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Belo Horizonte

A história de uma cidade é como a história de uma pessoa. Tem seus altos e baixos, seus momentos alegres e tristes, seus erros e acertos.

Não foi diferente com Belo Horizonte, quando de seu surgimento. Até encontrar seu próprio rumo e sua própria identidade, levou tempo. Um tempo feito de suor, trabalho, decepções, mas também de encontros literários, música e clubes carnavalescos.

Desde sua inauguração, em 12 de dezembro de 1897, até hoje, Belo Horizonte tem muita história para contar, para ensinar e certamente para aprender.

A origem do lugar

A cidade de Belo Horizonte foi construída onde antes havia um arraial chamado Curral del Rei. Essa localidade remonta a um período anterior à república e surgiu com a chegada de um bandeirante, João Leite da Silva Ortiz, em 1701, à serra de Congonhas (hoje, serra do Curral).

Nosso amigo não encontrou ouro, mas gostou do clima e da paisagem e resolveu se estabelecer no lugar. Montou uma fazenda - a Fazenda do Cercado - para criar gado e uma pequena plantação, que progrediu tanto a ponto de atrair pessoas de outros lugares e formar ao seu redor o arraial já citado.

A passagem de muitos forasteiros pelo povoado, indo em direção às minas, fez com que Nossa Senhora da Boa Viagem, a quem os viajantes pediam proteção, se tornasse a padroeira de Curral del Rei.

A cidadezinha vivia basicamente da pequena lavoura, da criação e comercialização de gado e da fabricação de farinha. Algodão, ferro e bronze eram produzidos em algumas poucas fábricas instaladas na região, havendo ainda pedreiras, das quais se extraíam granito e calcário, além de frutas e madeiras que eram vendidas para outras cidades.

Com o ciclo da mineração entrando em decadência, Curral del Rei progrediu ainda mais, com o aumento do número de habitantes - passando de 40 famílias para 18 mil moradores - a construção de suas primeiras escolas e também da Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem.

Esse período de expansão, no entanto, não durou muito. As várias localidades que constituíam o arraial foram se tornando independentes e separando-se dele. Já no final do século XIX, só havia cerca de quatro mil habitantes em Curral de Rei, o que fez decair sua economia e o próprio lugar.

A república e seu Belo Horizonte

Com a Proclamação da República, em 1889, um novo horizonte surge para Curral del Rei: a mudança de seu nome. Os moradores republicanos de Curral del Rei viam nisso uma forma simbólica de enterrar o passado monárquico, para seguir rumo ao novo horizonte da república. Sugeriram, então, que se mudasse o nome da localidade para Belo Horizonte, o que foi recebido e acatado em clima de festa.

Nesse clima de alegria, os habitantes de ex-Curral del Rei souberam da notícia de que ali seria construída a nova capital mineira. Foram três dias de festejos, com bandas, discursos, missa solene e muita dança. Os moradores do lugar sentiam-se orgulhosos com a novidade.

Afinal, antes mesmo da república, os inconfidentes já haviam tentado transferir, sem sucesso, a sede do Governo do Estado, em Ouro Preto, para São João Del Rey, em 1879.

Acontece que, no caso de Belo Horizonte, não se tratava apenas de uma mera transferência de sede, mas da construção de uma nova cidade, que em nada lembrasse o passado colonial, tão presente na memória de Ouro Preto. Ou seja, o objetivo era erguer uma capital de arquitetura moderna, que representasse um estado politicamente forte.

Isto, obviamente, trouxe para os habitantes da antiga Curral del Rei um sentimento de euforia e satisfação. O que eles não sabiam é que não havia lugar para eles nos planos dos construtores. A nova capital, que tinha prazo máximo de quatro anos para ficar pronta, seria inaugurada excluindo os genuínos moradores do lugar.

Surge Belo Horizonte

A inauguração de Belo Horizonte aconteceu no dia 12 de dezembro de 1897, sem que sua construção tivesse sido concluída totalmente. Obras inacabadas, comércio em crise, ritmo industrial praticamente parado, desemprego e salários atrasados: este era o quadro da tão sonhada Belo Horizonte em seus primórdios.

Sem falar que a cidade havia sido projetada para acomodar a elite – funcionários do governo ou simplesmente quem possuía dinheiro para adquirir as novas propriedades. Os antigos moradores tiveram suas casas desapropriadas e demolidas, mas não tiveram condições de comprar outro imóvel.

A conseqüência natural desse processo foi o surgimento de favelas nos arredores da cidade, habitadas pelos horizontinos desalojados e pela massa trabalhadora que construiu a capital e não tinha onde ficar.

Outra conseqüência foi a sensação de tédio e decepção. A aparência inacabada da capital, com suas ruas e avenidas largas, aspecto empoeirado e inóspito, causava impressão de abandono. Além do mais, não havia diversão para os poucos primeiros habitantes da cidade. Esta manteve, por certo tempo, um ar de lugar desabitado, sem vida, sem ninguém.

Surge a vida em Belo Horizonte

O tédio inicial que marcou a cidade foi sendo quebrado por iniciativas de jovens que fundaram clubes, com o intuito de promover bailes, festas e encontros literários. Mas foi entre os anos de 1905 e 1919 que a vida social de Belo Horizonte começou a ser mais agitada, com a inauguração de vários cinemas e do elegante Teatro Municipal, em 1909.

A partir dos anos 20, a capital é marcada por uma fase romântica. É dessa época o nascimento de uma geração de escritores modernistas, como Carlos Drummond de Andrade, Abgar Renault, Cyro dos Anjos e Pedro Nava, entre outros.

Carros e ônibus já circulam junto com os bondes pela capital, carinhosamente apelidada de Cidade-Jardim, por causa de suas árvores ao longo das ruas, quintais e pomares.

Nessa época são criados o Conservatório Mineiro de Música, a Universidade de Minas Gerais e o Automóvel Clube. São realizadas ainda grandes obras, como o viaduto de Santa Tereza, a nova Matriz da Boa Viagem e o Mercado Municipal.

Na década de 30, a onda de progresso continua, com o surgimento de novos bairros e com a inauguração de duas rádios: a Rádio Mineira (1931) e a Rádio Inconfidência (1936).

Mas é nos anos 40 que Belo Horizonte ganha ares de metrópole, nas mãos do então prefeito Juscelino Kubitschek, que promove um surto de desenvolvimento na cidade.

Praça da Estação
Praça da Estação

A mais importante obra desse período é o Complexo Arquitetônico da Pampulha (1943), composto da Igreja de São Francisco de Assis, da Casa do Baile, do Cassino e do Iate Golf Clube. Assinava o projeto o jovem arquiteto Oscar Niemeyer.

Em 1950, a recém-inaugurada TV Itacolomi marca uma época da cidade que sofre forte influência do estilo americano de viver, o chamado american way life.

Igreja da Pampulha
Igreja da Pampulha

Casa do Baile
Casa do Baile

Crescimento desordenado e redescoberta

Arranha-céus, demolição de casas, retirada de árvores e asfalto por toda a parte era a imagem da Belo Horizonte dos anos 60. Da Cidade Jardim, com seus verdes arvoredos, já não restava mais nada: virou passado nostálgico dos poetas mineiros.

O rápido crescimento da cidade faz surgir modernos edifícios e indústrias em expansão, mas também traz, conseqüentemente, o surgimento de favelas, devido ao aumento das desigualdades sociais.

Na década de 70, por sua vez, a capital cresce desordenadamente, tornando a população cada vez mais densa.

Mas este salto acelerado e sem planejamento da paisagem urbana acaba por fazer nascer no cidadão belo-horizontino uma consciência ecológico-histórica sobre o lugar em que vive.

Estádio do Mineirão
Estádio do Mineirão

E ao longo dos anos 80, as obras executadas na cidade são baseadas em uma nova mentalidade, mais preocupada com alternativas e melhorias do espaço modificado e com a memória local. Decorre disso o tombamento de vários prédios importantes para a história de Belo Horizonte.

Esta preocupação continua na década seguinte e, em 1992, foi criado o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, para tratar de tombamentos.

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