UM HOMEM, que vem ao leilão de São Cristóvão
Amores, musas, poetas, aposentados, mulheres políticas, atores, pessoas
do povo, operários, argentinos novos, soldados do Batalhão Patriótico,
etc.
Cenário de Carrancini
Sala preparada ao gosto moderno em casa de Melo. Preparos para escrever. Na parede, sobre uma peanha a estátua de Vênus de Milo. É de manhã cedo.
LAURA, depois GILBERTO.
Dueto
LAURA (Entrando)
- Na extrema do horizonte
A aurora despontou:
Vou ver o meu Gilberto,
Beijar-lhes os lábios vou!
A VOZ DO GILBERTO
- Nos paramos risonhos
A purpurina aurora
Doura
A pudibunda flor...
Aos olhos meus te guardas!
Tardas,
Oh! meu querido amor!
LAURA -
- É ele! É ele!...
O coração me impele...
E fala-me a razão;
Mas a razão sucumbe e vence o coração.
(Vai abrir uma janela e acena para a rua. O palco ilumina-se; Gilberto, embuçado num capote, entra pela janela.)
LAURA - Oh! meu Gilberto!
GILBERTO -
- Oh! minha doce amada!
Oh! que hora afortunada!
Vivamos ambos
Sempre juntinhos,
Quais dois pombinhos,
Meigos e sós!
E, a não gozarmos
Tão bela sorte,
Antes a morte
Nos leve a nós!
GILBERTO -
- Eu quero um beijo,
Um beijo só!
Do meu desejo,
Meu bem, tem dó.
LAURA -
- Não tens um beijo,
Nem mesmo um só,
Do teu desejo
Não tenho dó.
Quando eu for sua mulher,
Dar-lhos-ei quantos quiser...
GILBERTO -
- Tenho ou não tenho?
Dá ou não dá?
LAURA -
- Fazes empenho?
Pois toma-o lá! (Beijam-se.)
Juntos
GILBERTO................................ LAURA
- Deste-me um beijo! ......- Que tem um beijo,
Deste-me um só! .............Quando é um só?
Do meu desejo ..................Do teu desejo
Tiveste dó! .........................Eu tive dó!
GILBERTO - Podemos conversar sem receio? Teu pai, o Senhor Melo ainda dorme?
LAURA - Papai, a estas horas, já deve estar inteiramente entregue à Musa. Não há nada que o arranque a esse prazer.
GILBERTO - Ah! Laura! Laura! como sou feliz quando a teu lado me deslumbra a luz de teus olhos e me embriaga o perfume de teus cabelos!
LAURA - Deixa-te de lirismos, e vamos ao que serve. Se te concedi mais esta entrevista, foi porque tinha um pedido a fazer-te. É preciso acabar com estes encontros.
GILBERTO - Isto é! Tu expões-te à maldição paterna, e eu a uma carga de pau, o que é pior! Não facilitemos!
LAURA - É muito fácil dizer "Não facilitemos". Mas quem pode sopitar os arroubos de um coração de dezessete anos?
GILBERTO - Quem pode resistir a uma janela de um metro e cinqüenta centímetros de altura?
LAURA - Há um único meio de acabarmos com isso: o casamento.
GILBERTO - Do casamento tenho-te eu falado um milhão de vezes, e se até hoje ainda não pedi a tua mão, não te deves queixar senão de ti mesma. A culpa tem sido tua.
LAURA - É verdade que te tenho aconselhado que o não faças; hoje, porém, penso ao contrário.
GILBERTO - O contrário? Ainda bem! Mas que motivos eram esses que te levavam a aconselhar-me a que te não pedisse?
LAURA - Pois nunca tos disse?
GILBERTO - Nunca.
LAURA - Papai tem a mania de fazer versos, sem que, para isso, houvesse sido fadado pela natureza... - Não fala noutra coisa: é poesia para cá, poesia para acolá! Tem até um criado que faz versos, e mesmo os improvisa!
GILBERTO - O Albino?
LAURA - O Albino. Não sabes que é obrigado a não falar senão em verso?
GILBERTO - Deveras?
LAURA - Foi essa uma das condições da sua admissão nesta casa.
GILBERTO - Por isso é que o outro dia, estando teu pai sentado a tomar fresco no Passeio Público, o Albino aproximou-se dele, e disse-lhe:
"Meu amo, está posta a mesa
Vá para casa jantar;
A menina com certeza
Não pode mais esperar."
LAURA - Vê tu que desaforo! O metro e a rima obrigam-no a pregar mentira:
"A menina com certeza
Não pode mais esperar!"
Não imaginas que comédia! Papai, quando quer fazer versos, bate. na testa, olha para o teto, conta sílabas nos dedos, faz trinta mil caretas, e não consegue nada. Afinal chama pelo Albino e...
GILBERTO - É original!
LAURA - Mas vamos ao que importa. Acho que papai não será capaz de dar-me em casamento a um homem que não seja poeta. Todos os dias ele me diz: "Minha filha a prosa é terrena e vil, a poesia é celeste e nobre!" Não te engraces de algum marreco que não conheça as nove filhas de Apolo!
GILBERTO (Resolutamente.) - Ora! hoje mesmo venho pedir-te em casamento. Teu pai, provavelmente, pergunta se sou poeta. Nada mais simples: dir-lhe-ei que sim.
LAURA - E depois?
GILBERTO - Depois, não me custará ter também, como ele, o meu alter-ego. Depois que estivermos casados, dir-lhe-ei a verdade, e ele nada poderá fazer.
LAURA - Bravo! És um rapaz decidido.
GILBERTO - Virei hoje mesmo.
LAURA - Não te acanhes. Apresenta-te com todo desembaraço!
GILBERTO - Tranqüiliza-te! (Ouve-se Melo tossir.)
[LAURA] - Aí vem papai. Foge!
GILBERTO - Ora! no melhor da festa! (Beija-a e salta pela janela. Melo entra a ler um papel.)
LAURA (Consigo, enquanto Melo desce ao proscênio.) - Ora! O Gilberto podia ter ficado. Papai, quando está com a Musa, não dá pela presença de ninguém.
LAURA e MELO
MELO (A ler.)
- Em seu carro doirado o dino Febo
Vem dando ao horizonte rubra cor...
(Pensa e repete pausadamente.)
Vem dando ao horizonte rubra...
LAURA - Como passou a noite, papai?
MELO (Sem lhe dar ouvido.)
- Vem dando ao horizonte rubra cor...
LAURA (À parte.) - É sempre assim! (Alto.) Papai, como passou a noite?
MELO (Sem desviar os olhos do papel.)
- Adeus.
Em seu carro doirado o dino Febo.
(Sem olhar para Laura.) Ó menina?
LAURA - Papai?
MELO - Dás-me uma rima para Febo?
LAURA - Cego.
MELO - Cega estás tu, minha tonta. (Lê.)
Em seu carro doirado o dino Febo
Vem dando ao horizonte rubra cor...
(Declamando.) Não fica bom. Este dino Febo é o diabo (Pensando.) Em seu carro doirado o Febo dino... Febo dino ainda é pior que dino Febo. Parece que se trata de alguém que se chama Febodino.
Em seu carro doirado Febodino...
Já não sei a quantas ando. (Chamando.) Ó Albino. (Limpa o suor e continua.)
Em seu doirado carro Febo... Febo...
Copla
Oh! que inferno! Fico tonto!
Tenho as fontes a estalar!
Pois já pronto ou quase pronto
Isto aqui devia estar!
Virgem Santa! perco o juízo!
Doido a musa me há de pôr!
Nunca faço um improviso
Sem três dias de labor!
(Entra Albino.)
MELO, LAURA e ALBINO
MELO - Ah! vem cá, meu rapaz, tira-me deste embaraço. Quero dizer em verso a coisa mais natural deste mundo... quando é em prosa. Amanhã faz anos o Comendador Lopes, que é meu compadre. É meu costume felicitá-lo todos os anos com um improviso, e hoje, mais do que nos outros anos, vem a propósito a versalhada, porque ele está na diretoria de três bancos e de seis companhias, é tesoureiro de uma loteria, e já anda de carro próprio. O Comendador faz quarenta anos amanhã. Principiei assim:
Em seu carro doirado o dino Febo
Vem dando ao horizonte rubra cor...
(Albino toma o papel com ares de importância, escreve com um lápis, e depois lê o que escreveu, tendo escarrado e batido na testa.)
ALBINO - No carro seu doirado a roxa Aurora...
MELO (Satisfeito.) - Sim, senhor. Não me lembrei da aurora!
ALBINO - Vem dando aos horizontes rubra cor...
MELO - Esse rubra cor não está duro, Albino?
ALBINO -
- Duro não, senhor meu amo;
É mesmo frase elegante;
Se rubra em vogal termina,
Cor começa em consoante.
MELO (A Laura, que se tem conservado afastada.) - Que cabeça!...
ALBINO (Lendo.)
- No carro seu doirado, a roxa aurora
Vem dando aos horizontes rubra cor;
Em dia tão gentil se comemora
O aniversário do Comendador!
MELO - Dá-me um abraço, vate!...
ALBINO (Modestamente.)
- Uma honra assim tamanha
Eu não mereço decerto,
Mas, enfim, como o deseja,
Nos braços meus o aperto. (Abraça-o.)
MELO (Tomando o papel.) - Agora vou para a quietude do meu gabinete improvisar as outras estrofes. Em eu precisando de ti...
ALBINO -
- É só gritar por meu nome;
Lá irei ter às carreiras,
A auxiliar esse estro...
(Procurando o último verso.)
A auxiliar-vos o estro...
MELO (Fechando a cara.) - A rima, rima, ou levas multa!
ALBINO (Vivamente.) - Com meia dúzia de asneiras.
MELO (Satisfeito.) - Ahn... (Saindo a ler.)
No carro seu doirado a roxa Aurora, etc.
(Perde-se a voz no bastidor.)
LAURA, ALBINO
LAURA - Forte mania!
ALBINO - Que quer a menina? Aquilo anda-lhe na massa do sangue! Nunca me hei de esquecer daquele dia em que li no Jornal do Commercio um anúncio concebido nos seguintes termos: "Precisa-se de um criado poeta, que faça e improvise versos. Quem se achar nas condições dirija-se à rua tal, número tantos. Paga-se bem, agradando." A menina quer saber quem eu era? (Ao repente da orquestra.) Faz o favor de tocar em surdina a música do "Era no outono quando a imagem tua."? Aquela? Trá lá lá rá lá rá. (Recita ao som da música.)
Eu era um pobre trovador de esquina;
Sempre mofina a minha vida foi;
Desenvolvia inteligência e arte
Pra minha parte conquistar do boi.
Passava as belas noites ao relento,
A chuva e ao vento, e era meu leito o chão,
Eu nisso achava singular delícia
Quando a polícia não me punha a mão.
Mas não vi nunca no xadrez infame
Negro vexame, ríspido labéu;
Olhava o povo a passear na rua,
E olhava a lua a passear no céu.
Ai! quantas vezes célicas venturas
Lá nas escuras estações gozei!
Mesmo entre ferros negros e medonhos,
Sonhava sonhos que não sonha um rei!
Nisto, menina, de seu pai o anúncio
Foi o prenúncio de um viver melhor!
Abençoadas estas quatro linhas!
Emprego tinhas, vagabundo mor!
Vim para casa de seu pai, menina;
Fome canina não padeço, já...
Levo de perna alçada o dia inteiro;
Ganho dinheiro e não me canso -, aí está!
(Declamando.) Todas essas regalias sob condição de falar só em verso, quando estiver na presença dele, já se sabe. Nas respostas, devo empregar redondilhas em quadras, rimando a segunda com a quarta. Nos recados, quadras também, rimando o primeiro verso com o quarto. Todas as vezes que me faltar a rima, pagarei uma multa, que será descontada no fim do mês, salvo o caso do verso solto em hendecassílabos, admissível nas longas narrações.
LAURA - Não sabia desse regulamento.
ALBINO - Aceitei contente o meu difícil papel, e desde então...
A voz DE MELO - Ó Albino!
ALBINO - Lá está ele a chamar-me!
A VOZ - Albino!
ALBINO - Lá vai quadra. (Gritando.)
Aí vou, senhor meu amo,
Eu não me faço esperar...
(Sai a correr. Não se ouve o resto.)
LAURA, [só]
LAURA (Vai à janela e volta tristemente ao proscênio.) - Se papai se lembra de pôr à prova a veia poética do meu Gilberto, aqui, antes de lhe conceder a minha mão e sem que ele tenha tido tempo de se preparar, está tudo perdido! Oh! Gilberto, Gilberto do meu coração, por que não és tu poeta? Por que não te aqueceu no berço o bafejo ardente das Musas? Ingratas Musas! O meu Gilberto, contudo, faz poemas... Fá-los no coração... mas não os escreve: sente-os.
ROMANCE
Infelizmente o meu amor
Versos fazer não sabe...
Meu belo sonho encantador
Receio que desabe!
Mas diga o velho o que disser,
Dele serei somente;
Meu coração deseja e quer
Ser dele eternamente.
Ó Deus, que estais no céu, de mim tem dó!
Vê que o meu coração é dele só.
Viver não quero um instante assim,
Longe do meu Gilberto!
Eu a seu lado, é para mim
O mundo um céu aberto.
Se ele comigo não casar,
Eu perderei a vida,
E a imprensa toda há de falar
De mais uma suicida!
Ó Deus, que estais no céu, de mim tem dó!
Vê que o meu coração é dele só!
LAURA, ALBINO
ALBINO (Falando para dentro.)
- Não me deu nenhum trabalho
Pedido tão pequenino;
Em precisando outra estrofe
É só chamar pelo Albino.
(Ouve-se tocar uma campainha.) Tocaram. Quem será tão cedo? (Vai espreitar.)
LAURA - Dar-se-á o caso que seja ele? (A Albino.) Quem é?
ALBINO - Um moço.
LAURA - De cabelos pretos?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - Estatura regular?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - Bonito?
ALBINO - Sim, senhora.
LAURA - É ele!
ALBINO (Descendo.) - Sim, com certeza não é ela.
LAURA - Sabes quem é?
ALBINO - Sei; é ele.
LAURA - Ele quem?
ALBINO - Não sei.
LAURA - Sei eu.
ALBINO - Quem é ele?
LAURA - Mais tarde saberás. (Vai ver também e volta muito contente.) É ele! é ele! trá lá rá lá rá!... Fá-lo entrar: vem procurar papai. (Sai a correr.)
ALBINO, depois GILBERTO
ALBINO - É ele, não é ela, quem é, não sei, sei eu, é ele! Hum... aqui anda coisa... Meu amo, em vez de se ocupar da família, ocupa-se da Musa... Há de dar bons burros ao dízimo! (Novo toque de campainha.) Lá vai! lá vai! (Vai abrir.)
GILBERTO (Entrando.) - O Senhor Melo?
ALBINO - Está com a Musa.
GILBERTO - Com a...? (Compreendendo.) Ah! sim! já sei, faz versos. A fama poética do Senhor Melo já me chegou aos ouvidos. Faz bem, faz muito bem... A prosa é terrena e vil, a poesia é celeste e nobre. (Outro tom.) Posso falar-lhe, ou o Senhor Melo, quando cultiva as sete filhas de Apolo, não quer que o interrompam?
ALBINO - Ainda que não seja costume entre pessoas de boa sociedade fazer visitas antes do almoço, o Senhor Melo não o fará esperar.
GILBERTO - Vã preveni-lo, ande. Não declino o meu nome. Seria ocioso. O Senhor Melo não me conhece. (Senta-se.)
ALBINO (Saindo a gritar.)
- 'Stá cá fora um cavalheiro
Que lhe deseja falar.
(Perde-se o resto. Gilberto ergue-se assustado.)
GILBERTO (Tranqüilizando-se.) - Ah! sim... aquilo é por obrigação.
GILBERTO, [só]
GILBERTO [(Só.)] A minha coragem vai a pouco e pouco afrouxando. Nunca me senti tão pouco poeta, nem tão apaixonado! Se antes do pai me aparecesse a filha, ela me daria ânimo... Vem alguém... É ele, é o Senhor Melo...
GILBERTO, MELO
MELO (Entrando, como na outra cena, a ler um papel.)
- Oito lustros há já que veio ao mundo
Para a ventura fazer do povo...
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO (Sem se distrair.)
- Oito lustros já há...
Oito lustros há já...
Há já lustros oito.
Já há oito... já oito há...
Sebo!... (De mau humor.)
GILBERTO (À parte.) - Mau! (Alto.) Senhor Melo...
MELO - Lustros oito já há.
(Atrapalhando-se.) Já há lustros oitos...
(De mau humor.) - Pílulas...
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO -
- Já lustros oito há...
Há oito lustros já...
(Agrada-lhe o verso.) Hein? Ora graças! (Repete.)
Há oito lustros já me veio ao mundo
Para a ventura deste povo fazer...
Está comprido!
GILBERTO - Senhor Melo...
MELO (Sem desviar os olhos do papel.) - Viva! (Contando as sílabas nos dedos.) Pa-ra-a-ven-tu-ra-des-te-po-vo-fa-zer. Tem uma silaba de mais. (Poetando.) Para a ventura... (Contando as sílabas como acima.)
Pa-ra-a-ven-tu-ra-fa-zer-do-po-vo.
Tem uma sílaba de menos!
GILBERTO - Senhor Melo..
MELO (Como acima.) - Viva (Poetando.)
Para a ventura... realizar o povo.
(Agrada-lhe muito o verso, e fala rapidamente sem desviar os olhos do papel.) Depressa, senhor, depressa! Uma rima para povo. (Estende os braços para Gilberto como para receber a rima, e estala os dedos com impaciência.)
GILBERTO (Atarantado.) - Hein?
MELO - Uma rima para povo.
GILBERTO - Ovo!
MELO (Olha admirado para Gilberto, cai em si, guarda os versos, e cumprimenta-o.) - Senhor...
GILBERTO - Senhor Melo. (À parte.) - Com esta é a sétima vez que digo Senhor Melo!
MELO - Desculpe-me se o fiz esperar. A Musa deu-me uma esfrega que me deixou a suar! (Repete vagarosamente.)
A Musa deu-me uma esfrega,
Que me deixou a suar...
GILBERTO (À parte.) - É doido!
MELO - Como são as coisas! (Conta as sílabas.)
A-mu-sa-deu-me-u-ma-es-fre-ga,
Que-me-dei-xou-a-su-ar!
Batalho o dia inteiro para arranjar um verso, ao passo que agora, involuntariamente, improvisei dois. Sente-se, meu caro senhor, e, antes de dizer o que o trouxe a esta sua casa, permita que eu tome nota do improviso.
GILBERTO - Pois não, à vontade. (Senta-se.)
MELO (Indo escrever os dois versos e repetindo-os.)
- A Musa deu-me uma esfrega,
Que me deixou a suar...
(Guarda o que escreveu, e vai sentar-se perto de Gilberto.) Nós, os poetas, devemos ter sempre bem presente o adágio: guarda o que não queres...
GILBERTO - E acharás o que precisas.
MELO - Quem sabe se estes dois versos não me poderão servir nalguma oportunidade? (Outro tom.) Estou às suas ordens.
GILBERTO (À parte.) - É agora! (Alto, tossindo.) Hum! Hum! Hum!
MELO - Hum! Hum! Hum! (À parte.) Vem pedir-me versos!
GILBERTO - Senhor Melo, há três meses eu estava na Rua da Candelária...
MELO - Foi comprar chá?
GILBERTO - Não fui comprar coisa alguma. Estava sem dinheiro, e não tinha onde cair morto. Ora, achando-me na Rua da Candelária, lembrei-me de atravessar a Rua da Alfândega. Atravessei. Quando cheguei à Rua Direita, tinha cinqüenta contos de réis. Tornei a passar pela Rua da Alfândega em sentido contrário e, quando cheguei à da Quitanda, essa fortuna estava duplicada.
MELO - Com efeito, foi uma fortuna rápida... mas não admira, porque hoje arranja-se com mais facilidade quinhentos contos que um soneto.
GILBERTO - Autorizado por sua filha, a Senhora Dona Laura, venho pedir-lha em casamento.
MELO - Quer casar-se com minha filha? Homem! por esta não esperava eu.
GILBERTO - Sou de boa família, tenho perto de duzentos contos, gozo saúde, nunca fui preso, e sou republicano histórico.
MELO - Faz versos?
GILBERTO - Hein?
MELO - Pergunto se é poeta.
GILBERTO - Sou... Sou... (Gesto de satisfação de Melo.) Isto é... (Melo encara-o muito sério. Com resolução.) Sou.
MELO - Ainda bem!
GILBERTO - A prosa é terrena e vil, a poesia é celeste e nobre. Pois sua filha, a filha de um poeta, era lá capaz de gostar de quem não soubesse cultivar as sete filhas de Apolo?
MELO - Sete?
GILBERTO - Sim, sete, pois não são sete? (À parte.) Ai! Ai!
MELO - As Musas são nove, meu caro senhor!
GILBERTO - Nove?
MELO - Não me consta que alguma tenha morrido.
GILBERTO - Eu não quero teimar, mas contemos. (Conta nos dedos.) Dó, ré, mi, fá...
MELO - Isso são notas de música!
GILBERTO - Ah! tem razão! tem razão! Onde tenho eu a cabeça!
MELO (Naturalmente.) - Uma vez que o senhor é poeta, peça-me a mão da pequena em verso.
GILBERTO (À parte.) - Oh! diabo!
MELO - Vamos! Ande! Improvise! Não esteja a estudar.
GILBERTO - Mas...
MELO - Ah! Não há mas nem meio mas! É poeta ou não é poeta!
GILBERTO - Sou assim um poeta da força do Senhor Melo.
MELO - Pois bem, venha o pedido! Se o não fizer, grogotó...
GILBERTO - Grogotó?
MELO - Galhetas. Grogotó galhetas, que é o legítimo grogotó!
GILBERTO (À parte.) - E eu, que nunca fiz um verso!
MELO - Então? Em que ficamos?
GILBERTO (À parte.) - Ora! Saia O que sair! (Atrapalhado.)
Eu venho pedir-lhe a mão
Da senhora sua filha,
Porque bate por ela o meu peito...
MELO - Está duro.
GILBERTO - O meu peito?
MELO - Não, o verso. Diga outra vez do princípio.
GILBERTO
- Eu venho pedir-lhe a mão
Da senhora sua filha.
Porque bate por ela o meu peito...
MELO -
- Aposto que vai concluir assim:
E ela é uma maravilha...
GILBERTO - Não, senhor.
Eu venho pedir-lhe a mão
Da senhora sua filha,
Porque bate por ela o meu peito
E quero pertencer à família.
MELO - Isso nunca foi verso, nem aqui nem na casa do diabo!
GILBERTO - Mas, Senhor Melo...
MELO - Pois bem, vai ver como sou condescendente. Faço-lhe uma concessão. Vou fechá-lo durante um quarto de hora nesta sala.
GILBERTO - Fechar-me!
MELO - Durante este tempo há de escrever uma poesia em que me peça a mão da pequena com todos os ff e rr. Se, ao cabo de um quarto de hora, não tiver feito nada, jamais será meu genro. (Fecha as portas e a janela.) Aqui tem papel e tinta! Até logo! São sete horas e um quarto. Voltarei às sete e meia.
GILBERTO - Mas, Senhor Melo.
MELO - Olhe... ali está a deusa Vênus... Peça-lhe que o inspire: é a Vênus de Milo. (Sai e fecha a porta.)
GILBERTO, só
GILBERTO [(Só.)] - Que situação! Enfim... (Senta-se à mesa e escreve.) "Senhor Melo..." Ora, Senhor Melo! "Senhor Melo" é o começo de uma carta, e não o de uma poesia! (Depois de pensar alguns instantes, ergue-se e atira fora a pena.) Não arranjo nada!... (Dirigindo-se à estatueta.) Ó Vênus de Melo... quero dizer, de Milo... de Milo e de Melo... tu, que és a deusa do Amor, concede-me o dom da poesia! Tira-me desta entalação!
(Abre-se ao fundo, no lugar da estatueta, uma gruta florida por onde entra Cupido, acompanhado de Amores.)
[Quadro 2]
GILBERTO, CUPIDO, Amores
GILBERTO (Estupefato.) - Oh! ...
Coplas
CUPIDO -
Eis o trêfego Cupido,
Filho de Vênus e Marte!
Sou bastante conhecido,
Conhecido em toda parte...
Tenho fama universal!
Faço o bem, promovo o mal
Pois domino as multidões,
Sou senhor dos corações,
Ah! Ah!
É o deus Cupido que aqui está!
No mundo, todos os peitos,
Quer dos homens, quer dos bichos,
'Stão mais ou menos sujeitos,
Aos meus múltiplos caprichos...
Todos se hão de sujeitar!
Ninguém me pode escapar!
Tudo, seja como for,
Obedece ao deus do Amor!
Ah! Ah! etc.
GILBERTO - Cupido! Tu és Cupido? Pois Cupido existe?
CUPIDO - Certamente. Eu sou Cupido, e este é o meu estado-maior... Existo, como vês. Há mais tempo não aparecia, por não haver liberdade de cultos. Hoje, que todas as religiões são livres, aqui estou. Vênus, minha mãe, ouviu a tua invocação... e mandou-me tratar dos teus interesses. Senta-te àquela mesa, e escreve o que te vou ditar. (Gilberto obedece.) "Senhor Melo".
GILBERTO - "Senhor Melo" já está.
CUPIDO (Continuando.) - "Vossa Senhoria sabe que o estro não aceita imposições. Dentro de quinze dias voltarei à sua casa e submeter-me-ei a todas as experiências." Assina.
GILBERTO - Pronto!
CUPIDO - Agora vem comigo!
GILBERTO - Aonde me levas?
CUPIDO - A presença de Apolo; só ele te poderá conceder o que o pai da tua namorada exige. Irás nas asas do amor.
GILBERTO - Vamos?
TODOS - Vamos! (Repetem o estribilho) e saem todos pela gruta, que desaparece, ficando a cena como estava dantes.)
[MELO, só]
MELO (Entrando.) - Passou o quarto de hora. (Vendo a cena vazia.) Hein? Já não está! Por onde passaria ele?! (Examinando em baixo da mesa.) Nada! E esta?... Temos bruxaria! (Saindo.) Ó menina! Ó Albino!... (Sai. Mutação.)
[JOSÉ, só]
(Ao levantar o pano ouve-se o coro dos poetas, cantado na Cena VI. Cessado o coro, José sai do palácio e fecha cuidadosamente a porta. Traz um molho de chaves na cinta e algumas liras de ouro debaixo do braço.)
JOSÉ -
- Até que finalmente
Eu por hoje estou livre desta gente!
Diabo leve o Parnaso!
Se não fujo daqui, vai tudo raso!
Meus senhores, eu chamo-me José;
Vou dizer onde estou, e isto o que é,
Porém com muita pressa,
Pois que esta entrada nada tem com a peça.
Este país, da natureza um mimo,
Chama-se Fócida. Isto aqui é o cimo
Do Parnaso, a montanha mais famosa,
Onde ninguém pode falar em prosa,
É dos poetas hospício
Aquele imenso e fúlgido edifício,
E é curiosa a história
Desta fonte marmórea.
Apolo, o meu patrão, é das arábias:
Mas que ninguém tem lábias...
E, se elas não lhe prestam atenção
Vinga-se o maganão!
Era uma vez uma mulher bonita
Que pôs muita alma aflita,
Muita cabeça à roda;
Deu que falar, enfim, e andou na moda;
Apolo um dia a vê, e, de repente,
O coração lhe abrasa amor ardente.
Ele, a princípio, mostra que concorda,
Mas, passado algum tempo, rói a corda.
Sente Apolo a mostarda no nariz,
E transforma a pequena em chafariz!
Que graçola de bruxo!
Um deidade foi, e hoje é repuxo!
Para ser mais pungente a represália,
O nome dela, o nome de Castália
Ficou à fonte. Singular virtude
Têm estas águas: não é dar saúde.
Não são de Caxambu nem de Vizela;
Mas quem delas beber, sem mais aquela
Fala em verso, quer queira, quer não queira!
Eu cá poeta me fiz desta maneira!
Ser poeta eu não queria,
Porque sempre embirrei com a tal poesia...
Mas, quando cá cheguei, quis beber água:
Imaginem que mágoa
Ao dizer-me o patrão: - Beba dali!
Resisti... não bebi!...
Mas, no dia seguinte,
O patrão, por acinte,
Pôs-me os bofes a arder, a língua seca,
E uma enxaqueca... Safa! que enxaqueca!...
Vede, senhores, que suplício! vede!...
Ou fazer versos, ou morrer de sede!
Preferi fazer versos...
Desde então não consigo
Falar em prosa vil... Sim! Quereis ver?...
(Esforça-se por falar em prosa.)
Quero em prosa falar... mas do querer
Vai ao poder uma distância enorme!
A gente aqui faz versos quando dorme!
(Ouve-se rumor.)
Apolo, o meu patrão, aí vem de volta,
Trazendo as nove Musas por escolta.
Ele e elas aí vêm! Eis que começa!
Esta entrada a cantar pertence à peça.
JOSÉ, APOLO, as MUSAS
Coplas
APOLO -
- Eu sou filho de Júpiter,
O grande Apolo sou!
Na ponta, na pontíssima,
Eternamente estou!
As MUSAS -
- As nove Musas clássicas
Estão aqui também;
Saracoteando, gárrulas,
Do seu passeio vêm.
Zim lá lá!
Oh! que bela funçanata!
Zim lá lá!
Que agradável passeata!
'Stou satisfeita, olá!