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Paraty

Fundada em meados do século XVII, a pequena cidade de Paraty, localizada a sul do Rio de Janeiro, viu reconhecido o seu interesse arquitectónico na década de 50, quando foi classificada pelo Instituto do Património Histórico Nacional. E ainda hoje Paraty possui um dos núcleos urbanos mais harmoniosos de todo o Brasil, conservando muitos aspectos que testemunham a herança arquitectónica portuguesa.

PARATY, ENTRE A SERRA E O MAR

Igreja colonial, Paraty, Brasil
Igreja colonial, Paraty, Brasil

É uma cidadezinha alva e plana, deitada entre a mata atlântica e o mar, uma cidade pequena, com uma escala humana e acolhedora. No centro histórico, o velho traçado dos tempos coloniais mantém-se intacto, com as suas ruelas estreitas, a calçada de pedra irregular - conhecida por pé-de-moleque -, as casinhas térreas alternando com casarões de perfil mais aristocrata e a cor branca, omnipresente, ritmada pelos tons azuis e verdes dos rodapés que celebram a natureza exuberante que enquadra Paraty.

O centro, fechado ao trânsito automóvel, é bordejado pelo rio Perequê-Açu e pelo mar, elemento marcante na história da povoação. Paraty é um povoado marítimo, condição que impregna tanto a sua história como as paredes do casario, cujas técnicas de construção testemunham essa ligação de raiz que ainda hoje marca algumas das actividades quotidianas da população como a pesca ou os périplos de barco pelas ilhas com os turistas.

PARATY, CIDADE FUNDADA E REDESCOBERTA POR PAULISTAS

Muito antes da chegada dos colonizadores, os índios Guayaná, os habitantes originários de Paraty, utilizavam os caminhos da Serra do Mar. Depois da descoberta de ouro em Minas Gerais, a velha Trilha dos Guayanases passou a ser percorrida por caravanas que traziam o precioso metal até à beira-mar a fim de ser embarcado para o Rio de Janeiro ou para a Europa.

Este tráfego, assim como o do café cultivado nas fazendas do Vale do Paraíba, trouxe prosperidade à povoação e, em meados do século XVIII, Paraty afirmava-se como um importante entreposto comercial - chegou a ser a segunda cidade portuária do Brasil -, com uma importante vida social e cultural. No capítulo da arquitectura, era já notório o perfil dos seus casarões, edificados com recurso a técnicas e materiais que articulavam a matriz portuguesa com a invenção local.

Paraty é uma cidade graciosa
Paraty é uma cidade graciosa

Mais tarde, nos alvores do século XIX, a riqueza de Paraty, sustentada também numa agricultura próspera, no cultivo local do café e na produção de uma aguardente apreciadíssima, permitia luxos arquitectónicos que atestavam outras influências, a avaliar pela popularidade dos ladrilhos franceses.

Mas atrás desses tempos vieram outros, os do esgotamento das minas, da abolição da escravatura, da ruína dos cafezais do Vale do Paraíba e do arredar da povoação das rotas comerciais. Muito mais tarde, já no século XX, a construção da estrada marginal Rio-Santos veio contribuir para a redescoberta deste relicário de arquitectura colonial. Curiosamente, tal como ao tempo da sua fundação, os paulistas terão sido os primeiros protagonistas do renascimento de Paraty, por volta de 1962. Actualmente, muitas das casas da povoação constituem residências de férias de paulistas e cariocas.

PAISAGEM E AMBIENTE URBANO DE PARATY SOB PROTECÇÃO

A notável preservação arquitectónica da cidade, cujo centro histórico foi objecto de “tombamento” (classificação) pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) na década de 50 do século passado, deve-se fundamentalmente à construção de uma nova estrada entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais e à introdução do transporte ferroviário. Em meados do século XIX, o isolamento progressivo e a decadência começaram a tomar conta de Paraty, o que se tornou decisivo para a preservação do figurino colonial da cidade.

Mas a preservação da pequena cidade deve-se também a um conjunto de legislação que condiciona as intervenções em toda a área urbana e protege, também, toda a paisagem envolvente, ao contrário do que acontece(u) com Angra dos Reis. Efectivamente, Não é apenas o centro histórico de Paraty que está classificado e protegido. Existe legislação específica de protecção do entorno urbano e da paisagem natural constituída pela Serra do Mar e pela mata atlântica por onde se cruzavam outrora os caminhos que ligavam o porto de Paraty a Minas Gerais e a São Paulo. É precisamente a estes condicionamentos que se deve a ausência de uma periferia urbana desorganizada e agressiva como podemos ver na vizinha Angra dos Reis, rodeada hoje de favelas e de construções incaracterísticas.

Mas o que mais distingue Paraty de outras povoações históricas brasileiras talvez seja a leitura singela da arquitectura popular portuguesa. Na tipologia das casas de Paraty encontramos um modelo efectivamente mais simples do que o que caracteriza outras cidades históricas brasileiras. Imperam casas térreas com poucas divisões, mas dos tempos coloniais ficaram alguns sobrados, edifícios de maiores dimensões, com dois pisos, alguns dos quais acolhem serviços públicos, espaços culturais ou acabaram afectos à actividade turística.

ARES DE VELHA DAMA

Cariocas e paulistas possuem casas de férias em Paraty e o turismo, que leva milhares e milhares de viajantes anualmente à cidade, constitui hoje uma das principais fontes de rendimento da população. A cidade tem muita oferta, quer em termos de actividades de ecoturismo (na serra e no mar), quer ao nível de alojamento, com muitos sobrados bem conservados transformados em pousadas - como a Pousada do Sandi, uma bela casa do século XVIII. Muitos dos seus habitantes mantêm-se envolvidos nas actividades marítimas, pesca ou oferta de passeios turísticos pelas ilhas, artesanato, restauração ou pequeno comércio.

Paraty é, realmente, uma das povoações brasileiras de maior afluxo turístico, particularmente no Verão ou por ocasião das festas mais importantes: a de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da cidade, a de S. Benedito, patrono dos escravos, e a do Divino Espírito Santo, levada para o Brasil por colonos dos Açores. Nessas épocas, o sossego escasseia e o número de residentes multiplica-se extraordinariamente. Mas, mesmo assim, o calendário ainda reserva alguns dias tranquilos em que o ritmo da povoação se faz ao sabor do vaivém dos barcos de pesca, dias em que as palavras de Carlos Drummond de Andrade voltam a reaver sentido e Paraty se reafirma, como em tempos idos, "uma das mais lindas cidades do Brasil, com ares de velha dama à beira-mar sentada, atraindo pintores, poetas e contemplativos, gente de olhos e ouvidos fatigados pelo caos..."


Paraty e a Serra do Mar, Brasil


Maré alta em Paraty


Barcos de recreio na baía de Paraty, estado do Rio de Janeiro, Brasil


Mercado de Paraty, Brasil


Centro cultural em Paraty, Brasil


Casario colonial em Paraty, Brasil

Fonte: www.almadeviajante.com