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Belo Horizonte

A rua extensíssima a que ele se referia era certamente a Rua Sabará, que correspondia, em parte, à atual Rua Niquelina em Santa Efigênia. A Rua Sabará, a principal do arraial, na realidade era um grande caminho que cortava longitudinalmente quase todo o arraial e desembocava no Largo da Matriz, onde atualmente existe a Catedral da Boa Viagem. O centro principal do arraial consolidado ao redor do Largo da Matriz, era o ponto de convergência dos principais caminhos que cruzavam aquele agrupamento de casas. Eram estradas de chão que prosseguiam do arraial para outros povoamentos de maior importância, existentes nas redondezas, como Sabará, Venda Nova, Villa Nova de Minas, e também para as sedes das grandes propriedades rurais que se formaram e circundavam o núcleo urbano.

Planta do Arraial de Curral d'el Rey

A planta do primitivo núcleo urbano tinha um traçado irregular, típico das pequenas vilas surgidas durante o período colonial: ruas compridas e tortuosas, como caminhos ao longo dos quais se assentava o casario.

O poeta Olavo Bilac em artigo no Minas Gerais de 25 de agosto de 1916 escrevia:

"Era ao cair de uma tarde de janeiro de 1894. Depois de viajar algumas léguas do sertão mineiro (...) cheguei a estas planícies esplêndidas (...). A imensa arena brava abria-se para o oriente, encostada ao sul, à lombada do Curral e ao norte à da Contagem. O sol deixara no céu o cruor do seu holocausto. Um dobre de sino embalava a tarde. Uma doce melancolia enfeitiçava o ar. E, com as primeiras sombras, entrei no povoado, estirando no centro do chapadão a haste longa e as traves curtas de sua edificação em T, pequeno burgo de cem fogos. As ruas rudimentares eram quatro: a de Sabará, a de Deodoro, a do Capão e a de Congonhas. Uma praça larga, mal achanada, com um alto cruzeiro de madeira, rasgava em frente à igreja tosca. Perto, à volta da aldeia, algumas culturas e alguns curtumes, testemunhando o trabalho da gente simples; e, longe, moldura imensa, os matagais brenhosos, os montes ásperos, Santa Cruz, Lagoa Seca e o acaba Mundo..."

Também Charley Lachmund, em Vozes de Petrópolis de maio-jun de 1946 registrou a seguinte descrição do arraial:

(...)Ao centro desse vale monótono e abandonado pela cultura, uma pequena igreja com duas torres, no estilo característico dos jesuítas, rodeada dum complexo de casas modestas de tijolo e cobertas de telha: a igreja e a cidadezinha de "Nossa Senhora de Boa Viagem" no arraial de "Curral d'El Rei", o berço de Belo Horizonte."

As cidades coloniais brasileiras surgiam e desenvolviam-se sem um planejamento prévio, condicionadas, quase sempre, pelas características topográficas do sítio. No arraial de Curral de El-Rey a forma do tecido urbano era decorrente tanto da topografia, como da existência do Rio Arrudas com sua bacia e os vários cursos d'água que a ela afluíam. A forma espontânea como a cidade desenvolvia-se emprestava-lhe grande graça.

A fundação de uma cidade colonial nas minas gerais

Durante o período colonial brasileiro a estreita relação existente entre o Estado português e a Igreja era um fator de significativa importância, que influenciava tanto o desenvolvimento da organização urbana, quanto o caráter da arquitetura, e em especial da sua vertente religiosa. Na faixa litorânea do território brasileiro, eram as grandes ordens religiosas européias, como os jesuítas, franciscanos, carmelitas e os beneditinos que construíam, com recursos próprios, as Igrejas, conventos, monastérios e os grandes colégios. Para tanto, importavam não somente os projetos mas muitas vezes a quase totalidade dos materiais de construção utilizados nos edifícios.

Porém, na região das minas gerais, o processo ocorreu de modo diferente. Cartas Régias emanadas pela Coroa portuguesa em 1711 e em anos posteriores proibiram o estabelecimento das ordens religiosas. Estas ordens permaneceram, portanto, restritas à faixa costeira da Colônia, mas isto não impediu que nas diversas cidades coloniais das minas a arquitetura se manifestasse, através do surgimento, em profusão, de capelas e igrejas, muitas das quais com características bastante criativas.

No entanto, em Minas, como em todo o Brasil colonial, não surgiu uma arquitetura que possa ser caracterizada como totalmente original. O que aconteceu foi uma adaptação do modelo europeu, ao qual se juntou elementos das arte e das técnicas asiáticas e africanas. Na região das minas, a ausência das ordens religiosas foi compensada pela maior operosidade que tiveram as chamadas Irmandades, Confrarias e Ordens Terceiras, que eram associações de caráter religioso e social, congregando determinados grupos de indivíduos que se distinguiam pela classe social, profissão ou cor da pele. Foram estes agrupamentos, através da construção de seus templos, expressando seu desejo de diferenciação e algumas vezes as rivalidades existentes, que favoreceram o desenvolvimento de uma intensa e original atividade artística, com grande grau de criatividade e não restrita somente à arquitetura, mas englobando também a pintura a escultura, literatura e a música.

Inicialmente, quando do nascimento de uma vila, a prioridade era a construção de uma primitiva capela, geralmente em um local que se tornava a praça principal do lugarejo. Este primeiro templo tornava-se a referência para todos os habitantes, que geralmente estavam acomunados pelas mesmas aspirações. Em seguida, o natural crescimento do lugar conduzia a uma evidente diferenciação social e o vigário, ou os chamados "homens bons" do local, ou seja os brancos, ricos, e tidos como de bom caráter, organizavam duas associações religiosas nas quais deveriam-se agrupar os componentes das duas classes que basicamente formavam a população. A primeira associação correspondia aos interesses dos homens ricos e dos portugueses e a outra aos dos pobres e dos negros escravos ou livres. Estas associações eram, portanto, fortemente caracterizadas pela composição social dos seus membros. Às chamadas Irmandades do Santíssimo Sacramento correspondiam sempre as classes sociais mais ricas e influentes e, em oposição, as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário eram dirigidas pelos pobres. Porém, esta composição inicial não era rígida e quando o desenvolvimento da povoação a tornava ainda mais complexa, surgindo novas categorias intermediárias, também novas ordens terceiras ou confrarias nasciam, cada uma almejando afirmar seu prestígio através da construção de templos cada vez mais imponentes e ricos.

As classes sociais de maiores recursos, através da irmandade mais poderosa, geralmente a do Santíssimo Sacramento, promovia a substituição da primitiva capela por uma Igreja maior chamada Matriz. A Irmandade do Santíssimo Sacramento era normalmente dedicada a Nossa Senhora, nas suas diversas manifestações. Acontecia ainda, que outros agrupamentos sociais, enquanto desprovidos de recursos para a construção de seu templo, continuassem, pelo tempo necessário, a freqüentar a Matriz, onde mantinham altares nas laterais da nave, dedicados a seus santos prediletos.

As Igrejas mineiras eram construídas por etapas, assumindo a sua forma definitiva após muitas modificações e acréscimos que ocorriam durante o decorrer dos anos. Os recursos financeiros para as obras vinham tanto de esmolas quanto das associações religiosas, através de seus membros mais generosos. Portanto, era comum que se construísse inicialmente somente a parte correspondente à sacristia e à capela-mor, que eram cobertas, sendo o edifício provisto de uma fachada provisória. A obra continuava pouco a pouco com a construção da nave, a ornamentação do interior, a execução das fachadas, do telhado definitivo, das torres sineiras e de outras obras.

A lenta construção e demolição da Igreja Matriz da Boa Viagem

Em Curral de El-Rey foi erguida, nos primeiros anos, uma primitiva capela dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem, chamada assim porque homenageava a protetora dos tropeiros e viajantes que tinham o local como um posto de descanso, nas suas longas viagens, não raro conduzindo o gado desde o sertão da Bahia até as cidades das minas. Esta capela teria sido demolida em 1755 ou pouco antes, cedendo lugar a uma imponente igreja matriz, que foi completamente terminada somente em 1793, cerca de quarenta anos após o início das obras.

Matriz da Boa Viagem no Início do Século
Matriz da Boa Viagem no Início do Século

A Igreja apresentava planta retangular, tipo basílica. As fotografias da antiga Matriz a retratam composta dos três elementos característicos dos templos mineiros: A nave, a capela-mor e a sacristia. Ao lado da nave, dois outros volumes mais baixos tinham junto de sua parte anterior duas torres sineiras quadradas. A fachada seguia o esquema típico dos templos mineiros: o triângulo invertido formado pela porta principal e pelas duas janelas rasgadas-por-inteiro do coro. O frontão triangular, em que se abria um óculo de formas trabalhadas, coroava a parte superior.

Ao contrário da quase totalidade das construções existentes no antigo arraial, que foram demolidas para a implantação da nova cidade planejada por Aarão Reis, a Matriz foi preservada por um período de trinta e cinco anos, em decorrência da resistência que inicialmente colocou a Arquidiocese de Mariana, ao negar a autorização de demolição dos templos existentes, antes que se construíssem outros novos. O então velho edifício colonial, que por esta decisão burocrática, sobreviveu ao desaparecimento repentino de um inteiro tecido colonial, do qual era o ponto emergente, veio a sucumbir totalmente somente em 1932, estando já iniciada a construção de uma nova Matriz em estilo neo-gótico, que hoje domina a praça da Boa Viagem.

No trecho abaixo, as palavras de Pedro Nava em 1985, onde relata o que presenciou e a sensação que sentiu durante o período em que era demolida a antiga Igreja da Boa Viagem:

" Nessa ocasião a primeira (A primitiva Igreja Matriz, em 1911) estava sendo demolida e a recente já em funcionamento, posto que ainda por concluir. Vi com meus olhos, estes olhos que a terra há de comer, o velho já sem telhado e seus arquivos postos fora na sacristia meio derrubada onde o sol e a chuva acabavam com aquela papelada, testemunhos dos casamentos, batizados dos curralenses."

Os idealizadores e construtores de Belo Horizonte sonhavam com uma moderna cidade-capital para Minas, que poderia mesmo vir a transformar-se em capital do próprio Brasil.

Veja-se neste sentido o que escreveu Arthur Azevedo em 1901:

" (...)formoso planalto, tão bem escolhido para capital de um grande Estado e que poderia ser - por que não dizê-lo, quando todos o sentem? a própria Capital da República."

Também a este respeito escreveu Machado de Assis:

" Chama-se Belo Horizonte. Eu se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Belo Horizonte parece antes uma exclamação que um nome. ...Quanto à nova capital da República, não é mister lembrar que já está escolhido o território, faltando só a obra de construção e da mudança, que não é pequena."

Matriz da Boa Viagem nos Anos 20 à 30
Matriz da Boa Viagem nos Anos 20 à 30

Contudo era em consonância com as idéias de renovação e progresso, de cunho positivista, muito fortes na época, que foi decidida a substituição Matriz, cujo estilo "de primitiva simplicidade", secundo Camarate, se identificava com o precedente período colonial, opondo-se às modernidades da República, da qual era a nova capital o símbolo. Vê-se, na fotografia feita pouco antes do ano de 1911, a Igreja ainda intacta, inserida na malha da nova cidade. Seu entorno já apresentava algumas alterações preanunciando a remodelação do espaço e a total eliminação do edifício. Ao fundo destacam-se os novos edifícios que se iam erguendo e modificando a paisagem colonial.

Arthur Azevedo, em 1901, deixa seu interessante depoimento sobre a destruição do arraial de Curral d'El Rei:

"Ao meu espírito, ao meu temperamento de "touriste", faltava alguma coisa; a vetustez. Era novo, novinho em folha, tudo quanto eu via; as ruas, as casas, os próprios habitantes, pois é raro encontrar-se alí pessoas velhas.(...)

- "Que diabo! façam-me ver alguma coisa velha!" disse aos obsequiosos cicerones.

- Pois bem, vamos fazer-lhe a vontade mostrando a velha matriz da freguesia do Curral d'El Rei. E, é contentar-se com isso; não temos nada mais velho! Dirigimos-nos então à Igrejinha, que alí está, isolada e tristonha, como uma sentinela perdida no passado. (...) Foi pena que destruíssem tudo quanto era o antigo Curral d'El Rei e não ficasse ali um bairro, uma rua, um alpendre do velho arraial, que lembrasse, embora incompletamente, a fisionomia do passado. Pelo que vi das fotografias tiradas pelo sr. Soucasseaux e dos quadros de Emílio Rouède, que se acham na Prefeitura, havia no arraial alguma coisa que merecia ficar"

Certamente, se procurarmos ver a questão sob uma visão atual, de crescente consciência da importância do patrimônio cultural, podemos nos convencer que o edifício poderia ter sido preservado, sem que isto trouxesse qualquer incoveniente de ordem física ou econômica para nova cidade: o uso religioso que se fazia do edifício era a principal garantia para a sua preservação. No entanto, é interessante notar que o forte referencial simbólico que exercia a Matriz e a Praça impediu que o espaço fosse totalmente desprezado. Aarão Reis desenhou e locou a planimetria de Belo Horizonte de modo a preservar a Praça da Matriz, que resultou inserida em um quarteirão inteiro da nova malha urbana.

Naquele período, menos ainda do que atualmente, era muito pouco difusa e valorizada a noção de preservação e valor histórico e cultural dos bens. A este respeito é curioso notar que foi exatamente durante a década de trinta, em que a indiferença generalizada não impediu a demolição do templo, que os legisladores brasileiros dotaram o Brasil de avançadíssimos instrumentos para a defesa dos bens culturais. Uma lei emanada por Minas Gerais em 1925, havia promovido a catalogação dos bens móveis e determinado a preferência a ser dada ao estado para na compra destes bens. Em 1933, pela primeira vez no mundo, uma cidade, Ouro Preto, foi declarada monumento nacional e a constituição de 1934 previa a tutela dos bens, tendo em 1937 sido criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN, o que colocou o Brasil entre os países pioneiros neste tipo de legislação.

Matriz da Boa VIagem Modificada
Matriz da Boa VIagem Modificada

A descaracterização do edifício da antiga Matriz, tinha começado aos poucos, em 1911, quando Belo Horizonte era ainda uma capital recém-inaugurada. Teriam a Irmandade do Santíssimo Sacramento e o pároco local promovido a demolição da parte frontal do edifício, correspondente às torres sineiras, que estariam em precárias condições estáticas. A fachada principal foi radicalmente modificada, e pelas observações e comparações entre fotografias existentes, nota-se que provavelmente a reforma incluiu a demolição de toda uma parte da edificação. Com certeza foram retiradas as torres sineiras e eliminadas as duas janelas-rasgadas-por-inteiro do coro, substituídas por duas pequenas janelas geminadas. A intervenção criou uma composição nova, que nada tinha das características do colonial mineiro. Na fotografia ao lado, vê-se o aspecto que assumiu o edifício após as modificações feitas na fachada, consonantes com o padrão estético dos novos edifícios que então eram construídos na cidade.

O plano barroco de Aarão Reis para Belo Horizonte, inspirado nas intervenções realizadas em 1853 na Paris de Haussmann, e em exemplos de novas cidades capitais, como a Washington projetada por L'Enfant, perseguia antes de tudo o espaço amplo, a localização privilegiada dos edifícios públicos, e a monumentalidade, usando de recursos como os "efeitos de visibilidade", ou seja, os edifícios de maior importância deveriam ser construídos no cruzamento de grandes avenidas. Em Belo Horizonte a catedral da cidade seria construída no cruzamento das avenidas Contorno com Afonso Pena, local chamado na época "alto do Cruzeiro", hoje Praça Milton Campos.

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