A cena passa-se na capital da Bahia, em uma casa do Largo da Lapinha. Atualidade. Em casa de Reis. Sala de visitas. Mobília velha: mesa, cadeiras, piano de mesa. Castiçais com grandes mangas de vidro. Registros do Senhor do Bonfim. Palha Benta em um dos cantos da sala. Ao fundo, porta que deita para o corredor; à direita, duas janelas; à esquerda porta comunicando com o interior da habitação. É dia.
JOSÉ e ALBERTO
(José está à janela, conversando com Alberto que se acha da parte de fora).
JOSÉ - Então V.S. me acha com cara de pau de cabeleira; não é assim, seu doutor?
ALBERTO - Fecho-te já a boca... (Dando-lhe dinheiro). Toma lá dois mil réis.
JOSÉ (Examinando) - Aqui só estão dez tostões... (Guarda o dinheiro).
ALBERTO - Logo dar-te-ei os outros dez. Anda! Vê um momento em que ela esteja sozinha.
JOSÉ - Não se incomode! Venha de lá um charutinho para o moleque...
ALBERTO - Eu fico à espera do assobio ali, (aponta) encostado ao chafariz...
JOSÉ - Faça favor de seu fogo. (Acende o seu charuto no de Alberto). Pode ir descansado, que o cabra é onça.
ALBERTO - Vê lá o que fazes, hein? Até logo... (Desaparece).
Cena II
JOSÉ, (desce à cena e canta) findando o trêmulo que a orquestra tem conservado desde a introdução).
COPLAS
Sou vivo como um azougue,
para dinheiro arranjar:
hoje não pude, no açougue,
o carniceiro enganar.
Apesar de ser moleque,
sou vivo como um senhor
doutor;
pra num bolso dar um cheque,
como eu ninguém há
por cá.
Olá!
Como eu ninguém há!
Olé!
Como eu ninguém é!
Oh!
Como eu ninguém vi!
Olô!
Ninguém é como eu sou:
Olu!
Ninguém é como tu!
Que me importa que se diga
qu'éstes meus modos são maus,
que sou doido de uma figa
e ando feito um dois de paus?
Se me vêem nas algibeiras
moedas a tinir.
cair!
Dou-me bem co'estas maneiras,
pois é isso o que dá (Esfrega os dedos)
pra cá! (Aponta para as algibeiras)
Olá! etc.
JOSÉ e EMÍLIA
EMÍLIA (Vendo José a fumar) - Muito bonito! Parece um dono de casa!
JOSÉ (Apaga o charuto com saliva e guarda-o atrás da orelha) - A benção, Iaiázinha?
EMÍLIA - Adeus. (Senta-se) Já viste passar seu Alberto, José?
JOSÉ - Já sim, iaiázinha.
EMÍLIA - Ora! Por que não me chamaste?
JOSÉ - Coisa melhor, iaiázinha! Não se amofine! (Mostra-lhe a carta e cantarola). Trá lá rá lá lá...
EMÍLIA (Ergue-se vivamente) - Deixa ver! Deixa ver!
JOSÉ (Arremeda-a) - Deixa ver! Deixa ver! (Esquiva-se ao alcance das mãos da moça, negando-lhe a carta; afinal trepa sobre uma cadeira e entrega a carta) depois de levá-la à maior altura em que possam tocá-la as mãos de Emília).
EMÍLIA - Deixa-te de confianças, moleque! (Toma a carta).
JOSÉ - Eu é que devo levar a resposta, iaiázinha!
EMÍLIA (Abre e lê a carta) - "Milu. Peço-te que me deixes entrar hoje para a sala. O José ficará à porta e nos avisará quando avistar teu pai. A janela sempre podemos dar que falar à vizinhança. Teu - Alberto". (Guarda a carta). Ora! Seu Alberto não se enxerga!
JOSÉ - 0 que diz, iaiázinha?
EMÍLIA - Digo o que deve dizer uma menina de juízo: não consinto que ele transponha aquela porta sem o consentimento de papai e de mamãe. Quando for meu noivo, sim...
JOSÉ - Se iaiázinha soubesse o empenho que seu doutor mostra! Olha, não diga nada a ele... mas... ele me pediu que dissesse a iaiázinha que me entregou esta carta com as lágrimas nos olhos... (Pausa). Mas uma vez que iaiázinha não quer... (Vai sair pelo fundo).
EMÍLIA - José?
JOSÉ (Voltando ligeiro) - Mando entrar o moço?
EMÍLIA (Depois de hesitar) - Está bom, manda (José vai a sair). Mas espera: é preciso que lhe afirmes que só consenti depois de muitas instancias tuas. Será bom que não me julgue fácil. Manda-o entrar. Onde está ele?
JOSÉ - Olhe. (Aponta para a rua, pela janela). Não vê aquele tipo encostado ao chafariz? Fumando?
EMÍLIA - Sim. Isso há de ser já, enquanto papai não volta e mamãe está ocupada com o doce de araçá... (Vai saindo).
JOSÉ - Então iaiázinha não fica para recebê-lo?
EMÍLIA - Eu devo vir lá de dentro como quem não sabe da cousa. Já te disse: quero que ele se persuada que eu não aprovo...
JOSÉ - Se sinhô velho descobre...
EMÍLIA - Anda! Não estejas aí a papaguear! Avia-te! (sai).
JOSÉ depois ALBERTO
JOSÉ - O que eu quero é não ficar mal no negócio. Tenho medo destas coisas que me pelo! (Vai à janela e assobia: responde-lhe da rua um outro assobio). Moleque está fino no namoro!
Duetino
JOSÉ (À janela)
Entre depressa, meu ioiozinho!
(Correndo ao corredor)
Não faça bulha! Devagarinho!
ALBERTO (Entra)
Faça de conta que a casa é sua,
pois sinhô velho está na rua.
ALBERTO - E sinhá velha?
JOSÉ - Lá na cozinha,
fazendo doce com iaiázinha.
ALBERTO (À boca da cena)
Eu sou Alberto Ribeiro,
estudante o mais pimpão!
JOSÉ -
Na bolsa pouco dinheiro;
muito amor no coração.
JUNTOS
Quando me lembro/se lembra que a namorada
nesta casinha vive isolada,
deixo/deixa pro lado a anatomia,
e sem saudades da cirurgia,
deito/deita a correr pro seu lado!
Sou/É ligeiro namorado!
Olaré! Olaré!
Vida boa isto é que é!
JOSÉ - Não se demore muito, é que é; hoje, véspera de Reis, sinhô velho deve entrar cedo...
ALBERTO - E Milu? Onde está ela?...
JOSÉ - Iaiázinha não tarda. Está contente como quê! Mas não diga nada a ela, porque ela me disse que lhe dissesse que não aprova a entrada de V.S. aqui e que só a muitas instâncias minhas...
ALBERTO - Bem. Toma lá dois mil réis... (Dá-lhe dinheiro)
JOSÉ - Aqui só estão dez tostões...
ALBERTO - Anda... Mexe-te... Logo terás os outros dez.
JOSÉ - Olhe: ai vem a iaiázinha. (Sai pelo fundo).
ALBERTO e EMÍLIA
EMÍLIA (Fingindo surpresa) - Ui!
ALBERTO - Não se assuste... Não se assuste... Sou eu...
EMÍLIA - Quem foi que o autorizou...?
ALBERTO (Interrompendo-a) - Quando se ama, meu bem, não se quer saber de autorizações; o coração tudo autoriza e às leis que ele dita, não há desobediência possível.
EMÍLIA - Você tem lábias, tem...
ALBERTO - E lábios... para dizer que te amo, que te adoro, que és o sol de minha vida, a estrela de minha existência! (Ajoelha-se).
EMÍLIA - Ó gentes! Eu não sou santa, seu Alberto. Se alevante. (Alberto ergue-se). Mas estes estudantes são mesmo muito atrevidos! Ora se papai...
ALBERTO - Descansa; o José está à porta da rua para prevenir-nos...
EMÍLIA - Hei de contar a mamãe o desaforo de José! Você acha muito bonito andar de combinações com o moleque, não?
ALBERTO - O que eu acho é que foi com o teu consentimento que...
EMÍLIA (Depois de ir fechar a porta da esquerda) - Vamos ao que importa: o que me quer?
ALBERTO - O que te quero? Quero ver-te; falar-te; pintar-te ao vivo este amor; ouvir de ti mais uma vez que me amas.
EMÍLIA - Mesmo por você saber que o amo; por esperá-lo à janela para vê-lo passar e apertar-lhe a mão ou oferecer-lhe uma flor, é que você abusa! Ingrato! Fazer consentir em que tenha entrada aqui, sem papai nem mamãe saberem!...
ALBERTO - Es injusta, Milu, és muito injusta (Emília faz-lhe má cara). Está bem! Já não digo nada! Adeus! Não quero comprometê-la... (Dirige-se para a porta do fundo). Não quero abusar...
EMÍLIA - Alberto?
ALBERTO (Quase a sair) - Adeus.
EMÍLIA (Bate o pé) - Alberto!
ALBERTO (Volta à cena) - Milu?
EMÍLIA (Toma-lhe as mãos) - Você não é homem; você é o diabo!
ALBERTO - Queres dizer que sou mulher?
EMÍLIA - Por que não me pede a papai?
ALBERTO - Já te disse que isso tem seus quês: teu pai, disseste-me, quer casar-te com o filho de um seu compadre...
EMÍLIA - Meu pai não é homem que obrigue a filha casar-se à força!
ALBERTO - Ainda há outra coisa: eu tenho um tio...
EMÍLIA - Ah! Você tem um tio? Ainda não me havia dito...
ALBERTO - Pois de onde me vem a mesada? De meu tio... É preciso que me entenda com ele... Se faz-me as vezes de pai, não é muito natural que eu, que faço as vezes de filho, case-me sem ao menos dizer: Água vai.
EMÍLIA - E se ele puser alguma objeção?
ALBERTO - Não põe, não. Meu tio é muito meu amigo. É capaz de trepar ao céu, para ir buscar a lua, se eu lha pedir. O mais que pode haver é alguma demorazinha... Já estou no quinto ano... Logo que me formar...
EMÍLIA - Logo que se formar, adeus... Ora, eu bem conheço estes estudantes! Mentem por quantas juntas têm!
ALBERTO - Então já gostaste de algum, antes de mim?
EMÍLIA - Ó gentes! Quem foi que disse?... (Â parte). Só de três... (Alto). As minhas amigas é que me contam...
ALBERTO - Histórias! Se elas os merecessem, como me mereces, não havia motivo de queixa... (Toma-lhe as mãos). Sossega: prometo que hei de ser teu marido, a menos que te esqueças de mim.
EMÍLIA - E posso contar com a mesma firmeza de sua parte?
ALBERTO - Ainda me perguntas?
EMÍLIA - Jure...
ALBERTO (Estende solenemente a mão) Juro.. (Outro tom). Pelo que queres que eu jure?
EMÍLIA - Por tudo quanto há de mais sagrado.
ALBERTO (Estende solenemente a mão) Por tudo quanto há de mais sagrado... Estás satisfeita?
EMÍLIA - Estou, sim; é impossível que você quebre um juramento tão bonito!
ALBERTO - Se já estivesse formado, jurava-te à fé de meu grau!
EMÍLIA, ALBERTO e JOSÉ
JOSÉ (Entra a correr) - Iaiázinha! Seu doutor! Fujam! Fujam... (Toda esta cena é rápida e de movimento).
ALBERTO E EMÍLIA - O que é? O que é?
JOSÉ - Quando dei por mim, sinhô velho já vinha por trás da igreja... Fujam, fujam!...
ALBERTO - Logo que ele entrar para o corredor, eu pulo pela janela. (Coloca-se atrás da janela).
EMÍLIA (Vai à janela e volta) - É impossível!
JOSÉ - Depressa!
ALBERTO (A Emília) - Por que?...
JOSÉ - Depressa!
ALBERTO (A Emília) - Mas por que, por que?
EMÍLIA - Seu Antônio está na porta.
ALBERTO - Quem é seu Antônio nesta vida?
EMÍLIA - É o maroto da venda...
JOSÉ - Chi! Uma língua danada! Quando não tem de quem falar, fala de si... Depressa! Sinhô velho já deve estar na porta... (Vai à porta e volta aflito, com as mãos na cabeça).
EMÍLIA - Estou perdida!...
ALBERTO - Ah! Esta mesa. (Esconde-se debaixo da mesa).
REIS (Fora) - Vamos entrando...
EMÍLIA - E vem acompanhado... Meu Deus! O que sairá daqui?...
JOSÉ - Salve-se quem puder. (Vai saindo e Reis que entra com Bermudes, agarra-o pelo braço).
REIS (A José, no fundo) - Ó José, logo que vires o Manuel, aquele negro que foi capitão do canto da Soledade (tu o conheces...) com outro, carregando os baús do compadre, leva-os lá para o sótão... O carreto já está pago... Vai... (José sai; durante a cena que se segue, vêem-se passar pelo fundo os dois negros, carregando os baús; depois tornam a passar, em sentido contrário) com as mãos vazias. Alberto de vez em quando espia por baixo do pano que deve cobrir a mesa e mostra que está impaciente e mal acomodado).
EMÍLIA, ALBERTO, REIS e BERMUDES
BERMUDES (Sem reparar em Emília bem como Reis) - Você está num casão, compadre! Quanto paga por isto?
REIS - Trinta mil réis.
BERMUDES - Tem porões? (Senta-se junto à mesa).
REIS - Não; mas aqui a vizinha da esquerda tem e é quanto basta (Outro tom). Compadre, você vai para o sótão... para o quarto do Antonico, seu afilhado... Aquilo por lá é fresco... há de gostar.
BERMUDES - E onde está ele?
REIS - O sótão? É lá em cima... E só subir...
BERMUDES - Não; o Antonico.
REIS - Pois não lhe mandei dizer que foi para a Corte? Lá está na escola... escola... Ora, diabo! Esquece-me sempre o nome de tal escola... (Repara em Emília). Ó Milu! Estavas aí? Antes de me tomares a bênção, dize cá; como é o nome da escola em que está teu irmão, lá no Rio de Janeiro?
EMÍLIA - Politécnica.
REIS - É isso... é isso... Poli...
BERMUDES - ... técnica. O nome é danado!
REIS (Dá a bênção a Emília, abraça-a e beija-a na testa) - Deus te faça santa! (A Bermudes) Aqui está minha filha, compadre; você não a conhece; quando veio a última vez à cidade, ela estava no Providência. Milu, tome a bênção ao compadre de papai...
BERMUDES - Qual a bênção! Venha de lá um abraço ao velho amigo de papai e da mamãe. (Ergue-se) A iaiá não faz idéia como éramos camaradas quando papai morava em Camamu. (Abraça-a) Éramos a corda e caldeirão... já lá vão uns bons vinte anos.
EMÍLIA - Papai fala-me muitas vezes em vocemecê.
BERMUDES - Pois não havia de falar? Entendíamo-nos perfeitamente! Camaradas em tudo: chapas combinadas para as eleições! Gostos iguais, etc., etc.! Que bons tempos! O que diz, compadre?
REIS - Mas ainda você não me disse nada da pequena.
BERMUDES - Pois que lhe hei de dizer? (Graceja) É muito feia... muito feia... muito desajeitada... (Abraça-a de novo) Eh, eh! Mentira, iaiá! É um anjinho de Nossa Senhora. (A Reis) - Está satisfeito?
EMÍLIA (Enquanto Bermudes a abraça, a Reis) - Isso é debique de seu compadre; não é, papai?
REIS - O que sei é que és uma moça de muito juízo...
EMÍLIA (À parte, olhando com intenção para o esconderijo de Alberto) - Se ele soubesse...
BERMUDES - Mas onde está encantada esta comadre?...
REIS - Vai chamar mamãe, Milu; dize-lhe quem está cá.
EMÍLIA - É já, papai. (Vai saindo)
REIS - Olha: leva isto lá para fora. (Entrega-lhe chapéus e guarda-sóis seus e de Bermudes; Emília sai, olhando para o esconderijo de Alberto).
BERMUDES (Vendo-a sair) - Ora quem havia de dizer? Está uma moça, hein? Isto é que me faz velho... (Senta-se).
REIS e BERMUDES
BERMUDES - Está mesmo que parece talhadinha para o rapaz! Que bonito casal! Estou certo que, em se vendo, ambos os dois hão de ficar de beiço caído...
REIS (Senta-se ao lado de Bermudes) - Eu também estou certo disso. (Um pouco embaraçado) Mas olhe, compadre, eu toquei nisso à pequena...
BERMUDES - Ah! Tocou?
REIS - Toquei, sim, compadre, toquei...
BERMUDES - Então toque... (Apresenta a mão a Reis que lha aperta) A pequena (já se sabe!) pulou de contente; não pulou, não?
REIS - Pelo contrário, compadre, torceu o focinho...
BERMUDES - Torceu?!
REIS - Torceu, compadre, torceu...
BERMUDES - Aqui é que a porca torce o rabo... Mas ora adeus! Eu não quero que os pequenos casem sem se conhecerem. Eles que namorem primeiro um ano, dois... e depois amarrem-se! Falem-se, estudem-se! Se gostarem um do outro, muito que bem; se não, já cá não está quem falou. Isso não vai a matar, nem vale a pena contrariá-los!
REIS - É que Milu... se não me engano...
BERMUDES - Se não se engana...
REIS (Com mistério) - Tem ai o seu namorico...
BERMUDES - Então está tudo acabado! (Erguem-se) Dê-se o dito por não dito e deixe-se correr o barco! O que você não deve, compadre, é constrangê-la; olhe que desses constrangimentos nasce muita coisa feia...
REIS - Aí vem a sua comadre.
ALBERTO, REIS, BERMUDES, FRANCISCA E JOSÉ
(Francisca entra da esquerda com as mãos lambuzadas de doce e as mangas arregaçadas e José do fundo).
FRANCISCA (Expansiva) - Ora viva o seu compadre!
BERMUDES - Ora viva a sinhá comadre! (Quer apertar-lhe a mão).
FRANCISCA (Foge com as mãos) - Estou com as mãos sujas! Estava dando ponto a um doce de araçá, de que o compadre há de gostar e lamber os beiços. Mas venha de lá esse abraço!... Cuidado! Não se suje!...
BERMUDES (Antes de abraçar Francisca, a Reis) - Com sua licença compadre...
JOSÉ (Enquanto Bermudes e Francisca abraçam-se e depois conversam baixinho, aproxima-se de Reis) - Sinhô velho?
REIS - O que é que me queres, moleque?
JOSÉ - Sinhô dá licença para eu hoje vir tarde para casa?
REIS - O que é que tens de fazer na rua, vadio?...
JOSÉ - Hoje é véspera de Reis... e eu sou do rancho...
REIS - O que tu és sei eu! Vá lá... vá lá...
JOSÉ - Sinhô velho faz bilhete?
REIS - Não é preciso; é véspera de Reis: podes andar sem bilhete. (Dá-lhe dinheiro) Não vá beber cachaça, hein? (A Bermudes, mostrando José) Ó compadre, conhece esta peça?
BERMUDES - É um bonito moleque.
JOSÉ - Muito obrigado.
REIS (A José) - Cala a boca, moleque!
FRANCISCA - Já não se alembra dele, compadre?
REIS - O José... cria de nossa casa...?
JOSÉ - José Filomeno dos Reis, um criado de v.s....
FRANCISCA (A José) - Cala a boca, apresentado!
BERMUDES (Recordando-se) - Ah! agora me lembro! Mas como está crescido este moleque!
FRANCISCA - É muito vadio, compadre! Quando era pequenino...
BERMUDES - A comadre estimava-o muito...
REIS - Chegava mesmo a fazer-lhe a cama; agora, não vale o que come! (Bermudes e Francisca continuam a conversar baixinho).
JOSÉ (A Reis) - Posso ir, sinhô velho?
REIS - Vai. (José vai saindo) Ó que idéia! (Chama) José!
JOSÉ (Voltando) - Sinhô?
REIS (A Bermudes) - Vou festejar a sua chegada, compadre! (A José) Uma vez que tu és do rancho, quero que faças com que ele venha dançar aqui esta noite; ouviste?
JOSÉ - Sim, sinhô; eu faço de burrinha...
FRANCISCA - Você deita-me este moleque a perder, seu Reis! (A Bermudes) Todo o dia santo este moleque leva todo o santo dia na vadiação!
REIS (Sem dar ouvido a Francisca; a José) - Está bom! Se vierem, dou uma gorjeta; si não vierem, levas uma dúzia de bolos!
JOSÉ - Antes quero a gorjeta, sinhô! (Sai correndo e cantarolando).
BERMUDES (A Reis) - Então, para festejar minha chegada, manda você dançar os Reis hoje, aqui... (A Francisca) O compadre é o mesmo: não mudou mesmo nada...
FRANCISCA - Deixe ele falar: aquilo é porque ele se chama seu Reis.
BERMUDES - Ah! Ah! Ah! A comadre teve graça! (A Reis) Também não mudou mesmo nada...
REIS (A Bermudes) - Mas ainda você não disse a D. Francisca...
FRANCISCA (Interrompe-o) - Lá vem seu Reis com D. Francisca! O cabeçudo ao pé de gente não é capaz de me tratar por D.Chiquinha...
BERMUDES - É costume antigo! Andavam sempre brigando por via disso em Camamu!
FRANCISCA - Aqui tem sido a mesma coisa! Veja lá, compadre! Com tantos anos de casados! E eu que embirro com semelhante nome de Francisca!
REIS (Maçado) - Pois vá lá D. Chiquinha... (Estala a língua).
FRANCISCA - Mas vamos a saber... (A Reis) O que ia você dizendo?
REIS - É que ainda o compadre não lhe disse o motivo que o trouxe à cidade... Mas você interrompe a gente...
BERMUDES - Venho à cidade por via daquela questãozinha de terras... A comadre lembra-se?
FRANCISCA - Não me lembro eu de outra coisa! Questãozinha, diz o compadre? Questãozona, digo eu! Que muitos cabelos brancos lhe fez criar!
BERMUDES - Ora! As terras eram minhas! A legitimação estava feita... (Sinal de assentimento de Reis e de Francisca. Pausa) Mas eu dormi no negócio...
REIS - Foi todo o seu mal, compadre!
BERMUDES - Mas agora o Coronel Casemiro...
FRANCISCA - Grandessíssimo cão! Não me hei de esquecer do dia em que ele me veio convidar para substituir a professora pública, que vinha doente para a cidade!
REIS - Ora! Aquilo é um vira-casaca muito desavergonhado!
FRANCISCA - Quando o bruto sabia perfeitamente que eu não sei ler!
BERMUDES - Não se admire, comadre, não se admire, porque ali por esse interior velho muita gente ensina aquilo que não sabe!...
REIS - Mas vamos à questão...
BERMUDES - O Coronel Casemiro apresenta documentos de que as terras são dele! "Oh! digo eu cá comigo, esta agora fia mais fino!" Entreguei a minha causa nas mãos do Secundino Barbosa...
FRANCISCA - Quem? Aquele rabule que brigou a soco com seu Reis nas eleições de 54?...
REIS - E por sinal que me partiu dois dentes, (Mostra a falta dos dentes e fala com a boca aberta) que nunca mais tornaram a nascer!
BERMUDES - Esse mesmo! (Em tom lamentoso) Ah! compadre! (Toma a mão de Reis) Ah! comadre! (Toma a de Francisca, esquecendo-se de que esta' suja) Aquele homem foi a morte de minha causa!
FRANCISCA E REIS - Sim? Deveras?
BERMUDES (Abandona-lhe as mãos com desânimo) - E talvez seja a causa da minha morte! (Limpa a mão que pegou a de Francisca).
REIS - Ora não pense nisso!
FRANCISCA - Ponha o coração à larga, compadre...
BERMUDES - Tem razão, compadre; tem razão, comadre; ambos os dois têm razão. (Alegra-se aos poucos). Principalmente hoje, véspera de Reis é dia de alegria, porque vi a vocemecês, à menina, e amanhã verei também meu sobrinho. O tratante anda sempre a mudar-se e então agora está em férias: não posso procurá-lo na Academia. Olhem que aquele rapaz é o meu pecado! Mas, graças às cabaças, está quase senhor doutor e pronto para mandar gente para o outro mundo... Pouco se me dá dos cobritos que tenho gasto com ele neste!
FRANCISCA - E o que me diz a respeito de umas certas cartinhas trocadas entre seu Reis e o compadre?
BERMUDES - Já não se fala nisso! A moça gosta de outro e amor não é imposto pessoal.
FRANCISCA - Eu já não penso assim! Bem podíamos mostrar a Milu o verdadeiro caminho da felicidade...
REIS - Asneira no caso!
BERMUDES (Sentencioso) - Comadre, o verdadeiro caminho da felicidade é aquele em que a gente anda por seu gosto e não aquele para onde nos empurram.
REIS - Apoiado! Casem-se à vontade as moças e depois lá se avenham!
FRANCISCA - O compadre já sabe que seu afilhado...
BERMUDES - Já. Já sei que está na escola... na escola... (Á Reis) Como é o nome da escola, compadre?
REIS - Escola... escola... Como é, D. Francisca?
FRANCISCA (Zangada) - Dona Francisca, hein?...
REIS (Emenda) - Como é, D. Chiquinha?
FRANCISCA - Ora! Eu tenho o nome debaixo da língua...
BERMUDES - Eu também...
REIS - Eu também... (Chama) Milu, ó Milu! (Emília responde de dentro com um grito).
REIS E FRANCISCA - Vem cá...
OS TRÊS - Escola... escola... Ora!