Visitantes do panorama do Rio de Janeiro, vítimas de uma agência de alugar casas, compradores e vendedores de títulos, pessoas do povo, os Estados, membros do high-Iife, soldados de polícia, amadores de corridas, admiradores do Visconti, praças do Batalhão Tiradentes, etc:
O interior da rotunda em que se acha o panorama do Rio de Janeiro, na Praça 15 de Novembro. No centro, um duplo alçapão por onde os visitantes entram e saem. Um álbum, folhetos e binóculos. Cadeiras.
O Comendador, Eusébio, Dona Fortunata, Quinota, Benvinda, Juca, 1º visitante, 2º visitante, visitantes.
(Uns apreciam o panorama, outros conversam, outros escrevem as suas impressões no álbum dos visitantes. Cena muito animada.)
CORO
Oh! que belo panorama!
Que trabalho! que primor!
Ganhará dinheiro e fama
O senhor comendador!
Comendador
Venham ver uma obra-prima
Que louvores mil desperta!
Ninguém dela se aproxima
Sem ficar de boca aberta!
CORO
Vejam, vejam como é bela!
Desde França, está provado
Que defronte desta tela
Fica tudo estatelado!
Coro
Oh! que belo panorama!
etc.
Eusébio, à família. - Óia a ia das Cobra!
1º visitante. - Onde, senhor?
Eusébio, apontando. - Ali.
1º visitante. - Está enganado. Aquilo é a fortaleza de Villegaignon.
Quinota, a Dona Fortunata. - Olhe, mamãe, aquela rua é que era o quintal das freiras da Ajuda.
Juca, choroso. - Eu quero i me embora!
Dona Fortunata. - Espera, menino! Não começa a reiná!
Comendador, a Eusébio. - Queira escrever as suas impressões neste álbum. (Dá-Ihe o álbum.)
Eusébio. - Dê cá. (Toma o álbum, senta-se e escreve.)
2º visitante, ao Comendador. - Então? Está satisfeito?
Comendador. - Por ora não posso dizer nada. E o primeiro dia de exposição.
2º visitante. - A inauguração do seu panorama não podia ter lugar em dia mais apropriado: 1º de janeiro, a data do descobrimento desta bela terra, tão fielmente reproduzida pelo seu pincel.
Comendador. - Ora aí está uma frase que o senhor podia ter escrito naquele álbum.
2º visitante. - Já lá está.
Comendador. - Ah! bem! (Caindo numa cadeira.) Estou cansadíssimo... E já vão sendo horas de fechar... Não tive hoje descanso um minuto!... Só o trabalho de receber os convidados!
Eusébio, erguendo-se com o álbum na mão. - Aqui está o que escrevi. (O comendador levanta-se.) Puxei pelas idéia, mas não saiu grande coisa. (Chamando.) Dona Fortunata... Quinota... Juca... Benvinda... Venhum ouvi. (A família cerca-o.) Estão todos?
A família. - Estamos.
Eusébio, lendo com ênfase. - "Victor Meirelles, és de muita força!" (Ficam todos a espera do resto.) Então? Que mais esperam?
Quinota. - O resto.
Eusébio. - O resto? E só!...
Todos. - Ora!
Quinota. - Por tão pouco não valia a pena.
Comendador. - Naturalmente este senhor é homem de poucas palavras.
Eusébio. - Ah, quem me dera tê o talento deste visitante que escreveu: "Victor Meirelles fez-se por si; honra aos seus mestres!"
Comendador, tomando-lhe o álbum. A companhia é muito amável... mas já está escurecendo... são horas de fechar o panorama. (Efetivamente tem escurecido. Muitos visitantes saíram durante o diálogo. Outros saem agora apouco e pouco. Alguns apertam a mão ao comendador.)
Eusébio. - Eu fiquei por úrtimo, porque tenho que le dizê duas palavra.
Comendador. - Estou às suas ordens, mas é melhor lá embaixo.
Eusébio. - Não, sinhô. Há de sé aqui mesmo. Vosseoria não sabe quem eu sou, mas eu le digo.
COPLAS
Sinhô, eu sou fazendeiro
De São João do Sabará,
E venho ao Ri' de Janeiro
De coisas grave tratá.
Ora aqui está!
Ora aqui está!
Talvez leve um ano inteiro
Na Capitá Federá!
Apareceu um janota
Em S.João do Sabará;
Pediu a mão de Quinota,
E vei's' embora pra cá!
Ora aqui está!
Ora aqui está!
Hei de achá esse idiota
Na Capitá Federá!
Esta é minha muié. Dona Fortunata... Dona Fortunata. - Uma sua serva. (Mesura.)
Comendador. - Folgo de conhecê-la, minha senhora. E esta moça? é sua filha?
Eusébio. - Nossa.
Dona Fortunata. - Nome dela é Quinota... Joaquina... mas a gente chama ela de Quinota.
Quinota. - Cale-se, mamãe... O senhor não perguntou nada...
Eusébio. - Muito estruida... Teve três professô... Não parece moça da roça.
Comendador. - Sim?.
Eusébio. - Este é meu filho Juca... Tem cabeça, qué vê? Diz um verso, Juca!
Juca. - Ora, papai!
Dona Fortunata. - Diz um verso, menino! Não ouve, teu pai tá mandando?
Juca. - Ora, mamãe!
Quinota. - Diz o verso, Juca. Você parece tolo!
Juca. - Não digo!
Benvinda. - Nhô Juquinha, diga aquele de lá vem a lua saindo.
Juca. - Eu não sei verso!
Dona Fortunata. - Diz o verso, diabo! (Dá-lhe um beliscão. Juca faz berreiro.)
Eusébio, tomando o filho e acariciando-o. - Tá bom, tão bom, não chora! (Ao comendador.) Tá muito cheio de vontade... Ah! mas eu vou botá ele no colégio. Diz que o Gináso Nacioná é muito bom...
Comendador. - Dizem.
Eusébio, a Juca. - Então tu não qué dizê o verso?
Comendador. - Deixe-o. Dirá quando chegar à casa.
Eusébio. - A casa?! Ah! meu sinhô! isso é que há de sê difice! Nós não temo casa, e era justamente por isso que eu desejava falá a vosseoria.
Comendador. - Ora essa!
Eusébio. - Magine que nós cheguemo onte e procuremo cômados em todos os hoté. Nem um quarto desocupado! Quisemo alugá uma casa... Quá casa, seu compadre! No Rio de Janeiro não há uma casa pr'alugá!
Comendador, a parte. - Mas que tenho eu com isso?
Dona Fortunata. - Esta noute... Ai, meu Deus! uma pessoa pra quê está guardada neste mundo!
Comendador. - Que aconteceu?
Quinota. - Não contem!
Eusébio. - Passemo a noite dentro de um bonde, que estava na Rua do Riachuelo, c'as cortina arriada. Cada um de nós tomou conta de um banco.
Dona Fortunata. - A gente feito vagabundo!
Quinota. -Mamãe!... Que necessidade tem este senhor de saber...?
Comendador. - Mas, afinal, que desejam de mim?
Eusébio. - Eu le digo. Nós passemo inda agorinha por aqui e vimo este barracão.
Comendador. - Diga "pavilhão".
Eusébio. - Ué! Pavilhão não é bandeira?
Comendador. - Se não quiser dizer "pavilhão" diga "rotunda".
Eusébio. - Pois bem, passemo por esta rotunda, e proguntemo o que era. Nos disserum que era o panorama do Rio de Janeiro, e que só estava aberto de dia. Então me alembrei de vi falá a vosseoria pra me alugá durante a noite a... Cumo chama?
Dona Fortunata. - Catunda.
Quinota. - Rotunda.
Eusébio. - Ora ai está.
Comendador. - O senhor está doido! Aqui não há espaço!...
Eusébio. - Ora! pra quem foi obrigado a passá a noite num bonde c'a família!
Comendador. - Não há espaço nem ar. O senhor não vê como faz calor aqui?
Eusébio. - E verdade que estou suando em bica!
Comendador. E eu!
Dona Fortunata. - E eu!
Quinota. - E eu!
Juca. - E eu!
Benvinda. - E eu!
Comendador. - Se querem continuar a conversar, vamos lá para baixo. Aqui já está muito escuro!
Dona Fortunata. - E tudo isto por causa daquele Seu Gouveia! Ah! se eu apanho ele!...
Eusébio. - Ora! estava tão bão este cômado! Deste lado ficava eu e Dona Fortunata.
Dona Fortunata. - Não; se eu ficasse era ali do lado da barra, que deve ser mais fresco.
Eusébio. - Tá bão... A gente não havia de brigá... Aqui do lado da Tijuca ficava Quinota e Benvinda... E Juca ficava ali.
Comendador. - E podiam gabar-se de que todos os quartos tinham muito boa vista.
Benvinda. - Nhanhã, olhe um passarinho!
Quinota. - E verdade! um passarinho!
Dona Fortunata. - Parece de verdade!
Juca. - Eu quero o passarinho pra mim!
Eusébio. - Cala a boca, menino!
Juca, chorando. - Eu quero o passarinho!
Dona Fortunata. - Deixa está... eu te sapeco quando chegá em casa!
Eusébio. - Em casa! Então não é tão cedo que você sapeca ele!
Comendador. - Mas observo-lhes que já não enxergamos um palmo adiante do nariz! Vamos embora!
Eusébio. - Vamos! (Vai descendo.)
Comendador. - Não! Por aí é a entrada!
Dona Fortunata. - Ué! A gente não desce pra baixo pelo mesmo lugá por onde subiu pra cima?
Comendador. - Esperem! Eu vou adiante! Chi! está escuro que nem um prego! Deixem-me riscar um fósforo. (Risca um fósforo e desce.)
Eusébio. - Desça, Dona Fortunata. (Dona Fortunata desce.) Desce, Quinota. (Quinota desce.) Desce, Juca.
Juca, chorando. - Eu quero o passarinho!
Eusébio. - Ah! (Empurra-o. Juca desce. Sá ficam em cena Benvinda e Eusébio. Ela vai descendo e ele dá-lhe um beijo.)
Benvinda. - Ah! seu assanhado! (Desce. Eusébio desce. A cena fica vazia. Obscuridade completa. Música na orquestra. A coluna central do panorama transforma-se num grande ramilhete, de onde sai Frivolina, iluminada por um foco de luz elétrica.)
Frivolina
COPLA
De Aristófanes sou neta:
Nasci na Grécia pagã;
Sagrou-me um grande poeta;
Sou graciosa e louçã.
Troquei a sátira eterna
Pela pilhéria moderna!
Tenho exercitada a perna
Nas delicias do cancã!
(Dança. Cessa a música, e extingue-se o foco de luz. Frivolina vem ao proscênio.) Os senhores querem saber quem sou? Pois não me conhecem? Sou Frivolina, a musa das revistas de ano...
Um espectador da platéia, erguendo-se indignado. - Ora muito obrigado! Frivolina! Um personagem velho!
Frivolina. - Como?
O espectador. - Frivolina já apareceu noutra revista, que se intitulava Mercúrio... E o nome ficou... Por sinal que o deram a um animal de corridas.
Frivolina. - Ora essa, meu caro senhor! Um dos autores do Mercúrio é o autor dO Tribofe; está, por conseguinte, no seu direito, servindo-se de um personagem que inventou.
O espectador. - E uma imperdoável falta de novidade. Quem não tem imaginação não se mete a escrever revistas.
Frivolina. - O senhor é um espectador impertinente!
O espectador. - Exerço o meu direito de crítica. Vejo que a peça não tem originalidade. Hão de ver! não tarda por aí um ator disfarçado em espectador, a falar da platéia, como em todas as revistas!
Frivolina. - Faz favor de não interromper o espetáculo?
O espectador. - Vou me embora! Não fico aqui nem mais um minuto! Não quero assistir à representação de uma revista que se parece com outra! Isto é fazenda velha com rótulo novo! Minhas senhoras, meus senhores, dêem uma lição a este autor... Façam como eu: retirem-se! Ah! ~ Não fico eu!... (Sai.)
Frivolina. - Vão lá livrar-se de um maluco destes! Onde estava eu? (Ao ponto.) Vamos! Diga!... Você fica parado a olhar para mim!
O ponto. - E que eu já me não lembra onde estávamos!
Frivolina. - Dê cá a peça. (Toma a peça, percorre-a com os olhos, e restitui-a ao ponto, marcando com o dedo.) Olhe... aqui! - Os senhores querem saber quem sou? Pois não me conhecem? Sou Frivolina, a musa das revistas de ano... Estamos em 1º de janeiro... E tempo de começar a revista de 1891... Por onde principiar? perguntei aos meus botões, e os meus botões me responderam: - Ora essa! inaugura-se hoje o panorama do Rio de Janeiro: ai tens tu o ponto de partida. Eis-me, pois, no panorama, à procura do compadre... Mas... poderei descobri-lo aqui? (Olhando para fora.) Não me engano... aquele vulto... E uma forma humana... Agora reparo... Um velho, um naturalista que examina cuidadosamente umas pedras... Chamemo-lo! Psiu! Oh! doutor! doutor!...
A voz de Tribofe. - Hein? É comigo?
Frivolina. - Sim, senhor. Faz favor de vir até cá?
A voz. Lá vou. (Entra, saltando por cima da grade.)
Frivolina. - Que fazia ali o senhor?
Tribofe. Estava examinando umas pedras encontradas aqui no Morro de Santo Antônio... Parece-me que descobri uma mina de ouro...
Frivolina. - Não é o primeiro que diz que há neste morro uma mina... Mas vejo que não me enganei; o senhor é um naturalista...
Tribofe. - Naturalista viajante... Não é por me gabar, mas olhe que sou um sábio como não os há muitos na Rússia.
Frivolina. - Ah! é russo? Nesse caso deve ter um nome acabado em off?
Tribofe. - Efetivamente. Chamo-me Triboff.
Frivolina. - Triboff? Com dous ff?
Tribofe. - Sim, senhora.
Frivolina. - Pois vai perder um.
Tribofe. - Um quê?
Frivolina. - Um f Vai perder um f e ganhar um e. O seu nome será Tribofe. T r; i, tri, b, o, bo, f e, fe.
Tribofe. - Ora essa! E por quê?
Frivolina. - Porque assim o quero. Deixarás de ser um sábio naturalista, e tomarás sucessivamente todas as fisionomias e personalidades do tribofe. Farás em minha companhia a revista de 1891.
Tribofe. - Mas... quem é a senhora?
Frivolina. - Frivolina, a musa das revistas de ano... Como uma fada, tenho a minha varinha de condão... Olha, vou fazer desaparecer essa guedelha e essas barbaças brancas. Quero-te jovem e lépido! Olha! (Bate-lhe com a varinha. Desaparecem os cabelos brancos e as barbas de Tribofr.)
Tribofe. - Aí está como acontece a um naturalista uma coisa que nada tem de natural!
Frivolina. - Estás pronto a acompanhar-me?
Tribofe. - Pronto! Mas que papel me reservas? Que vem a ser isso de tribofe?
Frivolina. -Ouve...
RONDÓ RECITADO
Sabichão que se estafe e se esbofe,
Desejoso de tudo saber,
O novíssimo termo tribofe
- Em nenhum dicionário há de ver.
Com gíria de sport aplicá-lo
Tenho visto, e somente indicar
A corrida em que perde o cavalo
Que por força devia ganhar;
Mas a tudo se aplica a palavra,
Pois em tudo o tribofe se vê;
Qual moléstia epidêmica lavra,
E não há quem remédio lhe dê.
Na política há muito tribofe,
Muito herói que não sente o que diz,
E o que quer é fazer regabofe,
Muito embora padeça o país.
Quem república ao povo promete
E, mostrando-se pouco sagaz,
No poder velhos áulicos mete,
Faz tribofe, outra coisa não faz.
Quem só fala do seu patriotismo,
E suspira por Dom Sebastião,
Faz tribofe, pois Sebastianismo
E tribofe sinônimos são.
O sujeito que muda de estado
E na noiva não acha o melhor,
Sofre um grande tribofe, coitado!
Eu não sei de tribofe maior!
Literato que assina e publica
Velhas coisas, mais velhas que a Sé,
Um tribofe horroroso pratica,
Outra coisa o tribofe não é.
No comércio, nas letras, nas artes,
Há tribofe, tribofe haverá,
Que o tribofe por todas as partes
E por todas as classes irá!
Mas nenhum sabichão que se esbofe,
Desejoso de tudo saber,
O novíssimo termo - tribofe
- Em nenhum dicionário há de ver.
Tribofe. - Mas, pelo que dizes, tribofe não é pessoa, é coisa...
Frivolina. - E coisa, que será personificada por ti, ou antes, por nós.
Tribofe. - Não deites mais na carta! Vamos!
Frivolina. - Vamos! (Dispõem-se a sair. Forte na orquestra. Mutação.)
Corredor. Na parede uma mão pintada, apontando para a esquerda, e este letreiro: "Agência~de alugar casas. Preço de cada indicação, 5$OOO, pagos adiantados." Um banco. A cena só tem um plano.
Vítimas, entrando furiosas da esquerda, depois Mota e Vieira.
CORO DE VITIMAS
Que ladroeira!
Que maroteira!
Que bandalheira!
Pasmado estou!
Viu toda a gente
Que o tal agente
Cinicamente
Nos enganou!
(Saem desesperados pela direita.)
Mota, entrando furioso da esquerda. - Cinco mil-réis deitados fora! Cinco mil-réis roubados! Mas deixem estar que... (Vai saindo e encontra-se com Vieira, que entra da direita.)
Vieira. - Que é isso, Seu Mota? Vai furioso!...
Mota. - Se lhe parece que não tenho razão! Esta agência anuncia que indica onde há casas para alugar por cinco mil-réis...
Vieira. - Casas por cinco mil-réis? Barata feira!
Mota. - Perdão! Indica por cinco mil-réis...
Vieira, sorrindo. - Bem sei, e é isso justamente o que aqui me traz.
Mota. - Pois volte, Seu Vieira, volte, se não quer que lhe aconteça o mesmo que me sucedeu, e tem sucedido a muita gente.
Vieira. - Mas que foi?
Mota. - Indicaram-me uma casa no Morro do Pinto, com todas as acomodações que eu desejava... Você sabe o que é subir ao Morro do Pinto?
Vieira. - Não.
Mota. - Então não pode fazer uma idéia! Subo ao Morro do Pinto, e encontro a casa ocupada!
Vieira. - Oh!
Mota. - Volto aqui, faço ver que a indicação de nada me serviu, e peço que me restituam os meus ricos cinco mil-réis. Respondem-me que a agência não me restitui o cobre, porque não tem culpa de que a casa se tivesse alugado.
Vieira. - E não deram outra indicação?
Mota. - Deram. Cá está. (Mostra um papelinho.)
Vieira, aparte. - Vou aproveitá-la.
Mota. - Mas provavelmente vale tanto quanto a outra!
Vieira, depois de lera indicação. - Oh!...
Mota. - Que é?
Vieira. - Esta agora não é má! Rua dos Arcos nº 100! Indicaram a casa em que eu moro!
Mota. - Então? Quando lhe digo! Vamos embora! Não caia na asneira de lá subir!
Vieira. - Naturalmente. Este Rio de Janeiro está perdido!
Mota, Vieira, uma senhora, depois um proprietário.
A senhora, saindo da direita. - Um desaforo! uma pouca vergonha! ...
Mota. - Foi também vítima, minha senhora? A senhora. - Roubaram-me cinco mil-réis! Vieira. - Também (justiça se lhes faça!) eles nunca roubam mais do que isso!
A senhora. - Indicaram-me uma casa, vou lá, e encontro um tipo que me pergunta se eu quero um quarto mobiliado! Vou queixar-me...
Mota. - Ao Bispo, minha senhora! queixemo-nos todos ao Bispo! (O proprietário vai atravessando a cena da direita para a esquerda e cumprimenta as pessoas presentes.)
Vieira, embargando-lhe a passagem. - Não vá lá! Não vá lá, - meu caro senhor!... Olhe que lhe roubam cinco mil-réis!
O proprietário. - Nada... eu não pretendo casa; o que eu quero é alugar a minha.
Mota, Vieira e a Senhora.- Ah! (Cercam-no.)
A senhora. - Talvez não seja preciso ir a agencia. Eu desejo uma casa.
Vieira. - E eu.
Mota. - E eu.
A senhora. - Onde é a sua?
O proprietário. - Se querem que eu indique, venham cinco mil-réis de cada um.
Os três. - Hem?
O proprietário. - Ora essa! Por que é que a agência há de cobrar e eu não?
Mota. - A agência paga imposto, e, apesar dos pesares, é um estabelecimento legalmente autorizado...
O proprietário. - Bem; como eu não sou um estabelecimento legalmente autorizado, dou a indicação por três mil-réis.
Mota. - Guarde-a.
Vieira. - Dispenso-a.
A senhora. - Aqui tem os três mil-réis. A necessidade é tanta, que me submeto a todas as patifarias!
O proprietário, muito calmo. - Patifaria é forte.... mas como a senhora paga...
A senhora. - Vamos!
O proprietário. - A minha casa é na Praia Formosa.
Mota e Vieira. - Que horror!
O proprietário. - E um sobrado com janelas de peitoril. Os baixos estão ocupados por um açougue...
A senhora. - Oh! deve haver muitos mosquitos!
O proprietário. - Mosquitos há em toda a parte. Sala, três quartos, sala de jantar, dispensa, cozinha, latrina na cozinha, água, gás, tanque para lavar e galinheiro.
A senhora. - Tem banheiro?
O proprietário. - Terá, se o inquilino o fizer. A casa foi pintada e forrada há dez anos; está muito suja. Aluguel, duzentos mil-réis por mês; pagamento adiantado e carta de fiança, passada por negociante matriculado; trezentos mil-réis de posse e contrato por cinco anos... O imposto predial e de pena-d'água é pago pelo inquilino.
A senhora. - Com os três mil-réis que me roubou, compre uma corda e enforque-se! (Sai.)
Mota, enquanto ela passa. - Muito bem respondido, minha senhora!
Vieira. - Com efeito! ...
O proprietário. - Mas os senhores...
Mota, tirando um apito do bolso. - Se diz mais uma palavra, apito!
O proprietário. - Ora vá se catar! (Sai pela esquerda.)
Vieira. - Que belo tipo de proprietário!
Mota. - E há muitos assim! Vamos embora, seu Vieira.
Vieira. - Vamos, Seu Mota. (Vão saindo pela direita, e entra Eusêbio com a família; dão-lhes passagem)
Mota. - Coitados! (Saem.)
CENA III
Eusébio, Dona Fortunata, Quinota, Juca, Benvinda.
Eusébio. - Entra! É aqui!
Dona Fortunata. - Deixe-me arrespirá um bocadinho... Virge Maria! Quanta escada!
Eusébio. - E ainda é no outro andá. Olhe! (Lendo.) "Agência de alugar casas. Preço de cada indicação, cinco mil-réis, pagos adiantados."
Dona Fortunata. - Já não posso mais com esta história de casa!
Quinota. - É um inferno!
Benvinda. - Uma desgraça memo!
Eusébio. - Ainda assim, levantemo as mão para o céu por ter encontrado aquele cômado num cortiço da Rua dos Inválio. Oh! mas desta vez tenho esperança de arranjá casa! Diz que esta agência é muito séria. Vamo.
Dona Fortunata. - Eu não subo mais escada. Espero aqui.
Eusébio. - Tudo fica. Eu vou e vorto. (Vai saindo.)
Juca, chorando e batendo o pé. - Eu quero i com papai! eu quero i com papai! ...
Dona Fortunata. - Pois vai, diabo!
Eusébio. - Vem, vem, não chora, dá cá a mão! (Sai com o filho pela esquerda.)
CENA IV Dona Fortunata, Quinota, Benvinda.
Quinota. - Mamãe, por que não se senta naquele banco?
Dona Fortunata - Ah! É verdade! Não tinha arreparado... Estou moída! (Senta-se e fecha os olhos.)
Benvida. - Sinhá vai dromi.
Quinota. - Deixa.
Benvinda. - Nhanhã arreparou naquele moço que seguiu a gente?
Quinota. - Olha mamãe. (Dona Fortunata ressona.)
Benvinda. - Já está dromindo. Nhanhã reparou?
Quinota. - Reparei, sim.
Benvinda. - Quando nós fumo naquela casa vê os quadro...
Quinota. - Sim, a Escola de Belas-Artes...
Benvinda. - Ele entrou também... Pilhou toda a família descuidada, vendo aquela guerra do quadro grande.. e me meteu esta carta na mão!
Quinota. - Uma carta! E tu ficaste com ela? Ah, Benvinda! (Pausa.) É para mim?
Benvinda. - Pois para quem havera de sê?
Quinota. - Dá cá. (Vai abrira carta e arrepende-se.) Que asneira ia eu fazendo!
DUETINO
Quinota
Eu gosto de Seu Gouveia;
Com ele espero casar;
O meu coração anseia
Pertinho dele pulsar...
Portanto, a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!
Eu sou curiosa!
Não sei me conter!
A carta amorosa
Depressa vou ler!
Benvinda
Não há que dizer!
Aqui agora não vem...
Abra a carta, a carta leia...
Não digo nada a ninguém.
Quinota
Não! não! a epístola
Não posso abrir!
Sérios escrúpulos
Devo sentir!...
Entretanto é verdade
Que tenho tal ou qual curiosidade...
Mamãe, Benvinda,
Dormindo está?
(Dona Fortunata ressona)
Benvinda
Sim, e ela memo
Respondeu já.
Quinota
É feio!
Mas que importa? Abro e leio!
(Abre a carta.)
Quinota
Eu sou curiosa!
Não sei me conter!
A carta amorosa
Depressa vou ler!
Benvida
É bem curiosa
Não há que dizer!
A carta amorosa
Depressa vai ler!
Quinota, lendo a carta. - "Minha bela mulata?" ...
Ambas. -Ué!...
Quinota, lendo. - "Minha bela mulata. Há cinco dias te sigo por toda a parte, e há três noites rondo a estalagem da Rua dos Inválidos onde tu moras. Vejo que és mucama de uma família do interior..." A carta é para ti. (Da a carta a Benvinda. - À parte.) Fui bem castigada.
Benvinda. - Leia pra eu ouvi, nhanhã.
Quinota. - "Se queres ter uma posição mais independente, e uma casa mais confortável..."
Benvinda. - Gentes!
Quinota. - "Estou às tuas ordens na Rua de Resende n.º 180. Nada te faltará. Procura pelo Figueiredo."
Benvinda, à parte. - Rua de Resende n? 180 (Alto.) Rasga essa carta, nhanhã! Veja que sem-vergonhice de home!... Quinota, rasgando a carta. - Se papai soubesse...
Benvinda, à parte. - Figueiredo...
As mesmas, Eusébio e Juca.
Eusébio. - Já tenho uma indicação.
Dona Fortunata, acordando. - Ah! quase pego no sono! - Temos casa?
Eusébio. - Temos. Vamo à Praia Fermosa.
Dona Fortunata. - Ora graças!
Eusébio. - Diz que o logá é aprazive, a casa muito boa... e tem a vantage de está pru cima de um açougue, o que qué dizê que nunca fartará carne. Vamo!
Quinota. - É muito longe?
Eusébio. - É, mas tomemo o bonde ali na Rua Direita... Vamo!
Juca. - Eu quero i com Benvinda!
Dona Fortunata. - Bem! vai com Benvinda, vai! É preciso muita paciença para aturar este demônio deste menino! (Saem todos.)
Benvinda, saindo por último com Juca pela mão. -Figueiredo... Resende n.º 180...
Tribofe, Frivolina, vestida de homem, e o proprietário.
Frivolina. - Pode ir descansado, que a sua casa alugada.
Tribofe. - Mas olhe que o preço é muito exagerado...
O proprietário. - Exagerado! Duzentos e cinqüenta mil-réis! É de graça na época atual, creia que é de graça! (Apertando-lhes a mão.) Mas adeus! Adeus!... tenho ainda que ir arranjar mandado de despejo contra uma viúva, minha inquilina, que há três es não me paga o aluguel da casa. (Sai.)
Tribofe, Frivolina.
Tribofe, num tom de desabafo. - Sabes que mais? Renuncio a isto de agência de alugar casas!
Frivolina. - Por quê?
Tribofe. - Não é mau o negócio; é mesmo ótimo... Mas apanha-se muita descompostura... Chamaram-me hoje ladrão dezessete vezes!... Tive a pachorra de contá-las! O tribofe aqui é muito escandaloso. Eu preferia coisa em que não tivéssemos de especular com as necessidades públicas!
Frivolina. - Pois mudemos de profissão! Vamos para o Encilhamento! A febre das companhias ainda dura, e há muito que tribofar por esse lado.
Tribofe. - Isso é verdade! Nestes últimos dias sido lançadas umas vinte empresas, e todas dão ágio.
COPLA
Tivemos a "Frigorífica",
A ''Mineira Pastoril'',
E também a "Gordorífica
Industrial e Mercantil'',
"Manufatora de Lenha",
"Produtos de Papelão";
E muitas cuja resenha
Seria uma amolação.
Eu de ver já me não privo
Em letras grandes até:
"Companhia do Olho-Vivo,
Rói-a-Corda e Passa-o-Pé."
Frivolina. - Ao Encilhamento!
Tribofe. - Ao Encilhamento!
(Saem. Mutação.)
Na Rua 1.º de Março. À esquerda parte do edifício da Bolsa e à direita parte do edifício do Correio.
Zangôes, pessoas do povo, depois Companhias e Bancos, depois o Câmbio, depois Tribofe e Frivolina. (Ao erguer o pano há grande movimento em cena. Os compradores e vendedores de títulos cruzam-se em todos os sentidos.)
CORO
Que ajuntamento,
Que movimento
No Encilhamento
Se faz notar!
Toda esta gente
Quer de repente,
Rapidamente,
Cobre apanhar!
(Entrada de oito Companhias, acompanhadas por oito Bancos.)
As Companhias
Eis as novas Companhias,
Que vão dar um dinheirão!
Olhem pr'estas bizarrias!
Vejam só que perfeição!
Os Bancos
Eis aqui os novos Bancos,
Que vão dar um dinheirão!
Libras, dollars, marcos, francos
Vamos ter em profusão!
(Entra o Câmbio a dançar, e coloca-se no meio dos Bancos e Companhias.)
O Câmbio
Mim ser o Câmbia!
Bem alta estar..
Mas desconfia
Que vai baixar..
Uma Companhia
Deixa-te disso!
És bom rapaz,
E com certeza
Não baixaras
Ó companheiros,
Sem mais tardar
Em volta ao Câmbio
Toca a dançar!
Os Bancos e as Companhias, dançando em redor do Câmbio.
Eis aqui os novos Bancos, etc.
Eis as novas Companhias, etc.
Coro geral
Que ajuntamento! etc.
(Saem os Bancos, as Companhias e o Câmbio sempre a dançar. Continua o movimento no fundo do teatro. Entram Frivolina e Tribofe.)