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BRANQUEAMENTO DOS CORAIS

O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM OS NOSSOS CORAIS?

Os recifes de coral são considerados um dos ecossistemas mais importantes, em termosde diversidade biológica, e também um dos mais ameaçados. Até recentemente,acreditava-se que as principais ameaças provinham apenas da contaminação de origemterrestre, de práticas pesqueiras destrutivas, de atividades turísticas desordenadas e dealterações da configuração da costa que aumentam a quantidade de sedimentos emsuspensão na água e, portanto, a turbidez, reduzindo a penetração da luz.Entretanto, hoje já se sabe que estamos diante de uma ameaça potencialmente maior,que é o branqueamento dos corais, causado não só esses fatores de degradação masprincipalmente pelo gradativo aumento da temperatura da água do mar, e pela elevaçãodos níveis de radiação ultra-violeta (UV), ambos fatores que vêm crescendo nas últimasdécadas.

O branqueamento consiste na perda de algas, as zooxantelas, que vivem em simbiose nointerior dos corais formadores de recifes. Não é um fenômeno exclusivo dos corais pois aszooxantelas ocorrem também em anêmonas-do-mar, zooantídeos, medusas (águas-vivas),ascídias, esponjas, moluscos, etc., que também podem branquear. As zooxantelas são asprincipais responsáveis pela coloração dos organismos que as hospedam, por isso a suaperda torna seus tecidos pálidos ou brancos. Nos corais, os tecidos ficam praticamentetransparentes, revelando o esqueleto branco que está logo abaixo.Quando constatamos o branqueamento de um coral não significa necessariamente que eleesteja morto, pois há várias etapas no processo.

A primeira é um "jejum" compulsório docoral, pois com a perda das zooxantelas, deixa de ser exercida sua principal função que ésuprir a maior parte das necessidades nutricionais do coral-hospedeiro, repassando a eleaté mais de 60% do carbono obtido da fotossíntese.Como as zooxantelas normalmente também contribuem na taxa de calcificação dos coraisformadores de recifes, a perda dessas algas implica em um sério prejuízo para a formaçãodos seus esqueletos. Com a diminuição das taxas de calcificação, as partes moles e oesqueleto de um coral branqueado não crescem, e a colônia fica mais vulnerável a outrospossíveis estresses, como poluição, sedimentação excessiva, colonização por macroalgasdo esqueleto eventualmente exposto, etc.

Entretanto, as colônias branqueadas podem se recuperar completamente, em poucos diasou até mais de um ano, dependendo da espécie e do grau de branqueamento.

Mas,dependendo da intensidade e duração do stress, pode ocorrer a morte de parte ou detoda a colônia, seja logo em seguida ao inicio do branqueamento, ou mesmo algum tempodepois (semanas ou meses). Nestes casos, o esqueleto será rapidamente recoberto poralgas e animais sésseis, perdendo a cor branca.Temperaturas da água constantemente elevadas em 1998 (em média 1 a 2oC acima dasmáximas normais) e que se mantiveram acima dos níveis de tolerância dos corais por maisde 5 meses, causaram o maior branqueamento jamais registrado. Os levantamentosmostraram que o Oceano Indico foi uma das regiões mais afetadas, com taxas demortalidade de até 90% nas grandes áreas recifais. Os especialistas prevêem umincremento de 1 a 2oC na temperatura da água do mar superficial, de modo que osbranqueamentos se tornarão mais freqüentes nos próximos 30 a 50 anos.

No Brasil, o fenômeno foi registrado no verão de 1994 (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia ePernambuco) e observado novamente no início de 1996 (São Sebastião), afetandoprincipalmente o coral-cérebro Mussismilia hispida e o zoantídeo Palythoa caribaeorum, conhecido como baba-de-boi.As Áreas Marinhas Protegidas (AMPs), que no Brasil são conhecidas como Unidades de Conservação (UCs) costeiro-marinhas, desempenham um papel fundamental como locaisde monitoramento dos efeitos das mudanças globais. Na costa paulista, por exemplo, trêsparques estaduais administrados pelo Instituto Florestal da Secretaria do Meio Ambientesão intensamente utilizados para o mergulho recreativo, turístico e de lazer: no LitoralNorte, o Parque Estadual da Ilha Anchieta e o Parque Estadual da Ilhabela (quecompreende também as ilhas Vitória e Búzios) e, no Litoral Centro e mais afastado dacosta, o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos.

Durante o mais recente período de verão (2000-2001) tivemos novamente temperaturasmuito elevadas que se estenderam ao outono, associadas a índices de pluviosidade muitomais baixos que no ano passado. Nas três UCs, observou-se um branqueamento maisextenso e de maior duração do que em anos anteriores e, ainda que haja possibilidade derecuperação, outros processos vitais acabam sendo afetados. No Parque Estadual Marinhoda Laje de Santos, por exemplo, foi registrada, no final de Abril do ano passado, a desovado coral-cérebro Mussismilia. Em Abril de 2001, entretanto, esta mesma espécie encontra-se ainda completamente sob o efeito do branqueamento e, portanto, até o momento, nãose reproduziu.As mudanças climáticas globais que vêm ocorrendo, particularmente na atmosfera mastambém nos continentes e oceanos, são parte do crescente impacto humano sobre oambiente natural do planeta e estão sendo discutidas há vários anos, na busca desoluções. Algumas ações mais específicas para os oceanos e para os recifes de coralatingidos pelo branqueamento começaram a ser desenvolvidas.

Recentemente, a UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dosRecursos Naturais), em um esforço conjunto com o WWF, USAID, Secretaria da Convenção da Diversidade Biológica e o Programa CORDIO, estabeleceram diretrizes parao manejo dos recifes de coral degradados por branqueamento, no sentido de orientar asautoridades competentes. Destaca-se no documento o papel fundamental das ÁreasMarinhas Protegidas como fornecedoras de larvas de reposição, e a necessidade deincentivo a pesquisas sobre a recuperação dos recifes de coral, mas, sobretudo, anecessidade de reduzir as outras fontes de stress ambiental como aquelas advindas doturismo desordenado.Particularmente nas UCs, enquanto laboratórios naturais e contrapontos à degradaçãoambiental de origem antrópica, as atividades de mergulho requerem práticas ainda maiscautelosas.O turismo subaquático tem, nesse contexto, uma responsabilidade maior: cabe a todos osprofissionais envolvidos - operadores e instrutores de mergulho, fabricantes deequipamentos, e outros - e às Certificadoras, participar do processo conservacionista,contribuindo para a conscientização do público mergulhador quanto às práticas adequadasao desenvolvimento do mergulho de forma não impactante, e participando dos projetos depesquisa que objetivam o monitoramento e a recuperação dos corais. É uma maneira deajudar a preservar do "produto final" objeto do turismo subaquático.

É tempo, portanto, de unir esforços entre os setores ligados ao mergulho e as instituiçõesligadas à conservação da natureza, governamentais e não-governamentais, visandoestabelecer mecanismos para que as atividades de mergulho nas UCs se desenvolvam demaneira "ambientalmente saudável", ou seja, compatível com os objetivos daconservação.

Fonte: www.sur.iucn.org

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