Opereta de Costumes em 3 atos
Música de F. de Sá Noronha
Representada pela primeira vez no Rio de Janeiro no Teatro Fênix Dramática, em 12 de outubro de 1880
A seu sogro e bom amigo, o Ilmo. Sr. Henrique Cardoso de Morais, oferece, em sinal de muita gratidão, respeito, amizade e simpatia
Artur Azevedo.
Não quero fechar este folheto, sem deixar público o meu eterno agradecimento a Emília Adelaide, a festejada atriz, empresária do São Luís, pelo delicado acolhimento que se dignou a fazer a Jóia, e aos generosos e distintos artistas que tomaram parte na representação pela boa vontade com que se houveram no desempenho dos respectivos papéis. A.A.
O Tenente-Coronel
Frederico
Passos Pereira
O Doutor Pinheiro
Raimundo
O Vigário
O Mestre Escola
Clorindo
Leonor
Francelina
Dona Maria
Salustiano
Fabrício
Um escravo
Escravos, escravas, convidados, rapazes da escola.
A Cena passa-se no interior da província do Rio de Janeiro, na fazenda do Tenente Coronel. Atualidade.
Varanda. À esquerda um oratório iluminado, colocado sobre uma cômoda. Ao fundo, tábua de engomar. Do teto pende um lampião. Cadeiras de pau. Ao fundo, parapeito. Além, campo, em perspectiva.
O Tenente-Coronel, de pé, junto ao oratório; ajoelhadas a seu lado Leonor e Dona Maria ; mais afastados, e ajoelhados também, escravos e escravas. Rezam.
Ave Maria
Coro - Ave Maria, cheia de graça!
Ave Maria, cheia de amor!
Nossos pecados gentil perdoa,
Mãe adorada do Redentor!
Ave Maria, cheia de graça!
Ave Maria, cheia de luz!
Ave Maria, pomba divina!
Ave Maria, mãe de Jesus!
(Continua a música na orquestra. Erguem-se Todos silenciosamente.)
Os Escravos - A benção, sinhô? A benção, sinhá?
O Tenente-Coronel - Adeus.
Leonor - Adeus. (Vai encostar-se pensativa à cômoda.)
O Tenente-Coronel - Tomem a benção à Senhora Dona Maria!
Os Escravos - A benção, sinhá velha?
Dona Maria (À parte.) - Sinhá velha! Desavergonhados. (Alto.) Boa noite.
(Os escravos retiram-se, entoando um motivo da Ave-Maria. As vozes perdem-se ao longe.)
O Tenente-Coronel, Leonor. Dona Maria
O Tenente-Coronel (Apagando as velas que iluminam o oratório e fechando-o.) - Boa noite.
Dona Maria (Sentando-se.) - Boa noite, Senhor Tenente Coronel.
Leonor - A benção, dindinho?
O Tenente-Coronel - Deus te faça santa. (Indo dar-lhe a mão a beijar.) Deus te faça santa. (Fazendo baixar o lampião e acendendo-o com um fósforo.) Ainda está bastante claro, mas fica feito o serviço. Neste tempo, quando menos se espera, é noite fechada. (Indo sentar-se junto de Dona Maria.) Tem-se aborrecido muito na fazenda, não é assim, Senhora Dona Maria?
Dona Maria - Eu? Pelo amor de Deus, Senhor Tenente-Coronel! Há oito dias que aqui estou e não tenho vontade alguma de voltar para a vila. Aquilo anda por lá muito civilizado. Ou viver na roça, mas na roça propriamente dita, ou corte; eu sou pelos extremos.
O Tenente-Coronel - Ainda bem!
Dona Maria - Estou aqui tão bem como se estivesse em casa de minha irmã das Laranjeiras.
O Tenente-Coronel - Faça de conta que está em sua casa. Vou dar uma volta pelo terreiro. Até já, Senhora Dona Maria.
Dona Maria - Até já, Senhor Tenente-Coronel.
O Tenente-Coronel - Até já, menina. Você anda triste; o que é isso?
Leonor - Nada, dindinho.
O Tenente-Coronel (Arremedando-a.) - Nada, dindinho. - Quem bem nada não se afoga. (Sai pelo fundo.)
Leonor, Dona Maria
Dona Maria - Seu padrinho tem razão, a senhora não tem estado no seu natural. Pois olhe, não parece que haja motivo... é tão feliz... (Leonor chora.) Então? O que dizia eu? Está chorando...
Leonor - Não é nada...
Dona Maria - Vamos... diga-me... Confie-me as suas mágoas. Quem sabe se não lhe poderei dar remédio? Donde não se espera, daí é que vem. (Toma-a pela mão, fá-la sentar-se ao seu lado.) Conte-me tudo.
Leonor (Lacrimosa.) - A senhora lembra-se do Frederico?
Dona Maria - Do filho do seu padrinho? Perfeitamente. E daí?
Leonor - Quando o Frederico veio, há dois meses, passar as férias na fazenda, disse-me que gostava muito de mim.
Dona Maria - E a senhora?
Leonor - Eu... disse-lhe que também gostava muito dele.
Dona Maria - E enganava-o?
Leonor - Não; mas enganava-me a mim própria; porque, depois que voltou para a corte, nunca mais me lembrei dele.
Dona Maria - E é isso motivo par andar triste?
Leonor - O motivo é que jurei pela salvação de minha’lma não pertencer a outro homem; dei-lhe a minha palavra de honra que o esperaria...
Dona Maria - Mas apareceu O Doutor Pinheirinho, o juiz municipal, e a senhora esqueceu-se.
Leonor - Do Frederico, é verdade... Oh! eu não desgosto do Frederico... fomos educados juntos por dindinho, que me recebeu em sua casa mal fiquei órfã... tendo-lhe amizade... mas aO Doutor Pinheirinho... (Ergue-se. Dona Maria ergue-se também.) Oh! aO Doutor Pinheirinho tenho o mais ardente amor!
Coplas
I
- Eu quando o vi a vez primeira
nem sei dizer o que senti;
Pus-me a tremer desta maneira...
tremi... tremi...
Dona Maria - Tremeu?
Leonor - Tremi!
Deitar-me fui, mas não dormi...
E só lá pela madrugada,
É que fiquei mais sossegada...
Sentia como um peso aqui.
Dona Maria - Aí?
Leonor - Aqui
II
Com Frederico... é diferente...
Não sinto aquele mesmo ardor!
É que namoro isto é somente,
E o outro amor!
Dona Maria - Amor!
Leonor - Amor...
Ora imagine o dissabor,
se Frederico da promessa
o cumprimento quer depressa!
Valha-me Deus! que horror! que horror!
Dona Maria - Que horror!
Leonor - Que horror!
Aconselhe-me: a senhora no meu lugar, o que faria?
Dona Maria - Sei lá! O que lhe recomendo é que - um ou outro - agarre! Agarre com unhas e dentes! A senhora tem de mais o que muitas tem de menos, mas não facilite, que dia de fartura é véspera de necessidade. No meu tempo... quero dizer: quando eu era mais criança, os pretendentes eram assim. (Gesto indicando que eram muitos.) Facilitei, e o resultado foi este que a senhora está vendo... Mais feliz foi minha irmã das Laranjeiras. - Olhe, o que posso fazer é isto: Finjo-me apaixonada pelo Frederico; ele provavelmente fica pelo beicinho e esquece da senhora. Aceita?
Leonor (Irônica.) - Aceito. É infalível.
O Tenente-Coronel (Fora.) Ó Leonor?
Leonor - Dindinho chama-me. Com sua licença. (Saindo.) Senhor?
Dona Maria, só
[Dona Maria] - Pois será possível que eu não ache marido? Eu, que tenho quarenta apólices da dívida pública e uma casa assobradada na vila, afora o que ainda pode vir da minha irmã das Laranjeiras? A pretexto de mudar de ares, vim passar quinze dias na fazenda, com olho no Tenente-Coronel; mas qual! o diabo do homem pensa tanto em casar como eu em ficar solteira. Vou atirar o anzol ao filho! é um bonito rapaz e daqui a alguns tempos está senhor doutor! Há de ser um gosto! Não hei de faltar aos bailes, espetáculos, consertos, touradas, corridas e regatas!... Regatas, então! Não sei o que é, nunca vi... mas parece-me que hei de ser muito regateira. - Vou escrever a minha irmã das Laranjeiras. (Vai saindo; entra O Doutor Pinheiro.) Oh! Senhor Doutor Pinheirinho! Já... tão cedo?...
Dona Maria, O Doutor Pinheiro
O Doutor (Em traje de montar.) - Tem passado bem, minha senhora? (Aperta a mão de Dona Maria.)
Dona Maria - Não... não... Muito nervosa... muito agitada... E o senhor? Está pálido! Sucedeu-lhe alguma coisa?
O Doutor - Sucedeu.
Dona Maria - Sim? o que foi?
O Doutor - Faça o favor de ouvir, e, como já não é criança... e deve ter alguma experiência.
Dona Maria - Pouco mais velha serei do que o senhor... Mas, enfim...
O Doutor - Mas enfim, há de dar-me um bom conselho talvez... Queira sentar-se... (Sentam-se.) Poucos dias antes de ser nomeado juiz municipal deste termo, caí em prometer casamento à filha de um empregado público, na corte.
Dona Maria - Deveras? (À parte.) Que coincidência?
O Doutor - Faça a senhora idéia de que acabo de receber uma carta desse respeitável chefe de família.
Dona Maria - Sim?
O Doutor (Dando-lhe uma carta.) - Leia.
Dona Maria - Com sua licença. (Lendo.) “Doutor, como tenho de ir até essa vila, tratar de negócios relativos ao futuro da minha filha, peço-lhe que me dê em sua casa hospedagem por dois ou três dias. De seu amigo, Passos Pereira.” (Restituindo a carta.) Está visto que o tal Passos Pereira vem buscar o cumprimento da promessa.
O Doutor - Mas ele nada sabia.
Dona Maria - A filha provavelmente disse-lho. E razão teve ela! É um meio como outro qualquer e pôr um noivo no seguro. E os noivos são tão raros, meu rico senhor doutor! Isto é: raros para umas... para outras não... Olhe, eu creio que estou resolvida...
O Doutor (Erguendo-se.) - A casar?
Dona Maria (Com indiferença.) - A casar... Instam tanto comigo! O pretendente não lhe é estranho...
O Doutor - A mim? (Sentando-se de novo.) Mas, vamos! o que me aconselha, Senhora Dona Maria? Eu não desgosto de Francelina...
Dona Maria - Francelina? Ah! É a filha do empregado público...
O Doutor - Não desgosto dela... Oh! mas depois que vi Leonor...
Dona Maria (À parte.) - Tal e qual como a outra!
O Doutor - Oh! Leonor! (Ergue-se, bem como Dona Maria.)
Rondó
- Ai, que o teu rosto sereno
Enfeitiçou-me, Leonor!
Meu coração é pequeno,
Pequeno pra tanto amor!
Meus olhos por teus encantos
Enfeitiçados estão;
Eles são tais e tantos,
Que quase perco a razão!
A pobre mãe, que perdeste,
Amor te devera ter,
Porém mais forte do qu’este
Não to pudera of’recer.
Anjo de amor, adorado
Mais do que os anjos o são,
Ver-me contigo casado
É toda minha ambição.
Se num momento maldito,
Por outra o peito me arfou,
O dito dou por não dito,
Pois só teu... só teu... teu sou!
Ai, que o teu rosto sereno
Enfeitiçou-me Leonor!
Meu coração é pequeno,
Pequeno pra tanto amor.
Mas, afinal de contas, o que me aconselha, Senhora Dona Maria?
Dona Maria - Eu lhe digo... (Entra o Tenente-Coronel.)
Dona Maria, O Doutor, o Tenente-Coronel , depois um negro.
O Tenente-Coronel - Ora viva, doutor; estava aí? (Aperta-lhe a mão. Cumprimentam-se.) Veio a propósito; tenho que lhe falar em particular.
Dona Maria (Fazendo uma mesura.) - Visto isso, Senhor Tenente-Coronel!...
O Tenente-Coronel - São duas palavrinhas só. (Dona Maria vai saindo. Entra um negro escravo com uma bandeja cheia de xícaras de café e açucareiro.)
Dona Maria - Está aí o café. (Serve-se de uma xícara, tempera e sai. Enquanto sai, à parte.) O que não me faz conta é que se desmanche o casamento dO Doutor com a Leonor. Quero o Frederico livre e desembaraçado. (Desaparece. Durante o aparte, o negro tem-se aproximado dos dois, que se servem. O negro sai.)
O Doutor, O Tenente-Coronel
O Tenente-Coronel - Tanto paga de pé como sentado. (Senta-se. Cena muda. Sorvem o café. O Tenente-Coronel deita os eu no pires, e esfria-o, soprando. AO Doutor:) Está bom de açúcar?
O Doutor - Muito bom.
O Tenente-Coronel - Deste, aposto que não se toma na corte.
O Doutor - Qual! Nem no Beco das Cancelas! (Vai colocar as xícaras sobre o parapeito e volta a sentar-se. À parte.) Onde vai tocar sei eu..
O Tenente-Coronel (Solenemente.) - Senhor Doutor Pinheirinho... ou por outra: Senhor Doutor Pinheiro... O meu compadre Chico Barbosa... ou por outra Francisco Barbosa... (Pausa.) morreu há dezesseis anos...
O Doutor (À parte.) - É o que eu digo...
O Tenente-Coronel - Deixou mulher e uma pequenita deste tamanho... A pequenita, porque a mulher... (Indica o tamanho.) A mulher pouco tempo sobreviveu ao dito meu compadre, e a pequenita, que é a Leonor, confiou-ma a viúva poucos momentos antes de morrer... Sou seu padrinho e tutor... A pequenita cresceu... Vossa Senhoria gostou dela; ela gostou de Vossa Senhoria... (Com resolução.) O que eu desejo saber, senhor doutor, é se esta letra está ou não está vencida!
O Doutor (À parte.) - O que dizia eu? (Alto.) É justo, Senhor Tenente-Coronel, e eu...
O Tenente-Coronel - Ah, meu tempo! meu tempo! Em 1840, quando um rapaz deitava os olhos numa rapariga, a primeira coisa que lhe perguntava era: - Quer casar comigo? E se a rapariga respondia: - Quero, sim, senhor, - lá ia ele direitinho aos pais; e não se lhe dava dez meses para tratarem...
O Doutor - Do casamento?
O Tenente-Coronel - Nada: do batizado. Hoje a coisa é outra! Dois anos para namorar... Para namorar? Que digo eu!... para... estudar o caráter da noiva... Leva um estafermo pespegado no vão de uma janela com a namorada, a dizer-lhe toleimas de toda a espécie... O que está fazendo? Estudando o caráter... Pervertendo-o, talvez! Verdade seja que isto hoje é uma necessidade... Em 1840, oh! tempora, oh! mores oh! assombrosa versatilidade dos anos! Como dizia o Padre Antônio Vieira, os caracteres eram Todos um, porque a educação era outra, e uma... Mas, como ia dizendo, dois anos para isto, um ano para preparar o enxoval, seis meses para tratar dos papéis, etc., etc., quando chega uma senhora a casar, já tem idade para criar pintos!
O Doutor (Erguendo-se.) - Senhor Tenente-Coronel, peço-lhe a mão de Dona Leonor em casamento.
O Tenente-Coronel (Erguendo-se.) - Isso! Anda mão, enfia dedo. 1840 no caso! Deixe-me chamar a pequena.
O Doutor, O Tenente-Coronel, depois Leonor
Terceto
O Tenente-Coronel - Leonor! Leonor!
Leonor (Entrando.) - Senhor! Senhor!
(Cumprimentando.) Senhor Doutor...
O Doutor (Idem.) - Minha senhora...
(À parte.) Como ela está encantadora!
O Tenente-Coronel (Solene)
- Minha afilhada e pupila,
O Doutor, neste momento,
Vai pedir em casamento
A tua mão.
Leonor - A minha mão?
O Doutor - A sua mão.
(À parte.) Parece que ela vacila...
O Tenente-Coronel - Por isso quero que digas
Se sim ou não.
Leonor - Se sim ou não?
O Doutor - Se sim ou não...
O Tenente-Coronel - Em quarenta as raparigas
Diziam logo que sim!
No meu tempo isto era assim!
OS TRÊS - No { meu } tempo era assim!
{ seu }
O Tenente-Coronel - Então? que dizes, menina?...
Diz qualquer coisa, sinhá!
O Doutor (À parte.) - O que dirá Francelina?
Leonor (À parte.) - Frederico o que dirá?
(Depois de alguns momentos de hesitação.)
Eu considero bem feito
o que dindinho fizer.
O Tenente-Coronel - Aceitas, então?
Leonor (Com pequeno esforço.) - Aceito...
O Doutor (Enlaçando-a.) - Queres ser minha mulher?
Queres ser, Leonor divina?
Leonor (Resoluta.) - Quero, sim ora aqui está!
O Doutor (À parte.) - O que dirá Francelina?
Leonor (À parte.) - Frederico, o que dirá?
Juntos
O Doutor Leonor
- Um noivo com duas noivas - Uma noiva com dois noivos!
Oh! que triste posição! Oh! que triste posição!
Se aparece o pai da outra, Se aparece o Frederico,
Vamos ter complicação. Vamos ter complicação.
O Tenente-Coronel - A pequena já tem noivo!
Que grande satisfação!
Tenho vencida uma letra!
Que prazer e que alegrão!
‘Stá dito então?
O Doutor - Gostas de mim?
Leonor - Gosto, pois não!
O Doutor - Prazer sem fim!
O Tenente-Coronel - No meu tempo era assim!
Os Três - No { meu } tempo era assim!
{ seu }
(Terminado o terceto, aparece ao fundo, no campo, Passos Pereira acompanhado por um pajem, que aponta para O Doutor e desaparece. Passos Pereira bate palmas.)
O Tenente-Coronel (Ouvindo bater.) - Quem nos honra?
Passos Pereira - Um criado.
O Doutor (Reconhecendo-o, à parte.) - O Passos Pereira! Estou perdido!
O Tenente-Coronel - Faça o favor de entrar!
O Doutor, O Tenente-Coronel, Leonor, Passos Pereira, depois Francelina, depois um pajem.
Passos Pereira (Entrando.) - Queria dar duas palavrinhas ao Senhor Doutor Pinheiro.
O Doutor - Senhor Passos Pereira! (Abraçam-se.) Recebi hoje a sua cartinha, mas só o esperava amanhã. Apresento-lhe o Senhor Tenente-Coronel João Leopoldo e sua afilhada, a senhora Dona Leonor. (Passando pelo Tenente-Coronel, rapidamente e baixinho.) Não lhe diga nada.
O Tenente-Coronel (Apertando a mão de Passos Pereira.) - Folgo de conhecê-lo.
Passos Pereira - Igualmente.
O Tenente-Coronel (À parte.) - O Doutor não quer que se saiba. Ah! 1840!...
Passos Pereira - Minha senhora... (Mesura de Leonor.) Fomos à sua casa na vila. A sua criada disse-nos que o encontraríamos aqui. Como era perto, viemos. O senhor sabe que sou o homem dos expedientes; arranjei logo três animais.
O Doutor - Três animais1 Pois o senhor não veio só?
Passos Pereira - É verdade, ainda não lhes disse: vimos eu, minha filha e um pajem. (Movimento dO Doutor.)
O Tenente-Coronel - E a senhora sua filha ficou lá fora? Pelo amor de Deus! (Sobe ao fundo.)
Passos Pereira (Subindo.) - Ela aí vem.
Francelina (Aparecendo com o pajem, que fica ao fundo.) - Aqui estou, papai.
O Doutor (À parte.) - Ela! Oh! meu Deus! Estou suando frio!
Passos Pereira - Vê quem está cá, minha filha: O Doutor Pinheiro.
Francelina - Ah!
O Doutor (Embaraçado, sem encará-la.) - Minha senhora...
Francelina (da mesma forma.) - Senhor doutor...
Passos Pereira - Minha filha, Senhor Tenente-Coronel...
O Tenente-Coronel - Estimo conhecê-la, minha senhora; esteja a seu gosto. (Francelina dirige-se a Leonor, beijam-se e depois conversam baixinho.) Com licença... vou dar algumas ordens... Não façam cerimônias, hein?
Passos Pereira - Deixei as cerimônias na corte; ando farto delas.
O Tenente-Coronel - Assim é que eu gosto que me falem!... (Saindo a gritar.) Ó Tomásia! Ó Tomásia!... (Sai.)
O Doutor, Passos Pereira. Leonor, Francelina
O Doutor (À parte.) - Estou metido em boa.
Passos Pereira (AO Doutor, enquanto Francelina e Leonor sentam-se à direita.) - Minha mulher não me deixou sair da corte sozinho. O senhor compreende... o ciúme... Foi preciso que a menina viesse. Quando cheguei à vila e me disseram que o senhor estava nesta fazenda, estimei... Fazia-me conta chegar até aqui, e era perto... Diga-me uma coisa: este Tenente-Coronel fala francês? (O Doutor está visivelmente perturbado.) Deve estranhar esta pergunta... Mas o que quer? Um pai! O senhor compreende... Logo falaremos... temos tempo! (Vai ter com Leonor e a filha, e conversa com elas.)
O Doutor (À parte.) - Estou bem arranjadinho... O homem sabe de tudo... É capaz de meter-me o petrópolis, e razão tem ele! Ora esta! (Passeia agitado.) E Francelina conversando com Leonor! Jesus! Continuo a suar frio! (Continua a passear; tenta aproximar-se do grupo dos três, mas não se atreve.)
Passos Pereira (Aproximando-se dele.) - Diga-me cá: há hotel na vila? Eu tencionava ir para sua casa, mas com a menina... já agora... o senhor compreende... não é possível!
O Doutor, Leonor, Passos Pereira, Francelina, O Tenente-Coronel, um pajem.
O Tenente-Coronel (Entrando) - Hotel!... Quem é que fala aqui em hotel?... O senhor fica em nossa casa com a senhora sua filha! Os amigos dO Doutor Pinheirinho meus amigos são! Temos acomodações para Todos. (Ao pajem que fica ao fundo.) Ó rapaz! leva os animais para a vila e traze as malas de teu senhor.
Passos Pereira - É uma malinha só... ficou em casa dO Doutor Pinheiro. (O pajem sai.) Não sei como agradecer-lhe, Senhor Tenente-Coronel... O senhor é um homem que compreende as necessidades da gente!
O Tenente-Coronel - Hão de passar mal estes dias, mas não morrerão à fome.
Passos Pereira (Baixo aO Doutor.) - Então, o Tenente-Coronel é seu amigo, hein? Muito bem... muito bem!
O Doutor (À parte.) - O homem está danado!
Passos Pereira (Ao Tenente-Coronel.) - O senhor não contava com esta maçada, hein?
O Tenente-Coronel - Maçada nenhuma! Comida sobra sempre; os quartos dos hóspedes estão preparados; maçada de quê?
Francelina (Continuando uma conversa com Leonor.) - Logo que voltar, hei de mandar-lhe o figurino.
Passos Pereira (À filha.) - Menina, sabes que vamos ficar aqui em casa do Senhor Tenente-Coronel?
Leonor - Aqui? Muito bem...
O Doutor, Leonor, Passos Pereira, Francelina, O Tenente-Coronel, Dona Maria, depois o negro
( Dona Maria entra gravemente, cumprimentando os recém-chegados com grandes mesuras. O Tenente-Coronel apresenta-a.)
O Tenente-Coronel - A senhora Dona Maria de Vasconcelos, visita de nossa casa. (Cumprimentos. Dona Maria troca um olhar de inteligência com O Doutor Pinheiro, fazendo uma grande mesura a Passos Pereira.)
Passos Pereira - Minha senhora.
O Tenente-Coronel (Levando Francelina pela mão.) - A filha do Senhor Passos Pereira, a Senhora Dona...
Francelina - Uma sua criada. (Dona Maria beija-a e troca outro olhar significativo com O Doutor Pinheiro.)
O Tenente-Coronel - Ora muito bem! Mas por que não se sentam? (Puxa cadeiras. Tomam lugares. Longa pausa.)
Dona Maria (Desabridamente, a Passos Pereira.) - O senhor conhece por lá minha irmã das Laranjeiras?
Passos Pereira - Não, minha senhora; a nossa casa é na Rua Larga de São Joaquim.
Dona Maria - Ela é muito conhecida lá na corte.
Passos Pereira - A Rua Larga?
Dona Maria - Minha irmã.
Passos Pereira - Não tenho a honra de conhecê-la... (À parte.) O Pinheiro evita o meu olhar... Estará zangado comigo?
O Doutor (À parte.) - Francelina está desesperada! Se os seus olhos se encontram com os meus, desvia logo o rosto.
Francelina (À parte.) O Pinheiro já sabe de tudo... Nem me encara...
Leonor (Julgando que Francelina fala com ela.) - Senhora?
Francelina - Nada..
O Tenente-Coronel - Então? Digam alguma coisa! Estão Todos tão calados! (Os personagens formam, sentados, um grupo, ao capricho do ensaiador.)
Sexteto
O Tenente-Coronel (A Passos Pereira.)
- O que há de novo na cidade?
O ministérios cai ou não?
Passos Pereira - Se quer que lhe fale a verdade,
nem os ministros sei quem são.
Sou empregado público,
sou empregado velho;
Porém nunca em política
Meti o bedelho.
Dona Maria - O Tenente-Coronel
É o contrário, Senhor!
Francelina (À parte.) - Já não me encara O Doutor...
O Doutor (À parte.) - Estou fazendo um papel...
O Tenente-Coronel - Sou destemido!
Sou decidido!
Sou do Partido
Conservador!
Todos -É destemido!
É decidido!
É do Partido
Conservador!
O Tenente-Coronel - Eu sou danado,
Desabusado
Sou respeitado
Nas eleições!
É por tamanho
Ser o arreganho
Que sempre apanho
Meus pescoções!
Passos Pereira - Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Leonor (À Parte.) - Estranho
O Doutor:
Tamanho
Palor
Não é natural.
Passos Pereira -Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
O Doutor (À parte.) - O Passos ri-se: é bom sinal.
Passos Pereira -Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
(Ergue-se, rindo tanto, que Os outros erguem-se também e vão se aproximando num crescendo de gargalhadas.)
Todos - Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Passos Pereira - Ai, sempre ganha
Seus pescoções,
Quando se apanha
Nas eleições!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Leonor (Timidamente.) - Doutor, zangado está comigo?
O Doutor - Por que me faz pergunta tal?
Leonor - Por que me foges, ó meu amigo?
Passos Pereira - Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
O Doutor (À parte.) - O Passos ri-se: é bom sinal...
Concerto
Francelina(À parte.) Passos Pereira (À parte.)
Dar-se-á caso que O Doutor, Quero apanhar O Doutor
Por despeito, por despeito, Muito a jeito, muito a jeito;
Finja ter sincero amor Pai que muito bom pai for
À matuta da Leonor? Deve ser indagador.
Leonor (À parte) O Tenente-Coronel (À parte.)
Não me procura O Doutor! Que silêncio em derredor!
Já suspeito, já suspeito, Não tem jeito, não tem jeito!
Que me perdeu todo o amor Tão calado está, doutor!
Que me tinha com fervor Diga lá, seja o que for!
Dona Maria (À parte.) O Doutor (À parte.)
Que diabruras faz amor! Já estou banhado em suor!
Mas, com jeito... mas, com jeito Mas, com jeito... mas, com jeito...
Deve-se sair-se O Doutor Hei de, seja como for,
Disto; seja como for. Sair disto pra melhor.
O Negro (Entrando depois do forte com que termina o concerto.) Canjica tá na mesa. (Sai o negro. A orquestra conserva alguns compassos de música até, o canto seguinte.)
O Tenente-Coronel - Vamos à canjica!
O Doutor (Oferecendo o braço a Leonor.) - O seu braço? (Vivamente a Francelina, que olha para ele.) O seu braço? (Dá o braço a ambas.)
O Tenente-Coronel - Eu rompo a marcha! (Vai saindo, na frente dO Doutor, Leonor e Francelina.)
Passos Pereira (A Dona Maria.) - O seu braço, minha senhora?
Dona Maria (Dando-lhe o braço.) - Agradecida. (À parte.) - Este Passos será viúvo?
Passos Pereira - Vamos!
Dona Maria - Que pena o senhor não conhecer minha irmã das Laranjeiras! (A Cena fica vazia por alguns momentos. O fundo escurece completamente.)
Frederico, depois Raimundo
Frederico (Entrando pelo fundo. Vestuário de montar.)
Recitativo
Eis-me, afinal, em casa de meu pai!
Em júbilo nadar tudo aqui vai!
Coplas
I
Não quis esperar as férias,
Mais tempo esperar não quis;
Promessas não são pilhérias,
E então daquelas que eu fiz!
O prometido
Diz que é devido;
Rifão sagaz;
Quero com jeito,
Mas com respeito,
Voltar atrás...
II
Promessa de casamento
Eu fiz à linda Leonor!
Maldito seja o momento
Em que jurei ter-lhe amor!
Pois tal promessa
Muito depressa
Roubou-me a paz;
Quero com jeito,
Mas com respeito,
Voltar atrás!
Mas onde ficou Raimundo? (Indo ao fundo.) Raimundo!... Raimundo!... por aqui!
(Entra Raimundo. È gago, míope, perneta, muito feio e veste exageradamente à última moda.)
Raimundo - Cá... cá... estou... Já me arrependi de ter vindo pas... passar uns dias em ca... casa de ... de teu pai. Este lugar é.... muito feio! É im... impossível que aqui se pos... possa arranjar um bom ca... ca... casamento!
Frederico - Ah! maganão! Você anda à procura de um bom casamento, hein?
Raimundo - Não com... compreendo que se venha à... à.. roça para outra coi... coisa!
Frederico - Não perca as esperanças!
Raimundo - Mas onde está teu... teu pai? Que... fi... filho é este que em vez de... de... procurar a fa... fa... família, põe-se a ta... a taga... a tagarelar na sala?
Frederico - Estou com um receio enorme de apresentar-me. Vê que não me animei a vir sozinho!
Raimundo - Ora... ora essa! Por quê?
Frederico - Por quê? Vem cá... (Sentam-se.) Trata-se mesmo de casamento. Ouve e dá-me um conselho...
Raimundo (Admirado.) - Um con... conselho!... (Erguendo-se e apertando-lhe a mão com efusão.) Obri... Obridado! mui... muito o... obrigado!
Frederico (Admirado.) Por quê?
Raimundo (Modestamente.) - É a primeira vez que... que me pedem um con... conselho... (Senta-se.) Vam... vamos lá!
Frederico - Antes de sair de cá, prometi, sob palavra de honra, casamento a Leonor.
Raimundo - Quem... quem é?
Frederico - A afilhada de meu pai.
Raimundo - Ah!
Frederico - Estimava-a muito; no entanto...
Raimundo - No entanto, viste a fi... a filha do Pas... Pas... Passos Pe... Pe... Pereira e ...
Frederico - E fiz-lhe a mesma promessa.
Raimundo - Também sob pa... pa... pa...
Frederico - Sim! Também sob pa... palavra de honra! - O que me aconselhas tu?...
Raimundo - Eu te ... te digo. (Reflete.) Qual de... delas é mais... mais?... (Faz sinal de dinheiro.) Ca... casa-te com a mais ri.., rica!
Frederico (Erguendo-se.) - Ora! Também a que porta fui bater!
Raimundo - E se ambas o... o forem... le... leva-as pa... pa... para a Turquia e ca.. ca.. casa-te com ambas! (Ergue-se.)
Frederico - Meu Deus! como hei de aparecer a Leonor? Como hei de voltar atrás?
O Tenente-Coronel (Fora.) - O que estás dizendo, negro, Frederico está aí?
Frederico - Ah! aí vem... Jesus! Está gente de fora!
Frederico, Raimundo, O Tenente-Coronel, depois Passos Pereira, Dona Maria, depois O Doutor, Francelina, Leonor, depois os escravos.
O Tenente-Coronel (Entrando.) - Meu filho! (Dá-lhe a benção. Abraçam-se.) Que agradável surpresa!
Passos Pereira (Entrando com Dona Maria.) - Senhor Frederico...
Frederico (Pasmo.) - Ah! (Vendo entrar Francelina.) Oh!
Leonor, Francelina, (À parte.) - Ele! (Deixam vivamente o braço dO Doutor.)
Frederico (À parte.) - Nem Leonor, nem Francelina olham para mim! Já sabem de tudo!
Leonor, Francelina (À parte.) - Ele nada ignora!
O Tenente-Coronel (Voltando e dando com Raimundo.) - Oh! (Ao filho.) É também estudante?
Raimundo - Sim... sim senhor...
Dona Maria (À parte.) - Em que ano está?
Raimundo - No pri... no primeiro!
O Tenente-Coronel, Dona Maria, Passos Pereira - Oh!
Raimundo - Há mui... muito tempo. Pa... para bem dizer, es... estou no... no quinto.
O Tenente-Coronel - Meu filho, apresento-te.... Ah! aí vêm os negros! Ficam as apresentações para depois! Comece o jongo!
Final
Todos - O jongo! O jongo!
O Tenente-Coronel (A Frederico.) - Senta-te ali.
(A Passos Pereira.) O senhor aqui
(A Francelina.) Fique aqui com Leonor
(A Dona Maria.) A senhora aqui
Ao pé de mi.
(Grupo. estão Todos sentados nos lugares indicados pelo Tenente-Coronel.)
Leonor, O Doutor, Francelina, Frederico (À parte.)
- Que amargo instante!
Que situação!
Olhar para ele/ela
Não ouso não!
(Entrada ruidosa do Coro de escravos e escravas que, depois de mesuras aos primeiros compassos do jongo, entoam-no dançando durante o canto.)
Jongo
Trabaia, negro, trabaia
Na roça do teu sinhô
(Com um movimento de braços e ombros.)
Um... um... um...
Passarinho já não canta;
O só não tarda a se pô!
Um... um... um... um...
Dá-lhe de enxada,
Panha café;
De teu trabaio
Não reda pé!
Trabaiadô
Trabaia, negro
Pro teu sinhô!
(No fim do canto.) Viva sinhô moço!
Todos (Erguem-se e respondem.) - Viva!
[Cai o pano]
Sala e visitas na fazenda do Tenente-Coronel. Piano. Mobília modesta, mas decente. Iluminação. Sarau.
Frederico, Dona Maria, Raimundo, Francelina, O Tenente-Coronel, Leonor, O Doutor, Passos Pereira, O Mestre-Escola, O Vigário, convidados de ambos os sexos, depois um negro.
(Ao levantar o pano, quatro músicos estão sentados a um lado, tocando. Entre eles o Mestre-Escola e o Vigário: este toca violão, aquele rabeca. Dança-se uma quinta contradança ruidosa. Frederico dança com Dona Maria, que se requebra comicamente. São vis-a-vis de Raimundo, que dança com Francelina. O Tenente-Coronel dança com a afilhada: é vis-a-vis dO Doutor, que dança com uma moça qualquer. Passos Pereira dança também com uma figurante. Raimundo é mestre-sala e grita as marcas da contradança, gaguejando sempre.)
Coro (Durante a contradança.) - Nós hoje às mil maravilhas
Vamos decerto passar!
Valsas, polcas e quadrilhas
Vamos dançar!
Brincar
Folgar
(Num momento dado, Raimundo bate palmas: finda a contradança. Uns cavalheiros oferecem cadeiras a seus pares. Outros saem de braço dado. Alguns pares passeiam.)
Raimundo (A Frederico.) - Parabéns, Frederico... é um.... um baile di... digno de ti. (Senta o seu par e vai conversar com o Mestre-Escola.)
Frederico (Passeando com Dona Maria.) - É singular! Nem Leonor nem Francelina me encaram!
O Doutor (Sentando o seu par.) - É célebre! Nem Francelina nem Leonor olham para mim!
Leonor (Sentando-se junta de Francelina.) - O Doutor não veio sentar-se ao pé de mim!
Francelina (À parte.) - Frederico não se chegou ainda para o meu lado!
Os Quatro (À parte.) - Já sabe de tudo!
Dona Maria (A seu par.) - Vamos dar um giro lá fora, Senhor Frederico?
Frederico - Pois não, minha senhora!
Dona Maria - Ai, Senhor Frederico!
Frederico - Por quem suspira, minha senhora?
Dona Maria - Não sei, Senhor Frederico, não sei...
Frederico - Julguei que fosse por sua irmã das Laranjeiras. (Saem.)
Raimundo (Continuando uma conversa com o Mestre-Escola.) - É por quan... quantos a... alunos é frequenta... da a sua es... esco... escola?
O Mestre-Escola - Eu tenho uns vinte aluno... estão Todos adiantado... No ano passado, cinco fez exame. .. Os pai estão satisfeito.
Raimundo (À parte.) - Os... os ss é que.... não devem es... estar.
O Mestre-Escola - Eu ensino gramática, doutrina cristão e música. Eu há de ensiná francês, mas porém, premeiro é perciso aprendê.(Continuam a conversar baixo.)
O Vigário (Continuando uma conversa com o Tenente-Coronel, de quem se tem aproximado.) - Está enganado, Tenente-Coronel! Está muito enganado. O João Cobó vota com o Raposo!
O Tenente-Coronel - Não vota, seu Vigário, não vota! Quer Vossa Reverendíssima dizer-me a mim o que é o João Cobó!
O Vigário - É um troca-tintas! Ainda me deve dez mil réis de uma encomendação... Desde que lhe morreu a sogra... E encomendações de sogra devem pagar-se dobrado. (Continuam a conversar.)
Francelina (Continuando uma conversa com Leonor, ao pé da qual está sentada.) - É verdade... Imagine a senhora ter uma moça prometido casamento a dois rapazes e ver-se em presença de ambos!
Leonor (À parte.) - É uma indireta, não há dúvida... (Alto.) mas... (Continuaram a conversar baixinho.)
O Tenente-Coronel (Deixando o Vigário e indo ter com O Doutor.) - Então o que é isso, Doutor? Parece-me amuado!
O Doutor - Eu?! Pelo contrário, Senhor Tenente-Coronel... Eu... Ora que lembrança!
O Tenente-Coronel (Levando-o pela mão.) - Venha cá, homem de Deus, o seu lugar é aqui! (Leva-o para junto de Leonor e fá-lo sentar-se ao lado dela. Depois vem à boca e canta a seguinte copla.)
Copla
De um pai que o saiba ser, olé!
É grande a trabalheira!
Faz má figura e serve até
De pau-de-cabeleira!
(Vai conversar outra vez com o Vigário, que se tem ocupado em afinar o violão.)
Passos Pereira (Indo ao encontro de Frederico, que volta com Dona Maria.) - O senhor anda arredio! Vá conversar um pouco com a pequena, ande! (Toma-o pelo braço, deixando Dona Maria no meio da sala e fá-lo sentar-se junto de Francelina. Depois desce à boca da Cena e canta a meia voz a mesma copla cantada pelo Tenente-Coronel.)
Copla
De um pai que o saiba ser, olé!
É grande a trabalheira!
Faz má figura e serve até
De pau-de-cabeleira!
(Ao voltar-se, encontra Dona Maria, que lhe toma o braço.)
Dona Maria - O seu braço? Vamos dar mais uma volta?
Passos Pereira - Pois não, minha senhora: é a vigésima que damos hoje.
Dona Maria (Saindo com Passos Pereira, à parte.) - Este homem será viúvo? (Saem. Entra o negro com a bandeja de café.)
Raimundo (Indo ao encontro do negro e distribuindo xícaras de café pelos circunstantes.) - Já tar.. tardava! Já hoje to... tomei doze xícaras de ca... café. (Tomando.) Não se vai a par... parte alguma em que... que não se... se tome café! Fui ontem fa... fazer a barba na vila... e o bar... barbeiro mandou-me um xí... xícara de ca... café pelo a... aprendiz!
O Tenente-Coronel (Sorvendo o seu no pires.) - O que vale é que este é superior, hein?
Raimundo (Apreciando.) - Um... Torra... torradinho de fresco e... e... com manteiga... (Acabam Todos de tomar café. O negro reúne as xícaras na bandeja e sai. Raimundo acende um cigarro. Os namorados estão sentados ao lado uns dOs outros na seguinte ordem: Frederico, Leonor, Francelina, O Doutor: mas sem se falarem e olhando Todos Os Quatro para o chão.)
O Tenente-Coronel (Que tem deixado o Vigário.) - O Doutor não dá a palavra a Leonor! O que será aquilo. Preciso de uma explicação. (A Raimundo.) Venha um cigarrinho dos seus.
Raimundo (Dando-lhe o cigarro e depois o fogo.) - Pro... proponho um jo... jogo de... pren... prendas na... va... varanda! va... valeu?!
Todos (Menos os namorados.) - Valeu! Vamos! (O Tenente-Coronel dá o cigarro de Raimundo a Passos Pereira, que fuma maquinalmente. Saem Todos, Raimundo em frente, menos o Mestre-Escola, o Vigário e os namorados.)
O Mestre-Escola (Indo ter com o Vigário.) - Diga-me uma coisa, seu Vigário? Vossa Reverendíssima pode me dizê duas missa depois de amenhã? (Bate-lhe no ombro.)
O Vigário (Que tem estado a cochilar, abraçado ao violão, despertando e com ímpeto.) - Não vota, já lhes disse! João Cobó não vota, Tenente-Coronel! (Ergue-se)
O Mestre-Escola - Não é disso que nós tratemo. Quero duas missa!
O Vigário (Sem reparar com quem fala e saindo zangado.) - Não vota! É boa! Desde 68 que está com os liberais! Não faltava mais nada! (Sai)
O Mestre-Escola (Acompanhando-o) - Não é disso que nós tratemo... Ó seu Vigário! seu Vigário! (Sai.)
O Doutor, Frederico, Leonor
(Cena muda. Levam muito tempo sentados, olhando para o chão. De repente, Leonor, vendo que Todos se têm retirado, levanta-se muito envergonhada e sai vivamente. Francelina imita-a. Ficam sós O Doutor e Frederico que, depois de se olharem por algum tempo, desatam numa gargalhada, retomando logo o seu sério, e como que censurando assim a gargalhada um do outro.)
O Doutor, Frederico
AMBOS (A um tempo.) - De que se ri? - Como? - Tivemos a mesma idéia. - Assim falarem os dois a um tempo não podemos compreender!
Frederico - De que se ri O Doutor?
O Doutor - Eu rio-me de mim próprio. E o senhor?
Frederico - Eu rio-me de mim mesmo.
O Doutor - Oh! mas o senhor não está na minha situação!
Frederico - Não sei; mas acredite que a minha situação é perfeitamente cômica.
O Doutor - Qual é a sua situação?
Frederico - Diga primeiramente qual é a sua.
O Doutor - Quero ceder-lhe a primazia.
Frederico - E eu.
O Doutor - Nesse caso, ouça... (Entra o Tenente-Coronel.)
O Tenente-Coronel, Frederico, O Doutor, depois Dona Maria
O Tenente-Coronel - Oh! meu rico senhor Doutor Pinheirinho! Ainda bem que o encontro. (O Doutor e Frederico erguem-se.) Meu filho, deixa-nos a sós por alguns momentos.
O Doutor (À parte.) Ai, ai, ai!
Frederico (Saindo, à parte.) - Como hei de me sair desta alhada? (Vai saindo e encontra Dona Maria, que vem entrando.)
Dona Maria - Senhor Frederico, andava à procura do seu braço!
Frederico - Aqui o tem, minha senhora! (Saem ambos de braço dado.)
O Doutor, O Tenente-Coronel, depois Passos Pereira, depois Dona Maria
O Tenente-Coronel (Depois de alguma pausa, gravemente.) - Senhor Doutor Pinheirinho... ou por outro: Senhor Doutor Pinheiro... (Pausa.) Sentemo-nos. (Sentam-se.) O meu compadre Chico... ou por outra: Francis... eu creio que já lhe disse isto mesmo. (Pausa.) Enfim, Senhor Doutor... Homem. Vossa senhoria é um homem formado, e eu nem no Congresso Agrícola falei... Dê o desconto... (Em outro tom, escolhendo as palavras.) Sou pai, isto é, pai adotivo... É a mesma coisa! É mais! Um pai adotivo é pai e mãe. O Padre Antônio Vieira, no sermão de Nossa Senhora do Carmo, diz que os filhos naturais se amam porque são filhos, e os filhos adotivos são filhos porque se ama...
Passos Pereira (Entrando.) - Ó Senhor Doutor Pinheiro! Senhor Dout.. (Estacando.) Era segredo?
O Tenente-Coronel (Levantando-se.) - Não... não... falávamos..
O Doutor (Vivamente, erguendo-se.) - Do Padre Antônio Vieira.
O Tenente-Coronel (À parte.) - Fica para outra vez.
Passos Pereira (AO Doutor.) - Desejava falar-lhe em particular.
O Doutor (À parte.) - Bom! Agora o outro!
O Tenente-Coronel - Deixo-os. (AO Doutor.) Logo falaremos. (Vai saindo e encontra-se com Dona Maria, que vem entrando.)
Dona Maria - Senhor Tenente-Coronel, andava à procura de seu braço!
O Tenente-Coronel - Aí o tem, Senhora Dona Maria!
Dona Maria (Saindo de braço dado ao Tenente-Coronel, à parte.) - Por que não se quer casar este homem, meu Deus? (Saem)
O Doutor, Passos Pereira. depois Raimundo, depois Dona Maria
Passos Pereira - Senhor Doutor Pinheiro, o assunto é grave... Aqui tem uma cadeira. Sentemo-nos. (Sentam-se.)
O Doutor (À parte.) - Eu devo estar com uma cara...
Passos Pereira (Depois de uma grande meditação, rompendo desabridamente o que assusta O Doutor.) - O casamento, Senhor Doutor, é uma condição, por bem dizer, fatal da existência humana. Abalizados sociologistas... ou sociólogos, como queira... têm dado sobre a matéria a última palavra... Um pai educa uma filha, com Todos os esmeros sugeridos pelo seu bom espírito e seu bom coração... Dói-lhe a alma de vê-la depois entregue a carinhos de outra espécie; mas, ah! - infelizmente têm que se submeter ao regime comum da sociedade... Mas essa submissão, Senhor Doutor, não pode, não deve ser inteiramente passiva... Tenho para mim que um pai, digno desse nome sublime, é obrigado a desenvolver tal ou qual atividade, no intuito de atenuar os maus caprichos que por ventura estejam reservados pelo destino a seus filhos. Concorda?
O Doutor - Inteiramente.
Passos Pereira (À parte.) - Veio decorado de casa. (Alto.) O senhor, quando for pai... (Com certa autoridade,) o que há de ser!
O Doutor (À parte.) - Meu Deus!
Passos Pereira - O senhor, quando for pai, concordará melhor. - Pois bem, Senhor Doutor, eu não espero por informações: venho ao encontro delas! Por isso, aqui estou!
Raimundo (Entrando e tomando o braço de Passos Pereira.) - Ó Se... Senhor Passos Pe... Pe... Pereira! as mo... moças mandaram cha... chama-lo à va... varanda pa... para o jogo de pren... prendas.
Passos Pereira (Erguendo-se contrariado.) - Que jogo?
Raimundo - O se.. senhor ab... abade
O Doutor (Erguendo-se com interesse. - Ah! Um chamado de senhoras! Não pode recusar! A conferência fica para depois.
Passos Pereira - Tem razão, tem razão. Logo mais falaremos! Vou já! (Encontra-se com Dona Maria, que vem entrando.)
Dona Maria - Senhor Passos Pereira, andava à procura de seu braço!
Passos Pereira - Está ao seu dispor, minha senhora.
Dona Maria (Saindo de braço, com Passos Pereira, à parte.) - Ai! ai! Este homem será viúvo?
O Doutor, Raimundo
Raimundo - Tenho me re... rega... galado... de rir à custa do ... do Fre... Frederico.
O Doutor - Por quê?
Raimundo - Também quem... quem lhe... mandou prometer ca... casamento a duas?
O Doutor (À parte.) - Este também já sabe!
Raimundo - A le... levianda... de po... pode... perder um homem.
Coplas
I
A gente faz o que deve,
Se um beijo de amor furtar,
Se um dedo apertar de leve,
Ou se um pezinho pisar.
A gente a mais se atreve,
Quando é grande ladino;
Mas o casório...
Ce... cebolório!
Fia mais fino!
II
Se meigos olhares bispo
Em ternos olhos assim...
Os meus escrúpulos dispo,
Cuidando logo de mim.
Eu nada mando ao bispo,
Pois sou grande ladino...
Mas o casório...
Ce... cebolório
Fia mais fino!
O Doutor - Já Todos sabem aqui do meu ignóbil procedimento! Estou bem arranjado1
Raimundo - Eu an... ando à pro... procura de... de ... de um ca... casamento; mas creia que... que... pro... promes... sas não fa... faço sem ter cer... certeza de po... podê-las cumprir.
O Doutor - Mas quem lhe disse que prometi casamento a duas?
Raimundo - O Dou... o.... Doutor? O Fre... Fre...derico.
O Doutor - Foi o Frederico? Quem lhe diria a ele?
Raimundo - A ele... o... o quê?
O Doutor - Quem lhe diria isso?
Raimundo - Is... Is... isso o quê? Tenha... pa... paciência! não sei se... se... se já no... notou.... que.... que... que sou um... pou... pouco ga... ga.... gago!
O Doutor - Ora! não se pode conversar com o senhor!
Raimundo - O se... senhor é que... que... atra... atrapa... pa... palha tudo!
O Doutor, Raimundo, O Tenente-Coronel, depois Dona Maria
O Tenente-Coronel (AO Doutor.) - Podemos continuar a nossa conferência?
O Doutor - Pois não... pois não...
O Tenente-Coronel - Dá licença? Vá jogas as prendas... Quero dar duas palavrinhas aO Doutor.
Raimundo - Ora... essa! (Vai saindo; encontra Dona Maria.)
Dona Maria - Andava à procura de seu braço.
Raimundo - Oh!... oh!... mi... minha se... senhora!
Dona Maria (Saindo de braço dado a Raimundo, à parte.) - Este, afinal de contas, à falta de outro... (Saem)
O Doutor, O Tenente-Coronel, depois O Vigário, depois Dona Maria
O Tenente-Coronel - Senhor Doutor Pinheirinho... ou por outra: Senhor Doutor Pinheiro... sentemo-nos. (Sentam-se.) Vossa Senhoria pediu-me hoje em casamento a mão de minha afilhada e pupila Dona Leonor dos Santos Barbosa; eu, reconhecendo em Vossa Senhoria todas as qualidades desejáveis para um marido, anuí jubiloso ao pedido e...
O Vigário (Entrando, insuflado.) - Ó Tenente-Coronel, diga-me uma coisa: O Florentino não foi progressista em 64?
O Tenente-Coronel (Erguendo-se com interesse.) - Pois não! Pois não! progressista dOs Quatro costados logo que apareceu em Mambucaba! gabava-se até da amizade particular do Zacarias... E quando vocês caíram em 68, passou para o nosso lado com armas e bagagens.
O Vigário - Então?(Gritando para dentro.) Está ouvindo, comendador? Progressista em 64! Que homem teimoso! Quer-me dizer a mim quem é o Florentino!
O Tenente-Coronel - Pois não! Foi progressista e bem progressista!
O Vigário - Então? Eu quando digo... Obrigado, Tenente-Coronel. (Vai saindo, encontra Dona Maria que vem entrando.)
Dona Maria - Andava à procura do braço de Vossa Reverendíssima.
O Vigário - Pois não minha senhora. (Dá-lhe o braço.)
Dona Maria (Saindo com o Vigário.) - Este não pode casar... É pena!... Toca tão bem violão.
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