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A Arte da Capoeira

Camille Adorno

PREFÁCIO

Herança africana legada à cultura brasileira, o jogo da Capoeira significa valioso contributo à formação da nossa identidade cultural.

Neste livro estabelecemos os caracteres delineadores da Capoeira, propiciando uma oportunidade de iniciação à arte. Na leitura desse tema ampliam-se as possibilidade de compreensão da nossa história, onde se insere a Capoeira e que preservou a lembrança das lutas sociais que forjaram a cidadania brasileira.

Esta obra é um passo para se promover o resgate das tradições da Capoeira divulgando essa bela expressão nacional.

Kleber Adorno

I O CAMINHO DA CAPOEIRA

“Em nome do Deus de todos os nomes Javé, Obatalá, Olorum, Oió.

Em nome de Deus, que a todos os Homens nos faz da ternura e do pó.

Em nome do Povo que espera na graça da fé, à voz do Xangô o Quilombo Páscoa que o libertará.

Em nome do Povo sempre deportado pelas brancas velas no exílio dos mares marginalizados no cais, nas favelas e até nos altares.

Em nome do povo que fez seu Palmares, que ainda fará Palmares de novo Palmares, Palmares, Palmares do Povo.” missa dos Quilombos

O QUE É A CAPOEIRA?

'Os negros usavam a Capoeira para defender sua liberdade.' Mestre Pastinha

Capoeira é luta, jogo e dança. Brincadeira de movimentos perigosos executados com graça, malícia e muitos rituais. Dança negra em que prevalece a agilidade da esquiva e a esperteza da fuga. Os pés que deslizam sobre o chão podem desferir golpes fatais: de repente, ante os olhos surpresos do adversário, o gesto rápido. O ataque fulminante. Então, prostrado, o inimigo se dá conta de que foi vítima da mandinga. Isto, se ainda tiver vida... Essa dança - enquanto forma de expressão corporal - possui uma linguagem onde cada gesto significa e representa idéias e sentimentos, emoções. Sensações.

“No tempo em que o negro chegava/fechado em gaiola/Nasceu no Brasil/Quilombo e quilombola/E todo dia/Negro fugia/ juntando a curriola/De estalo de açoite, de ponta de faca/ e zunido de bala/Negro voltava p’ra argola/ no meio da senzala/E ao som do tambor primitivo/ berimbau, maraca e viola/Negro gritava: abre ala! Vai ter jogo de Angola” Mauro Duarte & Paulo Cesar Pinheiro, Jogo de Angola O jogo da Capoeira é a síntese da dança. A sua essência, disfarçada em brinquedo: vadiação; distração de quem busca extravasar cada função interior nos gestos exteriores. Nessa dança se manifesta a tradição milenar da cultura negra de reverenciar as origens, cada vez que se repetem gestos ancestrais,. renovados: o jogo da Capoeira é um vínculo com antepassados que praticaram os mesmos atos. A habilidade, agilidade e destreza do capoeira estão expressos com astúcia no balanço dos braços, no arremesso oportuno dos pés, no meneio desconcertante do tronco, na harmonia de todo o corpo em gestos circulares que não perdem a continuidade - como se fora um ininterrupto perambular pelo círculo, em estreita ligação com o solo.

A Capoeira consiste numa dança onde o emprego dos movimentos arriscados - dado à circunstância de camuflar possível contenda - envolve os participantes e contagia quem assiste. A natureza dúplice de luta disfarçada em brincadeira dá forma a um jogo de movimentos combinando objetividade e precisão no ataque com defesas velozes, originais, em que o corpo é utilizado no limite dos recursos de elasticidade e flexibilidade muscular, compondo assim uma bela plástica humana em gestos despojados, naturais, numa estranha dança do perigo. É ainda mais a dança da Capoeira: o contato com o chão, intenso como o vínculo dos filhos com a mãe terra,. que envolve e protege, gera e alimenta a vida, acolhendo a dança que é também em seu louvor.

A postura respeitosa dos capoeiras uns com os outros, para com o jogo, o "chão", o berimbau e o atabaque, se explica no propósito maior da dança: unir. Ligar estreitamente, como as mãos que se apertam ao final de cada jogo, na saudação dos camarás.

O jogo da Capoeira é o corpo e a essência de 500 anos de luta de resistência negra, constituindo-se na primeira e original manifestação libertária da cultura brasileira; é o corpo e a força dos ritos que preservam os mitos e os arquétipos da nossa gente. Participando ativamente da resistência comum às variadas formas de dominação física e cultural, desde o seu aparecimento nas terras brasileiras a Capoeira insurge-se em defesa da construção de uma nova identidade coletiva: esse jogo não foi somente um fermento revolucionário; é realmente um instrumento de transformações firmado nas mais antigas raízes culturais do povo brasileiro; instrumento e voz de um povo na luta por um diálogo igualitário, respeitoso e fraterno entre todas as pessoas.

“Dança guerreira/Corpo do negro é de mola Na Capoeira/ Negro embola e desembola/E a dança que era uma festa pro povo da terra/Virou a principal defesa do negro na guerra/Pelo que se chamou libertação/E por toda força, coragem e rebeldia/Louvado será todo dia/Que esse povo cantar e lembrar o jogo de Angola/Da escravidão no Brasil” Nas rodas do jogo a luta da Capoeira é um brinquedo guerreiro, uma diversão entre camaradas unidos na mesma luta, irmãos no combate da cidadania. Quando o jogo degenera em luta explícita, já não ocorre a Capoeira. O objetivo da luta é tornar o capoeira senhor de si mesmo e integrado ao grupo: é no recesso da comunidade que ocorre o aprendizado e a prática do jogo, de forma coletiva e fraterna. E, se às vezes isto não acontece, não se pode falar em Capoeira na plenitude; quando muito em adestramento nos movimentos básicos, de forma desvinculada dos objetivos e fundamentos da arte.

O ponto alto da luta sempre foi resistir: contra o preconceito, a discriminação disfarçada; contra oportunistas e aproveitadores astuciosos que se apropriam dos valores da nossa cultura e tentam adulterá-la, fazendo isto de tal forma que ao negro é mesmo vedado o acesso à manifestação que deram origem. O jogo da Capoeira é a luta de resistência de um povo que sempre reagiu à dominação das elites que detêm o poder: a luta da Capoeira é insubordinação, é subversão, é reação, mais que nunca reafirmando os principal valor do homem: liberdade.

“Capoeira vai lutar/já cantou e já dançou/não pode mais esperar.../Não há mais o que falar/cada um dá o que tem/Capoeira vai lutar.../Vem de longe, não tem pressa/mas tem hora p’ra chegar/ já deixou de lado sonhos/dança, canto e berimbau/abram alas, batam palmas poeira vai levantar/ quem sabe da vida espera dia certo p’ra chegar/ Capoeira não tem pressa/mas na hora vai lutar...” Geraldo Vandré, Hora de Lutar Luta negra. Presente no cotidiano dos morros, terreiros, favelas, praças e ruas. Companheira do trabalho e diversão das feiras e festas, acompanhando o negro em qualquer ambiente social.

ITINERÁRIOS

“Fomos ao rio de Meca/ Pelejamos e roubamos/E muito risco passamos/ e vela./E árvore seca./(...) A renda que apanhais/O melhor que vós podeis,/Nas igrejas não gastais/Aos pobres pouco dais/E não sei o que lhe fazeis.” Gil Vicente, Exortação da Guerra

PORTUGAL, ÁFRICA E BRASIL: A AVENTURA TRANSOCEÂNICA O período histórico onde se situa o descobrimento do Brasil e a conseqüente formação da nossa cultura teve o valioso testemunho dos relatos e narrativas deixadas por escritores portugueses da época.

A literatura lusa - constituída ainda no período medieval - alcançou o apogeu com Gil Vicente, Camões e Fernão Mendes Pinto, justamente na fase em que é completada a expansão do povo português no mundo. O Brasil, portanto, é contemporâneo dessa expansão, nela se inserindo tanto o fato primordial da sua descoberta e colonização, quanto o dos belos trabalhos produzidos pela talentosa literatura portuguesa terem por motivo inspirador os fatos decorrentes da sua descoberta - além da conquista na África.

A língua portuguesa, instrumento dessa literatura e que com ela se aprimorou, deriva do latim popular, que teria chegado à Península Ibérica no século III antes de Cristo.

Na história literária - assim como na história geral - encontramos divisões em épocas ou períodos, compreendendo fases de tempo em evolução cronológica e englobando conjuntos de obras literárias com características comuns. Nesse trabalho, os historiadores da literatura consideram se as obras obedecem aproximadamente à mesma ordem de valores estáticos, ao reuni-las com vistas à exposição histórica.

Segundo o Prof. Fidelino Figueiredo, dividindo a literatura portuguesa em eras, temos as seguintes: medieval (do século XII até 1502), clássica (1502 a 1825) e romântica (de 1825 aos dias atuais).

O período medieval da literatura portuguesa se caracteriza pela poesia, reunida em repositórios coletivos (os Cancioneiros), que são os seguintes: o Cancioneiro Português da Biblioteca Vaticana, o Cancioneiro Português Colocci-Brancuti e o Cancioneiro Português da Ajuda.

Esta fase medieval é geralmente considerada como finda no começo do século XVI - quando é representada a primeira obra teatral de Gil Vicente, o Monólogo do Vaqueiro, em 1502. Começa então o período clássico (já contemporâneo do Brasil), onde a literatura produz obras importantes para a compreensão da gente que realizaria a colonização, evidenciando o seu caráter e a perspectiva em que encaravam a nossa terra.

Na fase clássica encontramos os trabalhos literários que mais diretamente se relacionam à nossa história, abordando as conquistas na África, os costumes de Portugal, as viagens de descobrimento na América e análises e observações importantes acerca da sociedade da época.

Salientamos a importância da consulta às obras de Gil Vicente (1460-1536), fundador do teatro português, autor das farsas Juiz da Beira, Clérigo da Beira, Inês Pereira e Quem tem Farelos; dos autos da Barca da Glória, da Barca do Inferno e da Barca do Purgatório. Gil Vicente distinguiu-se ainda como poeta e cronista de costumes ao retratar a vida portuguesa do seu tempo.

Outro vulto de destaque para a compreensão do que era a gente portuguesa é Luis de Camões (1524-1580), não somente o grande poeta lírico do período clássico mas o mais importante poeta da língua portuguesa, como épico em Os Lusíadas, ou lírico, com as Rimas. Dramaturgo, distinguiu-se com as comédias El-Rei Seleuco, Anfitriões e Filodemo.

Muitos foram os poetas e romancistas deste período, cujo talento não se ofusca ante o infausto brilho das conquistas na África e no Brasil. Destacam-se: Bernardim Ribeiro (1475-1553), poeta e romancista, autor famoso de Menina e Moça; Francisco de Sá Miranda (1495-1558), poeta e teatrólogo: Antonio Ferreira (1528-1559), também poeta e teatrólogo; João de Barros (1496-1570), autor das Décadas da Ásia, prosador e historiador; Damião de Góis (1502-1574), autor da Crônica do Príncipe D. João; Fernão Mendes Pinto (1509-1580) viajante e prosador, autor do relato Peregrinação, de suas viagens ao Oriente; e Diogo do Couto (1542-1616), continuador das Décadas da Ásia, companheiro de Camões em Moçambique, autor do Soldado Prático.

À época, destacaram-se como historiadores mais especificamente do descobrimento e início da colonização do Brasil: Pero de Magalhães Gandavo ( ? - 1576), autor da História da Província de Santa Cruz e do Tratado da Terra do Brasil; Gabriel Soares de Sousa (1540-1592), autor do Tratado Descritivo do Brasil; e Frei Luis de Sousa (1555-1632), autor da Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires.

Dentre os escritores brasileiros, um dos primeiros historiadores foi o Frei Vicente do Salvador (1564-1639), nascido na Bahia, o primeiro a fazer uso da prosa literária em sua História do Brasil, que somente seria publicada em 1889. Segundo o crítico José Veríssimo, ao fazermos a lista dos nossos clássicos, com certeza Frei Vicente do Salvador seria o primeiro.

Estes são alguns dos principais autores e trabalhos que nos permitem uma introdução à história do Brasil e seus problemas, com vistas a formarmos a nossa própria crítica do processo de surgimento da civilização brasileira.

Aos amantes da leitura, fica a sugestão para pesquisa e estudo .AS ORIGENS DA CAPOEIRA

'São dois pra bater no negro/de pau, chicote e facão/p’ra se safar tem o negro/só dois pés e duas mãos/é a mão pelo pé/ é o pé pela mão bate na cara/derruba no chão Sérgio Ricardo, Brincadeira de Angola

As origens do jogo da Capoeira se encontram no princípio da nação brasileira, e seu desenvolvimento acompanhou o relacionamento de negros, brancos e índios no continente americano. A terra descoberta aos olhos do colonizador seria o berço de uma nova cultura - fruto das peculiaridades do ambiente e da forma em que se processavam as relações entre os conquistadores europeus; os ameríndios - primeiros senhores do continente; e os africanos - trazidos à força para realizar todo o trabalho.

No entender do descobridor o novo mundo deveria ser explorado em todos os aspectos, como fonte supridora da necessidade de riquezas fáceis sentida na Europa. E nada mais natural que o emprego do trabalho escravo. De nativos e africanos. Afinal, a nobreza que governava o mundo ocidental gozava do privilégio de ser ociosa. Para as agruras de todos os serviços, somente seres inferiores, aí incluídos todos que não tivessem a pele branca.

A presença dos portugueses na África tem registro desde meados de 1430. Lá, o europeu incentivava astuciosamente as diferenças tribais, fomentando rivalidades entre grupos. Depois, adquiria os prisioneiros feitos por ocasião dos conflitos, negociando com exploradores de toda espécie a aquisição de seres humanos para o trabalho forçado.

A chegada dos colonizadores significava destruição completa para os nativos da África - o provável berço da humanidade, segundo recentes estudos. Os africanos apresados eram obrigados a trabalhar nas plantações canavieiras das ilhas do Atlântico. À época da descoberta do Brasil, Portugal já vivia da exploração de colônias na África, Ásia e no Atlântico. Seu caráter já amolecera na aventura da escravidão. Luis de Camões, que via muito bem com seu único olho, se lamentava de ver sua pátria mergulhada “no gosto da cobiça e na rudeza/de uma austera, apagada e vil tristeza”.

Em 1441, Antão Gonçalves levou a D. Henrique dez negros que trocara por dez mouros colhidos na costa da África. Segundo Azorara, que além de chefe de expedições portuguesas que praticaram massacres nas terras africanas revelou pendores literários, manifestos em crônicas aduladoras, D. Henrique mostrou-se “ledo” ao ver os africanos. Não pelo número, acentuou o cronista, “mas pella sperança dos outros que podya aver”. No ano de 1444 fundou-se a Companhia de Lagos, cuja finalidade era intensificar o tráfico de escravos. No fim do século, Portugal recebia em média 12.000 escravos por ano, provenientes a princípio de Guiné, São Tomé, Príncipe e mais tarde, de Angola, Moçambique e demais regiões africanas. A escravidão tornara-se a mais próspera indústria do país.

O empreendimento desumano cresceu de tal forma que cerca de um século após iniciado, o flamengo Nicolaus Cleynaerts, humanista que se encontrava na corte portuguesa como preceptor dos filhos de D. João III, fez as seguintes observações a respeito do reino ibérico: “Tudo ali pulula de escravos, todos os trabalhos são executados por negros e cativos, dos quais Portugal está tão cheio que, segundo creio, existem em Lisboa mais escravos e escravas dessa espécie do que portugueses livres.” Foi aí que entramos na história. Os interesses econômicos e ideológicos dos portugueses - “a dilatação da Fé e do Império” - segundo Camões -, não estavam voltados exclusivamente para o Oriente fértil das ricas especiarias, sedas, objetos de valor como tapetes, perfumes, produtos medicinais. Vasco da Gama retornara da Índia com um carregamento de pimenta que permitiu lucros de até 6.000%, quando vendido na Europa. Mas no seu Diário de Viagem ele contava ter percebido sinais seguros da existência de terras a oeste de sua rota. A Espanha já tinha descoberto novos mundos na sua tentativa de chegar ao oriente navegando sempre para ocidente. E Portugal já tinha assegurado para si uma parte desse território, com a Capitulação da Partição do Mar Oceano, mais conhecida como Tratado de Tordesilhas, assinado entre as duas potências de então, em 1494.

Não é absurdo supor que Cabral recebera orientação no sentido de afastar-se ao máximo da costa africana, podendo confirmar a existência dessas terras e delas tomar posse. Essa seria outra tarefa de sua expedição. O descobrimento do Brasil é apenas um episódio da expansão marítima européia, no momento da transição do feudalismo para o capitalismo. As práticas mercantilistas e a predominância dos interesses econômicos sobre os aspectos religiosos e ideológicos se refletem até no nome definitivo que a terra ganha, provocando protestos do cronista João de Barros: “Por artes diabólicas se mudava o nome de Santa Cruz, tão pio e devoto, para o de um pau de tingir panos”.

O início da colonização das terras brasileiras se deu sob o reinado de D. João III, conhecido como O Colonizador em razão das expedições que organizou. Em 1530 uma nova esquadra veio para o Brasil sob o comando de Martim Afonso de Sousa, com instruções similares àquelas emitidas aos navegadores que o antecederam: as suas cinco embarcações explorariam o litoral compreendido entre o Maranhão e o Rio da Prata, capturando os contrabandistas encontrados ao longo da Costa do Pau-Brasil. Entretanto, eram mais amplos os objetivos específicos do Capitão: fundamentar a efetiva invasão da terra, implantando núcleos de povoamento dos portugueses. Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso, relata como isso aconteceu, em seu Diário: “A todos nos pareceu tão bem esta terra que o capitão determinou de a povoar, e deu a todos os homens terras para fazerem fazendas: e fez uma vila na ilha de São Vicente e outra nove léguas a dentro pelo sertão, à borda de um rio que se chama Piratininga; e repartiu a gente nestas duas vilas e fez nelas oficinas, e fez tudo em boa obra de justiça.” Em meados de 1532 foi introduzido no Brasil o cultivo da cana-de-açúcar e no seu desenvolvimento os colonos fixaram-se à terra, adquirindo glebas e se instalando com plantações e engenhos. Surgiram as duas primeiras vilas brasileiras no mesmo ano: São Vicente e Piratininga. Desobedecendo às ordens reais as povoações não se localizavam na chamada Costa do Pau-Brasil: revelava-se a prioridade dos portugueses - que era a busca dos metais preciosos. A escolha do local para a fundação das vilas facilitava a procura das minas do Peru e do Paraguai, à época em conquista - a ferro e fogo! - pelos espanhóis chefiados por Francisco Pizarro, que destruiriam o Império Inca.

A sede da riqueza dos metais levou os lusitanos a explorarem o estuário platino, organizando entradas com destino ao interior, saindo de Cananéia e Guanabara. A entrada que partiu de Cananéia foi dizimada pelas populações indígenas da região do atual Paraná, mostrando que a dominação das novas terras não seria uma tarefa fácil.

Quem era a gente portuguesa que se propunha a empreender uma tarefa que não se apresentava como das mais fáceis? Àquela altura, segundo Fernando Palha, Portugal importava tudo, desde o pão que comia até a lã que fiava. Nenhum português queria fazer nada: “A prática bissecular da pilhagem no seu próprio país (os impostos escorchantes), a aventura oceânica e o tráfico negreiro, tudo isso minou a resistência moral do povo, dando-lhe até repugnância pelo trabalho.” Como o Brasil só era habitado por silvícolas, ninguém queria vir para cá - além dos que seriam proprietários das terras. Francisco de Sá Miranda, grande poeta português, mas inegavelmente dominado pela ambição, refere-se ao fascínio das especiarias da Ásia e da África - que o Brasil não tinha - com estas palavras: “ao cheiro desta canela/o reino nos despovoa". Antonio Ferreira, poeta renascentista, retrata bem o espírito da época em Portugal, a ambição do reino pelos metais preciosos: “tudo obedece a este só Tirano/Esta é a idade que chamaram de ouro/Tanto valho, Senhor, quanto entesouro”. Ainda sobre o caráter da nobreza e do povo português ao tempo da descoberta e exploração, fala melhor o holandês Cleynaerts. Diz ele que “se há povo algum dado à preguiça, sem ser o português, então não sei eu onde ele exista (...)”. Esse tal Cleynaerts foi ainda mais direto em suas considerações: “em Portugal somos todos nobres, e tem-se como uma grande desonra exercer uma profissão qualquer”. Outro que também se queixou do caráter dos compatriotas foi Diogo do Couto: “(é) muito antiga esta miséria portuguesa de não saber dar lugar às virtudes nem engrandecer honrosos pensamentos”. Quanto à moral da nobreza - a começar pela família real, que tinha origem bastarda - era a pior possível. Frei Luis de Sousa disse que nela “o vício era posto a cavalo”.

Revela Fernão Lopes que D. Pedro I (de Portugal) confessara um dia a Nuno Freire que alguém lhe dissera ter ele um filho de nome João que subiria muito alto, mas ele próprio não sabia qual fosse, pois tinha vários filhos com o mesmo nome, inclusive um deles com a bela Inês de Castro...

Apesar da ausência de ouro e prata, São Vicente adquire contornos definitivos: a primeira unidade produtora de açúcar - o Engenho do Senhor Governador - foi instalada em 1533. Passado um ano chegam as primeiras cabeças de gado provenientes de Cabo Verde. Logo ficou evidente a insuficiência dos núcleos isolados de povoamento para assegurar o domínio português. A maior extensão do litoral brasileiro continuava à mercê de incursões estrangeiras. É hora de D. João III mais uma vez justificar o cognome de Colonizador: seguindo conselhos de um descendente de colonos das ilhas do Atlântico, Cristóvão Jacques, do reitor da Universidade de Bordéus e de outros destaques da corte, resolve implementar a colonização. A tantos bons conselhos se acrescentou a cobiça, objetivamente: manter o monopólio oriental era muito dispendioso e a notícia da descoberta de ouro e prata na América Espanhola valorizou ainda mais o novo mundo.

A ocupação e colonização do Brasil era um imenso desafio para um reino de dois milhões de habitantes. A saída, como no caso do extrativismo vegetal do Pau-Brasil, foi transferir a particulares os encargos desse empreendimento. Baseando-se nas informações emitidas por Martim Afonso, foi estabelecida a divisão do litoral brasileiro em 14 faixas lineares - as Capitanias Hereditárias. Era a repetição da experiência realizada nas ilhas de Açores, Cabo Verde, Madeira, Porto Santo, São Tomé e Príncipe e no Território de Angola, no continente africano. As capitanias foram entregues a 12 membros da pequena nobreza - os donatários - dependentes do aparelho burocrático do Estado. Alguns nem vieram ao Brasil. O pequeno interesse e a ausência de significação econômica destes aventureiros evidencia que a iniciativa privada não acreditava nas possibilidades da terra.

D. João III procurou incentivar os donatários concedendo-lhes amplos poderes, utilizando a ideologia feudal de prestígio e poder associados a extensos domínios territoriais: cada capitão era um rei.

O embasamento jurídico da ocupação da terra era garantido pela Carta de Doação e pelo Foral. A Carta cedia ao donatário uma propriedade de 10 léguas de terra ao longo da costa, em quatro ou cinco lotes, não sujeita a tributos, com exceção do dízimo. Sobre o território total da capitania, apenas a posse. Havia ainda os privilégios da montagem de engenhos, venda de 24 índios por ano em Portugal, redízima das rendas pertencentes à coroa, vintena do Pau-Brasil e dízima do quinto real sobre metais. O Foral era uma espécie de código tributário, destinando os rendimentos dos produtos da terra ao donatário e os da produção do subsolo, mata e mar, cabendo à Coroa. Era ainda pelo Foral que o donatário concedia sesmarias, que não podia retomar - direito privativo do rei. Estabelecia ainda a liberdade de circulação de mantimentos e munições na capitania, definindo a responsabilidade de defesa da terra ao donatário e colonos.

Algumas das características desse processo de colonização são medievais: extensas faixas territoriais entregues a senhores que dispõem de poder absoluto sobre coisas e pessoas. Mas do feudalismo só tivemos alguns traços na estrutura política e jurídica do sistema das Hereditárias. A base econômica era a produção escravista e exportadora, concentrada no mercado externo. O trabalho nunca foi essencialmente servil nem a produção dominial, fechada. E a estrutura de clãs não era propriamente feudal, parental: limitava-se à existência dos laços familiares nobiliárquicos e do enorme poder militar e político dos senhores de terras e escravos.

Genericamente, por intermédio do sistema de capitanias foram consolidados os objetivos de colonização e posse da terra. É comum a avaliação do pouco progresso da colônia neste período responsabilizando os índios e seus ataques. Ora, a resistência à dominação portuguesa era a simples defesa da terra pelos seus legítimos proprietários. Isso além de disporem os invasores de superioridade militar. O problema maior foi a falta de investimentos e a total ausência de interesse em estabelecer relações fraternas com os índios.

Para coordenar as iniciativas de povoamento - então muito isoladas - D. João III criou o Governo Geral. Era sua função combater tribos rebeldes (de preferência aliando-se a outras), promover entradas à procura de riquezas, fomentar a construção naval (que garantiria a defesa contra ataques externos), incentivar a catequese e organizar os colonos na defesa do território, entre outros. Uma das promoções do primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, foi a vinda de jovens órfãs que iriam constituir famílias católicas com os colonos.

O verdadeiro poder político da época estava nas unidades produtoras em mãos da classe proprietária. E a máquina governamental atendia a seus interesses.

A classe dominante colonial estava voltada para suas fazendas. Seu poder (e prestígio) estava evidente nas câmaras, milícias, no clero. A civilização do mundo da cruz se impunha pelo arcabuz. Autênticos caudilhos, os senhores de escravos e terras, os homens bons é que conferiam vida às câmaras do período colonial, o que perduraria durante a época imperial. O povo não participava da administração nem dispunha de representação.

Foi nascendo um Brasil bem diferente daquele que sequer tinha esse nome. Nascia também uma nova sociedade, de poucos senhores e muitos trabalhadores, a maioria escravos. Surgiram pequenas vilas, grandes plantações, casas grandes das fazendas e fortificações. Os primeiros donos da terra se refugiaram no interior enquanto o litoral era transformado em canaviais.

Isso tudo não acontecia por acaso. A explicação do expansionismo europeu está no mercantilismo e suas práticas: com o desenvolvimento das muitas formas de acumulação de capital, foi acelerada a transição do feudalismo para o capitalismo. A burguesia mercantil portuguesa (com apoio do Estado absolutista) se estabeleceu na Ásia e África, montando feitorias para a guarda do marfim, metais preciosos, especiarias, tecidos de luxo e homens escravizados. O negócio era excelente - para os mercadores, claro. A venda de tudo isso na Europa ou na colônia do novo mundo dava lucros fabulosos... E não precisava produzir nada: apenas fazer circular as mercadorias.

A simples existência de feitorias não se mostrou satisfatória na América. Para que as novas terras se tornassem um negócio ainda mais lucrativo, aumentando a acumulação capitalista, era imperioso produzir. E para isto, intensificar a colonização. A agricultura comercial foi uma das soluções, baseada na produção de gêneros tropicais, conforme as necessidades do mercado externo; o comércio determinando o empreendimento produtivo. A economia central (metropolitana) era complementada pela colônia.

Houve variações nas formas dos esforços colonizadores nas Américas. Nas colônias tropicais de zona temperada se desenvolveram as denominadas colônias de povoamento, recebendo o excedente demográfico da Europa, como algumas colônias inglesas da América do Norte; nos trópicos surgiram as colônias chamadas de exploração, com uma composição social completamente original, como as colônias portuguesas e espanholas na América do Sul. O traço mais original é que a sociedade se baseava no latifúndio, na extensa propriedade agro-exportadora, denominadas plantation ou hacienda. Nesta sociedade há um terrível contraste entre a riqueza dos colonos branco-europeus, mozambos (filhos de portugueses) ou criollos (filhos de espanhóis) se contrapondo à extrema miséria das populações a eles submetidas, nativas ou africanas. Enfim, a peculiaridade de uma sociedade constituída essencialmente para benefício da metrópole.

Para exercitar a dominação política e econômica, o monopólio é fundamental aos interesses da classe proprietária. Segundo o Bispo Azeredo Coutinho, um dos teóricos do colonialismo português do século XVIII, temos o seguinte enunciado para estabelecer as atividades na colônia: ”(...) É necessário que as colônias, de sua parte, sofram: 1) que só possam comerciar diretamente com a metrópole, excluída toda e qualquer outra nação, ainda que lhes faça um comércio mais vantajoso; 2) que não possam ter fábricas, principalmente de algodão, linho e seda, e que sejam obrigados a vestir-se das manufaturas e das indústrias da metrópole. Desta sorte, os justos interesses e as relativas dependências mutuamente serão ligadas.” A exclusividade da metrópole e o total domínio das atividades pelos reinóis, comerciantes portugueses, foi garantida com a criação das Companhias Privilegiadas de Comércio. Limitações foram impostas à imprensa e à circulação de livros. Como em todas as épocas, este tipo de censura visava impedir que idéias novas sugerissem à população que essa exploração não era justa e nem resultava da vontade de Deus... São acrescidos impostos, taxas e proibições, definindo que a função econômica da colônia é suprir o que a metrópole não tem condições de produzir - e não concorrer com ela. O lucro deve ser máximo: outro indicativo de que o modelo escravista é a solução. Contra o trabalho livre, o interesse dos proprietários em impedir que os assalariados, com o tempo, se apropriassem de glebas e desenvolvessem atividades de subsistência - já que havia abundância de terras. Ficava assim impedida (por meio da escravidão) a incômoda presença de trabalhadores livres.

Para as elites dominantes a escravidão no Brasil era duplamente lucrativa: incrementava a circulação da mercadoria humana - possibilitando à burguesia traficante a acumulação de lucros -, e garantia elevados índices de produtividade com mão-de-obra escrava de custo mínimo. Enquanto mercadoria o africano trazia altíssimos lucros para os comerciantes da metrópole - o que não era o caso da escravidão dos indígenas, apenas um "negócio local". Quanto aos lucros na produção, a exploração da força do escravo garantia os recursos para a renovação dos meios de trabalho, assalariamento dos poucos trabalhadores especializados e a continuidade do tráfico. Aliás, a manutenção do tráfico era fundamental, visto que o crescimento vegetativo da população negra era insuficiente para atender à demanda. Essas razões terminaram dominando os religiosos que vieram para o Brasil e não apenas deram cobertura ideológica à escravidão, como a praticaram em larga e proveitosa escala. O padre Vieira, a quem se deve tanta indignação contra a exploração dos índios, colocado certa vez diante do dilema de ficar ao lado dos escravistas do Maranhão ou do lado dos silvícolas, não fugiu à conclusão de que era “fácil conciliar a consciência com o interesse”. Foi assim que tivemos desde o século XVI o Poder Temporal e o Poder Espiritual conciliando a consciência com o interesse, a cruz com o arcabuz, a castidade com o estupro, a fraternidade com a escravidão, o direito com a força.

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