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Histórias e Tradições da Província de Minas Gerais

bernardo guimarães

A cabeça do Tiradentes
Tradição mineira

Quereis, minhas senhoras, que vos conte uma história para disfarçar o enfado destas longas e frigidíssimas noites de maio? Mas, por melhor que seja a minha vontade, não sei, como possa satisfazer ao vosso pedido... digo mal, – cumprir as vossas ordens.

Este frio enregela-me as asas da imaginação; este vento glacial, que uiva pelos telhados, como uma matilha de cães danados, estes guinchos de corujas, que parecem lamentos de precitos, fazem a inspiração recolher-se toda encolhida aos mais íntimos esconderijos do crânio, tiritando de frio e de medo.

A falar-vos verdade, minhas senhoras, tenho o espírito tão seco e estéril, como a caveira de um defunto enterrado há cem anos.

Ah! falei-vos em caveira!...

E não é, que esta idéia de caveira veio despertar-me a reminiscência entorpecida pelo frio?! Foi como a vara mágica de Moisés, que fez rebentar água em jorros da aridez do rochedo do deserto.

E pois vou contar-vos a história de uma caveira memorável.

Não se arrepiem, minhas senhoras; não é história de almas do outro mundo, de trasgos, nem de duendes.

É uma simples tradição nacional, ainda bem recente, e da nossa própria terra.

Essa história eu a poderia intitular:

História de uma Cabeça Histórica

Era pelos fins do século passado; em 178...

Nesse tempo, esta capital de Minas, que então com justa razão tinha o nome de Vila Rica, era opulenta e populosa, como bem poucas cidades se podiam contar no Brasil.

Os governadores e fidalgos dessa época rodavam em ricas carruagens tiradas por possantes mulas por essas ladeiras, onde hoje só rincham pesados carros puxados a bois.

Havia quase sempre curros ou touradas, e cavalhadas magníficas; procissões de esplendor e riqueza deslumbrantes; espetáculos teatrais, em que a arte suntuosamente protegida pelos governadores era cultivada com 1 esmero no gosto da época; uma literatura própria, se bem que um tanto abastardada pela imitação do classicismo lusitano, literatura de que foram dignos representantes nomes até hoje célebres.

Gonzaga, Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa são glórias, que nunca mais se eclipsarão.

Havia regozijos e festas de toda a espécie, muito luxo, comércio interior ativo, e o povo nadava na abundância.

E tudo isso por quê? Porque naquela época o ouro por essas montanhas como que brotava à flor da terra.

O ouro era tão abundante, que os próprios pretos cativos, com as migalhas que escapavam das lavras de seus senhores, edificaram mais de um templo magnífico, que até hoje aí estão, e as pretas, quando iam às suas festas costumeiras, polvilhavam a carapinha com areia de ouro.

Mas em contraposição a tudo isso, o povo gemia debaixo da mais vil, da mais infamante escravidão.

O bem-estar material era grande; mas a degradação moral era profunda.

Ali sobre aquele morro se erguia o vulto sinistro e ameaçador da forca, que nunca se desarmava, e em que a um simples aceno da tirania, apenas com uma aparente forma de processo, se imolava tanto o criminoso como o inocente.

Acolá, no meio daquela praça pública, em face de um templo cristão, – como um sarcasmo vivo, – até bem pouco tempo se achava alçado o pelourinho, ainda mais infamante, em que o cidadão era azorragado publicamente, como o mais vil escravo.

Os capitães-mores também de sua parte castigavam arbitrariamente com açoutes, com o tronco e até com a palmatória as mais leves faltas de seus governados.

O ouro extraído das minas pelo braço do povo era na sua maior parte destinado a alimentar o luxo e a cobiça de seus opressores.

Minas, bem como o Brasil inteiro, era bem como uma vasta fazenda explorada em proveito da metrópole.

O povo era uma turma de escravos, que trabalhavam debaixo do azorrague de seus feitores, – os governadores, capitães-mores, guardas-mores etc.

A fazenda prosperava; mas os escravos indóceis começavam a se enfadar de arroteá-la só para benefício de seus senhores.

II

E nessa época de riqueza e opulência, de servilismo e degradação social, no meio da praça principal desta cidade se via uma cabeça humana dessecada, cravada sobre um alto poste.

Este poste e esta cabeça eram noite e dia guardados por uma sentinela.

E à noite uma lanterna se acendia para alumiar o lúgubre espetáculo.

Havia dois ou três anos que este sinistro padrão da mais brutal e feroz tirania existia ali hasteado.

E por que razão esse cuidado em conservar ali tão guardado, tão vigiado, aquele triste e miserando resto de uma vítima há tanto tempo sacrificada?...

Para que aquela sentinela ali postada constantemente dia e noite?...

Temiam acaso que aquele crânio oco e ressequido onde há tanto tempo se extinguira a vida e o pensamento, de novo se reanimasse, e reunindo-se ao tronco esquartejado e esparso, desse outra vez o sinal da revolta ao povo oprimido?...

Ou receavam que esse crânio, hasteado na ponta do estandarte da emancipação, fosse o sinal certo da queda dos tiranos e do triunfo da liberdade, como esse célebre tambor que os soldados húngaros fizeram da pele de seu bravo chefe Ziska, morto no campo da batalha, tambor que quando rufava à frente deles, era seguro prenúncio da vitória? Pobre Tiradentes!... ainda que não fosse tão nobre e santa a causa por que te imolaste, a morte afrontosa que sofreste, e a crueldade, direi asquerosa, com que profanaram teus miserandos restos, eram motivos bastantes para abençoarmos tua memória e execrarmos a de teus algozes.

III

Era uma noite tenebrosa, horrenda, como essa que aí vai correndo.

Impetuosa ventania, zunindo pelos tetos da antiga e opulenta Vila Rica submersa no sono e no silêncio, impelia pelos ares camadas e camadas de espessa e frigidíssima neblina, e fazendo oscilar sobre seu poste a caveira do mártir da liberdade com sinistro estrépito, agitava-lhe os compridos cabelos castanhos ainda aderentes ao crânio.

Parecia que aquela cabeça heróica, bafejada pelo sopro da liberdade que rugia das montanhas, em seu fúnebre oscilar ameaçava ainda os tiranos, e lhes predizia a próxima ruína.

O pálido clarão da lanterna, que balouçava ao vento, ondulava lúgubre sobre a ossada branquicenta, desenhando ao vivo as cavidades negras dos olhos e a dentadura amarelada.

O pobre sentinela, talvez considerando que estava de guarda a um crânio ressequido que a ninguém podia fazer mal, e que longe de excitar a cobiça, só poderia inspirar horror, o sentinela sentado no hão, recostado sobre uma pedra, e com a arma sobre os joelhos, deixava-se furtar do sono.

Um vulto todo rebuçado surge por entre as trevas, e se aproxima cautelosamente do tremendo poste.

Com uma comprida vara que trazia, faz saltar do poste a caveira, apanha-a rapidamente, e de novo desaparece com o favor das trevas e do nevoeiro.

Tudo isto foi feito com tal presteza, que quando o guarda, despertado pelo som rouco da caveira ao cair, deu fé do ocorrido, já era tarde. Viu apenas uma sombra engolfar-se e desaparecer através do nevoeiro.

Um instante depois o relógio da cadeia badalava meia-noite.

O guarda contou que um fantasma de fogo, esvoaçando pelos ares, havia roubado o crânio, e desaparecera nas nuvens.

As sentinelas da cadeia atestaram o fato e o guarda do poste foi acreditado, e não sofreu castigo.

Não era mesmo para acreditar que o anjo do Brasil viesse reivindicar aquela relíquia veneranda do mártir da liberdade?...

IV

Conheceis essa comprida rua, que na extremidade ocidental desta cidade se estende isolada por uma encosta acima, como a cauda de um lagarto.

Chama-se a rua das Cabeças.

A origem desse nome sinistro vem de que aí se fincavam na ponta de estacas as cabeças dos míseros enforcados pelas esquinas dos becos.

– Para servir de exemplo e escarmento aos povos – diziam os tiranos.

Mas os fatos vieram depois comprovar-lhes, que erravam, procedendo assim.

No alto dessa rua, não há muitos anos, existia ainda um velho de vida misteriosa e retraída, a quem o povo olhava com respeito e curiosidade.

Vivendo sozinho em uma casa quase arruinada, comunicando-se raras vezes com seus semelhantes e só em caso de necessidade, parecia um anacoreta ou um homem possuído de singular monomania.

Entretanto os curiosos, que nunca faltam nas cidades, espiolhando um dia pelas fendas das arruinadas paredes da morada do velho, devassaram um singularíssimo segredo de sua vida íntima.

Viram-no abrir com ar de religioso respeito a portinhola de um nicho ou de um armário praticado na parede, tirar dele um crânio humano branco e mirrado, depô-lo silenciosamente sobre uma mesa colocada em frente a um oratório, e ajoelhando-se depois com os braços encostados sobre a mesa, assim ficar por largo tempo, em atitude de profunda meditação, ou no êxtase de uma oração.

Mas esta descoberta, como bem se pode ver, em nada veio dissipar o mistério que pairava sobre a vida do velho. Pelo contrário vinha ainda rodeá-la de mais um sinistro prestígio, e em vez de acalmar a curiosidade do povo, concorreu para mais excitá-la.

Que crânio seria esse, que o velho guardava, e parecia venerar com religioso acatamento? Seria relíquia de algum ente amado? Seria o velho algum assassino, que em expiação de seu crime queria ter sempre diante de si o crânio da sua vítima para lacerar continuamente a consciência com o cilício do remorso?...

Seria algum cenobita imitador de S. Jerônimo, que tinha sempre diante de seus olhos uma caveira humana a fim de conservar de contínuo presente ao espírito o nada da existência? A maior parte do povo porém ficou tendo o pobre velho por um grande feiticeiro, e por isso tinha-lhe medo e o respeitava.

Assim pois, descobrindo aquele segredo da vida do velho ainda a tornaram mais misteriosa e quase sinistra.

Pouco tempo depois morreu o velho, foi pobremente enterrado no adro relvado da capela do Senhor Bom Jesus, sita na mesma rua, e sua casa tombando em ruínas, ficou abandonada, pois se já em vida de seu dono era objeto de terror para o povo, muito mais o ficou sendo depois de seu falecimento.

Não foi senão alguns anos depois, que se veio no conhecimento, de que o velho misterioso não era outro senão o ousado roubador da cabeça do Tiradentes, e que a caveira, que com tão religioso cuidado guardava e venerava, era a daquele ilustre e desditoso mártir do primeiro movimento emancipador.

Contou depois isto alguém, que era o único depositário do segredo do velho, e que por ignorância ou indiferença ligava pouca importância a um fato tão curioso.

Que é feito porém desse crânio histórico, que tão generosos pensamentos abrigou outrora em seu seio? Quereria seu possuidor em sua fanática veneração pela liberdade e por aquela relíquia do seu principal mártir, que ela fosse com ele enterrada, e seria cumprida a sua última vontade? Ou ficaria essa relíquia, – digna de ser encerrada em uma urna de ouro, – calcada debaixo dos entulhos das paredes esboroadas da habitação do velho?...

Ninguém o sabe.

Os fatos, que acabo de narrar, posto que pouco conhecidos, são tradicionais.

Perguntem aos velhos, e mesmo a alguns moços mais curiosos, das coisas antigas da nossa terra, e se convencerão de que esta história não é de minha lavra.

Ouro Preto, maio de 1867.

A filha do fazendeiro
Introdução

A cinco ou seis léguas ao norte da cidade de Uberaba na província de Minas Gerais se via ainda há alguns anos uma capelinha isolada ou ermida no alto de um espigão, dominando por todos os lados um largo e risonho horizonte como atalaia imóvel olhando em derredor as solidões. Era uma pequenina e tosca construção de madeira com quatro paredes, coberta de telha e coroada por uma cruz, como se encontram muitas disseminadas por esses vastos sertões.

Essas capelinhas têm de ordinário junto a si um cercado de pedra ou de madeira, que serve de cemitério aos fazendeiros vizinhos. Quando se diz – vizinho – naquelas paragens, e principalmente em eras mais remotas, entende-se moradores de cinco, seis, sete e mais léguas em redor.

A capelinha, a que nos referimos, tinha também junto a si o seu terreno sagrado, cercado de muro de pedra, e com uma cruz no meio, e era ali, que os fazendeiros daqueles contornos mandavam enterrar os seus defuntos, para se forrarem ao trabalho de mandá-los viajar dezenas de léguas levando-os aos povoados onde houvesse cemitérios sagrados. Esta, porém, não foi erigida especialmente para esse fim, como se verá pelo decurso desta história.

Do alto da capelinha enxergava-se em distância de cerca de meia légua em um aprazível vargedo a fachada denegrida arruinada de uma grande fazenda, com seus vastos currais, senzalas, moinho e engenho de cana, mas tudo a desmoronar-se, tudo abafado entre o matagal, que começava a tomar conta do terreno com a vigorosa e luxuriante vegetação, que há naquelas regiões. A fazenda achava-se situada ao pé de um lançante entre duas vertentes orladas de filas de coqueiros chamados buritis, cujas linhas se perdiam na imensidade dos horizontes como fileira de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapadões. As terras de cultura ou matos de plantio eram mais longe, nas escuras matas, que acompanham as margens de um ribeirão, que vai desaguar no Rio das Velhas.

A algumas centenas de passos além da capelinha havia à beira do caminho uma cruz de pau toscamente lavrado, e via-se claramente que ali havia uma sepultura. Existindo ali tão perto uma capela e um recinto sagrado para se enterrarem os mortos, por que razão fora ali sepultado aquele corpo, assim segregado dos outros hóspedes do túmulo? Aquele lugar tinha reputação de mal-assombrado, e agente daqueles contornos, que bem sabe disso, evita o mais que pode passar por ali depois de noite fechada. Um, que por desgraça teve de passar por lá a desoras, quase que lá ficou morto de medo fazendo companhia ao enterrado. Con-tou, que vira sobre a sepultura levantar-se um fantasma monstruoso, o qual depois de exalar um gemido prolongado e lamentoso como o uivo de um cão, arrebentou dando um estouro como de um tiro, e desmanchou-se em línguas de fogo vivo, que passearam por algum tempo por cima da sepultura, e sumiram-se um momento depois.

Se o leitor deseja saber que acontecimentos deram lugar ao abandono daquela linda fazenda, e qual o mistério que encerram aquela sepultura e aquela capelinha, leia a seguinte história, que há tempos me foi contada por um morador daquelas paragens, e que eu tratarei de reproduzir com toda a fidelidade e individuação, que a memória me permitir.

Capítulo 1
A caçada de onça

Estava-se abrindo uma vasta roça no meio de uma mata virgem na fazenda de que acabamos de falar; isto há de haver mais de quarenta anos. Era ocasião da derribada; a foice já tinha ceifado e desbastado o mato miúdo, as taquaras e cipós, que emaranhavam a floresta. Os troncos robustos e colossais da peroba, da canjerana, da paineira, do cedro e do ipê ostentavam-se nus, e campeavam desafogados aqui e acolá, como colunas que ficaram em pé de um templo cujos tetos e paredes desabaram. Mas era mister também deitar por terra esses gigantes de vegetação, que com suas cúpulas imensas ensombravam o terreno da plantação, e roubavam a seiva ao solo. Contra cada um deles investiam dois ou três vigorosos e truculentos negros brandindo pesados e possantes machados. Nus da cintura para cima luziam-lhes as espáduas musculosas banhadas em suor aos ardentes raios do sol de agosto. Os golpes do machado restrugiam compassados pela encosta ao som da cantiga monótona do africano. De tempos a tempos ouvia-se um rangido horrendo; um rápido e passageiro tufão atravessava uivando a floresta, e a terra estremecia ao medonho estrugido de um tronco, que baqueava no meio da grita e alarido dos rudes trabalhadores.

Ao pé da encosta, onde se fazia a roçada, e à beira de um pequeno córrego havia um rancho ou coberta de capim de beira no chão, como os há em todas as roças, onde se preparava a comida para os escravos, e que lhes servia de guarida contra os temporais.

Enquanto no interior do rancho uma escrava preparava comida dos trabalhadores, assentada à porta se via uma alva e delicada figura, que contrastava singularmente com a bronca e selvática perspectiva de tudo que a rodeava. Era uma menina de dezesseis ou dezessete anos, alva, esbelta, e de compridos cabelos castanhos.

Tinha no regaço uma peneira, em que estava limpando o arroz, que tinha de servir ao jantar. Os pés encruzados pousavam sobre umas tamanquinhas de marroquim vermelho, e a saia do vestido cor de rosa meio apanhada deixava ver as extremidades das alvas e mimosas pernas. Por causa da intensa calma descera o corpinho do vestido, e assim sem xale e em mangas de camisa quase que se lhe viam nus os seios, que arfavam puros e castos como os de Raquel, quando ia dar de beber ao rebanho na cisterna, onde encontrou Jacó.

Seria impudicícia um tal desalinho em outro lugar, e em outra qualquer criatura; mas cobria-a o véu da inocência, e o recato da solidão. De quando em quando erguia a cabeça e sacudia para trás dos ombros as longas e bastas madeixas, que importunas lhe caíam pelas faces a tapar-lhe os olhos e estorvar-lhe o serviço em que se ocupava, e então deixava ver um lindíssimo oval ornado pela mais graciosa boca e os mais magníficos olhos que se podem imaginar. A todos esses encantos, dava esplêndido realce o vivo rubor, com que o mormaço de um sol ardente lhe afogueava as faces.

Cairia por acaso do céu naquele bronco sítio à entrada do pobre rancho essa estátua de marfim, tão alva, tão delicada, digna de pousar sobre pedestal de alabastro, e de ser emoldurada entre sanefas de ouro e brocado? Ou acaso um anjo baixara à terra como nos tempos bíblicos a conviver e abrigar-se à sombra da grosseira cabana do homem primitivo? Paulina era a filha do fazendeiro. Filha única e órfã de mãe, gostava de acompanhar seu pai em todos os rudes trabalhos da lavoura do sertão. Por isso enquanto seu pai com um comprido rebenque na mão, calçado de grossas botas de mateiro rompia espinhais e coivaras feitorizando o trabalho da derribada, ela tomava conta do rancho e ajudava a preta rancheira nos misteres da cozinha. Mimosa e delicada como era e não tendo sido criada no meio daquelas fragueiras lides, nem por isso Paulina tinha nada de melindrosa, e se entregava com o maior desembaraço aos mais humildes e grosseiros serviços. Além das perfeições que recebera da natureza, Paulina tinha tido uma educação acurada e a mais completa que naqueles tempos em nosso país se podia dar a uma menina. Ainda em tenros anos tinha sido enviada para um colégio em S. João del-rei, onde a gentil sertaneja recebeu com muito aproveitamento lições de leitura, música, dança, e aprendeu as maneiras de uma sociedade um pouco mais polida do que era a da Uberaba naqueles tempos.

Por morte de sua mãe, a que sucedeu imediatamente a de um irmão único que tinha, seu pai acabrunhado por tão dolorosos golpes, e vendo-se na mais triste soledade, apressou-se em chamá-la para junto de si, pois era ela o único bem que o céu lhe tinha deixado para mitigar a dor de tão sensíveis perdas. Ali na solidão daquela fazenda, todos os dotes que Paulina recebera da natureza e da educação, vieram a tornar-se-lhe inteiramente inúteis. As belas faculdades de que o céu a dotara, e que no colégio começavam a desabrochar com brilho, ali, sem achar expansão alguma, concentravam-se em si mesmas, e Paulina, que tinha muita sensibilidade e imaginação viva, foi-se tornando de um caráter disposto à melancolia e a essas paixões vagas, que ao despontar da puberdade costumam atormentar as organizações poéticas e delicadas. Poucas vezes deixava o retiro de sua fazenda para ir a Uberaba, que aliás naquele tempo era ainda uma insignificante aldeia. A família de um fazendeiro vizinho, seu parente, que morava daí a duas léguas, era a única que de quando em quando vinha interromper com suas visitas a monótona solidão do viver de Paulina. Seu pai bem a induzia a passear mais freqüentemente ao arraial, a ir passar alguns dias em companhia de suas primas. Mas ela parece que não achava muito encanto na companhia das primas nem nas festanças do arraial, e lhes preferia a solidão de sua casa e a companhia de seu velho pai, para quem era toda extremos, e poucas vezes se utilizava dessas permissões. Alguns passarinhos, o cuidado de um pequeno e lindo jardim, alguns livros e seus trabalhos de agulha, bastavam para encher-lhe agradavelmente o tempo.

Havia já alguns minutos que Paulina se achava à entrada do rancho entretida naquele serviço, quando subitamente ergueu a cabeça, sacudiu para trás os compridos cabelos, alongou o colo, e pôs-se a escutar... fazia lembrar o esbelto e arisco colhereiro, que estando a pescar tranqüilamente à borda do lago, ao sentir qualquer rumor alça o colo rosado prestes a bater as asas.

Paulina estava escutando um toque de cães de caça, que vinham descendo pela mata, córrego abaixo, com incrível assanhamento. Os latidos dos cães e a vozeria dos caçadores, que os açulavam, se aproximavam rapidamente atroando a floresta, e era evidente que o animal, fosse qual fosse, que era acossado, vinha acompanhando o córrego, e tinha de saltar no roçado exatamente em frente do rancho, em que se achava Paulina. Ela, posto que algum tanto afeita a essas cenas selváticas, não deixou de amedrontar-se, e correu para dentro do rancho.

– Suzana! Suzana!... gritou ela para a negra, – não ouves?... aquele toque de cachorros?... meu Deus! não vá ser algum bicho bravo!...

– He! ha! santa virgem! murmurou a negra depois de chegar à porta do rancho e escutar um momento. – Aquele toque, sinhazinha, se ele não é de anta, quer me parecer que é de onça. Cachorro não está latindo alegre como quando toca veado, não.

– Ouça, Suzana!... ah! meu Deus! que medo! o que será de nós aqui sozinhas!...

– Não tem susto, sinhazinha; onça não vem cá, não; não está aí tanta gente pra matar ela?...

– Quem sabe, Suzana; – chama meu pai, chama depressa...

– Sossega, sinhazinha; – olha, lá vem eles todos...

De feito o fazendeiro, que ouvira também a tocada dos cães, tinha largado imediatamente o serviço e descia pela encosta acompanhado de alguns escravos armados de foices e machados, e vinham fazer frente ao animal que saltasse da mata.

Um momento depois um enorme animal amarelo malhado de preto surgiu da mata e, rápido como um corisco, saltando pelas coivaras se encaminhava para o lado do rancho, onde nesse mesmo instante chegavam dois possantes e resolutos negros, que o velho mandara a toda a pressa para ficarem junto de Paulina. Os negros, que avistaram a onça, romperam numa horrível gritaria: – É onça! é onça! acode gente!... mata! mata!– Espavorida com aqueles berros a onça estacou um momento.

Ela estava apenas como a uns duzentos passos do rancho; perto se achava um tronco de peroba meio tombado, que ao cair ficara engastalhado na galhada de uma árvore vizinha. A onça pulou nele, e correu a empoleirar-se no ponto mais alto, a que pôde galgar. Os cães, que a perseguiam, desembocavam da mata e se reuniam embaixo do tronco, escalavrando-o com unhas e dentes, e dando saltos e ganidos furiosos. Assalto inútil! a onça passeava mui ancha e sobranceira ao longo do pau, e ora subia até a mais alta grimpa, ora descia até quase ao alcance deles, arreganhando-lhes os dentes como num sorriso feroz a mofar de seus vãos esforços, e apoiando a cabeça enorme sobre as patas dianteiras os contemplava bem de pertinho, e como que os contava um a um em ar de desdém.

Entretanto o fazendeiro acompanhado de seus escravos vinha atropeladamente rompendo através das coivaras, e se aproximava da fera.

Paulina que transida de pavor mal ousava deitar a cabeça fora da portinhola do rancho, em vão bradava com quantas forças tinha: Meu pai! meu pai! por quem é? não vá lá! O velho avizinhou-se intrépido do terrível animal, apontou-lhe direito ao sangrador a espingarda de fiança, que sempre trazia consigo, mas decerto a mão vacilou-lhe, porque tiro apenas pegou de leve na costela da onça. O animal irritado deu um urro medonho, desceu até ao meio do tronco curvou o dorso como cobra que quer dar o bote, pulou por cima de toda a alcatéia de cães, que esganiçando se apinhavam embaixo do pau, correu como uma seta para o lado do rancho, e embarafustou por ele adentro.

Os negros soltaram a um tempo um grito de pavor, e o velho fazendeiro sentiu gelar-se-lhe o coração de susto, as pernas bambearam-lhe, e quase que foi ao chão. Mas o amor paternal sobrepujou o terror, e o pobre velho tropeçando, abalroando e caindo pelos tocos e coivaras correu com a maior celeridade que pôde para o lado do rancho; o mesmo fizeram os escravos, que o acompanhavam. A onça, quando entrara no rancho atropelada e acossada de perto pelos cães, nem de leve tocou, e talvez nem viu as duas criaturas, que lá se achavam; cuidando que ali seria uma toca, onde acharia guarida segura, só tratava de defender-se contra os que a perseguiam.

O rancho tinha somente aquela estreita entrada, onde há pouco Paulina se achava sentada. As duas míseras mulheres não tinham nem para onde correr, pois a onça apoderando-se dessa entrada voltara a frente para fora mostrando a seus perseguidores as alvas e enormes presas, e as formidáveis patas capazes de estrangular um boi. Paulina para logo caiu desfalecida; a negra mais morta que viva recolheu-se toda ao ângulo, que a coberta formava com o chão, como querendo entranhar-se pela terra adentro, tiritando de medo e encomendando a alma a Deus.

Assim pois naquele mesmo lugar em que ainda há pouco se sentava a criatura mais primorosa da terra, um transunto dos anjos do céu, respirando inocência, paz e ventura, alapardava-se agora o mais feroz e hediondo dos seres da criação, com os olhos chamejantes de furor, e as goelas abrasadas em sede de sangue.

Enquanto o fazendeiro com mão trêmula carregava a espingarda, os negros, que não tinham por armas senão foices e machados, hesitavam na maior perplexidade sobre o que deveriam fazer. Atacar a fera sem ter certeza alguma de matá-la de um só golpe, era perigosíssimo; ela podia num momento estraçalhar mais de um, ou o que ainda seria pior, recuando para o interior do rancho voltar sua sanha contra as duas infelizes, que lá se achavam na mais crítica e assustadora situação.

Enquanto os pretos vacilavam, e o amo escorvava espingarda, um cavaleiro a todo o galope rompe da mata, e investe para o rancho, a cuja porta a onça dava combate sanguinolenta aos cães, que ousavam aproximar-se-lhe. Já estava na distância de um tiro de espingarda, quando seu cavalo embaraça-se nas coivaras, e cai. Mas lesto e pronto o cavaleiro salta fora dos arreios, e com uma pistola em cada mão avança resoluto para a onça e desfecha-lhe à queima-roupa um tiro na cabeça. Em dois arrancos o feroz animal arroja-se sobre ele, lança-o por terra, e cai também para um lado estrebuchando e morre.

Nesse momento chegavam já, porém tarde, os outros caçadores, que vieram achar três corpos exânimes, a onça, que expirara, o cavaleiro malferido e banhado em sangue, e Paulina desmaiada. Uma das enormes patas da onça tinha apanhado em cheio o peito do infeliz caçador, e lacerando-lhe cruelmente as carnes o havia derribado no chão sem sentidos.

Uma cuia de água fria lançada na cabeça de Paulina restituiu-lhe prontamente os sentidos, e o consternado pai levantou aos céus as mãos agradecidas chorando de alegria ao ver que felizmente sua filha estava ilesa. Mas o denodado caçador, o intrépido salvador de sua filha, esvaía-se em sangue que jorrava de três largos e fundos lanhos, que as garras do animal lhe haviam aberto no peito, e o velho e todos os mais estavam na mais cruel aflição e desassossego por se acharem naquele ermo tão longe de qualquer recurso. Lavatórios de água fria, fios e ataduras, que eram os meios de que ali se podia lançar mão, nada conseguia estancar o sangue, que corria copioso das feridas. A própria Paulina, a quem o pai em rápidas e animadas palavras contara o ocorrido, já esquecida do seu susto, pálida e consternada se debruçava sobre o corpo exânime do ferido, e rasgando o lenço e a saia do seu vestido fazia atilhos e chumaços, que com suas próprias mãos ia aplicando sobre as feridas.

Felizmente, mais sabido do que todos eles em matéria de curar feridas, um preto velho tinha corrido ao mato, e voltava com um punhado de folhas na mão. Apenas chegou, todos se arredaram para lhe dar lugar. O preto ajoelhou-se perto do ferido, tirou todos os fios e ataduras, e fazendo pantomimas e murmurando palavras cabalísticas, mascou três ou quatro bocados das folhas que trazia, e foi deitando-as sobre as feridas. Em poucos instantes o sangue estava estancado, e o caçador conduzido para o interior do rancho e cuidadosamente deposto sobre uma esteira, em menos de uma hora recobrou os sentidos. Dali forçoso era levá-lo para casa do fazendeiro para ser convenientemente tratado, pois havia perdido muito sangue e seu estado era melindroso.

A onça marrada a um pau pelas quatro patas e carregada aos ombros de dois possantes negros, que gemiam debaixo do peso do truculento animal, e aos lados e atrás dela a cáfila dos cães arquejando de cansaço com as línguas dependuradas, ganindo e uivando com um choro fúnebre; em se-guida o caçador cuidadosamente acomodado em um cobertor, de que armaram uma rede, conduzida por outros dois pretos; atrás dele imediatamente o velho fazendeiro e sua filha pálida e desgrenhada; depois o cavalo do caçador, que um escravo levava pela rédea, e logo em seguida os companheiros de caça do ferido conduzindo igualmente pela rédea suas cavalgaduras, e por fim os escravos do fazendeiro com seus machados ao ombro, rematando como uma guarda de honra toda aquela comitiva, tal era o singular e curioso préstito, que por uma formosa tarde de agosto desembocando de escura e espessa mata desfilava pelo lançante de um risonho espigão ao longo de um buritizal, dirigindo-se à casa do capitão Joaquim Ribeiro, que ficava como a meia légua do lugar do sinistro.

Capítulo II
A fazenda

Formosas e risonhas são as campinas no município da Uberaba, profundas e gigantescas as florestas, e os horizontes sempre afogueados pelos raios de um sol abrasador são esplêndidos e deslumbrantes. Vastíssimas colinas se estendem com suaves ondulações por distâncias sem-fim, orladas de verde-negros capões, que ensombram o leito de caudais e límpidos ribeirões. Extensas linhas de buritis se enfileiram pela macega ao longo dos brejais até se perderem nas profundidades do horizonte. Lisos e viçosos vargedos vão terminar ao pé de um cordão de boleados outeiros de pouca elevação, que se desenham fumacentos no fundo do painel à semelhança de uma nuvem cinzenta fixa na orla extrema do céu.

Nem são essas campinas como as desabridas e monótonas pampas das regiões do sul, onde a vista em vão se cansa procurando em derredor um ponto, em que repouse, um pequeno cômoro sequer e que interrompa a insípida uniformidade dos horizontes; nem como essas savanas e chapadões intermináveis, como os há nas províncias do norte e do centro, que o viajante palmilha de sol a sol sem que jamais lhe afaguem os ouvidos o ramalhar da folhagem, nem o consolador murmúrio das torrentes, sem ver mais que campo e céu, e ouvindo apenas o zunido dos ventos, e o enfadonho zumbido das cigarras. De espigão em espigão varia a perspectiva, e apresenta novos e sempre risonhos panoramas.

No meio desses plainos por entre as manadas de gado sem conto vagueiam os veados, e as emas passeiam em bandos erguendo o esbelto e altaneiro colo até a altura de um cavaleiro. O canto do campeiro, que anda pelos rincões arrebanhando o gado, os trinos agudos da siriema, o pio melancólico da perdiz, e o monótono chiar do carro de bois, que atravessa os chapadões carregado dos produtos de pingues colheitas, eis os únicos sons, que de ordinário quebram o silêncio daquelas afortunadas e risonhas solidões.

As vivendas dos fazendeiros são comumente construções toscas e singelas, ainda que cômodas e vastas. Mas em compensação a situação delas é quase sempre aprazível e pitoresca, ao pé de algum suave lançante, ouvindo o marulho da torrente, que corre à sombra dos buritizais, e olhando ao longe pelos descampados espigões.

Em frente à casa há sempre um vasto curral ou terreiro, em torno do qual estão o engenho, o moinho, o paiol e mais outros acessórios da fazenda. Por detrás se estende um vasto pomar, um verdadeiro bosque sombrio e perfumoso, onde a laranjeira, o limoeiro, a jabuticabeira, o jambeiro, o genipapeiro, o mamoeiro, o jaracatiá, as bananeiras e coqueiros de diversas espécies crescem promiscuamente e cruzam suas ramagens em uma espessa abóbada cheia de fresquidão, de murmúrios e perfumes. Os cercados são latados de maracujá com seus doces e aromáticos frutos, ou renques de piteiras, eriçando em torno as longas e agudas hastes como uma floresta de baionetas, do meio das quais se ergue como um estandarte o comprido pendão coroado de brancas flores, O jasmineiro, a cocleária, o bogari, a esponjeira também crescem em torno da casa, pelos cercados, junto às fontes, saturando o ambiente de suavíssimos aromas.

Aqueles céus sempre azuis e límpidos desconhecem os nevoeiros, os invernos, e essas brumas carregadas e úmidas, que costumam embuçar céu e terra em nossas montuosas e tristonhas regiões. Quando é chegada a estação das chuvas, as águas se precipitam do céu em violentas borrascas entre o estampido de horrorosas trovoadas; ao estouro de mil raios parece que a esfera abraseada rompe-se em estilhaços, e se despenha sobre a terra. A copiosa e grossa chuva em pouco tempo rega e lava os espigões, alaga as várzeas, e converte os menores ribeiros em torrentes caudalosas. Mas dura pouco aquela convulsão dos elementos; o mesmo tufão que trouxe a tempestade a varre em breve do firmamento, e o sol torna a dominar em toda a amplidão da esfera azul e resplendente.

Debaixo daqueles céus ardentes, em meio daqueles plainos infindos tão cheios de encantadoras perspectivas, cobertos de tão opulenta vegetação e banhados de tanta luz, parece que a imaginação se inflama ao reflexo daqueles horizontes de fogo, e o coração nutre-se de uma seiva de amor e voluptuosidade, que o faz pulsar com mais força, sentir com mais energia. A índole do homem ali é plácida e calma na aparência como o céu, que o cobre, mas no fundo é ardente de sentimento e de paixão. O sopro das paixões lhe ruge n’alma violento e tormentoso como os pavorosos temporais que atroam aquelas solidões.

Assim, se tomardes um lugar em roda do fogo, que aquece no rancho o caldeirão do tropeiro, ou vos sentardes na varanda do fazendeiro em horas de serão a conversar com o sertanejo, ouvireis sinistras lendas, horríveis histórias de sangue e vingança, e interessantes e românticos episódios de amor, acontecidos naquelas paragens, como este cuja história vos estou contando.

Eduardo, – assim se chamava o caçador ferido – era um moço natural da Vila Franca na província de S. Paulo, alto, bem feito, e de fisionomia agradável e simpática, onde transluziam os dotes de sua alma nobre e bem formada. Era muladeiro; ia todos os anos à feira de Sorocaba ou Curitiba, a comprar bestas, que vendia pelas províncias de S. Paulo, Minas e Goiás. Andava então no giro de seu negócio, e tinha invernado a sua mulada na fazenda vizinha, pertencente a um primo do pai de Paulina, a quem já aludimos no capítulo antecedente. Durante esse tempo divertiu-se em caçadas, a que era muitíssimo afeiçoado, o que deu ocasião ao lamentável incidente, que teve lugar na roça de Joaquim Ribeiro.

O fazendeiro vizinho e um filho seu por nome Roberto eram também da partida. Aquele depois de ter acompanhado o ferido a casa do seu parente, despediu-se e retirou-se para a sua fazenda com os outros caçadores, recomendando-lhe toda a paciência e cuidado com o ferido, por ser muito seu amigo, e digno de toda a estima e apreço. Roberto, porém, a pretexto de fazer companhia a Eduardo, deixou-se ficar; mas não fazia mais do que aproveitar-se com avidez da ocasião que se lhe oferecia de passar alguns dias junto de sua prima Paulina, por quem desde criança tinha uma paixão louca. Havia mesmo já como um ajuste tácito entre os pais para o casamento dos dois primos, e já desde a infância os entretinham em ar de brinco com essa idéia; – mau costume que há nas nossas famílias, e que às vezes produz funestos resultados. Disse – ajuste entre os pais, porque Paulina por sua parte ouvia sempre falar nisso com a maior indiferença, e entendia que aquilo não passava de um brinquedo entre crianças. Roberto, porém, moço que teria vinte anos de idade, sentia por sua prima uma verdadeira e ardente paixão, alimentada constantemente desde a infância com os mais lisonjeiros sonhos de esperança e de futuro. Além disso encantava-o a perspectiva de uma rica herança que teria de vir-lhe às mãos inteirinha sem outro trabalho mais que esperar que seu futuro sogro cerrasse para sempre os olhos no leito da morte.

Roberto era um sertanejo de grosseira educação, de gênio áspero, e asselvajado na superfície, posto que no fundo não tivesse má índole. Com tais predicados bem se vê, que era impossível ser agradável aos olhos da delicada e sensível Paulina.

Posto que bem apessoado e mesmo bonito, a crosta de rudeza que o revestia, tornava impossível qualquer simpatia entre dois caracteres talhados por moldes tão diferentes.

No dia seguinte ao do desastre pela manhã, Paulina, seu pai e o primo achavam-se no quarto de Eduardo, a quem a extrema fraqueza a que o reduzira a grande perda de sangue, não permitia levantar-se da cama. Paulina acabava de trazer um caldo ao doente, que lho agradeceu com um olhar cheio do mais terno reconhecimento.

– Coitadinha da prima! dizia Roberto, – que susto não rapou ontem! por Deus, que eu tinha bem vontade de ver a carinha, com que ficou, quando a bicha embarafustou pelo rancho adentro.

– Com efeito, primo! que fraco gosto! que graça podia achar em ver uma cara de defunta?... eu fiquei sem pinga de sangue, e caí logo sem acordo.

– Ah! maldita bicha! mil vidas que lhe tirassem, ainda era pouco para pagar o susto, que lhe pregou, prima.

– Ora!... o susto nada foi, já se passou; mas o golpe, que deu no senhor Eduardo?... para esse sim, é que toda a vingança seria ainda pouca. Admira que o primo, sendo tão valente, não acompanhasse de perto o sr. Eduardo para ajudá-lo a matar a onça; talvez tivesse evitado semelhante desastre.

– Isso é que é verdade; acudiu o velho; – se algum dos outros companheiros chegasse junto aqui com o senhor, e a bicha em vez de um recebesse dois tiros a um tempo, e que pegassem em bom lugar, talvez não tivesse tido tempo de fazer o que fez. Mas o que querem? a rapaziada pateteou...

– Ora essa é que é boa!... pateteou não, meu tio; como é que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que até agora está-me doendo, e quase que eu não podia dar um passo. Não fosse isso, eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu só não tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranhão que fosse...

– Oh! pois não!... exclamou Eduardo sorrindo-se: não havia nada mais fácil... de dizer-se. Meu amigo, eu também levei encontroadas horríveis no meio daquelas diabólicas coivaras e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo também caiu; mas naquela ocasião eu nada sentia; já de longe eu tinha percebido que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, até o lugar do perigo. Mas se não fosse essa circunstância, não seria eu bobo de me ir atirar assim, sem quê nem para quê, nas garras do terrível animal.

– Ah! dessa ainda nós não sabíamos, sr. Eduardo,– disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa obrigação em que lhe estamos. Assim o senhor não praticou apenas um ato de estouvada valentia de caçador, e não foi sem o saber que salvou duas criaturas? – Não, decerto; tão louco não seria eu...

– E praticou um ato de nobre e generosa dedicação por pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que dívida lhe estamos, e quando e como poderemos nunca pagá-la.

– Qual dívida, sr. Ribeiro! por favor não se inquiete com isso. Não fiz mais do que a minha obrigação, o que em meu lugar qualquer outro teria feito...

– Mas em seu lugar, – disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente para Roberto – estavam alguns outros e não o fizeram.

Roberto enfiou, mordeu os beiços e corou até às orelhas.

– Porque não puderam – respondeu Eduardo. – Mas se teimam em querer dar-me um sinal de gratidão, basta-me o couro da bicha. Hei de trazê-lo sempre comigo com orgulho como um troféu, a menos que a senhora, – acrescentou voltando-se para Paulina, – não o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos pés sobre os restos do medonho animal, que tão grande susto lhe causou.

– Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.

– Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem pago, e com a íntima satisfação que me fica n’alma por ter sido útil em um dia de minha vida à sra. d. Paulina.

Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a graça e afabilidade, mas em tom de cortesia, não agradaram muito a Paulina, a qual quisera que o moço exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a dar-lhe ou antes já lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela não queria que o moço lhe fizesse ali de chofre uma declaração de amor, mas notou com mágoa íntima, que o mancebo proferiu aquelas corteses palavras quase sem emoção alguma e sem ao menos olhar para ela, o que causou-lhe uma horrível impressão de despeito e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder a sua perturbação e uma lágrima teimosa, que lhe queria vir aos olhos.

– Ora bolas! – exclamou estouvadamente o primo Roberto, já escandalizado com a prima, e cioso da importância e deferência de que Eduardo era objeto. Não vejo de que estão fazendo tamanho escarcéu, pois o que é lá matar uma onça?... eu cá tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.

– Não digas tal Roberto! – atalhou o velho, – matar uma onça não é lá grande coisa; também eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou para salvar duas criaturas, é uma ação valorosa e nobre, de que nem todos são capazes.

– Também se ele não a matasse, eu teria dado cabo dela, como tenho dado de muitas outras, tão certo como nós estarmos agora aqui. Que me custava?... a minha espingarda não nega fogo, e, minha mão, louvado seja Deus, não treme ainda, e quando atiro em um bicho destes, não atiro nas costelas, e em todo o caso a prima sempre aqui estaria tão viva e tão sadia como agora aqui se acha.

– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa, e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios. Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.

– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio, sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se. Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra coisa.

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