de mim com a mesma facilidade
com que
o senhor pode dispor de seus escravos...
MOREIRA - Mas, Dona Rosinha...
ROSINHA - O senhor bem sabe que meu coração já está
dado, e vamos e venhamos -
muito bem dado.
MOREIRA - Ora o seu coração! Sei que a namora o tal primo Ramiro;
mas entre o namoro
de um rapaz estabanado, que vai dar palmas a discursos de demagogos de meia
tigela, e o amor
calmo e refletido de um homem de senso prático, deputado provincial,
proprietário agrícola e
senhor de cinqüenta escravos, não me parece que haja hesitação
possível!
ROSINHA (À parte.) - É divertido!
MOREIRA - E depois, nunca ouviu falar das desastrosas conseqüências
de matrimônios entre
parentes consangüíneos? Quer ter filhos idiotas?
ROSINHA (Baixando os olhos.) - Senhor Moreira..
MOREIRA - E eu... como não sou seu primo...
ROSINHA - Não é meu primo... (Rindo-se.) mas podia ser meu avô...
MOREIRA - Não exagere: eu tenho apenas cinqüenta anos.
ROSINHA - Justamente o número de escravos. Nada: prefiro ter filhos
idiotas a ter um
marido velho. Demais, Deus é bom e misericordioso: não há
de permitir que eu seja mãe de
idiotas.
MOREIRA - Se tiver filhos perfeitos, onde irá buscar meios para educá-los?
Seu primo é um
simples praticante de secretaria...
ROSINHA - Amanuense, aliás.
MOREIRA - Ou isso. Eu tenho talvez o dobro da idade dele, não nego;
mas gozo de uma
posição social definida. Tenho influência política...
Não sou amanuense. Ser lavrador é tudo...
ROSINHA (Atalhando.) -... neste país essencialmente agrícola,
já sei... Vou prevenir mamãe
de sua visita... (Vai a sair pela direita, segundo plano, e volta-se.) Diga-me
cá, Senhor
Moreira: seus pais eram primos? Ah! Ah! Ah!... (Sai)
Moreira, só
[MOREIRA] - Ri-te, ri-te, minha sirigaita. Eu cá farei a cama a teu
primo, que é o único
obstáculo que se levanta entre nós. Era o que me faltava ver!
Ser vencido por amanuense, eu,
que sou senhor de trinta escravos...sim, porque, cá entre nós,
só tenho trinta escravos. - Ao pai
já falei... Mas o Gonçalo nada resolve por si... Felizmente
a velha não morre de amores pelo tal
priminho... Hei de falar-lhe hoje mesmo... (Depois de uma pequena pausa.)
Ah, Major
Gaudêncio! Major Gaudêncio! você é que é a
causa destas declarações inoportunas de um amor
que não sinto. - O caso é este; o Major Gaudêncio, o padrinho
desta pequena, é um velho
octogenário, que quebrou relações com o compadre por
via das impertinências da comadre, e
retirou-se para Maricá. Ora, aqui há coisa de mês e meio,
o Major Gaudêncio disse-me em
confiança que fizera o seu testamento e, não tendo parentes,
instituíra a afilhada herdeira
universal de todos os seus bens, que hão de orçar por trinta
ou quarenta contos. - Estou, por
conseguinte, empregando meios e modos para apanhar esta sorte grande... O
diabo é que isto de
primos...
Moreira, Rosinha , depois Gonçalo
ROSINHA (Da direita, segundo plano.) - Mamãe pede-lhe que faça
o favor de ir ter com ela;
espera-o na sala de jantar.
MOREIRA - Lá vou. (Vai saindo pela direita, segundo plano, e para.)
Reflita bem: com seu
primo, a miséria dos amanuenses; comigo, uma bela fazenda de café,
cinqüenta escravos, meia
dúzia de apólices de conto de réis e, quando quiser,
um título de baronesa. (Sai.)
ROSINHA (Só.) - Nem todo o ouro da terra, nem todos os títulos
do mundo me fazem
esquecer do meu Ramiro. (Aplicando o ouvido.) Sobem a escada... Oh! desta
vez não pode
deixar de ser ele! (Vendo entrar o pai da esquerda, segundo plano, despeitada.)
Ora!
GONÇALO - Já chamei o médico. Onde está mamãe?
ROSINHA - Lá dentro, na sala de jantar. (Gonçalo vai saindo.)
Está lá também o Senhor
Moreira.
GONÇALO (Parando.) - Ah, está lá o Moreira? (Coçando
a cabeça.) Este Moreira...
(Resolutamente, depois de uma pequena pausa.) Olha, minha filha, tu sabes
como é tua mãe...
Se ela quiser, não queiras!
ROSINHA - O quê?
GONÇALO - Não queiras senão teu primo. Bate-lhe o pé!
Se eu estiver do lado da tua mãe,
não faças caso: bate-me o pé também a mim...
ROSINHA - Mas...
GONÇALO - Aí vem teu primo. Amem-se à vontade. (Sai.)
ROSINHA - Ele! Finalmente!... (Corre ao encontro de Ramiro, que entra como
um raio,
pela esquerda, segundo plano, e conserva o chapéu na cabeça.)
Rosinha, Ramiro
RAMIRO - Prima!
ROSINHA - Por que não vieste há mais tempo?
RAMIRO - Hoje quase morri!
ROSINHA - Credo!
RAMIRO - De entusiasmo!
ROSINHA - Respiro.
RAMIRO - Que talentos! que idéias! que eloqüência! que mocidade!
ROSINHA - Nunca te vi assim!
RAMIRO - Pudera! Se eu nasci hoje! Até agora, tu, só tu enchias
o meu coração; doravante
tens uma rival: a liberdade! É que nunca me lembrei de que um milhão
e meio de homens
amargam neste país a sorte mais bárbara, o mais horrível
destino! (Passando.) Oh! viva a
liberdade, formosa deusa que ilumina o mundo!
ROSINHA - Que entusiasmo! Não me faças tu ter ciúme da
liberdade!
RAMIRO - Onde está teu pai!
ROSINHA - Está lá dentro, mas dize-me...
RAMIRO - Onde está tua mãe?
ROSINHA - Lá dentro. Mas... o que tens tu?
RAMIRO - E o Liberato?
ROSINHA - Está doente.
RAMIRO - Vai chamar teu pai, vai chamar tua mãe, vai chamar o Liberato!
ROSINHA - Mas se te acabo de dizer que o Liberato está doente?
RAMIRO (Com piedade.) - Doente! doente!... (Outro tom.) Quero aqui reunido
um
conselho de família!
ROSINHA - Um conselho de família! Mas o que será, meu Deus!
RAMIRO - Vai, Rosinha, vai... Trago no coração um peso enorme!
Meu pai não pode tardar
aí. A sua presença também é indispensável.
ROSINHA - Mas como estás hoje! Tira o chapéu, dá cá
a bengala. (Ramiro obedece.
Triste.) Nem sequer me perguntaste como passei.
RAMIRO (Tomando-lhe as mãos.) - Perdoa, Rosinha, perdoa. Amo-te muito,
muito, muito!
És um anjo, e eu só me considerarei digno de ti, depois deste
conselho de família! - vai chamar
teus pais.
ROSINHA - Vou já. (Sai pela direita, segundo plano, depois de ter posto
a um canto a
bengala e o chapéu do primo. Ramiro vai ao encontro de Lopes, que entra
da esquerda,
segundo plano.)
Ramiro, Doutor Lopes
RAMIRO - Ah, meu pai! Chega em boa ocasião! Mas por que não
veio comigo?
LOPES - Tinha que ir à casa consultar a lei e arranjar os quinhentos
mil réis. (Batendo na
cabeça.) Cá está a lei (Batendo na algibeira do peito.)
e cá está o dinheiro.
RAMIRO - Compreendo: o pecúlio do escravo.
LOPES - Já lhes falaste?
RAMIRO - Ainda não. Convoquei-os a um conselho de família, aqui
na sala.
LOPES - Entusiasmou-me o teu entusiasmo, e a tua humanitária lembrança
me encheu de
orgulho de ser teu pai. És o homem que eu sonhava, quando te acalentava
ao colo. No período
abolicionista que atravessamos, ser escravagista já não é
mau nem absurdo: é ser ridículo.
RAMIRO (Olhando para a porta da direita, segundo plano.) Eles aí vem...
Eles e... e o
Moreira, se não me engano.
LOPES - O Moreira? Má notícia.
Ramiro, Lopes, Rosinha, Dona Perpétua, Moreira, Gonçalo
DONA PERPÉTUA (Com impertinente volubilidade, enquanto Rosinha toma
a benção a
Lopes, e Gonçalo e Moreira, cumprimentam Lopes e Ramiro.) - Viva lá,
senhor meu sobrinho!
Então Vossa Excelência não se quis dar ao trabalho de
entrar? Se nos queria falar, por que não
foi lá ter, senhor fidalgo? Quem tem a dor de dentes é que vai
ao barbeiro. Tão longe era de cá
lá como de lá cá! (Vendo o Doutor Lopes) Olé!
também aí está, senhor meu mano? Viva!
Como vai de saúde o senhor advogado? Há de fazer o favor de
me explicar que farsa é esta de
conselho de família, que a Rosinha não soube dizer. Estamos
todos reunidos. Diga lá o que
pretende, senhor meu sobrinho das dúzias!
LOPES (À parte.) - É uma máquina Marinoni a falar!
MOREIRA - Perdão, mas ao que parece, sou aqui demais.
LOPES (Com desembaraço.) - Na realidade, uma vez que se trata de
um conselho de
família...
RAMIRO (Idem) - E não pertencendo o senhor Moreira à família...
LOPES (Idem) - Que nos conste...
DONA PERPÉTUA - Não pertence à família, mas...
quem sabe? O mundo dá tantas voltas...
MOREIRA - Isso é verdade, minha senhora: as voltas que o mundo dá!
(Indo buscar o seu
chapéu à esquerda.)
DONA PERPÉTUA - Fique. (Toma-lhe o chapéu, e coloca-o onde estava.)
O Senhor
Moreira é pessoa de nossa amizade; pode assistir ao conselho; pode
mesmo tomar parte dele.
MOREIRA - Nesse caso, peço licença para representar aqui o Major
Gaudêncio, que é um
quase parente.
DONA PERPÉTUA - Bem lembrado: representa o compadre Gaudêncio.
(Moreira senta-se.)
LOPES - A falar no Major Gaudêncio. Aqui tem, mano Gonçalo, uma
carta de Maricá...
Entregou-ma o carteiro, no corredor, quando eu subia.
DONA PERPÉTUA (Tomando a carta que ia ser entregue ao marido.) - Dê
cá. Nesta casa
sou eu que abro as cartas. Lerei logo mais, não tenho aqui meus óculos.
(Fica com a carta
fechada na mão.)
MOREIRA (Passando perto de Rosinha.) - Este mundo dá tantas voltas!
RAMIRO (Que observou.) - O que lhe diria ele?
LOPES - Bem, sentemo-nos. (Colocando a poltrona no centro da cena.) Este é
o ligar de
honra; deve ficar aqui o dono da casa, para presidir o conselho.
DONA PERPÉTUA (Sentando-se na poltrona.) O dono da casa sou eu.
LOPES - Perdão, mana, mas a casa é de Gonçalo.
DONA PERPÉTUA (Repoltreada.) - Por isso mesmo.
LOPES - A... mana manda mais que o galo.
DONA PERPÉTUA (Erguendo-se de um salto.) - Observo-lhe, senhor meu
mano, que eu não
sou galinha.
LOPES - Bem! Não val'zangar-se. (Colocando duas cadeiras de cada lado
da
poltrona.) Senta-te aqui Ramiro. (Fá-lo sentar-se na primeira cadeira
a começar da
esquerda.) Rosinha, tu aqui. (Na segunda.) O Senhor Moreira ali. (Na quarta.)
e eu aqui. (Na
terceira. - Estão todos sentados na seguinte ordem, a começar
da esquerda: Ramiro, Rosinha,
Dona Perpétua, Lopes, Moreira.)
GONÇALO (De pé.) - E eu?
DONA PERPÉTUA - Fica onde quiseres. Enquanto deliberamos, vai lá
dentro, pega numa
agulha e cose. (Gonçalo procura com a vista uma cadeira, e, não
a encontrando, vai
debruçar-se na sacada ao fundo, ficando de frente para a cena.)
DONA PERPÉTUA - Está aberto o conselho de família.
RAMIRO (Erguendo-se.) - Tomo a palavra. Reuni-os para comunicar-lhes uma idéia
grandiosa que há duas horas me anda dançando no cérebro.
LOPES (A uma cara de Dona Perpétua.) - Não se assuste com essa
coreografia, mana.
RAMIRO - Nós possuímos um escravo.
DONA PERPÉTUA - Um só, infelizmente. Meu pai, teu tio, morreu
sem testamento.
LOPES - Ab intestato.
DONA PERPÉTUA - Deixou por única herança um escravo.
(Lopes ergue-se. Ramiro
senta-se.)
LOPES - Não houve composição entre os herdeiros: o escravo
não foi à praça... Como o
negro, apesar de ser coisa, não era coisa que se dividisse, sim, porque
afinal de contas, eu não
podia ficar com a cabeça, ali a mana com uma perna, etc., resolvemos
fazer o que em direito se
chama uma partilha amigável. O escravo veio prestar serviços
à mana, sem deixar, ipso
facto de nos pertencer a todos. (Senta-se. Ramiro levanta-se.)
RAMIRO - Muito bem. Este pobre Liberato, que assim se chama o escravo...
LOPES - Paradoxo batismal;
RAMIRO - Esse pobre Liberato há vinte anos que nos presta muito bons
serviços.
DONA PERPÉTUA (Erguendo-se.) Muito bons serviços? Ora, sou sua
criada, senhor meu
sobrinho! Muito bons serviços! Um desavergonhado! Um preguiçoso!
Um beberrão!
RAMIRO (Com violência.) - Desavergonhado! E quer que tenha vergonha
um miserável
escravo!
LOPES (Idem.) - Preguiçoso! E quer que seja ativo quem nunca viu a
recompensa do seu
trabalho!
RAMIRO (Idem.) - Beberrão! Nunca se constou que o Liberato bebesse!
(Todos se erguem e
falam ao mesmo tempo. Gonçalo desce ao proscênio. Confusão
geral.)
RAMIRO - É uma injustiça! Sugar-lhe o sangue durante vinte anos,
e, ao cabo, tratá-lo desta
sorte! Isto brada aos céus!
LOPES - Com isto já contava eu! E então quando a mana souber
da idéia do Ramiro! O
melhor é tratar já do depósito!
DONA PERPÉTUA - É um preguiçoso, um beberrão,
repito! Não presta para nada! Não me
tem dado senão desgostos o maldito do negro!
ROSINHA - Mas, meu Deus! o que é isto? Fale cada um por sua vez! Assim
não se podem
entender! Silêncio!
MOREIRA - E então! Estamos na Assembléia Provincial? Entendam-se!
GONÇALO - Isto parece mais a Praia do Peixe! Silêncio! Olhem
os vizinhos!
RAMIRO (Conseguindo falar mais alto que os outros, que se calam.) - Há
dez anos, em
1870, penetrou um ladrão nesta casa. A senhora, minha tia, viu-o e
deu um grito! O ladrão
avançou, e matá-la-ia com um punhal, se o Liberato, interpondo-se,
não o tivesse subjugado.
LOPES - A mana deve a vida a esse desavergonhado, a esse beberrão!
DONA PERPÉTUA - Grande coisa! Pois se o diabo tinha visto o ladrão,
e se me ouvira
gritar, não fez mais que o seu dever, que era salvar sua senhora!
RAMIRO - Em que código está prescrito este dever?
DONA PERPÉTUA - E sabe Deus se o negro não se achava ali com
as mesmas intenções do
ladrão...
RAMIRO - Oh!...
DONA PERPÉTUA - Os negros são capazes de tudo!
LOPES - Você, mana, é um Clube da Lavoura... de saias...
DONA PERPÉTUA - E você é um malcriado!
RAMIRO - Bem, já vejo que perco o meu latim! A minha proposta está
prejudicada.
DONA PERPÉTUA - Mas o que nos queria propor este espirra-canivetes?
RAMIRO - O quê? Ouça, mas não desmaie!
LOPES - Tens razão. São necessárias certas precauções.
Espera. (Batendo nas mãos.) Um...
dois... e..
RAMIRO - A liberdade do Liberato.
DONA PERPÉTUA (Saltando.) - O quê?...
RAMIRO e LOPES - A liberdade do Liberato.
DONA PERPÉTUA - Isso nem resposta tem. Sabem que mais? Não sejam
tolos, seus
pedaços d'asnos! (Falam todos a um tempo. Confusão geral.)
DONA PERPÉTUA - Era o que me faltava! Alforriar o Liberato! mas por
que cargas d'água,
seus idiotas?
ROSINHA - Mas que palavras são essas, mamãe? Veja que está
aqui o Senhor Moreira.
RAMIRO e LOPES - O que queremos é justo, justíssimo! Um pobre
diabo que trabalha de
graça há vinte anos, e não nos custou um real!
MOREIRA (Caindo na poltrona, às gargalhadas.) - Ah! Ah! Ah!... Só
esta agora me faria
rir! Ora estes abolicionistas que querem abolir o que não é
seu! Ah! Ah! Ah!
GONÇALO (À parte.) - Eles não arranjam nada como Dona
Perpétua. Oh! com quem se
vieram meter! Logo com ela! Boas!...
LOPES (Dominando com sua voz as demais.) - Bem, agora falo eu! A mana quer
receber em
dinheiro a parte que lhe toca e a sua mulher... Oh! quero dizer: a seu marido?
(Moreira
ergue-se.)
DONA PERPÉTUA (Encarando-o com desdém e encolhendo os ombros.)
- Vou lá dentro
buscar os meus óculos, para ler esta carta. (Sai pela direita, segundo
plano, abrindo a carta.
Rosinha vai para a janela.)
LOPES (A Gonçalo.) - O que diz você, mano Gonçalo?
GONÇALO (Coçando a cabeça.) - Eu?... Eu?.... Olhe, eu
vou ver o Liberato... O médico
ainda não veio e... (Sai pela esquerda, primeiro plano.)
LOPES (A Ramiro, enquanto Moreira vai conversar com Rosinha, à janela.)
- Esta casa é
hoje a imagem perfeita do país em que vivemos. Cada instituição
tem hoje aqui o seu emblema.
Nós somos os filantropos: a utopia, o direito; aquele fazendeiro pedante,
a lavoura, uma força; a
mana e a Rosinha, a representação nacional: imposição,
sofisma, sujeição; Gonçalo, o povo,
indiferença e pusilanimidade.
RAMIRO - E lá está o pobre Liberato, para simbolizar a escravatura.
LOPES (Indo gritar à porta, por onde saiu Dona Perpétua.) -
Ah! é assim que nos trata a
mana? Pois é uma questão de capricho! Daqui a uma hora o Liberato
está livre! (Descendo ao
proscênio.) Toma!
DONA PERPÉTUA (Voltando, com a carta aberta na mão.) - Hein?
Como é lá isso? (A
Moreira, que desce ao proscênio.) Nem me deram tempo de procurar os
óculos!
LOPES - É isso mesmo! Lei número 2040 de 28 de setembro de 1871.
Artigo quarto,
parágrafo primeiro. pecúlio do escravo. Quinhentos mil réis!
Não lhe digo mais nada! (A
Ramiro.) Vamos, meu filho, vamos buscar a guia ao juízo de órfãos,
para fazer o depósito no
Tesouro.
RAMIRO - Vamos! (Tomam os chapéus, e saem, arrebatadamente, pela esquerda,
segundo
plano.)
Dona Perpétua, Moreira, Rosinha , à janela
DONA PERPÉTUA (Atônita, de braços cruzados, depois de
uma pausa.) - O que me diz a
isto, Senhor Moreira?
MOREIRA (Muito calmo.) - Digo, Senhora Dona Perpétua, que nunca vi
coisa que me
surpreendesse tanto! É o resultado das tais conferências abolicionistas!
Só servem para semear a
discórdia no seio das famílias! Mas que o Senhor Ramiro tenhas
estas idéias, vá; até certo ponto
merece desculpa... Mas seu irmão, minha senhora, o Senhor Doutor Lopes,
um homem que me
parecia tão bom, propor a alforria de um negro! Estou perplexo. Ter
um negro, um só, e
pretender libertá-lo! Eu cá, tenho sessenta e não liberto
nem meio! (Aproximando-se muito dela
e baixinho.) E é ao Senhor Ramiro que vão dar a mão daquele
anjo? (Aponta para Rosinha, que
se tem conservado na janela.) Ao Senhor Ramiro?! Mas pelo amor de Deus, Senhora
Dona
Perpétua! o procedimento de seu sobrinho autoriza-me a reiterar o pedido
que formalmente lhe
fiz ainda há pouco, lá na sala de jantar.
DONA PERPÉTUA (Muito alto.) - É sua a mão de minha filha,
Senhor Moreira. (Rosinha
volta-se subitamente e desce ao proscênio.) Não há mais
que discutir. (Com autoridade, a
Rosinha.) Está ouvindo, menina? O Senhor Moreira vai ser teu marido.
ROSINHA (Naturalmente) - Isso não é comigo, mamãe. (Gesto
de satisfação de Moreira.)
DONA PERPÉTUA - Bem sei, é comigo.
ROSINHA - Também não é com vossemecê.
DONA PERPÉTUA - Queres dizer que é com teu pai. Neste casa só
se faz o que eu quero.
ROSINHA - Não duvido, mas eu não pretendo casar nesta casa e
sim na igreja.
DONA PERPÉTUA - Menina!
MOREIRA (A Rosinha.) - Mas, minha senhora, se isto não é com
a senhora, nem com seu
pai, nem com sua mãe, com quem é então?
ROSINHA - É com primo Ramiro.
DONA PERPÉTUA e MOREIRA - Hein?
ROSINHA - Certamente. Eu dei o meu coração a primo Ramiro. Para
dá-lo a outro homem, é
preciso que ele mo restitua.
DONA PERPÉTUA - Pois tem o descoco de falar desse modo em presença
de tua mãe?
ROSINHA - Quero a minha liberdade. Parece-me que não sou o Liberato!
(Vai de mau modo
para a janela.)
DONA PERPÉTUA - Não é o Liberato! Senhor Moreira, segure-me,
senão, deito-me a
perder.
MOREIRA (Segurando-a.) - Minha rica senhora, o mundo está perdido.
A liberdade anda
agora como Salsaparrilha de Bristol.
DONA PERPÉTUA - Uma menina educada no colégio da Baronesa de
Geslin!
MOREIRA (Segurando-a sempre.) - Já ouvi dizer que é o melhor
colégio da corte!
ROSINHA (Voltando da janela.) - Primo Ramiro aí vem, Senhor Moreira.
Peça-lhe que ceda
o meu coração. Ofereça luvas. (Vai encostar-se a um consolo
da direita.)
Dona Perpétua, Moreira, Rosinha, Doutor Lopes, Ramiro
LOPES (Entrando com Ramiro pela esquerda.) - Sai, num estado de tal excitação
que me não
lembrei de que hoje é domingo e o juízo de órfãos
não funciona.
MOREIRA (Sorrindo.) - Mesmos nos dias úteis, a estas horas já
deve estar encerrada a
audiência.
RAMIRO - Vimos ainda uma vez propor-lhes uma conciliação. Recebam
os quinhentos mil
réis.
DONA PERPÉTUA (Vai como responder, mas arrepende-se.) - Vou lá
dentro buscar os
meus óculos para ler esta carta. (Saindo.)
LOPES - A mesma impertinência de ainda agora.
MOREIRA - Não é preciso incomodar-se, Senhora Dona Perpétua:
se me der licença, eu leio
a carta.
DONA PERPÉTUA - Por favor. (Passa-lhe a carta e Ramiro vai ter com
Rosinha.)
LOPES (Passeando pela sala, à parte.) - Nunca vi homem mais metediço.
MOREIRA (Depois de ler a assinatura.) - A carta vem de Maricá, mas
não é do Major
Gaudêncio.
DONA PERPÉTUA - De quem é então?
MOREIRA - É do vigário da freguesia. (À parte.) O que
será?
DONA PERPÉTUA - Ah! o vigário é conhecido velho de meu
marido. Leia.
MOREIRA (Lendo.) - "Amigo e Senhor Gonçalo. Vou ter o pesar e
ao mesmo tempo o
prazer de dar a Vossa Senhoria duas notícias, uma boa e outra má."
(Aproximam-se todos com
curiosidade. Grupo.) "Deus foi servido chamar à Sua presença
o Senhor Major Gaudêncio". E
esta!
DONA PERPÉTUA - Pois morreu o compadre?!
TODOS (Consternados.) - Ah!
MOREIRA (Continuando a leitura.) - "Abri hoje mesmo o seu testamento.
Deixou tudo
quanto possui à sua afilhada Dona Rosa, filha de Vossa Senhoria. Os
escravos, porém, ficaram
livres."
ROSINHA - E se o não ficassem, eu libertá-los-ia.
RAMIRO - Muito bem, Rosinha!
DONA PERPÉTUA - Era o que havíamos de ver! - Continue, Senhor
Moreira.
MOREIRA (Que tem lido para si o resto da carta, disfarça, fecha-a e
entrega-a a Dona
Perpétua.) - É só.
LOPES (Que se acha ao lado do Moreira, e tem também lido.) - Perdão,
mas o senhor não
leu tudo. (Toma a carta e abre-a.)
MOREIRA - Ah! É verdade! Esquecia-me que tenho de jantar com um amigo
político à Rua
de São Clemente. Minhas senhoras e senhores, passem bem! (Toma o chapéu
e sai.)
ROSINHA - Na verdade, o Senhor Moreira era aqui demais: morreu meu padrinho,
já não
tinha a quem representar.
LOPES (Que tem aberto a carta, lendo.) - "O testador impôs apenas
uma condição: Dona
Rosa só poderá aceitar a herança, casando com seu primo,
o Senhor Ramiro Lopes.!
RAMIRO e ROSINHA - Ah! (Corre um para o outro.)
RAMIRO - Minha tia, agora não peço: exijo a liberdade do Liberato.
A felicidade de sua
filha está nas minhas mãos,
Dona Perpétua, Rosinha, Ramiro, Doutor Lopes e Gonçalo
GONÇALO (Entrando, fora de si.) - Sabem?... Sabem?... O Liberato...
TODOS - O que tem?!
GONÇALO - Morreu!
TODOS - Morreu?!
GONÇALO - De repente. Quando entrei no quarto, exalava o último
suspiro.
DONA PERPÉTUA (Desabridamente, depois da muda estupefação
geral.) - E eu, que
recusei os quinhentos mil réis!...
LOPES - Com esse dinheiro far-lhe-emos um enterro decente. (A Ramiro.) Disseste
que o
Liberato simbolizava a escravatura; vês? Decididamente a morte é
o único meio eficaz de
emancipação.
[Cai o pano]
Fonte: http://www.ufpel.edu.br