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BOCAGE

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal, no dia 15 de Setembro de 1765. Neto de um Almirante francês que viera organizar a nossa marinha, filho do jurista José Luís Barbosa e de Mariana Lestoff du Bocage, cedo revelou a sua sensibilidade literária, que um ambiente familiar propício incentivou. Aos 16 anos assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal e aos 18 alistou-se na Marinha, tendo feito o seu tirocínio em Lisboa e embarcado, posteriormente, para Goa, na qualidade de oficial.

Na sua rota para a Índia, em 1786, a bordo da nau "Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena", passou pelo Rio de Janeiro, onde se encontrava o futuro Governador de Goa.Nesta cidade, teve oportunidade de conhecer e de impressionar a sociedade, tendo vivido na Rua das Violas, cuja localização é actualmente desconhecida.

Em Outubro de 1786, chegou finalmente ao Estado da Índia. A sua estadia neste território caracterizou-se por uma profunda desadaptação. Com efeito, o clima insalubre, a vaidade e a estreiteza cultural que aí observou, conduziram a um descontentamento que retratou em alguns sonetos de carácter satírico.

Nomeado, na qualidade de segundo Tenente, para Damão, de imediato reagiu, tendo desertado. Percorreu, então, as sete partidas do mundo: Índia, China e Macau, nomeadamente. Regressou a Portugal em Agosto de 1790. Na capital, vivenciou a boémia lisboeta, frequentou os cafés que alimentavam as ideias da revolução francesa, satirizou a sociedade estagnada portuguesa, desbaratou, por vezes, o seu imenso talento. Em 1791, publicou o seu primeiro tomo das Rimas, ao qual se seguiram ainda dois, respectivamente em 1798 e em 1804. No início da década de noventa, aderiu à "Nova Arcádia", uma associação literária, controlada por Pina Manique, que metodicamente fez implodir. Efectivamente, os seus conflitos com os poetas que a constituíam tornaram-se frequentes, sendo visíveis em inúmeros poemas cáusticos.

Em 1797, Bocage foi preso por, na sequência de uma rusga policial, lhe terem sido detectados panfletos apologistas da revolução francesa e um poema erótico e político, intitulado "Pavorosa Ilusão da Eternidade", também conhecido por "Epístola a Marília".

Encarcerado no Limoeiro, acusado de crime de lesa-majestade, moveu influências, sendo, então, entregue à Inquisição, instituição que já não possuía o poder discricionário que anteriormente tivera. Em Fevereiro de 1798, foi entregue pelo Intendente Geral das Polícias, Pina Manique, ao Convento de S. Bento e, mais tarde, ao Hospício das Necessidades, para ser "reeducado". Naquele ano foi finalmente libertado.

Em 1800, iniciou a sua tarefa de tradutor para a Tipografia Calcográfica do Arco do Cego, superiormente dirigida pelo cientista Padre José Mariano Veloso, auferindo 12.800 réis mensalmente.

A sua saúde sempre frágil, ficou cada vez mais debilitada, devido à vida pouco regrada que levara. Em 1805, com 40 anos, faleceu na Travessa de André Valente em Lisboa, perante a comoção da população em geral. Foi sepultado na Igreja das Mercês.

A literatura portuguesa perdeu, então, um dos seus mais lídimos poetas e uma personalidade plural, que, para muitas gerações, incarnou o símbolo da irreverência, da frontalidade, da luta contra o despotismo e de um humanismo integral e paradigmático.

ICONOGRAFIA BOCAGEANA

Se Camões foi o poeta dos intelectuais, Bocage foi adoptado pelo povo português como porta-voz das suas expectativas, ambições e reivindicações.

Ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, foi-se sedimentando um anedotário que tinha o escritor como principal interveniente. Por outro lado, as transgressões aos valores instituídos também eram de imediato identificadas com o nome de Bocage. Deste modo, foi-se tecendo uma lenda que continua ainda a ser alimentada.

A personalidade e a obra do poeta foram retratadas em dezenas de biografias, em oito peças de teatro, canções, múltiplos poemas, bem como em dois filmes - um português, dirigido por Leitão de Barros, em 1936, e um brasileiro, de Djalma Limongi, em 1998. Os artistas plásticos também têm querido homenagear a figura deste poeta setubalense. Entre aqueles que contribuíram com óleos, desenhos, gravuras ou caricaturas para o imortalizar, contam-se Júlio Pomar, Lima de Freitas, Vasco, Fernando Santos, Júlio Gil e Luciano Santos.

Em 1998, foi fundado, em Setúbal, o Centro de Estudos Bocageanos, que tem como escopo divulgar a obra e dinamizar a investigação acerca de Bocage. Foram realizadas por esta associação várias sessões de poesia, tendo ainda sido publicados uma colecção de postais, que reconstitui a prisão do escritor, e um livro que inclui as traduções de fábulas, bem como as de La Fontaine, por si escrupulosamente traduzidas.

BOCAGE LÍRICO

A poesia lírica de Bocage apresenta duas vertentes principais: uma, luminosa, etérea, em que o poeta se entrega inebriado à evocação da beleza das suas amadas (Marilia, Jónia, Armia, Anarda, Anália), expressando lapidarmente a sua vivência amorosa torrencial:

"Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente; Do mais e de mim ando esquecido."

outra, nocturna, pessimista, depressiva em que manifesta a incomensurável dor que o tolhe, devido à indiferença, à traição, à ingratidão ou à " tirania" de Nise, Armia, Flérida ou Alcina.

Estas assimetrias são um lugar-comum na obra de Bocage, plena de contrários. São ainda o corolário do seu temperamento arrebatado e emotivo. A dialéctica está bem patente nos seus versos:

"Travam-se gosto e dor; sossego e lida... É lei da Natureza, é lei da Sorte Que seja o mal e o bem matiz da vida!"

Na sua poética prevalece a segunda vertente mencionada, o sofrimento, o "horror", as "trevas", facto que o faz, com frequência, ansiar pela sepultura, "refúgio me promete a amiga Morte", como afirma nomeadamente.

A relação que tem com as mulheres é também melindrosa, precária. O ciúme "infernal" rouba-lhe o sono, acentua-lhe a depressão.

Bocage considera que a desventura que o oprime é fruto de um destino inexorável, irreversível, contra o qual nada pode fazer. A "Fortuna", a "Sorte", o "Fado", no seu entender, marcaram-no indelevelmente para o sofrimento atroz, como se depreende dos seguintes versos:

"Chorei debalde minha negra sina", "em sanguíneo carácter foi marcado pelos Destinos meu primeiro instante".

Outro aspecto relevante a ponderar na avaliação da poesia de Bocage é a dialéctica razão/sentimento. Com efeito, existe um conflito aberto entre a exuberância do amor, também físico, a sua entrega total, e a contenção e a frieza do racional:

"Razão, de que me serve o teu socorro? Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo; Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro",

ou ainda quando escreve:

"contra os sentidos a razão murmura".

Bocage viveu num período de transição, conturbado, em convulsão. A sua obra espelha essa instabilidade. Por um lado, reflecte as influências da cultura clássica, cultivando os seus géneros, fazendo apelo à mitologia, utilizando vocabulário genuíno; por outro lado, é um pré-romântico pois liberta-se das teias da razão, extravasa com intensidade tudo o que lhe vai na alma, torrencialmente expressa os seus sentimentos, faz a apologia da solidão

Marilia, nos teus olhos buliçosos Os Amores gentis seu facho acendem; A teus lábios, voando, os ares fendem Terníssimos desejos sequiosos.

Teus cabelos subtis e luminosos Mil vistas cegam, mil vontades prendem; E em arte aos de Minerva se não rendem Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura, Mora a firmeza no teu peito amante, A razão com teus risos se mistura.

És dos Céus o composto mais brilhante; Deram-se as mãos Virtude e Formosura, Para criar tua alma e teu semblante.

BOCAGE: POETA DA LIBERDADE

Quando Bocage regressou do Oriente, a Revolução Francesa estava no seu auge e constituía um paradigma para muitos intelectuais europeus, que se reviam na trilogia igualdade, fraternidade e liberdade. Estes conceitos libertadores foram universalmente disseminados, tendo desempenhado um papel fundamental na independência dos Estados-Unidos e na eclosão do liberalismo.

Os princípios da Revolução Francesa foram amplamente divulgados através de livros e de folhetos que entravam em Portugal por via marítima, nomeadamente pelos portos de Lisboa e de Setúbal. Mais tarde, eram discutidos pelos cafés de Lisboa, que constituíam locais privilegiados de subversão relativamente ao poder instituído. Este, por sua vez, sob a mão férrea de Pina Manique, teceu uma extensa rede de agentes repressivos que vigiava zelosamente aqueles locais frequentados por apologistas das ideias francesas.

Bocage vivenciou a boémia lisboeta e foi, certamente, um dos dinamizadores de intermináveis discussões políticas e de críticas aceradas ao regime. Tal prática quotidiana esteve na origem do seu encarceramento em 1797, acusado de crime de lesa-majestade. Com efeito, alguns dos seus poemas revelaram-se particularmente críticos para com a sociedade vigente, que se caracterizava pela intolerância e pela recusa dos ideais democráticos. Eis um soneto elucidativo:

"Sanhudo, inexorável Despotismo Monstro que em pranto, em sangue a fúria cevas, Que em mil quadros horríficos te enlevas, Obra da Iniquidade e do Ateísmo:

Assanhas o danado Fanatismo, Porque te escore o trono onde te enlevas; Por que o sol da Verdade envolva em trevas E sepulte a Razão num denso abismo.

Da sagrada Virtude o colo pisas, E aos satélites vis da prepotência De crimes infernais o plano gizas,

Mas, apesar da bárbara insolência, Reinas só no ext'rior, não tiranizas Do livre coração a independência."

Além das odes à liberdade, Bocage compôs outros poemas que se radicaram no ideário político. Com efeito, fez a apologia de Napoleão, que consolidou a Revolução Francesa, a quem apelidou de "novo redentor da Natureza", criticou a nobreza, manifestou a sua ironia relativamente a um clero que se pautava pela incoerência entre o que apregoava e o que fazia, tendo ainda retratado causticamente classes sociais privilegiadas.

BOCAGE SATÍRICO

Arguto observador da sociedade, Bocage foi a consciência crítica de uma ordem social que se encontrava em profunda mutação. Neste contexto, não surpreende que tenha cultivado a sátira, género que estava em sintonia com a sua personalidade e que servia integralmente os seus desígnios de carácter reformador.

As sátiras de Bocage tiveram como alvo, entre outros, a "Nova Arcádia", associação de escritores incentivada por Pina Manique. Nela se praticava o elogio mútuo, sendo a produção poética de pouca qualidade e estritamente de acordo com os cânones clássicos.

A rivalidade entre Bocage e alguns dos poetas que constituíam aquela academia, rapidamente se tornou um lugar comum das sessões dirigidas por Domingos Caldas Barbosa, escritor e músico oriundo do Brasil, que foi particularmente visado na sátira bocageana. Sucederam-se, então, os ataques pessoais em quadra ou em soneto, alguns dos quais se caracterizaram por uma extrema violência. José Agostinho de Macedo, o temido "Padre Lagosta", Belchior Curvo Semedo, Luís França Amaral, entre outros, foram severamente retratados por Bocage, que por sua vez sofreu impiedosos ataques daqueles árcades. Eis um soneto cáustico de Bocage, evocativo de uma sessão da "Nova Arcádia":

"Preside o neto da rainha Ginga À corja vil, aduladora, insana. Traz sujo moço amostras de chanfana, Em copos desiguais se esgota a pinga.

Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga; Masca farinha a turba americana; E o oragotango a corda à banza abana, Com gesto e visagens de mandinga.

Um bando de comparsas logo acode Do fofo Conde ao novo Talaveiras; Improvisa berrando o rouco bode.

Aplaudem de contínuo as frioleiras Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode. Eis aqui de Lereno as quartas-feiras."

A crítica acutilante de Bocage estendeu-se também ao clero. Em causa estava a incoerência daquela classe social, que apregoava do púlpito a virtude e tinha uma prática quotiana que se encontrava exactamente nos antípodas. Por outro lado, o poeta manifestou-se sempre contra uma concepção fundamentalista da religião, que tinha como pedra de toque o medo e o castigo eterno. Eis uma quadra satírica atribuída a Bocage, que visa o clero:

"Casou-se um bonzo da China Com uma mulher feiticeira Nasceram três filhos gémeos Um burro, um frade e uma freira."

Outros sectores da sociedade foram também fustigados pela pena de Bocage. Com efeito, a nobreza, os médicos, os tabeliães, bem como alguns tipos sociais encontram-se retratados na sua obra.

POESIA ERÓTICA DE BOCAGE

Se é doce no recente, ameno Estio Ver toucar-se a manhã de etéreas flores, E, lambendo as areias, e os verdores, Mole, e queixoso, deslizar-se o rio:

Se é doce no inocente desafio Ouvirem-se os voláteis Amadores, Seus versos modulando, e seus ardores De entre os aromas de pomar sombrio:

Se é doce mares, céus ver anilados Pela Quadra gentil, de Amor querida, Que esperta os corações, floreia os prados:

Mais doce é ver-te, de meus ais vencida, Dar-me em teus brandos olhos desmaiados Morte, morte de amor, melhor que a vida.

O erotismo tem sido cultivado com alguma frequência na literatura portuguesa. Encontramo-lo, por exemplo, nas "Cantigas de Escárnio e Mal-dizer", no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em Gil Vicente, em Camões cujo canto IX dos Lusíadas nos dá um fresco dos prazeres dos nautas portugueses inebriados por mil sereias.

No presente século, Fernando Pessoa, curiosamente nos seus English Poems, Mário de Sá-Carneiro, Guerra Junqueiro, António Botto, Melo e Castro, Jorge de Sena, entre muitos outros, celebraram nos seus escritos os rituais de Eros.

No século XVIII prevalecia um puritanismo limitador. Com efeito, era difícil uma pessoa assumir-se integralmente, de corpo e alma. Tabus sociais, regras estritas, uma educação preconceituosa, a moral católica tornavam a sexualidade uma vertente menos nobre do ser humano. Por outro lado, uma censura férrea mutilava indelevelmente os textos mais ousados e a omnipresente Inquisição demovia os recalcitrantes. Em presença desta conjuntura, ousar trilhar a senda do proibido, transgredir era, obviamente, um apelo inexorável para os escritores, uma maneira salutar de se afirmarem na sua plenitude, um imperativo categórico.

Em Bocage, a transgressão foi pedra de toque, o conflito generalizado. As suas críticas aceradas aos poderosos, a determinados tipos sociais, ao novo-riquismo, à mediocridade, à hipocrisia, aos literatos, o seu anti-clericalismo convicto, a apologia dos ideais republicanos que sopravam energicamente de França, a agitação que disseminava pelos botequins e cafés de Lisboa, o tipo de vida , "pouco exemplar" para os vindouros e para os respeitáveis chefes de família e a sua extrema irreverência tiveram como corolário ser considerado subversivo e perigoso para a sociedade.

Poder-se-á afirmar que a poesia erótica de Bocage adquiriu uma dimensão mais profunda do que a que foi composta anteriormente. Pela primeira vez, é feito um apelo claro e inequívoco ao amor livre. A "Pavorosa Ilusão da Eternidade - Epístola a Marília", constitui uma crítica contundente ao conceito de um Deus castigador, punitivo e pouco sensível ao sofrimento da humanidade - à revelia dos ideais cristãos - que grande parte do clero perfilhava; mas também consubstancia um acto de subversão na medida em que convida Marília "à mais velha cerimónia do mundo", independentemente da moral vigente e dos valores cristalizados. Estava, à luz dos conceitos da época, de certa maneira, a minar as bases da sociedade, pondo em causa a própria família.

O referido poema, bem como o seu estilo de vida, estiveram na origem do seu encarceramento, por ordem irreversível de Pina Manique, irrepreensível guardião da moral e dos costumes da sociedade. A prisão do Limoeiro, os cárceres da Inquisição, o Mosteiro de S. Bento e o Hospício das Necessidades, por onde sucessivamente passou para ser "reeducado", não o demoveram da sua filosofia de vida, estuante de liberdade, interveniente, pugnando pela justiça, assumindo-se integralmente, ferindo os sons da lira em demanda do apuro formal que melhor veiculasse as suas legítimas preocupações.

Só cerca de cinquenta anos após o falecimento de Bocage, foram publicados pela primeira vez as suas poesias eróticas. Corria o ano de 1854 e apareceram na sequência da publicação criteriosa das obras completas, em 6 volumes, pelo emérito bibliógrafo Inocêncio da Silva. Para evitar a sua apreensão e os tribunais, a obra saiu clandestinamente, sem editor explícito e com um local de edição fictício na capa: Bruxellas. Este facto de se não referir o editor foi prática comum até à implantação da República. Embora feitas em Portugal, anonimamente, as Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas apresentaram como local de edição sucessivamente Bruxellas (1860, 1870, 1879, 1884, 1899, 1900), Bahia (1860, 1861), Rio de Janeiro (1861), Cochinchina (1 885), Londres (1900), Paris (1901, 1902, 1908, 1908), Amsterdam (1907) e Leipzig (1 907). Malhas que a implacável censura tecia...

As Cartas de Olinda a Alzira - que constituem um caso inédito na literatura portuguesa, pois são um relato das primícias sexuais de uma jovem, na primeira pessoa, como assinala Alfredo Margarido - por sua vez, são dadas à estampa nos finais do século passado com as precauções proverbiais: sem a menção da data, editor, local ou organizador.

Com o advento da República, a liberdade de expressão, grosso modo, foi uma realidade. Estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para a Guimarães Editores assumir a publicação de Olinda e Alzira, em 1915.

Nos anos que se seguiram ao 28 de Maio de 1926, mais concretamente durante o consulado de Salazar, a censura foi reinstalada e a poesia erótica de Bocage voltou à clandestinidade, fazendo parte do índex de livros proibidos. Circulava sub-repticiamente, em edições anónimas, teoricamente feitas em "London", apresentando as datas de 1926 ou 1964.

Coincidiu com a primavera marcelista, nos finais da década de 60, a publicação das obras completas de Bocage, superiormente dirigida por Hernâni Cidade. Em edição de luxo, a editorial Artis, fascículo a fascículo, foi estampando toda a obra poética. O último volume contemplava as poesias eróticas. Num prefácio bem tecido, aquele biógrafo justificava a sua inclusão, fazendo notar a tradição do erotismo na poesia portuguesa, mencionando inclusivamente mulheres que, sem falsos pudores, analisaram esta problemática, caso concreto de Carolina Michaêlis, "que às riquezas do espírito altíssimo juntava os tesouros do coração modelar de esposa e mãe." O facto desta obra ser vendida por fascículos e consequentemente não estar acessível ao grande público nas livrarias, bem como as razões aduzidas por Hernâni Cidade, terão convencido os ciosos censores.

Com o 25 de Abril, têm-se sucedido as edições, sem a preocupação de um estudo introdutório que perspectiva o erotismo na obra de Bocage. O lucro fácil prevaleceu em detrimento da verdade literária. Tendo em consideração que Bocage deixou muito poucos autógrafos manuscritos dada a sua proverbial dispersão, não se pode ter a certeza relativamente à autoria de algumas poesias eróticas que circulam como se do poeta fossem. Com efeito, a primeira edição da sua poesia erótica, dada à luz em 1854, terá sido publicado a partir de um caderno manuscrito que incluía cópias de composições de vários autores anónimos. Umas serão certamente do seu estro poético, outras, está provado hoje em dia, foram compostas por Pedro José Constâncio, Sebastião Xavier Botelho, Abade de Jazente e João Vicente Pimentel Maldonado. Porém, de imediato, foram identificados como se da pena de Bocage tivessem saído, pois a sua fama de libertino era marcante na época.

Curioso é ainda o facto de essas composições continuarem a fazer parte do corpo das edições das Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas que se publicam nos tempos que correm. É urgente fazer-se uma análise estilística - tarefa de extrema dificuldade - e identificar-se, na medida do possível, os poemas que são da autoria de Bocage, os que poderão eventualmente sê-lo e retirar ou colocar em apêndice os que manifestamente não lhe pertencem.

BOCAGE TRADUTOR

Uma vertente menos conhecida da obra de Bocage é, indesmentivelmente, a tradução. Com efeito, os seus biógrafos só muito levemente focaram esta sua intensa actividade. Bocage possuía uma sólida formação clássica. Na adolescência aprendeu latim com um padre ephol, Don Juan Medina. Mais tarde, na sequência da morte da mãe, teve como mestre alguém pouco sensível aos atributos da persuasão, como o próprio Bocage evocava:

"Se continuo mais tempo, aleija-me."

O escritor beneficiava ainda do facto de ser de origem francesa, língua que, consequentemente, dominava com maestria.

A primeira tradução de que há notícia remonta ao ano de 1793. Porém, só a partir de 1800 enveredou por uma actividade sistemática como tradutor. Coincide esta opção com um período de sedentarização de Bocage, cuja saúde se encontrava prematura e seriamente minada, e com um convite de José Mariano Velloso, director da famosa, pelas suas exemplares estampas, Tipografia Calcográfica do Arco do Cego.

Em 1800, foi dado à luz o livro de Delille Os Jardins ou a Arte de Afformosear as Paisagens, vertido para a língua portuguesa por Bocage. Esta publicação foi pretexto para os seus múltiplos adversários fazerem violentos reparos à sua tradução.

O poeta respondeu-lhes contundentemente, um ano depois, no prólogo do livro de Ricardo Castel As Plantas. Apelida-os de "aves sinistras", "corvos de inveja", "malignos", "maldito, grasnador, nocturno enxame que voar não podendo, odeia os voos", "zoilos", entre outros epítetos pouco lisonjeiros.

Nos ataques viscerais que Bocage sofreu, distinguiu-se José Agostinho de Macedo, arqui-inimigo desde a "Arcádia Lusitana", que subscreveu a composição "Sempre, oh Bocage, as sátiras serviram..." Pulverizando a argumentação do seu opositor, Elmano compôs a célebre sátira Pena de Talião, segundo reza a tradição, de um só fôlego, sob extrema emotividade. A polémica entre ambos foi alimentada por diversas vezes, até 1805, data do falecimento de Bocage, havendo, porém, a registar a reconciliação entre ambos, pouco antes do infausto desenlace. Reacendeu-se, porém, mais tarde quando os seus discípulos se envolveram com José Agostinho de Macedo, fazendo-lhe acusações gravosas, ao que parece fundamentadas.

Da autoria de Bocage é a tradução dos seguintes livros: "Eufemia ou o Triunfo da Religião de Arnaud (1793), As Chinelas de Abu-Casem: Conto Arabico (1797), Historia de Gil Braz de Santilhana de Le Sage (1798), Os Jardins ou Arte de Afformosear as Paisagens de Delille (1800), Canto Heroico sobre as Façanhas dos Portugueses na Expedição de Tripoli (1800) e Elegia ao lllustrissimo (...) D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1800) ambos da autoria do poeta brasileiro José Francisco Cardoso, As Plantas de Ricardo Castel (1801), O Consórcio das Flores: Epistola de La Croix (1801), Galathéa (1802) de Florian, Rogerio e Victor de Sabran ou o Tragico Effeito do Ciume (1802) e Ericia ou a Vestal (1805) de Arnaud.

Postumamente foi publicada a tradução de Paulo e Virginia de Bernardin de Saint-Pierre. Corria o ano de 1905 e foi lançada no âmbito da comemoração do primeiro centenário do falecimento de Bocage. O autógrafo manuscrito pertencera a Camilo Castelo Branco que o ofereceu ao editor Lello; este, por sua vez, doou-o à Biblioteca Municipal do Porto, onde se encontra, neste momento, depositado.

Nas suas traduções, Bocage contemplou os clássicos - Ovídio, Horácio, Virgílio, Alceu, Tasso - bem como autores modernos, Voltaire, La Fontaine, entre outros.

A maneira cuidada como o poeta empreendeu as suas traduções é-nos descrita por ele próprio no prólogo a Os Jardins ou Arte de Afformosear as Paizagens: " ... lhe apresento esta versão, a mais concisa, a mais fiel, que pude ordená-la, e em que só usei o circunlóquio dos lugares, cuja tradução literal se não compadecia, a meu ver, com a elegância, que deve reinar em todas as composições poéticas.

Registe-se ainda o facto de Bocage se manifestar ostensivamente contra o uso de galicismos que enxameavam a nossa língua.

Fonte: www.olharliterario.hpg.ig.com.br

BOCAGE

Poeta lírico neoclássico português, que tinha pretensão a vir a ser um segundo Camões, mas que dissipou suas energias numa vida agitada. Nasceu em Setúbal, em 15/09/1765 e morreu em Lisboa (21/12/1805), aos 40 anos de idade, vítima de um aneurisma. Nos últimos anos o poeta vivia com uma irmã e uma sobrinha, sustentando-as com traduções de livros didáticos. Para viver seus últimos dias, inclusive, teve de valer-se de um amigo (José Pedro da Silva) que vendia, nas ruas de Lisboa, suas derradeiras composições: Improvisos de Bocage na Sua Mui Perigosa Enfermidade e Coleção dos Novos Improvisos de Bocage na Sua Moléstia.

Filho de um advogado, fugiu de casa aos 14 anos para juntar-se ao exército. Foi transferido para a Armada dois anos depois. Como integrante da Academia da Armada Real, em Lisboa, dedicou seu tempo a casos amorosos, poesia e boêmia.

Em 1786 foi enviado, tal qual seu herói Camões, para a Índia (Goa e Damão) e, também como Camões, desiludiu-se com o Oriente. Depois, por vontade própria e à revelia de seus superiores, dirigiu-se a Macau, voltando a Portugal em 1790. Ingressou então na Nova Arcádia — uma academia literária com vagas vocações igualitárias e libertárias —, usando o pseudônimo de Elmano Sadino. Contudo, de temperamento forte e violento, desentendeu-se com seus pares, e suas sátiras a respeito deles levou à sua expulsão do grupo. Seguiu-se uma longa guerra de versos que envolveu a maior parte dos poetas lisboetas.

Em 1797, acusado de heresia, dissolução dos costumes e idéias republicanas, foi implacavelmente perseguido, julgado e condenado, sendo sucessivamente encarcerado em várias prisões portuguesas. Ali realizou traduções de Virgílio, Ovídio, Tasso, Rousseau, Racine e Voltaire, que o ajudaram a sobreviver seus anos seguintes, como homem livre. Ao recuperar a liberdade, graças à influência de amigos, e com a promessa de criar juízo, o poeta, envelhecido, parece ter abandonado a boêmia e zelado até seus últimos momentos por impor aos seus contemporâneos uma imagem nova: a de homem arrependido, digno e chefe de família exemplar. Sua passagem pelo Convento dos Oratorianos (onde é doutrinado, logo após sua saída da cadeia) parece ter contribuído para tal.

Portugal, na época de Bocage, era um império em ruínas, imerso no atraso, na decadência econômica e na libertinagem cortesã, feita às custas da miséria de servos e operários, perpetuando o pantanal cinzento do absolutismo e das atitudes inquisitoriais, da Real Mesa Censória e dos calabouços destinados aos maçons e descontentes.

Ninguém encarnou melhor o espírito da classe dirigente lusitana do fim do século XVIII do que Pina Manique. Ex-policial e ex-juiz, conquistou a confiança dos poderosos, tornando-se o grande senhor do reinado de D. Maria I (só oficialmente reconhecida como louca em 1795), reprimindo com grande ferocidade tudo o que pudesse lembrar as "abomináveis idéias francesas". Graças a ele, inúmeros sábios, cientistas e artistas conheceram o caminho do exílio.

Bocage usou vários tipos de versos, mas fez o melhor no soneto. Não obstante a estrutura neoclássica de sua obra poética, seu intenso tom pessoal, a freqüente violência na expressão e a auto-dramatizada obsessão face ao destino e à morte, anteciparam o Romantismo.

Suas poesias, Rimas, foram publicadas em três volumes (1791, 1799 e 1804). O último deles foi dedicado à Marquesa de Alorna, que passou a protegê-lo.

Os poemas não censurados do autor são geralmente convencionais e bajulatórios, copiando a lição dos mestres neoclássicos e abusando da mitologia, uma espécie de poesia acadêmica feita por e para iniciados. Outra parcela de sua obra é considerada pré-romântica, trazendo para poesia o mundo pessoal e subjetivo da paixão amorosa, do sofrimento e da morte.

Já sua poesia censurada surgiu da necessidade de agradar ao público que pagava: com admirável precisão, o poeta punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero corrupto, comprometidos ambos com uma política interna e externa anacrônica para aquele momento. Também está presente ali a exaltação do amor físico que, inspirado no modelo natural, varre longe todo o platonismo fictício de uma sociedade que via pecado e imoralidade em tudo o que não fosse convenientemente escondido.

Fonte: www.secrel.com.br

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