
Carl Gustav Jung
Jung escreveu que,
"Assim, como o nosso corpo é um verdadeiro museu de órgãos, cada um com a sua longa evolução histórica, devemos esperar encontrar também na mente uma organização análoga. Nossa mente não poderia jamais ser um produto sem história, em situação oposta ao corpo em que existe. Por ‘história’ não estou querendo me referir àquela que a mente constrói através de referências conscientes ao passado, por meio da linguagem e de outras tradições culturais; refiro-me ao desenvolvimento biológico, pré-histórico e inconsciente da mente no homem primitivo, cuja psique estava muito próxima à dos animais.
Esta psique, infinitamente antiga, é a base da nossa mente, assim como a estrutura do nosso corpo se fundamenta no molde anatômico dos mamíferos em geral. O olho treinado do anatomista ou do biólogo encontra nos nossos corpos muitos traços deste molde original. O pesquisador experiente da mente humana também pode verificar as analogias existentes entre as imagens oníricas do homem moderno e as expressões da mente primitiva, as suas ‘imagens coletivas’ e os seus motivos mitológicos.
Assim como o biólogo necessita da anatomia comparada, também o psicólogo não pode prescindir da ‘anatomia comparada da psique’. Em outros termos, o psicólogo precisa, na prática, ter experiência suficiente não só de sonhos e outras expressões da atividade inconsciente mas também da mitologia no seu sentido mais amplo. Sem esta bagagem intelectual ninguém pode identificar as analogias mais importantes, não será possível, por exemplo, verificar a analogia entre um caso de neurose compulsiva e a clássica possessão demoníaca sem um conhecimento exato de ambos." (JUNG, 1977: 67).
O excerto acima, extraído de O Homem e seus Símbolos, sintetiza, grosso modo, a visão de Jung e seu método de pesquisa sobre a mente humana.
Jung, antes de decidir pelos estudos médicos, tinha uma atração pela arqueologia. Num certo sentido, ele não deixou inativa, no seu trabalho de médico, de professor e de pesquisador, sua vocação arqueológica. Assim como Foucault desenvolveu uma arqueologia do saber, podemos afirmar que Jung desenvolveu uma arqueologia do funcionamento mental.
Portanto, sua pesquisa não se restringiu entre quatro paredes do consultório. Realizou várias viagens com o objetivo de conhecer a alma humana: em 1921, África do Norte; em 1924-1925, conviveu com os Índios Pueblo da América e em 1925-1926 no Monte Elgon na África Oriental Inglesa. Essas viagens proporcionaram não só a descoberta da significação cósmica da consciência, mas também a constatação de que aos olhos dos homens dessas culturas distantes refletiam o homem branco, o europeu, o civilizado, enfim, o colonizador, como "ave de rapina".
Segundo Nise da Silveira,
"Jung era um homem alto, bem construído, robusto. Tinha um vivo sentimento da natureza. Amava todos os animais de sangue quente e sentia-se com eles ‘estreitamente afim’. Amava as escaladas das montanhas, porém preferia velejar sobre o lago de Zurique. Possuía seu barco próprio. Na mocidade passava às vezes vários dias velejando em companhia de amigos, que se revezavam no leme e na leitura em alta voz da Odisséia. Igualmente velejava sozinho e o fez até idade bastante avançada." (SILVEIRA, 1978: 16).
Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, cantão de Thurgau, Suíça, a 26 de julho de 1875. O pai, Paul Achilles Jung, era pastor da Igreja Reformada da Suíça. Seu avô paterno, do qual Jung recebeu o mesmo nome, segundo rumores que corriam na época, era filho ilegítimo do escritor Johann Wolfgang Goethe.
Em 1903 contraiu núpcias com Emma Rauschenbach. O casal teve cinco filhos: Agathe, Anna, Franz, Marianne, Emma. A esposa, fiel seguidora de Jung, foi analisada por ele próprio.
Formou-se médico pela Universidade da Basiléia em 1900 e trabalhou como assistente no Burghölzli Mental Hospital da Clínica Psiquiátrica de Zurique. Foi assistente e depois colaborador de Eugen Bleuler que desenvolveu o conceito de esquizofrenia. Em 1909 deixou o hospital e em 1913 o ensino universitário.
Depois de deixar a carreira universitária em 1913, na época da Primeira Guerra Mundial, Jung passou por um período de intensa solidão, depressão, crise interior e reflexão, embora, nessa época, aos 38 anos, já era um psiquiatra de renome na Europa e na América. Foi nesse período que elaborou os fundamentos de suas idéias sobre a alma humana.
Em 1919, a partir da noção de imago, Jung elaborou a noção de arquétipo,
"para definir uma forma preexistente inconsciente que determina o psiquismo e provoca uma representação simbólica que aparece nos sonhos, na arte ou na religião. Os três principais arquétipos são o animus (imagem do masculino), a anima (imagem do feminino) e selbst (si-mesmo), verdadeiro centro da personalidade. Os arquétipos constituem o inconsciente coletivo, base da psique, estrutura imutável, espécie de patrimônio simbólico próprio de toda a humanidade. Essa representação da psique é complementada por ‘tipos psicológicos’ isto é, características individuais articuladas em torno da alternância introversão/extroversão, e, por um processo de individuação, que conduz o ser humano à unidade de sua personalidade através de uma série de metamorfoses (os estádios freudianos). A criança emerge assim do inconsciente coletivo para ir até a individuação, assumindo a anima e o animus." (ROUDINESCO e PLON, 1998: 422).
Vários de seus trabalhos foram inicialmente apresentados como conferências nas reuniões científicas internacionais (Euranos) em Ascona. Esses trabalhos eram posteriormente ampliados e transformados, muitos anos depois, em livros. Suas obras completas em inglês totalizam 18 volumes. Desenvolveu uma escola psicológica e de psicoterapia que foi denominada de Psicologia Analítica ou Psicologia Complexa, que se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Estados Unidos, Itália e Brasil. Recebeu muitas honrarias, entre elas o grau honorário da Universidade de Harvard e da Universidade de Oxford. Dezenas de estudos, artigos e comentários foram escritos sobre Jung.
Uma característica importante do pensamento de Jung é a combinação entre causalidade e teleologia, ou seja, o comportamento do homem é condicionado tanto pela sua história individual e racial (causalidade), o passado; quanto pelas suas aspirações ou alvos (teleologia), o futuro.
Também, como base do conceito de sincronicidade, acontecimentos que ocorrem ao mesmo tempo, mas que um não causa o outro, Jung argumentou que o pensamento causa a materialização da coisa pensada:
"(...) A psique tem duas condições importantes. Uma é a influência ambiental e a outra é o fato dado da psique quando ela nasce. (...) Tudo que você faz aqui, tudo isto, todas as coisas, foram fantasias para começar e a fantasia tem uma realidade própria. A fantasia, como você vê, é uma forma de energia, a despeito de não podermos medi-la. E assim, acontecimentos psíquicos são fatos, são realidades. E quando você observa o fluxo das imagens internas, observa um aspecto do mundo, do mundo interior, porque a psique, se você a entende como um fenômeno que tem lugar nos chamados corpos vivos, é uma qualidade da matéria, como nosso corpo consiste de matéria." (EVANS, 1979: 334-335).
Respeitáveis pensadores foram favoráveis à hipótese da unidade psicofísica dos fenômenos. Wolfgang Pauli, prêmio Nobel de física em 1945, declarou-se convencido da necessidade de pesquisar a origem interior de nossos conceitos científicos. Produziu um estudo sobre as idéias arquetípicas relacionadas as teorias de Kepler. A publicação de Interpretação da Natureza e Psique foi resultado da aproximação de Pauli e Jung.
As idéias de Jung abriram uma nova dimensão para compreender as diversas expressões da mente humana na cultura. Assim,
"Encontra, por toda parte, os elementos de suas pesquisas: em mitos antigos e em contos de fada modernos; nas religiões do mundo oriental e ocidental, na alquimia, na astrologia, na telepatia mental e na clarividência; nos sonhos e visões de pessoas normais; na antropologia, na história, na literatura e nas artes; e na pesquisa clínica e experimental." (HALL e LINDZEY, 1973: 122).
Apesar de severamente criticado por simpatia e apoio ao nazismo, Jung alegou, bem como seus companheiros, ter sido mal interpretado em seus escritos. O texto A Situação Presente da Psicoterapia, publicado por Jung em janeiro de 1934 na Zentralblatt für Psychoterapie (ZFP), revista da Sociedade Alemã de Psicoterapia (AÄGP), na qual Jung havia assumido o lugar de Ernst Kretschmer em 1933, estava sob controle de Mathias Heinrich Göring, admirador confesso da Führer e que chegou a pedir aos psicoterapeutas da AÄGP que fizessem do Mein Kampf o fundamento da ciência psicológica do Reich.
No referido texto, Jung distinguiu o inconsciente "judeu" do "ariano", que este teria um potencial superior ao primeiro; e de que Freud nada compreendia da psique alemã. Em resposta a um veemente ataque do psiquiatra Gustav Bally em 1934, Jung, em março do mesmo ano, publicou como defesa e esclarecimento o artigo Zeitgnössiches, no qual expunha sobre as diferenças entre raças e psicologias, combatendo a psicologia uniformizante como a de Freud e a de Adler.
É possível que as acusações a Jung fossem ressentimentos alimentados desde o rompimento com Freud. Jung tinha entre seus discípulos mais próximos pessoas de origem semita, mas a comunidade internacional junguiana ficara dividida quanto à questão. O psicoterapeuta Andrew Samuels, da Sociedade Londrina de Psicologia Analítica, em 1992 publicou um artigo comentando, que tal como ele, adepto do culturalismo, Jung aderira à ideologia nazista por instaurar uma psicologia das nações. Samuels conclamou os pós-junguianos a reconhecer a verdade. O artigo polêmico de 1934 foi retirado da lista "completa" das declarações de Jung de 1933 e 1936, por ocasião da publicação do número especial dos Cahiers Jungiens de Psychanalyse (França) dedicado a esse tema. Com isso, os comentadores isentaram Jung da suspeita de anti-semitismo (Cf. ROUDINESCO e PLON, 1998: 424).
Em 1944 foi fundada na Universidade da Basiléia, especialmente para Jung, uma cadeira de psicologia médica.
Jung faleceu em 6 de junho de 1961 em sua casa de Küsnacht.
Ainda nessa época,
"seus adversários continuavam a tratá-lo de colaboracionista, enquanto seus amigos e próximos afirmavam que ele nunca participara da menor tomada de posição em favor do nazismo ou do anti-semitismo." (ROUDINESCO e PLON, 1998: 424).
Jung considerou restrita a visão de Freud sobre a vida mental, fundamentada na sexualidade. Considerou que os conceitos freudianos abarcavam apenas uma parte da vida mental. Freud, assim, teria ficado restrito ao estudo das neuroses no âmbito do inconsciente individual. Jung, além do inconsciente individual, constatou a existência do inconsciente coletivo, resultante de repetidas experiências comungadas na aurora do homem. Consequentemente, a análise dos sonhos e a dos símbolos ultrapassam, na visão junguiana, a manifestação singular da vida mental e emocional do sujeito, mas deste sujeito como parte do universal, de todas as experiências humanas. Em outros termos, a análise das neuroses teria como enfoque o inconsciente individual e os chamados pequenos sonhos da vida ordinária ou cotidiana; enquanto que os grandes sonhos, de cunho universal, de expressões de arquétipos do inconsciente coletivo.
Para Freud, a vida mental é de cima para baixo, ou seja, a repressão de vivências e experiências para as profundezas do inconsciente, ao mesmo tempo que ela tenta evitar ou distorcer conteúdos inconscientes, geralmente de cunho sexual e agressivo, chegarem à consciência, por serem talvez dolorosos demais para o ego suportar. Para Jung, conteúdos inconscientes, em especial do coletivo, os arquétipos, emergem na consciência, independente do trabalho da repressão ou da vontade do sujeito.
O foco de pesquisa de Freud eram as neuroses, principalmente a histérica, atendendo em seu consultório, a princípio, mulheres da alta burguesia vienense com esse transtorno. E considerou, na sua época, a dificuldade de analisar pacientes psicóticos, pois, para ele, a psicose seria praticamente incurável. Jung, desde o início de sua prática clínica, trabalhou com indivíduos diagnosticados como esquizofrênicos, pois, seus estudos a respeito, realizados em 1907 e 1908, demonstravam que a sintomatologia psicótica possuía um sentido, por mais absurda que pudesse parecer. Com o tempo, constatou uma convergência daquilo que estudava sobre os mitos, símbolos, religiões com as expressões mentais e emocionais dos psicóticos.
Aristóteles discordava de Platão e de Sócrates, para os quais as mulheres deveriam ser iguais aos homens na república e de que ambos são iguais na coragem, respectivamente, porque para Aristóteles,
"A mulher é um homem inacabado, deixada de pé num degrau inferior da escala do desenvolvimento." (Cf. DURANT, 1996: 97).
Embora fundamentando a psicanálise na bissexualidade como corolário da organização monista da libido, isto é, a necessidade do sujeito escolher um dos dois componentes da sexualidade, e dado o contexto repressivo da época sobre essa questão; Freud, apesar de postular nova forma de compreender a sexualidade, no entanto não evitou a arcaica, porém culturalmente sedimentada, visão aristotélica sobre a mulher, conceituando-a também como ser incompleto ao desenvolver suas idéias sobre a inveja do pênis. Jung, entretanto, elaborou a noção dos arquétipos de animus (imagem do masculino) e anima (imagem do feminino). Assim, animus é a masculinidade existente no psiquismo da mulher e anima a feminilidade inconsciente no homem.
Enfim, Freud dava ênfase à biologia como substrato do funcionamento psíquico; enquanto Jung desenvolveu uma teoria mais fundamentada nos processos psicológicos.
Uma biografia de Jung seria incompleta, mesmo que limitada ou modesta, se algumas das diferenças não fossem apontadas. A dissidência de Jung é um fato histórico importante do movimento psicanalítico porque não implicou apenas em discordância teórica, mas no desenvolvimento de uma nova escola, a Psicologia Analítica:
"Profundamente satisfeito em desenvolver sua própria psicologia, Jung afirmou mais tarde que não sentiu o rompimento com Freud como uma excomunhão ou um exílio. Foi uma libertação para si. (...) Sem dúvida, o que Jung extraiu desses anos foi mais do que uma briga pessoal e uma amizade rompida; ele criou uma doutrina psicológica reconhecivelmente sua." (GAY, 1989: 227).
Jung, em abril de 1906, enviou a Freud os seus Estudos Diagnósticos de Associação (Diagnostisch Assoziationsstudien), iniciando uma longa troca de correspondência, num total de 359 cartas. Tal abriria para a psicanálise, numa discussão que envolvia Jung, Freud e Bleuler na exploração do campo das psicoses, especialmente sobre a dementia praecox, como era conhecida a esquizofrenia, o auto-erotismo e o autismo.
Em 27 de fevereiro de 1907, Jung foi visitar Freud em Viena. Nesse primeiro encontro conversaram por cerca de 13 horas. Freud, reconhecendo a capacidade de Jung, viu nele a possibilidade de fazer com que a psicanálise ampliasse fronteiras para além do círculo judaico. Em um carta de 16 de abril de 1909, Freud definiu Jung como "um filho mais velho" e um "sucessor e príncipe coroado". (Cf. SILVEIRA, 1978: 15).
Em 1909, Freud e Jung foram aos Estados Unidos para as comemorações do vigésimo aniversário da Clark University. Na ocasião Freud pronunciou As Cinco Conferências sobre Psicanálise e Jung apresentou seus estudos sobre as associações verbais.
Entre 1907 e 1909, Jung fundou a Sociedade Sigmund Freud de Zurique. Em 1908 ocorreu a fundação, durante o Congresso Internacional em Salzburg, do primeiro periódico psicanalítico, Jahrbuch für Psychoanalytische und Psychopathologische Forrchungen, do qual Bleuler e Freud eram os diretores e Jung o editor. Em 1910, em Nuremberg, foi fundada a Internationale Psychoanalytische Vereinigung (IPV), mais tarde denominada de International Psychoanalytical Association (IPA). Por influência de Freud, contrariando adeptos vienenses judeus, Jung foi eleito o primeiro presidente da IPV. Em setembro de 1911, Jung foi reeleito presidente da IPV no Congresso Internacional de Weimar.
No entanto, já no primeiro encontro em 1907 entre Freud e Jung, este já tinha um conceito de inconsciente e do psiquismo, especialmente influenciado por Pierre Janet e Théodore Flournoy, bem como já discordava das idéias freudianas sobre a sexualidade infantil, o complexo de Édipo e a libido. Jung aproximou-se de Freud porque acreditava que a obra de Freud pudesse confirmar suas hipóteses sobre as idéias fixas subconscientes, as associações verbais e os complexos, além de ver Freud como ser excepcional com o qual poderia discutir sobre a vida mental.
Em 1912, Jung preparou a publicação de Metamorfoses e Símbolos da Libido, cujas idéias discordavam completamente da teoria freudiana da libido, tornando evidente o conflito entre ele e Freud. Jung tentou mostrar a Freud a importância de diminuir a ênfase na questão da sexualidade da doutrina freudiana, até como forma da psicanálise ser melhor aceita. Freud, em 1913, depois de uma síncope durante o jantar do congresso da IPA em Munique, rompeu oficialmente com Jung.
Em outubro de 1913, Jung renunciou ao cargo de editor do periódico e em 20 de abril de 1914 renunciou da IPA.
Mas a gota d’água para a causa do rompimento teria sido um simples acontecimento. Freud foi visitar Ludwig Binswanger em Kreuzlingen, que havia sido operado de um tumor maligno, e não passou por Küsnacht, cerca de 50 quilômetros de Kreuzlingen, para visitar Jung, o qual se sentiu ofendido com esse gesto de Freud (Cf. ROUDINESCO e PLON, 1998: 422).
Conforme Nise da Silveira,
Eram ambos personalidades demasiado diferentes para caminharem lado a lado durante muito tempo. Estavam destinados a defrontar-se como fenômenos culturais opostos." (SILVEIRA, 1978: 15).
26 de julho de 1875: nascimento de Carl Gustav Jung em Kesswil, cantão de Thurgau, Suíça. O pai é pastor protestante.
1879: a família muda-se para uma aldeia próxima de Basiléia.
1886-1895: estudos secundários no colégio de Basiléia.
1895-1900: Jung estuda medicina na Universidade de Basiléia e interessa-se pela psiquiatria.
1900: em dezembro torna-se médico adjunto do prof. Eugen Bleuler, diretor da clínica psiquiátrica do Hospital Burghölzli da Universidade de Zurique.
1902: defesa de Tese de Doutorado (Psicopatologia e Patologia dos Fenômenos Ditos Ocultos). É um estudo de caso sobre uma jovem médium espírita, no qual Jung interpreta as manifestações dos espíritos como personificações da própria médium.
1902-1903: estágio e estudo em Paris (Salpêtrière), seguindo o ensino de Pierre Janet.
1903: casa com Emma Rauschenbach, de quem terá cinco filhos. Primeiros trabalhos sobe as associações de idéias e a teoria dos complexos.
1905: assume posto logo abaixo de Bleuler no Burghölzli. É nomeado Privat-Dozent. Ministra cursos sobre hipnose.
1906: publica Estudos Sobre Associações.
1907: primeiro encontro com Freud em 27 de fevereiro. Publica A Psicologia da Demência Precoce.
1908: Publicação de O Conteúdo das Psicoses.
1909: viagem aos EUA com Freud, onde pronunciam conferências na Universidade Clark. Deixa Burghölzli para instalar-se em Küsnacht, na Seestrasse 228, às margens do lago de Zurique, residência que ocupará até a sua morte. É colaborador no ensino de psiquiatria na Universidade de Zurique até 1913.
1909: funda a Sociedade Sigmund Freud de Zurique. Demite-se do Burghölzli.
1910: participa com Freud da fundação da Internationale Psychoanalytische Vereinigung (IPV), mais tarde denominada de International Psychoanalytical Association (IPA). Por influência de Freud é eleito presidente.
1912: publicação de Metamorfoses e Símbolos da Libido, causando várias divergências com Freud.
1913: Freud rompe com Jung. Renuncia ao título de Privat-Dozent.
1914: conferências no BedFord College em Londres (Sobre a Compreensão psicológica e Sobre a Importância do Inconsciente em Psicopatologia; A Estrutura do Inconsciente) e participa de um Congresso Médico em Aberdeen.
1916: forma-se em torno de Jung o Clube Psicológico de Zurique. É publicado As Relações Entre o Ego e o Inconsciente (ampliação de A Estrutura do Inconsciente).
1917-1919: é nomeado médico chefe do campo de prisioneiros ingleses em Château-d’Oex e posteriormente em Mürren.
1918: publica Sobre o Inconsciente.
1920: publica Os Tipos Psicológicos.
1921-1926: viaja pela África, América Central e Índia.
1930: presidente de Honra da Sociedade Médica Alemã de Psicoterapia.
1933: ministra cursos livres na Escola Politécnica Federal.
1934: ministra de 1 a 6 de outubro Seminário da Basiléia, O Homem à Descoberta da Sua Alma.
1935: na Escola Politécnica torna regular seu curso e o tema é sobre Psicologia Analítica.
1943: publica Psicologia do Inconsciente.
1944: A Universidade da Basiléia cria para Jung a cadeira de Psicologia Médica, a qual abandonará em 1946 por problemas de saúde. Publica Psicologia e Alquimia.
1946: publicação de Psicologia da Transferência.
1948: o Clube Psicológico de Zurique torna-se o Instituto C. G. Jung.
1952: publica Resposta a Job.
1954: publica Arquétipo Mãe.
1955: publica Misterium Coniunctionis.
1957: fundação da Sociedade Suíça de Psicologia Analítica. Publicação de Presente e Futuro.
1958: publica Um Mito Moderno.
1957-1959: redige sua autobiografia.
6 de junho de 1961: morre em Küsnacht, à beira do lago de Zurique.
AKOUN, André. Carl Gustav Jung. Em: Psicologia Moderna, Vol. 4: Os 10 Grandes do Inconscientes (pp.106-131). Lisboa/S. Paulo: Verbo, 1979.
CABRAL, Álvaro; OLIVEIRA, Eduardo Pinto de. Uma Breve História da Psicologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
DURANT, Will. A História da Filosofia. (Os Pensadores). Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996.
EVANS, Richard Isadore. Construtores da Psicologia. (Entrevista com C. G. Jung, pp. 326-338). São Paulo: Summus: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1979.
GAY, Peter. Freud: Uma Vida Para o Nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
HALL, Calvin S.; LINDZEY, Gardner. Teorias da Personalidade. São Paulo: EPU, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1973.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
MARX, Melvin H.; HILLIX, William A. Sistemas e Teorias em Psicologia. São Paulo: Cultrix, 1974.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, pp. 421-424.
Fonte: www.psicologia.org.br

Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.
Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada mas, as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.
O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.
Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.
Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.
Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.
Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.
Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.
Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.
Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.
A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.
Dentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. Tais Arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina as características do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparo os Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo - em cima formas arredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma sem conteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou o meio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existem antecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas isso depende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais.
Jung também chama os Arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os Arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.
A história de Édipo é uma boa ilustração de um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situações ligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos pais com os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante.
O termo Arquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.
Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa.
Jung escreveu que cada uma das principais estruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.
De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada.
Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.
Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.
Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.
Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somos compelidos a prestar atenção neles.
Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.
Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.
Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.
Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida sua própria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado deva adaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar desse diálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo, com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.
O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente.
De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.
Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras "pessoa" e "personalidade" também estão relacionadas a este termo.
A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.
Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.
Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.
Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.
A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.
Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.
À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente
reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é
apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito
de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e
é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos,
a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual
a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo
Ego e pela Persona.
No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá
de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda,
consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos
lá.
Fonte: www.psiqweb.med.br