Neste alaúde, que a saudade afina,
Apraz-me às vêzes descantar lembranças
De um tempo mais ditoso;
De um tempo em que entre sonhos de ventura
Minha alma repousava adormecida
Nos braços da esperança.
Eu amo essas lembranças, como o cisne
Ama seu lago azul, ou como a pomba
Do bosque as sombras ama.
Eu amo essas lembranças; deixam n'alma
Um quê de vago e triste, que mitiga
Da vida os amargores.
Assim de um belo dia, que esvaiu-se,
Longo tempo nas margens do ocidente
Repousa a luz saudosa.
Eu amo essas lembranças; são grinaldas
Que o prazer desfolhou, murchas relíquias
De esplêndido festim;
Tristes flores sem viço! - mas um resto
Inda conservam do suave aroma
Que outrora enfeitiçou-nos.
Quando o presente corre árido e triste,
E no céu do porvir pairam sinistras
As nuvens da incerteza,
Só no passado doce abrigo achamos
E nos apraz fitar saudosos olhos
Na senda decorrida;
Assim de novo um pouco se respira
Uma aura das venturas já fruídas,
Assim revive ainda
O coração que angústias já murcharam,
Bem como a flor ceifada em vasos d'água
Revive alguns instantes.
Há uma estrela no céu
Que ninguém vê, senão eu
(Garrett)
Quem és? - d'onde vens tu?
Sonho do céu, visão misteriosa,
Tu, que assim me rodeias de perfumes
De amor e d'harmonia?
Não és raio d'esp'rança
Enviado por Deus, ditamno puro
Por mãos ocultas de benigno gênio
No peito meu vertido?
Não és anjo celeste,
Que junto a mim, no adejo harmonioso
Passa, deixando-me a alma adormecida
Num êxtase de amor?
Ó tu, quem quer que sejas, anjo ou fada,
Mulher, sonho ou visão,
Inefável beleza, sê bem-vinda
Em minha solidão!
Vem, qual raio de luz dourando as trevas
De um cárcere sombrio,
Verter doce esperança neste peito
Em minha solidão!
Nosso amor é tão puro! - antes parece
A nota aérea e vaga
De ignota melodia, êxtase doce,
Perfume que embriaga!...
Amo-te como se ama o albor da aurora,
O claro azul do céu,
O perfume da flor, a luz da estrela,
Da noite o escuro véu.
Com desvelo alimento a minha chama
Do peito no sacrário,
Como sagrada lâmpada, que brilha
Dentro de um santuário.
Sim; a tua existencia é um mistério
A mim só revelado;
Um segredo de amor, que trarei sempre
Em meu seio guardado!
Ninguém te vê; - dos homens te separa
Um véu misterioso,
Em que modesta e tímida te escondes
Do mundo curioso.
Mas eu, no meu cismar, eu vejo sempre
A tua bela imagem;
Ouço-te a voz trazida entre perfumes
Por suspirosa aragem.
Sinto a fronte incendida bafejar-me
Teu hálito amoroso,
E do cândido seio que me abrasa
O arfar voluptuoso.
Vejo-te as formas do donoso corpo
Em vestes vaporosas,
E o belo riso, e a luz lânguida e meiga
Das pálpebras formosas!
Vejo-te sempre, mas ante mim passas
Qual sombra fugitiva,
Que me sorriu num sonho, e ante meus olhos
Desliza sempre esquiva!
Vejo-te sempre, ó tu, por quem minh'alma
De amores se consome;
Mas quem tu sejas, qual a pátria tua,
Não sei, não sei teu nome!
Ninguém te viu sobre a terra,
És filha dos sonhos meus:
Mas talvez, talvez que um dia
Te eu vá encontrar nos céus.
Tu não és filha dos homens,
Ó minha celeste fada,
D'argila, d'onde nascemos,
Não és decerto gerada.
Tu és da divina essência
Uma pura emanação,
Ou um eflúvio do elísio
Vertido em meu coração.
Tu és dos cantos do empíreo
Uma nota sonorosa,
Que nas fibras de minh'alma
Ecoa melodiosa;
Ou luz de benigna estrela
Que doura-me a triste vida,
Ou sombra de anjo celeste
Em minha alma refletida.
Enquanto vago na terra
Gomo mísero proscrito,
E o espírito não voa
Para as margens do infinito,
Tu apenas me apareces
Como um sonho vaporoso,
Ou qual perfume que inspira
Um cismar vago e saudoso;
Mas quando minh'alma solta
Desta prisão odiosa
Vaguear isenta e livre
Pela esfera luminosa,
Irei voando ansioso
Por esse espaço sem fim,
Até pousar em teus braços,
Meu formoso Querubim.
E já no campo azul do firmamento
A noite extingue os círios palejantes,
E em silêncio arrastando a fímbria escura
Do tenebroso manto
Transpõe do ocaso os montes derradeiros.
A terra, de entre as sombras ressurgindo
Do mole sono lânguida desperta,
E qual noiva gentil, que o esposo aguarda,
De galas se adereça.
Rósea filha do sol, eu te saúdo!
Formosa virgem de cabelos d'ouro,
Que prazenteira os passos antecedes
Do rei do firmamento,
Em seus caminhos flores despargindo!
Salve, aurora! - quão donosa surges
Nos azulados topes do oriente
Desfraldando o teu manto aurirrosado!
Qual cândida princesa
Que em desalinho lânguida se erguera
Do brando leito, em que sonhou venturas,
Tu lá no etéreo trono vaporoso
Entre cantos e aromas festejada,
Sorrindo escutas os melífluos quebros
Das mil canções com que saúda a terra
O teu raiar sereno.
Também tu choras, pois em minha fronte
Sinto teu pranto, e o vejo em gotas límpidas
A cintilar na tremula folhagem:
Assim no rosto da formosa virgem
- Efeito às vezes de amoroso enleio -
Brilha através das lágrimas o riso.
Bendiz o viajor extraviado
Tua luz benigna que a vereda aclara,
E mostra ao longe fumegando os tectos
De alvergue hospitaleiro.
Pobre colono alegre te saúda,
Por ver em torno do singelo colmo
Sorrir-se vicejante a natureza,
Manso rebanho retouçar contente,
Crescer a messe, as flores desbrocharem;
E unindo a voz aos cânticos da terra,
Aos céus envia sua humilde prece.
E o desditoso, que entre angústias vela
No inquieto leito sôfrego volvendo-se,
Espia ansioso o teu fulgor primeiro,
Que lhe derrama nas feridas d'alma
Celeste refrigério.
A ave canora para ti reserva
De seu cantar as mais suaves notas;
E a flor, que expande o cálix orvalhado
As estremes primícias te consagra
De seu brando perfume...
Vem, casta virgem, vem com teu sorriso,
Teus perfumes, teu hálito amoroso,
Esta cuidosa fronte bafejar-me;
Orvalho e fresquidão piedosa verte
Nos ardentes delírios de minh'alma,
E desvanece estas visões sombrias,
Funestos sonhos da penada noite!
Vem, ó formosa... Mas que é feito dela?..
O sol já mostra na brilhante esfera
O disco ardente - e a linda moça etérea
Que inda há pouco entre flores reclinada
Sorria-se amorosa no horizonte,
Enquanto a saíldava com meus hinos,
- Imagem do prazer, que breve dura, -
Se esvaeceu nos ares......
Adeus, esquiva ninfa,
Fugitiva ilusão, aérea fada!
Adeus também, canções enamoradas,
Adeus, rosas de amor, adeus, sorrisos.....
Ó tu, que ora nos tergos da montanha
Nas asas do Aquilão passas rugindo,
E pelos céus entre bulcõe sombrios
Da tempestade o plúmbeo carro guias,
Ora suspiras na mudez das sombras
Manso agitando as invisíveis plumas,
E ora reclinado em nuvem rósea,
Que a brisa embala no ouro do horizonte,
Expandes no éter vagas harmonias,
Voz do deserto, espírito melódico
Que as cordas vibras dessa lira imensa,
Onde ressoam místicos hosanas,
Que inteira a criação a Deus exalça;
Salve, ó anjo! – minha alma te saúda,
Minha alma que, a teu sopro despertada,
Murmura, qual vergel harmonioso
Pelas brisas celestes embalado.....
Salve, ó gênio dos desertos,
Grande voz da solidão,
Salve, ó tu, que aos céus exalças
O hino da criação!
Sobre nuvem de perfumes
Te deslizas sonoroso,
E o rumor de tuas asas
É hino melodioso.
Que celeste querubim
Te deu essa harpa sublime,
Que em variados acentos
As dúlias dos céus exprime?
Harpa imensa de mil cordas
Donde em caudal, pura enchente,
Estão suaves harmonias
Transbordando eternamente?!
De uma corda a prece humilde
Como um perfume se exala
Entoando o sacro hosana,
Que do Eterno ao trono se ala;
Outra como que pranteia
Com voz fúnebre e dorida
O fatal poder da morte
E as amarguras da vida;
Nesta brando amor suspira,
E lamenta-se a saudade;
Nest’outra ruidosa e férrea
Troa a voz da tempestade.
Carpe as mágoas do infortúnio
De uma a voz triste e chorosa,
E só geme sob o manto
Da noite silenciosa.
Outra o hino dos prazeres
Entoa lêda e sonora,
E com cânticos festivos
Saúda nos céus a aurora.
Salve, ó gênio dos desertos,
Grande voz da solidão,
Salve, ó tu, que aos céus exalças
O hino da criação!
Sem ti o mundo jazera
Inda em lúgubre tristeza,
E o horror do caos reinara
Sobre toda a natureza;
Pela face do universo
Funérea paz se estendera,
E o mundo em mudez perene
Como um túmulo jazera;
Sobre ele então pousaria
Silêncio torvo e sombrio,
Como um sudário cobrindo
Um cadáver quedo e frio.
De que servira essa luz
Que abrilhanta o azul dos céus,
E essas cores tão mimosas
Que tingem da aurora os véus?
Essa risonha verdura,
esses bosques, rios, montes,
Campinas, flores, perfumes,
Sombrias grutas e fontes?
De que servira essa gala,
Que te enfeita, ó natureza,
Se adormecida jazeras
Em estúpida tristeza?
Se não houvesse uma voz,
Que erguesse um hino de amor,
Uma voz que a Deus dissesse
– Eu vos bendigo, ó Senhor!
Do firmamento nos cerúleos páramos
Sobre o dorso das nuvens balouçado,
Os olhos arroubados espraiando
Nos longes vaporosos
Dos bosques, das remotas serranias,
E dos mares na túrbida planície,
Cheio de amor contemplas
De Deus a obra tão formosa e grande,
E em melódico adejo então pairando
À face dos desertos,
De caudal harmonia as fontes abres;
Como na lira que pendente oscila
No ramo do arvoredo,
Roçadas pelas auras do deserto,
As cordas todas sussurrando ecoam,
Assim ao sopro teu, gênio canoro,
De júbilo palpita a natureza,
E as vozes mil desprende
De seus eternos, místicos cantares:
E dos horrendos brados do oceano,
Do rouco ribombar das cachoeiras,
Do rugir das florestas seculares,
Do quérulo murmúrio dos ribeiros,
Do frêmito amoroso da folhagem,
Do canto da ave, do gemer da fonte,
Dos sons, rumores, maviosas queixas,
Que povoam as sombras namoradas,
Um hino teces majestoso, imenso,
Que na amplidão do espaço murmurando
Vai unir-se aos concertos inefáveis
Que na límpida esfera vão guiando
O giro infindo, e místicas coréias
Dos rutilantes orbes;
Flor, que se enlaça na eternal grinalda
Be celeste harmonia, que incessante
Se expande aos pés do Eterno!...
Tu és do mundo
Alma canora,
E a voz sonora,
Da solidão;
Tu harmonizas
O vasto hino
Almo e divino
Da criação;
És o rugido
D'alva cascata
Que se desata
Da serrania;
Que nas quebradas
Espuma e tomba,
E alto ribomba
Na penedia;
És dos tufões
Rouco zunido,
E o bramido
Da tempestade;
Voz da torrente
Que o monte atroa;
Trovão,que ecoa
Na imensidade.
Suspira a noite
Com teus acentos,
Na voz dos ventos
És tu quem gemes;
À luz da lua
Silenciosa,
Na selva umbrosa
Co'a brisa fremes;
E no oriente
Tua voz sonora
Desperta a aurora
No róseo leito;
E toda a terra
Amor respira:
– De tua lira
Mágico efeito!
E quando a tarde
Meiga e amorosa
Com mão saudosa
Desdobra os véus,
Tua harpa aérea
Doce gemendo
Lhe vai dizendo
Um terno adeus!
Sentado às vezes no alcantil dos montes,
Másculos sons das cordas arrancando
A tempestade invocas,
E à tua voz os aquilões revoltos
A desfilada ruem,
E em seu furor uivando encarniçados
Lutam, forcejam, como se tentassem
Arrancar pelas bases a montanha!
Alarido infernal atroa as selvas,
No monte ronca a turva catadupa,
Que por sombrios antros despenhada
Ruge tremendo no profundo abismo;
Ígneo surco em súbitos lampejos
Fende a lúgubre sombra, – estala o raio,
E os ecos pavorosos ribombando
As celestes abóbadas atroam;
E a tempestade as asas rugidoras
De monte a monte estende,
E do trovão, do raio
A voz ameaçadora,
A fúria atroadora
Dos euros turbulentos,
Das selvas o rugido,
Da catarata o ronco,
O baque de alto tronco,
A luta de mil ventos,
Dos vendavais revoltos
Os pávidos bramidos,
Dos combros aluídos
O hórrido fracasso,
E do bulcão, que abre
A rúbida cratera,
A voz, que estruge fera
Nas solidões do espaço,
Do rábico granizo
O estrondo, que sussurra
Nas broncas serranias,
E o ribombar das vagas
Nas ocas penedias,
E todo esse tumulto,
Que em música horrorosa
Troa, abalando os eixos do universo,
São ecos de tua harpa majestosa!!
Porém silêncio, ó gênio, – não mais
vibres
As bronzeas cordas, em que bramam raios,
pregoeiros da cólera celeste:
Mostra-me o céu brilhando azul e calmo
Como a alma do justo, e sobre a terra
Estende o manto amigo do sossego.
Deixa errar tua mão nos áureos fios,
Onde sóis desferir moles cantigas
A cujos sons se embala a natureza
Em êxtase suave adormecida.
E solta a sussurrar por entre as flores
Inquieto bando de lascivos zéfiros:
Que por seu meigo hálito afagada
A selva balanceie harmoniosa
Sua virente cúpula, exalando
Entre perfumes namorados quebros,
E de sinistras névoas destoucando-se
No diáfano azul dos horizontes
Banhados de luz meiga, os montes surdam.
Quando sem nuvens, plácida, festiva,
Tão bela assim, resplende a natureza,
Me parece que Deus do excelso trono
Um sorriso de amor à terra envia,
E corno nesses dias primitivos,
Lá quando ao sopro seu onipotente
Formosa a criação do caos surgia,
Nas obras suas se compraz ainda.
Vem pois, Anjo canoro do deserto,
Desta harpa a Deus fiel roça em teu vôo
As fibras sonorosas,
E delas fuja um hino harmonioso
Digno de unir-se aos místicos concertos,
Que ecoam nas esferas,
Hino banhado nas ardentes ondas
De santo amor, – que com sonoras asas
Em torno a Deus sussurre.
Erga-se a minha voz, inda que débil,
Qual ciciar da cana, que palpita
Ao sopro de uma aragem!...
Queime-se todo o incenso de minh'alma,
E em ondas aromáticas se expanda
Aos pés do Onipotente!...
Que tens, donzela, que tão triste pousas
Na branca mão a fronte pensativa,
E sobre os olhos dos compridos cílios
O negro véu desdobras?
Que sonho merencório hoje flutua
Sobre essa alma serena, que espelhava
A imagem da inocência?
Ainda há pouco eu via-te na vida,
Qual entre flores douda borboleta,
Brincar, sorrir, cantar...
E nos travessos olhos de azeviche,
De vivos raios sempre iluminados,
Sorrir doce alegria!
Branco lírio de amor aberto apenas,
Em cujo puro seio brilha ainda
A lágrima da aurora,
Acaso sentes já nos tenros pétalos
O nímio ardor do sol crestar-te o viço,
Vergar-te o frágil colo?
.............................................................
.............................................................
Agora acordas do encantado sono
Da descuidada prazenteira infância,
E o anjo dos amores
Em torno meneando as plumas d'ouro,
Teu seio virginal com as asas roça;
E qual macia brisa, que esvoaça
Roubando à flor o delicado aroma,
Vem roubar-te o perfume da inocência!..
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram,
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
Com sonhos que envolvem-te em doce tristeza
De vago cismar:
São nuvens ligeiras, tingidas de rosa,
Que pairam nos ares, a aurora enfeitando
De gala formosa.
É bela essa nuvem de melancolia
Que em teus lindos olhos desmaia o fulgor,
E as rosas das faces em lírios transforma
De meigo palor.
Oh! que essa tristeza tem doce magia,
Qual luz que esmorece lutando co'as sombras
as vascas do dia.
É belo esse encanto do afeto primeiro,
Que assoma envolvido nos véus do pudor,
E ondeja ansioso no seio da virgem
Que cisma de amor.
Estranho prelúdio de mística lira,
A cujos acentos o peito afanoso
Se agita e suspira.
Com sonhos dourados, que os anjos te inspiram
Embala, ó donzela, teu vago pensar,
São castos mistérios de amor, que no seio
Te vêm murmurar:
Sim, deixa pairarem na mente esses sonhos,
São róseos vapores, que os teus horizontes
Enfeitam risonhos:
São vagos anelos... mas ah! quem te dera
Que nesses teus sonhos de ingênuo cismar
A voz nunca ouvisses, que vem revelar-te
Que é tempo de amar.
Pois sabe, ó donzela, que as nuvens de rosa,
Que pairam nos ares, às vezes encerram
Tormenta horrorosa.
Poesia oferecida a meu amigo
o Sr. A. G. G. V. C.
Salve, estrela solitária,
Que brilhas sobre esse monte,
Tímida luz maviosa
Derramando no horizonte.
Eu amo teu manso brilho
Quando lânguido se esbate,
Pelos campos cintilando,
De relva em úmido esmalte;
Quando trêmula argenteias
Um lago límpido e quedo,
Quando infiltras meigos raios
Pelas ramas do arvoredo.
Pálida filha da noite,
Sempre és pura e maviosa;
Fulge-te o rosto formoso
Qual branca orvalhada rosa.
Eu amo teu manso brilho,
Que como olhar amoroso,
Vigilante à noite se abre
Sobre o mundo silencioso,
Ou como um beijo de paz,
Que o céu sobre a terra envia,
Na face dela espargindo
Silêncio e melancolia.
Salve, ó flor do etéreo campo,
Astro de meigo palor!
Tu serás, formosa estrela,
O fanal do meu amor.
Neste mundo, que alumias
Com teu pálido clarão,
Existe um anjo adorável
Digno de melhor mansão.
Muitas vezes a verás
Sõzinha e triste a pensar,
E seus lânguidos olhares
Com teus raios se cruzar.
Nas faces a natureza
Lhe esparziu leve rubor,
Mas a fronte lisa e calma
Tem dos lírios o palor.
Mais que o ébano brunido
Lhe fulge a madeixa esparsa,
E cos anéis lhe sombreia
O níveo colo de garça.
Nos lábios de carmim vivo,
Rara vez paira um sorriso;
Não pode sorrir na terra,
Quem pertence ao paraíso.
Seus olhos negros, tão puros
Como o teu puro fulgor,
São fontes, onde minh'alma
Vai abrevar-se de amor.
Se a este mundo odioso,
Onde me langue a existência,
Me fosse dado roubar
Aquele anjo de inocência;
E nesses orbes que giram
Pelo espaço luminoso,
Pra nosso amor escolher
Um asilo mais ditoso...
Se eu pudesse a ti voar,
Astro de meigo palor,
E com ela em ti viver
Eterna vida de amor...
Se eu pudesse... Oh! vão desejo,
Que me embebe em mil delírios,
Quando assim de noite cismo
À luz dos celestes círios!
Porém ao menos um voto
Vou fazer-te, ó bela estrela,
À minha súplica atende,
Não é por mim, é por ela;
Tu, que és o astro mais belo
Que gira no azul do céu,
Sê seu horóscopo amigo,
Preside ao destino seu.
Leva-a sobre o mar da vida
Embalada em sonho ameno,
Como um cisne, que desliza
À flor de um lago sereno.
Se diante dos altares
Curvar os joelhos seus,
Dirige-lhe a prece ardente
Direito ao trono de Deus.
Se solitária cismar,
No mais brando raio teu
Manda-lhe um beijo de amor;
E puros sonhos do céu.
Veja sempre no horizonte
Tua luz serena e mansa,
Como um sorriso do céu,
Como um fanal de esperança.
Porém se o anjo celeste
Sua origem deslembrar,
E no lodo vil do mundo
As níveas asas manchar;
Ai! se louca profanando
De um puro amor a lembrança,
Em suas mãos sem piedade
Esmagar minha esperança,
Então, estrela formosa,
Cubra-te o rosto um bulcão
E sepulta-te para empre
Em perpétua escuridão!
Quæ sint, quæ fuerint, quæ sunt ventura, trahentur.
(Virgílio.)
Ao ermo, ó musa: – além daqueles montes,
Que, em vaporoso manta rebuçados,
Avultam Já na extrema do horizonte...
Eia, vamos; – lá onde a natureza
Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,
Qual moça indiana, que as ingênuas graças
Em formosa nudez sem arte ostenta!...
Lá onde a solidão ante nós surge,
Majestosa e solene como um templo,
Em que sob as abóbadas sagradas,
Inundadas de luz e de harmonia,
Êxtase santo paira entre perfumes,
E se ouve a voz de Deus. – Ó musa, ao ermo!...
Como é formoso o céu da pátria minha!
Que sol brilhante e vívido resplende
Suspenso nessa cúpula serena!
Terra feliz, tu és da natureza
A filha mais mimosa; – ela sorrindo
Num enlevo de amor te encheu d'encantos,
Das mais donosas galas enfeitou-te;
Beleza e vida te espargiu na face,
E em teu seio entornou fecunda seiva!
Oh! paire sempre sobre os teus desertos
Celeste bênção; bem-fadada sejas
Em teu destino, ó pátria; – em ti recobre
A prole de Eva o Éden que perdera!
Olha : – qual vasto manto que flutua
Sobre os ombros da terra, ondeia a selva,
E ora surdo murmúrio ao céu levanta,
Qual prece humilde, que no ar se perde,
Ora açoutada dos tufões revoltos,
Ruge, sibila, sacudindo a grenha
Qual hórrida bacante : – ali despenha-se
Pelo dorso do monte alva cascata,
Que, de alcantis enormes debruçada,
Em argentea espadana ao longe brilha,
Qual longo véu de neve, que esvoaça,
Pendente aos ombros de formosa virgem,
E já, descendo a colear nos vales,
As plagas fertiliza, e as sombras peja
D'almo frescor, e plácidos murmúrios...
Ali campinas, róseos horizontes,
Límpidas veias, onde o sol tremula,
Como em dourada escama refletindo
Flóreas balsas, colinas vicejantes,
Toucadas de palmeiras graciosas,
Que em céu límpido e claro balanceiam
A coma verde-escura. – Além montanhas,
Eternos cofres d'ouro e pedraria,
Coroados de píncaros rugosos,
Que se embebem no azul do firmamento!
Ou se te apraz, desçamos nesse vale,
Manso asilo de sombras e mistério,
Cuja mudez talvez jamais quebrara
Humano passo revolvendo as folhas,
E que nunca escutou mais que os arrulhos
Da casta pomba, e o soluçar da fonte...
Onde se cuida ouvir, entre os suspiros
Da folha que estremece, os ais carpidos
Dos manes do Indiano, que inda chora
O doce Éden que os brancos lhe roubaram!...
Que é feito pois dessas guerreiras tribos,
Que outrora estes desertos animavam?
Onde foi esse povo inquieto e rude,
De bronzea cor, de torva catadura,
Com seus cantos selváticos de guerra
Restrugindo no fundo dos desertos,
A cujos sons medonhos a pantera
Em seu covil de susto estremecia?
Oh! floresta – que é feito de teus filhos?
Dorme em silêncio o eco das montanhas,
Sem que o acorde mais o rude acento
Das guerreiras inúbias : – nem nas sombras
Seminua, do bosque a ingênua filha
Na preguiçosa rede se embalança.
Calaram-se para sempre nessas grutas
Os proféticos cantos do piaga;
Nem mais o vale vê esses caudilhos,
Seus cocar na fronte balançando,
Por entre o fumo espesso das fogueiras,
Com sombrio lentor tecer, cantando,
Essas solenes e sinistras danças,
Que o festim da vingança precediam.....
Por esses ermos não vereis pirâmides
Nem mármores, nem bronzes, que assinalem
Nas eras do porvir feitos de glória;
Da natureza os filhos não sabiam
Aos céus erguer soberbos monumentos,
E nem perpetuar do bardo os cantos,
Que celebram façanhas do guerreiro,
– Esses fanais, que acende a mão do gênio,
E vão no mar infindo das idades
Alumiando as trevas do passado.
Seus insepultos ossos alvejando
Aqui e além nos solitários campos,
Rotos tacapes, ressequidos crânios,
Que estalam sob os pés de errante gado,
As tabas em ruína, e os mal extintos
Vestígios das ocaras, onde o sangue
Do vencido corria em largo jorro
Entre as pocemas de feroz vingança,
Eis as relíquias que recordam feitos
Do forte lidador da rude selva.
De virgem mata a sussurrante cúpula,
Ou gruta escura, disputada às feras,
Ou frágil taba, num momento erguida,
Desfeita no outro dia, eram bastantes
Para abrigar o filho do deserto;
No carcás bem provido repousavam
De todo o seu porvir as esperanças,
Que suas eram da floresta as aves,
E nem lhes nega o córrego do vale,
Límpido jorro que lhe estanque a sede.
No sol, fonte de luz e de beleza,
Viam seu Deus, prostrados o adoravam,
Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,
Sua única lei – na liberdade.
Oh! floresta, que é feito de teus filhos?
Esta mudez profunda dos desertos
Um crime – bem atroz! – nos denuncia.
O extermínio, o cativeiro, a morte
Para sempre varreu de sobre a terra
Essa mísera raça, – nem ficou-lhes
Um canto ao menos, onde em paz morressem!
Como cinza, que os euros arrebatam,
Se esvaeceram, – e do tempo a destra
Seus nomes mergulho no esquecimento.
Mas tu, ó musa, que piedosa choras,
Curvada sobre a urna do passado,
Tu, que jamais negaste ao infortúnio
Um canto expiatório, eia, consola
Do pobre Indiano os erradios manes,
E sobre a inglória cinza dos proscritos
Com teus cantos ao menos uma lágrima
Faze correr de compaixão tardia.
Ei-lo, que vem, de ferro e fogo armado,
Da destruição o gênio formidável,
Em sua fatal marcha devastando
O que de mais esplêndido e formoso
Alardeia no ermo a natureza;
Que nem somente o íncola das selvas
De seu furor foi vítima; – após ele
Rui também a cúpula virente,
Único abrigo seu, – sua riqueza.
Esta trêmula abóbada, que ruge
Por seculares troncos sustentada,
Este silêncio místico, estas sombras,
Que agora me derramam sobre a fronte
Suave inspiração, cismar saudoso,
Vão em breve morrer ; – lá vem o escravo,
Brandindo o ferro, que dá morte às selvas,
E – afanoso – põe peito à ímpia obra: –
Já o tronco, que os séculos criaram,
Ao som dos cantos do africano adusto
Geme aos sonoros, compassados golpes,
Que vão nas brenhas ressoando ao longe;
Soa o último golpe, – range o tronco,
O tope excelso trêmulo vacila,
E desabando com gemido horrendo
Restruge qual trovão de monte em monte
Nas solidões profundas reboando.
Assim vão baqueando uma após outra
Da floresta as colunas venerandas;
E todas essas cúpulas imensas,
Que inça há pouco no céu balanceando,
A sanha dos tufões desafiavam,
Aí jazem, como ossadas de gigantes,
Que num dia de cólera prostrara
O raio do Senhor.
Oh! mais terrível
Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio
Vem consumar essa obra deplorável.....
Qual hidra formidável, no ar exalça
A crista sanguinosa, sacudindo
Com medonho rugido as ígneas asas,
E negros turbilhões de fumo ardente
Das abrasadas fauces vomitando,
Em hórrido negrume os céus sepulta.....
Estala, ruge, silva, devorando
Da floresta os cadáveres gigantes;
Voam sem tino as aves assustadas
No ar soltando pios lamentosos,
E as feras, em tropel tímidas correm,
A se embrenhar no fundo dos desertos,
Onde vão demandar nova guarida.....
Tudo é cinza e ruína: – adeus, ó sombra,
Adeus, murmúrio, que embalou meus sonhos,
Adeus, sonoro frêmito das auras,
Sussurros, queixas, suspirosos ecos,
Da solidão misterioso encanto!
Adeus! – Em vão a pomba esvoaçando
Procura um ramo em que fabrique o ninho;
Em vão suspira o viajor cansado
Por uma sombra, onde repouse os membros
Repassados do ardor do sol a pino!
Tudo é cinza e ruína, – tudo é morto!!
E tu, ó musa, que amas o deserto
E das caladas sombras o mistério,
Que folgas de embalar-te aos sons aéreos
D’almas canções, que a solidão murmura,
Que amas a criação, qual Deus formou-a,
– Sublime e bela – vem sentar-te, ó musa,
Sobre estas ruínas, vem chorar sobre elas.
Chora com a avezinha, a quem roubaram
O ninho seu querido, e com teus cantos
Procura adormecer o férreo braço
Do impróvido colono, que semeia
Somente estragos neste chão fecundo!
Mas, não te queixes, musa; – são decretos
Da eterna providência irrevogáveis!
Deixa passar destruição e morte
Nessas risonhas e fecundas plagas,
Como charrua, que revolve a terra,
Onde terminam do porvir os frutos.
O homem fraco ainda, e que hoje a custo,
Da criação a obra mutilando,
Sem nada produzir destrui apenas,
Amanhã criará; sua mão potente,
Que doma e sobrepuja a natureza,
Há de imprimir um dia forma nova
Na face deste solo imenso e belo:
Tempo virá em que nessa valada
Onde flutua a coma da floresta,
Linda cidade surja, branquejando
Como um bando de garças na planície;
E em lugar desse brando rumorejo
Aí murmurará a voz de um povo;
Essas encostas broncas e sombrias
Serão risonhos parques suntuosos;
E esses rios, que vão por entre sombras
Ondas caudais serenos resvalando,
Em vez do tope escuro das florestas,
Refletirão no límpido regaço
Torres, palácios, coruchéus brilhantes,
Zimbórios majestosos, e castelos
De bastiões sombrios coroados,
Esses bulcões da guerra, que do seio
Com horrendo fragor raios despejam.
Rasgar-se-ão os serros altaneiros,
Encher-se-ão dos vales os abismos:
Mil estradas, qual vasto labirinto,
Cruzar-se-ão por montes e planuras;
Curvar-se-ão os rios sob arcadas
De pontes colossais; – canais imensos
Virão surcar a face das campinas,
E estes montes verão talvez um dia,
Cheios de assombro, junto às abas suas
Velejarem os lenhos do oceano!
Sim, ó virgem dos trópicos formosa,
Nua e singela filha da floresta,
Um dia, em vez da simples arazóia,
Que mal te encobre o gracioso talhe,
Te envolverás em flutuantes sedas,
E abandonando o canitar de plumas,
Que te sombreia o rosto cor de jambo,
Apanharás em tranças perfumadas
A coma escura, e dos donosos ombros
Finos véus penderão. Em vez da rede,
Em que te embalas da palmeira à sombra,
Repousarás sobre coxins de púrpura,
Sob dosséis esplêndidos. – Ó virgem,
Serás então princesa, – forte e grande,
Temida pelos príncipes da terra;
E de brilhante auréola cingida
Sobre o mundo alçarás a fronte altiva!
Mas, quando em tua mente revolveres
As memórias das eras que já foram,
Lá quando dentro d’alma despertares
Do passado lembranças quase extintas,
Dos bosques teus, de tua rude infância
Talvez terás saudade.
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